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	<title>Urbanamente &#187; Cinema</title>
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		<title>Cisnes</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Feb 2011 01:58:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estar de férias é bom. Hoje eu fiz as unhas, almocei com uma amiga querida, com direito a algumas horas de conversa de mulheres &#8211; marido, filhos, trabalho, idade, nossa relação com o corpo e com o mundo (eu sei que é tremendamente clichê e reducionista chamar isso de &#8220;conversa de mulheres&#8221;, mas isso é outro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estar de férias é bom. Hoje eu fiz as unhas, almocei com uma amiga querida, com direito a algumas horas de conversa de mulheres &#8211; marido, filhos, trabalho, idade, nossa relação com o corpo e com o mundo (eu sei que é tremendamente clichê e reducionista chamar isso de &#8220;conversa de mulheres&#8221;, mas isso é outro assunto). Depois fui ao cinema.</p>
<p>Eu tinha em mente mesmo sentar e escrever hoje, o que eu ia postar já está até pronto, é sobre São Paulo, faltava só acrescentar algumas imagens e links e publicar. Mas estou sob tão forte impacto do filme que acabei de assistir que preciso falar dele enquanto ainda está tudo borbulhando.</p>
<p><a href="http://www.adorocinema.com/filmes/cisne-negro/trailers-e-imagens/"><img class="alignleft size-medium wp-image-946" title="cartaz_black_swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cartaz_black_swan-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a>Fui ver <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/cisne-negro/" target="_blank"><strong>Cisne Negro</strong></a> (The Black Swan), com o qual eu espero que a Natalie Portman ganhe o Oscar de melhor atriz esse ano.</p>
<p>Eu sou chorona e me envolvo emocionalmente com personagens e histórias, em filmes e livros. Por tudo o que eu já tinha lido e ouvido falar sobre este filme, eu esperava mesmo me impressionar. Só que eu não chorei desta vez. Fiquei tensa e atenta, acompanhando a história crescer. Atenta às minhas emoções e às angústias da personagem, analisando cenas e diálogos, processando imagens, luz, cores, enquadramentos, atuações. Enlevada com a excelência de tudo, as escolhas perfeitas de todos os detalhes. Mas na hora que o filme acabou e começaram a subir os créditos, eu me vi colada na cadeira; subitamente as lágrimas brotaram grossas e eu precisei me esforçar para conter uma forte crise de choro ali mesmo. Estou me segurando até agora, embora não consiga parar de tremer. Respirei fundo, fui ao banheiro lavar o rosto, as palavras começaram a jorrar na minha cabeça e eu achei melhor sentar para tomar um café e escrever (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2011/02/04/antes-tarde/" target="_blank">a cadernetinha, lembra?</a>). Neste exato momento estou em casa passando a limpo o que saiu às pressas ao longo de uma grande xícara de capuccino.</p>
<p>Uma das coisas deliciosas do bom cinema (cada um sabe o que considera bom) é justamente permitir leituras várias, na medida em que encontra em cada espectador terrenos diferentes, predisposições diferentes, e desperta fantasmas, feridas, resistências, crenças, lembranças e afetos diferentes. Nenhuma dessas leituras invalida a outra, todas se enriquecem e complementam, numa grande e coletiva recriação da obra. Aliás, é por isso que eu odeio quando perguntam pra meninos e meninas de escola, obrigados a ler livros que não desejam porque &#8220;cai no vestibular&#8221;: o que o autor quis dizer com&#8230;? Porra, eu sei lá? Faz diferença? No máximo &#8211; e já é muito se eu der conta disso &#8211; eu sei o que aquilo disse pra mim, o que eu senti naquele momento, e que pode ser diferente do que eu sentirei se reler em outro momento da vida.</p>
<p>Meu café acabou e eu estou mais calma. A partir de agora, eu devo alertá-los de uma coisa. Se você não viu o filme ainda, é hora de parar aqui e voltar depois. <strong>Daqui pra diante é só spoiler, por sua conta e risco.</strong> Se você já viu, ou não vai ver, ou não se importa de saber previamente de cenas e desfechos, fique à vontade para entrar na conversa.</p>
<p>Basicamente, o filme mostra a trágica e delirante trajetória de uma jovem bailarina, competentíssima e dedicada, além de meiga e vulnerável, em direção à loucura, ao aceitar (<em>ela mais do que aceita, ela deseja</em>) o papel de Rainha dos Cisnes numa montagem da célebre obra de Tchaikowsky. Aí entram outros elementos, claro. A mocinha tem uma mãe tirana e manipuladora, ex-bailarina que nunca saiu do anonimato do corpo de baile, abandonou o palco quando engravidou, e agora esmaga a filha com a obrigação de vingar suas frustrações. Aflige ver, na primeira metade do filme, a garota como dócil massinha de modelar nas mãos da mãe, sublimando seus próprios desejos, ao mesmo tempo em que pressentimos a revolta sob a pele, manifesta em compulsões como se coçar ou cutucar até arrancar sangue. Ao mesmo tempo, há o diretor da companhia, déspota e sedutor (Vincent Cassel, magnífico), que molda suas estrelas a ponto de subjugá-las, para substituí-las quando seu desempenho já não rende o necessário para a companhia de dança. Sem falar da culpa que a novata sente ao destronar a bailarina que até então era a diva intocável, invejada e venerada. De todo lado há pressões e tormentos, que por habilidade do diretor do filme, nem sempre distinguimos de imediato se são reais ou alucinatórios. Prato cheio.</p>
<p>No balé Lago dos Cisnes (que música arrebatadora) há essa personagem, a mocinha que é enfeitiçada e vira um lindo cisne branco. Só o verdadeiro amor pode salvá-la. O amor chega na forma de um príncipe, mas eis que surge um cisne negro, que encanta, seduz e conquista o amor desse príncipe, levando-o embora. Em desespero, o cisne branco se atira de um precipício, pois entende que só assim terá a sonhada liberdade. A montagem visceral e inovadora idealizada pelo diretor da companhia e coreógrafo bam-bam-bam para a abertura da temporada propõe que a mesma bailarina interprete ambos os cisnes, o branco e o negro.</p>
<p><a href="http://larioscine.blogspot.com/2010/12/indicados-ao-globo-de-ouro-2011.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-947" title="White-Swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/White-Swan-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a>Nossa mocinha, Nina, é perfeita para o papel de cisne branco: técnica apuradíssima, doçura, inocência e entrega às raias do desamparo. Mas o cara duvida que ela seja também capaz de incorporar o lado sombrio, passional, do outro cisne. Ela ensaia exaustiva e repetidamente. Seus movimentos são tecnicamente irretocáveis. Ele empurra seus limites, quer mais, reclama, não está satisfeito. Ela não entende, quer saber onde está errando. Ela quer ser perfeita. Num dos momentos que mais me tocaram no filme, ele lhe diz que perfeição não tem a ver com controle, com disciplina. Perfeição não existe. Existe o maravilhamento que vem da entrega absoluta. É preciso se soltar, diz ele. Eu não entendi direito no original se ele diz &#8220;loose yourself&#8221; ou &#8220;lose yourself&#8221;. Eu sei que a pronúncia é ligeiramente diferente, mas meu inglês não deu pra tanto. Não importa. Loose é soltar, afrouxar. Lose, literalmente, é perder. Se soltar pode ser também se perder. Quando a gente se solta, abre mão do controle (o que pode dar a sensação de <span style="text-decoration: underline;">perder</span> o controle)  e isso pode assustar, travar.</p>
<p>Nina tem medo. E o sofrimento de parir/soltar esse personagem, leva-a gradativamente a perder a sanidade.</p>
<p>Esse tema é muito caro para mim. Eu fui uma criança e uma adolescente com esse ímpeto: ser a melhor aluna, a filha exemplar, a mocinha educada, simpática, gentil, inteligente, ser perfeita. Só assim eu seria amada. Desagradar a alguém, quem quer que fosse, era uma dor insuportável, uma vergonha e um fracasso. Não, meus pais não eram tiranos, isso era um traço meu, a minha forma de perceber o meu mundo e lidar com ele. Claro, eu sei, (claro hoje, tsc tsc tsc), a perfeição não existe. Lutar por ela, nesse nível, exige, entre outras coisas, abdicar de uma ampla gama de emoções. Domar, sufocar o cisne negro, mantê-lo sob controle (e isso cansa e aprisiona, eu garanto).</p>
<p>Todos temos dentro de nós luz e sombra, bondade e crueldade, generosidade e mesquinharia. Quando cindimos e exilamos de nós qualquer dessas dimensões, dessas facetas, há frustração, dor, e em casos muito extremos, como acontece no filme, pode haver loucura, esquizofrenia. Eu passei bem longe disso, vamos deixar claro, mas tive minha cota de sofrimento nessa batalha inglória e inócua. Demorei muitos anos para, já na minha vida adulta, conciliar em paz as duas partes em mim. Aliás, minto. Hoje eu vejo tudo de uma forma que eu não sei se sei explicar direito. Porque não são <strong>duas partes</strong>, como se existisse ora uma, ora outra. Eu não vejo a vida de maneira tão dicotômica. É tudo junto, misturado, camadas que formam um uno complexo e fascinante, imperfeito e maravilhoso. A falha, a falta, esse indizível buraco escuro e estranho em nosso peito, são parte integrante e inalienável de todos nós, o que nos faz humanos, o que nos faz andar.</p>
<p>Se eu aceito e integro isso em mim, eu não preciso ser o cisne branco OU o cisne negro, eu posso ser simultaneamente os dois e muito mais. Não existe mais isso de ter que ser educada, doce e inteligente <strong>ou então</strong> botar tudo a perder e ser porralouca, respondona, arrogante. Casta ou vagabunda. Careta ou drogada. Disciplinada ou desleixada. Perfeita ou fracassada. Sim, porque quando a gente se dá conta do horror, do peso de ter sido &#8220;a certinha&#8221; tanto tempo, o risco de pendular para o lado oposto é enorme. Principalmente quando a gente é muito jovem e tudo tem tanto contraste. E o pior é que a gente não percebe que a moeda é a mesma. Cara e coroa. Então, eu não preciso abrir mão de ser gentil para viver (em paz) com o fato de que eu posso ocasionalmente cometer uma grosseria. Inadvertidamente&#8230; ou não. Como todo mundo. Ser uma &#8220;garota meiga&#8221;, como a Nina é chamada pela mãe, não deveria impedir ninguém de sentir (e poder externar de alguma forma) raiva, inveja, ciúme, medo, desejo. Afinal, forçar a existência de um só lado é se mutilar&#8230;</p>
<p><a href="http://entretenimento.pt.msn.com/cinema/gallery.aspx?cp-documentid=155708823&amp;page=1"><img class="alignright size-medium wp-image-948" title="Black-Swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Black-Swan-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a>Quando, no final do filme, o cisne negro eclode, a fórceps, de dentro dela, Nina precisa fazer os dois cisnes lutarem entre si, porque, na sua experiência desesperada, só um pode sobreviver. E quando só um lado existe, nenhum dos dois consegue viver, realmente.</p>
