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Nem tão recentemente

Verás que um filho teu não foge à luta*

Eu pensei, de verdade, que durante as férias eu ia conseguir voltar a escrever com calma e mais regularidade. Vejo que subestimei o tamanho do meu cansaço. Eu estava realmente exausta, e bateu aquele vazio, aquela vontade de só dormir e mais nada. Acho mesmo que não cheguei a descansar tudo o que precisava, e diariamente me sinto atropelada pelo ritmo do novo semestre que já começou com toda a corda, enquanto eu ainda me sinto zonza, com sono e com mais de 5 semanas de trabalho atrasado. Eu vejo o futuro repetir o passado e o tempo não pára. Ticking away the moments that make up a dull day… waiting for someone or something to show you the way. Cara, eu preciso sacudir a cabeça, espanar a letargia e me mexer.

Nesse tempo em que eu estive parada, pelo menos algumas coisas boas aconteceram, e uma das melhores, sem dúvida, foi a volta do Idelber e seu Biscoito Fino, que podemos voltar a degustar diariamente. Corre lá que tem muita coisa ótima.

Outro fato que me surpreendeu também foi a repercussão deste post sobre gramática, tema que nem é central no blog, mas que foi alvo de um desabafo meu enquanto corrigia provas dois meses atrás, e que rendeu boas conversas e um debate interessante na caixa de comentários.

Quero voltar a falar dos assuntos parados. Ouvi uma observação um tempo atrás que está correta, e cuja constatação me causa incômodo: eu tenho o mau hábito de iniciar (e anunciar) séries que depois não levo adiante, gerando expectativas e causando alguma frustração nos que gostariam de acompanhar o desenrolar do assunto. As cidades muçulmanas foram as últimas vítimas. Mas vou retomar (eu já ia completando com um “prometo”, mas achei melhor não. Minhas promessas bloguísticas não estão valendo muito na praça). Pra ir reesquentando os motores, eu dou uma sugestão de filme: O que resta do tempo (The time that remains), de Elia Suleiman. Aqui no Rio acho que já saiu de cartaz, mas a gente pode colocar na lista de espera para o dvd. O filme trança a vida do próprio diretor, recuperada através dos diários do pai e de cartas da mãe, com a história de ocupação da Palestina pelo governo israelense nos últimos 60 anos. Só não concordo, no título da resenha do jornal, com chamar de “conflito” uma guerra cruel que já se tornou um verdadeiro massacre.

Além das cidades muçulmanas eu estou devendo falar mais sobre algumas impressões de viagem, no que diz respeito à análise de espaços públicos e projetos urbanos. Enquanto isso, algumas coisas:

- No Centro Cultural do Banco do Brasil aqui no Rio, está em cartaz uma belíssima exposição sobre a viagem capitaneada pelo alemão Langsdorff ao interior do Brasil entre 1821 e 1829. Eu acho fascinante que a gente tenha descoberto tanto do nosso país através dos olhos de tantos estrangeiros que por aqui estiveram, que pintaram as paisagens, as cenas urbanas,  retrataram índios, negros, portugueses, mestiços, recolheram espécimes de plantas e bichos, relataram em seus diários os hábitos, os eventos, as aventuras que viveram. Além das aquarelas bem ao gosto do Enciclopedismo típico da época, há mapas e plantas de cidades, e um texto cuidadoso que fala das circunstâncias da expedição e seus personagens – Rugendas, Taunay, Florence. Até 26 de setembro, entrada franca.

- Outra exposição que estou louca para ver, mas ainda não entrou em cartaz é Mapas invisíveis, que vai estrear na Caixa Cultural (prédio da Caixa Econômica do Rio, no Centro, próximo ao Largo da Carioca) no dia 08 de novembro. Neste link você pode ver em que consiste a proposta, os artistas que participarão, e acompanhar as discussões a respeito.

- No próximo post eu quero comentar a palestra que assisti na UFRJ há poucas semanas, com o Fernando Lara, com o instigante título de “O cimento feroz: considerações sobre Arquiteturas Contemporâneas da América Latina”. Fiz diversas anotações, e alguns aspectos do que ele disse me chamaram muito a atenção, quero dividir com vocês.

