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	<title>Urbanamente &#187; Cidades</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Muçulmanos, islâmicos, e outras provocações</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Islã]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</p>
<p>Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que está indo ao ar agora.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como diz a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dropsdafal.blogbrasil.com/?referer=');">Fal</a>, pra isso Deus inventou o blog, pra gente falar o que bem entende, então tou com uma vontade irresistível de abordar mais a fundo esse tema dos muçulmanos. Claro, vou encaminhar o assunto mais para o lado da arte, arquitetura, urbanismo, contribuições científicas, história. Não estou com disposição, nem tenho conhecimento aprofundado pra isso, de entrar na seara da política internacional contemporânea, muito menos da teologia, mas o objetivo é dar uma beliscada também nisso, ainda que indiretamente.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Na verdade, desde muito nova, a região do Oriente Médio e a cultura muçulmana me despertam enorme curiosidade, não sei explicar por quê. Sempre foi um paradoxo para mim que a cultura rica, avançada e tolerante que eu conhecia através das histórias das Mil e Uma Noites e de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar_de_Melo_e_Sousa" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_C_C3_A9sar_de_Melo_e_Sousa?referer=');">Malba Tahan</a> (que muito mais tarde eu vim a descobrir que era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Melo e Souza, escritor e matemático, que ainda por cima era o pai do meu primeiro professor de projeto na faculdade de Arquitetura – e vocês não podem imaginar a emoção do velhinho quando eu reconheci o sobrenome dele e elogiei o papel da literatura do pai dele na divulgação da matemática e de uma visão mais positiva da religião islâmica)&#8230; O problema de fazer orações muito longas é que a gente começa e depois se perde. Eu dizia que achava um paradoxo que essa mesma cultura estivesse associada, através dos noticiários, desde que eu me entendo por gente (e hoje eu sei que desde muito antes disso) a tantas guerras e disputas sangrentas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span></p>
<div id="attachment_797" class="wp-caption aligncenter" style="width: 774px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg"><img class="size-full wp-image-797" title="islam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg" alt="" width="764" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fontes das imagens, em ordem: http://www.grupoescolar.com/a/b/7AC53.jpg; http://conexaooriente.wordpress.com/2007/09/10/as-mil-e-uma-noites/; http://independenciasulamericana.com.br/2009/01/falcoes-impoem-guerra-a-obama/</p></div>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como eu expliquei no post anterior, eu tinha dado aula sobre as cidades muçulmanas e me dei conta do universo que o tema abria em termos de discussão de preconceitos, de história, de recuperação de dados e episódios que podem nos ajudar a ter um entendimento mais amplo e livre sobre o assunto. Assim, idealizei esta série, composta por alguns capítulos fartamente ilustrados e que já estão quase todos prontos, de maneira que eu não devo ter intervalos tão longos entre uma postagem e outra.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje farei <strong>provocações iniciais</strong> e pretendo esclarecer alguns conceitos no campo da semântica mesmo, e da antropologia, que é pra gente combinar a que está se referindo quando disser uma coisa ou outra.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Depois, teremos uma breve história da <strong>Arábia pré-islâmica</strong> e a importância do <strong>surgimento de Maomé</strong> naquele tempo e espaço específicos, o que ajuda a explicar a rápida disseminação de sua doutrina.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">No capítulo seguinte,  daremos uma olhada no período de <strong>expansão territoria</strong>l e o surgimento das  primeiras <strong>dissenções</strong> (a gente escuta tanto falar em xiitas e sunitas:  quem são eles, quando se dividiram, quais as suas principais  diferenças?).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A seguir, veremos as <strong>contribuições dos muçulmanos no campo da ciência e cultura</strong> (especialmente a literatura e a nossa  herança linguística via portugueses-espanhóis).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Aí entraremos no capítulo  específico de <strong>Artes e Arquitetura</strong>. Falaremos dos arcos em ferradura, das mesquitas,  dos minaretes, ds mosaicos belíssimos, dos palácios e do Taj Mahal, um  dos monumentos funerários mais conhecidos do mundo.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">E como fechamento, uma  <strong>análise das cidades e dos traçados urbanos</strong>, buscando explicar a forma  tão característica das cidades muçulmanas à luz da cultura e de uma  sabedoria interessante em termos de conforto ambiental. E  reconheceremos, mais uma vez via colonização portuguesa, alguns  elementos e desenhos tão comuns nas nossas cidades coloniais, aqui no Brasil.<br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O objetivo geral será provocar uma reflexão sobre a diversidade de um mundo que tendemos a generalizar de forma muito reducionista, e enxergar esse que é o &#8220;Outro&#8221; por excelência no nosso mundo ocidental menos sob o enfoque de certo/errado, civilizado/bárbaro, moderno/conservador, e mais do ponto de vista da diferença mesmo, e de como, no meio dessa diferença, temos tantas coisas e humanidades em comum. O que vocês acham? Vou indicar livros, fontes diversas e principalmente muitos filmes (para os quais aceito sugestões).</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Diversidade</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A verdade é que, pra nós, esse é um pessoal muito esquisito mesmo. E a gente tende a olhar com desconfiança, quando não com medo e hostilidade pra tudo o que é muito diferente de nós. Se é tão diferente, não pode ser bom. Ou certo. Porém, especialmente a partir dos ataques às torres gêmeas de Nova York, em 2001, a gente tende a associar rapidamente muçulmano com Oriente Médio, terrorista, mulher de burca, guerra, intolerância, pouca participação política. E não é por acaso. Mas eu falo disso daqui a pouco.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O que eu quero afirmar é que o mundo muçulmano é extenso, rico e diverso, e qualquer generalização é empobrecedora da visão que se pretende ter. Pra nós, eles podem ser gente esquisita. Mas vamos relativizar: nós somos esquisitos pra eles também. Olhar para culturas diferentes requer um exercício de empatia, um esforço de – nem que seja por uma fugaz fração de tempo, conseguir se colocar no lugar do outro, e tentar ver o mundo como ele o vê.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje, o Islamismo é a religião em mais rápida expansão no mundo, com 1.3 bilhões de fiéis, cerca de 20% da humanidade (é a maior religião do mundo, considerada individualmente. O Cristianismo tem mais fiéis, mas que estão divididos em variadas denominações e igrejas: católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais etc). Ou seja, não temos saída a não ser repensar a convivência com este “Outro”.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Esta imensa população muçulmana habita um vasto arco no planeta, que vai da África Ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e a Índia. Algumas vezes, são maioria da população local, outras vezes são importantes minorias. As migrações intensas que caracterizam nosso mundo contemporâneo já formam  enclaves consideráveis de grupos muçulmanos em diversos países da Europa e das Américas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-800" title="Image-001" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg" alt="" width="750" height="535" /></a><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Este mundo é diverso quanto às histórias, etnias, línguas, tradições sociais, maneiras de ver e conviver com o mundo, com o meio ambiente e com os vizinhos. Como traço comum, eles têm o Islã, a religião. Mas mesmo aí há contrastes: nas formas rituais e sociais, e até no núcleo de crenças e maneiras de aplicá-las à sociedade. Nem tem como ser diferente. O Islã surgiu há mais de 1400 anos e se espalhou, como acabamos de ver, por três continentes, onde teve contato com sociedades variadas, algumas milenares, e encontrou em cada lugar condições diferentes entre si, que geraram mesclas diferentes.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma questão de terminologia</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A primeira coisa, portanto, é tentarmos tecer alguns esclarecimentos semânticos, para desfazer confusões terminológicas.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Pra começar, <strong>árabe</strong>: termo que se refere a uma etnia, oriunda da península arábica (olha o mapinha aí embaixo, com a divisão político-territorial de hoje). E como já vimos, há muçulmanos de outros outros povos, malaios, africanos, iranianos (de origem persa), turcos, hindus. E mesmo entre os árabes, há os que professam outras religiões, ainda que sejam minorias. Portanto, <strong>muçulmano não é sinônimo de árabe</strong>. Nem de palestino, que por sinal também não é árabe.