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	<title>Urbanamente &#187; Livros</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>A rua, a ordem e a desordem</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 17:34:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[ruas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma matéria que li no jornal ontem, e de um vídeo bizarro que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/13/prefeitura-anuncia-nova-etapa-do-choque-de-ordem-com-unidades-ao-estilo-das-upps-923021204.asp" target="_blank">matéria que li no jornal ontem</a>, e de um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=rWwEaTYddOo" target="_blank">vídeo bizarro</a> que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda de Choque de Ordem &#8211; da forma como é colocada &#8211; sempre me soa tremendamente fascista. Eu fico só lembrando de uma música que eu adoro, dos Titãs (me perdoem os mais novos, mas pra mim, é do tempo em que os Titãs realmente prestavam), chamada Desordem (1987). Um pedacinho da letra aqui, e o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=nIuVVjavUNY" target="_blank"> vídeo</a> pra vcs assistirem, lembrarem, aprenderem e cantarem.</p>
<p><strong><em>É seu dever manter a ordem,<br />
É seu dever de cidadão,<br />
Mas o que é criar desordem,<br />
Quem é que diz o que é ou não?</em></strong></p>
<p>Esses dias, em sala de aula, conversando com os alunos sobre o zoneamento estrito e a funcionalização da cidade proposta pelo movimento modernista (especialmente a Carta de Atenas, no contexto dos CIAM &#8211; Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), que dividia as funções da cidade (e portanto sua especialização espacial) em habitação, trabalho, circulação e lazer, falávamos de como a rua, nesse momento de início de século XX, foi demonizada como lugar da desorganização, do tumulto, da sujeira, da promiscuidade. Para estes teóricos, a função primordial da rua era a de circulação. e isso fazia tremendo sentido diante do surgimento do automóvel, instrumento que subverteria as noções de velocidade, de tempo, de mobilidade, de conforto e que &#8211; acreditavam muitos &#8211; seria em breve, por força da industrialização e do barateamento dos custos em função da produção em massa, acessível a todos. Nunca mais precisaríamos andar a pé.</p>
<p>Eu perguntei aos alunos o que eles achavam especificamente de reduzir a função da rua à circulação, e que outras coisas eles conseguiam lembrar e mencionar com sendo atos que se realizam na rua. Foi uma verdadeira festa. Tanta coisa legal que eles lembraram. E vocês, o que acham da rua?</p>
<p>Os trechos a seguir foram retirados do livro <strong>A Revolução Urbana, de Henri Lefebvre.</strong> O original foi escrito em 1970, a minha edição é da Editora UFMG, 1999 (pp 29 e 30). Logo no capítulo I, em que ele explica o conceito de sociedade urbana com que trabalha no livro, ele elenca alguns argumentos que foram desenvolvidos a favor da rua e contra a rua, dentro dos variados modelos teóricos e ideológicos do campo do urbanismo. Meu convite a vocês é: tendo como pano de fundo:</p>
<p>a) a sua própria experiência de passagem ou vivência de rua, contando com as dúvidas e inquietações trazidas pelas questões contemporâneas de violência e insegurança;</p>
<p>b) a leitura e reflexão sobre o discurso de ordem urbana embutido em projetos como o Choque de Ordem proposto pela prefeitura do Rio (e quaisquer projetos correlatos em outras cidades que vocês queiram partilhar);</p>
<p>Como vocês vêem, sentem e se posicionam diante dos argumentos levantados neste texto?</p>
<p>&#8220;A FAVOR DA RUA:</p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Não se trata simplesmente de um lugar de passagem e circulação. A invasão dos automóveis e a pressão dessa indústria, isto é, do lobby do automóvel, fazem dele um objeto-piloto, do estacionamento uma obsessão, da circulação um objetivo prioritário, destruidores de toda vida social e urbana. Aproxima-se o dia em que será preciso limitar os direitos e poderes do automóvel, não sem dificuldades e destruições.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? É o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis nos lugares determinados (cafés, teatros, salas diversas). Esses lugares privilegiados animam as ruas e são favorecidos por sua animação, ou então não existem. Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação estipulada e imobilizada. Quando se suprimiu a rua (desde Le Corbusier, nos “novos conjuntos”), viu-se as consequências: a extinção da vida, a redução da “cidade” a dormitório, a aberrante funcionalização da existência. A rua contém as funções negligenciadas por Le Corbusier: a função informativa, a função simbólica, a função lúdica. Nela joga-se, nela aprende-se.