- Por fim, um assunto que tanta gente evita, mas que eu acho necessário trazer pra frente da discussão: as nossas próximas eleições. Quem me acompanha aqui ou no GReader, pelos links que partilho, sabe o que penso e as ideias que defendo. O que isso tem a ver com a cidade e com os temas urbanos que procuramos discutir aqui? TUDO. Vocês já se deram conta de que o mesmo termo grego que designa a cidade – POLIS – está na raiz da palavra POLÍTICA? Em que pesem as diferenças históricas e conceituais entre a democracia grega e a democracia contemporânea, a política continua sendo essencialmente a expressão da nossa participação na vida da cidade (ou do país, do mundo) em que vivemos. Todas as nossas ações e decisões nesse sentido são políticas, mesmo – e especialmente danosas – as de não participar (ou achar que não está participando do processo ao dar as costas).

Eu prezo acima de tudo a pluralidade democrática, que nos permite fazer nossas escolhas e manifestá-las livremente. Sobre isso, vou contar uma coisa. Estava em sala de aula esta semana, falando sobre plano diretor e as modificações trazidas pela Constituição de 1988, em seus artigos 182 e 183, que tratam da política de desenvolvimento urbano e enfatizam a função social da propriedade (artigos regulamentados em 2001 pelo Estatuto da Cidade – link em pdf), quando me dei conta de que estavam todos me olhando como se eu falasse do século passado (e pior que eu falava mesmo!). Perguntei e não deu outra: ninguém ali tinha nascido antes disso. Uau!  Em 1988 eu era uma pirralha recém-formada em Comunicação Social, morando no interior do Tocantins, trabalhando como jornalista (péssima jornalista, diga-se, sem nenhuma paixão pela profissão, tanto que larguei), engajada na minha primeira eleição para presidente da República (Collor x Lula, 1989). A maioria dos meus alunos passou a infância na década de 90, enquanto eu tinha filhos e fazia minha segunda faculdade.

Há entre vários desses jovens uma crença disseminada de que não vale a pena se interessar ou participar do processo político porque  os políticos são todos corruptos, ninguém presta, o jogo é sujo e portanto tanto faz, melhor não votar, anular para mostrar minha insatisfação “com tudo isso que está aí”. Este pensamento encerra, pra começar, uma premissa moral de que a política deveria ser um sacerdócio praticado por idealistas isentos de qualquer interesse próprio, seres 100% honestos, abnegados, incorruptíveis. Algum de nós é assim? A política é uma fricção constante, uma negociação por objetivos e estratégias, praticada por atores que agem e também sofrem os resultados de suas ações, que têm interesses, bagagens culturais, históricas, sociais diferentes. E não estou falando só dos detentores de cargos eletivos, mas de todos nós que – ainda que sem perceber – fazemos política o tempo todo. Associações civis, grupos de empresários, comunidade acadêmica, sindicatos e organizações profissionais, cidadãos que constroem e partilham o espaço urbano o tempo todo.

Eu me pergunto: a quem interessa esse discurso e essa prática, de despolitização? Quem se beneficia da apatia política, da desmobilização popular, do clima de não-vale-a-pena? Que bem pode fazer à democracia o meu nariz torcido, o meu desdém, a minha ilusão de que eu não faço parte disso tudo? Quem ocupa a brecha deixada pelos que dão as costas? Qual a alternativa? Sim, porque o lugar do poder e da decisão será sempre ocupado, quer eu goste ou não. E a minha recusa em meter a colher nesse mingau sob a alegação de que é tudo imundo e eu não quero me sujar só abre espaço pra mais daquilo que eu tanto critico. Melhor prestar atenção, acompanhar, cobrar, participar. Pensem nisso antes de ir às urnas em outubro.

Volto já. Mesmo.

* Referência à excelente arte feita sobre a capa da revista Época desta semana, que destaca ameaçadoramente o “passado guerrilheiro” da candidata do PT à presidência, Dilma Roussef.