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg"><img class="size-full wp-image-801" title="arabian_peninsula_map" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg" alt="" width="441" height="371" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog/2009/07/iemen/</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Oriente Médio:</strong> diz  respeito a uma região geográfica em particular, maior que a Península  Arábica, e que é apenas uma fração do território hoje ocupado pelos  muçulmanos (numericamente falando, menos de 30% de todos os muçulmanos  do planeta estão ali). Além disso, há no Oriente Médio importantes  nações muçulmanas de povos não-árabes, como turcos e curdos, e mesmo  nações não-muçulmanas (ou pelo menos não majoritariamente muçulmanas),  como Israel. Além de grupos e populações de outras religiões em várias  dessas nações (cristãos e ortodoxos no Líbano, na Síria, em Israel etc).  Aliás, a própria designação daquela região geográfica como Oriente  Médio é discutível. O termo é evidentemente eurocentrista, de origem  inglesa, e data do século XIX, quando o império britânico controlava um  quarto da Terra. Também não podemos esquecer que historicamente o  Oriente Médio se encontra na encruzilhada de múltiplas influências  culturais e foi, durante séculos, o ponto de comunicação, tanto por mar  quanto por terra, entre a Europa e as civilizações orientais (Índia,  China e sudeste asiático). Se a gente ainda pensa que após séculos de  supremacia islâmica as potências européias ocuparam e retalharam a  região a partir do século XIX, segundo seus interesses e em prejuízo da  população local, o que é (mais uma) fonte de grande humilhação e  ressentimento desses povos em relação ao mundo e aos valores ocidentais,  e pra culminar grande parte do petróleo do mundo está ali, começamos a  entender a importância estratégica dessa região e a cobiça de tantas  nações pelo controle desse território.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_802" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg"><img class="size-full wp-image-802" title="ori_medio_mapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg" alt="" width="515" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/conflito_israel_x_palestina</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Muçulmano:</strong> termo  que se refere a um fenômeno sociológico, cultural, e que tem uma  abrangência muito maior, envolvendo muitos aspectos para além do  fenômeno religioso.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Islâmico:</strong> termo que  diz respeito especificamente à religião. Por isso a minha preferência  em me referir às cidades como sendo muçulmanas, e não necessariamente  islâmicas. Vou dar exemplos: Teerã, capital do Irã, pode ser considerada  uma cidade islâmica. Mas Istambul, capital da Turquia, ainda que de  maioria muçulmana, não é islâmica. O estado turco é laico, e o arcabouço  jurídico-institucional que rege a vida dos cidadãos de Istambul não se  baseia na <em>shariah</em> (a lei islâmica, interpretada pelos  religiosos), mas em leis laicas. <strong>UPDATE ANTES TARDE DO QUE MAIS TARDE:  A capital da Turquia é Ankara e não Istambul, embora esta cidade (a antiga Constantinopla e, antes disso, Bizâncio) ainda seja uma das mais &#8211; senão A mais &#8211; conhecida e importante do território turco. </strong><br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A sobreposição dessas definições tem origem num raciocínio simplista: os árabes moram no Oriente Médio e são majoritariamente muçulmanos. Daí para serem majoritariamente fundamentalistas e terroristas não custa muito. Eu tenho cá pra mim que há um certo interesse ideológico, hoje mais que nunca, em que essa confusão permaneça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">De fato, originalmente, os termos árabe e muçulmano coincidiam, quando a religião nasceu ali, em Meca, e se expandiu primeiramente pela Península Arábica, onde rapidamente converteu quase todos os habitantes. Depois, a expansão do Islã levou à conquista do Oriente Médio (sempre vale repetir: maior e mais amplo do que os países árabes), que adotou em grande escala a língua arábica e a fé islâmica. E num terceiro momento alcançou outras partes do planeta, de forma que – eu volto a frisar – o mundo muçulmano hoje é muito mais amplo e diverso do que o mundo árabe ou mesmo do que o Oriente Médio. Claro que aquela região tem um peso ideológico grande, afinal, foi ali que nasceu Maomé, e o árabe é a língua sagrada do Alcorão. Ainda que nem todos os muçulmanos falem necessariamente árabe, diga-se de passagem.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Por outro lado, islamismo e islamista têm sido termos utilizados para se referir ao movimento religioso radical do Islã político, o tal do fundamentalismo. Portanto, é confuso e incorreto falar em islamismo como sinônimo de Islã, como acontece às vezes em português. A teoria política do Islã prescreve a unidade de todos os fiéis numa única comunidade (<em>ummah</em>), pressupondo uma unidade política, que chegou a existir nos primeiros dois séculos, mas rapidamente se desfez. A própria diversidade de experiências sociais, políticas e culturais encontradas nas vastas terras conquistadas fez com que o mundo muçulmano tenha sempre sido e continue sendo muito dividido. Como a religião ocupa uma parte muito central e essencial na cultura muçulmana, as divergências internas comportam debates sobre o papel das leis religiosas (<em>shariah</em>) na vida pública e privada, comportam leituras fundamentalistas dos textos sagrados que municiam ideologicamente grupos terroristas, e comportam o pensamento de grupos menos conhecidos (e eu sempre me pergunto: a quem interessa que esses grupos sejam menos conhecidos por nós?) do Marrocos à Malásia, que, com base na mesma religião, lutam pela democracia e pelo diálogo pacífico com outras civilizações. E por fim, eu pergunto: essas mesmas divergências e extremismos não existem também entre os seguidores de outras fés, como judeus e cristãos? Quantas atrocidades já foram e continuam a ser cometidas em nome de Deus e brandindo Bíblias e Torás?</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Mas afinal, o que quer dizer Islã?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A tradução do árabe, literalmente, quer dizer <strong>submissão, rendição à vontade de Allah.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">É fundamental entender que o Islã é uma religião tão expansionista e reinvindicadora do monopólio da verdade quanto o cristianismo. Porém, de forma mais radical e total, o Islã abrange<strong> todas as esferas da vida </strong>de seus seguidores:<strong> </strong>é uma religião (crenças, rituais, normas, fonte de consolação), mas também é uma comunidade (<em>ummah, </em>em árabe) e um modo de viver ou tradição (<em>sunna</em>), que regulariza todas os aspectos da vida: o modo de viver dos indivíduos e as etapas de seu desenvolvimento, a educação, as relações entre homens e mulheres, a vida familiar e comunal, o comércio e o governo, a justiça e a filosofia. Ou seja, enquanto para nós, ocidentais, a religião pertence à esfera da vida privada, para os islamistas, este conceito não existe, e a religião regula toda a vida da comunidade, pública, política e privada. Em consequência dessa onipresença da religião, o Islã é o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações submetidas a ele.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O Islã é também um <strong>sistema jurídico-religioso total: </strong>edificado nas bases sagradas dos prímeiros séculos e que continua evoluindo, com toda a complexidade já exposta. Sua estrutura hierárquica pressupõe a igualdade entre os fiéis. Os legistas especializados são intérpretes da vontade de Deus e não mediadores ou representantes divinos.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>E a Jihad, o que é?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Segundo o Alcorão (e no próximo post sobre o assunto veremos em que circunstâncias isso foi escrito), o primeiro dever de um muçulmano consiste em construir uma sociedade justa e igualitária, em que pobres e fracos sejam tratados com respeito. Isso demanda uma <em>jihad</em>, cuja tradução literal deveria ser a de<strong> “luta ou esforço em favor de Deus”</strong>. Ou seja, a <em>jihad</em> mais importante é a que o fiel trava consigo mesmo, a disciplina de transformação interior que leva ao compromisso total com Deus. Poderia ser ainda traduzida por militância, em todas as frentes: espiritual, política, social, pessoal, econômica e militar. Daí sua aplicação também como “guerra santa”, tendo tido grande impacto na rápida expansão islâmica. A mobilização pela fé muitas vezes se fez através da guerra. Mas não pode ser reduzida a esta tradução.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Vou terminar explicitando e recomendando fortemente a bibliografia em que me baseei para as reflexões e dados expostos hoje. Em primeiro lugar, sempre, recomendo os livros (e são vários) da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong?referer=');"><strong>Karen Armstrong</strong></a>. Ela é uma inglesa, ex-freira, formada pela Universidade de Oxford e atualmente grande e respeitada estudiosa das religiões. Leciona numa faculdade de estudos do judaísmo e formação de rabinos, e é a mesmo tempo membro da Associação Muçulmana de Ciências Sociais, com prêmios concedidos por várias organizações de estudos islâmicos. Entre seus livros mais famosos estão <span style="text-decoration: underline;">Uma História de Deus</span> (1994), <span style="text-decoration: underline;">Jerusalém, uma cidade, três religiões</span> (2000), e <span style="text-decoration: underline;">A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias</span> (2006). Além, é claro, deste que eu usei aqui, que foi o primeiro que eu li e pelo qual me apaixonei, chamado <span style="text-decoration: underline;">Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo</span> (2001). Todos foram editados no Brasil pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.companhiadasletras.com.br/?referer=');">Companhia das Letras</a>, têm linguagem envolvente, narrativa fascinante, não requerem nem grandes conhecimentos prévios nem nenhuma crença ou espiritualidade por parte do leitor, já que os temas são encaminhados da maneira mais isenta possível, ainda que se perceba que a autora é, pessoalmente, uma mulher de tocante fé religiosa, e de uma visão profundamente humanista.