Foram cinco dias em São Paulo. Eu gastei dois posts longos pra falar do primeiro dia e agora vou escrever mais um pra falar de todo o resto e fazer um apanhado geral das coisas que pensei com essa viagem.
Como eu disse, eu cheguei lá na quarta já de tardinha. Na quinta flanei sozinha pela cidade, conhecendo o Centro e o Bom Retiro. Na sexta, o dia foi das amigas. Acordei mais tarde, encontrei a Flávia pra um café delicioso no Conjunto Nacional, ali na Av. Paulista. Papo atrasado há mais de um ano, ela tinha que voltar ao trabalho e eu ali querendo segurá-la só mais um pouquinho, contar só mais uma novidade, perguntar só mais um detalhe. Toda vez que nos encontramos eu fico com a sensação de que é pouco demais, e de que poderíamos ficar conversando por mais muitas horas, com o mesmo deleite.
Almoço na Aclimação, com mais duas queridas, bem de frente para o parque. Com direito ao melhor bolinho com recheio de creme de limão siciliano e cobertura de chocolate branco que eu jamais comerei na minha vida, de sobremesa, na casa de uma delas logo depois.
Mais tarde, fui dar pitacos arquitetônicos para outra amada que acabou de comprar apartamento, enquanto visitávamos o stand de vendas do prédio e o apartamento decorado que eles colocam lá pra encher os olhos dos clientes. Todos os cômodos com teto (bem) rebaixado de gesso, polvilhado de lâmpadas dicróicas a pouco mais de meio metro da cabeça das pobres criaturas, inclusive no banheiro. Como este apartamento-vitrine é todo climatizado, ar central, fresquinho até no banheiro, parece tudo lindo. Mas se você vai viver num lugar normal, em que isso não é o padrão, essas lampadinhas vão cozinhar os seus miolos. Devagar com o andor. Mas minha amada fez uma compra muito boa. Agora é torcer pro empreendimento ser concluído e entregue no tempo previsto.
De noite, fomos de grupinho para o Zé do Hamburguer, em Perdizes. Vocês não têm noção do tanto que eu gostei. O bar tem decoração temática 100% anos 50. Do piso ao teto, passando por todos os móveis, copos, pratos, talheres, cores e ornamentos. Tem até uma jukebox e uma lambreta verde no meio do salão! A trilha sonora também segue a onda, e eu me fartei de ouvir Elvis Presley, Chucky Berry e Cely Campelo. Comida boa, preço justo, companhia indescritivelmente gostosa e divertida. Meninas, adorei cada minutinho ao lado de vocês, não tenho como agradecer por tantos mimos e atenção.
No sábado, fui para a Av. Paulista ver o MASP e render minha homenagem à Lina Bo Bardi por um projeto tão bacana. Mas minha maior surpresa foi mesmo o Trianon, o parque que fica bem em frente. Aliás, antes, quando eu falava em parque urbano em São Paulo, só me vinha à cabeça o Ibirapuera. Minha ignorância me levava a crer que o Ibira era uma ilha verde no meio do interminável maciço cinzento da cidade. Que surpresa. São Paulo tem uma grande rede de parques urbanos muito bacanas. E, diferentemente de tantos parques aqui no Rio em que a classe média evita transitar, porque são frequentados majoritariamente por desocupados, mendigos e pivetes (é o que escuto, por exemplo, em relação ao Passeio Público e à Praça da República, também conhecida como Campo de Santana, aqui no Centro), os parques paulistanos têm bastante movimento. Pelo menos dos que eu conheci, eu gostei muito. No sábado, ali no Trianon, tinha gente lendo livros e jornais em bancos sob as árvores, correndo ao som de seus ipods, senhoras fazendo tai chi chuan, crianças brincando em parquinhos, casais passeando de mãos dadas.
Dali, voltei ao Centro para percorrer, do início, a famosa e cantada Av. São João. Bom, eu me lembro pelo menos de Ronda, do Paulo Vanzolini, e Sampa, do Caetano Veloso, que citam a longa avenida. Não pude deixar de passar na Galeria do Rock, claro, onde descolei, com enorme surpresa e prazer, o cd dos Beatles ao vivo em Hamburgo, gravado em 1962, no lendário Star Club. Eu tinha isso em vinil no século passado
Pensei em tirar uma foto da placa ali onde cruza a Ipiranga e a Avenida São João, mas achei que era cliché demais e segui adiante. O percurso pela avenida também é um dos roteiros do meu livrinho de viagem, e eu até tencionava caminhar o trajeto todo sugerido no guia, ou ir pelo menos até o Largo de Santa Cecília. Mas pouco antes de chegar ao Arouche o cansaço me venceu e eu resolvi que já tinha visto o bastante. Meia-volta, metrô até o Araçá, ônibus para Pinheiros, e fui encontrar Juju, minha anfitriã e sister, na feira da Praça Benedito Calixto. Eu amo essas feirinhas de antiguidades, fico alucinada com os cristais e porcelanas, babando por tacinhas coloridas de licor que possam incrementar minha fajuta coleção. Mas era tudo caro demais. Apaixonei por um oclinhos de sol, redondo, bem John Lennon. Experimentei, ficou divino, perguntei o preço, disposta a extravagâncias. 180 paus. Desapaixonei imediatamente e fui fuxicar as quinquilharias de outras barracas. Máquinas velhas, bonecas encardidas, carrinhos de quando meu avô era criança, revistinhas, puxadores de gaveta de cerâmica esmaltada, LPs de Dalva de Oliveira, espelhinhos de penteadeira com cabo em madrepérola, aldravas de ferro fundido, camafeus, caçarolas de cobre. De um tudo, como se diz por aí. Quase surtei.