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua é a desordem? Certamente. Todos os elementos da vida urbana, noutra parte congelados numa ordem imóvel e redundante, liberam-se e afluem às ruas e por elas em direção aos centros; aí se encontram, arrancados de seus lugares fixos. Essa desordem vive. Informa. Surpreende. Além disso, essa desordem constrói uma ordem superior. Os trabalhos de Jane Jacobs mostraram que nos Estados Unidos, a rua (movimentada, frequentada) fornece a única segurança possível contra a violência criminal (roubo, estupro, agressão). Onde quer que a rua desapareça, a criminalidade aumenta, se organiza. Na rua, e por esse espaço, um grupo (a própria cidade) se manifesta, aparece, apropria-se dos lugares, realiza um tempo-espaçȯ apropriado. Uma tal apropriação mostra que o uso e o valor de uso podem dominar a troca e o valor de troca. Quanto ao acontecimento revolucionário, ele geralmente ocorre na rua (em caso de ameaça, a primeira imposição do poder é a interdição à permanência e à reunião na rua). Isso não mostra também que sua desordem engendra uma outra ordem? </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">O espaço urbano da rua não é o lugar da palavra, o lugar da troca pelas palavras e signos, assim como pelas coisas? Não é o lugar privilegiado no qual se escreve a palavra? Nde ela pôde tornar-se “selvagem”  e inscrever-se nos muros, escapando das prescrições e instituições?</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">POR OUTRO LADO:</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Os encontros nas ruas são superficiais. A rua não permite a constituição de um grupo, de um “sujeito”, mas se povoa de um amontoado de seres em busca. O mundo da mercadoria desenvolve-se na rua. A mercadoria que não pôde confinar-se nos lugares especializados, os mercados, praças, invadiu a cidade inteira. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? Uma vitrine, um desfile entre as lojas. A mercadoria, tornada espetáculo (provocante, atraente), transforma as pessoas em espetáculo umas para as outras. Nela, mais que noutros lugares, a troca e o valor de troca prevalecem sobre o uso, até reduzí-lo a um resíduo. De tal modo que a crítica da rua deve ir mais longe: a rua torna-se o lugar privilegiado de uma repressão, possibilitada pelo caráter “real” das relações que aí se constituem, ou seja, ao mesmo tempo débil e alienado-alienante.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua converteu-se em rede organizada para/pelo consumo. A velocidade da circulação de pedestres é aí determinada e demarcada pela possibilidade de perceber as vitrines, de comprar os objetos expostos. O tempo torna-se o tempo-mercadoria, a rua o submete ao mesmo sistema, o do rendimento e do lucro. A rua, série de vitrines, exposição de objetos à venda, mostra como a lógica da mercadoria é acompanhada de uma contemplação (passiva) que adquire o aspecto e a importância de uma estética e de uma ética. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">É assim que se pode falar de uma “colonização” do espaço urbano, que se efetua na rua pela imagem, pela publicidade, pelo espetáculo de objetos. A uniformização do cenário, visível na modernização das ruas antigas, reserva aos objetos (mercadorias) os efeitos de cores e formas que os tornam atraentes. Trata-se de uma aparência caricata de apropriação e de reapropriação do espaço que o poder autoriza quando permite a realização de eventos nas ruas: carnaval, bailes, festivais folclóricos. Quanto à verdadeira apropriação, a da “manifestação” efetiva, é combatida pelas forças repressivas, que comandam o silêncio e o esquecimento&#8221;. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">E aí?<br />
</span></span></span></p>
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		<title>Óia eu aqui traveiz</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Nov 2010 02:37:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>É, eu sei que a eleição acabou, já na última semana eu desapareci, e pra quem fez tanta campanha, eu nem vim aqui festejar o resultado. Eu festejei muito, acreditem. E continuo festejando. Até agora, tudo o que eu ouvi a Dilma falar eu gostei: o primeiro pronunciamento, a primeira entrevista na Record, a entrevista coletiva [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->É, eu sei que a eleição acabou, já na última semana eu desapareci, e pra quem fez tanta campanha, eu nem vim aqui festejar o resultado. Eu festejei muito, acreditem. E continuo festejando. Até agora, tudo o que