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O segundo livro usado hoje se chama <span style="text-decoration: underline;">O Mundo Muçulmano</span> (2004), de autoria de <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921&amp;referer=');"><strong>Peter Demant</strong></a>, e publicado pela <a href="http://www.editoracontexto.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.editoracontexto.com.br/?referer=');">Editora Contexto</a>. Demant é um historiador holandês, especialista em Oriente Médio, cuja tese de doutorado tratou sobre a ocupação e colonização israelense nos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém na década de 90, como pesquisador na Universidade Hebraica e membro ativo nos diálogos pela paz entre acadêmicos israelenses e palestinos. Mora no Brasil desde 1999, onde dá aulas no Departamento de História da USP. Eu achei o livro dele muito, muito claro, organizado didaticamente, de maneira a nos levar a entender os contextos históricos do surgimento do islamismo e da eclosão das ondas fundamentalistas que varrem o Oriente Médio há tantas décadas, sem descuidar de questões importantes em  vários outros lugares em que o islamismo é a religião principal. Foi nesse livro que eu li pela primeira vez e aprendi sobre os interesses e problemas envolvidos na criação do Estado de Israel em 1948, pela ONU, sobre as guerras de Israel com Egito, Síria e Líbano, sobre a ascensão dos aiatolás no Irã, sobre a Primeira Guerra do Golfo, sobre a disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e muitas outras coisas. Vira e mexe eu pego de novo para consultar alguma coisa.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Embora com enfoques diferentes, ambos apresentam dados solidamente fundamentados e um pequeno dicionário ao final, com esses termos todos do árabe que a gente às vezes escuta e não sabe o que querem dizer.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Deixo vocês, também, com uma pequena lista de filmes, entre os que eu assisti, e que me ajudaram a rir, a me emocionar, a me reconhecer, a estranhar e a aprender muita coisa que desmitificou esse universo e esses lugares para mim. Outras contribuições, tanto bibliográficas quanto cinematográficas são muito bem-vindas. No próximo capítulo, a <strong>Arábia pré-islâmica e o aparecimento de Maomé</strong>. </span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Fahreinheit 11 de setembro (Fahreinheit 9/11)</strong>, EUA, 2004. Dir: Michael Moore. Documentário sobre como os ataques foram o pretexto perfeito para a guerra contra o Afeganistão e, mais tarde, o Iraque.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma amizade sem fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran)</strong>, França, 2003. Dir: François Dupeyront. Romance fofo sobre a amizade, num bairro pobre de Paris da década de 60, entre um dono de armazém muçulmano (Omar Shariff, impagável) e um menino judeu. Trilha sonora deliciosa.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Cruzada (Kingdom of Heaven)</strong>, EUA, 2005. Dir: Ridley Scott. Não que seja um filmaço, mas tenta ver as Cruzadas e a disputa por Jerusalém também por ângulos outros que não só o ponto de vista cristão. A fotografia é linda.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Munique (Munich)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Spielberg.Sobre o atentado que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 e a vingança orquestrada por Israel contra os que idealizaram e participaram dele. O ponto de vista é judaico, mas o incômodo pela brutalidade e pela inutilidade do ódio, que aparecem de vez em quando no personagem principal são válidos.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Syriana – a indústria do petróleo (Syriana)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Gaghan. A politicagem por trás da indústria do petróleo e como isso move guerras e gera lucros monstruosos (em todos os sentidos).<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>O caminho para Guantánamo (The road to Guantánamo)</strong>, EUA, 2006. Dir: Mat Whitecross e Michael Winterbottom. </span><span style="color: #000000;">D</span></span></span></span><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">ocumentário sobre</span> <span style="color: #000000;">as arbitrariedades das prisões de suspeitos em Guantanamo, a partir da história de três muçulmanos britânicos que ficam presos 3 anos sem acusação formal.</span> </span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Babel (Babel)</strong>, EUA, 2006. Dir: Alejandro Iñárritu. Nem sei bem por que eu incluí esse aqui, porque envolve tantos outros temas, mas eu gostei muito. E o mote para toda a ação começa numa explosão que quase mata uma turista americana no deserto do Marrocos, e toda a intrincada rede que se forma a partir daí, envolvendo comércio de armas, imigração ilegal, choque de culturas e solidão.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the Bridge: The Sound of Istambul)</strong>, 2005. Dir: Fatih Akin. Não sei de quem ou de onde é a produção. É um documentário também, que explora a riqueza e diversidade da cultura turca, através de uma viagem pela música, pela gastronomia, pelos pontos turísticos principais e pela observação e contato com as pessoas comuns da cidade.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>O caçador de pipas (The Kite Runner)</strong>, 2007. Dir: Marc Forster. Certamente é uma produção multinacional, mas com participação americana (eu não sei de onde mais). Eu gostei bem mais do livro que do filme, que dá uma “dourada de pílula”, mas é um olhar interessante sobre o Afeganistão, vale a pena.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Persépolis (Persepolis)</strong>, França/Irã, 2007. Dir: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Agora estamos chegando onde interessa. Animação GENIAL, em preto e branco, baseada nas histórias em quadrinho criadas pela iraniana Marjane Satrapi (que também faz a adaptação do roteiro), sobre a vida de uma menina (a história é narrada e apresentada do ponto de vista dela, da infância à vida adulta), sua família, seus dilemas quanto à identidade cultural e participação política no Irã, a partir da Revolução Islâmica. Imperdível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Lemon Tree 	(Etz limon)</strong>, 2008. Dir: Eran Riklis. A produção é parcialmente israelense? Não lembro, não achei a informação. É provavelmente o meu preferido dessa lista toda. Uma viúva palestina sobrevive da plantação de limões. Um dia um ministro de Israel acaba virando seu vizinho e por motivos de segurança, exige que ela derrube todos os limoeiros. Tocante, lindo, angustiante. Com minha atriz palestina preferida, Salma Zidane.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>A banda (Bikur Ha-Tizmoret)</strong>,<span style="text-decoration: line-through;"> Egito</span>, Israel, 2007. Dir: Eran Korilin. Tem momentos engraçados, mas eu não chamaria de comédia. Uma banda da força policial egípcia vai a Israel tocar na inauguração de um centro de artes muçulmano, mas acaba parando na cidadezinha errada. Eles não falam hebraico, os habitantes não falam árabe. Mas a comunicação é possível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Valsa com Bashir (Waltz with Bashir)</strong>, Israel, 2008. Dir: Ari Folman. Outra animação. Dura, realista, amarga, parcialmente autobiográfica. Um veterano israelense da guerra contra o Líbano revisita suas memórias, os motivos e os cenários do conflito. Barra pesada, mas muito bom.<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Caramelo (Sukkar Banat)</strong>, Líbano, 2007. Dir: Nadine Labaki. Já falei desse filme <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">aqui</a>. O cenário é exatamente a Beirute pobre e ainda devastada pela guerra de que trata o filme citado aí em cima. Num salão de beleza transitam mulheres diferentes, com seus dramas pessoais, nos quais a gente consegue se reconhecer tão pungentemente quanto identificar diferenças imensas. Eu amei.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Tem muitos outros, ótimos. <strong>A noiva Síria</strong>, <strong>Procurando Elly</strong> (um iraniano do ano passado que eu acabei não vendo e estou esperando sair em dvd), <strong>Free Zone</strong>, do Amos Gitai, um outro americano recente que eu não consigo lembrar o nome, sobre a relação de amizade improvável mas bonita entre duas moças, professoras do ensino fundamental de uma escola nos EUA, sendo uma de família ortodoxa judia, e a outra de origem palestina. Um fantástico, prêmio pra quem lembrar o nome, sobre dois irmãos palestinos que se transformam em homens-bomba para um atentado do lado judaico, e os conflitos de consciência de cada um. Tem o próprio <strong>Guerra ao Terror</strong>, que ganhou o Oscar desse ano, mas eu não vi, não posso opinar. Lembrem mais e partilhem.</span></span></span></p>
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		<title>Um contraponto</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/23/um-contraponto/</link>
