<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Urbanamente &#187; Cidades Literárias</title>
	<atom:link href="http://www.urbanamente.net/blog/cat/cidades-literarias/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.urbanamente.net/blog</link>
	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
	<lastBuildDate>Sun, 14 Aug 2011 17:53:16 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.3.1</generator>
		<item>
		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (2)</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/17/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-2/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/17/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-2/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 17 May 2010 03:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[representação]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=774</guid>
		<description><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank">UFRJ</a>. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na <a href="http://www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm" target="_blank">outra universidade</a>, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.</p>
<p>O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas <em>&#8220;embromations&#8221;</em> pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU120" target="_blank">HCU 2</a>, <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU230" target="_blank">HCU 3</a> e <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU240" target="_blank">HCU 4</a>, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.</p>
<p>Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/" target="_blank">aqui</a> que voltaria a citar <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629" target="_blank">o livro da Ana Maria</a>, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu &#8211; infelizmente &#8211; ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.</p>
<p>O texto é grande, mas vale cada sílaba:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (&#8230;) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_775" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_(Salvador)"><img class="size-full wp-image-775" title="Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (&#8230;) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento  e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)</em></strong></p>
<p>Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/17/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-2/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (1)</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 22:51:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=722</guid>
		<description><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi punk. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi <em>punk</em>. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao fim da semana exausta. Parece que vai ser assim o semestre todo.</p>
<p>Mas a semana foi <em>punk</em> também em outros sentidos. E um deles foi ter acompanhado, estarrecida, as <a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/05/cotas-raciais-a-entrevista-de-demostenes/" target="_blank">declarações</a> do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), no Supremo Tribunal Federal, a respeito das cotas para negros nas universidades brasileiras. Veja bem, eu acho perfeitamente legítimo uma pessoa ser contra a adoção das cotas, e já li argumentos honestos e válidos nesse sentido. Eu mesma confesso que no início era contra as cotas, acompanhei por bastante tempo várias discussões a respeito, li artigos e opiniões contra e a favor, fui ficando cada vez mais na dúvida, e hoje estou convencida que a política de cotas raciais nas universidades públicas é um instrumento &#8211; que não deve ser o único &#8211; mas é um instrumento legal, necessário, e tudo indica que de excelentes resultados, para a inclusão social e econômica de uma parcela imensa da população brasileira que tem especificidades históricas que justificam e demandam ações como essa. No mínimo, acho que a política de cotas trouxe e continua trazendo um benefício gigantesco para o país, que é provocar um debate às claras sobre a discriminação racial no Brasil, trazendo muitas vezes à luz recalques insuspeitos e ressentimentos velados, desmascarando o racismo que infelizmente existe no nosso país, camuflado por uma ilusão de convivência harmônica. Sim, enquanto os negros se comportarem direitinho, souberem seu lugar na sociedade e não perturbarem reivindicando coisas absurdas, o Brasil será um oásis de paz e harmonia nesse aspecto.</p>
<p>Entre as várias <a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2010/03/a-teoria-negreira-do-dem-saiu-do-armario/" target="_blank">estultices proferidas</a> pelo senador, nenhuma me chocou mais do que creditar a miscigenação do povo brasileiro a relações consensuais entre senhores e escravas. Não consigo acreditar que isso seja falta de conhecimento histórico, é tão insultuoso e revoltante que só pode ser má-fé. Alguém precisa explicar para ele que estupro e violência não se dá só quando há sangue, terror e armas apontadas, ou quando a vítima se debate furiosamente. O constrangimento, o medo da punição e a falta de alternativa também caracterizam o estupro. Só se pode falar em relações consensuais quando há possibilidade de escolha. Consentir pressupõe que a alternativa &#8211; dizer não &#8211; é igualmente possível. E ninguém em sã consciência vai me dizer que as escravas podiam simplesmente virar pros senhores e dizer &#8220;não quero&#8221; impunemente. Aliás, querer, desejar, é um ato de absoluta subjetividade e os escravos e escravas nunca foram tratados como sujeitos de seus quereres, seus corpos e destinos, mas sim como objetos, como bens, como patrimônio material. Eram contabilizados da mesma maneira que cabeças de gado ou pés de milho, e tinham tanto direito de querer ou decidir alguma coisa sobre suas vidas quanto um boi. Quando o senador diz que a miscigenação no Brasil, como processo histórico, foi majoritariamente consensual, ele ofende milhões de mulheres negras, daquele tempo e de hoje, e por extensão, milhões de mulheres simplesmente, que ainda hoje vivem situações de constrangimento e violência por esse Brasil afora.</p>