eu ouvi a Dilma falar eu gostei: o primeiro pronunciamento, a primeira entrevista na Record, a entrevista coletiva mais relaxada, com sotaque mineirim. Eu gosto do tom de voz grave que ela tem, a cara de <em>nerd</em> séria, o tom quase bravo pra defender o que ela acha direito, o ar de quem sabe o que está falando, tem um objetivo e pretende fazer o que for necessário para alcançá-lo. Mas vamos ver. A parada vai ser duríssima, em muitas frentes. Não há milagres, eu já sei que vou me decepcionar com algumas escolhas e decisões, com diversas omissões e concessões. Vou ver frustradas algumas expectativas, faz parte. Mas se daqui a quatro anos o barco tiver avançado nesse rumo, em direção a um país mais justo, mais solidário, menos desigual; se a corrupção tiver sido combatida com a devida severidade e transparência, se o governo der conta de cumprir metade do que foi prometido em campanha, eu já vou ficar bem feliz!</p>
<p>Todo mundo que realmente importa já falou tudo o que eu poderia falar e muito melhor do que eu jamais conseguiria. Já deplorei o racismo e preconceito que rolou no Twitter contra os valorosos nordestinos, já lamentei o discurso amargo e arrogante do Serra ao admitir a derrota nas urnas, já me manifestei a favor do tratamento de presidenta (sério, não só já acostumei com a forma gramaticalmente correta ainda que pouco usual, como tomei gosto pelo som: presidentA!), já me viciei mais do que devia no tal de Facebook, agora deixa eu explicar por que eu continuarei sumida por mais um pouquinho.</p>
<p>Eu tenho um trabalho pra fazer. Sério. Importante. Necessário. E sobretudo, que representa algo que eu desejo imensamente, e que demanda esforço, dedicação, tempo e concentração da minha parte. Eu tenho um prazo para realizá-lo, que se esgota agora no fim do mês, e esse trabalho está atrasado. Eu contava sinceramente que a eleição fosse se resolver no primeiro turno, e eu iria conseguir me desligar a partir daí e me dedicar a este trabalho. Mas não foi o que aconteceu. Com o segundo turno veio o recrudescimento de um jeito tenebroso e reacionário de jogar, que eu nunca tinha visto antes com os dentes tão arreganhados; uma sanha raivosa, recalcada, que me surpreendeu e me assustou de vez em quando. E alguma coisa brotou em mim. Uma vontade de participar, de mostrar a cara, de defender o que eu achava melhor, aquilo em que eu acreditava. Acho que fazia anos que eu não me entusiasmava assim com uma eleição, que eu não me engajava desse jeito. Só que essa militância toda me custou um bocado de horas escrevendo e respondendo e-mails, lendo notícias e análises, partilhando links nas redes sociais, ajudando a desmontar bombas, e isso contribuiu para eu estar mais encalacrada agora. Não me arrependo. Pode parecer ingênuo da minha parte, mas eu sinto que vivemos um momento histórico importante, e eu me orgulho de participar dele, de ser uma formiguinha nesse grupo.</p>
<p>Agora, é hora de voltar as baterias para o que ficou pendente. E com disposição redobrada. Nesse meio tempo, a vida segue também: vida de professor em final de semestre não é fácil. Trabalhos acumulados para corrigir, últimas aulas para preparar, dor de cabeça, poucas horas de sono. Sem falar na atenção à família e amigos, que andam injustamente negligenciados. Prazeres pessoais dançaram quase todos. Tou feliz igual criança porque hoje consegui fazer as unhas, que estavam horrendas (momento mulherzinha, rsrsrsrs). Cinema, porém, eu já vi que só vai voltar a rolar em dezembro (ainda bem que já fui ver <strong>Tropa de Elite 2</strong>, filmaço.<strong> Comer, Rezar e Amar</strong> achei fraquinho. Vale pelo Javier Bardem fazendo papel de brasileiro falando portunhol).</p>
<p>Pelo menos tenho lido muito. Tive que deixar de lado uma pilha de livros que estavam na fila por puro deleite para correr com a bibliografia necessária para redigir meu projeto. Mas estou adorando também. Aliás, já que tenho que fichar os livros de todo jeito, isso é uma coisa que eu posso fazer, se alguém tiver interesse: colocar aqui alguns trechos das coisas que ando lendo. Entre outros autores, muito <strong>Zygmunt Bauman</strong> (tem páginas inteiras do livro<strong> </strong><span style="text-decoration: underline;"><em>Em busca da política</em></span> que teriam caído como uma luva ainda nesse final de campanha), <strong>Henri Lefebvre</strong>, <strong>Ulrich Beck</strong>, <strong>Milton Campos</strong> (grande Milton Campos: que argúcia, que atualidade!), <strong>Michel Foucault</strong>. Caramba, até hoje eu só tinha lido <span style="text-decoration: underline;"><em>Vigiar e Punir</em></span>, e mesmo assim, há muitos anos. Fiquei enlouquecida com<span style="text-decoration: underline;"><em> A Microfísica do Poder.</em></span> É engraçado porque eu vou me inflamando, e tem horas que eu tenho vontade de ler váááários trechos em voz alta, de preferência em cadeia nacional!</p>