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		<pubDate>Sun, 23 May 2010 17:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_780" class="wp-caption alignleft" style="width: 273px"><a href="http://instinctalternative.blogspot.com/2010/04/artigo-brasilia-50-anos-feliz.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/instinctalternative.blogspot.com/2010/04/artigo-brasilia-50-anos-feliz.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-780" title="16 abr 1960" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/16-abr-1960-263x300.jpg" alt="" width="263" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p></div>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de <strong>50 anos de Brasília</strong>, nossa capital idealizada e construída sob a égide do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo?referer=');">Movimento Modernista</a>.</p>
<p>Antes de qualquer outra coisa, quero saudar os candangos, o povo todo que faz de Brasília, entendida em sua totalidade e não apenas reduzida a seu Plano Piloto, uma cidade realmente especial, múltipla, com tanto a nos ensinar. Quero dizer que, como arquiteta e urbanista, considero Brasília um momento importantíssimo na história do planejamento urbano, tanto no Brasil quanto no mundo, e um laboratório sem igual para a análise e o aprendizado de modelos, propostas, soluções. Repudio a redução que muita gente faz de Brasília, como se a cidade se resumisse às mazelas da classe política que mal e mal habita seu território quando comparece às sessões do Congresso.  Brasília é muito mais do que o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio da Alvorada, o Senado e a Câmara, muito mais inclusive que as superquadras imaginadas por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcio_Costa" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/L_C3_BAcio_Costa?referer=');">Lúcio Costa</a>. Brasília é também Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina, Ceilândia, é todo o povo que foi trabalhar na sua construção, saído de tudo que é lugar do Brasil, e que não foi considerado na hora de prever habitação para todos. O povo e seus descendentes que ficaram ali, em volta do Plano Piloto, e que hoje demandam serviços públicos, equipamentos de saúde, educação, lazer, infra-estrutura, transporte coletivo.</p>
<div id="attachment_786" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><a href="http://doc.brazilia.jor.br/Cidades.htm" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/doc.brazilia.jor.br/Cidades.htm?referer=');"><img class="size-full wp-image-786" title="DF-ampliado" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/DF-ampliado2.jpg" alt="" width="700" height="456" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de satélite, de 1990, mostrando a ocupação em torno do Plano Piloto</p></div>
<p>Brasília é uma conquista imensa para o Brasil. O Rio de Janeiro pode ter tido perdas consideráveis com a mudança da capital, e até hoje se ressente do esvaziamento que isso causou, embora eu acredite que esteja mais do que na hora de superar isso e olhar pra frente, ocupar seu lugar no país. Um país como o Brasil tem espaço para o destaque e a importância de muitas cidades. Sem dúvida que a interiorização da capital levou crescimento às áreas centrais do território brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento de Goiânia, de Belo Horizonte, do Triângulo Mineiro, de partes do Nordeste, entre tantas outras regiões ao longo do eixo que liga Brasília aos centros de poder econômico do sudeste.</p>
<p><a href="http://www.nosrevista.com.br/2010/03/23/o-cinquentenario-de-brasilia-df/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.nosrevista.com.br/2010/03/23/o-cinquentenario-de-brasilia-df/?referer=');"><img class="alignleft size-medium wp-image-782" title="brasiliamapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/brasiliamapa-300x276.jpg" alt="" width="300" height="276" /></a>Sobre a análise do traçado de Brasília, os princípios funcionalistas de sua concepção, e até sua arquitetura, que inclui alguns ícones da produção de <a href="http://www.niemeyer.org.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.niemeyer.org.br/?referer=');">Oscar</a> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer?referer=');">Niemeyer</a>, numa fase de apogeu do mestre, e todas as suas consequências, hoje, para a integração e desenvolvimento democrático do conjunto do Distrito Federal, eu vou sugerir dois livros e uma visita. Os livros são:</p>
<p><a href="http://books.google.com.br/books?id=8fYRTXWG5cYC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=A+cidade+modernista,+James+Holston&amp;source=bl&amp;ots=4OA6sQ8npz&amp;sig=_I_nawSA_-67LPekDloP6qzUJnY&amp;hl=pt-BR&amp;ei=B1j5S-HIDImmuAfCh_W9Dg&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=1&amp;ved=0CBgQ6AEwAA#v=onepage&amp;q&amp;f=false" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/books.google.com.br/books?id=8fYRTXWG5cYC_amp_printsec=frontcover_amp_dq=A+cidade+modernista_+James+Holston_amp_source=bl_amp_ots=4OA6sQ8npz_amp_sig=_I_nawSA_-67LPekDloP6qzUJnY_amp_hl=pt-BR_amp_ei=B1j5S-HIDImmuAfCh_W9Dg_amp_sa=X_amp_oi=book_result_amp_ct=result_amp_resnum=1_amp_ved=0CBgQ6AEwAA_v=onepage_amp_q_amp_f=false&amp;referer=');"><strong>A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia</strong></a>, de James Holston, publicado pela Companhia das Letras, em 1993.<br />
<a href="http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/33/textos/931/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/33/textos/931/?referer=');"><strong>O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital</strong></a>, de Milton Braga, publicado pela Cosac Naify, este ano.</p>
<p>Claro que há inúmeros outros livros maravilhosos, eu destaquei esses dois porque o primeiro eu tenho e gosto muito dele, por incorporar uma análise que privilegia a questão da cidadania e da inclusão das várias Brasílias, numa perspectiva contemporânea, ao mesmo tempo que não descuida da história, das teorias e até das polêmicas que envolveram o concurso e a adoção daquele modelo específico. O segundo, porque foi recém-lançado, eu estou louca para comprar, e apresenta os outros projetos que participaram do concurso, com autoria de gente grande como os <a href="www.docomomo.org.br/seminario 6 pdfs/izaga-docomomo-2005-MMM.pdf" target="_blank">irmãos Roberto</a> (excelente artigo em pdf), <a href="http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.014/3223" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.014/3223?referer=');">Rino Levi </a>e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista_Vilanova_Artigas" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jo_C3_A3o_Batista_Vilanova_Artigas?referer=');">Villanova Artigas</a>, o que nos permite fazer comparações e até especulações interessantes.</p>
<p>A visita, imperdível para quem mora ou está no Rio, é à exposição<strong> As construções de Brasília</strong>, em cartaz no <a href="http://ims.uol.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/?referer=');"><strong>Instituto Moreira Sales</strong></a>, na Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 476, telefone 2274-2149), em cartaz até o final de julho, com entrada franca e visitas guiadas de 3a a 6a feira, sempre às 17 horas. Esta semana, entre os dias 24 e 28 de maio, acontece também um <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=312" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=312?referer=');">Seminário</a> que complementa a exposição. No <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=303" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=303?referer=');">site</a> do Instituto haverá outras informações sobre horários e endereço exato. Eu já combinei de ir sexta agora com uma amiga, no fim da tarde.</p>
<p>Uma das nossas primeiras colunas do <strong>Cidades Literárias</strong> foi justamente sobre Brasília, numa crônica de <strong>Clarice Lispector</strong>, vale a pena <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/19/cidades-literarias-clarice-lispector/" target="_blank">reler</a>.</p>
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		<title>Novidades</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/04/18/novidades/</link>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 14:29:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo  </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':-D' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento de aulas (e até no doméstico) e a uma desorganização geral da rotina. Aproveitei para escrever umas coisas que estavam atrasadas e que eu tinha prazo pra entregar. Aí, nesta semana que se encerrou havia entrega de trabalhos em quase todas as minhas turmas, o que quer dizer pilhas de coisas para corrigir, além de uma ansiedade extra, ligada à novidade a que eu me referi aí no título.</p>
<p>É que abriu um concurso para professor substituto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu me inscrevi. Muitos candidatos bons (eu dei uma olhada na lista e conhecia vários pelo nome, colegas com quem eu já trabalhei ou estudei) e um processo sumário: a banca faz uma análise do currículo e chama os que ela considera os melhores para a entrevista. Eu já participei de um concurso desses, dois anos atrás, e fiquei em segundo lugar, mas era uma vaga única e eu fiquei de fora. A inscrição foi na segunda, a entrevista foi na quinta e o resultado saiu na própria quinta de noite. Fui chamada para a entrevista (eu e mais 13 candidatos), que se revelou, na verdade, uma verdadeira arguição oral, clima de avaliação mesmo. Se eu soubesse que seria assim, talvez tivesse estudado, mas juro que não me preparei nesse sentido. Mesmo assim, devo ter me saído bem, porque, desta vez, <span style="text-decoration: underline;">eu passei</span>!</p>
<p>Estou feliz da vida e começo nesta segunda-feira (amanhã), provavelmente assumindo turmas de História da Cidade e do Urbanismo. A gente nem sempre se dá muito conta de como esses processos de seleção são emocionalmente cansativos. Depois que a Chefe de Departamento me telefonou, quinta de noite, para dar o meu resultado e me convocar para a reunião de amanhã, eu estava numa descarga de adrenalina tão grande que dormi agitada. Aí, na sexta, quando eu achei que finalmente teria tempo de vir aqui, acabei dormindo a tarde quase toda&#8230;</p>