<p>Pensando nisso, eu quis trazer hoje um trecho de um livro que estou lendo, escrito por <a href="http://www.flip.org.br/edicoes_anteriores_autores.php3?idautor=302" target="_blank"><strong>Ana Maria Gonçalves</strong></a>, chamado <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2099" target="_blank"><strong>Um defeito de cor</strong></a>. Eu ia acabar falando dele mesmo, mas achei que a ocasião era especialmente oportuna, e vai como desagravo e homenagem a tantas mulheres, escravas, negras, que fizeram parte da História deste país e tiveram participações importantes na luta pelo fim da escravidão. Eu estou particularmente encantada com o livro. Tem 950 páginas, eu ainda estou na 320, mas estou fascinada. A autora narra com maestria a história de Kehinde, uma mulher que, quando criança, viu sua mãe e seu irmão serem mortos na aldeia em que vivia, na África, após o que se muda com a avó e a irmã gêmea para uma outra cidade, onde acaba sendo capturada e trazida como escrava para o Brasil. Aliás, quem narra a história é a própria Kehinde, que no Brasil recebeu o nome de Luísa Gama. Consta que ela seria a mãe do poeta romântico brasileiro Luís Gama, e que o livro é na verdade, o relato, em primeira pessoa, da vida dela, que, já idosa, conta a história de sua vida para o filho com quem ela perdeu contato. A linguagem é saborosa, flui com facilidade, o leitor vai ficando enredado por aquelas descrições e acontecimentos, e vai querendo saber sempre mais das danças, comidas, roupas, da vida no engenho da Ilha de Itaparica, das andanças na cidade de Salvador na primeira metade do século XIX, dos rituais e orixás, das relações com as sinhás e com os outros escravos e escravas, das tramas e rebeliões, de tudo. Achei muito vívida e bonita a descrição que ela faz da cidade de Uidá, para onde ela, a irmã gêmea e a avó se mudaram após a morte da mãe. A visão que uma criança pode ter de uma cidade, colorida, cheia de movimento e potencial. Como será que nossas crianças vêem as cidades em que vivem?</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://nandabras.bloguepessoal.com/107329/Quadro-43/"><img class="alignright size-medium wp-image-723" title="mercadoafricano" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/mercadoafricano-300x201.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a>&#8220;Uidá era muito mais interessante que Savalu, e a minha avó segurava as nossas mãos para que não nos perdêssemos. Eu tinha vontade de parar e ficar olhando tudo o que acontecia ao meu redor, as mulheres que andavam com vários colares de contas, as casas que eram maiores do que eu jamais teria imaginado, com cobertura de palha e paredes de barro vazadas por portas muito baixas, e ainda tomavam os dois lados da rua, quase sem nenhum espaço entre elas. Gostei quando chegamos à praça, ao lado do mercado, e ficamos admirando as roupas, as pessoas, muita gente com marcas que nem a minha avó sabia de onde eram. Quase todas as mulheres andavam cobertas, pelo menos da cintura para baixo, e os panos que usavam eram ricos em cores e em bordados com búzios e sementes, que também enfeitavam os diversos colares e pulseiras e, às vezes, os penteados. (&#8230;) O mercado era grande e muito bem dividido, com lugares certos para se comprar cerâmicas, tecidos, frutas, artigos de religião, animais e, principalmente, comida. (&#8230;) As pessoas circulavam procurando os produtos de que precisavam ou assistiam às apresentações de dança, de acrobacias, de música e até de desafios de versos, que eu nunca tinha visto. A minha avó estendeu uma esteira para mim e para a Taiwo dentro da barraca, ao lado da mulher, e dormi pensando em como seria a feira nos dias seguintes, que grandes novidades estariam esperando por nós em Uidá&#8221;.</em></p>
<p>PS 1: Lá no título do post, o (1) ao lado do nome da Ana Maria é porque, mais adiante, no mesmo livro, há uma descrição da cidade de Salvador que é uma verdadeira aula sobre cidades coloniais no Brasil, e eu pretendo reproduzí-lo aqui em breve.</p>
<p>PS 2: Sobre as asneiras ditas pelo Senador no STF, há <a href="http://www.culturaebarbarie.org/blog/2010/03/a-dimensao-formal-do-direito.html" target="_blank">estes</a> <a href="http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/03/09/reporteres-no-pelourinho/" target="_blank">outros</a> <a href="http://bahiadefato.blogspot.com/2010/03/parecer-de-luis-felipe-de-alencastro-no.html" target="_blank">textos</a> que eu também recomendo, lidos via Google Reader do <a href="https://www.google.com/reader/view/?tab=my#stream/user%2F04786639375024921666%2Fstate%2Fcom.google%2Fbroadcast" target="_blank">Idelber</a>.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong> Acabei de ler um post na <a href="http://beauvoriana2.zip.net/" target="_blank">Mary W</a> que eu achei fora de série, sobre essa questão das cotas. Perfeito pro pessoal que torce o nariz e diz que as cotas deviam ser apenas sociais, por critério de renda. Vai <a href="http://beauvoriana2.zip.net/arch2010-03-01_2010-03-31.html#2010_03-09_16_55_45-127299368-0" target="_blank">lá</a> ler.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: Fernando Sabino</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/25/cidades-literarias-fernando-sabino/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/25/cidades-literarias-fernando-sabino/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 14:55:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=655</guid>
		<description><![CDATA[<p>Não, eu não desisti do projeto do Cidades Literárias. É só que eu, pra variar, abraço o mundo com as pernas e me proponho a fazer mais coisas do que dou conta, daí algumas acabam caindo e ficando pelo caminho. Mas tenho a intenção de retomar, ainda que bissextamente, a ideia.</p>
<p>Agora no início do ano, estava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não, eu não desisti do projeto do Cidades Literárias. É só que eu, pra variar, abraço o mundo com as pernas e me proponho a fazer mais coisas do que dou conta, daí algumas acabam caindo e ficando pelo caminho. Mas tenho a intenção de retomar, ainda que bissextamente, a ideia.</p>
<p>Agora no início do ano, estava andando na cidade e, na banca de um sebo, vi por acaso um livrinho de crônicas do <a href="http://www.releituras.com/fsabino_bio.asp" target="_blank"><strong>Fernando Sabino</strong></a>. Dentre aqueles célebres e excelentes autores que figuravam na coleção <a href="http://www.atica.com.br/catalogo/?i=8508086520" target="_blank">&#8220;Para gostar de ler&#8221;</a>, láááá antigamente quando eu era aluna adolescente e o colégio sempre adotava esses livrinhos pras aulas de Português/Literatura, Sabino sempre foi dos meus prediletos. Acho doce, divertido, perspicaz. Sobretudo aprendi a admirar como ele é conciso e econômico com as palavras, sem perder a essência do pensamento e muito menos a poesia da narrativa. Não tem um adjetivo sobrando, um adjunto adverbial desnecessário. Ai se eu conseguisse ser tão precisa e sintética!</p>
<p>O livrinho em questão, <strong>A Volta por Cima</strong>, me capturou por conta de um trechinho que está na capa, logo abaixo do nome do autor:<em> &#8220;Tudo que acontece tem seu lado bom. Toda mudança é para melhor&#8221;</em>. Filosofia de botequim, talvez, mas era o que eu precisava ouvir naquele momento, e eu acabei comprando o livro.</p>
<p>Muito bem, entre as crônicas deliciosas, tinha essa aqui, <strong>&#8220;Visita a Ouro Preto&#8221;</strong>. Lembrei imediatamente da minha série de textos literários que falam das cidades, e resolvi trazer para vocês. Procurei na internet de quando é esse texto, mas não encontrei (o livro foi publicado pela Editora Record em 1990). Se alguém souber e puder me avisar, agradeço.</p>