<p>(Aqui cabe um parênteses. Acabei de escrever e me dei conta do que tinha dito, e de seus possíveis significados. Ia reescrever, mas deixei. Acho que o que está dito, está dito. É que, já que estamos falando em vigilância, punição, liberdade e práticas de poder, tem uns trechos que, provavelmente, muitos setores da nossa sociedade prefeririam mesmo que fossem lidos apenas em cadeia (=penitenciária) nacional, e olhe lá. Eu me referia a rede nacional mesmo. Aliás, <em>rede</em> é um conceito bacana de estudar, mas não é o meu tema no momento).</p>
<p>Ou seja, ou vocês me aguentam transcrevendo umas coisas na tentativa de organizar meu pensamento em público, ou me aguardam até dezembro. Ah, sim, nesse meio tempo, passaram-se seis meses e eis que eu dei aula, de novo, sobre cidades muçulmanas esta semana, na turma de História da Cidade II. Tá aí, esse é outro tema que eu quero tanto retomar. E já tem tanta coisa pronta, escrita. Eu estou cada vez mais apaixonada pelo assunto, pela cultura e pela história muçulmanas, pela arte belíssima, pela música sedutora, até mesmo pelas contradições e conflitos. Eu já disse que eu morro de vontade de aprender árabe? Pois é, quem sabe um dia? Para minha tentação, o <strong>Centro Cultural Banco do Brasil</strong> está com uma exposição em cartaz, aqui no Rio, chamada<strong> Islã.</strong> Claro que eu não perderei. E recomendo com fervor, desde já. Mas, considerando que eu já chequei que fica até depois do Natal, acho que só poderei ir mesmo em dezembro (os amigos que tiverem interesse e paciência estão convidados a ir comigo, eu vou adorar, depois tomamos um café ou um chopp, que tal?).</p>
<p>Por enquanto é isso. Os doidos que quiserem ler as minhas inquietações comigo, manifestem-se, eu ponho os trechos aqui e vocês me ajudam a pensar e escrever.</p>
<p><em>PS: Este é o tipo de post safado que deveria ter trocentos links, mas eu vou ficar devendo. Tou louca de sono, queria colocar isso no ar logo, e amanhã pretendo pegar firme no projeto, porque o tempo me devora.</em></p>
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		<title>Livros, músicas, filmes, vida</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/09/11/livros-musicas-filmes-vida/</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Sep 2010 16:53:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam a mesma coisa, não na<br />
mesma intensidade.  A <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a> (uma das amigas dessa conversa) estava dizendo a mesma coisa, como que ler nos provoca viagens espantosamente emocionais, quando a leitura, supostamente, deveria ser alguma coisa que nos estimulasse mais racionalmente, e a imagem (pensando aqui em pinturas e esculturas) não nos transportam tanto. Claro, falando por mim e por ela. Eu amo e me emociono profundamente com algumas obras, sou capaz de ficar uma eternidade na frente de alguns quadros &#8211; e já fiz isso &#8211; maravilhada, ou com a garganta em nó, sacudida por sentimentos profundos. Mas raramente fico povoada por aquele quadro dias, meses depois, como sou capaz de ficar com livros, filmes e músicas.</p>
<p>O sinal de que alguma coisa é boa para mim é quando me arrebata, quando dribla qualquer possibilidade de defesa racional e quando eu me deixo levar pela emoção, me colocando no lugar daquelas pessoas/personagens. Alguns<br />
autores conseguem isso comigo, outros não. A autora do livro que nós estávamos discutindo, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lionel_Shriver" target="_blank">Lionel Schriver</a>, pelo que eu vi, consegue. E eu adoro. Adoro sentir confiança o bastante para me abandonar e permitir que o autor me conduza numa viagem emocional diferente, mesmo que ela seja devastadora, como foi o caso. Só paro pra pensar depois, como se tivesse pulado de <em>bungee-jump</em>. Na hora da queda livre, não dá tempo nem adianta racionalizar, querer pular fora. Só depois, no chão, vc se dá conta de tudo o que sentiu durante.</p>
<p>O <a href="http://www.interney.net/blogs/lll/" target="_blank">Alex Castro</a> falou uma vez (acho que no<a href="http://www.formspring.me/alexcastrolll" target="_blank"> formspring</a>, eu tou adorando aquilo) que a importância da literatura &#8211; acho que ele se referia a por que ler os clássicos &#8211; mas ele falou que a literatura oferece uma oportunidade de vivência da <strong>alteridade</strong>, ou seja, de você se colocar na pele de outra pessoa, de experimentar sensações, emoções, viver experiências tantas vezes completamente distintas da sua realidade, de, em suma, prestar atenção e enxergar o Outro como<br />