<p>Enfim, bola pra frente. As disciplinas que eu lecionarei abarcarão, entre outros períodos, o século XIX, que é alvo do que eu pretendo estudar num possível (e, tomara que em breve) doutorado. Daí que eu tenho lido e estudado um pouco sobre o assunto. Esses dias, revendo livros e textos sobre os tratados e utopias que propõem cidades ideais, que proliferaram a partir do século XV, e se estendem, com características e premissas um pouco diferentes, até o século XIX, me deparei com o projeto d&#8217;<strong>A Cidade Industrial</strong>, do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier?referer=');">Tony Garnier</a> (que na verdade é do início do século XX, tendo sido apresentado pela primeira vez em 1904). Dá uma espiada no que ele diz, que eu comento em seguida:</p>
<p><em></p>
<div id="attachment_767" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><em><a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-767" title="Garnier-planta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/Garnier1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></em><p class="wp-caption-text">Zoneamento por usos na cidade de Tony Garnier</p></div>
<p>“Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximidade de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como energia, ou a conveniência dos métodos de transporte. Em nosso caso, o fator determinante para a localização da cidade é o afluente que é a fonte de energia; também existem minas na região, mas poderiam estar situadas mais adiante. O afluente está represado; uma usina hidrelétrica distribui energia, luz e calor par as fábricas e para a cidade toda. As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluente. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade, estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul</em> (NOTA: ele está falando no hemisfério norte, em que esta é a fachada mais ensolarada, ao contrário do hemisfério sul, em que a fachada que toma sol é a norte). <em>Cada um desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar possível sua expansão.</em></p>
<p><em>(&#8230;) Os estudos sobre o programa mais satisfatório para as necessidades morais e materiais dos indivíduos resultou no estabelecimento de regras a respeito do uso das estradas, da higiene, etc.; o pressuposto é o de que um certo progresso da</em> <em>ordem social que resultou na adoção automática dessas regras já foi alcançado, de modo que não será necessário decretar as leis efetivas. A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição da água, pão, carne, leite e suprimentos médicos, bem como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder público.”</em></p>
<p style="text-align: right;">(Tony Garnier: Prefácio a Une Cité Industrielle,<br />
retirado de FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997)</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/?referer=');"><img class="aligncenter size-full wp-image-768" title="GarnierCidadeIndustrialPerspectiva" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/GarnierCidadeIndustrialPerspectiva.jpg" alt="" width="500" height="258" /></a></p>
<p>Observe que essa proposta se alinha com o pensamento dito progressista (dito, por exemplo, por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Choay" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Fran_C3_A7oise_Choay?referer=');">Françoise Choay</a>, em seu livro<strong> O Urbanismo</strong>), de final do século XIX-início do XX, que acreditava MESMO que a indústria, a máquina, traria as soluções para uma cidade melhor. Melhor aqui quer dizer mais limpa, organizada, racional, higiênica, ordenada, próspera, veloz. A produção em massa baratearia custos e todos teriam acesso a todos os bens necessários – e isso inclui carros, para proporcionar a mobilidade requerida nesta cidade de avenidas largas e funções separadas em áreas distintas da cidade. Eu não tenho dúvidas (isso está escrito em mais de um livro, hohoho) de que <a href="http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm?referer=');">Le Corbusier</a> leu e foi influenciado por Tony Garnier. Se você reparar bem, a semente da cidade modernista, funcionalista, já está toda aí.</p>
<p>O que eu proponho a gente pensar é: quais desses paradigmas ainda estão vigentes, hoje, mais de um século depois? Esse modelo ainda nos serve? O que deu certo? O que deu errado? Quais seriam os &#8220;fatores determinantes&#8221; para uma cidade do século XXI? Que modelos ou propostas temos hoje para nossas cidades, diante das condições e perspectivas que estão colocadas diante de nós?</p>
<p>Vão pensando e escrevendo, que eu já volto.</p>
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		<title>Post roubado</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 15:29:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Viagem]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Hoje eu vou fazer uma safadeza, na maior cara de pau.</p>
<p>É que eu queria muito poder colocar um post novo no ar, e embora já tenha começado dois ou três, eles requerem tempo para serem burilados, tem coisas pra checar, links para adicionar, imagens, e isso toma algum tempo, que eu não estou tendo no momento. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje eu vou fazer uma safadeza, na maior cara de pau.</p>
<p>É que eu queria muito poder colocar um post novo no ar, e embora já tenha começado dois ou três, eles requerem tempo para serem burilados, tem coisas pra checar, links para adicionar, imagens, e isso toma algum tempo, que eu não estou tendo no momento. Fico devendo, especialmente para o Gutemberg, um post a mais sobre as cotas, porque acordei hoje de manhã pensando nisso, a partir do comentário dele, e me vieram umas imagens à cabeça que talvez facilitem eu explicar o meu ponto de vista.</p>
<p>Enquanto isso, pra não ficar com o blog meio abandonado, eu resolvi roubar, descaradamente, um texto que eu recebi recentemente por e-mail. Em minha defesa, devo dizer que anunciei, previa e publicamente, que faria isso, e o dono do texto não só autorizou como pareceu feliz com a idéia, então só me resta agradecer e partilhar. Estou falando do meu sobrinho, Thiago, que participa ativamente aí nos comentários. Ele é um rapaz jovem, prestes a completar 22 anos, e que está, no momento, passando uma temporada nos Estados Unidos, por conta de uma oportunidade de trabalho temporário e alguns estudos. Está em Houston, no Texas, e visitou recentemente, Nova Orleans. De lá, me mandou uma carta comprida, em que revela um olhar perspicaz, poético, atencioso, sobre a cidade e seus habitantes, inclusive aproveitando para observar e dar seu testemunho sobre alguns dos temas de que temos tratado aqui. Se fosse meu aluno, tinha tirado 10. Ocorre que, em muitas coisas da vida, ele está mais para meu professor. Sejamos todos aprendizes, e estamos conversados.</p>
<p><strong>HOUSTON</strong></p>
<p>Aqui não se respira o mofinho da história, só o <em>oil</em>. Ahhhh, o <em>oil</em>, todo mundo aqui é louco pelo tal petróleo, que ainda faz sucesso. E eles acreditam piamente que só eles têm. Ham! Tolinhos. Mas deixe estar.</p>
<p>Barzinho e violão, gente rindo e papeando com suas mesas e garrafas de cerveja na calçada dos botecos são retratos de um lugar bem distante como o Rio, porque Houstoniano não participa dessa felicidade. É tão Barra da Tijuca, tudo grandioso, avenidas largas, tudo distante, centros residenciais e centros comercias que quase não se falam. Transporte público é só para os abaixo da linha da pobreza houstoniana, como <em>yo</em>. Com carro valendo 500 pratas, todo mundo passeia com o seu, independente do estado de decomposição do carro e da pessoa. E junta a lógica estranha de trânsito daqui (em determinados momentos você pode &#8220;avançar&#8221; o sinal, há mais de um sinal na sua frente te indicando lados diferentes a seguir) e o picadeiro é cuidadosamente montado. Nunca vi tanto acidente de trânsito in my whole life. A combinação pessoa-que-sabe-dirigir-armada-com-pouca-paciência é perfeita pra formar um assassino em série aqui. Mas eu ando de busão e o sistema aqui funciona, no sentido de organização, mas é lerdo e nao é toda hora qque você tem onibus. É quase o oposto do Rio. Tem uma empresa de viação só. Nos pontos de ônibus geralmente há os horários daquela linha durante o dia. E dentro dele há um sistema eletrônico em que você lê a rua pela qual o ônibus tá passando e a respectiva transversal. E uma voz eletrônica  tipo a do metrô falando o que tá escrito ali.</p>
<p>A passagem custa U$1,25 no perímetro urbano, mas pode chegar a U$3,50, eu acho, que você deposita numa maquininha porque trocador aqui é coisa de faz-me rir. E aqui tem um &#8220;riocard&#8221;também. Nao tem a emoção dos ônibus no Rio&#8230; Andam sempre pela pista da direita e se houver uma pessoa no ponto, eles param, independente do desejo daquela pessoa de pegar esse ônibus. Não existe &#8220;dar sinal&#8221; por essas terras.</p>
<p>Em contraponto à lerdeza dos ônibus e doideira do trânsito, as casas são bem confortáveis. A política dos condomínios de townhomes aqui funciona e eles sao bem confortáveis, maquinas de lavar louça, secadora de roupas e lavadoras de roupas eficazes. Uma poupança de tempo incomparável. Você paga pouco pelo arcondicionado e pelo aquecedor. Mas algumas me parecem frágeis, sabia? Digo com relação a furacões&#8230; Falando em casas frágeis e furacões, let&#8217;s talk about New Orleans.</p>
