Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do Fernando Lara, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).
Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade de comunicação imensa. Acaba não sendo uma palestra, mas um papo, gostoso, instrutivo, em que você não sente o tempo passar e fica querendo mais quando termina. Dessa vez, o tema era “O cimento feroz – considerações sobre arquiteturas contemporâneas da América Latina”, assunto que ele vem estudando há bastante tempo e desenvolvendo em seus grupos de pesquisa sobre Arquitetura Latinoamericana Moderna na Universidade do Texas.
Como é um assunto que eu absolutamente não domino, fui lá aprender. E, como boa aluna, tomei notas, que divido agora com vocês. Já comecei me surpreendendo com a frase-provocação que abriu a conversa, que o Fernando nos informou ter sido dita por Paulo Venâncio, professor da EBA (Escola de Belas-Artes), num livro sobre o Burle Marx. Sente só: “o brasileiro só consegue lidar com a paisagem mediada pelo cimento”. Gente, e não é verdade?
Gostei muito dele ter trazido, para começar, uma discussão sobre esse conceito de “América Latina”. O que é isso, afinal, o que quer dizer, o que expressa? Nós temos (ou pelo menos muitos de nós) a tendência a naturalizar certos termos e é preciso um certo esforço para ficarmos atentos aos seus significados, e sobretudo ao entendimento de como, quando e onde esses significados foram propostos e construídos. A idéia de uma América “latina” surge na segunda metade do século XIX, e é uma tentativa francesa de trazer, para seu círculo de influência “latinizante”, uma parte da América que orbitava, em vários aspectos, tanto políticos quanto econômicos, em torno do universo anglo-saxão. A França acenava com nossas raízes latinas, via Portugal e Espanha, para nos suscitar a ideia de uma herança cultural comum, que favorecesse nosso alinhamento aos seus interesses. Eu sei que estou encurtando um assunto que é mais comprido e mais complexo do que isso. O que nos cabe discutir aqui é que esse conceito, ou esse agrupamento não é fruto de uma identidade própria ou auto-reconhecimento, mas sim uma característica, ou conjunto de características que nos é atribuída por outrem (por mais que hoje muita gente tenha se apropriado positivamente dessa identidade), e se a gente pensar bem, é um conceito que já nasce problemático. Em outras palavras, não fomos nós mesmos que nos reconhecemos e designamos assim: “somos latinoamericanos”, mas um outro, europeu, que veio nos dizer: “ei, prestenção, vocês são herdeiros de uma tradição latina, por MEU intermédio, fiquem aqui do meu lado”. E vingou, né? Ou melhor, vingou especialmente a denominação. Não necessariamente o interesse francês.
Mas qual seria esse nosso traço comum, que nos permitiria abrigar-nos todos sob esse “guarda-chuva”? Um recorte simplesmente geopolítico arbitrário, que diz que do México pra baixo é tudo latinoamericano? Mas e as Ilhas Virgens, as Guianas holandesa e inglesa, as outras colônias de povos não-latinos no Caribe? Bom, seria então uma unidade linguística? Não, nesse conjunto de países há falantes de outras línguas também. Seria uma unidade religiosa? Econômica? Há algum dado a priori que permita nos agrupar sob esta classificação? Ele vai desmontando e desnaturalizando o conceito, pra mostrar que qualquer denominador comum que se busque tem seus furos, ou seja, dizer “América Latina” é enfatizar uma construção política e cultural, que serve (ainda hoje) a determinados interesses, para o bem ou para o mal.
Agora, uma coisa que muito me impressionou, das diversas imagens que ele mostrou, fruto da transcrição cartográfica das pesquisas que ele vem fazendo, é como, nas nossas revistas de arquitetura, aparece tão hegemonicamente a produção do hemisfério norte, em detrimento da produção abaixo da linha do Equador! Ele fez um levantamento em diversas revistas, das obras que são mencionadas, apresentadas como significativas da produção arquitetônica contemporânea. E foi marcando com uma bolinha num mapa mundi a localização da tal obra. Tá lá: só dá hemisfério norte! E ele mostrou, com exemplos muito legais, que não é por falta de produção de qualidade do lado de baixo do Equador, mas por falta de valorização e divulgação dessa produção. E isso não é só no Brasil. Segundo o Fernando, falta uma maior comunicação e trocas entre arquitetos e urbanistas – vá lá – latinoamericanos. Nas revistas brasileiras saem artigos e críticas sobre obras brasileiras, européias, norteamericanas, alguma coisa asiática. Nas revistas colombianas saem sobre obras colombianas, européias, norteamericanas, asiáticas. Nas revistas argentinas, a mesma coisa. E assim em todo lado.
A partir daí, ele começou a mostrar arquitetos e arquiteturas desses países nossos vizinhos, e, veja bem, a audiência da palestra era quase toda de professores e estudantes de mestrado e doutorado de arquitetura (e alguns dos meus alunos da graduação que eu chamei também), e é impressionante que tantos nomes que ele citou nós simplesmente nunca tínhamos ouvido falar, ou mal conhecíamos o nome. Entre tantos edifícios e intervenções urbanas de qualidade, um traço comum: o uso maciço do concreto, do tal “cimento feroz”, algumas vezes com rara poesia e leveza.
Vou mencionar apenas alguns (deixei os brasileiros de fora dessa vez, e ele mostrou projetos ótimos também) e fazer vocês irem pesquisar a respeito:
Rafael Iglesia (Argentina), que diz que nós não temos História, mas Geografias, porque estamos sempre fazendo tabula rasa para novos experimentos;
Alberto Kalach (México);
José Maria Saez (Equador);