<p><em>&#8220;Hoje, ir de Belo Horizonte a Ouro Preto é uma brincadeira: duas horas limpas, de asfalto suave e bem corrido. A cidade se tornou local para fins de semana, palco de acontecimentos sociais e artísticos, centro de festas cívicas e festivais de música ou cinema. Ouro Preto foi finalmente descoberta pelos bárbaros.</em></p>
<p><em>Mas é aquela mesma cor esbranquiçada de osso esquecido há séculos sob a luz do sol, a da cidade morta e descarnada, imune ao bulício dos turistas. Procuro me orientar, relembrar o caminho do Museu &#8211; resolvo interpelar uma megera desdentada que espia o tempo passar, debruçada há séculos numa janela.</em></p>
<p><em>- Moço, a cidade toda é um museu.</em></p>
<p><em>Aquele velho ali na esquina é capaz de me dar alguma orientação:</em></p>
<p><em>-Quanto tempo o senhor acha que eu vou precisar pra ver Ouro Preto, visitar essas igrejas, conhecer tudo isso?</em></p>
<p><em>O velho coça a cabeça, irresoluto:</em></p>
<p><em>- Estou aqui há cinquenta anos e não conheço tudo isso.</em></p>
<p><em>A impressão que ele me deu foi de que estava há cinquenta anos ali naquela esquina, esperando um encontro qualquer com um fantasma que desvendasse para ele o mistério de Ouro Preto.</em></p>
<p><em>Não preciso tanto. Em meia hora percorro a rua São José, revejo a Casa dos Contos e a sua ponte. E sigo bufando ladeira acima. toda a cidade é uma só ladeira acima. Esta é a rua Bobadela de nome, Direita de tradição. Chego enfim à Praça Tiradentes, com seus dois palácios: o Municipal, que é a Escola de Minas, e o dos Governadores, que é o Museu da Inconfidência. No meio, a estátua de Tiradentes. E o vaivém dos visitantes, atraídos pelas lojas de lembranças ao redor da praça.</em></p>
<p><em>O Museu merece uma manhã inteira. Ouro Preto, uma vida inteira. O velho tem razão, cinquenta anos é pouco para rever e reviver tudo isso. Só de igrejas que merecem visita há pelo menos umas dez, não se falando nas capelas. Para se acabar zonzo com tantos enfeites, curvas, dourados, frisos, figuras, formas e cores de todos os tons que enchem a cidade por todo lado. Mas pelo menos mais uma olhada na Igreja de São Francisco de Assis, e a do rosário, e a de Nossa Senhora do Pilar, e a de Santa Efigência do Alto da Cruz, e de São Francisco de Paula&#8230;</em></p>
<p><em>Basta. Ouro Preto é mais do que isso, e mesmo aos ímpios, a quem aborrece a arte sacra, tem a oferecer outra espécie de atração. alguma coisa que paira no ar e envolve quem se vê nessas ruas do passado. O visitante se sente anulado no tempo, anônimo no espaço, integrado na trama sutil da História, mergulhado na eternidade. Isto é Ouro Preto&#8221;.</em></p>
<p><em> </em></p>
<div id="attachment_659" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><em><em><img class="size-full wp-image-659" title="OuroPreto1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/01/OuroPreto1.jpg" alt="Fotos tiradas por mim em 2008, durante visita à cidade com os alunos para os quais eu dava aula. À esquerda, uma das muitas ladeiras. À direita, em cima, paisagem urbana; abaixo Igreja de Nossa Senhora do Pilar" width="700" height="526" /></em></em><p class="wp-caption-text">Fotos tiradas por mim em 2008, durante visita à cidade com os alunos para os quais eu dava aula. À esquerda, uma das muitas ladeiras. À direita, em cima, paisagem urbana; abaixo Igreja de Nossa Senhora do Pilar</p></div>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<div id="attachment_660" class="wp-caption aligncenter" style="width: 820px"><em><em><img class="size-full wp-image-660" title="OuroPreto2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/01/OuroPreto2.jpg" alt="Da esquerda para a direita: Nossa Senhora do Rosário, o altar da igreja de São Francisco de Assis, a cidade vista através da janela. Só eu que acho ruim ver tanto carro na rua?" width="810" height="360" /></em></em><p class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita: Nossa Senhora do Rosário, o altar da igreja de São Francisco de Assis, a cidade vista através da janela. Só eu que acho ruim ver tanto carro na rua?</p></div>
<p><em> </em></p>
<p>Num momento em que estamos falando de projetos de reforma em áreas históricas, patrimônio, valores urbanos, deixo vocês com estas palavras. Em que medida isto diz respeito às nossas cidades, que importância têm esses sentimentos de integração &#8220;na trama sutil da História&#8221; para o desenvolvimento e a vida de uma cidade? Enquanto vocês pensam, vou ali e já volto.</p>
<p>Depois de <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/13/ferias-sei/" target="_blank">reclamar</a> da falta de férias, eis que uma conjunção de fatores (milhas sobrando que iam vencer aliadas à oferta de hospedagem por parte de uma amiga mais que querida + a generosidade e o amor do Marido) colocou nas minhas mãos a primeira das <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/12/29/fim-de-ano-de-novo/" target="_blank">supresas e oportunidades legais ao longo da jornada</a>, que eu desejei nos meus votos de fim de ano, e eu estou indo hoje para a Itália, passar 10 dias. No circuito, Milão e uma fugida de quatro dias a Roma e Florença. Eu nem acabei a série do Canadá, e já vou me comprometer com mais fotos e relatos de viagem. Aguardem.</p>
<p>PS: Parabéns pra cidade de São Paulo pelos 456 anos!</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/25/cidades-literarias-fernando-sabino/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: Agatha Christie</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/01/cidades-literarias-agatha-christie/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/01/cidades-literarias-agatha-christie/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2009 20:41:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=540</guid>
		<description><![CDATA[<p>A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter o ritmo. Enfim, um blog também é pra isso, pro meu prazer, e não mais uma guilhotina no meu pescoço, ameaçando com prazos e cobranças de conteúdo e metodologias. Para isto, basta a vida real.</p>
<p>Entretanto, de vez em quando acho que já faz tempo que não aparece um post da série, e hoje foi um caso desses. Com a preguiça supracitada e a pilha de trabalhos para corrigir que me espia ali da mesa, resolvi pelo que era mais prático e rápido (nem por isso menos saboroso), em vez de folhear os livros em busca da citação mais adequada ou mais arrebatadora.</p>