semelhante. Isso numa perspectiva de desenvolver sua capacidade de empatia, de humanizar as relações, relativizar as diferenças. Eu concordo 100%, a literatura, a música e o cinema têm esse efeito sobre mim, me humanizam, na medida em que me fazem comungar com outros seres humanos, em suas glórias e misérias, virtudes e mesquinharias. E ver que todos esses sentimentos existem potencialmente dentro de cada um de nós, e sabe Deus qual o gatilho que faz aflorar em maior ou menor intensidade cada coisa, em cada pessoa, em cada momento da vida.</p>
<p>O livro ao qual nós nos referíamos no e-mail é <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2248154" target="_blank">Precisamos falar sobre o Kevin</a>. Neste romance, a autora cria uma situação ficcional mas perfeitamente plausível e realista, sobre um adolescente de 16 anos que, num belo dia, comete uma carnificina na escola, matando uma professora e vários colegas. A personagem que narra a história é a mãe do garoto, na forma de cartas que ela escreve ao marido. Nessas cartas, ela mescla lembranças da vida do casal, desde que se conheceram, como casaram, como e por que tiveram um filho, a infância que ela acredita tão flagrantemente sintomática do menino (ao mesmo tempo em que ninguém mais percebe a mesma coisa, muito menos o pai, o que a faz imaginar se não seria ela a neurótica), com descrições da sua vida despedaçada de hoje, pontuada e confrontada todo o tempo com as visitas que ela faz à penitenciária juvenil onde o filho está preso. É uma tentativa de entender, dar sentido a tudo o que aconteceu, impiedosamente vasculhando suas próprias culpas ou pelo menos tentando ver se e onde elas existiram. Ao mesmo tempo em que a autora traça, pela voz e olhar dessa mãe, um raio-x daquela família em particular, consegue também desenhar um panorama assustador de questões estruturais da sociedade norteamericana que tornam esse tipo de acontecimento tão comum e quase banal, apesar da comoção que vira e mexe causa na mídia.</p>
<p>Pra quem gosta desse tipo de temática, é um livro que eu recomendo. Mas é pesado, indigesto, e se você é que nem eu e mergulha, há grandes chances de que destampe incômodos e fantasmas pessoais. Não estou sugerindo nenhum tipo de identificação rasa e imediata com instintos assassinos e disfunções familiares, mas questões mais universais como as nossas culpas, as nossas escolhas, as nossas relações com os outros, ciúme, inveja, solidão, negação, desejo de ser amado, desejo de encontrar seu lugar no mundo.</p>
<p>Antes que eu esqueça. Muito menos estou sugerindo nenhuma abordagem pseudo-terapêutica, de &#8220;análise&#8221; dos personagens, num viés de avaliar o caráter e a estrutura emocional deles como se fossem &#8220;pacientes&#8221;, na busca de enquadrá-los num diagnóstico que aponte quais os problemas, com o objetivo de curar esses problemas. Mais normativo que isso impossível. E pessoalmente, eu nem sequer acreditaria numa psicanálise ou psicoterapia que trabalhasse nesse rumo.</p>
<p>Quando li este livro, ao contrário disso, eu confesso que senti profunda empatia com os personagens todos, de vez em quando inclusive com o adolescente assassino. Evidentemente, muito mais ainda com a mãe. Mas eu me pus na pele mesmo daquelas pessoas, e senti a cadeia de responsabilidades e dúvidas que existem a cada momento na vida de todos nós, tanto na hora das escolhas quanto lá na frente, na hora &#8211; que muitas vezes não tem como prever antes &#8211; de avaliar o resultado dessas escolhas. E senti como que a culpa, pura e simples, seja para imputá-la ou para sentí-la na carne, não constrói nada, só consome e paralisa. Para avançar, para não repetir, para compreender e colocar a vida em movimento é preciso superar a culpa. Responsabilidade é outra coisa completamente diferente.</p>
<p>Já comprei mais um livro da autora, <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2968789" target="_blank">O mundo pós-aniversário</a>, mas ainda não comecei. E tem outro, ainda não traduzido em português, que também está na mira, por recomendação da Vera: <a href="http://www.goodreads.com/book/show/708268.A_Perfectly_Good_Family" target="_blank">A perfectly good family</a>.</p>
