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	<title>Urbanamente &#187; História Urbana</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989&amp;referer=');">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm?referer=');">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares?referer=');">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html?referer=');"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html?referer=');"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/?referer=');">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Muçulmanos, islâmicos, e outras provocações</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</p>
<p>Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que está indo ao ar agora.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como diz a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dropsdafal.blogbrasil.com/?referer=');">Fal</a>, pra isso Deus inventou o blog, pra gente falar o que bem entende, então tou com uma vontade irresistível de abordar mais a fundo esse tema dos muçulmanos. Claro, vou encaminhar o assunto mais para o lado da arte, arquitetura, urbanismo, contribuições científicas, história. Não estou com disposição, nem tenho conhecimento aprofundado pra isso, de entrar na seara da política internacional contemporânea, muito menos da teologia, mas o objetivo é dar uma beliscada também nisso, ainda que indiretamente.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Na verdade, desde muito nova, a região do Oriente Médio e a cultura muçulmana me despertam enorme curiosidade, não sei explicar por quê. Sempre foi um paradoxo para mim que a cultura rica, avançada e tolerante que eu conhecia através das histórias das Mil e Uma Noites e de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar_de_Melo_e_Sousa" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_C_C3_A9sar_de_Melo_e_Sousa?referer=');">Malba Tahan</a> (que muito mais tarde eu vim a descobrir que era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Melo e Souza, escritor e matemático, que ainda por cima era o pai do meu primeiro professor de projeto na faculdade de Arquitetura – e vocês não podem imaginar a emoção do velhinho quando eu reconheci o sobrenome dele e elogiei o papel da literatura do pai dele na divulgação da matemática e de uma visão mais positiva da religião islâmica)&#8230; O problema de fazer orações muito longas é que a gente começa e depois se perde. Eu dizia que achava um paradoxo que essa mesma cultura estivesse associada, através dos noticiários, desde que eu me entendo por gente (e hoje eu sei que desde muito antes disso) a tantas guerras e disputas sangrentas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span></p>
<div id="attachment_797" class="wp-caption aligncenter" style="width: 774px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg"><img class="size-full wp-image-797" title="islam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg" alt="" width="764" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fontes das imagens, em ordem: http://www.grupoescolar.com/a/b/7AC53.jpg; http://conexaooriente.wordpress.com/2007/09/10/as-mil-e-uma-noites/; http://independenciasulamericana.com.br/2009/01/falcoes-impoem-guerra-a-obama/</p></div>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como eu expliquei no post anterior, eu tinha dado aula sobre as cidades muçulmanas e me dei conta do universo que o tema abria em termos de discussão de preconceitos, de história, de recuperação de dados e episódios que podem nos ajudar a ter um entendimento mais amplo e livre sobre o assunto. Assim, idealizei esta série, composta por alguns capítulos fartamente ilustrados e que já estão quase todos prontos, de maneira que eu não devo ter intervalos tão longos entre uma postagem e outra.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje farei <strong>provocações iniciais</strong> e pretendo esclarecer alguns conceitos no campo da semântica mesmo, e da antropologia, que é pra gente combinar a que está se referindo quando disser uma coisa ou outra.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Depois, teremos uma breve história da <strong>Arábia pré-islâmica</strong> e a importância do <strong>surgimento de Maomé</strong> naquele tempo e espaço específicos, o que ajuda a explicar a rápida disseminação de sua doutrina.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">No capítulo seguinte,  daremos uma olhada no período de <strong>expansão territoria</strong>l e o surgimento das  primeiras <strong>dissenções</strong> (a gente escuta tanto falar em xiitas e sunitas:  quem são eles, quando se dividiram, quais as suas principais  diferenças?).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A seguir, veremos as <strong>contribuições dos muçulmanos no campo da ciência e cultura</strong> (especialmente a literatura e a nossa  herança linguística via portugueses-espanhóis).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Aí entraremos no capítulo  específico de <strong>Artes e Arquitetura</strong>. Falaremos dos arcos em ferradura, das mesquitas,  dos minaretes, ds mosaicos belíssimos, dos palácios e do Taj Mahal, um  dos monumentos funerários mais conhecidos do mundo.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">E como fechamento, uma  <strong>análise das cidades e dos traçados urbanos</strong>, buscando explicar a forma  tão característica das cidades muçulmanas à luz da cultura e de uma  sabedoria interessante em termos de conforto ambiental. E  reconheceremos, mais uma vez via colonização portuguesa, alguns  elementos e desenhos tão comuns nas nossas cidades coloniais, aqui no Brasil.<br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O objetivo geral será provocar uma reflexão sobre a diversidade de um mundo que tendemos a generalizar de forma muito reducionista, e enxergar esse que é o &#8220;Outro&#8221; por excelência no nosso mundo ocidental menos sob o enfoque de certo/errado, civilizado/bárbaro, moderno/conservador, e mais do ponto de vista da diferença mesmo, e de como, no meio dessa diferença, temos tantas coisas e humanidades em comum. O que vocês acham? Vou indicar livros, fontes diversas e principalmente muitos filmes (para os quais aceito sugestões).</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Diversidade</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A verdade é que, pra nós, esse é um pessoal muito esquisito mesmo. E a gente tende a olhar com desconfiança, quando não com medo e hostilidade pra tudo o que é muito diferente de nós. Se é tão diferente, não pode ser bom. Ou certo. Porém, especialmente a partir dos ataques às torres gêmeas de Nova York, em 2001, a gente tende a associar rapidamente muçulmano com Oriente Médio, terrorista, mulher de burca, guerra, intolerância, pouca participação política. E não é por acaso. Mas eu falo disso daqui a pouco.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O que eu quero afirmar é que o mundo muçulmano é extenso, rico e diverso, e qualquer generalização é empobrecedora da visão que se pretende ter. Pra nós, eles podem ser gente esquisita. Mas vamos relativizar: nós somos esquisitos pra eles também. Olhar para culturas diferentes requer um exercício de empatia, um esforço de – nem que seja por uma fugaz fração de tempo, conseguir se colocar no lugar do outro, e tentar ver o mundo como ele o vê.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje, o Islamismo é a religião em mais rápida expansão no mundo, com 1.3 bilhões de fiéis, cerca de 20% da humanidade (é a maior religião do mundo, considerada individualmente. O Cristianismo tem mais fiéis, mas que estão divididos em variadas denominações e igrejas: católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais etc). Ou seja, não temos saída a não ser repensar a convivência com este “Outro”.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Esta imensa população muçulmana habita um vasto arco no planeta, que vai da África Ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e a Índia. Algumas vezes, são maioria da população local, outras vezes são importantes minorias. As migrações intensas que caracterizam nosso mundo contemporâneo já formam  enclaves consideráveis de grupos muçulmanos em diversos países da Europa e das Américas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-800" title="Image-001" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg" alt="" width="750" height="535" /></a><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Este mundo é diverso quanto às histórias, etnias, línguas, tradições sociais, maneiras de ver e conviver com o mundo, com o meio ambiente e com os vizinhos. Como traço comum, eles têm o Islã, a religião. Mas mesmo aí há contrastes: nas formas rituais e sociais, e até no núcleo de crenças e maneiras de aplicá-las à sociedade. Nem tem como ser diferente. O Islã surgiu há mais de 1400 anos e se espalhou, como acabamos de ver, por três continentes, onde teve contato com sociedades variadas, algumas milenares, e encontrou em cada lugar condições diferentes entre si, que geraram mesclas diferentes.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma questão de terminologia</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A primeira coisa, portanto, é tentarmos tecer alguns esclarecimentos semânticos, para desfazer confusões terminológicas.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Pra começar, <strong>árabe</strong>: termo que se refere a uma etnia, oriunda da península arábica (olha o mapinha aí embaixo, com a divisão político-territorial de hoje). E como já vimos, há muçulmanos de outros outros povos, malaios, africanos, iranianos (de origem persa), turcos, hindus. E mesmo entre os árabes, há os que professam outras religiões, ainda que sejam minorias. Portanto, <strong>muçulmano não é sinônimo de árabe</strong>. Nem de palestino, que por sinal também não é árabe.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg"><img class="size-full wp-image-801" title="arabian_peninsula_map" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg" alt="" width="441" height="371" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog/2009/07/iemen/</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Oriente Médio:</strong> diz  respeito a uma região geográfica em particular, maior que a Península  Arábica, e que é apenas uma fração do território hoje ocupado pelos  muçulmanos (numericamente falando, menos de 30% de todos os muçulmanos  do planeta estão ali). Além disso, há no Oriente Médio importantes  nações muçulmanas de povos não-árabes, como turcos e curdos, e mesmo  nações não-muçulmanas (ou pelo menos não majoritariamente muçulmanas),  como Israel. Além de grupos e populações de outras religiões em várias  dessas nações (cristãos e ortodoxos no Líbano, na Síria, em Israel etc).  