Sob um toldo armado no meio da praça, um grupo tocava os clássicos do chorinho. Delicado, Odeon, Pedacinho do Céu. Isso só enquanto eu tomava uma água de côco numa barraquinha ao lado. Rebatemos a água de côco com uma cerveja bem gelada no barzinho em frente, enquanto esperávamos a chuva passar, Juju e eu, rindo, contando planos, falando bobagens e seriedades, como só se faz com pessoas a quem se ama.
Minha visita terminou no domingo. Passeio pela Liberdade de manhã, de novo com as amigas mais queridas que se pode ter, bem no dia em que os chineses comemoravam o Ano Novo, sob o signo do Coelho. Gente demais da conta, um calor de fritar ovo no asfalto, mas a festa estava tão linda e colorida que eu adorei assim mesmo. Almoçamos num restaurante chinês, e se eu não visse eu não acreditava: o chef produzindo fios perfeitos de macarrão, ali na minha frente (a cozinha é aberta, você pode olhar tudo por um painel de vidro), só esticando e dobrando a massa, sem um corte, sem uso de nenhum instrumento. Uau!
Ficou faltando tanta coisa. Eu não comi pastel no japa, nem sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. Não vi o Museu do Futebol, a Faculdade de Arquitetura da USP, a Sala São Paulo, a Estação Júlio Prestes. Não fui ao Brás, à Mooca, à Lapa, não visitei Santa Ifigênia. Não passeei nos Jardins, nem mesmo para conferir o desenho urbano calcado no princípio das cidades jardins de Ebenezer Howard. Não fiz compras na Oscar Freire, e tanto minha conta bancária quanto meu marido suspiram aliviados com isso, aleluia! Não visitei a Fal, olha o pecado maior (mas só porque ela não estava na cidade). Ótimo. Assim, tenho pretextos a rodo para voltar.
Cheguei com olhar de carioca, saí com um monte de reflexões e descobertas. Que eu sou apaixonada pela vida urbana, pela diferença e pela diversidade já é sabido. Sou fascinada por este construto social e cultural tão complexo que são as cidades. Essa forma que nós, humanos, há milênios, encontramos de nos organizar espacialmente, economicamente, politicamente.
Ficou muito claro para mim, muito mais óbvio que em qualquer outra ocasião, que para apreciar uma cidade, é preciso de certa forma se despir das outras cidades que nos habitam. Fala-se tanto (com exagero demais, pro meu gosto) das rivalidades entre paulistas e cariocas, cada um defendendo, entre outras coisas, as vantagens de sua cidade e de seu jeito de ser urbano. Acontece que não dá para ir a São Paulo tendo o Rio como parâmetro e vice-versa. São identidades e trajetórias históricas diferentes, suportes físicos diferentes, que geram espaços, paisagens e vivências urbanas diferentes. Se você vai esperando encontrar o Rio, comparar com o Rio, a frustração é grande. Mas se você vai aberto para o novo, é uma cidade fantástica, cheia de oportunidades, uma síntese do Brasil e do mundo. São Paulo é a nossa Nova York, eu acho. Gentes de todos os lugares, línguas e cores. Camadas de história sobrepostas, justapostas, expostas.
O Brasil colônia está lá, o Brasil bandeirante, indígena. O Brasil do açúcar, do negro. O Brasil do café, dos barões, da ferrovia. O Brasil da indústria, do imigrante. O Brasil digital. O Brasil da elite rica e às vezes arrogante, dos negócios e investimentos, da cultura e da gastronomia, da vanguarda intelectual, e também o Brasil de todos os brasis, da periferia, do futebol, do hip hop, dos “mano” e dos “truta”. Os Jardins e a Cracolândia. A Oscar Freire e a 25 de março. Os arranha-céus e os parques lindíssimos, bucólicos, deliciosos. Um Brasil de trabalhadores das mais diversas origens. Em São Paulo, os paulistas são gaúchos, cariocas, paraibanos, mato-grossenses. E são também italianos, judeus, armênios, sírios, coreanos, bolivianos, turcos, japoneses. São até paulistanos, veja só.
