Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma matéria que li no jornal ontem, e de um vídeo bizarro que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.
Essa coisa toda de Choque de Ordem – da forma como é colocada – sempre me soa tremendamente fascista. Eu fico só lembrando de uma música que eu adoro, dos Titãs (me perdoem os mais novos, mas pra mim, é do tempo em que os Titãs realmente prestavam), chamada Desordem (1987). Um pedacinho da letra aqui, e o vídeo pra vcs assistirem, lembrarem, aprenderem e cantarem.
É seu dever manter a ordem,
É seu dever de cidadão,
Mas o que é criar desordem,
Quem é que diz o que é ou não?
Esses dias, em sala de aula, conversando com os alunos sobre o zoneamento estrito e a funcionalização da cidade proposta pelo movimento modernista (especialmente a Carta de Atenas, no contexto dos CIAM – Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), que dividia as funções da cidade (e portanto sua especialização espacial) em habitação, trabalho, circulação e lazer, falávamos de como a rua, nesse momento de início de século XX, foi demonizada como lugar da desorganização, do tumulto, da sujeira, da promiscuidade. Para estes teóricos, a função primordial da rua era a de circulação. e isso fazia tremendo sentido diante do surgimento do automóvel, instrumento que subverteria as noções de velocidade, de tempo, de mobilidade, de conforto e que – acreditavam muitos – seria em breve, por força da industrialização e do barateamento dos custos em função da produção em massa, acessível a todos. Nunca mais precisaríamos andar a pé.
Eu perguntei aos alunos o que eles achavam especificamente de reduzir a função da rua à circulação, e que outras coisas eles conseguiam lembrar e mencionar com sendo atos que se realizam na rua. Foi uma verdadeira festa. Tanta coisa legal que eles lembraram. E vocês, o que acham da rua?
Os trechos a seguir foram retirados do livro A Revolução Urbana, de Henri Lefebvre. O original foi escrito em 1970, a minha edição é da Editora UFMG, 1999 (pp 29 e 30). Logo no capítulo I, em que ele explica o conceito de sociedade urbana com que trabalha no livro, ele elenca alguns argumentos que foram desenvolvidos a favor da rua e contra a rua, dentro dos variados modelos teóricos e ideológicos do campo do urbanismo. Meu convite a vocês é: tendo como pano de fundo:
a) a sua própria experiência de passagem ou vivência de rua, contando com as dúvidas e inquietações trazidas pelas questões contemporâneas de violência e insegurança;
b) a leitura e reflexão sobre o discurso de ordem urbana embutido em projetos como o Choque de Ordem proposto pela prefeitura do Rio (e quaisquer projetos correlatos em outras cidades que vocês queiram partilhar);
Como vocês vêem, sentem e se posicionam diante dos argumentos levantados neste texto?
“A FAVOR DA RUA:
Não se trata simplesmente de um lugar de passagem e circulação. A invasão dos automóveis e a pressão dessa indústria, isto é, do lobby do automóvel, fazem dele um objeto-piloto, do estacionamento uma obsessão, da circulação um objetivo prioritário, destruidores de toda vida social e urbana. Aproxima-se o dia em que será preciso limitar os direitos e poderes do automóvel, não sem dificuldades e destruições.
A rua? É o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis nos lugares determinados (cafés, teatros, salas diversas). Esses lugares privilegiados animam as ruas e são favorecidos por sua animação, ou então não existem. Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação estipulada e imobilizada. Quando se suprimiu a rua (desde Le Corbusier, nos “novos conjuntos”), viu-se as consequências: a extinção da vida, a redução da “cidade” a dormitório, a aberrante funcionalização da existência. A rua contém as funções negligenciadas por Le Corbusier: a função informativa, a função simbólica, a função lúdica. Nela joga-se, nela aprende-se.