Aliás, a própria designação daquela região geográfica como Oriente  Médio é discutível. O termo é evidentemente eurocentrista, de origem  inglesa, e data do século XIX, quando o império britânico controlava um  quarto da Terra. Também não podemos esquecer que historicamente o  Oriente Médio se encontra na encruzilhada de múltiplas influências  culturais e foi, durante séculos, o ponto de comunicação, tanto por mar  quanto por terra, entre a Europa e as civilizações orientais (Índia,  China e sudeste asiático). Se a gente ainda pensa que após séculos de  supremacia islâmica as potências européias ocuparam e retalharam a  região a partir do século XIX, segundo seus interesses e em prejuízo da  população local, o que é (mais uma) fonte de grande humilhação e  ressentimento desses povos em relação ao mundo e aos valores ocidentais,  e pra culminar grande parte do petróleo do mundo está ali, começamos a  entender a importância estratégica dessa região e a cobiça de tantas  nações pelo controle desse território.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_802" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg"><img class="size-full wp-image-802" title="ori_medio_mapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg" alt="" width="515" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/conflito_israel_x_palestina</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Muçulmano:</strong> termo  que se refere a um fenômeno sociológico, cultural, e que tem uma  abrangência muito maior, envolvendo muitos aspectos para além do  fenômeno religioso.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Islâmico:</strong> termo que  diz respeito especificamente à religião. Por isso a minha preferência  em me referir às cidades como sendo muçulmanas, e não necessariamente  islâmicas. Vou dar exemplos: Teerã, capital do Irã, pode ser considerada  uma cidade islâmica. Mas Istambul, capital da Turquia, ainda que de  maioria muçulmana, não é islâmica. O estado turco é laico, e o arcabouço  jurídico-institucional que rege a vida dos cidadãos de Istambul não se  baseia na <em>shariah</em> (a lei islâmica, interpretada pelos  religiosos), mas em leis laicas. <strong>UPDATE ANTES TARDE DO QUE MAIS TARDE:  A capital da Turquia é Ankara e não Istambul, embora esta cidade (a antiga Constantinopla e, antes disso, Bizâncio) ainda seja uma das mais &#8211; senão A mais &#8211; conhecida e importante do território turco. </strong><br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A sobreposição dessas definições tem origem num raciocínio simplista: os árabes moram no Oriente Médio e são majoritariamente muçulmanos. Daí para serem majoritariamente fundamentalistas e terroristas não custa muito. Eu tenho cá pra mim que há um certo interesse ideológico, hoje mais que nunca, em que essa confusão permaneça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">De fato, originalmente, os termos árabe e muçulmano coincidiam, quando a religião nasceu ali, em Meca, e se expandiu primeiramente pela Península Arábica, onde rapidamente converteu quase todos os habitantes. Depois, a expansão do Islã levou à conquista do Oriente Médio (sempre vale repetir: maior e mais amplo do que os países árabes), que adotou em grande escala a língua arábica e a fé islâmica. E num terceiro momento alcançou outras partes do planeta, de forma que – eu volto a frisar – o mundo muçulmano hoje é muito mais amplo e diverso do que o mundo árabe ou mesmo do que o Oriente Médio. Claro que aquela região tem um peso ideológico grande, afinal, foi ali que nasceu Maomé, e o árabe é a língua sagrada do Alcorão. Ainda que nem todos os muçulmanos falem necessariamente árabe, diga-se de passagem.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Por outro lado, islamismo e islamista têm sido termos utilizados para se referir ao movimento religioso radical do Islã político, o tal do fundamentalismo. Portanto, é confuso e incorreto falar em islamismo como sinônimo de Islã, como acontece às vezes em português. A teoria política do Islã prescreve a unidade de todos os fiéis numa única comunidade (<em>ummah</em>), pressupondo uma unidade política, que chegou a existir nos primeiros dois séculos, mas rapidamente se desfez. A própria diversidade de experiências sociais, políticas e culturais encontradas nas vastas terras conquistadas fez com que o mundo muçulmano tenha sempre sido e continue sendo muito dividido. Como a religião ocupa uma parte muito central e essencial na cultura muçulmana, as divergências internas comportam debates sobre o papel das leis religiosas (<em>shariah</em>) na vida pública e privada, comportam leituras fundamentalistas dos textos sagrados que municiam ideologicamente grupos terroristas, e comportam o pensamento de grupos menos conhecidos (e eu sempre me pergunto: a quem interessa que esses grupos sejam menos conhecidos por nós?) do Marrocos à Malásia, que, com base na mesma religião, lutam pela democracia e pelo diálogo pacífico com outras civilizações. E por fim, eu pergunto: essas mesmas divergências e extremismos não existem também entre os seguidores de outras fés, como judeus e cristãos? Quantas atrocidades já foram e continuam a ser cometidas em nome de Deus e brandindo Bíblias e Torás?</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Mas afinal, o que quer dizer Islã?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A tradução do árabe, literalmente, quer dizer <strong>submissão, rendição à vontade de Allah.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">É fundamental entender que o Islã é uma religião tão expansionista e reinvindicadora do monopólio da verdade quanto o cristianismo. Porém, de forma mais radical e total, o Islã abrange<strong> todas as esferas da vida </strong>de seus seguidores:<strong> </strong>é uma religião (crenças, rituais, normas, fonte de consolação), mas também é uma comunidade (<em>ummah, </em>em árabe) e um modo de viver ou tradição (<em>sunna</em>), que regulariza todas os aspectos da vida: o modo de viver dos indivíduos e as etapas de seu desenvolvimento, a educação, as relações entre homens e mulheres, a vida familiar e comunal, o comércio e o governo, a justiça e a filosofia. Ou seja, enquanto para nós, ocidentais, a religião pertence à esfera da vida privada, para os islamistas, este conceito não existe, e a religião regula toda a vida da comunidade, pública, política e privada. Em consequência dessa onipresença da religião, o Islã é o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações submetidas a ele.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O Islã é também um <strong>sistema jurídico-religioso total: </strong>edificado nas bases sagradas dos prímeiros séculos e que continua evoluindo, com toda a complexidade já exposta. Sua estrutura hierárquica pressupõe a igualdade entre os fiéis. Os legistas especializados são intérpretes da vontade de Deus e não mediadores ou representantes divinos.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>E a Jihad, o que é?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Segundo o Alcorão (e no próximo post sobre o assunto veremos em que circunstâncias isso foi escrito), o primeiro dever de um muçulmano consiste em construir uma sociedade justa e igualitária, em que pobres e fracos sejam tratados com respeito. Isso demanda uma <em>jihad</em>, cuja tradução literal deveria ser a de<strong> “luta ou esforço em favor de Deus”</strong>. Ou seja, a <em>jihad</em> mais importante é a que o fiel trava consigo mesmo, a disciplina de transformação interior que leva ao compromisso total com Deus. Poderia ser ainda traduzida por militância, em todas as frentes: espiritual, política, social, pessoal, econômica e militar. Daí sua aplicação também como “guerra santa”, tendo tido grande impacto na rápida expansão islâmica. A mobilização pela fé muitas vezes se fez através da guerra. Mas não pode ser reduzida a esta tradução.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Vou terminar explicitando e recomendando fortemente a bibliografia em que me baseei para as reflexões e dados expostos hoje. Em primeiro lugar, sempre, recomendo os livros (e são vários) da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong?referer=');"><strong>Karen Armstrong</strong></a>. Ela é uma inglesa, ex-freira, formada pela Universidade de Oxford e atualmente grande e respeitada estudiosa das religiões. Leciona numa faculdade de estudos do judaísmo e formação de rabinos, e é a mesmo tempo membro da Associação Muçulmana de Ciências Sociais, com prêmios concedidos por várias organizações de estudos islâmicos. Entre seus livros mais famosos estão <span style="text-decoration: underline;">Uma História de Deus</span> (1994), <span style="text-decoration: underline;">Jerusalém, uma cidade, três religiões</span> (2000), e <span style="text-decoration: underline;">A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias</span> (2006). Além, é claro, deste que eu usei aqui, que foi o primeiro que eu li e pelo qual me apaixonei, chamado <span style="text-decoration: underline;">Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo</span> (2001). Todos foram editados no Brasil pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.companhiadasletras.com.br/?referer=');">Companhia das Letras</a>, têm linguagem envolvente, narrativa fascinante, não requerem nem grandes conhecimentos prévios nem nenhuma crença ou espiritualidade por parte do leitor, já que os temas são encaminhados da maneira mais isenta possível, ainda que se perceba que a autora é, pessoalmente, uma mulher de tocante fé religiosa, e de uma visão profundamente humanista.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O segundo livro usado hoje se chama <span style="text-decoration: underline;">O Mundo Muçulmano</span> (2004), de autoria de <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921&amp;referer=');"><strong>Peter Demant</strong></a>, e publicado pela <a href="http://www.editoracontexto.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.editoracontexto.com.br/?referer=');">Editora Contexto</a>. Demant é um historiador holandês, especialista em Oriente Médio, cuja tese de doutorado tratou sobre a ocupação e colonização israelense nos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém na década de 90, como pesquisador na Universidade Hebraica e membro ativo nos diálogos pela paz entre acadêmicos israelenses e palestinos. Mora no Brasil desde 1999, onde dá aulas no Departamento de História da USP. Eu achei o livro dele muito, muito claro, organizado didaticamente, de maneira a nos levar a entender os contextos históricos do surgimento do islamismo e da eclosão das ondas fundamentalistas que varrem o Oriente Médio há tantas décadas, sem descuidar de questões importantes em  vários outros lugares em que o islamismo é a religião principal. Foi nesse livro que eu li pela primeira vez e aprendi sobre os interesses e problemas envolvidos na criação do Estado de Israel em 1948, pela ONU, sobre as guerras de Israel com Egito, Síria e Líbano, sobre a ascensão dos aiatolás no Irã, sobre a Primeira Guerra do Golfo, sobre a disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e muitas outras coisas. Vira e mexe eu pego de novo para consultar alguma coisa.