<p>Tem uma piada que classifica as pessoas entre as que amam Beatles e as que amam Rolling Stones, e eu incluiria aí que outra divisão clássica é entre os leitores de Agatha Christie e os de Conan Doyle. Não que não se possa gostar de todos eles, mas a gente sempre tem uma quedinha preferencial por um dos lados. Eu sou Beatles e Agatha Christie, pronto. Amo a maneira leve e arguta com que ela retrata a sociedade inglesa do século XX, especialmente entre os anos 20 e 60, período em que escreveu (e no qual situou) a maioria de suas histórias. Eu tenho e já li mais de 50 livros da Rainha do Crime, com protagonistas variados como o indefectível e empoado Monsieur Hercule Poirot, a perspicaz e vitoriana Miss Marple, o casal moderninho Tommy e Tuppence Beresford, o sólido e prudente Superintendente Battle, entre outros menos frequentes. Gosto dos tipos que ela cria porque há algo sempre de deliciosamente risível e profundamente humano em todos eles, com suas vaidades, preconceitos, e capacidade de observação da sociedade que os cerca. Amo sobretudo a forma como eles vão envelhecendo ao longo do tempo, junto com sua autora. Por baixo de uma narrativa quase tola, que a gente devora em poucas horas, há um estudo sociológico nada desprezível. A parte da psicologia do crime e do criminoso é um pouco barata, eu acho, e reflete um determinado modo de pensar próprio de sua época. Quem sabe falar disso muito melhor do que eu é nossa leitora e amiga querida Paula Clarice, jovem e brilhante advogada, estudiosa dessas questões. Quem sabe ela aparece nos comentários para algum esclarecimento adicional.</p>
<p>Voltando à minha escolha de hoje, eu peguei meia dúzia de livros de Mrs. Christie e dei uma folheada, esperando encontrar descrições deliciosas de cidades, já que ela &#8211; como mulher viajadíssima e culta que era &#8211; tem romances espalhados pelos quatro cantos do globo, mas dei-me conta de que minha memória me traiu. O seu estilo ágil e intimista se detém muito mais no perfil psicológico dos personagens, tecido ao longo de diálogos e observações concisas e não de longos parágrafos descritivos, do que na análise urbana. As cidades quase nunca são personagens importantes para Agatha Christie, funcionando como molduras incidentais. Seus assassinatos e disputas se passam em ambientes privados, em mansões, escolas, hotéis, propriedades rurais. Ficamos sabendo de salas e quartos, mobílias, cortinas, objetos de decoração, cardápios de jantar e vestimentas dos criados,  mas quase nada sobre as cidades em que se passam os eventos. Elas até são mencionadas, mas raramente merecem mais do que duas ou três linhas.</p>
<p>Uma breve exceção está no livro E no final a morte que, de maneira inusitada, se passa no Antigo Egito, mais especificamente por volta de 2000 a.C., em Tebas, margem oeste do Nilo. De maneira original, e baseada em pesquisas sérias (não nos esqueçamos que seu marido era arqueólogo e que ela não só viajou com ele por todo o Oriente Médio como tinha acesso a um prestigioso círculo intelectual) Agatha Christie constrói uma narrativa interessante, em que se destaca uma minuciosa explicação do contexto sócio-cultural da época.</p>
<p>A trama mostra uma família numerosa em que os filhos maiores, já casados e com filhos, trabalham com o pai na agricultura e na pecuária de ovelhas.  O filho mais novo, adolescente, quer se envolver nas atividades profissionais e ser tratado como adulto, e a filha, recentemente viúva, retorna para viver com a família de origem, mas não gosta muito de ter que conviver com as cunhadas, preferindo cultivar amizade com o escrivão da família. O grupo inclui também  a mãe do dono da casa, meio cega mas muito sábia. Quando o pai traz para viver com eles a sua bela, jovem e maldosa concubina, que se diverte instigando intrigas e manipulando os outros para demonstrar o seu poder, a rotina da família muda. A moça acaba assassinada, seguindo-se depois outras mortes, que fazem suspeitar de fenômenos sobrenaturais. Claro que é alguém muito vivo que está por trás dos crimes, e a filha, o escrivão e a mãe do dono da casa vão desempenhar um papel decisivo na busca da verdade.</p>
<p>Em alguma altura do livro, Hori, o escriba, conversa com Renisenb, a filha do patriarca, do alto de um penhasco:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Olhe, Renisenb, olhe daqui do alto, através do vale, até o rio e mais além. Isto é o Egito, nossa terra. Enfraquecido por guerras e disputas durante muitos anos, dividido em insignificantes reinos, mas que agora, muito em breve, irá se unir para formar mais uma vez um país unido: Baixo e Alto Egito novamente consolidados em um; espero e acredito na recuperação de sua antiga grandeza! Quando esse dia chegar, o Egito precisará de homens e mulheres de coração e coragem, mulheres como você, Renisenb. Não de homens como Imhotep, eternamente preocupados com seus parcos ganhos e perdas, nem de homens como Sobek, negligentes e faroleiros, nem de rapazes como Ipy, que pensam apenas naquilo que podem ganhar para si próprios; não, nem mesmo de filhos conscienciosos e honestos, como Yahmose o Egito irá precisar. Aqui, sentado, entre os mortos, calculando perdas e ganhos, lançando a contabilidade, eu me deparei com ganhos que não podem ser avaliados em termos de prosperidade e perdas que causam mais dano do que a perda da colheita&#8230; Eu olho o rio e vejo o sangue vital do Egito, que existiu antes de nascermos e continuará a existir depois de morrermos&#8230; Vida e morte, Renisenb, não contam tanto. Eu sou apenas Hori, o homem de negócios de Imhotep, mas quando observo o Egito, eu conheço a paz e uma exultação que não trocaria nem mesmo pelo cargo de Governador da Província. Você compreende tudo o que eu disse, Renisenb?&#8221;</em></p>
<p>PS Agora, que acabei de escrever, me lembrei que a Cláudia, outra amiga querida que está sempre nos comentários, está justamente indo esta semana em viagem ao Egito. Fica dedicado a ela este post, portanto.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/01/cidades-literarias-agatha-christie/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: Fernando Pessoa</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/17/cidades-literarias-fernando-pessoa/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/17/cidades-literarias-fernando-pessoa/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 19:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=514</guid>
		<description><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: Álvaro de Campos. Porque a poesia que eu selecionei, Ode Triunfal (na íntegra aqui), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos" target="_blank"><strong>Álvaro de Campos</strong></a>. Porque a poesia que eu selecionei, <strong>Ode Triunfal </strong>(na íntegra <a href="http://www.revista.agulha.nom.br/facam02.html" target="_blank">aqui</a>), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se desencanta com ele. Os versos encarnam a velocidade, os sons, a textura dessa nova cidade subordinada à indústria, transformando-se num <a href="http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/ode_triunfal" target="_blank">&#8220;passeio vertiginoso pela paisagem de um mundo povoado por máquinas, circuitos, cores&#8221;</a>. Mais do que à descrição física da cidade e seus elementos, prestem atenção à síntese que ele faz da sociedade, que esta, em quase cem anos que se passaram desde a composição, não mudou grande coisa, vamos combinar.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-519" title="industrial_revolution" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/industrial_revolution1-300x201.jpg" alt="industrial_revolution" width="300" height="201" />Ao mesmo tempo, no próprio ritmo e sonoridade do poema transparecem um cansaço imenso e a sombra de uma dúvida, sob a capa da ironia, de que todo este progresso vá trazer alguma solução aos problemas fundamentais do homem. Quem sabe vá até agravá-los e criar outros novos. Dilemas dos quais não nos livramos ainda. A gente vê a imagem que ilustra este post, e pode achar que esta cidade de chaminés e fumaças pertence ao século XIX, mas se a indústria foi afastada dos centros urbanos, a crença e o elogio do progresso, não. Continuamos apostando nossas fichas em máquinas (ainda que de design mais arrojado), na ciência, na tecnologia. Tudo isso pode ser uma maravilha, e tem uma capacidade de transformação do espaço e das relações absurdamente grande. Mas no que tange o essencial, o buraco continua mais embaixo.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica<br />