<p>Meu encantamento com a arte é esse. Ela nos permite vivenciar simbolicamente todos os limites. Vislumbrar ou fantasiar o que poderíamos ser se nosso próprio trem descarrilhasse. Uma pausa aqui. Eu lembro que, numa certa fase da adolescência, toda vez (foram poucas, confesso) que eu tinha essa sensação de que ninguém me entendia, e ficava tão exageradamente devastada que flertava com a idéia de morrer só pra ver os outros se martirizando por não terem me dado a devida atenção (adolescentes podem ser muito dramáticos e teatrais &#8211; e horrivelmente narcisistas), eu me trancava no quarto e ouvia Pink Floyd. De olhos fechados, no escuro. Especialmente <em>The Wall</em> e <em>The dark side of the moon</em>. Eu me emociono até hoje com a sequência de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=SNoUGO0StKg" target="_blank">Time e The great gig in the sky</a>. Me confortava realizar qualquer fantasia (principalmente as dolorosas) através da música. Aí eu chorava um balde, desanuviava e seguia a minha vida, feliz e contente. Não, eu não fui uma adolescente depressiva, longe disso. Mas é como eu estou dizendo: existe de tudo lá dentro da gente. Fim da pausa.</p>
<p>Pela arte, a gente pode se soltar sem se perder, experimentar sensações que não conseguiria externar de outra forma, se aproximar emocionalmente não só das nossas próprias (e de vez em quando ocultas) entranhas, como dos outros em geral,  porque todas as emoções existem potencialmente dentro de nós e nos conectam uns aos outros, nos igualam de certa forma, ou estabelecem um denominador comum pelo menos.</p>
<p>Quando eu chorei no fim do filme foi porque, ao abandonar a &#8220;perfeição&#8221; da análise técnica e psicológica, eu relaxei e fui inundada de empatia por aquela personagem. Eu pude sentir, por um minúsculo instante, todo o peso de sua dor, de seu medo, de sua cisão interna, até sua trágica libertação. Pude sentir quão frágil é nossa humanidade, minha humanidade imperfeita, quão tênues são às vezes os véus que nos separam ou nos resguardaram, ao longo da vida, de caminhos mais turbulentos. Chorei por mim, pelas minhas falhas, mas também pela minha sorte e pela minha força, pela minha história e pelos meus próprios cisnes, entrelaçados em mim. Como numa dança contínua, eles se espreitam, se atraem, se afastam, se tocam, e por fim se abraçam e se fundem no que eu sou. E entre o branco e o negro eu sou também todos os infinitos matizes e nuances aí no meio. O cisne negro não é meu lado escuro e falho. Ele simplesmente é parte integrante de mim, uma das muitas manifestações do meu ser, em toda a imperfeita inteireza que me constitui.</p>
<p>O meu cisne negro não precisa ser destrutivo, no sentido de aniquilador, embora possa ser transformador. Às vezes é preciso destruir algumas coisas para que surjam outras novas, quebrar o ovo para fazer o omelete, sabe como? Quando eu abraço meu cisne negro e permito que ele venha à tona, ele pode ser uma força poderosamente criativa, propulsora e até bem-humorada. Buscar esse equilíbrio e essa integração é o espetáculo da nossa vida inteira.</p>
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		<title>Livros, músicas, filmes, vida</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Sep 2010 16:53:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam a mesma coisa, não na<br />
mesma intensidade.  A <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a> (uma das amigas dessa conversa) estava dizendo a mesma coisa, como que ler nos provoca viagens espantosamente emocionais, quando a leitura, supostamente, deveria ser alguma coisa que nos estimulasse mais racionalmente, e a imagem (pensando aqui em pinturas e esculturas) não nos transportam tanto. Claro, falando por mim e por ela. Eu amo e me emociono profundamente com algumas obras, sou capaz de ficar uma eternidade na frente de alguns quadros &#8211; e já fiz isso &#8211; maravilhada, ou com a garganta em nó, sacudida por sentimentos profundos. Mas raramente fico povoada por aquele quadro dias, meses depois, como sou capaz de ficar com livros, filmes e músicas.</p>
<p>O sinal de que alguma coisa é boa para mim é quando me arrebata, quando dribla qualquer possibilidade de defesa racional e quando eu me deixo levar pela emoção, me colocando no lugar daquelas pessoas/personagens. Alguns<br />
autores conseguem isso comigo, outros não. A autora do livro que nós estávamos discutindo, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lionel_Shriver" target="_blank">Lionel Schriver</a>, pelo que eu vi, consegue. E eu adoro. Adoro sentir confiança o bastante para me abandonar e permitir que o autor me conduza numa viagem emocional diferente, mesmo que ela seja devastadora, como foi o caso. Só paro pra pensar depois, como se tivesse pulado de <em>bungee-jump</em>. Na hora da queda livre, não dá tempo nem adianta racionalizar, querer pular fora. Só depois, no chão, vc se dá conta de tudo o que sentiu durante.</p>
<p>O <a href="http://www.interney.net/blogs/lll/" target="_blank">Alex Castro</a> falou uma vez (acho que no<a href="http://www.formspring.me/alexcastrolll" target="_blank"> formspring</a>, eu tou adorando aquilo) que a importância da literatura &#8211; acho que ele se referia a por que ler os clássicos &#8211; mas ele falou que a literatura oferece uma oportunidade de vivência da <strong>alteridade</strong>, ou seja, de você se colocar na pele de outra pessoa, de experimentar sensações, emoções, viver experiências tantas vezes completamente distintas da sua realidade, de, em suma, prestar atenção e enxergar o Outro como<br />
semelhante. Isso numa perspectiva de desenvolver sua capacidade de empatia, de humanizar as relações, relativizar as diferenças. Eu concordo 100%, a literatura, a música e o cinema têm esse efeito sobre mim, me humanizam, na medida em que me fazem comungar com outros seres humanos, em suas glórias e misérias, virtudes e mesquinharias. E ver que todos esses sentimentos existem potencialmente dentro de cada um de nós, e sabe Deus qual o gatilho que faz aflorar em maior ou menor intensidade cada coisa, em cada pessoa, em cada momento da vida.</p>
<p>O livro ao qual nós nos referíamos no e-mail é <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2248154" target="_blank">Precisamos falar sobre o Kevin</a>. Neste romance, a autora cria uma situação ficcional mas perfeitamente plausível e realista, sobre um adolescente de 16 anos que, num belo dia, comete uma carnificina na escola, matando uma professora e vários colegas. A personagem que narra a história é a mãe do garoto, na forma de cartas que ela escreve ao marido. Nessas cartas, ela mescla lembranças da vida do casal, desde que se conheceram, como casaram, como e por que tiveram um filho, a infância que ela acredita tão flagrantemente sintomática do menino (ao mesmo tempo em que ninguém mais percebe a mesma coisa, muito menos o pai, o que a faz imaginar se não seria ela a neurótica), com descrições da sua vida despedaçada de hoje, pontuada e confrontada todo o tempo com as visitas que ela faz à penitenciária juvenil onde o filho está preso. É uma tentativa de entender, dar sentido a tudo o que aconteceu, impiedosamente vasculhando suas próprias culpas ou pelo menos tentando ver se e onde elas existiram. Ao mesmo tempo em que a autora traça, pela voz e olhar dessa mãe, um raio-x daquela família em particular, consegue também desenhar um panorama assustador de questões estruturais da sociedade norteamericana que tornam esse tipo de acontecimento tão comum e quase banal, apesar da comoção que vira e mexe causa na mídia.</p>
<p>Pra quem gosta desse tipo de temática, é um livro que eu recomendo. Mas é pesado, indigesto, e se você é que nem eu e mergulha, há grandes chances de que destampe incômodos e fantasmas pessoais. Não estou sugerindo nenhum tipo de identificação rasa e imediata com instintos assassinos e disfunções familiares, mas questões mais universais como as nossas culpas, as nossas escolhas, as nossas relações com os outros, ciúme, inveja, solidão, negação, desejo de ser amado, desejo de encontrar seu lugar no mundo.</p>
<p>Antes que eu esqueça. Muito menos estou sugerindo nenhuma abordagem pseudo-terapêutica, de &#8220;análise&#8221; dos personagens, num viés de avaliar o caráter e a estrutura emocional deles como se fossem &#8220;pacientes&#8221;, na busca de enquadrá-los num diagnóstico que aponte quais os problemas, com o objetivo de curar esses problemas. Mais normativo que isso impossível. E pessoalmente, eu nem sequer acreditaria numa psicanálise ou psicoterapia que trabalhasse nesse rumo.</p>
<p>Quando li este livro, ao contrário disso, eu confesso que senti profunda empatia com os personagens todos, de vez em quando inclusive com o adolescente assassino. Evidentemente, muito mais ainda com a mãe. Mas eu me pus na pele mesmo daquelas pessoas, e senti a cadeia de responsabilidades e dúvidas que existem a cada momento na vida de todos nós, tanto na hora das escolhas quanto lá na frente, na hora &#8211; que muitas vezes não tem como prever antes &#8211; de avaliar o resultado dessas escolhas. E senti como que a culpa, pura e simples, seja para imputá-la ou para sentí-la na carne, não constrói nada, só consome e paralisa. Para avançar, para não repetir, para compreender e colocar a vida em movimento é preciso superar a culpa. Responsabilidade é outra coisa completamente diferente.</p>
<p>Já comprei mais um livro da autora, <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2968789" target="_blank">O mundo pós-aniversário</a>, mas ainda não comecei. E tem outro, ainda não traduzido em português, que também está na mira, por recomendação da Vera: <a href="http://www.goodreads.com/book/show/708268.A_Perfectly_Good_Family" target="_blank">A perfectly good family</a>.</p>
<p>Pronto, gastei o tempo falando de livros (e se vocês soubessem a pilha que está na minha mesinha, com livros de todos os tipos, ensaios, poesias, romances, História, bibliografia para preparar aulas e para escrever projeto de tese, caramba, eu queria largar tudo e passar dois meses só lendo, mais nada). Música e cinema ficarão para outra vez. Eu ia contar o papel que o <strong>Pink Floyd</strong> teve na minha juventude (especialmente <a href="http://www.pinkfloyd.co.uk/dsotm/content/setup.html" target="_blank">The dark side of the moon</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt0084503/" target="_blank">The Wall</a>), e ia falar do filme <a href="http://www.cinepop.com.br/criticas/origem_103.htm" target="_blank">A Origem</a>, que assisti essa semana e do qual gostei muito. Essa é pros alunos de <strong>História da Cidade II</strong>, que essa semana tiveram aula sobre Grécia Antiga, e que nunca tinham ouvido falar do mito de <a href="http://colimao.blogspot.com/2005/10/teseu-e-o-minotauro.html" target="_blank">Teseu e o Minotauro</a>. Saber um tiquinho disso ajuda até mesmo a sacar a brincadeira que o diretor do filme faz, ao colocar uma arquiteta com o nome de Ariadne para construir um labirinto. Cultura geral também é diversão, môs fios.</p>