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Embora com enfoques diferentes, ambos apresentam dados solidamente fundamentados e um pequeno dicionário ao final, com esses termos todos do árabe que a gente às vezes escuta e não sabe o que querem dizer.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Deixo vocês, também, com uma pequena lista de filmes, entre os que eu assisti, e que me ajudaram a rir, a me emocionar, a me reconhecer, a estranhar e a aprender muita coisa que desmitificou esse universo e esses lugares para mim. Outras contribuições, tanto bibliográficas quanto cinematográficas são muito bem-vindas. No próximo capítulo, a <strong>Arábia pré-islâmica e o aparecimento de Maomé</strong>. </span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Fahreinheit 11 de setembro (Fahreinheit 9/11)</strong>, EUA, 2004. Dir: Michael Moore. Documentário sobre como os ataques foram o pretexto perfeito para a guerra contra o Afeganistão e, mais tarde, o Iraque.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma amizade sem fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran)</strong>, França, 2003. Dir: François Dupeyront. Romance fofo sobre a amizade, num bairro pobre de Paris da década de 60, entre um dono de armazém muçulmano (Omar Shariff, impagável) e um menino judeu. Trilha sonora deliciosa.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Cruzada (Kingdom of Heaven)</strong>, EUA, 2005. Dir: Ridley Scott. Não que seja um filmaço, mas tenta ver as Cruzadas e a disputa por Jerusalém também por ângulos outros que não só o ponto de vista cristão. A fotografia é linda.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Munique (Munich)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Spielberg.Sobre o atentado que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 e a vingança orquestrada por Israel contra os que idealizaram e participaram dele. O ponto de vista é judaico, mas o incômodo pela brutalidade e pela inutilidade do ódio, que aparecem de vez em quando no personagem principal são válidos.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Syriana – a indústria do petróleo (Syriana)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Gaghan. A politicagem por trás da indústria do petróleo e como isso move guerras e gera lucros monstruosos (em todos os sentidos).<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>O caminho para Guantánamo (The road to Guantánamo)</strong>, EUA, 2006. Dir: Mat Whitecross e Michael Winterbottom. </span><span style="color: #000000;">D</span></span></span></span><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">ocumentário sobre</span> <span style="color: #000000;">as arbitrariedades das prisões de suspeitos em Guantanamo, a partir da história de três muçulmanos britânicos que ficam presos 3 anos sem acusação formal.</span> </span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Babel (Babel)</strong>, EUA, 2006. Dir: Alejandro Iñárritu. Nem sei bem por que eu incluí esse aqui, porque envolve tantos outros temas, mas eu gostei muito. E o mote para toda a ação começa numa explosão que quase mata uma turista americana no deserto do Marrocos, e toda a intrincada rede que se forma a partir daí, envolvendo comércio de armas, imigração ilegal, choque de culturas e solidão.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the Bridge: The Sound of Istambul)</strong>, 2005. Dir: Fatih Akin. Não sei de quem ou de onde é a produção. É um documentário também, que explora a riqueza e diversidade da cultura turca, através de uma viagem pela música, pela gastronomia, pelos pontos turísticos principais e pela observação e contato com as pessoas comuns da cidade.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>O caçador de pipas (The Kite Runner)</strong>, 2007. Dir: Marc Forster. Certamente é uma produção multinacional, mas com participação americana (eu não sei de onde mais). Eu gostei bem mais do livro que do filme, que dá uma “dourada de pílula”, mas é um olhar interessante sobre o Afeganistão, vale a pena.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Persépolis (Persepolis)</strong>, França/Irã, 2007. Dir: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Agora estamos chegando onde interessa. Animação GENIAL, em preto e branco, baseada nas histórias em quadrinho criadas pela iraniana Marjane Satrapi (que também faz a adaptação do roteiro), sobre a vida de uma menina (a história é narrada e apresentada do ponto de vista dela, da infância à vida adulta), sua família, seus dilemas quanto à identidade cultural e participação política no Irã, a partir da Revolução Islâmica. Imperdível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Lemon Tree 	(Etz limon)</strong>, 2008. Dir: Eran Riklis. A produção é parcialmente israelense? Não lembro, não achei a informação. É provavelmente o meu preferido dessa lista toda. Uma viúva palestina sobrevive da plantação de limões. Um dia um ministro de Israel acaba virando seu vizinho e por motivos de segurança, exige que ela derrube todos os limoeiros. Tocante, lindo, angustiante. Com minha atriz palestina preferida, Salma Zidane.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>A banda (Bikur Ha-Tizmoret)</strong>,<span style="text-decoration: line-through;"> Egito</span>, Israel, 2007. Dir: Eran Korilin. Tem momentos engraçados, mas eu não chamaria de comédia. Uma banda da força policial egípcia vai a Israel tocar na inauguração de um centro de artes muçulmano, mas acaba parando na cidadezinha errada. Eles não falam hebraico, os habitantes não falam árabe. Mas a comunicação é possível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Valsa com Bashir (Waltz with Bashir)</strong>, Israel, 2008. Dir: Ari Folman. Outra animação. Dura, realista, amarga, parcialmente autobiográfica. Um veterano israelense da guerra contra o Líbano revisita suas memórias, os motivos e os cenários do conflito. Barra pesada, mas muito bom.<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Caramelo (Sukkar Banat)</strong>, Líbano, 2007. Dir: Nadine Labaki. Já falei desse filme <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">aqui</a>. O cenário é exatamente a Beirute pobre e ainda devastada pela guerra de que trata o filme citado aí em cima. Num salão de beleza transitam mulheres diferentes, com seus dramas pessoais, nos quais a gente consegue se reconhecer tão pungentemente quanto identificar diferenças imensas. Eu amei.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Tem muitos outros, ótimos. <strong>A noiva Síria</strong>, <strong>Procurando Elly</strong> (um iraniano do ano passado que eu acabei não vendo e estou esperando sair em dvd), <strong>Free Zone</strong>, do Amos Gitai, um outro americano recente que eu não consigo lembrar o nome, sobre a relação de amizade improvável mas bonita entre duas moças, professoras do ensino fundamental de uma escola nos EUA, sendo uma de família ortodoxa judia, e a outra de origem palestina. Um fantástico, prêmio pra quem lembrar o nome, sobre dois irmãos palestinos que se transformam em homens-bomba para um atentado do lado judaico, e os conflitos de consciência de cada um. Tem o próprio <strong>Guerra ao Terror</strong>, que ganhou o Oscar desse ano, mas eu não vi, não posso opinar. Lembrem mais e partilhem.</span></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Sobre dar aulas e sobre dar aulas de História</title>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 17:21:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[aulas]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p>O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. Claro que os alunos já levantaram a sobrancelha pra perguntar que diferença existe. Aí um levantou o dedo pra saber por que não Cidades Árabes, e eu adorei a deixa.</p>
<p>Não, não vou explicar a diferença agora, porque eu quero falar de outro assunto (depois eu volto nesse, se houver interesse). Mas acabou que eu achei importante falar de algumas questões básicas antes de entrar no assunto urbano propriamente, e no fim das contas vou ter que apresentar o resto da aula em outra semana ou preparar decentemente os slides que eu fiquei devendo, com as imagens que ilustram o que eu falei. Fiquei agradavelmente surpresa com o interesse dos alunos por um tema que a gente tem tão pouca oportunidade de discutir e sobre o qual, de maneira geral, temos uma visão tão parcial, tão limitada. É triste perceber que, quando se fala a palavra “muçulmano”, o estereótipo imediato são as imagens de mulheres de burca e homens-bomba, como se fosse tudo um grande bloco monolítico, cujo foco reside ali naquele miolo do Oriente Médio que o pessoal não sabe nem localizar no mapa. E aí é uma surpresa descobrir que há uma imensa variedade de visões e interpretações doutrinárias dentro da vivência islâmica, que há muçulmanos vivendo em todos os continentes do planeta, e em cada lugar a própria prática da religião assume aspectos diferentes, sem falar nas tradições e costumes sociais, e que há mulheres que gostam de usar o véu e não deixariam de usá-lo nem que deixasse de ser obrigatório. E que isso não impede que elas trabalhem, estudem, usem maquiagem, pintem as unhas de vermelho e comprem lingerie sexy. Não estou dizendo que são todas assim, mas estou dizendo que existem possibilidades distintas dentro do mundo islâmico, uma riqueza e uma multiplicidade de experiências que nós normalmente ignoramos. E perguntar-se POR QUE nós ignoramos é fundamental. A velha história do Outro e do temor que o Outro representa.</p>
<p>Mas aí eu vim pensando essas coisas, e me lembrei que esta mesma semana uma outra aluna veio me procurar no fim da aula pra dizer que queria trocar de turma e vir assistir aula comigo, porque ela tem dificuldades de se concentrar e dispersa muito fácil, daí sempre teve problemas com aulas teóricas e expositivas, porque quando ela se dá conta, o pensamento já tá muito longe e ela não tem idéia do que o professor estava falando, por mais que se esforce por prestar atenção. E que, tendo assistido uma aula minha ela conseguiu acompanhar e entender tudo, porque minha aula era mais “animada”.</p>