Tenho febre e escrevo.<br />
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,<br />
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!<br />
Ser completo como uma máquina!<br />
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!<br />
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,<br />
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento<br />
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões<br />
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Horas europeias, produtoras, entaladas<br />
Entre maquinismos e afazeres inúteis!<br />
Grandes cidades paradas nos cafés,<br />
Nos cafés &#8211; oásis de inutilidades ruidosas<br />
Onde se cristalizam e se precipitam<br />
Os rumores e os gestos do Útil<br />
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Hé-la as ruas, hé-la as praças, hé-lá-hô </em><em>la foule!<br />
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!<br />
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;<br />
Membros evidentes de clubs aristocráticos;<br />
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes<br />
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete<br />
De algibeira a algibeira!<br />
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!<br />
Presença demasiadamente acentuada de cocottes;<br />
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)<br />
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,<br />
Que andam na rua com um fim qualquer;<br />
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;<br />
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra<br />
E afinal tem alma lá dentro!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(Ah, como eu desejaria ser o </em><em>souteneur disto tudo!)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>A maravilhosa beleza das corrupções políticas,<br />
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,<br />
Agressões políticas nas ruas,<br />
E de vez em quando o cometa dum regicídio<br />
Que ilumina de prodígio e Fanfarra os céus<br />
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos de agricultura!<br />
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!<br />
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,<br />
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,<br />
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!<br />
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!<br />
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!<br />
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.<br />
Amo-vos carnivoramente,<br />
Pervertidamente e enroscando a minha vista<br />
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,<br />
Ó coisas todas modernas,<br />
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima<br />
Do sistema imediato do Universo!<br />
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,<br />
Que emprega palavrões como palavras usuais,<br />
Cujos filhos roubam às portas das mercearias<br />
E cujas filhas aos oito anos &#8211; e eu acho isto belo e amo-o! -<br />
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada.<br />
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa<br />
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.<br />
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,<br />
Que está abaixo de todos os sistemas morais,<br />
Para quem nenhuma religião foi feita,<br />
Nenhuma arte criada,<br />
Nenhuma política destinada a eles!<br />
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,<br />
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,<br />
Inatingíveis por todos os progressos,<br />
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!&#8221;</em></p>
<p style="text-align: left;">* O livro de onde eu tirei a poesia é o <em>Ficções do Interlúdio, </em>que reúne diversos poemas de Fernando Pessoa, e de seus vários heterônimos, publicado pela Companhia das Letras, edição de 1998.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/17/cidades-literarias-fernando-pessoa/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: Chico Buarque</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/10/cidades-literarias-chico-buarque/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/10/cidades-literarias-chico-buarque/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 22:36:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=489</guid>
		<description><![CDATA[<p style="text-align: right;">E quem sabe, então o Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos
Sábios em vão tentarão decifrar
o eco de antigas palavras,
fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos
vestígios de estranha civilização&#8230;
(Chico Buarque, Futuros Amantes)</p>
<p>Chove ininterruptamente há três dias no Rio de Janeiro. A chuva aperta e diminui, mas não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;">E quem sabe, então o Rio será<br />
Alguma <strong>cidade submersa</strong><br />
Os escafandristas virão explorar sua casa<br />
Seu quarto, suas coisas, sua alma, desvãos<br />
Sábios em vão tentarão decifrar<br />
o eco de antigas palavras,<br />
fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos<br />
vestígios de estranha civilização&#8230;<br />
(Chico Buarque, Futuros Amantes)</p>
<p>Chove ininterruptamente há três dias no Rio de Janeiro. A chuva aperta e diminui, mas não pára (eu sei que o verbo parar perdeu esse acento. Mas eu me recuso. Acho das maiores burrices do novo acordo ortográfico. Porque há frases em que realmente o sentido fica confuso e você não sabe se está diante do verbo <em>parar</em> ou da preposição <em>para</em>).</p>
<p>Eu tinha, ou melhor, tenho ainda, vou guardar pra sexta que vem, um trecho lindo de Fernando Pessoa, falando da cidade da máquina e do progresso, em cujo sucesso se acreditava tanto na primeira década e meia do século XX, até a Guerra vir mostrar que não era bem assim. Mas hoje, encaramujada, eu fico com o Chico, se vocês não tiverem nada contra. Como ele mesmo diz no início da música:</p>
