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Nem tão recentemente

Obeliscos

O obelisco da 9 de Julio, em Buenos Aires

Enquanto eu não volto com mais Mestre Valentim, partilho com vocês este texto, fruto de dois e-mails que escrevi, em épocas diferentes, para pessoas diferentes, por acaso em torno do mesmo tema: a função dos obeliscos nas cidades. Em 2007, uma amiga foi a Buenos Aires, adorou, mas na volta falou o seguinte:  “Agora, uma coisa que eu não consigo achar graça é o tal do Obelisco da Avenida 9 de Julio. E daí? Uma avenidona enorme, muito larga, tá bom. Cadê a beleza disso?”

Depois, em 2009, outras amigas foram a Paris e eu não lembro se elas me pediram para falar a respeito ou se eu, enxerida, meti o bedelho por conta própria, morrendo de inveja por não poder ir junto. Começando por Buenos Aires, eu propus contextualizar a criação da própria avenida, antes de falar sobre o monumento.

A Av. 9 de Julio, cujo traçado já era estudado, como eixo Norte-Sul para a cidade, desde o final do século XIX, começou a ser aberta em 1937, e levou cerca de 40 anos até se completar toda a sua extensão, que eu procurei na internet, mas não descobri de quantos quilômetros é. Tive preguiça de pegar um mapa em escala e medir. Se alguém tiver essa informação, com a fonte, eu agradeço.

À esquerda e no meio, a localização da 9 de Julio em Buenos Aires. À direita, a Av. Presidente Vargas, no Rio.

É uma época de abertura de grandes avenidas, no mundo todo, pelo menos no mundo que ainda não tinha feito isso no século XIX, tipo Paris. A nossa Av. Presidente Vargas (aqui no centro do Rio de Janeiro) é de 1945, por exemplo, e tem os mesmos propósitos funcionais/simbólicos. Grandes avenidas se prestam a exibir poder, ordem, glória; abrem canais de ventilação e iluminação em cidades excessivamente adensadas, disciplinam e otimizam fluxos, além de escoar o tráfego. E neste momento (décadas de 30 e 40), o urbanismo Modernista ainda dá as cartas, com sua aposta na primazia do automóvel (crise do petróleo? Naquela época isso merecia risadas incrédulas), baseada na crença de que a indústria e sua fabricação em massa barateariam os custos e tornariam o automóvel acessível e necessário a todos. Bom, junta tudo isso, e abriu-se a 9 de Julio. São 130 metros de largura. Pra vocês terem uma medida de comparação, de novo, a Av. Presidente Vargas tem 80 metros, chegando a 90 em alguns poucos trechos, no finalzinho. Em São Paulo eu não saberia mencionar uma comparação adequada. Mas sei que a 9 de Julio é considerada, segundo diversas fontes, a mais larga do mundo, deixando seguramente a Champs Elysées parisiense no chinelo. E está sempre lotada de carros e engarrafada, que coisa!

Fonte: livro "Imágenes de Buenos Aires 1915-1940". Ediciones de la Antorcha, 2006.

Eu vi um site que eu queria deixar como sugestão, mas depois que fechei, não consigo mais lembrar como cheguei ali, e perdi a referência. Mas aqui tem umas informações interessantes sobre esta avenida. Quanto ao obelisco, oras, tem também suas explicações. Um obelisco é um monumento, normalmente em pedra (os mais moderninhos já o fazem de concreto, e já vi até obeliscos estilosos em aço, mas vamos nos ater aos clássicos), esguio e alto, erguido por (ou em homenagem a) grandes reis ou líderes militares, servindo tradicionalmente para celebrar uma vitória em batalha, uma conquista importante, ou a glória do soberano. Os homens (sim, é evidentemente um monumento bem carregado de simbologia masculina, bem fálico mesmo) erguem elementos marcantes para comemorar suas vitórias ou realizar rituais místicos desde tempos imemoriais, pré-históricos.

Menir em Portugal

Muito antes dos obeliscos, já havia os menires de pedra, menos sofisticados e de razões supostamente mais esotéricas que militares, mas ainda assim impressionantes. Eram pedras imensas, altas, mas bem irregulares, brutas, cravadas no solo. Aquelas pedras em Stonehenge (Inglaterra) são como menires. Mais tarde, alguns desses monumentos passaram a se sofisticar mais e se tornaram mais associados com essa coisa da batalha mesmo, perdendo a conexão com o divino. Passaram a ser blocos de pedra mais altos, mais trabalhados, com as faces geometricamente talhadas, recebendo inscrições que narram as glórias da guerra, desenhos e entalhes, alto-relevos, enfim, tinham também uma função didática, porque impunham respeito e temor, ao descrever o poder do líder e do império, os suplícios dos perdedores, as marchas vitoriosas do exército. Eram cravados em algum espaço importante da cidade, para que todos pudessem contemplá-lo. Eram uma espécie de jornal, de panfleto, eram em si mesmos uma narrativa histórica.