<p>Não vou entrar no mérito da saia justa em que isso me coloca, porque o período de alterações de inscrição em disciplina já acabou e o Departamento recomendou expressamente que os alunos permancessem nas turmas em que estão inscritos, nem vou também falar que isso evidentemente alimenta minha vaidade, porque eu luto com ela diaria e sinceramente, e sei que se der sopa ela aparece toda rebolativa e o risco de estragar tudo fica gigante. O que acontece é que isso me botou pra pensar em coisas sobre o ofício de dar aulas, sobre meu jeito particular de dar aulas e refletir sobre os prós e contras de tudo.</p>
<p>Eu saí dali rindo um pouco por dentro, e achando que no fundo o que a aluna quis dizer é que minha aula é <em>performática</em>. E é verdade, tem um pouco de teatro em tudo. Não que eu não seja uma pessoa expansiva e otimista na minha vida em geral, ou que uma aula seja uma farsa, mas há uma certa representação ali, um <em>timing</em>, um ritmo que a gente vai regulando. Tem a hora da piadinha, tem a hora de afrouxar a linguagem, a hora de usar os termos todos corretos e formais. Eu falo alto, eu gesticulo, eu ando pela sala, eu gosto de saber o nome dos alunos para interpelá-los nominalmente, eu fico enfática de vez em quando (e provavelmente vermelha). Os alunos sabem que eu sou flamenguista (e eu sempre brinco quando chega um com camisa de outro time, dizendo que vai perder ponto na prova), sabem que eu tenho dois filhos adolescentes, que eu gosto de cinema e literatura. E eu não sei explicar como, dando aula há vários anos, sempre brincando e tendo um jeito muito afetivo em relação às minhas turmas, eu nunca tive casos de insubordinação em sala, nem nunca alunos que cruzaram o limite da intimidade. A maioria inclusive me chama de “senhora”, mesmo pra fazer alguma brincadeira. Quando eu era bem mais jovem eu achava ruim, tinha vontade de dizer “que isso, pode me tratar por você”, depois passei um tempo encucada achando que eu devia estar ficando mesmo velha, e hoje acho tranquilíssimo. Não me sinto velha por ser chamada de senhora e vejo nisso, pelo contrário, um sinal de respeito e reconhecimento de autoridade quase carinhoso, até. Não ligo e até gosto, embora jamais fosse exigir esse tratamento caso o aluno me trate por você. O respeito não está exclusivamente nas palavras, mas num conjunto muito mais amplo de atitudes e postura.</p>
<p>Claro que já enfrentei discordâncias, algumas mal-humoradas, outras tremendamente respeitosas e pertinentes, com as quais aprendi muito, já revi avaliações, já mantive avaliações apesar do chororô, me dói reprovar aluno, mas eu reprovo se precisar, graças a Deus não sou unanimidade e sei que tem aluno que não gosta de mim ou do meu jeito, mas de maneira geral consigo estabelecer relações muito amistosas com a maioria, que duram às vezes muito além da sala de aula, e gosto disso. Mas quando a menina falou que minha aula é animada, eu me dei conta, talvez pela primeira vez, que é verdade, eu fico mesmo cansada e suada depois de cada aula, como se eu tivesse dispendido ali enorme energia. Não sei se terei esse pique sempre, talvez seja bom se eu aos poucos ficar mais sábia e madura e aprender a dar boas aulas sem me desgastar tanto. O que eu sei é que hoje eu sou assim.</p>
<p>Hoje eu tenho urgência. Eu preciso me apaixonar por um assunto pra poder dar aulas sobre ele. Na minha cabeça, o professor tem um papel que é também de sedução, de cativar o aluno, de trazê-lo para esse universo novo e fazê-lo se interessar por ele. Eu já descobri que o meu prazer maior não é ensinar, é ver o aluno aprender. Testemunhar esse momento em que brilha um olho, ou ouvir um único aluno dentro da turma vir dizer que agora conseguiu entender alguma coisa, ou passou a gostar de uma matéria que ele antes achava um saco, compensa todas as noites em claro preparando aula, todo o cansaço. Adoro quando os alunos tiram notas boas (mas não faço prova mole), e mais ainda quando alguém que começa o semestre mal chega no final com melhora significativa. Sinal de alguma coisa ali fez sentido. Talvez por isso eu goste tanto de dar aulas na graduação, e especialmente nos primeiros períodos. É uma diversão desconstruir alguns mitos e manias que vêm do ensino médio, enfiar minhocas na cabeça da garotada, botar o povo pra pensar e questionar coisas que sempre pareceram tão “naturais”. E aula de História é uma beleza pra isso.</p>
<p>Só que eu também fiquei me perguntando coisas. Deixa eu ver se sei explicar. Eu amo História. Mas há muito tempo eu deixei de ver a História como uma linha universal em que se sucedem períodos (numa pressuposição de escala evolutiva), delimitados por datas específicas, como se o mundo todo estivesse vivendo os mesmos processos ao mesmo tempo e depois passassem todos para a etapa seguinte, e nos bastasse seguir o fio dessa meada. Que é mais ou menos como a gente aprende na escola: os gregos, os romanos, a idade média, o renascimento, a idade moderna, etc. E não é nada disso.</p>
<p>Pra começar, a gente ainda estuda uma história tremendamente eurocêntrica. Tá bom que nós (e aqui eu estou falando de nós, brasileiros) descendemos em grande parte desse ramo aí que vem desde os gregos ou antes. Não estou falando de descendência genética, mas de filiação filosófica, ideológica, política. Mas eu acho que a gente precisa pelo menos de vez em quando alertar os alunos para o fato de que há um mundo vasto e diverso além daquele umbigo. Existem outros povos, com outras formas de viver, de fazer cidades, de pensar. Que o Império Romano não abarcava o mundo inteiro, que tem a Índia, a China e o Japão vivendo outras coisas, sem falar nos povos e civilizações que estavam ali do lado, nas fronteiras do império. Que enquanto a maior parte da Europa vivia a retração urbana da Alta Idade Média, Bagdá tinha mais de um milhão de habitantes e era a maior e mais rica metrópole do mundo, onde florescia não só o comércio intenso, mas a matemática, a literatura, a filosofia. Sem falar na África e nas Américas, que só entram nos nossos livros de História quando os europeus chegam lá, como “descobridores” (parece que esses lugares não existiam antes), como colonizadores, como capturadores de escravos, dizimadores de índios, portadores da civilização. E ainda tem a Oceania que a gente nunca nem estuda pra nada.</p>
<p>Por tudo isso, eu tenho muita dificuldade com essas divisões didáticas de eras e datas. Eu sempre acho que quando tematiza demais a impressão que fica é de que aqueles episódios ou civilizações são estanques, um sucede ao outro ordenadamente, quando na verdade há sobreposições, conflitos, convergências. É preciso fazer leituras sincrônicas (do que acontece em lugares diferentes ao mesmo tempo) e diacrônicas (do que acontece nos lugares ao longo do tempo) meio simultaneamente. Só que ver isso transforma a história (como a vida) num painel multidimensional e dinâmico, com vários sujeitos, várias perspectivas. E como passar isso é algo que me aflige às vezes.</p>
<p>Eu tendo a ver os temas de aula sempre inseridos num panorama mais amplo e me interessa entender os processos, de onde vieram aquelas coisas e pessoas, para onde foram, as relações que estabeleceram. O Outro, de qualquer tempo ou lugar, me interessa. Saber como ele vê as coisas, de que lugar ou posição ele fala, tentar, por um breve instante, ver e sentir o mundo como ele vê e sente, seus objetivos, seu ponto de vista. As idéias me empolgam, os conceitos por trás das ações, os encaixes, as diferenças. O nome ou a data a gente acaba absorvendo de tanto ler e estudar, mas não são o objetivo. Eles têm sua importância: ajudam a pontuar, localizar, identificar, dão nome e rosto, mas estão a reboque de um entendimento mais amplo.</p>
<p>Eu junto muito Urbanismo e Arquitetura. Não dá pra falar de cidade sem falar de arquitetura, e vice-versa. Eu junto também História e Geografia. Eu tenho fascinação por mapas, sempre tem mapa nas minhas aulas, a gente fala de tantos lugares diferentes, eu gosto de dar ao aluno a chance de saber onde é que fica aquilo (ou ficava, quando hoje não existe mais). Relacionar o que está sendo dito com coisas que ele conheça. Por exemplo, em outra turma eu estava essa semana falando sobre a Reforma de Viena no final do século XIX e a construção do ringstrasse. Aí eu me toquei que eu falava da Áustria e provavelmente a maioria ali estava pensando na Áustria de hoje, e eu pus um mapa de 1900, pra lembrar a eles que, quando eu falasse “Áustria” nesse contexto de final do século XIX-início do XX, eu estava me referindo ao grande Império Austro-Húngaro, um território que abarcava partes do que hoje é a Alemanha, a Polônia, A Hungria e os Bálcãs. Historicamente, é outro lugar. Eu fico sempre preocupada e perplexa com o fato de que as pessoas sabem muito menos geografia hoje. Tá bom que decorar por decorar é um saco e não faz sentido, mas eu sabia onde ficavam os principais rios e cadeias de montanhas do mundo todo, e as capitais dos diversos países, e isso caía em prova. Daí, hoje, se alguém falar Mar Cáspio, ou Negro, ou Estreito de Bósforo, ou Pirineus, Apeninos, Rio Danúbio, Rio Arno, Rio Eufrates, o mapa vem na minha cabeça rapidinho e eu sei onde fica. E isso ajuda a fazer relações geopolíticas, entender por que a conquista de determinado território era estratégica, ou por que determinado povo demorou para chegar a determinado lugar em seu processo de ocupação do território.</p>
<p>A minha dificuldade às vezes, é que na minha cabeça vem tudo junto, um quadro grande, tudo ao mesmo tempo agora. E um monte de referências pop também: músicas, filmes, livros. Isso às vezes é um problema, e às vezes causa grandes risadas. Porque de vez em quando eu cito, toda contente, crente que estou abafando, um filme ou música que pra mim é manjadíssimo, e ficam aquelas 30 carinhas me olhando com cara de “hein?”. E aí eu vejo que eu tou ficando velha mesmo. Ou o povo tá ficando menos informado. Caramba, eu nasci na década de 60, mas isso não me impede de conhecer Cole Porter, ou ter visto filmes das décadas de 30 e 40, ou lido Jane Austen. Mas outro dia, falando da colonização dos Estados Unidos, e mencionando a importância, em determinado momento, da cidade de Filadélfia, eu mencionei Philadelphia Freedom do Elton John e ninguém sabia do que se tratava. Pior foi o mico dessa aula sobre Viena, quando eu perguntei se eles já tinham visto Sissi, a Imperatriz. Eu fiquei me achando um Matusalém. Aí zanguei (de brincadeira) e mandei todo mundo ir perguntar pras mães sobre o filme. Não é possível que as mães desses meninos não tenham visto isso na Sessão da Tarde.</p>