<p><em>&#8220;Não se afobe não, que nada é pra já.&#8221;</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/10/cidades-literarias-chico-buarque/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: João do Rio</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/04/cidades-literarias-joao-do-rio/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/04/cidades-literarias-joao-do-rio/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 02:32:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=472</guid>
		<description><![CDATA[<p>Aproveitando que o Rio de Janeiro está na moda, ainda mais agora que será a primeira sede dos Jogos Olímpicos na América Latina, resolvi fazer esta homenagem. Sério, se eu quisesse manter esta coluna só com textos sobre o Rio de Janeiro, eu teria dezenas de posts prontos lendo a obra de João do Rio.</p>
<p class="wp-caption-text">O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aproveitando que o Rio de Janeiro está na moda, ainda mais agora que será a primeira sede dos Jogos Olímpicos na América Latina, resolvi fazer esta homenagem. Sério, se eu quisesse manter esta coluna só com textos sobre o Rio de Janeiro, eu teria dezenas de posts prontos lendo a obra de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_do_Rio" target="_blank"><strong>João do Rio</strong></a>.</p>
<div id="attachment_473" class="wp-caption alignleft" style="width: 212px"><img class="size-full wp-image-473" title="JoaodoRio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/JoaodoRio.jpg" alt="O escritor" width="202" height="300" /><p class="wp-caption-text">O escritor</p></div>
<p>João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu e viveu no Rio de Janeiro, entre 1881 e 1921, como jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo. Aos 19 anos, Paulo Barreto conquista popularidade com uma série de reportagens de enorme repercussão, para a <em>Gazeta de Notícias</em>, apresentando um estilo vivo, ágil, num processo inteiramente novo de apresentar a informação. No mesmo jornal, a partir de 1903, adota o pseudônimo com o qual ficaria eternizado. Não é exagero dizer que <strong>João do Rio</strong> revolucionou o processo de fazer jornalismo no país, introduzindo a reportagem com a feição moderna com que  a conhecemos hoje, interessada nos aspectos sociais e humanos da vida urbana, e criando um novo tipo de crônica. Sobretudo, ele foi um arguto e crítico observador na vida da cidade do início do século, deixando deliciosas descrições de espaços e de comportamentos, que nos ajudam a ter uma ideia melhor do que deve ter sido viver no Rio no alvorecer do século XX. O trecho a seguir é retirado de sua obra <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&amp;co_obra=2051" target="_blank"><strong>A alma encantadora das ruas</strong></a>, de 1908, e consta do livro <strong>João do Rio, uma antologia</strong>, organizado por Luís Martins e publicado pela José Olympio Editora. Ah, o texto completo está disponível para download, gratuitamente, no site <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&amp;co_obra=2051" target="_blank">Domínio Público</a>, se alguém se interessar.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Oh, sim, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, speenéticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;) Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém dantes imaginara &#8211; a rua dos Ourives &#8211; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha &#8211; a da Quitanda. Há ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras &#8211; a das Laranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte &#8211; o Largo do Moura, por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o necrotério e, antes do necrotério, lá se erguia a forca. antes da autópsia, o enforcamento.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;) Há, entretanto, outras ruas que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo sem que todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. (&#8230;) Há ruas oradoras, ruas de meeting &#8211; o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largo de São Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade &#8211; a rua Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos vêem &#8211; a travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito próximo do centro urbano e como que dele afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_474" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><em><img class="size-medium wp-image-474" title="rio_belleepoque" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/rio_belleepoque-300x209.jpg" alt="A Av. Rio Branco (então, Av. Central), recém inaugurada" width="300" height="209" /></em><p class="wp-caption-text">A Av. Rio Branco (então, Av. Central), recém inaugurada</p></div>
<p></em></p>
<p>Acho bacana esse olhar poético sobre as ruas da cidade. Para os moradores do Rio, fica o desafio. Você conhece as ruas e locais citados? Quase todos referentes ao Centro da cidade e adjacências, chegando até a Tijuca, para os lados da Zona Norte, e até Laranjeiras e Botafogo, que era o que existia de Zona Sul. Quando ele escreve esse texto, Copacabana tem menos de 20 anos de criada e ainda é pouco mais que um areal, e Ipanema e Leblon ainda não sonham em existir. Gosto de dar esse destaque ao Centro. Temos falado tanto de Revitalização da Zona Portuária, Pier Mauá, Aquário do Rio, é bom nos familiarizarmos com esta área da cidade.</p>
<p>Para os que identificaram lugares, o que mudou, o que permanece? E para os que moram fora do Rio, qual a alma das ruas da sua cidade?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/10/04/cidades-literarias-joao-do-rio/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>4</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades literárias: Cory Doctorow</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/21/cidades-literarias-cory-doctorow/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/21/cidades-literarias-cory-doctorow/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 03:23:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=458</guid>
		<description><![CDATA[<p>Eu vou falar a verdade e confessar minha imensa ignorância: eu não conheço esse autor. Nunca tinha ouvido falar dele até ontem, nem lido nada de sua autoria. Aí eu recebi um e-mail simpaticíssimo da Telinha, amiga querida, contando que o marido dela traduziu um e-book de autoria desse cara, chamado Little Brother, e ela estava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu vou falar a verdade e confessar minha imensa ignorância: eu não conheço esse autor. Nunca tinha ouvido falar dele até ontem, nem lido nada de sua autoria. Aí eu recebi um e-mail simpaticíssimo da <a href="http://telinha.blogspot.com/" target="_blank">Telinha</a>, amiga querida, contando que o marido dela traduziu um e-book de autoria desse cara, chamado <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Little_Brother_%28Cory_Doctorow_novel%29" target="_blank"><strong>Little Brother</strong></a>, e ela estava revisando quando se deparou com esse trecho e lembrou de mim e deste humilde blog. Fiquei feliz e boba, tanto que resolvi utilizar logo a contribuição. Eu até tinha separado outra coisa pra esta semana, um texto delicioso do João do Rio, sobre a alma das ruas, mas vou deixar pra semana que vem, já fica agendado.</p>