Acima, à esquerda, uma escada maravilhosa de Iglesia, que não usa um único prego, só encaixe. Ao lado, a Biblioteca Nacional, do Kalach, no México. Abaixo, também do Kalach, a casa que está na página de abertura do seu site
Alejandro Aravena (Chile): gostei muito de um projeto que foi mostrado, de habitação social, batizado de Elemental, que usa alguns blocos-padrão, modulares, intercalados com espaços livres que permitem que cada família construa o restante da unidade conforme suas necessidades (e possibilidades), gerando uma diversidade formal muito rica e interessante.

Casas em Quinta Monroy, no Chile, nessa "metodologia" do Elemental, que permite arranjos posteriores diferentes com maior flexibilidade para os moradores.
Em todos os projetos apresentados, havia uma preocupação de melhoria e valorização do espaço público como estratégia para um melhor exercício da cidadania. E sobretudo, uma enorme confiança na arquitetura, no espaço construído, como elemento impactante nessa transformação. A premissa é de que ao construir creches, escolas, postos de saúde, praças, conjuntos habitacionais de grande qualidade formal e espacial você está, de certa forma, “educando” as novas gerações, oferecendo a possibilidade delas incorporarem novos parâmetros de qualidade, que as tornem mais críticas e exigentes no futuro. Isso é genial.
Eu achei espetacular saber que, na Colômbia, por exemplo, há uma lei que obriga todo projeto em terreno público, com mais de 5000 m2 de área construída, a ser alvo de concurso público. E tá certo. Isso provoca uma profunda renovação na arquitetura local, e contribui de maneira fundamental para a melhoria dos nossos referenciais construtivos. Estimula talentos novos, revigora o ensino, alavanca a pesquisa e o investimento em novas tecnologias, diversifica a paisagem urbana, favorece o controle e a fiscalização dos gastos públicos com as obras. Já pensou isso aqui, no Rio, no Brasil, com as obras da Copa e das Olimpíadas? Com a requalificação da área portuária? Nós só teríamos a ganhar, eu tenho certeza!
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Umas rapidinhas, pra fechar por hoje:
- imperdível o post da Cynthia, no blog Sexismo na política. É pra ser lido e divulgado. Longe de ser uma brincadeira, o teor da malfadada campanha é de um mau gosto grotesco e revela o quanto a violência contra a mulher continua um assunto sério e descuidado no país. E não se trata de uma defesa partidária, nem de falta de humor. É muito mais grave e amplo do que isso.
- ainda sobre política, um aviso importantíssimo: não se esqueçam que, este ano, para poder votar, não basta levar o título de eleitor à seção eleitoral. É OBRIGATÓRIO levar TAMBÉM um DOCUMENTO DE IDENTIDADE, OFICIAL, COM FOTO! Ou seja, são DOIS DOCUMENTOS: o título e a identidade. Serve a carteira de identidade propriamente, passaporte, carteira de trabalho, carteira de habilitação, mas tem que ter foto. Divulgue essa notícia entre todos os seus conhecidos. Não vamos perder votos por causa disso, gente!
(nem vou entrar no mérito do quão “oportuna” é essa lei, e do quanto ela provavelmente vai punir os eleitores mais humildes, que muitas vezes não têm documentação completa, e o pessoal das cidades mais do interior, para quem, talvez, essa informação nem seja suficientemente divulgada. Olho vivo)
- fechando com mais política e cidade: ao escolher seus candidatos, se possível, avalie também a posição deles em relação aos nossos principais temas urbanos: habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, sustentabilidade, educação. De preferência, do ponto de vista da maior inclusão social possível, democratizando o acesso do maior número de pessoas a esses bens e serviços, e que eles tenham mais qualidade, em todos os sentidos.
- agora é pra fechar, mesmo. Por falar em mobilidade e cidadania, não posso deixar de recomendar, também, veementemente, o post da Juliana, sobre a banalização da morte de pedestres por atropelamentos. No mesmo assunto, sempre tem textos interessantíssimos no Apocalipse Motorizado, como esse daqui, do ano passado.
Volto já, até daqui a pouco.


Ana Paula querida,
essas palavras assim escritas e públicas me deixam inchado de orgulho….
mas da próxima espero ter mais tempo para conversar fiado,
um abraço e até breve,
Fernando
Também espero, Fernando. Abração.
Ana, adorei as notas. Vou aproveitá-las para completar as minhas quando eu, finalmente, for organizá-las.
E é sobre o “Elemental” que um dia eu gostaria de conversar com o Fernando.
Só com o Fernando? Pô, eu topo conversar com você!