<p><strong>NOVA ORLEANS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<div id="attachment_733" class="wp-caption aligncenter" style="width: 720px"><strong><strong><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/NovaOrleans.jpg"><img class="size-full wp-image-733" title="NovaOrleans" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/NovaOrleans.jpg" alt="" width="710" height="250" /></a></strong></strong><p class="wp-caption-text">Imagens de Nova Orleans: a bandinha, as luzes da cidade, a charrete</p></div>
<p><strong> </strong>Fomos de carro, o que já foi uma delícia pra conhecer um pouco de Louisiana e as peculiaridades da cidade. Logo que você chega nos limites da cidade, é recebido por uma rodovia que passa sobre um interminável pântano e descobri que ali naquela região as pessoas são &#8220;enterradas&#8221; acima da terra por conta das condições do terreno. Já pus isso na conta da primeira curiosidade de New Orleans que, confirmando comentários, é bem diferente de muita coisa que se vê por esses cantões do Tio Sam. Na região que fiquei, uma parte bem centralizada, a duas ruas da Bourbon Street (a rua bombante das baladas e fervos em geral), já me senti meio no Rio de Janeiro. Explico já.</p>
<p>Chegamos por volta de 9 da noite, era véspera de final do Super bowl (o Saints de New Orleans tava na final) e Mardi Gras (o carnaval de lá), resultado: o povo todo na rua, de diferentes lugares, doido pra se libertar. A rua do hotel foi fechada para a passagem de uma bandinha de carnaval que não era na rua do hotel! Olha que bonito. Prontamente perguntamos ao guarda que caminho tomar pra chegar ao hotel (sei lá, de repente com o papel de reserva do hotel eles eram autorizados a permitir a entrada dos hóspedes naquela rua em que nada acontecia). O guarda nao sabia o caminho, o nome damãe, nem onde tinha nascido. Perguntamos ao segundo que tinha tomado o mesmo chá de desconhecimento do outro. Preocupante despreparo pra receber turistas em épocas de festividades. Isso porque o centro da cidade nem é tão grande e a gente tava perguntando como ter acesso à rua que estava na nossa frente.</p>
<p>Anyway, largamos o carro num estacionamento e fomos andando. Check in feito, fomos dar uma caminhada pelas ruas e se ambientar. Aí começa a entrar o Rio de Janeiro. Sabe centro da cidade em épocas de carnaval? Aquelas ruelas antigas com prédios antigos de influência europeia misturados a grandes e semimodernos edifícios, com gente andando pra lá e pra cá, homeless e sobras etílicas pelas calçadas e nos cantos dos boeiros? Digno de rua Buenos Aires. E essa farra toda é reflexo de um fenômeno texano engraçado que ocorre sobretudo aqui em Houston, de proibir bebidas alcoólicas depois de 2 da manhã. Os &#8220;cana&#8221; sacam a cerveja da sua mão às duas da manha e te botam pra casa feito mãe revoltada. Em Nova Orleans essa regra é solenemente ignorada. Logo, os jovenzinhos se apinham pelos bares da cidade bebendo até dizer chega.</p>
<p>Mas voltando à coisa da aparência da cidade, quando você vai se metendo nas ruas, vê um bando de casas que parecem tão frágeis e todas elas de estrutura bem similar: ruelas com passagem para um carro e dos dois lados essas casas de dois andares que se assemelham a sobrados. Revestidas de madeira, são estreitas e pegadas umas às outras. E eu e minha ignorância, eternos companheiros gracas ao bom senhor, ficamos discutindo como esses sobrados tão antigos e até maltratados sobrevivem a maldades naturais. Who knows&#8230;</p>
<p>Uma outra coisa pitoresca que tem na cidade são os passeios de charrete, o mico que todo mundo gosta de pagar. Elas ficam paradas em fila como os taxis do Rio Sul e seus motoristas devidamente fantasiados (!!!) esperando os passageiros. Logo mais adiante, a gente achou a rua das antiguidades, uma rua preenchida por lojas que vendem belezuras de séculos passados: esculturas, quadros, móveis bizarramente bonitos do tipo Luiz XVI-guardou-suas-ceroulas-neste-armário-e-leu nessa-escrivaninha, mas como eu não sou o Estado, levar uma pena dessas lojas me custaria uma vida enrolado no cartão de crédito.</p>
<p>Agora, bonito é o rio Mississipi. Me lembrou tanto meu avô, sabia? Passa sereno pela cidade com pontes se estendendo sobre ele, pequenas embarcações passeando e gente caminhando nostalgicamente às margens dele. Mas no geral, tem ar meio underground, de gente errante, artistas falidos, ambientes escuros, cobertos por uma névoa noturna que se vê serpenteando sob a luz de um poste solitário de esquina, e abaixo dele, obviamente, um senhor mulato alquebrado tocando sax.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/RioMississipi1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-734" title="RioMississipi1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/RioMississipi1.jpg" alt="" width="800" height="600" /></a></p>
<p>Por enquanto a vida caminha assim&#8230; os altos e baixos diminuíram, mas ainda existem porque sou gente. Mas a felicidade há de chegar e eu tô bem na mira dela.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Mark Twain</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 02:34:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na Universidade Veiga de Almeida (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na <a href="http://www.uva.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uva.br/?referer=');">Universidade Veiga de Almeida</a> (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio novo e interessante para mim, sob vários aspectos. Uma mudança bastante significativa, principalmente em termos de rotina, é que o campus da  Universidade fica na Barra da Tijuca, que é um bairro do Rio bastante longe pra mim, com um trânsito complicado, e sobretudo, uma configuração urbana muito diferente do que eu estou habituada. Quero falar exatamente sobre isso depois, e sobre uma experiência quase, eu diria, antropológica, que eu tive ontem. Mas isso é depois.</p>
<p>Voltando, eu dou aulas por lá às terças e quintas. Um dos cursos é o de Design de Interiores, e estou num processo de imersão nesse novo universo pra mim. Mas dou também uma matéria chamada <strong>Planejamento Urbano</strong>, no curso de Gestão de Negócios Imobiliários. É uma turma grande, um pessoal mais velho, vários numa segunda graduação, a maioria buscando uma qualificação maior para ingressar ou se aperfeiçoar no ramo da corretagem de imóveis.</p>
<p>Na aula de ontem, eu estava falando com eles sobre o que é o estudo da morfologia da cidade, na tentativa de despertar uma maior sensibilidade para olhar &#8211; e ver &#8211; os vários elementos que compõem a estrutura urbana: as ruas, os prédios, as praças, a vegetação urbana, os padrões de parcelamento do solo, e até os monumentos e mobiliário. São todos peças que se relacionam e que ajudam a criar o espaço urbano, interferindo na percepção que temos dele e nas sensações que nos despertam.</p>
<p>É um tema que me apaixona. Especialmente quando falo das ruas e praças, espaços públicos tão importantes e tão esvaziados de tudo hoje &#8211; de significado, de usos, de conteúdo político.</p>
<p>(Calma que eu tou quase chegando no Mark Twain)</p>
<p>Aí, preparando a aula, na quarta-feira, eu tava pesquisando imagens para os slides. Eu queria falar da importância e das várias funções das ruas. Lá na Barra, especialmente, como em diversos outros locais de desenho modernista, as ruas são quase exclusivamente reduzidas à sua função de canal de deslocamento. Elas servem para a &#8220;circulação&#8221;, como dizia <a href="http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm?referer=');"><strong>Le Corbusier</strong></a> na <a href="www.icomos.org.br/cartas/Carta_de_Atenas_1931.pdf" target="_blank"><strong>Carta de Atenas</strong></a> (link em pdf). Você usa uma rua para ir de um lugar a outro. Ponto. E isso é tão pouco, tão empobrecedor. As ruas servem para fazer passetas, para eventos cívicos, servem para as crianças jogarem bola no final da tarde, para as pessoas sentarem na calçada e conversarem com os vizinhos. Servem como mercado, como ponto de encontro, no chopp da esquina, bebido de pé na calçada ou sentado no meio-fio, servem para passear com o cachorro, servem  para você cruzar com pessoas diferentes e quem, sabe, até, realizar pequenas trocas sociais, nem que seja respondendo a um passante desconhecido que horas são ou onde fica a rua tal.</p>
<p>Eu queria procurar imagens dessas coisas, e joguei no google: &#8220;crianças na calçada&#8221;, &#8220;velhinhos na calçada&#8221;, crianças na rua&#8221;, &#8220;brincadeiras na rua&#8221; e todo tipo de coisas semelhantes. As únicas imagens que atendiam ao que eu estava procurando eram velhas fotos em preto e branco, como essa aí embaixo, que ilustra esse post. De maneira geral, expressões com crianças ou velhinhos ou o que quer que seja na rua ou na calçada, só te devolvem imagens de sem-teto, pivetes, mendigos. Achei tão sintomático. E triste.</p>
<div id="attachment_436" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-436" title="mark-twain" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/mark-twain.jpg" alt="Olha a pinta da figura!" width="300" height="207" /><p class="wp-caption-text">Olha a pinta da figura!</p></div>