<p>Pronto, gastei o tempo falando de livros (e se vocês soubessem a pilha que está na minha mesinha, com livros de todos os tipos, ensaios, poesias, romances, História, bibliografia para preparar aulas e para escrever projeto de tese, caramba, eu queria largar tudo e passar dois meses só lendo, mais nada). Música e cinema ficarão para outra vez. Eu ia contar o papel que o <strong>Pink Floyd</strong> teve na minha juventude (especialmente <a href="http://www.pinkfloyd.co.uk/dsotm/content/setup.html" target="_blank">The dark side of the moon</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt0084503/" target="_blank">The Wall</a>), e ia falar do filme <a href="http://www.cinepop.com.br/criticas/origem_103.htm" target="_blank">A Origem</a>, que assisti essa semana e do qual gostei muito. Essa é pros alunos de <strong>História da Cidade II</strong>, que essa semana tiveram aula sobre Grécia Antiga, e que nunca tinham ouvido falar do mito de <a href="http://colimao.blogspot.com/2005/10/teseu-e-o-minotauro.html" target="_blank">Teseu e o Minotauro</a>. Saber um tiquinho disso ajuda até mesmo a sacar a brincadeira que o diretor do filme faz, ao colocar uma arquiteta com o nome de Ariadne para construir um labirinto. Cultura geral também é diversão, môs fios.</p>
<p>Até já.</p>
<p>PS: Hoje é dia 11 de setembro. Não quero nem ouvir essa palhaçada de queimar Alcorão nos Estados Unidos. Prefiro me emocionar com <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">esse post</a> do <a href="htthttp://www.idelberavelar.com/" target="_blank">Idelber</a> que lembra e homenageia o grande Salvador Allende, e sua heroica e digna resistência ao golpe militar no Chile. <em>Compañera Urbanamente, presente!</em> (vai <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">lá</a> ler pra entender a citação).</p>
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		<title>Cidades Literárias: Agatha Christie</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 2009 20:41:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter o ritmo. Enfim, um blog também é pra isso, pro meu prazer, e não mais uma guilhotina no meu pescoço, ameaçando com prazos e cobranças de conteúdo e metodologias. Para isto, basta a vida real.</p>
<p>Entretanto, de vez em quando acho que já faz tempo que não aparece um post da série, e hoje foi um caso desses. Com a preguiça supracitada e a pilha de trabalhos para corrigir que me espia ali da mesa, resolvi pelo que era mais prático e rápido (nem por isso menos saboroso), em vez de folhear os livros em busca da citação mais adequada ou mais arrebatadora.</p>
<p>Tem uma piada que classifica as pessoas entre as que amam Beatles e as que amam Rolling Stones, e eu incluiria aí que outra divisão clássica é entre os leitores de Agatha Christie e os de Conan Doyle. Não que não se possa gostar de todos eles, mas a gente sempre tem uma quedinha preferencial por um dos lados. Eu sou Beatles e Agatha Christie, pronto. Amo a maneira leve e arguta com que ela retrata a sociedade inglesa do século XX, especialmente entre os anos 20 e 60, período em que escreveu (e no qual situou) a maioria de suas histórias. Eu tenho e já li mais de 50 livros da Rainha do Crime, com protagonistas variados como o indefectível e empoado Monsieur Hercule Poirot, a perspicaz e vitoriana Miss Marple, o casal moderninho Tommy e Tuppence Beresford, o sólido e prudente Superintendente Battle, entre outros menos frequentes. Gosto dos tipos que ela cria porque há algo sempre de deliciosamente risível e profundamente humano em todos eles, com suas vaidades, preconceitos, e capacidade de observação da sociedade que os cerca. Amo sobretudo a forma como eles vão envelhecendo ao longo do tempo, junto com sua autora. Por baixo de uma narrativa quase tola, que a gente devora em poucas horas, há um estudo sociológico nada desprezível. A parte da psicologia do crime e do criminoso é um pouco barata, eu acho, e reflete um determinado modo de pensar próprio de sua época. Quem sabe falar disso muito melhor do que eu é nossa leitora e amiga querida Paula Clarice, jovem e brilhante advogada, estudiosa dessas questões. Quem sabe ela aparece nos comentários para algum esclarecimento adicional.</p>
<p>Voltando à minha escolha de hoje, eu peguei meia dúzia de livros de Mrs. Christie e dei uma folheada, esperando encontrar descrições deliciosas de cidades, já que ela &#8211; como mulher viajadíssima e culta que era &#8211; tem romances espalhados pelos quatro cantos do globo, mas dei-me conta de que minha memória me traiu. O seu estilo ágil e intimista se detém muito mais no perfil psicológico dos personagens, tecido ao longo de diálogos e observações concisas e não de longos parágrafos descritivos, do que na análise urbana. As cidades quase nunca são personagens importantes para Agatha Christie, funcionando como molduras incidentais. Seus assassinatos e disputas se passam em ambientes privados, em mansões, escolas, hotéis, propriedades rurais. Ficamos sabendo de salas e quartos, mobílias, cortinas, objetos de decoração, cardápios de jantar e vestimentas dos criados,  mas quase nada sobre as cidades em que se passam os eventos. Elas até são mencionadas, mas raramente merecem mais do que duas ou três linhas.</p>