<p>Até já.</p>
<p>PS: Hoje é dia 11 de setembro. Não quero nem ouvir essa palhaçada de queimar Alcorão nos Estados Unidos. Prefiro me emocionar com <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">esse post</a> do <a href="htthttp://www.idelberavelar.com/" target="_blank">Idelber</a> que lembra e homenageia o grande Salvador Allende, e sua heroica e digna resistência ao golpe militar no Chile. <em>Compañera Urbanamente, presente!</em> (vai <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">lá</a> ler pra entender a citação).</p>
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		<title>Muitos filmes e algumas reflexões</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 18:36:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>É, é amanhã. Claro que eu vou ver, ainda mais depois de tudo o que a Suzi falou, aí nos comentários do post de baixo e lá no Vinhos e Livros. Melhor mesmo só se eu pudesse ver a entrega dos prêmios sentada no mesmo sofá que ela, bebendo vinho e falando bobagens. Não tem ninguém [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É, é amanhã. Claro que eu vou ver, ainda mais depois de tudo o que a <a href="http://vinhoselivros.blogspot.com/2010/03/jc-ja-voltou-esta-entre-nos.html" target="_blank">Suzi</a> falou, aí nos comentários do post de baixo e lá no <a href="http://vinhoselivros.blogspot.com/" target="_blank">Vinhos e Livros</a>. Melhor mesmo só se eu pudesse ver a entrega dos prêmios sentada no mesmo sofá que ela, bebendo vinho e falando bobagens. Não tem ninguém melhor no mundo com quem falar bobagens do que a Suzi. Segunda-feira voltamos à programação normal.</p>
<p>Dos badalados todos eu não vi <a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/bastardosinglorios.htm" target="_blank">Bastardos Inglórios</a>. Já falei que não gosto de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Quentin_Tarantino" target="_blank">Tarantino</a>? Pois é, vai entender. Mas estou quase dando o braço a torcer, já saiu em dvd, tou pensando. Falta ver alguns também, que estão em cartaz, mas ainda não tive tempo de assistir: <a href="http://cinema.uol.com.br/ultnot/efe/2010/03/04/jeff-bridges-rouba-a-cena-em-coracao-louco.jhtm" target="_blank"><strong>Coração Louco (Crazy heart)</strong></a> com o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000313/" target="_blank"><strong>Jeff Bridges</strong></a>, <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2010/03/04/estreia+direito+de+amar+encontra+forca+em+papel+de+colin+firth+9417102.html" target="_blank"><strong>Direito de Amar (A single man)</strong></a> com o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000147/" target="_blank"><strong>Colin Firth</strong></a> e <a href="http://www.portaldecinema.com.br/Filmes/simplesmente_complicado.htm" target="_blank"><strong>Simplesmente Complicado (It&#8217;s complicated)</strong></a> com a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000658/" target="_blank"><strong>Meryl Streep</strong></a> são os principais. Tá, eu sei que esse filme da Meryl não concorre a nada, mas é Meryl, tá em cartaz e eu quero ver. Rir também faz bem. Ah, e a barbada para prêmio de melhor atriz esse ano, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000113/" target="_blank"><strong>Sandra Bullock</strong></a>, em <a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/sonhopossivel.php" target="_blank"><strong>Um sonho possível (The blind side)</strong></a>, ainda não está em exibição. Inacreditavelmente, o filme com mais indicações, <a href="http://www.cinematorio.com.br/2009/08/guerra-ao-terror-hurt-locker.html" target="_blank"><strong>Guerra ao Terror (The hurt locker)</strong></a>, praticamente já saiu de cartaz no Rio. Está em pouquíssimas salas, todas em horários e localizações que praticamente inviabilizam que eu possa ir ver. Blé.</p>
<p>Entre os que eu já vi, e foram muitos (oba), não falarei nada sobre <a href="http://www.avatarmovie.com/" target="_blank">Avatar</a>. É bacana, e a Suzi, que eu mencionei ali em cima, falou tudo o que eu poderia falar. Mas não me arrebatou. Eu devia ter falado aqui de <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/distrito-9/" target="_blank">Distrito 9 (District 9)</a>, que aborda questões de um ponto de vista urbano que tem tudo a ver com o que discutimos aqui no blog. Assistam, se puderem. Já falei de <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/03/solto-no-ar/" target="_blank">Amor sem escalas (Up in the air)</a>, e recomendo também <a href="http://cinecartografo.wordpress.com/2010/02/09/educao-an-education-2009/" target="_blank">Educação (An education)</a> e <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2010/preciosa-uma-historia-de-esperanca/" target="_blank">Preciosa (Precious: based on the novel Push by Sapphire)</a>, que como a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank">Fal </a>me advertiu, é um soco no estômago. Não percam de vista que ambos tratam de encruzilhadas na vida de duas meninas-mulheres de 16 anos. Eu vi em dois dias seguidos e de alguma maneira isso acrescentou muitas minhocas às minhas caraminholações.</p>
<p>Hoje, sábado, estou planejando assistir ao argentino <a href="http://cinemmarte.wordpress.com/2009/09/29/festival-do-rio-2009-o-segredo-dos-seus-olhos/" target="_blank">O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos)</a>. Como se eu não tivesse um monte de coisas pra fazer. Depois vocês me verão reclamando que estou atrasada com o planejamento das aulas, mas isso é outra história.</p>
<p>Já que eu mencionei a Meryl, ela concorre por<a href="http://www.omelete.com.br/cine/100022382/Critica__Julie___Julia.aspx" target="_blank"> Julie &amp; Julia</a>. Delícia de filme, e a Fal fez uma série inteira de posts imperdíveis sobre ele. Last but not least, sabe que eu adorei <a href="http://www.cineplayers.com/filme.php?id=6046" target="_blank">Nine</a>? Não é um filmaço, se a gente ficar esperando reviver <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Fellini" target="_blank">Fellini </a>a frustração é garantida, mas é bem feito, e os números musicais são bons, muito bons, com destaque, na minha modesta opinião, para o empolgante <a href="http://www.youtube.com/watch?v=gVISTjbHC0Q&amp;feature=related" target="_blank"><em>Cinema Italiano</em></a> a cargo da <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005028/" target="_blank">Kate Hudson</a>. E a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0004851/" target="_blank">Penelope Cru</a>z faz bonito como a sexy, intempestiva e carente Carla, merecendo concorrer a coadjuvante. Se eu fosse homem eu enlouquecia com a cena em que ela diz pro <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000358/" target="_blank">Daniel Day-Lewis</a> que vai esperá-lo ali mesmo (ela está num quarto vagabundo de hotel), de pernas abertas. Eu sou mulher, e não jogo nesse time, mas juro que o calor subiu com vontade nessa hora.</p>
<p>Sobre <a href="http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomeFilme/invictus/id/16334" target="_blank"><strong>Invictus</strong></a>. É <a href="http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomeFilme/invictus/id/16334" target="_blank"><strong>Clint Eastwood</strong></a>, já é razão suficiente para conferir. Gostei tanto. Eu sempre fico esperando polêmica e alguma amargura, pelo menos uma certa dureza e desencanto, uma confrontação qualquer, quando se trata de filme do Clint. Mas neste ele não poupou doçura. Sem cair na pieguice, embora às vezes chegasse bem perto. De novo, ele se arriscou com sucesso na composição da linda canção-tema, como já tinha feito em <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/03/29/cineminha-ops-cinemao-no-caso/" target="_blank">Gran Torino</a> e outros. filmes. O cara é o cara mesmo, impressionante.  Cada vez mais ele se torna um dos meus diretores preferidos. Numa troca de e-mails falando sobre cinema, a Vera disse que uma coisa que ela admira é que ele (bem como o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000487/" target="_blank">Ang Lee</a> que ela também mencionou) faz sempre filmes muito diferentes entre si, sem medo de arriscar. É verdade. Ele já reinventou o faroeste, já dirigiu a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005476/" target="_blank">Hillary Swank</a> em <a href="http://www.imdb.com/title/tt0405159/" target="_blank">Menina de Ouro</a>, já falou da 2a. guerra mundial, fez o maravilhoso Gran Torino ano passado e agora conta um pedaço da história recente da África do Sul, o episódio de 1995 em que Mandela coopta o jogador de rugby François Pienaar para a missão de ganhar o campeonato mundial, como parte da estratégia de reunificar o país pós-apartheid. As caracterizações são impressionantes, ainda mais quando comparadas às fotos históricas da entrega da taça. <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000151/" target="_blank">Morgan Freeman</a>, como sempre, e em mais uma parceria com Eastwood, dá um show, com uma postura corporal mimética. E tem o bonitinho do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000354/" target="_blank">Matt Damon</a>. Eu gosto desse rapaz (olha o calor subindo de novo, hahahaha).</p>
<p>Sabem o que eu gostei nesse filme? A coragem de falar de perdão e reconciliação de maneira tão limpa, tão honesta, sem hipocrisia. Não é discurso burocrático, não tem moralismo ali, não da forma piegas que pode soar. Mandela, em sua vida privada, tem problemas de relacionamento com a própria família, e não está em questão se ele foi ou não um excelente chefe de estado, se resolveu questões graves em seu país, no campo econômico e social. Certamente ele cometeu erros, tanto pessoais quanto políticos, mas sua figura, para toda a humanidade e não só para a África do Sul, já faz parte de um panteão mítico, onde se encontram outros líderes como Abraham Lincoln ou Gandhi. E a história deste episódio é sobretudo muito bem contada, cheia de detalhes que, embora fora do foco principal da narrativa, ajudam a compor os personagens e o próprio momento que se vivia então. Nas mãos e pelo olhar de Eastwood, a gente acha que é possível acreditar – senão na humanidade – pelo menos em alguns homens como motores de transformação, apesar do caos, da violência e da miséria que nos rodeiam a todos. E que isso vale a pena.</p>