<p>Claro que eu dei uma googlada no nome de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Cory_Doctorow" target="_blank"><strong>Cory Doctorow</strong></a>, e gostei do que li. O cara é jornalista e blogueiro, autor de ficção científica, defensor da liberalização das leis de copyrighte um dos criadores do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Creative_Commons" target="_blank">Creative Commons</a>. Ainda por cima, por coincidência, ele é canadense. Achei que tinha tudo a ver. O motivo? É que desde ontem eu estou exatamente no Canadá, em Montreal. Isso é outra história e eu espero que renda papo por aqui. Alguma vantagem a gente tem que ter em ter marido que trabalha viajando tanto. Juntam-se milhas. Aí, quando a viagem dele é pra algum lugar que me interessa, eu aproveito as milhas e vou junto. Tá bom, a rigor (quase) qualquer lugar me interessa, mas nem sempre dá pra ir, até porque eu trabalho e não posso ficar faltando. Mas dessa vez, eu achei imperdível demais e vim. Sempre quis conhecer o Canadá. Tá sendo bem legal, mas isso fica pra outro post, se não eu disperso muito (aliás, como sempre).</p>
<p>Como eu ia dizendo, a Telinha me mandou e-mail sobre um livro desse cara. Ela disse que é uma história que se passa num futuro próximo, nos Estados Unidos, num clima bem pós 11/09. O país acaba de sofrer mais um atentado, desta vez em São Francisco,  vira um estado policial e quase não há mais privacidade. Um menino de 17 anos inicia um movimento em prol dos direitos civis e do cumprimento da constituição. Ela termina dizendo: &#8220;Só posso dizer que, apesar de muita parte tecnológica que eu não entendo, o livro é muito bom. E este trecho me lembrou você&#8221;. Vê se ela não tem razão?</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Eu sempre odiei o Centro Cívico. Uma coleção de enormes prédios em formato de bolo de noiva, prédios da justiça, museus e outros prédios como a prefeitura. As calçadas eram largas, os prédios eram brancos. Nos guias turísticos de São Francisco eles faziam com que parecesse o Epcot Center, futurístico e austero.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas visto do chão era sujo e embrutecido. Sem-tetos dormiam nos bancos. O distrito ficava vazio às 6 da tarde, exceto pelos bêbados e viciados, porque com apenas um tipo de prédio por ali, não havia razão das pessoas aparecerem ali após o pôr do sol. Estava mais para uma avenida do que para uma vizinhança e as únicas casas de comercio ali eram lojas de penhores e mercadinhos de bebidas para atender aos familiares dos vigaristas e vender aos bêbados que faziam desse lugar seu lar durante a noite.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Eu realmente comecei a entender aquilo quando li uma entrevista de uma antiga e fabulosa planejadora urbana chamada Jane Jacobs, a primeira pessoa que realmente pensou no motivo de ser errado fatiar a cidade com autoestradas, enfiar os pobres em projetos habitacionais e usar leis de zoneamento para se controlar o que pode e o que não pode ser feito ali. Jacobs explicava que as cidades são orgânicas e têm uma grande variedade &#8211; ricos e pobres, brancos, mestiços, anglo-saxões e mexicanos, áreas comerciais, residenciais e até industriais. Uma vizinhança como aquela que tem todo tipo de gente passando por ela o tempo todo seja dia ou noite precisa ter um tipo de comércio para cada necessidade, ter gente ao redor o tempo inteiro agindo como os olhos da rua.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Você já viu isso antes. Quando caminha pela parte antiga de alguma cidade e você encontra um monte de lojas legais, caras de terno, pessoas usando a última moda, restaurantes finos e cafeterias bacanas, um pequeno cinema talvez, casas com uma fachada transada. É claro que pode ter umas Starbucks também, mas tem sempre um mercado de frutas e uma floricultura cuja dona parece ter trezentos anos e ela cheira as flores gentilmente em suas vitrines. Isso é o oposto de um espaço planejado, como um shopping. É mais como um jardim selvagem ou uma floresta na maneira que surgiu.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Você não poderia estar mais longe disso do que neste Centro Cívico. Li uma entrevista com Jacobs onde ela fala sobre a antiga e ótima vizinhança que eles colocaram abaixo para construir aquilo. Era o tipo de vizinhança que aparece sem permissão ou razão. Jacobs disse que ela havia previsto isso há alguns anos, que o Centro Cívico seria a pior vizinhança na cidade, uma cidade fantasma à noite, um lugar com algumas lojas baratas vendendo birita e motéis pulguentos. Na entrevista ela não parecia feliz em ser inocentada deste fato, soava mais como se falasse sobre um amigo falecido quando descrevia o que o Centro Cívico se tornaria&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tudo a ver com tanta coisa que eu tento escrever aqui (só um lembrete: a <strong>Jane Jacobs</strong> não é um personagem de ficção, ela é mesmo uma urbanista americana importante de meados do século XX, e eu já falei dela <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/19/espaco-publico-convivencia-ou-vigilancia/" target="_blank">aqui</a>),  e pensando bem agora, tem a ver também com o próximo texto, esse do João do Rio que eu mencionei aí em cima. Aguardem, e nesse meio tempo, vamos pensando nisso aí. <em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/21/cidades-literarias-cory-doctorow/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Cidades Literárias: Tom Holland</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/14/cidades-literarias-tom-holland/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/14/cidades-literarias-tom-holland/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 12:32:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.urbanamente.net/blog/?p=450</guid>
		<description><![CDATA[<p>Eu sempre fui fascinada com a história das primeiras civilizações, especialmente as mesopotâmicas. Eu fico horrorizada que ali, onde floresceram culturas fervilhantes de vida e glórias, onde reinaram sumérios, assírios, babilônios,  persas e gregos, onde se construíram tantas cidades esplendorosas, se fizeram lutas, se aprendeu pela primeira vez na história da humanidade a plantar e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sempre fui fascinada com a história das primeiras civilizações, especialmente as mesopotâmicas. Eu fico horrorizada que ali, onde floresceram culturas fervilhantes de vida e glórias, onde reinaram sumérios, assírios, babilônios,  persas e gregos, onde se construíram tantas cidades esplendorosas, se fizeram lutas, se aprendeu pela primeira vez na história da humanidade a plantar e a escrever, ali no berço de tudo, hoje exista um Iraque devastado por uma guerra idiota e ameaçado por um obscurantismo fanático. Uma coisa é certa. Ontem, como hoje, aquela terra entre os rios Tigre e Eufrates sempre foi cobiçada. Os motivos são variados, hoje é petróleo, antes foram as riquezas conquistadas em guerras e comércio, as cidades fulgurantes e fortificadas, mas o resultado é o mesmo: pilhagens, destruição e reconstrução sob nova ordem, submissão.</p>