Os egípcios e os romanos foram mestres no uso de obeliscos, e alguns deles mais tarde foram roubados pelos novos conquistadores e trasladados para lugares como Paris (por Napoleão, claro), Roma, Londres, como um troféu. Bem mais tarde, no Renascimento e principalmente durante o Barroco, a partir do século XVII, os urbanistas se deram conta de que aqueles marcos verticais tão imponentes serviam como elementos estéticos e compositivos espetaculares nas novas ordenações urbanísticas. Eles servem, por exemplo, como ponto focal, ao final do eixo de perspectiva formado por uma longa, reta e larga avenida, ou para enfatizar a simetria de uma imensa fachada.

Os obeliscos de Paris e do Vaticano, respectivamente.

Como exemplo do primeiro caso, temos o obelisco do templo de Luxor, que Napoleão trouxe do Egito e posicionou na Champs Elisées, na Place de la Concorde (no outro extremo da avenida, em relação ao Arco do Triunfo). No segundo caso, temos o obelisco, também egípcio, trazido para Roma por Calígula, no século I, para ostentar a sua própria glória no centro do Circo que levava seu nome. No século XVI, quando o circo já não existia mais e a Basílica de São Pedro, no Vaticano, começou a ser construída no lugar da milenar Basílica de Constantino, o obelisco de Calígula não estava na posição em que está hoje. Ficava ao lado da nova basílica e, pelos princípios barrocos, atrapalhava o eixo da perspectiva, desviando o olhar de quem se postasse diante da fachada em construção. O papa da ocasião, Sisto V, incomodado esteticamente, com toda a razão, cismou em remover o monolito do lugar e trazê-lo para o centro da praça, onde ele direcionaria a visada para a o eixo certo, valorizando a praça e a igreja. Foi uma empreitada de engenharia supercomplexa, com uma história genial!

Fonte: SCOTTI, R.A. Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano. RJ: Nova Fronteira, 2007. p.80

Em 1586, tendo se dado conta de que o obelisco estava deslocado, e sua imponência era tal que desviava o olhar do que deveria ser o centro da composição, o papa ordenou que ele fosse removido e reposicionado. Como ninguém achasse que isso era possível, Sisto V fez um concurso público, vencido pelo engenheiro e arquiteto Domenico Fontana, que pôs o obelisco na sua posição atual, a partir de estudos históricos de como os próprios egípcios tinham transportado o bloco de pedra pelo Nilo, quase 3 mil anos antes, e de cálculos precisos que envolviam o uso de macacos hidráulicos, alavancas e polias. Esta história está contada, em detalhes deliciosos, no livro Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano, de R. A. Scotti, publicado pela Editora Nova Fronteira.

A planta final e a perspectiva da Basílica e Praça de São Pedro, com o obelisco reposicionado.

Se você pensar bem, um obelisco tem mesmo esse poder de atrair o olhar, e quando bem usado, ele pode ajudar a equilibrar uma composição muito horizontal, dar proporção e senso de profundidade a uma visada muita ampla. É o caso do enorme obelisco da Av. 9 de Julio, em Buenos Aires. Pena que mais modernamente, o pessoal – que ouviu o galo cantar, mas não sabe bem onde – tem usado levianamente desse recurso, que não serve pra celebrar mais nada, e muitas vezes é projetado sem manter proporção com porcaria nenhuma, só para a glória duvidosa de algum político chinfrim ou para a vaidade de algum arquiteto que “se acha”. Preciso dar exemplos? Cada um aqui dá conta de lembrar de mais de um, se duvidar.

Tá bom, não dá pra comparar o obelisco da Praça de São Pedro com o da 9 de Julio, mas é pra dizer que são marcos verticais que ajudam a dar proporção, senso de profundidade e orientar a perspectiva. Como elementos verticais de destaque na paisagem servem de referência e ajudam as pessoas a se situarem. Isso, claro, num momento em que as construções ainda não eram tão altas a ponto de achatarem os ditos cujos. A largura da 9 de Julio ajuda muito a que o obelisco ainda se destaque, a despeito dos prédios construídos ao redor.