A rua é a desordem? Certamente. Todos os elementos da vida urbana, noutra parte congelados numa ordem imóvel e redundante, liberam-se e afluem às ruas e por elas em direção aos centros; aí se encontram, arrancados de seus lugares fixos. Essa desordem vive. Informa. Surpreende. Além disso, essa desordem constrói uma ordem superior. Os trabalhos de Jane Jacobs mostraram que nos Estados Unidos, a rua (movimentada, frequentada) fornece a única segurança possível contra a violência criminal (roubo, estupro, agressão). Onde quer que a rua desapareça, a criminalidade aumenta, se organiza. Na rua, e por esse espaço, um grupo (a própria cidade) se manifesta, aparece, apropria-se dos lugares, realiza um tempo-espaçȯ apropriado. Uma tal apropriação mostra que o uso e o valor de uso podem dominar a troca e o valor de troca. Quanto ao acontecimento revolucionário, ele geralmente ocorre na rua (em caso de ameaça, a primeira imposição do poder é a interdição à permanência e à reunião na rua). Isso não mostra também que sua desordem engendra uma outra ordem?
O espaço urbano da rua não é o lugar da palavra, o lugar da troca pelas palavras e signos, assim como pelas coisas? Não é o lugar privilegiado no qual se escreve a palavra? Nde ela pôde tornar-se “selvagem” e inscrever-se nos muros, escapando das prescrições e instituições?
POR OUTRO LADO:
Os encontros nas ruas são superficiais. A rua não permite a constituição de um grupo, de um “sujeito”, mas se povoa de um amontoado de seres em busca. O mundo da mercadoria desenvolve-se na rua. A mercadoria que não pôde confinar-se nos lugares especializados, os mercados, praças, invadiu a cidade inteira.
A rua? Uma vitrine, um desfile entre as lojas. A mercadoria, tornada espetáculo (provocante, atraente), transforma as pessoas em espetáculo umas para as outras. Nela, mais que noutros lugares, a troca e o valor de troca prevalecem sobre o uso, até reduzí-lo a um resíduo. De tal modo que a crítica da rua deve ir mais longe: a rua torna-se o lugar privilegiado de uma repressão, possibilitada pelo caráter “real” das relações que aí se constituem, ou seja, ao mesmo tempo débil e alienado-alienante.
A rua converteu-se em rede organizada para/pelo consumo. A velocidade da circulação de pedestres é aí determinada e demarcada pela possibilidade de perceber as vitrines, de comprar os objetos expostos. O tempo torna-se o tempo-mercadoria, a rua o submete ao mesmo sistema, o do rendimento e do lucro. A rua, série de vitrines, exposição de objetos à venda, mostra como a lógica da mercadoria é acompanhada de uma contemplação (passiva) que adquire o aspecto e a importância de uma estética e de uma ética.
É assim que se pode falar de uma “colonização” do espaço urbano, que se efetua na rua pela imagem, pela publicidade, pelo espetáculo de objetos. A uniformização do cenário, visível na modernização das ruas antigas, reserva aos objetos (mercadorias) os efeitos de cores e formas que os tornam atraentes. Trata-se de uma aparência caricata de apropriação e de reapropriação do espaço que o poder autoriza quando permite a realização de eventos nas ruas: carnaval, bailes, festivais folclóricos. Quanto à verdadeira apropriação, a da “manifestação” efetiva, é combatida pelas forças repressivas, que comandam o silêncio e o esquecimento”.
E aí?

Maravilha! O video do homem-estátua, a musica dos Titãs, a Revolução urbana do Lefebvre! Acrescentaria aqui apenas uma idéia que sintetiza aquilo que penso sobre tudo isso: A Democracia é filha da cidade. Foi na cidade e não em outro lugar que o ser humano percebeu que para se tornar mais e melhor ele precisava defender algo além de seus próprios interesses, ou seja, os interesses do grupo ao qual ele pertencia! A isso demos o nome de democracia. Toda vez que se atenta contra a cidade se atenta contra a democracia; toda vez que se atenta contra a democracia se atenta contra a cidade!