<p>E no meio de tudo, a força da vida sempre fazendo brotarem novamente as muralhas, os castelos, os templos, o mercado. As gentes entoando seus cânticos, cozendo e empilhando tijolos, comprando e vendendo mercadorias, assando pães e bebendo vinho.</p>
<p>Subjugar cidades e construir cidades novas sempre foram estratégias de dominação, desde essas priscas eras. Quem elevou essa estratégia a um requintado auge foi Alexandre, o Grande, de quem podemos falar um dia, meu personagem favorito da História Antiga. Ele e suas narcísicas Alexandrias, construídas por todo o seu vasto império, o único a derrotar os poderosos persas, ocupando e expandindo as fronteiras do império que até então tinha sido o maior de todos os tempos.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-451" title="imperiopersa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/09/imperiopersa-300x192.jpg" alt="imperiopersa" width="300" height="192" />Mas antes de Alexandre houve Ciro. E Dario, e Xerxes. O surgimento dos persas no cenário internacional da época foi um fenômeno sem precedentes. Ninguém nunca tinha ouvido falar daquele povo. Enquanto a Mesopotâmia estava ali, habitada e exibindo cidades cosmopolitas desde 2500 a.C, enquanto minóicos e micênicos ocupavam o Sul da Grécia desde quase o mesmo tempo, e Homero já escrevia a Ilíada em 800 a.C, 400 anos depois da Guerra de Tróia, o planalto pra leste, que se estendia até o norte da Índia era ocupado por tribos nômades e guerreiras, mal saídas da pré-história. Pois em cem anos esse pessoal varreu todo o mundo conhecido, conquistou os poderosos e sentou no topo do mundo. E só não tomou conta de tudo porque uns gregos teimosos de Atenas e de Esparta seguraram o rolo compressor, e na Batalha de Salamina marcaram bem firmes os limites ocidentais dos territórios persas. Vocês ficam daqui pra lá, eles disseram. Esse território aqui é nosso.</p>
<p>Diz o <strong>Tom Holland</strong>, no livro <a href="http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=144" target="_blank"><strong>Fogo Persa</strong></a>, que narra toda essa história com requintes de detalhes e alguma ficção, que a própria noção de Ocidente que se tem hoje poderia jamais ter existido se Xerxes tivesse vencido aquela batalha e varrido os gregos do mapa. Já pensou? Eu achei aqui o meu livrinho que tinha se perdido na bagunça da mesa no escritório, e fiquei enlouquecida com tantas passagens deliciosas e curiosas descrevendo cidades cujos nomes e fama a gente conhece desde a escola, mas que eu não sei se todo mundo consegue imaginar em toda a sua grandeza. Assim, eu trago hoje pra vocês a Babilônia, de Nabucodonosor e seus jardins suspensos, construídos pelos braços de milhares de escravos trazidos para trabalhar na cidade após terem suas próprias cidades destruídas em conquistas sangrentas. Posso começar com o mito da criação da humanidade segundo os babilônicos? Façam suas analogias com o barro de que fala o Gênesis. A primeira frase já é genial:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;<strong>Sem poeira, nunca poderia haver cidades e grandes reis.</strong> (&#8230;) Remontando ao princípio, quando toda a terra era um oceano, o Senhor Marduk, rei dos deuses, havia construído uma jangada de juncos, coberta de poeira, e a misturara com água para forjar o lodo primevo e disso ergueu o seu lar, o Esagila, a primeira construção do mundo. (&#8230;) &#8220;Vou pegar sangue&#8221;, anunciou Marduk, nos primeiros dias do mundo, &#8220;e daí vou esculpir a carne e criar o primeiro homem&#8221;. Exatamente como havia dito, misturou cuidadosamente poeira com sangue coagulado de um rival que matara, e da massa pegajosa que resultou forjou toda a humanidade. Aqui, no ato original da criação do primeiro homem, foi estabelecido um padrão para toda a eternidade. As lavouras nos campos, os tijolos nas muralhas da cidade: o que seria de tudo isso se não fosse a lama?&#8221;.</em></p>
<p>De todas as cidades daquele tempo, talvez uma das mais famosas seja a Babilônia, planificada por volta de 2000 a.C. como um retângulo de 2500 x 1500 metros, fortemente murada, cortada ao meio pelo Rio Eufrates. Tendo liderado a revolta que derrotou os assírios, a Babilônia ergueu seus próprios domínios impondo a seus vizinhos os mesmos métodos cruéis, descritos até pelo profeta Jeremias, no relato bíblico, como sendo de <em>&#8220;um jugo de ferro, impondo a servidão&#8221;</em>. Segue o Holland:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Em 586 a.C., Jerusalém foi tomada e reduzida a um monturo negro de escombros, e todos os infelizes judeus foram arrastados para o exílio, (&#8230;) onde tiveram a companhia de exilados de outras nações de todo o Oriente Próximo. (&#8230;) Imigrantes, quer fossem escravos, mercenários ou mercadores, apinhavam-se pelas ruas da Babilônia &#8211; a primeira cidade verdadeiramente multicultural da história. Mesmo depois de perder sua independência para Ciro, ela permaneceu como o supremo cadinho de misturas do Oriente Próximo, com suas ruas povoadas por milhares de idiomas, rugidos de animais exóticos e a visão de estranhos pássaros dourados, escarlates e nácar dos confins do mundo.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_454" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><img class="size-medium wp-image-454" title="babilonia" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/09/babilonia2-300x225.jpg" alt="Maquete com uma reconstrução do que deve ter sido a Babilônia" width="300" height="225" /></em></em><p class="wp-caption-text">Maquete com uma reconstrução do que deve ter sido a Babilônia</p></div>
<p><em>(&#8230;) Uma população sem precedentes de um quarto de milhão de pessoas vivia em Babilônia, apinhando suas ruas estreitas e sinuosas. No entanto, mesmo tão cheia de gente, uma densa aglomeração de corpos, tijolos e fezes, ainda assim exigia a mais comprida fortificação urbana jamais construída para encerrar apenas uma porção de sua área. Estupenda, como tudo o mais em Babilônia, a muralha encerrava quase cinco quilômetros quadrados e estava protegida, nos pontos onde o Eufrates não supria uma barreira natural, por fossos. (&#8230;) Babilônia, cidade da opulência; Babilônia, a cidade onde o povo é abarrotado de riquezas; Babilônia, a cidade das celebrações, do divertimento e da perpétua dança. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>As muralhas da cidade, alardeava-se com confiança, tinham mais de 90 km de comprimento e uma centena de portões de bronze. Mais do que uma cidade, Babilônia era um verdadeiro mundo em si mesmo&#8221;. </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/14/cidades-literarias-tom-holland/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>