<p>No início da semana, sabendo que teria dias de muito trabalho e pouco tempo, eu já estava pensando em que autor escolher para hoje. E já tinha pensado em <strong>Mark Twain</strong>. Se você nunca leu Mark Twain, faça-o correndo. É delicioso, ele é mordaz, bem-humorado, ácido e doce na medida certa. Eu tenho um livro dele, de não-ficção, chamado <strong>Dicas úteis para uma vida fútil: um manual para a maldita raça humana </strong>(Ed. Relume Dumará,<strong> </strong>2005, tradução de Beatriz Horta), que é uma coleção &#8211; organizada postumamente &#8211; de pensamentos, pequenas crônicas, trechos de diário, cartas e conselhos:  divertidíssima! Mas depois da aula de ontem, eu não tive dúvida. Corri para <strong>As Aventuras de Tom Sawyer</strong>, e saiu isso aqui:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tom caminhou junto às casas e tomou uma rua enlameada, que dava para os fundos do estábulo onde a tia tinha a vaca. Passados momentos estava a salvo de que o apanhassem para o castigar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Então apressou-se para o largo da aldeia, onde os meninos, formados em duas companhias &#8220;militares&#8221;, deviam encontrar-se para um combate, segundo uma combinação prévia. Tom era general de um desses exércitos e Joe Harper &#8211; um amigo de infância &#8211; general do outro. Estes dois grandes comandantes não se dignavam combater em pessoa &#8211; o que competia a outros de menos importância -, mas ambos, sentados numa elevação do terreno, dirigiam as operações transmitindo ordens aos seus ajudantes-de-ordens. Depois de um longo e renhido combate, o exército de Tom saiu vitorioso. Nessa altura, contaram-se os mortos, trocaram-se os prisioneiros, combinaram-se os termos do próximo encontro e marcou-se o dia para ele. em seguida, os dois exércitos formaram e marcharam, cada um para seu lado, enquanto Tom voltava sozinho para casa&#8221;. </em></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-438" title="225_166-crianca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/225_166-crianca-300x199.jpg" alt="225_166-crianca" width="300" height="199" />Também vou deixar vocês aqui, com minha homenagem às brincadeiras de rua, à sociabilidade que eu ainda creio ser possível resgatar ou incrementar, ainda que de jeitos novos. Esse livro foi escrito em 1876. Cem anos depois, numa cidade do subúrbio, eu, bem pequena, brincava de queimado e pique-bandeira na rua em frente à minha casa na volta da escola, de tarde. Me ajudem a não parecer uma velha coroca resmungando por uma nostalgia ingênua e vazia. Uma cidade melhor é possível. Mas, do meu ponto de vista, passa necessariamente por espaços públicos com mais vida e mais trocas.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Patrick Süskind</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 00:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Paris]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de O Perfume, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume?referer=');"><strong>O Perfume</strong></a>, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir identificar com rara presteza e eficiência odores e componentes individuais de todos os perfumes existentes, e cuja característica pessoal mais estranha era não ter, ele próprio, cheiro algum. Há alguns anos, rendeu um <a href="http://www.imdb.com/title/tt0396171/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt0396171/?referer=');">filme</a> bastante interessante, que conseguiu captar quase todo o espírito do livro.</p>
<p>Mas por mais que uma imagem valha mil palavras, não houve, pelo menos para mim, imagem alguma que desse conta de transpor para a tela as sensações despertadas pela descrição que consta nos primeiros parágrafos do livro, e que eu selecionei para hoje. Eu fico imaginando viver em Paris nessa época&#8230; Ou em quase qualquer outra grande cidade do mundo. As condições de higiene e habitabilidade eram mesmo terríveis. Fiquei aqui pensando duas coisas. Uma é na nossa obsessão moderna com escamotear cheiros corporais, e como os cheiros e perfumes têm significados que vão tão além do &#8220;conforto olfativo&#8221;. Outra coisa que me ocorreu é que estas condições de (falta de) higiene e as sensações e consequências delas decorrentes  não diferem muito de hoje, em tantas de nossas favelas miseráveis. Mas nos nossos dias, acho que nada fede mais que o Congresso Nacional. Tapemos nossos narizes.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e arainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar  havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas.; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. e só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre&#8221;. </em></p>
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		<title>A volta ao mundo em muitos exotismos</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/17/a-volta-ao-mundo-em-muitos-exotismos/</link>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 18:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na coluna de sexta-feira retrasada, eu optei por selecionar um trecho de A cidade flutuante, em detrimento d&#8217;A volta ao mundo em 80 dias, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/07/cidades-literarias-julio-verne/" target="_blank">coluna de sexta-feira retrasada</a>, eu optei por selecionar um trecho de <strong>A cidade flutuante</strong>, em detrimento d&#8217;<strong>A volta ao mundo em 80 dias</strong>, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar esse livro, porque fala tão bem do que eu chamei de fascínio e estranhamento com outros povos e lugares, sentimentos bastante comuns ao século XIX. Aí, nesta última sexta, eu trouxe o <strong>Mário Quintana</strong>, e ele dá um beliscão no turista deslumbrado, que acha tudo exótico e pitoresco, como se ele representasse algum tipo de norma universal, e o resto do mundo fosse um zoológico que se visita para desfrutar de algo que está ali para o seu entretenimento. Achei perfeito.</p>
<p>Esse tema do turismo é quentíssimo, sei de bastante gente boa que tem estudado isso, suas implicações para a vida da cidade, o surgimento cada vez mais intenso e sofisticado não só de parques temáticos, mas de verdadeiras cidades temáticas cuja existência só faz sentido em função de um apelo de marketing e turismo, e uma série de críticas e reflexões que se estão construindo, pesando os aspectos econômicos e culturais envolvidos para a vida da cidade e seus cidadãos. E é algo que, se não surge efetivamente a partir do século XIX com todas essas questões que eu levantei, do surgimento e disseminação de novos meios de transporte encurtando distâncias e tempos, pelo menos tem, aí, o estabelecimento de bases materiais para começar a se desenvolver.</p>
<p>Tergiversei um pouco, mas o que eu queria era mostrar esse trechinho do Julio Verne, que complementa o que falamos nas últimas semanas: tem a avidez com que as pessoas no século XIX queriam conhecer novos mundos; tem uma visão que hoje parece bastante romântica, de um inglês visitando &#8220;terras exóticas&#8221; (embora nesse trecho específico, a paisagem seja vista por um francês); tem um texto que pode ser lido como o embrião das crônicas de viagem mais modernas; tem a própria descrição da paisagem, o que nos remete de novo ao texto do Quintana sobre o assunto (o narrador nos mostra uma paisagem, mas não nos impõe a paisagem, ele nos transporta para ela e permite que nós a vejamos com nossos próprios olhos do coração e da imaginação); mas não sei se tem esse ranço para o qual o Quintana nos alerta. Ou talvez eu seja muito indulgente com o Verne. Leia e me diga o que você acha. *</p>
<p><a href="http://quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-418" title="do-trem" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/do-trem-300x225.jpg" alt="do-trem" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não absorveu de imediato o fato de que ele estava realmente cruzando a Índia num trem. A locomotiva, guiada por um maquinista inglês e alimentada com carvão inglês, cuspia sua fumaça sobre plantações de algodão, café, cravo e pimenta, enquanto o vapor espiralava em redor de palmeiras, no meio das quais podiam se avistar bangalôs pitorescos, viharis (um tipo de monastério abandonado), e templos maravilhosos, adornados com os ornamentos inesgotáveis da arquitetura indiana. Então eles atravessaram vastos campos que se estendiam pelo horizonte, com selvas habitadas por serpentes e tigres, que fugiam ao ruído do trem; a estas se sucediam florestas rasgadas pela estrada de ferro, e ainda assombradas por elefantes que, com seus olhos pensativos, contemplavam o trem que passava. Os viajantes cruzaram, acima de Malligaum, as terras mortais, tão frequentemente manchadas de sangue, pelos seguidores da deusa Kali. Não muito longe dali se elevava Ellora, com seus graciosos pagodes, e a famosa Aurungabad, capital da temível Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias emancipadas do reino de Nizam&#8221;.</em></p>
<p><span style="color: #0000ff;">* Se alguém não conhece, a história narra as aventuras de um inglês muito rico e entediado, Phileas Fogg, que aceita uma aposta com seus amigos do clube londrino, de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, acompanhado de seu empregado, o francês Jean Passepartout. </span></p>
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		<title>Cidades Literárias: Mário Quintana</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 20:58:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem de repetir o mesmo autor duas semanas consecutivas. E depois, se deixar, eu fico falando só do século XIX. É uma paixão pessoal. E um interesse acadêmico. Mas é bom variar de vez em quando também.</p>
<p>Então decidi adiar mais um pouco o cumprimento das promessas, e dar um refresco. Vai daí que eu pensei em poesia, e puxei um <a href="http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.releituras.com/mquintana_bio.asp?referer=');"><strong>Mário Quintana</strong></a> da estante. Este livro tem um dos meus títulos preferidos: <strong>Da preguiça como método de trabalho</strong>. Não é uma delícia? Esbarrei nuns textos falando sobre a poética do habitar, que casaram tão bem com outros de mesma temática que eu li na Adélia Prado um dia desses. Ainda vou trazer a Adélia pra cá também. Mas estavam intimistas demais, e eu não queria fugir muito da proposta de discutir a cidade. Então achei outros dois, na verdade minicrônicas (eu ia dizer micro, mas soou esquisitíssimo). Não descrevem uma cidade em especial, mas falam da experiência de observar uma cidade diferente, ou uma paisagem diferente. Como alguns amigos estão saindo em viagem, podem aproveitar essa reflexão.</p>