<p>Uma breve exceção está no livro E no final a morte que, de maneira inusitada, se passa no Antigo Egito, mais especificamente por volta de 2000 a.C., em Tebas, margem oeste do Nilo. De maneira original, e baseada em pesquisas sérias (não nos esqueçamos que seu marido era arqueólogo e que ela não só viajou com ele por todo o Oriente Médio como tinha acesso a um prestigioso círculo intelectual) Agatha Christie constrói uma narrativa interessante, em que se destaca uma minuciosa explicação do contexto sócio-cultural da época.</p>
<p>A trama mostra uma família numerosa em que os filhos maiores, já casados e com filhos, trabalham com o pai na agricultura e na pecuária de ovelhas.  O filho mais novo, adolescente, quer se envolver nas atividades profissionais e ser tratado como adulto, e a filha, recentemente viúva, retorna para viver com a família de origem, mas não gosta muito de ter que conviver com as cunhadas, preferindo cultivar amizade com o escrivão da família. O grupo inclui também  a mãe do dono da casa, meio cega mas muito sábia. Quando o pai traz para viver com eles a sua bela, jovem e maldosa concubina, que se diverte instigando intrigas e manipulando os outros para demonstrar o seu poder, a rotina da família muda. A moça acaba assassinada, seguindo-se depois outras mortes, que fazem suspeitar de fenômenos sobrenaturais. Claro que é alguém muito vivo que está por trás dos crimes, e a filha, o escrivão e a mãe do dono da casa vão desempenhar um papel decisivo na busca da verdade.</p>
<p>Em alguma altura do livro, Hori, o escriba, conversa com Renisenb, a filha do patriarca, do alto de um penhasco:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Olhe, Renisenb, olhe daqui do alto, através do vale, até o rio e mais além. Isto é o Egito, nossa terra. Enfraquecido por guerras e disputas durante muitos anos, dividido em insignificantes reinos, mas que agora, muito em breve, irá se unir para formar mais uma vez um país unido: Baixo e Alto Egito novamente consolidados em um; espero e acredito na recuperação de sua antiga grandeza! Quando esse dia chegar, o Egito precisará de homens e mulheres de coração e coragem, mulheres como você, Renisenb. Não de homens como Imhotep, eternamente preocupados com seus parcos ganhos e perdas, nem de homens como Sobek, negligentes e faroleiros, nem de rapazes como Ipy, que pensam apenas naquilo que podem ganhar para si próprios; não, nem mesmo de filhos conscienciosos e honestos, como Yahmose o Egito irá precisar. Aqui, sentado, entre os mortos, calculando perdas e ganhos, lançando a contabilidade, eu me deparei com ganhos que não podem ser avaliados em termos de prosperidade e perdas que causam mais dano do que a perda da colheita&#8230; Eu olho o rio e vejo o sangue vital do Egito, que existiu antes de nascermos e continuará a existir depois de morrermos&#8230; Vida e morte, Renisenb, não contam tanto. Eu sou apenas Hori, o homem de negócios de Imhotep, mas quando observo o Egito, eu conheço a paz e uma exultação que não trocaria nem mesmo pelo cargo de Governador da Província. Você compreende tudo o que eu disse, Renisenb?&#8221;</em></p>
<p>PS Agora, que acabei de escrever, me lembrei que a Cláudia, outra amiga querida que está sempre nos comentários, está justamente indo esta semana em viagem ao Egito. Fica dedicado a ela este post, portanto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Mark Twain</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 02:34:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na Universidade Veiga de Almeida (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na <a href="http://www.uva.br/" target="_blank">Universidade Veiga de Almeida</a> (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio novo e interessante para mim, sob vários aspectos. Uma mudança bastante significativa, principalmente em termos de rotina, é que o campus da  Universidade fica na Barra da Tijuca, que é um bairro do Rio bastante longe pra mim, com um trânsito complicado, e sobretudo, uma configuração urbana muito diferente do que eu estou habituada. Quero falar exatamente sobre isso depois, e sobre uma experiência quase, eu diria, antropológica, que eu tive ontem. Mas isso é depois.</p>