<p>Eu sempre mando ver filmes, ler livros, ouvir músicas. Eu levo pilhas de livros meus (de ficção, romances, ou de estudo mesmo) pra sala, pra eles folhearem. Isso tudo pode ser bem legal, e “animado”, como disse a aluna, mas pode também ser cansativo, agitado demais, disperso. Essa coisa de ver o conjunto e cruzar tantas referências pode me levar a perder o foco da aula, e eu sei que vira e mexe eu estouro o tempo antes de ter falado tudo o que eu tinha pensado em apresentar. A gente tem que fatiar a história em pedacinhos (com começo, meio e fim) pra caber no tempo da aula, e ao mesmo tempo articular, contextualizar, costurar os assuntos. E tudo isso tem que fazer sentido. Não é fácil. Talvez às vezes fique confuso. Eu gostaria sempre que os alunos me dessem um feedback se as coisas estão indo rápido demais, ou lento demais, ou repetitivo, ou confuso simplesmente. A vida é confusa, vamos combinar. As coisas não cabem em gavetinhas. Mas o papel da gente ali na frente, pilotando o quadro e o giz (eita coisa antiga) é ajudar a trilhar esse caminho. Eu tenho tantas dúvidas, mas eu amo tanto o que eu faço, que desejo e me esforço para fazer bem. Se tocar alguém, eu fico feliz.</p>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 03:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<category><![CDATA[representação]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.fau.ufrj.br/?referer=');">UFRJ</a>. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na <a href="http://www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm?referer=');">outra universidade</a>, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.</p>
<p>O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas <em>&#8220;embromations&#8221;</em> pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU120" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU120&amp;referer=');">HCU 2</a>, <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU230" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU230&amp;referer=');">HCU 3</a> e <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU240" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU240&amp;referer=');">HCU 4</a>, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.</p>
<p>Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/" target="_blank">aqui</a> que voltaria a citar <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629&amp;referer=');">o livro da Ana Maria</a>, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu &#8211; infelizmente &#8211; ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.</p>
<p>O texto é grande, mas vale cada sílaba:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (&#8230;) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_775" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_(Salvador)" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_Salvador?referer=');"><img class="size-full wp-image-775" title="Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (&#8230;) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento  e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)</em></strong></p>
<p>Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).</p>
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		<title>Novidades</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 14:29:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo  </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':-D' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento de aulas (e até no doméstico) e a uma desorganização geral da rotina. Aproveitei para escrever umas coisas que estavam atrasadas e que eu tinha prazo pra entregar. Aí, nesta semana que se encerrou havia entrega de trabalhos em quase todas as minhas turmas, o que quer dizer pilhas de coisas para corrigir, além de uma ansiedade extra, ligada à novidade a que eu me referi aí no título.</p>
<p>É que abriu um concurso para professor substituto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu me inscrevi. Muitos candidatos bons (eu dei uma olhada na lista e conhecia vários pelo nome, colegas com quem eu já trabalhei ou estudei) e um processo sumário: a banca faz uma análise do currículo e chama os que ela considera os melhores para a entrevista. Eu já participei de um concurso desses, dois anos atrás, e fiquei em segundo lugar, mas era uma vaga única e eu fiquei de fora. A inscrição foi na segunda, a entrevista foi na quinta e o resultado saiu na própria quinta de noite. Fui chamada para a entrevista (eu e mais 13 candidatos), que se revelou, na verdade, uma verdadeira arguição oral, clima de avaliação mesmo. Se eu soubesse que seria assim, talvez tivesse estudado, mas juro que não me preparei nesse sentido. Mesmo assim, devo ter me saído bem, porque, desta vez, <span style="text-decoration: underline;">eu passei</span>!</p>
<p>Estou feliz da vida e começo nesta segunda-feira (amanhã), provavelmente assumindo turmas de História da Cidade e do Urbanismo. A gente nem sempre se dá muito conta de como esses processos de seleção são emocionalmente cansativos. Depois que a Chefe de Departamento me telefonou, quinta de noite, para dar o meu resultado e me convocar para a reunião de amanhã, eu estava numa descarga de adrenalina tão grande que dormi agitada. Aí, na sexta, quando eu achei que finalmente teria tempo de vir aqui, acabei dormindo a tarde quase toda&#8230;</p>
<p>Enfim, bola pra frente. As disciplinas que eu lecionarei abarcarão, entre outros períodos, o século XIX, que é alvo do que eu pretendo estudar num possível (e, tomara que em breve) doutorado. Daí que eu tenho lido e estudado um pouco sobre o assunto. Esses dias, revendo livros e textos sobre os tratados e utopias que propõem cidades ideais, que proliferaram a partir do século XV, e se estendem, com características e premissas um pouco diferentes, até o século XIX, me deparei com o projeto d&#8217;<strong>A Cidade Industrial</strong>, do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier?referer=');">Tony Garnier</a> (que na verdade é do início do século XX, tendo sido apresentado pela primeira vez em 1904). Dá uma espiada no que ele diz, que eu comento em seguida:</p>
<p><em></p>
<div id="attachment_767" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><em><a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-767" title="Garnier-planta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/Garnier1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></em><p class="wp-caption-text">Zoneamento por usos na cidade de Tony Garnier</p></div>
<p>“Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximidade de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como energia, ou a conveniência dos métodos de transporte. Em nosso caso, o fator determinante para a localização da cidade é o afluente que é a fonte de energia; também existem minas na região, mas poderiam estar situadas mais adiante. O afluente está represado; uma usina hidrelétrica distribui energia, luz e calor par as fábricas e para a cidade toda. As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluente. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade, estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul</em> (NOTA: ele está falando no hemisfério norte, em que esta é a fachada mais ensolarada, ao contrário do hemisfério sul, em que a fachada que toma sol é a norte). <em>Cada um desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar possível sua expansão.</em></p>
<p><em>(&#8230;) Os estudos sobre o programa mais satisfatório para as necessidades morais e materiais dos indivíduos resultou no estabelecimento de regras a respeito do uso das estradas, da higiene, etc.; o pressuposto é o de que um certo progresso da</em> <em>ordem social que resultou na adoção automática dessas regras já foi alcançado, de modo que não será necessário decretar as leis efetivas. A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição da água, pão, carne, leite e suprimentos médicos, bem como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder público.”</em></p>
<p style="text-align: right;">(Tony Garnier: Prefácio a Une Cité Industrielle,<br />
retirado de FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997)</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/?referer=');"><img class="aligncenter size-full wp-image-768" title="GarnierCidadeIndustrialPerspectiva" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/GarnierCidadeIndustrialPerspectiva.jpg" alt="" width="500" height="258" /></a></p>
<p>Observe que essa proposta se alinha com o pensamento dito progressista (dito, por exemplo, por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Choay" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Fran_C3_A7oise_Choay?referer=');">Françoise Choay</a>, em seu livro<strong> O Urbanismo</strong>), de final do século XIX-início do XX, que acreditava MESMO que a indústria, a máquina, traria as soluções para uma cidade melhor. Melhor aqui quer dizer mais limpa, organizada, racional, higiênica, ordenada, próspera, veloz. A produção em massa baratearia custos e todos teriam acesso a todos os bens necessários – e isso inclui carros, para proporcionar a mobilidade requerida nesta cidade de avenidas largas e funções separadas em áreas distintas da cidade. Eu não tenho dúvidas (isso está escrito em mais de um livro, hohoho) de que <a href="http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm?referer=');">Le Corbusier</a> leu e foi influenciado por Tony Garnier. Se você reparar bem, a semente da cidade modernista, funcionalista, já está toda aí.</p>
<p>O que eu proponho a gente pensar é: quais desses paradigmas ainda estão vigentes, hoje, mais de um século depois? Esse modelo ainda nos serve? O que deu certo? O que deu errado? Quais seriam os &#8220;fatores determinantes&#8221; para uma cidade do século XXI? Que modelos ou propostas temos hoje para nossas cidades, diante das condições e perspectivas que estão colocadas diante de nós?</p>