O obelisco da Av. Rio Branco. Fonte: Google Streetview

No final da Av. Rio Branco (Centro do Rio) também há um obelisco e uma vez eu comentei isso com meu marido. Ele, que passa ali desde sempre, perguntou, incrédulo: Tem? Nunca vi… Claro, o obelisco era perfeitamente visível na abertura da Avenida, quando todos os prédios em volta tinham a altura da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes, do Teatro Municipal. Depois que os arranha-céus foram construídos indiscriminadamente (e criminosamente, também, na minha modesta opinião), a avenida ficou com uma cara apertadinha e o obelisco ficou com a escala ridícula de um palitinho de fósforos. É tudo uma questão de proporção, e não é da proporção do lucro que eu estou falando, mas isso é outra história.

Buenos Aires tem coisas muito mais interessantes e legais que o obelisco da 9 de Julio, mas se algum dia um de vocês for visitar a bela capital argentina, não deixe de considerá-lo como um marco na paisagem da cidade, na história urbanística local e como um testemunho de um modo de pensar e construir a cidade.

PS: Eu não sei como, mas as fontes se desconfiguraram aqui e eu não consegui arrumar de jeito nenhum.

Update: como vocês podem ver, as fontes foram arrumadas. Oba!

2 comentários para Obeliscos

  • Helion

    Olá, Ana Paula, ótimo o seu texto, e eu também sou um interessado nesses monumentos urbanos e na sua função simbólica no “ordenamento dos olhares” na cidade.

    Tem uma informação interessante que me chegou, e talvez você pudesse confirmar: a de que Roma é a cidade com o maior número de obeliscos no mundo, por conta da dominação do Império no Egito, que trouxe muitos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_obeliscos_de_Roma). Mais tarde, a reforma urbana de Sisto V os utilizou para balizar eixos de interesse na cidade, principalmente orientando as principais rotas de deslocamento de peregrinos pelo espaço de Roma.

    As antigas colunas romanas (Marco Aurélio, Trajano), que já tinham função “triunfalistica” como os obeliscos, também foram utilizadas no ordenamento de eixos urbanísticos (embora ressignificadas com elementos cristãos). Da mesma maneira em Paris e Londres (Praça Vendome, praça Trafalgar), agora como expressão de comemoração em vitórias militares.

    Trazendo para o nosso pequeno (relativamente) obelisco no fim da Rio Branco, ele “fechava” a grande reforma de Passos, e a sua simbologia de vitória também ficou clara quando, na revolução de 30, os gaúchos de Vargas amarraram seus cavalos nele…

    Enfim, parabéns pelo blog e um abraço.

    Oi, Helion, essa de Roma ser a cidade com maior número de obeliscos no mundo eu não sei, mas não me surpreenderia. Muito boa a sua lembrança sobre as colunas, eu tinha me esquecido de mencioná-las.
    Sobre o obelisco da Rio Branco, eu tenho uma foto linda dele bem próximo da amurada, num dia de ressaca, com a água do mar respingando sobre a extremidade da Rio Branco. E, procurando imagens para ilustrar o post, eu vi essa dos gaúchos amarrando seus cavalos, quase coloquei aqui. :)
    Adorei sua visita, muito obrigada. Abraço grande!

  • Belíssima aula de obeliscos :)

    Em Natal, no popular bairro da Cidade da Esperança, existe um pequeno obelisco que foi apelidado de “língua de Cortez”, em “homenagem” ao formato e ao governador que o construiu. Eu me lembro, quando criança – com meus 9 ou 10 anos – e comecei a viajar pelo mundo (ou seja, ir até João Pessoa), que minha diversão era encontrar outras línguas de Cortez nas cidades por onde passávamos. Claro, como Natal era a minha referência de Universo, as outras eram todas cópias ;-) .

    P.S.: não consegui encontrar uma foto na internet para a língua de Cortez! Fico devendo essa. Mas aí vai uma crônica: http://cidade.esperanca.zip.net/arch2009-12-27_2010-01-02.html

    Patrick, que delícia de crônica! Fiquei sorrindo imaginando a cara de pau do governador, prometendo calçar as ruas com a pedra que lhe foi atirada! E que descrição vívida de como a apropriação afetiva dos moradores vale mais para a preservação dos monumentos do que qualquer instrumento legal de tombamento. Claro que a Língua de Cortez é um monumento. De importância local talvez, mas vivo na história e na cultura de um grupo, e isso é mais importante do que certos marcos autoritários que às vezes nos são impostos. Quando eu for a Natal, vou querer ver isso. :)

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