Maravilha é ter você comentando por aqui, Cristóvão. Sua relação entre cidade e democracia é perfeita. Abs
Muito bom o post.Sobre a função da rua,e outras coisas mais, tem um livro que você talvez já conheça.É do antropólogo Roberto DaMatta “A Casa e a Rua”.
Se não leu, acho que talvez lhe interesse.bjs.
Conheço de nome, Tereza, mas não li. Me interessa muito, claro, obrigada pela lembrança. Bjs
Muito interessante isto da rua, semana passada mesmo eu sai de casa, para a rua de chienlo havaiana e meia (precisava só pegar uma flor no canteiro) e aquilo foi estranho, pareceu que eu era intima da rua, mais do que eu sou, e fiquei meio triste, hoje me relaciono com a rua com medo dela, um lugar onde não estou segura, e não gosto disso.
Mas quando estou no centro da cidade, parece que é na rua que encontro a condição humana e que me faço mais sensível…
Que lindo e verdadeiro isso que vc disse, Yasmim. Sentir-se íntima da rua (como se ela fosse extensão do seu quintal), ficar triste por hoje ter medo da rua, saber que nossa condição humana se constrói também na rua. Muito bom.
Acho interressante compartilhar observações de Jose Godoy, que junto com o seu post tem me feito refletir mais profundamente sobre o tema:
“A cidade e os livros
Em São Paulo, o fim do cine Belas-Artes gera mobilização na sociedade, que se dá conta do papel simbólico das salas de rua para a cidade, ainda mais quando são orientadas para uma programação menos previsível. No Rio, duas livrarias de rua no bairro do Leblon, fecham as portas quase simultaneamente, a Letras & Expressões, que já havia fechado sua loja em Ipanema, e a Livraria DaConde. Muito além dos modelos de negócio ou das tendências do mercado, o que se discute aqui é a própria configuração das metrópoles, e da relação do cidadão com o espaço público.
A cidade e os livros II
Nos grandes centros urbanos, e São Paulo é nosso modelo mais emblemático, houve uma exagerada transferência da vida coletiva para a vida privada. Dos excessos da vida doméstica e da dependência maciça do automóvel à fantasia de proteção dos grandes centros de compras, a relação do homem com a cidade tornou-se pragmática, utilitária, e, por consequência, pouco afetiva. E onde entram as livrarias, as salas de cinema, os equipamentos culturais neste cenário?
A cidade e os livros III
Como áreas de respiro, balsas de cidadania em meio à tormenta da cidade. E, acima de tudo, como potenciais espaços para o exercício de liberdade. Conscientes ou não, quando atravessamos as portas automáticas dos shoppings centers, estamos comprando um modelo predeterminado de deslocamento e apreensão do entorno. Por mais que o ar condicionado, o perfume e as luzes nos corredores nos ofereçam conforto, é impossível esquecer que estamos ali por um motivo óbvio: consumir. Mesmo que não desejemos e que fantasiemos circular livremente por suas alas sem nenhum interesse específico. Pois essa falta de interesse específico, que nas ruas pode ser transformado em qualquer coisa – até no que nem sequer imaginamos –, é impensável nas cidades inventadas pelas incorporadoras imobiliárias.
A cidade de Baudelaire e Haussmann
Em seu texto clássico sobre Baudelaire, Walter Benjamin trata da flânerie. A atividade de caminhar livremente, sem objetivos. Algo que surge com o desenvolvimento das cidades, e que vai se chocar na transformação dessas em grandes galerias comerciais, como a Paris, após as intervenções do barão Haussmann, revelada em “As flores do mal”. De certo modo, essa cidade que Baudelaire descreve ainda se preserva em lugares que ainda mantêm suas ruas vivas. Na pequena livraria da esquina, reproduzimos de algum modo o encontro arrebatador do poeta com uma passante. Quando descobrimos um livro que nem sequer imaginávamos existir, e o levamos para casa – agora já um passo à frente do poeta francês – para usufruir de nossa incrível descoberta.”
Lindíssimo, Daniel! Em que livro ou fonte estão estas palavras do Godoy?