<p>Vão pensando e escrevendo, que eu já volto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 19:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: Álvaro de Campos. Porque a poesia que eu selecionei, Ode Triunfal (na íntegra aqui), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/_C3_81lvaro_de_Campos?referer=');"><strong>Álvaro de Campos</strong></a>. Porque a poesia que eu selecionei, <strong>Ode Triunfal </strong>(na íntegra <a href="http://www.revista.agulha.nom.br/facam02.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.revista.agulha.nom.br/facam02.html?referer=');">aqui</a>), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se desencanta com ele. Os versos encarnam a velocidade, os sons, a textura dessa nova cidade subordinada à indústria, transformando-se num <a href="http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/ode_triunfal" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/ode_triunfal?referer=');">&#8220;passeio vertiginoso pela paisagem de um mundo povoado por máquinas, circuitos, cores&#8221;</a>. Mais do que à descrição física da cidade e seus elementos, prestem atenção à síntese que ele faz da sociedade, que esta, em quase cem anos que se passaram desde a composição, não mudou grande coisa, vamos combinar.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-519" title="industrial_revolution" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/industrial_revolution1-300x201.jpg" alt="industrial_revolution" width="300" height="201" />Ao mesmo tempo, no próprio ritmo e sonoridade do poema transparecem um cansaço imenso e a sombra de uma dúvida, sob a capa da ironia, de que todo este progresso vá trazer alguma solução aos problemas fundamentais do homem. Quem sabe vá até agravá-los e criar outros novos. Dilemas dos quais não nos livramos ainda. A gente vê a imagem que ilustra este post, e pode achar que esta cidade de chaminés e fumaças pertence ao século XIX, mas se a indústria foi afastada dos centros urbanos, a crença e o elogio do progresso, não. Continuamos apostando nossas fichas em máquinas (ainda que de design mais arrojado), na ciência, na tecnologia. Tudo isso pode ser uma maravilha, e tem uma capacidade de transformação do espaço e das relações absurdamente grande. Mas no que tange o essencial, o buraco continua mais embaixo.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica<br />
Tenho febre e escrevo.<br />
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,<br />
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!<br />
Ser completo como uma máquina!<br />
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!<br />
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,<br />
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento<br />
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões<br />
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Horas europeias, produtoras, entaladas<br />
Entre maquinismos e afazeres inúteis!<br />
Grandes cidades paradas nos cafés,<br />
Nos cafés &#8211; oásis de inutilidades ruidosas<br />
Onde se cristalizam e se precipitam<br />
Os rumores e os gestos do Útil<br />
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Hé-la as ruas, hé-la as praças, hé-lá-hô </em><em>la foule!<br />
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!<br />
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;<br />
Membros evidentes de clubs aristocráticos;<br />
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes<br />
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete<br />
De algibeira a algibeira!<br />
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!<br />
Presença demasiadamente acentuada de cocottes;<br />
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)<br />
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,<br />
Que andam na rua com um fim qualquer;<br />
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;<br />
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra<br />
E afinal tem alma lá dentro!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(Ah, como eu desejaria ser o </em><em>souteneur disto tudo!)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>A maravilhosa beleza das corrupções políticas,<br />
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,<br />
Agressões políticas nas ruas,<br />
E de vez em quando o cometa dum regicídio<br />
Que ilumina de prodígio e Fanfarra os céus<br />
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos de agricultura!<br />
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!<br />
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,<br />
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,<br />
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!<br />
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!<br />
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!<br />
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.<br />
Amo-vos carnivoramente,<br />
Pervertidamente e enroscando a minha vista<br />
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,<br />
Ó coisas todas modernas,<br />
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima<br />
Do sistema imediato do Universo!<br />
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,<br />
Que emprega palavrões como palavras usuais,<br />
Cujos filhos roubam às portas das mercearias<br />
E cujas filhas aos oito anos &#8211; e eu acho isto belo e amo-o! -<br />
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada.<br />
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa<br />
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.<br />
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,<br />
Que está abaixo de todos os sistemas morais,<br />
Para quem nenhuma religião foi feita,<br />
Nenhuma arte criada,<br />
Nenhuma política destinada a eles!<br />
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,<br />
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,<br />
Inatingíveis por todos os progressos,<br />
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!&#8221;</em></p>
<p style="text-align: left;">* O livro de onde eu tirei a poesia é o <em>Ficções do Interlúdio, </em>que reúne diversos poemas de Fernando Pessoa, e de seus vários heterônimos, publicado pela Companhia das Letras, edição de 1998.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Tom Holland</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/09/14/cidades-literarias-tom-holland/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Sep 2009 12:32:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu sempre fui fascinada com a história das primeiras civilizações, especialmente as mesopotâmicas. Eu fico horrorizada que ali, onde floresceram culturas fervilhantes de vida e glórias, onde reinaram sumérios, assírios, babilônios,  persas e gregos, onde se construíram tantas cidades esplendorosas, se fizeram lutas, se aprendeu pela primeira vez na história da humanidade a plantar e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sempre fui fascinada com a história das primeiras civilizações, especialmente as mesopotâmicas. Eu fico horrorizada que ali, onde floresceram culturas fervilhantes de vida e glórias, onde reinaram sumérios, assírios, babilônios,  persas e gregos, onde se construíram tantas cidades esplendorosas, se fizeram lutas, se aprendeu pela primeira vez na história da humanidade a plantar e a escrever, ali no berço de tudo, hoje exista um Iraque devastado por uma guerra idiota e ameaçado por um obscurantismo fanático. Uma coisa é certa. Ontem, como hoje, aquela terra entre os rios Tigre e Eufrates sempre foi cobiçada. Os motivos são variados, hoje é petróleo, antes foram as riquezas conquistadas em guerras e comércio, as cidades fulgurantes e fortificadas, mas o resultado é o mesmo: pilhagens, destruição e reconstrução sob nova ordem, submissão.</p>
<p>E no meio de tudo, a força da vida sempre fazendo brotarem novamente as muralhas, os castelos, os templos, o mercado. As gentes entoando seus cânticos, cozendo e empilhando tijolos, comprando e vendendo mercadorias, assando pães e bebendo vinho.</p>
<p>Subjugar cidades e construir cidades novas sempre foram estratégias de dominação, desde essas priscas eras. Quem elevou essa estratégia a um requintado auge foi Alexandre, o Grande, de quem podemos falar um dia, meu personagem favorito da História Antiga. Ele e suas narcísicas Alexandrias, construídas por todo o seu vasto império, o único a derrotar os poderosos persas, ocupando e expandindo as fronteiras do império que até então tinha sido o maior de todos os tempos.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-451" title="imperiopersa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/09/imperiopersa-300x192.jpg" alt="imperiopersa" width="300" height="192" />Mas antes de Alexandre houve Ciro. E Dario, e Xerxes. O surgimento dos persas no cenário internacional da época foi um fenômeno sem precedentes. Ninguém nunca tinha ouvido falar daquele povo. Enquanto a Mesopotâmia estava ali, habitada e exibindo cidades cosmopolitas desde 2500 a.C, enquanto minóicos e micênicos ocupavam o Sul da Grécia desde quase o mesmo tempo, e Homero já escrevia a Ilíada em 800 a.C, 400 anos depois da Guerra de Tróia, o planalto pra leste, que se estendia até o norte da Índia era ocupado por tribos nômades e guerreiras, mal saídas da pré-história. Pois em cem anos esse pessoal varreu todo o mundo conhecido, conquistou os poderosos e sentou no topo do mundo. E só não tomou conta de tudo porque uns gregos teimosos de Atenas e de Esparta seguraram o rolo compressor, e na Batalha de Salamina marcaram bem firmes os limites ocidentais dos territórios persas. Vocês ficam daqui pra lá, eles disseram. Esse território aqui é nosso.</p>
<p>Diz o <strong>Tom Holland</strong>, no livro <a href="http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=144" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=144&amp;referer=');"><strong>Fogo Persa</strong></a>, que narra toda essa história com requintes de detalhes e alguma ficção, que a própria noção de Ocidente que se tem hoje poderia jamais ter existido se Xerxes tivesse vencido aquela batalha e varrido os gregos do mapa. Já pensou? Eu achei aqui o meu livrinho que tinha se perdido na bagunça da mesa no escritório, e fiquei enlouquecida com tantas passagens deliciosas e curiosas descrevendo cidades cujos nomes e fama a gente conhece desde a escola, mas que eu não sei se todo mundo consegue imaginar em toda a sua grandeza. Assim, eu trago hoje pra vocês a Babilônia, de Nabucodonosor e seus jardins suspensos, construídos pelos braços de milhares de escravos trazidos para trabalhar na cidade após terem suas próprias cidades destruídas em conquistas sangrentas. Posso começar com o mito da criação da humanidade segundo os babilônicos? Façam suas analogias com o barro de que fala o Gênesis. A primeira frase já é genial:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;<strong>Sem poeira, nunca poderia haver cidades e grandes reis.</strong> (&#8230;) Remontando ao princípio, quando toda a terra era um oceano, o Senhor Marduk, rei dos deuses, havia construído uma jangada de juncos, coberta de poeira, e a misturara com água para forjar o lodo primevo e disso ergueu o seu lar, o Esagila, a primeira construção do mundo. (&#8230;) &#8220;Vou pegar sangue&#8221;, anunciou Marduk, nos primeiros dias do mundo, &#8220;e daí vou esculpir a carne e criar o primeiro homem&#8221;. Exatamente como havia dito, misturou cuidadosamente poeira com sangue coagulado de um rival que matara, e da massa pegajosa que resultou forjou toda a humanidade. Aqui, no ato original da criação do primeiro homem, foi estabelecido um padrão para toda a eternidade. As lavouras nos campos, os tijolos nas muralhas da cidade: o que seria de tudo isso se não fosse a lama?&#8221;.</em></p>
