Se eu ficar esperando ter tempo para escrever alguma coisa que preste, vocês só vão me ver de novo daqui a quatro anos. Ou algo assim. Então vou dizer oi só pra espanar o pó.
O semestre começou fervendo. Para conciliar minha carga horária como professora substituta e as disciplinas que preciso cursar no doutorado, minha grade ficou pulverizada e picadinha, então eu acabo indo à universidade todos os dias da semana, às vezes para uma única aula. Mas como é longe e o transporte é ruim, isso me gasta metade do dia, em qualquer circunstância. E os horários não ajudam, quase sempre logo antes ou logo depois do almoço. Mas não vim aqui pra reclamar. Tou adorando tudo, cansada mas empolgada. E gripadíssima nas últimas duas semanas, agora melhorou. Resfriado só, garganta e tal, nada de dengue, amém.
Hoje eu li com carinho e uma ponta de preocupação uma querida, no Facebook, me fazendo um elogio pra lá de generoso, como se eu fosse modelo pra alguma coisa. O carinho é porque me enternece que alguém me veja com olhos tão gentis, a preocupação é porque a vaidade é um bicho sutil e ardiloso, e é preciso estar vigilante o tempo todo pra não se deixar seduzir pelo espelho narcísico. Eu me confesso vulnerável a esse desagradável defeito, e por isso me lembro de vez em quando (e advirto quem quiser saber) de minhas falhas. Se alguém tem a mínima ilusão a meu respeito, saiba que eu peno horrores pra me manter minimamente em dia com os assuntos que me interessam e pago o preço de deixar montes de pedaços de vida perdidos no caminho. Disperso-me com facilidade, atiro pra um monte de lados e perco o foco em coisas que deviam exigir a minha atenção mais concentrada. Pode até parecer diferente, mas não dou conta de ler nem 1/10 do que eu gostaria (mas nisso, vamos combinar, quem dá?). Protelo, procrastino, perco prazos, prometo coisas que não dou conta de cumprir, faço outras tantas numa qualidade medíocre que deixa a desejar e depois me irrito. Sou ansiosa, impaciente, crítica, sou menos controladora hoje do que já fui, mas ainda tenho dificuldades em lidar com falhas, sobretudo as minhas próprias. Em minha defesa (ou não), acrescento que finjo muito bem e passo a maior pinta de quem dá conta do recado.
Assumo também que, com o tempo, deixei de incensar outros ícones, e passei a compreender que mesmo as pessoas que eu mais admiro, aquelas em quem me espelho profissionalmente, aquelas por quem eu suspiro e digo “puxa, eu queria ser como fulano/a”, são tão humanas e falhas quanto eu. Entender isso dá um alívio enorme e você pára de correr atrás de uma perfeição inexistente. Não há glamour na minha profissão, não sei se há em alguma. Há trabalho, há esforço, há dedicação e estudo, há até talento, mas também há medos, dúvidas, vaidades, invejas. Falhas. Como em tudo e em todos nesta vida.
Isso me faz lembrar que eu estava pensando uma coisa esses dias. Uma dessas alegorias nada ortodoxas que me vêm à mente depois de alguma aula, ou meio do nada, pensando sobre as cidades. Não é à toa que esse tema da cidade ideal, da possibilidade de organização da cidade, dos modelos, sempre me interessou tanto. E volta à tona em algumas das aulas que eu dou. Você fala de Renascimento, estão lá os tratadistas, as cidades ideais (alguém pensou n’A Utopia, de Thomas Morus?); fala de século XIX, das mazelas da vida urbana durante a Revolução Industrial e estão lá os pensadores utópicos, todos propondo modelos, soluções, medidas tanto mais rígidas quanto mais caótica é a percepção que eles têm da cidade e suas transformações. Estamos no século XXI e muita gente ainda espera o plano mágico, saído da cartola, que vai resolver todos os problemas urbanos e arrumar a cidade de uma vez por todas. Eu repito incontáveis vezes todos os semestres, para espanto e decepção de alguns alunos, que isso é impossível, esperar por isso é garantia de frustração. É preciso se conscientizar que tudo muda, o tempo todo, nada permanece. Tudo é dinâmico, está em movimento.
E foi aí, que estava eu
caraminholando e me veio a imagem de uma menina de cabelos longos e revoltos, uma menina sapeca, agitada, que não pára quieta. Imagina que você pretenda pentear os cabelos dessa menina, fazer uma trança bonita, dar ordem no desmazelo daquela cara afogueada. Teoricamente (eu disse teoricamente) você conseguiria até fazer sossegar essa menina por alguns minutos e arrumar o penteado. Não acredito que dure, mas vá lá que por tempo suficiente para tirar uma foto.
Uma cidade é uma menina assim. Arisca. Mas que não adianta porque ela não parará nem sequer por um segundo para que você a penteie. É preciso amá-la enquanto ela se mexe. Às vezes desgrenhada, às vezes de vestido novo que se suja em seguida. Melhor ainda: amá-la exatamente por conta disso, dessa sua capacidade inesgotável de se transmutar, de envelhecer, de renascer, de ser muitas faces numa só.
Uma professora de uma das minhas matérias no doutorado estava dizendo isso semana retrasada: a gente trabalha com um objeto – a cidade – que não fica quieto para ser observado. Daí você constrói as suas análises e teses sobre algo e quando você termina de escrever, esse algo já é diferente do que era quando você começou. E o trabalho acadêmico, a reflexão intelectual, tantas vezes não consegue acompanhar o ritmo. Outras linguagens talvez. Por isso meu fascínio pela música, pelo cinema, pela literatura, mais ágeis e flexíveis pra representar essa mutação constante.
Mais descomposta que a menina dessa minha história, eu me recolho por hoje. O sono é repouso mas também é movimento. E eu levanto amanhã junto com a cidade para mais um dia de trabalho e de “despenteio”.

Esse texto está tão bonito, tão bonito!
Estou sem palavras!(E isso, como você sabe, é um evento raríssimo
Beijos!
Professora, o texto ficou muitíssimo bem escrito. Já comentei com você que dá pra ganhar um dinheiro besta com seu site, então quando a sra. estiver afim, basta dizer, enviar um email, etc.
Adoro seu blog, de verdade. Sou inscrita nos Feeds pra não perder nenhum post!
Vocês me deixam encabulada, sério.
Não é só a Cidade que é uma menina sapeca.
Onde está mesmo o post que estaria aqui hoje de manhã?
Tá! tudo bem, a noite de ontem teve uma agenda social intensa… mas…
eheheheheheh
Tá, eu atrasei, mas acabei de postar, tá bom?
Ei Ana, faz um tempinho que não venho aqui, em meio ao meu “despenteio” diário, não encontrava tempo pra te ler.
Enfim, de volta, recebo esse tão bem escrito e sincero post.
É… me traz muitas coisas boas esse teu blog.
Forte abraço!!!
Oi, Gutemberg, eu estava sentindo sua falta por aqui!
Abração!