<p style="text-align: right;"><em>O FORASTEIRO</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nada mais chato que nos quererem mostrar uma paisagem. Quando compreenderão que a gente as vê sem saber? E como se fossem elas que estivessem olhando para nós. Assim como o sol matinal nos entra janela adentro e fica aguardando o nosso despertar. Mas olhar detidamente uma paisagem que nos impingem é como ouvir um discurso de luzes e cores. Ninguém ouve um discurso por muito tempo: começa-se a pensar em outras coisas&#8230; É preciso que haja paulatinamente uma osmose entre nós e a paisagem. Uma paisagem é sempre grande em demasia: só quando reduzida em cartões postais &#8211; que aliás a gente manda para outras gentes&#8230; Quando se chega numa cidade, as belezas naturais da terra logo nos obrigam a vê-las e estão geralmente longe: uma estopada. Sou um tipo urbano. Eu gosto mesmo é de ficar no Centro, furungando cafés e livrarias; às vezes até encontro um livro meu, por descuido dos distribuidores. Mas há pior: é quando certos aborígenes nos levam a visitar monumentos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>EXOTISMOS</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Desconfio desses turistas que consideram exóticos os países visitados. ficam de fora, vendo o pitoresco em tudo: nas casas, nas roupas, nos costumes, nas crenças&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E nem desconfiam que a única nota exótica desses indefesos países são precisamente eles!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas isso ainda não é nada. Um dia os modernistas brasileiros descobriram o Brasil.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Que engraçado! &#8211; assaranharam-se em coro. -Mais um país exótico!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E surgiu daí essa infinidade de poemas-piadas, de tão pouco saudosa memória.</em></p>
<p>Eu achei fora de série essa percepção de que a paisagem também olha para nós, e que é preciso haver uma osmose entre nós e a paisagem, para que ela seja melhor apreendida. De fato, isso não se impinge a ninguém. Quanto ao último trecho, ele tem tudo a ver com o tal trechinho do Júlio Verne que eu não trouxe ainda, mas que agora vou ter que trazer. é exatamente a postura predominante nessas viagens e &#8220;descobertas&#8221; de que eu falava na semana passada, que espoucaram no século XIX. Que lição reconhecer que tantas vezes, o exótico somos nós. O que é saber relativizar, hein?</p>
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		<title>Cidades Literárias: Júlio Verne</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 21:08:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.</p>
<p>Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.</p>
<p>Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er&#8230;quer dizer&#8230; dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.</p>
<p>Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho  de<strong> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_Verne?referer=');">Júlio Verne</a>.</strong> Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época &#8211; submarinos, foguetes de viagem à lua &#8211; e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se <a href="http://es.bookmooch.com/detail/8498190614" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/es.bookmooch.com/detail/8498190614?referer=');"><strong>A cidade flutuante</strong></a><strong> </strong>(1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.</p>
<p>Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: <em>&#8220;Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida&#8221;</em>.</p>
<p>Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e <em>&#8220;escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos&#8221;</em>. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_396" class="wp-caption alignright" style="width: 251px"><em><a href="http://www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg?referer=');"><img class="size-medium wp-image-396" title="newyorkcity1860" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/newyorkcity1860-241x300.jpg" alt="Planta de Nova York em 1860" width="241" height="300" /></a></em><p class="wp-caption-text">Planta de Nova York em 1860</p></div>
<p>&#8220;Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d&#8217;<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours?referer=');">A volta ao mundo em 80 dias</a>, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?</p>
<p style="text-align: left;">Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.</p>
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		<title>(agora sim) Cidades Literárias: José Saramago</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 23:28:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de José Saramago. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas posições e opiniões como cidadão. Ensaio sobre a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de <strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jos_C3_A9_Saramago?referer=');">José Saramago</a></strong>. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas <a href="http://caderno.josesaramago.org/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/caderno.josesaramago.org/?referer=');">posições e opiniões</a> como cidadão. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_cegueira" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_cegueira?referer=');">Ensaio sobre a cegueira</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_intermit%C3%AAncias_da_morte" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/As_intermit_C3_AAncias_da_morte?referer=');">As intermitências da morte</a> estão entre alguns de meus livros favoritos. Eu certamente poderia extrair de qualquer um deles trechos ótimos pra esta série, mas tive vontade de partilhar um outro, simples mas que me tocou profundamente, e eu nem sei explicar bem por quê.</p>
<p>O livro se chama <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_pequenas_mem%C3%B3rias" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/As_pequenas_mem_C3_B3rias?referer=');"><strong>As pequenas memórias</strong></a> (Companhia das Letras, 2006) e nele o autor narra episódios e lembranças de sua infância e juventude, em Portugal, lá pelos idos das décadas de 30 e 40. É leve, gostoso, um pouco nostálgico, muito bem humorado e escrito numa linguagem um pouco mais direta e fluida do que a que ele utiliza em seus romances. A pontuação, por exemplo, é quase &#8220;normal&#8221; (Saramago quase nunca usa vírgulas ou pontos e jamais indica as falas dos personagens por travessões, aspas ou qualquer outro recurso em seus livros, o que confunde um bocado o leitor desavisado ou desacostumado).</p>
<p>Esse trecho que eu escolhi, em que ele fala da aldeia em que nasceu e onde viveu os primeiros anos de vida, não é um relato bem urbano, é quase rural, mas ao mesmo tempo diz tanto sobre mecanismos que atingem as vidas das pequenas e médias cidades, até hoje, sua economia, seu ritmo, e sobretudo, as vidas das pessoas que aí residem, e eu achei lindo, então está aí pra vocês:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, </em>as-zinaik<em>, &#8220;rua estreita&#8221;, o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância. Ignoro em que altura se terá introduzido na região o cultivo extensivo da oliveira, mas não duvido, porque assim o afirmava a tradição pela boca dos velhos, de que por cima dos mais antigos daqueles olivais já teriam passado, pelo menos, dois ou três séculos. Não passarão outros. Hectares e hectares de terra plantados de oliveiras foram impiedosamente rasoirados há alguns anos, cortaram-se centenas de milhares de árvores, extirparam-se do solo profundo, ou ali se deixaram a apodrecer, as velhas raízes que, durante gerações e gerações, haviam dado luz às candeias e sabor ao caldo. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em></em></p>
<div id="attachment_364" class="wp-caption alignleft" style="width: 399px"><em><em><a href="http://vi.sualize.us/view/f5b91562a6121bcc027c5e0403fd3883/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/vi.sualize.us/view/f5b91562a6121bcc027c5e0403fd3883/?referer=');"><img class="size-full wp-image-364" title="olivetrees" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/olivetrees.jpg" alt="Olive trees - Vincent Van Gogh" width="389" height="308" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Olive trees - Vincent Van Gogh</p></div>
<p><em>Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Européia pagou um prêmio aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitavam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos. Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui. Já sabemos que o milho é um cereal de primeira necessidade, para muita gente ainda mais que o azeite, e eu próprio, nos meus tempos de rapaz, nos verdes anos da primeira adolescência, andei pelos milharais de então, depois de terminada a apanha pelos trabalhadores, com uma sacola de pano pendurada ao pescoço, a rabiscar as maçarocas que tivessem passado em claro. Confesso, no entanto, que experimento agora algo assim como uma satisfação maliciosa, uma desforra que não procurei nem quis, mas que veio ao meu encontro, quando ouço dizer à gente da aldeia que foi um erro, um disparate dos maiores, terem-se arrancado os velhos olivais. Também inutilmente se chorará o azeite derramado. Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras, mas daquelas que, por muitos anos que vivam, serão sempre pequenas. Crescem mais depressa e as azeitonas colhem-se mais facilmente. O que não sei é onde se irão meter os lagartos&#8221;. </em></p>
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