<p><a href="http://cinema10.com.br/filme/a-fita-branca" target="_blank"><strong>A Fita Branca (Das weisse band)</strong></a> merecia um post exclusivo. É um filme alemão, concorre a oscar de filme estrangeiro, e é fora de série, retratando acontecimentos inusitados e crimes misteriosos ocorridos em um pacífico vilarejo no interior da Alemanha no início do século XX. Assim que eu vi, eu comentei com amigos que ainda não sabia se tinha gostado do filme. Isso acontece às vezes, eu vou pensando, conversando e só depois descubro se gostei mesmo ou não. Nesse caso, não se trata nem de gostar, se trata de sentir que é um grande filme e que eu adorei tê-lo visto, apesar de ser do tipo que causa tremendo mal-estar e incômodo. Ou talvez por isso mesmo. Desses filmes que nos tiram da zona de conforto e nos forçam a pensar, a confrontar nossas posições.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/a-fita-branca.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-718" title="a-fita-branca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/a-fita-branca-212x300.jpg" alt="" width="212" height="300" /></a>Na tal conversa sobre cinema com a Vera, ela recomendou, e eu li, duas ótimas resenhas que sugerem interpretações diferentes e ambas válidas para o filme. Na <a href=" http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/10/24/as-raizes-do-mal-haneke-explica-“a-fita-branca”/" target="_blank">primeira</a>, a partir de uma entrevista com o diretor do filme, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0359734/" target="_blank">Michael Haneke</a>, tenta-se driblar a análise prevalecente de que o filme disseca a gênese do nazismo no seio da sociedade alemã da década de 10. Eu também consigo ver o filme assim, digo, sem conexão necessária com essa questão do nazismo, e sim como um debruçar-se sobre o Mal, desse jeito mesmo, com letra maiúscula. Nada de sobrenatural, antes que vocês pensem. É um Mal brotado e alimentado no coração humano e perversamente instilado em mentes e comportamentos de crianças que, longe de aprenderem de seus pais e cuidadores lições de tolerância e solidariedade, recebem deles exemplos de crueldade, preconceito, arrogância, travestidos de discursos morais e ensinamentos cristãos, embalados em exortações à correção de caráter, pureza de sentimentos e disciplina de comportamentos. E aí essas crianças devolvem o que aprenderam, eficientemente. Assustador.</p>
<p>Como aula de cinema o filme é impecável. Fotografia preto e branco perfeita, atuações memoráveis. O que é a expressão do menino que ilustra o cartaz do filme?</p>
<p>Na <a href="http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca" target="_blank">segunda resenha</a>, o autor parte do princípio de que o objetivo do filme é mesmo explicar a origem do nazismo e do Holocausto, a partir de uma verdadeira anatomia moral e psicológica dos moradores do vilarejo alemão. Vou tomar a liberdade de transcrever aqui, trechos do que ele escreveu, porque acho que sintetiza bem a principal reflexão que podemos fazer a respeito do tema. O original pode ser lido <a href="http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p><em>“A tese de Haneke é que esta estrutura autoritária da sociedade alemã, sobretudo a patriarcal, gerou fortes sentimentos de indiferença, crueldade e desprezo entre a geração de jovens do início do século XX, a mesma geração que anos mais tarde abraçaria a causa do nazismo.</em></p>
<p><em>Ao explicar o nazismo e o holocausto pela via do germanismo, em particular por sua estrutura patriarcal castradora, A Fita Branca é um enorme passo atrás na compreensão desses fenômenos. Primeiramente, é preciso dizer que esta tese não é nova. O que Haneke faz é endossar uma idéia do intelectual alemão Theodor Adorno, o mesmo autor dos principais estudos sociológicos da “indústria cultural” (“A Personalidade Autoritária”, 1950). A explicação de Adorno para o nazismo e para o holocausto, requentada mais de cinquenta anos depois por Haneke, é extremamente problemática. Em primeiro lugar, a tese é frágil porque tenta levar para o plano coletivo (das massas) conceitos e justificativas que são usados pela psicologia e, sobretudo, pela psicanálise, no âmbito individual. Ao fazer isso, ela não só trata erroneamente a massa como um indivíduo unificado (psicologização excessiva da história), mas também ignora fatos políticos e econômicos do período histórico do qual se refere. Em segundo lugar, olhar para o passado alemão buscando uma origem retroativa do nazismo é extremamente conveniente.</em></p>
<p><em>A tese de Adorno, defendida de forma apaixonante por Haneke, foi duramente criticada e derrubada por dois trabalhos brilhantes no século XX, um deles sendo o <strong>“Modernidade e Holocausto”</strong>, escrito pelo cultuado sociólogo <strong>Zygmunt Bauman</strong>. Bauman rejeita todas as teses que germanizam e particularizam o Holocausto. Em suas palavras, “o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura”. Nesse sentido, tratar do holocausto como uma questão de patologia psicológica e marcadamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é o símbolo do fracasso da modernidade.</em></p>
<p><em><strong>Bauman conclui acertadamente que os defensores da germanização do holocausto acreditam que uma vez estabelecida a responsabilidade moral e material da Alemanha, dos alemães e dos nazistas, a procura das causas está concluída. Em outras palavras, suas causas foram confinadas num espaço e num tempo limitados, para nossa sorte, o passado. Não raro, o nazismo foi durante um bom tempo classificado como uma “doença alemã”, um “desvio da civilização”, um “momento de cegueira”, quando, na verdade, trata-se de uma questão ligada a gênese do mundo moderno”. </strong></em></p>
<p>Partindo desse raciocínio, estamos todos implicados nesse horror, e mais, continuamos implicados nos horrores perpetrados até hoje onde quer que pousemos nosso olhar nesse mundo. Não estamos livres de que coisas pavorosas como o Holocausto voltem a acontecer (na verdade, já ocorreram antes da Guerra, e continuam acontecendo, como eu acabei de falar, atingindo outros povos e culturas, muitas vezes tendo como algozes muitos dos que já foram vítimas em massacres anteriores), e me preocupa muito que os nossos jovens não só achem que isso é um episódio circunscrito a um tempo e um lugar específicos, como muitas vezes e cada vez mais nem sequer saibam muito bem do que se trata. É uma questão de vestibular no máximo, que não tem nenhuma ligação com queimar índios ou apedrejar prostitutas ou gays nas madrugadas, imagina.</p>
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		<title>Solto no ar</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Mar 2010 19:15:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O reinício das aulas tem esse efeito sobre os professores: a gente enlouquece um pouco até acertar toda a grade, os horários, fazer os planejamentos. Eu ainda não consegui fechar tudo, dia sim dia não a coordenadora me liga ou escreve trocando as aulas que tinha combinado comigo na semana anterior, e eu já fiz plano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O reinício das aulas tem esse efeito sobre os professores: a gente enlouquece um pouco até acertar toda a grade, os horários, fazer os planejamentos. Eu ainda não consegui fechar tudo, dia sim dia não a coordenadora me liga ou escreve trocando as aulas que tinha combinado comigo na semana anterior, e eu já fiz plano de aula pra umas quatro disciplinas diferentes, mas só uma delas está realmente certa, inclusive com aulas já começadas. Amanhã de manhã tem mais uma e na sexta uma terceira. Semana que vem tá muito longe ainda e nesse meio tempo tudo pode mudar. Deve ser assim mesmo que funcionam as coisas, mas eu nunca me acostumo, e fico sempre cansada antes mesmo do semestre engrenar.<br />
Enquanto isso, deu vontade de falar de cinema. Afinal, a entrega do Oscar, esse prêmio decadente e imperialista americano (é pra ser lido com seriedade e ironia ao mesmo tempo, entende?) é domingo agora, e não sou eu que vou perder. Digam o que disserem, eu adoro assistir. E torcer. E falar mal dos vestidos, revelando meu momento fútil-mulherzinha, que eu não sou de ferro.<br />
Brincadeiras à parte, eu gostaria de comentar umas coisas sobre três dos filmes que concorrem esse ano, em categorias variadas. São os três que eu vi mais recentemente, e gostei por motivos que explico aqui.</p>
<p><a href="http://www.imdb.com/title/tt1193138/" target="_blank"></a><a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/amorsemescalas.php" target="_blank"><strong>AMOR SEM ESCALAS</strong></a><strong> </strong><a href="http://www.imdb.com/title/tt1193138/" target="_blank"><strong>(Up in the air)</strong></a></p>
<div id="attachment_709" class="wp-caption alignleft" style="width: 212px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-In-The-Air-2.jpg"><img class="size-medium wp-image-709" title="Up-In-The-Air-2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-In-The-Air-2-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Cartaz original do filme</p></div>
<p>É o filme em que o George Clooney faz o papel de um executivo cujo papel é demitir as pessoas. Imagine que você trabalha numa grande empresa, essa empresa pretende demitir vários funcionários e contrata uma outra empresa para fazer isso, ou seja, terceiriza o processo de comunicar ao empregado que ele está demitido, e quais são as providências que ele deve tomar agora. Eu achei o filme muito coeso, muito. As imagens todas, e a música, o &#8220;clima&#8221; do filme, é muito acertado, cada coisa contribui para um todo muito bem amarradinho. Antes de tocar nesses temas mais evidentes, os &#8220;grandes&#8221; temas do filme, tem pequenos detalhes que me chamaram muito a atenção.</p>
<p>1 – Antes de mais nada, devo deixar o meu protesto com relação ao título que o filme teve em português. Ridículo, idiota, tolo, infeliz, enganador. Absolutamente nada a ver com o filme. Não tenho nenhuma sugestão a fazer, mas Amor sem escalas é inaceitável. Tá, eu sei, atrai um monte de incautos (ou incautas, mais provavelmente), que junta essa promessa de romance com a figura de galã do Clooney, mas se você ainda não assistiu o filme, não vá esperando por essa água com açúcar. O filme dói.</p>
<p>2 &#8211; Eu fui capturada pelo filme logo na abertura, com aquela sequência de imagens de paisagens aéreas, cidades vistas de cima, do avião, campos, imagens de satélite quase. Eu amo essas imagens. Tem uma beleza quase abstrata em algumas delas, é plasticamente lindo. E do ponto de vista urbano também, eu gosto dessas imagens macro, em que você vê o desenho da cidade, seus limites (quando há), as bordas imprecisas do tecido urbano, as grandes linhas que cortam e estruturam a cidade (avenidas, auto-estradas, rios, ferrovias), a forma como os terrenos da cidade se constituem, se são pequenos lotes, densamente ocupados, se há verde entremeado, se há (e onde) lotes imensos ocupados por shoppings, estacionamentos, áreas industriais, parques urbanos, campi universitários. Diz tanto sobre a cidade e a história de sua ocupação.</p>