<p>De todas as cidades daquele tempo, talvez uma das mais famosas seja a Babilônia, planificada por volta de 2000 a.C. como um retângulo de 2500 x 1500 metros, fortemente murada, cortada ao meio pelo Rio Eufrates. Tendo liderado a revolta que derrotou os assírios, a Babilônia ergueu seus próprios domínios impondo a seus vizinhos os mesmos métodos cruéis, descritos até pelo profeta Jeremias, no relato bíblico, como sendo de <em>&#8220;um jugo de ferro, impondo a servidão&#8221;</em>. Segue o Holland:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Em 586 a.C., Jerusalém foi tomada e reduzida a um monturo negro de escombros, e todos os infelizes judeus foram arrastados para o exílio, (&#8230;) onde tiveram a companhia de exilados de outras nações de todo o Oriente Próximo. (&#8230;) Imigrantes, quer fossem escravos, mercenários ou mercadores, apinhavam-se pelas ruas da Babilônia &#8211; a primeira cidade verdadeiramente multicultural da história. Mesmo depois de perder sua independência para Ciro, ela permaneceu como o supremo cadinho de misturas do Oriente Próximo, com suas ruas povoadas por milhares de idiomas, rugidos de animais exóticos e a visão de estranhos pássaros dourados, escarlates e nácar dos confins do mundo.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_454" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><img class="size-medium wp-image-454" title="babilonia" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/09/babilonia2-300x225.jpg" alt="Maquete com uma reconstrução do que deve ter sido a Babilônia" width="300" height="225" /></em></em><p class="wp-caption-text">Maquete com uma reconstrução do que deve ter sido a Babilônia</p></div>
<p><em>(&#8230;) Uma população sem precedentes de um quarto de milhão de pessoas vivia em Babilônia, apinhando suas ruas estreitas e sinuosas. No entanto, mesmo tão cheia de gente, uma densa aglomeração de corpos, tijolos e fezes, ainda assim exigia a mais comprida fortificação urbana jamais construída para encerrar apenas uma porção de sua área. Estupenda, como tudo o mais em Babilônia, a muralha encerrava quase cinco quilômetros quadrados e estava protegida, nos pontos onde o Eufrates não supria uma barreira natural, por fossos. (&#8230;) Babilônia, cidade da opulência; Babilônia, a cidade onde o povo é abarrotado de riquezas; Babilônia, a cidade das celebrações, do divertimento e da perpétua dança. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>As muralhas da cidade, alardeava-se com confiança, tinham mais de 90 km de comprimento e uma centena de portões de bronze. Mais do que uma cidade, Babilônia era um verdadeiro mundo em si mesmo&#8221;. </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Zona Portuária, patrimônio e reurbanização</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/11/zona-portuaria-patrimonio-e-conservacao/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/11/zona-portuaria-patrimonio-e-conservacao/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2009 17:18:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[ecletismo]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
		<category><![CDATA[Zona Portuária]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu já comentei, um tempo atrás, que estou fazendo uma série de fotos dos sobrados ecléticos no Rio de Janeiro. Como são pra mim mesma e pra umas ideias que eu tenho na cabeça, não tem pressa, e eu vou fazendo um bocadinho cada vez que tenho tempo. No último fim de semana estive novamente fotografando, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu já <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/01/juciara/" target="_blank">comentei</a>, um tempo atrás, que estou fazendo uma série de fotos dos sobrados ecléticos no Rio de Janeiro. Como são pra mim mesma e pra umas ideias que eu tenho na cabeça, não tem pressa, e eu vou fazendo um bocadinho cada vez que tenho tempo. No último fim de semana estive novamente fotografando, dessa vez nos arredores da Praça Mauá e na Zona Portuária &#8211; Saúde, Gamboa, Santo Cristo. Andando por um tanto de ruazinhas e becos e praças simpáticas escondidas pelos galpões abandonados e pelo pavoroso viaduto da Perimetral, anotei algumas reflexões, que divido com vocês.</p>
<p>O patrimônio arquitetônico da região é riquíssimo, composto por diversas edificações do final do século XIX, mas majoritariamente de princípios do século XX. Isso se dá porque nas primeiras décadas do século passado a região foi alvo de importantes projetos de reforma e embelezamento, entre os quais se destaca, para efeitos de nossa análise aqui, a reforma do porto conduzida durante o governo do Prefeito Pereira Passos. Este patrimônio, no entanto se encontra bastante deteriorado e a área, de forma geral, está muito empobrecida e feia.</p>
<p>A mesma tipologia arquitetônica pode ser encontrada também em outros bairros como Botafogo, Flamengo, Catete, além de outros trechos no mesmo Centro, como Largo da Carioca, Cinelândia, Praça Tiradentes. Em quase todos esses lugares, os sobrados ecléticos estão degradados, mas em alguns bem mais do que em outros. Eu tirei duas conclusões preliminares:</p>
<div id="attachment_401" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.flickr.com/photos/claudiodef/1176498691/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.flickr.com/photos/claudiodef/1176498691/?referer=');"><img class="size-medium wp-image-401" title="ciadocas" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/ciadocas-300x225.jpg" alt="Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN</p></div>
<p>1) De maneira geral, o ecletismo ainda é um estilo desprestigiado. Ou uma falta de estilo, como dizia Lúcio Costa. Um pastiche de elementos &#8220;roubados&#8221; de outras linguagens e colados todos juntos, resultando numa profusão de ornamentos. Esse é o argumento que justificou a autorização para demolição de diversos exemplares da arquitetura eclética entre 1930 e 1990, mais ou menos, entre eles o Palácio Monroe. De lá pra cá tem havido mais iniciativas de preservação e reconhecimento do valor desses edifícios. Eu confesso que eu me encanto com as composições, a justaposição tantas vezes delicada, ainda que exuberante, de elementos como portadas barroquíssimas com símbolos náuticos e lajes industriais de tijolo de vidro, como acontece na antiga Companhia Docas de Santos (Av. Rio Branco, 44), que hoje serve de sede ao IPHAN. E me encanto mais ainda com pequenos sobrados populares, que tentavam emular a elegância dos ricos prédios oficiais, quase sempre resultando em fachadas mais contidas, ainda que também apresentem as mesmas características de junção de elementos diversos e distintos, com extrema liberdade criativa, numa mesma composição.</p>
<div id="attachment_402" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-402" title="racre" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/racre-300x168.jpg" alt="Rua do Acre" width="300" height="168" /><p class="wp-caption-text">Rua do Acre</p></div>
<p>Em alguns casos, tanto no que concerne aos imponentes palacetes quanto aos modestos sobrados, há mesmo valor individual na construção, mas na maioria das vezes, o que faz diferença é o conjunto, que confere uma ambiência urbana peculiar: volumes, detalhes arquitetônicos em balcões, platibandas, colunas, ornamentos.</p>
<p>2) Mesmo que, nos vários bairros já visitados, muitos prédios estejam degradados, com as fachadas pichadas, ornamentos de gesso quebrados, pintura descascada e indícios de infiltração, o que se percebe é que há nítida diferença, na conservação, entre regiões que foram alvo de políticas públicas de preservação e revitalização, como o Largo da Carioca e adjacências (que são objeto de um projeto chamado Corredor Cultural), e outros que não tiveram o mesmo cuidado, como os que eu vi neste fim de semana.</p>
<p>Além da questão do patrimônio, há a fundiária. Observo que há um valiosíssimo estoque de terrenos baldios em toda a Zona Portuária. No período que estamos enfocando (fins do séc. XIX/inícios do XX), esta foi uma região industrial movimentada &#8211; o mesmo aconteceu com São Cristóvão, por exemplo &#8211; com funções quase sempre ligadas à atividade portuária. Quando o porto se tornou obsoleto e as próprias indústrias ou se modernizaram ou se transferiram para outros locais, a região herdou uma enorme quantidade de galpões, alguns lindos, muitos abandonadíssimos, remanescentes das fábricas falidas ou remanejadas. São galpões destelhados, com apenas partes das paredes ainda de pé, ruínas no centro das quais cresce o mato e proliferam lixo, ratos e famílias miseráveis de sem-teto.</p>
<p>Isso tudo numa região rica. Sim, rica, abastecida de infra-estrutura de água, gás, esgoto, telefone, transportes (muita coisa pode até não estr em bom estado ou oferecer um serviço de má qualidade, mas a rede está instalada), bem localizada e de acesso fácil e rápido para todo o restante da cidade. Ideal para a implantação de projetos de habitação social, e para atrair investimentos de vulto na área comercial e de entretenimento. É um verdadeiro angu de caroço a ser resolvido, em termos de reurbanização das áreas centrais. Falaremos mais do assunto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Marguerite Yourcenar</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 15:26:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que não tive mais dúvidas. De forma que segue aí pra vocês, tirado do livro <strong>Memórias de Adriano</strong>, de <strong>Marguerite Yourcenar</strong> (das melhores coisas que eu já comprei num sebo, por 1 real!) o depoimento do famoso imperador romano sobre a construção do <strong>Panteão</strong>, em Roma.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-332" title="180px-hadrien-ven" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/180px-hadrien-ven.jpg" alt="180px-hadrien-ven" width="180" height="212" />Só contextualizando o personagem e a obra. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Adriano?referer=');">Adriano</a> foi imperador de Roma entre os anos 117 e 138 d.C, no auge do Império (auge esse para o qual ele muito contribuiu). Foi um líder militar prudente, que preferiu negociar e consolidar fronteiras a prosseguir em guerras de expansão. É dele, por exemplo, a muralha que durante séculos marcou os limites entre a Inglaterra e a Escócia, da qual existem ainda ruínas, e que passou à História como Muralha de Adriano. Era um homem culto e letrado, que difundiu a cultura clássica grega em suas muitas viagens pelo vasto território imperial, sempre construindo estradas e monumentos. Era também arquiteto e estudioso de materiais de construção. Por outro lado, era um homem vaidosíssimo e de perfil bastante autoritário, que muitas vezes manipulou e alienou o Senado na hora de tomar decisões importantes.</p>