Agora que eu cheguei por aqui é que eu tudo entendi. Rondar a cidade revela que, por trás da dura poesia concreta das esquinas, a lira é paulistana.








oi ana,
andei por cada canto da cidade junto contigo. sacanagem vc ter ido ao bairro da liberdade e ter comido num chinês?? rs, brincadeirinha, se bem que os japas estão saindo de lá e indo pra saúde, aclimação…esqueceu do museu do ipiranga? fiz matérias de museologia lá e vale a visita. Já que vc falou da feirinha da benedito, da próxima vez vá na minha cidade do coração embu das artes, lá tem uma feirinha de artesanato tudo de bom, acho que fica pertinho da sua amiga fal;
beijinhos
Madoka, a filhinha de uma amiga, que estava conosco, queria ir no chinês! E foi legal ter visto o cara “fazendo” o macarrão ao vivo. Mas eu sou louca por comida japonesa. Já está tudo combinado pra eu ir a Embu da próxima vez! bjs
“sou apaixonada pela vida urbana, pela diferença e pela diversidade” é a minha cara. embora urbanismo nunca seria/será a minha escolha.
“para apreciar uma cidade, é preciso de certa forma se despir das outras cidades que nos habitam.” é isto.
Tudo o que é bom e bacana é a sua cara, clau!
Amém
Delícia de texto, flor! Ainda bem que São Paulo é gigante e você terá que voltar muitas e muitas vezes pra concluir o tour…sorte a nossa que teremos sua deliciosa presença!
Beijo estalado
Mesmo que eu já tivesse visto cada rua e cada casa de são paulo, eu voltaria muitas e muitas vezes só pra te ver. Bjs
NáPaula,
quando você vier novamente, eu te levo em Embu das Artes, cidade que a Madoka sugeriu.
Promessa é dívida, cobrarei!
Biiiiiiiiiiiiiichoooooo….
Ler esse blogue é um prazer inerrarrável…
Ainda tô babando de inveja/admiração/prazer…
Hahahahaha!
Fui conhecer o Rio de Janeiro, e não sabia q esperar, e chegar sem esperar nada, me fez conhecer uma cidade maravilhosa também… Entendo pq os cariocas gostam tanto das suas cidades, e o mesmo para os paulistas…
=) Foi muito legal ler o q escreveu sobre Sampa, dá vontade de andar mais com este olha investigativo..
Que bom, Yasmin, a ideia era essa mesmo.
Oi, descobri seu blog ontem, muito legal!
“Ficou muito claro para mim, muito mais óbvio que em qualquer outra ocasião, que para apreciar uma cidade, é preciso de certa forma se despir das outras cidades que nos habitam” É impressionante como isso muda tudo.
ou baiana, do interior da Bahia. Onde não tem praia, mas é pertinho de Ilhéus, Itacaré e outros paraísos. Sempre quis mudar de cidade, até acabar vindo pra SP ano passado, passei 4 meses e voltei pra Bahia, tinha um preconceito com o frio, com o engarrafamento.
Esse ano resolvi voltar pra cá, com a mente aberta pra me encontrar nessa cidade, que tem opções pra todo tipo de público, loucura, gosto. E realmente, é um lugar incrível.
Estou fazendo cursinho pra prestar pra arquitetura. Queria, se possível, saber se o curso da UFRJ é bom e quais livros você indica pra quem tá iniciando.
Marina, desculpe a demora em te responder. Espero que vc ainda tenha a paciência de voltar pra ler isso aqui. Eu acho o curso da UFRJ excelente, em que pesem todos os problemas que, sabemos, atingem as universidades públicas do país, ele congrega excelentes profissionais, linhas de pesquisa pra todos os gostos, conta com aprovação em todas as instâncias do MEC e está certamente entre os melhores do país. Quanto a livros, pode ir com calma. Se a faculdade para a qual vc vai prestar concurso exige Teste de Habilidade Específica, concentre-se nisso, além das matérias do vestibular mesmo. Assim que você passar, volte e a gente conversa mais sobre bibliografia. Bjs, boa sorte!
Parabéns pelo belo texto!´Sou paulistano, amo aqui, mas concordo contigo: sem preconceitos e expectativas exageradas, sempre podemos descobrir novas “cidades maravilhosas”
Obrigada, Pedro! São Paulo realmente me conquistou.
Sempre leio os seus posts, estão ótimos:)
Hoje estava lendo Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman e lembrei-me de você.Pensei que, se ainda não leu, talvez gostase de ler.
Beijos.
Oi, Terezinha, saudades de você por aqui! Esse livro é um dos poucos que eu realmente não li ainda. Mas tenho, está na minha fila! Você está gostando?
ana, ai, ana, é tão bom viajar com voce! beijos
Se você soubesse que meu sonho é viajar com você um dia!