<div id="attachment_711" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-in-the-air3.jpg"><img class="size-full wp-image-711" title="Up in the air3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-in-the-air3.jpg" alt="" width="800" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Tipos de imagens a que me refiro. Essas fui eu que fiz, do avião, a da esquerda na viagem ao Canadá, e a da direita na viagem à Italia, na saída de Amsterdam, onde fizemos escala.</p></div>
<p>3 &#8211; Outra coisa que durante o filme me chamou a atenção foi a trilha sonora. Uma coisa meio folk, quase melancólica às vezes, letras que funcionavam como um subtexto para o roteiro (desde a música de abertura, que cobre e percorre o território americano tanto quanto o protagonista). Particularmente linda é a última música que toca, quando a sala já está de luzes acesas, e o restinho dos créditos termina de subir. Logo antes da música tem um som de secretária eletrônica, e um cara liga, aparentemente para o diretor do filme, Jason Reitman, porque ele diz Hi, Jason, e aí se identifica como alguém que também perdeu o seu emprego, e compôs a música para ajudar a entender esse momento, ou superar essa sensação de estar meio solto, sem amarras, meio sem saber onde ir, sem saber como será o futuro. Aí ele diz que espera que o Jason goste da música, e se quiser que pode aproveitá-la no filme. Só violão e voz, e o título da música (a frase que ele repete no refrão) é exatamente Up in the air.</p>
<p>4 &#8211; Essa sensação que o cara descreve, de estar sem amarras, sem futuro, esse desconcerto diante de um determinado momento na vida, me parece que descreve bem o estado emocional do Ryan (protagonista da história). Só que pra ele, não é um estado transitório, não é &#8220;um determinado momento na vida&#8221;, é como ele organizou a própria vida. Acho que é uma das interpretações que eu mais gosto do George Clooney. Ele está tão frágil, tão enclausurado, tem um quê nos olhos dele que é meio amedrontado, e ao mesmo tempo, profissional, evasivo, ele tem uma capacidade de empatia ao mesmo tempo que evita meticulosamente qualquer envolvimento emocional, como se ele soubesse (ou temesse) que também teria que “demitir” as pessoas da sua vida em algum momento, ou tivesse receio de “ser demitido”, porque ele sabe a sensação de abandono que isso causa. O final meio aberto também me agradou, eu gosto de ficar me perguntando o que vai acontecer agora, gosto quando carrego um filme pra fora da sala de projeção, quando fico com aquelas personagens na cabeça, imaginando o destino delas, me identificando com algum sentimento, evocando meus próprios fantasmas e emoções.</p>
<p>6 – Nesse sentido eu adorei as três personagens principais, o Ryan Bingham do Clooney, a Alex Goran da Vera Farmiga e a Natalie Keener da Anna Kendrick. Cada um deles tem alguma coisa com que eu posso me identificar, hoje ou em algum momento da minha vida, e é como se eu pudesse compreendê-los, de alguma forma. Ah, sim, para quem não viu, a Alex é uma executiva que, como ele, viaja o tempo todo a trabalho, e com quem ele acaba tendo um envolvimento amoroso do tipo “somos ambos adultos e livres, vamos nos divertir sem compromisso”. E a Natalie é uma mocinha recém contratada pela empresa, cheia de ideias sobre como otimizar o serviço de demitir pessoas usando uma webcam em vez de indo até cada lugar demitir pessoalmente.</p>
<p>7 &#8211; Gostei muito dos embates entre o Ryan e a garota. Achei bacana a maneira como os dois personagens vão se alternando nas demonstrações de maturidade e/ou dificuldades pessoais, com tudo o que cada um tem de melhor e pior, até por conta das experiências próprias de cada idade. Acho que a atriz também se saiu extremamente bem. Difícil não ter uma certa condescendência com aqueles 20 e poucos anos, sua arrogância, seus idealismos, a rigidez de suas expectativas, a falta de noção em determinados comentários (alguns diálogos entre ela e a Alex são hilários), eu me senti meio &#8220;caramba, não é que a gente é assim mesmo nessa idade? putz&#8221;. Acho que eu meio que viajei pros meus próprios 20 e poucos anos, quando eu tinha tantos pontos em comum com aquela mocinha: um monte de certezas que toda hora eram chacoalhadas mas eu fazia de tudo pra não dar o braço a torcer, eu também me sentia A tal, A brilhante, e tinha no fundo tantos medos, e fazia tantos planos exatamente do mesmo jeito: quando eu tiver tantos anos, eu quero que seja assim ou assado, quero estar fazendo tal coisa, em tal lugar. Coisa mais tolinha, hoje dá vontade até de rir.</p>
<p>8 &#8211; Por fim, achei o tema geral tão interessante, e provavelmente, tão oportuno pros americanos. Não gosto dessa palavra aqui, oportuno, mas não consigo achar outra. Tão sincrônico, talvez. É uma experiência que eles estão passando a sério, muito mais do que nós aqui, essa coisa do desemprego, da instabilidade econômica. E dentro desse aspecto mais social, o diretor e o roteirista acharam um jeito de encaixar uma história tão pessoal. Tem camadas e camadas de metáforas ali se a gente pensa na vida do Ryan, no trabalho que ele faz, e no tema geral do filme. A coisa de falar do desemprego aqui é muito mais do que pano de fundo, tá costurado nas entranhas da lente pessoal e psicológica com que se pode olhar o personagem principal, que vive num estado afetivo e emocional de desemprego contínuo, up in the air, solto. A cereja do bolo é que todos os depoimentos dos desempregados no filme são reais, ou seja, não são atores ali, mas gente de verdade, demitida de verdade, falando dos seus medos, de como encarar a família, da sensação de ser traído pela firma em que trabalhou tantos anos da vida. Foi uma forma inteligente e sensível de tratar o assunto, e ficou bem encaixada na estrutura narrativa.</p>
<p>Falei demais, né? Vocês ainda têm fôlego pros outros filmes? Eu queria falar de Invictus e de A Fita Branca. Prometo não falar tanto de cada um deles. Deixa eu ir dar aula, que tá na minha hora. Quando eu voltar, eu escrevo mais.</p>
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		<title>Férias? Sei&#8230;</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jan 2010 02:06:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[abobrinhas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Alguém aí pensou que eu estava de férias? Pois férias é o que menos existe na minha vida no momento.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Meus filhos estão de férias, a cachorra está sempre de férias (óbvio), meu marido está trabalhando em casa esses dias, a empregada está de férias. Resultado: eu estou fazendo a casa funcionar. Banheiros, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Alguém aí pensou que eu estava de férias? Pois férias é o que menos existe na minha vida no momento.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Meus filhos estão de férias, a cachorra está sempre de férias (óbvio), meu marido está trabalhando em casa esses dias, a empregada está de férias. Resultado: eu estou fazendo a casa funcionar. Banheiros, roupa, comida, louça, pipoca e sanduíches pros muitos amigos que frequentam a casa, roupa de novo, hora de fazer comida outra vez, louça que não acaba.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Cinema? Quase nunca.<br />
Praia? Ainda nem uma vez.<br />
Leituras? Atrasadas.<br />
Blogar? Hahahaha.<br />
Dormir até mais tarde? Pelo menos isso.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Assuntos mais sérios fazem coçar a ponta dos meus dedos. Mas pra isso eu acho que devia começar a escrever mais cedo, e não às 10 e meia da noite, morrendo de sono. Pelo menos pra não deixar tudo tão abandonado, e retomar a pauta aos poucos, fiquei com vontade de fazer uma lista dos filmes que eu mais gostei em 2009, a maioria deles já saiu em dvd, sempre tem quem goste de uma dica ou recomendação.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Revendo minhas anotações (sim, eu anoto os filmes que eu vejo, com marcações especiais para saber o que eu vi no cinema e o que eu vi em dvd. Não vejo filme na televisão. Ou vejo tão raramente que não conta), eu constato que fui ao cinema 83 vezes em 2009. Média arredondada de 1,6 vezes por semana. E se deixasse eu ia mais, acho que é meu lazer preferido, junto com os livros. Ficaram 27 filmes por assistir, entre os que foram lançados no circuito e eu desejaria ver, mas não deu. Estão na minha fila pra ver em dvd. Por falar nisso, fora os 83 filmes vistos no cinema, eu assisti a 23 filmes em dvd ano passado (só isso? Achei que tinha sido mais. Vou rever o meu pacote na locadora).</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Muitos foram filmes que resultaram ruins ou decepcionantes. Alguns eu sabia que era só pela risada do momento, nada mais que isso, mas houve alguns memoráveis. Selecionei meus 15 melhores. Critérios evidentemente pessoais. O cinema tem uma função muito terapêutica pra mim, é um canal muito eficiente para vivenciar emoções que tocam em questões minhas, ou para refletir sobre temas do meu interesse, a cidade sendo um dos mais importantes. Vamos à lista, em ordem cronológica de lançamento. Me conte se você também viu algum desses ou se há outros que você gostou mais. Ah, eu não pus os links nos títulos dos filmes, porque você pode procurar na internet com a ferramenta de busca que gostar mais e obter todas as informações possíveis sobre cada filme.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>O curioso caso de Benjamin Button (The curious case of Benjamin Button): </strong><span style="font-weight: normal;">Achei a história engenhosa e gostei da maneira de contá-la. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Foi apenas um sonho (Revolutionary Road): </strong><span style="font-weight: normal;">Sam Mendes de novo com o bisturi no american way of life e principalmente no ideal do subúrbio americano. E eu tinha implicância com o Di Caprio, mas cada vez mais acho que ele é um ator de primeira. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Dúvida (Doubt): </strong><span style="font-weight: normal;">Provavelmente o melhor filme de 2009, na minha opinião. A história é ótima, e o embate de titãs entre Phillip Seymor-Hoffman e Meryl Streep é de tirar o fôlego.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>O leitor (The reader): </strong><span style="font-weight: normal;">Gosto muito mais da Kate Winslet aqui do que no </span><em><span style="font-weight: normal;">Foi apenas um sonho</span></em><span style="font-weight: normal;">. Chorei, fiquei emocionada, e pela primeira vez tive empatia com uma personagem colaboradora do nazismo. Tá quase empatado com </span><em><span style="font-weight: normal;">Dúvida</span></em><span style="font-weight: normal;"> na minha preferência. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong><span style="color: #000000;">Entre os muros da escola  (Entre les murs): </span></strong><span style="color: #000000;"><span style="font-weight: normal;">meio documentário, meio ficção, meio soco no estômago. Imperdível pra quem quer levar adiante as discussões sobre educação, relação professor x aluno, qualidade de ensino, a realidade invadindo a idealização da escola. </span></span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Palavra (en)cantada: </strong><span style="font-weight: normal;">um dos mais delicados e poéticos documentários brasileiros recentes, explorando a relação entre literatura e letra de música, com depoimentos de gente que realmente tem o que dizer. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>O visitante (The visitor): </strong><span style="font-weight: normal;">passou meio batido, o protagonista é vivido por um ator fantástico e quase sempre subutilizado, que é o Richard Jenkins, e de quebra tem a participação de uma atriz palestina que eu acho lindíssima e maravilhosa, a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0007814/" target="_blank">Hiam Abbass,</a> que está também em <em>Paradise Now</em> e <em>Lemon Tree</em> (na lista dos melhores filmes de 2008 pra mim). Filme de uma sensibilidade rara e abordando questões urbanas interessantes.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Gran Torino 	(Gran Torino): </strong><span style="font-weight: normal;">gostei tanto que falei dele <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/03/29/cineminha-ops-cinemao-no-caso/" target="_blank">aqui</a>. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Caramelo (Caramel): </strong><span style="font-weight: normal;">idem. <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">Releia</a>, se quiser. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>A partida (Okuribito): </strong><span style="font-weight: normal;">eu devia ter falado desse também, não sei por que deixei escapar. Como pode através do tema da morte um filme falar tanto de vida? Tremendamente emocionante. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Herbert de perto: </strong><span style="font-weight: normal;">eu disse que os critérios eram pessoais. A música dos Paralamas do Sucesso foi trilha sonora importante na minha juventude. Eu tenho grande admiração pelo Herbert Vianna, pela força que ele demonstrou e demonstra na superação do acidente que lhe custou a morte da esposa e a tetraplegia, e fiquei tocada com o filme.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Bons costumes (Easy virtues): </strong><span style="font-weight: normal;">outro ótimo que passou despercebido. Comprei até a trilha sonora, excelente. Jessica Biel surpreendente, Colin Firth perfeito e Kristin Scott-Thomas roubando todas as cenas. Amei. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>À procura de Eric (Looking for Eric): </strong><span style="font-weight: normal;">tem filme que a gente fala que é “de mulherzinha”. Esse é o típico filme para homens, ou pelo menos focalizando um universo predominantemente masculino, abordando tudo do ponto de vista deles. Humor inglês na medida certa, o futebol ajudando a entender a vida, participação especial e simpaticíssima do jogador e mito do Manchester United Eric Cantona. Tudo isso </span><em><span style="font-weight: normal;">sin perder la ternura jamás</span></em><span style="font-weight: normal;">. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>O solista (The soloist): </strong><span style="font-weight: normal;">acho que o que mais me encantou foi a forma honesta com que os sem-teto de Los Angeles foram retratados, bem como a organização que tenta acolhê-los. E a trilha sonora. Créditos finais ao som do 3o. Movimento da Nona Sinfonia de Beethoven é covardia. </span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><strong>Abraços partidos (Los abrazos rotos): </strong><span style="font-weight: normal;">Almodóvar. Pra mim isso é critério suficiente. E Penélope Cruz. É uma barbaridade o tanto que essa moça cresce sob a direção do Almodóvar. Ela não devia filmar com mais ninguém. </span></span></span></span></p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span style="font-weight: normal;"><strong>Obs 1:</strong> Vou deixar duas menções honrosas, que só ficaram fora da lista porque eu disse que seriam 15 (como podiam ter sido 12 ou 17, a lista é minha, né, mas enfim): </span><strong>Frost/Nixon</strong><span style="font-weight: normal;"> (a gente sabe como termina, mas eu fiquei ali na maior torcida, eletrizada mesmo. Nada como uma história bem contada), e <strong>Valsa com Bashir</strong> (animação <em>noir</em> sobre a participação israelense na Guerra do Líbano. Duro, pungente, envergonhado. Mas muito bom).</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span style="font-weight: normal;"><strong>Obs 2:</strong> <strong>Quem quer ser um milionário</strong> não entra na minha lista nem de longe. Achei fraquinho, fraquinho.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span style="font-weight: normal;"><strong>Obs 3:</strong> Vou parar por aqui, porque se me derem corda eu comento os 83 filmes que eu vi. Ninguém merece.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span style="font-weight: normal;"><strong>Obs 4: </strong>Dos que vão sair em 2010, eu espero com ansiedade por: <strong>Nine</strong>, <strong>It&#8217;s complicated</strong>, <strong>Cheri</strong>, <strong>The lovely bones</strong>, e o último <strong>Harry Potter</strong> (yes!), entre outros. Não sei se eles já têm títulos em português.</span></span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; font-weight: normal; line-height: 0.25in;" lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span style="font-weight: normal;"><strong>Obs 5: </strong>A programação normal há de voltar em algum momento, não desistam.</span></span></span></span></p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
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		<title>Poesia concreta</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/07/08/poesia-concreta/</link>
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		<pubDate>Wed, 08 Jul 2009 14:48:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[São Paulo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A gente tava ali falando dos refugos da cidade, daquilo que se coloca fora das vistas, porque incomoda, ou é feio, aí eu lembrei.</p>
<p>Esse fim de semana eu peguei um dvd na locadora. É um documentário brasileiro que foi feito há uns dois anos, mais ou menos, chegou a passar no cinema, mas só por pouquíssimo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A gente tava ali falando dos refugos da cidade, daquilo que se coloca fora das vistas, porque incomoda, ou é feio, aí eu lembrei.</p>
<p>Esse fim de semana eu peguei um dvd na locadora. É um documentário brasileiro que foi feito há uns dois anos, mais ou menos, chegou a passar no cinema, mas só por pouquíssimo tempo, participou de uns festivais e mostras e depois sumiu. Eu anotei e fiquei esperando. Só saiu em dvd agora. Chama-se <a href="http://www.omelete.com.br/cine/100008108/Bem_vindo_a_Sao_Paulo.aspx" target="_blank"><strong>Bem-vindo a São Paulo</strong></a> e é uma coletânea de visões, a maioria estrangeiras, apresentadas em 17 pequenos trechos, quase como estrofes de um poema, cada um dirigido a partir da visão de um diretor diferente. Mas o produto final tem uma unicidade plástica e narrativa cativantes, meio dada pela música, pela narração em off, contida e elegante, de Caetano Veloso, meio dada por uma escolha que eu não sei se foi casual, de focar exatamente no que tem de menos óbvio na cidade.</p>
<p>Explico-me. Uma coisa que costuma vir logo à cabeça quando se fala de São Paulo, com um subtítulo que é &#8220;visões da metrópole&#8221;, é a força econômica da cidade (normalmente representada pelas imagens da Av. Paulista, das grandes sedes de banco e empresas, das indústrias) e a pujança cultural e de lazer que a cidade oferece (sempre com imagens do MASP, dos parques urbanos e museus novos, do circuito vip de gastronomia). Nenhuma dessas imagens aparece no documentário. É um documentário filmado fora do cartão postal. É não mostrar o bordado, mas o avesso do bordado, a tessitura que permite que o bordado exista. O foco é nas pessoas mais simples, na variedade de anônimos &#8211; migrantes e imigrantes &#8211; que constróem a cidade todos os dias.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-326" title="copan-com-lua-grande" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/copan-com-lua-grande.jpg" alt="copan-com-lua-grande" width="400" height="300" />Desfilam cenas de mercados, feiras e fins de feira, cortiços, sambas noturnos, calçadas frequentadas por travestis, aposentados jogando truco num Anhangabaú vazio de domingo. Há pouquíssimo texto, sobressaem os sons da cidade, as conversas, as buzinas, o vento nos letreiros e placas desbotados. Reina o <a href="http://www.copansp.com.br/" target="_blank">Copan</a>, gigante decadente e sinuoso, na selva de concreto. A câmera tranquila, mesmo quando em tomadas curtas e rápidas, consegue captar a mutação constante da cidade, o movimento, a diversidade. Aliás, bem legal quando eles comentam que foi feita uma enquete com os moradores, sobre músicas que exprimem o espírito de São Paulo, e as duas músicas preferidas dos entrevistados são justamente as que falam de locomoção, de passagem: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ceBdGz3eTFg" target="_blank">Trem das Onze</a>, de Adoniram Barbosa, e <a href="http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/41670/" target="_blank">Sampa</a>, do mesmo Caetano.</p>
<p>Eu gostei especialmente de uma rápida conversa com um dos diretores, o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0321159/" target="_blank">Amos Gitai</a>, que tá lá falando sobre enquadramento, e constata que, ao fazer uma escolha, você está automaticamente excluindo todas as outras opções. Se você mostra esse ângulo, é porque não mostra aquele. Aí no quadro seguinte, você mostra o plano que ficou de fora da primeira vez, e exclui o anterior. É sempre um recorte. E neste recorte, o filme resolve dar protagonismo a vozes e rostos que normalmente são os excluídos das outras produções. Mesmo nas inescapáveis panorâmicas que tentam e não conseguem captar toda a gigantesca massa de concreto que é São Paulo, há sempre um olho humano.</p>