<p>A brilhante autora <span style="text-decoration: line-through;">francesa</span> belga de língua francesa Marguerite Yourcenar escreveu este livro em 1950, fruto de um extenso e seríssimo trabalho de pesquisa. A edição que eu tenho, de 1986, da Editora Record, tem uma nota no final primorosa, em que ela esclarece a metodologia de trabalho, menciona os documentos originais a que teve acesso, incluindo os próprios diários que Adriano deixou, cita os trabalhos de história que leu, revela quais são os dados e personagens que ela inventou, mesclou ou suprimiu para o melhor andamento da narrativa, e quais são os reais. O resultado é um livro delicioso, narrado em primeira pessoa, que mistura um tiquinho de poesia e ficção a um universo fascinantemente real, ou realmente fascinante.</p>
<p>Mas chega, né? Olha aí o Adriano se apresentando e apresentando uma de suas obras mais importantes. No final, eu tenho mais duas palavrinhas pra acrescentar:</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Adriano?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-334" title="25879331" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/25879331-300x200.jpg" alt="25879331" width="300" height="200" /></a>&#8220;A construção de um templo dedicado a Todos os Deuses, de um Panteon, se me impunha. Escolhera seu lugar sobre as ruínas dos antigos banhos públicos oferecidos ao povo romano por Agripa, o genro de Augusto. Nada restava do antigo edifício além de um pórtico e de uma placa de mármore com uma dedicatória ao povo de Roma. Essa placa foi cuidadosamente recolocada, exatamente como era, no frontão do novo templo. Pouco me importava que meu nome figurasse ou não num monumento que era a expressão do meu pensamento. Agradava-me, muito pelo contrário, que uma velha inscrição de mais de um século o associasse ao princípio do Império, ao reino pacificado de Augusto. Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O ato de dedicação do templo de Vênus e de Roma foi uma espécie de triunfo acompanhado por corridas de carros, espetáculos públicos, distribuição de especiarias e perfumes.(&#8230;) A data escolhida para a festa foi o dia do aniversário de Roma, o oitavo após os Idos de Abril do ano 882 depois da fundação da Cidade. A primavera romana nunca fora mais doce, mais violenta, nem mais azul. No mesmo dia, com uma solenidade mais grave e como que abafada, teve lugar uma cerimônia consagratória no interior do Panteon. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://www.bolsanobolso.com/showthread.php?t=24771" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bolsanobolso.com/showthread.php?t=24771&amp;referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-338" title="4752641" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/4752641-200x300.jpg" alt="4752641" width="200" height="300" /></a>Eu próprio corrigira os planos demasiado tímidos do arquiteto Apolodoro. Utilizando as artes da Grécia como simples ornamentação, ou um luxo a mais, procurei voltar, pela própria estrutura do edifício, à época fabulosa e primitiva de Roma, ao mesmo tempo que reproduzia os templos redondos da Etrúria antiga. Quis que esse santuário de todos os deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera estelar, do globo onde se encerram as origens do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém. Era igualmente a forma das cabanas ancestrais, nas quais a fumaça dos mais antigos lumes humanos escapava por um orifício situado no topo. A cúpula construída de uma lava sólida e leve, que parecia participar ainda do movimento ascendente das chamas, comunicava com o céu por uma grande abertura alternadamente negra e azul, tal como a noite e o dia. Esse templo, ao mesmo tempo aberto e secreto, era concebido como um quadrante solar. As horas girariam naqueles caixotes cuidadosamente polidos por artífices gregos, e o disco do dia ficaria suspenso ali como um escudo de ouro. A chuva formaria uma poça de água pura no pavimento e as preces escapar-se-iam como fumaça em direção ao vazio onde costumamos colocar os deuses. Essa festa foi para mim uma dessas horas em que tudo converge.&#8221;</em></p>
<p>Acho que nem cabe falar muito mais, né? Mas eu quero lembrar que esse texto tenta dialogar com o da <a href="http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/06/19/um-coliseu-para-voce-e-para-mim/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/06/19/um-coliseu-para-voce-e-para-mim/?referer=');">Fal</a>, em que ela fala do Coliseu como sendo seu monumento romano favorito. Nos comentários a essa crônica, eu disse que o meu era o Panteão, mas como eu não sei falar tão bem quanto ela, deixei o Adriano mesmo descrever tudo.</p>
<p>O outro aspecto que eu quero lembrar é o quanto a gente pode falar ou pensar, a partir desse pedacinho, sobre o papel da arquitetura na composição da paisagem urbana, da identidade da cidade. O que nos leva a pensar em preservação de patrimônio. Eu tenho uma birra infernal com o fato deste templo tão solene e belo ter sido continuamente profanado ao longo dos séculos, a começar pela própria Igreja Católica, que o transformou em igreja, destruindo as imagens dos deuses pagãos que ocupavam os nichos ao redor do salão e instalando ali um altar cristão, com crucifixo e tudo. Eu sei, outros tempos, outra concepção de tudo, hoje o Panteão está aberto à visitação pública como museu, como testemunho da obra de Adriano, mas mesmo assim.</p>
<p>Para os arquitetos e estudantes de arquitetura, atenção para o elegante e corretíssimo memorial justificativo da obra. É aquele documento em que o arquiteto apresenta seu projeto, justifica suas escolhas, descreve os elementos importantes, partido arquitetônico, estrutura, materiais, formas e funções. O cara faz isso ainda por cima com qualidade literária. Mestre.</p>
<p>Por fim, só levantando a bola e deixando pra vocês cortarem, que aula de marketing político, hein? Mais atual, impossível.</p>
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		<title>Sobre a idealização da cidade</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 18:48:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[ideal]]></category>
		<category><![CDATA[planejamento]]></category>
		<category><![CDATA[Renascimento]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos dar um tempo no cor de rosa e olhar pra realidade. Nos comentários sobre o trecho do Italo Calvino, surgiu a conversa sobre cidades ideais, idealização, memória. Eu fiquei pensando nisso e deu vontade de desenvolver um pouco mais. É verdade, a gente tende a idealizar a cidade, talvez se faça isso desde sempre, os poetas gregos cantando suas cidades, as virtudes de seus cidadãos, a glória de suas conquistas. E de longe parece tudo tão mais lindo, os dias são ensolarados, as águas são azuis, os jardins são floridos, as casas são amplas. De perto, há barulho, sujeira nas calçadas, a chuva faz transbordar os bueiros, os ônibus buzinam e param em fila dupla, meninos pedem esmola nos sinais e cheiram cola sob a marquise.</p>
<p>Sonhar uma cidade melhor (eu disse <em>melhor</em>, não disse <em>perfeita</em>) é importante, sim. Mas não pode obliterar nossa visão, nos impedir de enxergar as mazelas de todo dia. Nem deve nos fazer desistir.</p>
<div id="attachment_314" class="wp-caption alignleft" style="width: 268px"><img class="size-medium wp-image-314" title="planos" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/planos-258x300.jpg" alt="Alguns planos de cidades desenhados no Renascimento" width="258" height="300" /><p class="wp-caption-text">Alguns planos de cidades desenhados no Renascimento</p></div>
<p>Foi ali pelo Renascimento que surgiu com força essa coisa de pensar e propor a Cidade Ideal. Quantidades de arquitetos escreveram tratados e propuseram planos, descrevendo como seria essa cidade. Como a onda era o racionalismo, o humanismo e tal, esses desenhos de cidades eram quase sempre figuras geométricas regulares: cidades circulares, octogonais, em forma de estrela, quando muito quadradas. Sempre figuras que se podia inscrever no círculo, a mais perfeita das formas. O eixo principal dessa perfeição e idealização da cidade era a estética. A cidade ideal devia ser bela. Ninguém ainda se preocupava com os aspectos sociais ou funcionais da cidade.</p>
<p>Só que ficou, pra nós, uma expectativa meio mecânica de que uma cidade bem planejada é uma cidade sem problemas, que funcionaria como um relojinho, cada coisa no seu lugar. Como se a cidade fosse um objeto inerte que, uma vez organizado, limpo e &#8220;consertado&#8221;, assim permaneceria. E mais, ficou uma certa impressão de que cabe ao Estado elaborar, executar e fiscalizar um plano de intervenção que acabaria com os problemas da cidade. Nós estamos no século XXI, lidamos com realidades virtuais, desterritorialização do trabalho e da economia, multiplicidade das possibilidades de comunicação e relacionamento, mas ainda pensamos a cidade bem parecidinho com o que faziam os caras lááááá no século XVI ou XVII.</p>
<p>No livro &#8220;O que é cidade&#8221; (Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense), Raquel Rolnik (eu já falei dela aqui? Acho que já, não lembro) lista quatro temas recorrentes das idealizações renascentistas que ainda permeiam nossas concepções de cidade:</p>
<p>1) A tendência a fazermos uma leitura mecânica da cidade, como se ela se reduzisse a uma circulação de fluxos &#8211; de pedestres, de veículos, de cargas, de dinheiro, de ventos ou águas;</p>
<p>2) A ideia de ordenação matemática (regularidade, repetição) como base da racionalização na produção do espaço;</p>
<p>3) A suposição de que uma cidade planejada é uma cidade sem males (muita gente boa no planejamento urbano, lá no fundo, ainda trabalha com essa hipótese)</p>
<p>4) A crença na capacidade do Estado de controlar a cidade, através das normas, da legislação, da fiscalização e, em última instância, da polícia.</p>
<p>Eu só tenho uma coisa a dizer: esquece. Essa cidade dócil e arrumada não existe, nunca existiu e não existirá (amém). A gente precisa, cada vez com mais urgência, pensar a cidade como <strong>processo</strong>, como algo em constante mutação e construção, e principalmente como uma construção coletiva, o que significa que é muito provável que os rumos tomados a cada instante não sejam sempre aqueles que euzinha desejaria ou consideraria melhores. A cidade não pertence ao Estado, ela pertence a todos nós e especialmente a quem dela participa (vocês já pararam pra pensar na proximidade semântica das palavras POLIS &#8211; que designa as cidades-estado gregas e POLÍTICA?). Aos que se omitem, restam a reclamação vazia, o nariz torcido e a desesperança.</p>
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