<p>O meu olho pra São Paulo sempre foi aquele descrito na letra da música: <em>quando eu te encarei frente a frente, não vi o meu rosto. Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto o mau gosto. É que Narciso acha feio o que não é espelho</em>. São Paulo sempre me intimidou. Eu era ali uma estranha, engolida pela imensidão do labirinto. São Paulo pra mim era exatamente o tamanho do engarrafamento que eu enfrentava uma vez por ano, quando, indo de carro do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul nas férias, ficava mais tempo parada nas Marginais do que o que tinha levado pra cruzar toda a Dutra. São Paulo era fumaça, Tietê e caminhão. Dois pastel e um chopps.</p>
<p>Aí a internet me apresentou amigos e amigas queridas (muuuuito queridas), paulistanas. Depois, amigos cariocas foram morar em sampa, pelos mais variados motivos, quase todos desembocando na impressionante melhoria de status profissional (terra das oportunidades, né?). Eu passei a ir um pouco mais a São Paulo, a ver tudo com outros olhos, a pegar metrô sozinha, a mediar minha relação com a cidade pelo afeto que eu tenho pelas pessoas. E isso transformou tudo. Vou ficar por aqui. No afeto transformando as relações, dando rosto, dando história ao que era uma generalização informe. Tão bom isso.</p>
<p><em>Alguma coisa acontece no meu coração&#8230;</em></p>
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		<title>O espaço, a fronteira final</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/15/o-espaco-a-fronteira-final/</link>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 17:04:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[diversão]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>(Eu acho que não tem nenhum spoiler nesse texto. Dá pra ler sem atrapalhar a apreciação do filme depois)</p>
<p>Quando eu criei o blog (vixe, já tem quase dois meses isso, oba), uma das coisas que eu achei que mais eu ia comentar era cinema. Porque eu AMO cinema, adoro a sala escura, o pacto de suspensão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>(Eu acho que não tem nenhum spoiler nesse texto. Dá pra ler sem atrapalhar a apreciação do filme depois)</em></p>
<p>Quando eu criei o blog (vixe, já tem quase dois meses isso, oba), uma das coisas que eu achei que mais eu ia comentar era cinema. Porque eu AMO cinema, adoro a sala escura, o pacto de suspensão de realidade proposto para aquelas horas, embarco feliz nos mais mirabolantes roteiros, sou até facinha de enganar. Inclusive inaugurei o blog com um comentário sobre <a href="http://www.imdb.com/title/tt1205489/?fr=PWdvfHNjPTF8bG09NTAwfGZiPXV8eD0wfHR0PTF8bXg9MjB8eT0wfGh0bWw9MXxjaD0xfGNvPTF8cG49MHxmdD0xfGt3PTF8cXM9R3JhbiB0b3Jpbm98c2l0ZT1kZnxxPUdyYW4gdG9yaW5vfG5tPTE_;fc=1;ft=22" target="_blank">Gran Torino</a>, um dos melhores filmes que eu vi esse ano, até agora. Mas de lá pra cá, vi pouca coisa que me chamasse realmente a atenção. Entre os que eu recomendo estão <a href="http://www.imdb.com/title/tt1312241/" target="_blank">Palavra Encantada</a>, <a href="http://www.imdb.com/title/tt0857191/" target="_blank">O visitante</a>, <a href="http://www.imdb.com/title/tt0892255/" target="_blank">Che</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt1185616" target="_blank">Valsa com Bashir</a>. Pra se divertir sem compromisso, comer pipoca e sair levinho, <a href="http://www.imdb.com/title/tt1278336/" target="_blank">Divã</a>. Ou então, <a href="http://www.imdb.com/title/tt0796366/" target="_blank">Star Trek</a>.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-237" title="star-trek-crew" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/star-trek-crew.jpg" alt="star-trek-crew" width="406" height="308" /></p>
<p>Pois é, quem mais aí acompanhou, pela televisão, a série <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Star_Trek" target="_blank">Jornada nas Estrelas</a>? A original, da década de 60? Tá, eu não sou tão velha assim, só um pouquinho. Aqui no Brasil passou nas décadas de 70 e 80, pelo menos é a lembrança que eu tenho. Sete da noite, se eu não me engano. E em preto e branco. Ah, que falta fazem meus irmãos dando pitaco aqui (eu assistia com eles, em casa) pra me ajudar a lembrar direito. Eram klingons, romulanos, vulcanos, e frotas estelares audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve. Tudo a bordo da USS Enterprise, claro.</p>
<p>A série deu um monte de filhotes. Outras séries, que faziam referência à primeira e a seus personagens principais, que funcionavam como continuações, e um monte de filmes, nem todos muito bons, aproveitando os atores ainda em atividade, ainda que com rugas, cabelos brancos e uma barriguinha a mais.O forte, pra mim, sempre foi a relação de amizade tecida entre eles, que superava diferenças culturais e de temperamento.</p>
<p>Dessa vez, a indústria cinematográfica se propôs mostrar &#8220;como tudo começou&#8221;, ou seja, aquela trupe toda, os senhores Sulu e Checov, a Tenente Uhura, o engenheiro Scott, e naturalmente o trio principal, o impetuoso Capitão James T. Kirk, o emotivo e leal Dr. Leonard McCoy e o racional (será?) vulcano Dr. Spock, em sua juventude, quando cadetes recém alistados, às voltas com sua primeira missão. E o roteiro aposta numa apresentação bem didática, cada um deles vai entrando na história e sendo apresentado, com suas credenciais, suas habilidades, seus pontos fracos, como foi parar ali e tal, numa estratégia, quem sabe, de conquistar as gerações mais jovens de espectadores, não familiarizados com a saga. E é capaz até de funcionar. Mas eu não vou mentir pra vocês. Quem vai aproveitar mesmo são os mais velhos, que gostavam da série 30 anos atrás.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-238" title="star-trek-2009" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/star-trek-2009.jpg" alt="star-trek-2009" width="550" height="350" /></p>
<p>Eu voltei a ter 10 anos de idade, juro (eu disse que eu era facinha de enganar). Me emocionei com a aparição da nave, o tema musical, fiquei buscando recordar e reconhecer os pequenos detalhes (o Kirk chamando o McCoy de &#8220;Magro&#8221;  &#8211; Bones, no original; o Spock dando aquela viradinha sutil de cabeça e dizendo &#8220;Fascinante&#8221;, diante de alguma coisa que ele não entende bem; o Sr. Sulu sendo um nerdzinho, o Scott bonachão). Também as incongruências não me escaparam. Não me constava que a Uhura tivesse uma queda pelo Spock, e a lembrança que eu tenho do Checov é completamente diferente do rapazinho que puseram para fazer o personagem. A participação mais do que especial e afetiva do Leonard Nimoy, o Spock original, agora um enrugadinho vovô de seus 80 anos, é bem legal, e até ajuda a desculpar as trapalhadas de um roteiro maluco, cuja vertigem é proposital, pra você não ter mesmo muito tempo pra pensar na bobajada pseudo-científica que os caras derramam sem dor na consciência em cima da platéia. De resto, tá tudo lá, os phasers, o teletransporte, o figurino retrô, a velocidade de dobra (hein? de onde é que eles tiram essas traduções, meu deus?), e &#8211; céus, como eu ri e achei isso bom &#8211; até mesmo aquele momento em que um personagem é largado num planeta esquisito, onde é perseguido por monstros tosquíssimos, que parecem reaproveitados de um episódio de Nacional Kid.</p>
<p>É bom ir ao cinema refletir, purgar as dores, se emocionar, mas também é delicioso ir só pra dar risada feliz e esquecer da vida por duas horas. Vida longa e prosperidade pra vocês também.</p>
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		<title>Cinema como experiência urbana</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/03/cinema-como-experiencia-urbana/</link>
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		<pubDate>Fri, 03 Apr 2009 22:56:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[representação]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Nossa, esses últimos dois dias foram meio corridos por aqui, e eu nem consegui vir escrever nada! E olha que eu arrumei um caderninho, onde tenho anotado as idéias que me ocorrem, e já tem uma dúzia de assuntos que eu gostaria de dividir com vocês! Enfim.</p>
<p>Fui ao cinema duas vezes esta semana. Vi Simplesmente Feliz, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nossa, esses últimos dois dias foram meio corridos por aqui, e eu nem consegui vir escrever nada! E olha que eu arrumei um caderninho, onde tenho anotado as idéias que me ocorrem, e já tem uma dúzia de assuntos que eu gostaria de dividir com vocês! Enfim.</p>
<p>Fui ao cinema duas vezes esta semana. Vi <a href="http://www.imdb.com/title/tt1045670/"><em>Simplesmente Feliz</em></a>, do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005139/" target="_blank">Mike Leigh</a>, e <a href="http://www.imdb.com/title/tt1312241/"><em>Palavra (en)cantada</em></a>, da <a href="http://www.imdb.com/name/nm0812773/">Helena Solberg</a>. O filme do Leigh eu tinha visto o trailer, tinha achado assim assim, aí a crítica foi tão elogiosa que u resolvi arriscar. Achei assim assim. Bom, simpático, mas não arrebatador. Um pouco prozac demais pro meu gosto. Não é que eu prefira filmes sombrios, pelo contrário. <a href="http://www.imdb.com/title/tt0795421/">Mamma mia</a>, por exemplo, foi uma poderosa injeção de alto-astral e eu amei cada minuto. Mas esse, não sei, me pareceu o tipo de &#8220;jogo do contente&#8221; que forçou um pouco a barra. Já o documentário da Helena Solberg, com depoimentos de diversos artistas sobre a ligação entre música e literatura, é fantástico. Eu me emocionei diversas vezes, e talvez, mais tarde, desenvolva mais minhas opiniões em algum texto. Enquanto isso, pra quem andou falando de literatura nos comentários do post anterior, eu recomendo muito.</p>
<p>É uma pena que alguns bons filmes venham em tão poucas cópias. Eu gosto muito desses filmes &#8220;menores&#8221;, que correm por fora dos grandes esquemas de distribuição e divulgação, que são exibidos em salinhas mais tranquilas, onde eu posso ficar longe da orgia de sacos mega combo de pipocas e gente atendendo celular durante a sessão. Aqui no Rio tem umas salas assim. O texto que se segue é sobre uma delas.</p>
<p>Supostamente, este post é a continuação do último, sobre a sensação de cidade de cada um. É que na época em que eu escrevi o texto aí de baixo, eu estava fazendo o mestrado, e nos foi proposto escrever sobre um exemplo de experiência urbana. Era uma disciplina meio solta, meio maluca, mas que fazia bastante sentido, pelo menos pra mim. A gente passou o semestre lendo crônicas do Rubens Fonseca, poemas e textos variados de literatura. No fim, deu pra perceber que havia uma costura entre eles, que era o fato de todos expressarem uma experiência, uma sensação, sobre o que é viver numa cidade, ser parte dessa construção coletiva. E os professores (eram dois) pediram que cada aluno elegesse uma experiência pessoal e a descrevesse. Eu escolhi o cinema, e especificamente um cinema, aqui em Botafogo, que hoje se chama Espaço de Cinema e pertence ao Grupo Estação (na época tinha o patrocínio de um banco), e que era então o meu preferido. Ainda gosto muito dele, mas hoje abriu um outro, no mesmo esquema, mas mais moderno, confortável e próximo pra mim, que eu gosto ainda mais <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Ah, por coincidência, os dois filmes a que eu assisti essa semana foram nesse cinema. O texto saiu assim:</p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;"><img class="aligncenter size-full wp-image-136" title="cinema" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/cinema.jpg" alt="cinema" width="300" height="301" /></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Adoro cinema, e vou sempre que posso, normalmente toda semana. Mas desta vez foi diferente. Eu estava anormalmente alerta para os significados de cada gesto, de cada atuação ali levada a cabo, alerta para a metalinguagem em questão. Eu estava “fazendo” este trabalho, desta disciplina, ao vivo. Eu estava “atuando” o trabalho. Como vocês não estavam lá para testemunhar isso, só me resta transportar o que sobrou da experiência, em memória e sentimento, para as palavras.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Nem o filme, nem o lugar, foram ao acaso. Assisti ao “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, no Espaço Unibanco de Cinema, em Botafogo. Tudo ali era vivência de cidade, 100%. Descobri que aquele lugar, em especial, é minha síntese de cidade. Meio idealizada, talvez, mas bolas, não é essa a proposta?</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Primeiro, é um lugar de encontro. É público. Começa num ante-espaço, que é a bilheteria, num recuo de calçada, que já é o espaço propriamente, mas é também o “lá fora”, onde convivem os que querem entrar, os que estão saindo, os que só estão passando, os que se protegem da chuva ou do sol sob a marquise, os que pedem esmola, os que vendem bala, os que vendem a entrada. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Mas não é preciso pagar para entrar. Paga-se para ver o filme, mas pode-se entrar de graça no saguão para ficar olhando o movimento. Ou tomar um café (bom, nesse caso, volta a intervir o dinheiro).</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar de múltiplas funções. Há o óbvio, que são as salas de cinema, mas há também um café, e uma loja misto de brechó e livraria. Há o exercício de uma função, para a qual foi projetado concretamente o espaço, e há o prazer da permanência, da convivência. Assistir a um filme, em si, é um ato de fruição ao mesmo tempo individual e coletiva, muito similar à fruição que se tem da vida urbana cotidiana.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">O bar/café remete à comida, à dimensão física da condição humana, ainda que já irremediavelmente associada aos valores culturais e estéticos de que lhe impregnamos e com os quais lhe vivemos a experiência. O brechó/livraria remete à arte, à dimensão espiritual e transcendente da vida, alimento igualmente fundamental à sobrevivência e à experiência urbana. O fato de ser brechó, de vender coisas usadas e alguma antiguidade, nos lembra, ademais, dos vários tempos da cidade, da reciclagem, da vida impregnada nos pequenos objetos de todos os dias, no afeto emprestado aos artefatos.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar de diversidade. “Tribos” diferentes frequentam suas salas e espaços, e, sobretudo, colaboram para que aquele lugar exista. Gente de tipos variados, jovens e velhos, mais conservadores ou mais descolados. Gente de classes sociais diferentes, que todos os dias contribui para o funcionamento desse espaço e participa, em maior ou menor grau, de sua vida. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar onde pulsa o movimento. Onde há fluxos, de informação, de gente, de dinheiro. Onde há produção, consumo, criação. Num mesmo espaço físico, a cada dia transitam vidas diferentes, que configuram paisagens diferentes. E mesmo o espaço físico muda. Acompanha uma moda, uma necessidade de reciclagem, de manutenção. Tudo fala de efemeridade, de transitoriedade. De movimento.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Não foi gratuita, também, a escolha do filme assistido. Um edifício, uma arquitetura, fala do suporte físico da cidade. Mas o que lhe dá vida e significado é o elenco de tipos que por ali passam ou habitam. Foi como eleger uma representação cinematográfica para a vida urbana. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Cidade para mim, é isto. Uma rede de interações e representações em cartaz 24 horas por dia, sem ensaio. Alguns aplaudem, outros vaiam, todos interpretam.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p>Você me contaria alguma experiência sua, algo que o fez sentir parte da cidade, parte de alguma coisa conjunta, que você ajuda a construir, e fortalece seus vínculos com os outros co-cidadãos?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cineminha. Ops, cinemão, no caso</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/03/29/cineminha-ops-cinemao-no-caso/</link>
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		<pubDate>Sun, 29 Mar 2009 03:46:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Clint Eastwood]]></category>
		<category><![CDATA[heróis]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Fui ver Gran Torino.
E amei.</p>
<p>Eu gosto do Clint Eastwood sem ser exatamente apaixonada por ele. Tenho umas reticências de vez em quando, de conteúdo e de forma, mas desta vez ele construiu uma pequena obra-prima que foi injustamente, ao meu ver, ignorada pelo Oscar. Ele merecia pelo menos estar concorrendo em alguma categoria.</p>
<p>Já há algum tempo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fui ver <a href="http://www.imdb.com/title/tt1205489/" target="_blank">Gran Torino</a>.<br />
E amei.</p>
<p>Eu gosto do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000142/" target="_blank">Clint Eastwood </a>sem ser exatamente apaixonada por ele. Tenho umas reticências de vez em quando, de conteúdo e de forma, mas desta vez ele construiu uma pequena obra-prima que foi injustamente, ao meu ver, ignorada pelo Oscar. Ele merecia pelo menos estar concorrendo em alguma categoria.</p>
<p>Já há algum tempo ele tem trilhado um caminho de desconstrução dos mitos americanos. Mas diferentemente do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005222/" target="_blank">Sam Mendes</a>, que faz a crítica grandiloquente da falência do <a href="http://www.imdb.com/title/tt0169547/" target="_blank">modelo suburbano</a> e seu <a href="http://www.imdb.com/title/tt0959337/" target="_blank">way of life</a>, o Clint foca no indivíduo, nos valores imaginários que construíram o herói americano. De uma certa forma, ele tá desconstruindo sua própria carreira e os personagens tipo Dirty Harry que ele já encarnou.</p>
<p>Neste filme, ele cria um personagem grosso, mal-educado, veterano orgulhoso da guerra da Coréia, velho, solitário, racista, ultraconservador, homofóbico, o estereótipo do americano do meio-oeste que despreza e se ressente das mudanças do mundo e do seu bairro, cheio de imigrantes chineses. Ao mesmo tempo, é um personagem encantador, comovente, charmoso, com uns flashes de gentileza e fragilidade, que encarna, ainda que de maneira antiquada e torta, valores como integridade de caráter, hombridade, honra e mérito pelo esforço e pelo trabalho duro.</p>
<div id="attachment_96" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://www.imdb.com/title/tt1205489/mediaindex"><img class="size-medium wp-image-96" title="Clint em cena" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/03/grantorino-300x242.jpg" alt="Clint em cena" width="300" height="242" /></a><p class="wp-caption-text">Clint em cena</p></div>
<p>O cara é dos que acham que podem resolver tudo sozinhos, no melhor esquema <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000216/" target="_blank"><em>schwarzenegger</em></a>: Não mexa com a minha vida e com a minha propriedade, que eu bato, arrebento, dou tiro e faço justiça com as próprias mãos, já que o Estado não me garante mais nada e o mundo tá de perna pro alto com essas ganguezinhas aterrorizando geral! Mas até nisso ele fica o tempo inteiro brincando, de maneira amarga, com essa figura, tão cara aos americanos, do <em>self-made hero</em>. Ele fica ali, exatamente no limite, andando na corda bamba, entre encarnar o personagem e, por outro lado, expor a impotência, a inutilidade, a estupidez e até o perigo que esse tipo de atitude representa. E ele brinca com os sentimentos da platéia, que ora se escandaliza com a truculência do sujeito, ora torce por ele, como quem torceria por qualquer herói desses &#8220;deixa que eu resolvo, eu sou fodão&#8221;. Sabe esses personagens que lavam a alma da gente quando dão o troco, varrem a escória da face da terra, ainda que usando de métodos igualmente violentos? Pois é disso que eu tou falando. Ele põe esse personagem do avesso.</p>
<p>O elemento imigrante ali é um toque a mais de reflexão, sobre xenofobia, globalização, a América apresentada como a pátria da diversidade (é engraçado que os personagens que vão aparecendo são polacos, como o próprio Walt Kowalski representado por Eastwood,  irlandeses, italianos), e ao mesmo tempo como ameaçada de perder sua identidade por esse mesmo <em>melting pot.</em> Abre parênteses: os polacos, irlandeses, italianos &#8211; todos europeus &#8211; são os personagens que fazem parte do mesmo grupo social que o protagonista. Os arruaceiros são latinos e chineses. Tudo bem, fecha parênteses. Mas eu acho que esses são aspectos um pouco menores no filme, ainda que não menos importantes.</p>
<p>Enfim, eu gostei muito, me emocionou, me despertou empatia, e tou recomendando. Se alguém for ver, me conta o que achou também?</p>
<p>PS: eu escrevi esse texto por e-mail pra um grupo de amigos, com quem eu sempre troco idéias sobre filmes e <em>otras cositas más</em>. Aí a <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a>, uma das amigas do grupo, perguntou se eu me importava se ela publicasse no <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Duas Fridas</a>, e eu disse que não, já que eu achava que ainda ia demorar pra botar o Urbanamente no ar. Só que eu fiquei mexendo nisso no fim de semana e o blog ficou pronto, e me deu vontade de estrear minha coluna de cinema com ele. Como ela ainda não tinha publicado, eu &#8220;pedi o texto de volta&#8221; e estou morrendo de vergonha, que coisa tão feia de se fazer! Só me resta agradecer a ela imensamente, pela (usual) elegância, pela compreensão, e pela generosidade em ajudar uma blogueira iniciante a ter o que publicar nos primeiros dias.</p>
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