<p>Voltando, eu dou aulas por lá às terças e quintas. Um dos cursos é o de Design de Interiores, e estou num processo de imersão nesse novo universo pra mim. Mas dou também uma matéria chamada <strong>Planejamento Urbano</strong>, no curso de Gestão de Negócios Imobiliários. É uma turma grande, um pessoal mais velho, vários numa segunda graduação, a maioria buscando uma qualificação maior para ingressar ou se aperfeiçoar no ramo da corretagem de imóveis.</p>
<p>Na aula de ontem, eu estava falando com eles sobre o que é o estudo da morfologia da cidade, na tentativa de despertar uma maior sensibilidade para olhar &#8211; e ver &#8211; os vários elementos que compõem a estrutura urbana: as ruas, os prédios, as praças, a vegetação urbana, os padrões de parcelamento do solo, e até os monumentos e mobiliário. São todos peças que se relacionam e que ajudam a criar o espaço urbano, interferindo na percepção que temos dele e nas sensações que nos despertam.</p>
<p>É um tema que me apaixona. Especialmente quando falo das ruas e praças, espaços públicos tão importantes e tão esvaziados de tudo hoje &#8211; de significado, de usos, de conteúdo político.</p>
<p>(Calma que eu tou quase chegando no Mark Twain)</p>
<p>Aí, preparando a aula, na quarta-feira, eu tava pesquisando imagens para os slides. Eu queria falar da importância e das várias funções das ruas. Lá na Barra, especialmente, como em diversos outros locais de desenho modernista, as ruas são quase exclusivamente reduzidas à sua função de canal de deslocamento. Elas servem para a &#8220;circulação&#8221;, como dizia <a href="http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm" target="_blank"><strong>Le Corbusier</strong></a> na <a href="www.icomos.org.br/cartas/Carta_de_Atenas_1931.pdf" target="_blank"><strong>Carta de Atenas</strong></a> (link em pdf). Você usa uma rua para ir de um lugar a outro. Ponto. E isso é tão pouco, tão empobrecedor. As ruas servem para fazer passetas, para eventos cívicos, servem para as crianças jogarem bola no final da tarde, para as pessoas sentarem na calçada e conversarem com os vizinhos. Servem como mercado, como ponto de encontro, no chopp da esquina, bebido de pé na calçada ou sentado no meio-fio, servem para passear com o cachorro, servem  para você cruzar com pessoas diferentes e quem, sabe, até, realizar pequenas trocas sociais, nem que seja respondendo a um passante desconhecido que horas são ou onde fica a rua tal.</p>
<p>Eu queria procurar imagens dessas coisas, e joguei no google: &#8220;crianças na calçada&#8221;, &#8220;velhinhos na calçada&#8221;, crianças na rua&#8221;, &#8220;brincadeiras na rua&#8221; e todo tipo de coisas semelhantes. As únicas imagens que atendiam ao que eu estava procurando eram velhas fotos em preto e branco, como essa aí embaixo, que ilustra esse post. De maneira geral, expressões com crianças ou velhinhos ou o que quer que seja na rua ou na calçada, só te devolvem imagens de sem-teto, pivetes, mendigos. Achei tão sintomático. E triste.</p>
<div id="attachment_436" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-436" title="mark-twain" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/mark-twain.jpg" alt="Olha a pinta da figura!" width="300" height="207" /><p class="wp-caption-text">Olha a pinta da figura!</p></div>
<p>No início da semana, sabendo que teria dias de muito trabalho e pouco tempo, eu já estava pensando em que autor escolher para hoje. E já tinha pensado em <strong>Mark Twain</strong>. Se você nunca leu Mark Twain, faça-o correndo. É delicioso, ele é mordaz, bem-humorado, ácido e doce na medida certa. Eu tenho um livro dele, de não-ficção, chamado <strong>Dicas úteis para uma vida fútil: um manual para a maldita raça humana </strong>(Ed. Relume Dumará,<strong> </strong>2005, tradução de Beatriz Horta), que é uma coleção &#8211; organizada postumamente &#8211; de pensamentos, pequenas crônicas, trechos de diário, cartas e conselhos:  divertidíssima! Mas depois da aula de ontem, eu não tive dúvida. Corri para <strong>As Aventuras de Tom Sawyer</strong>, e saiu isso aqui:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tom caminhou junto às casas e tomou uma rua enlameada, que dava para os fundos do estábulo onde a tia tinha a vaca. Passados momentos estava a salvo de que o apanhassem para o castigar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Então apressou-se para o largo da aldeia, onde os meninos, formados em duas companhias &#8220;militares&#8221;, deviam encontrar-se para um combate, segundo uma combinação prévia. Tom era general de um desses exércitos e Joe Harper &#8211; um amigo de infância &#8211; general do outro. Estes dois grandes comandantes não se dignavam combater em pessoa &#8211; o que competia a outros de menos importância -, mas ambos, sentados numa elevação do terreno, dirigiam as operações transmitindo ordens aos seus ajudantes-de-ordens. Depois de um longo e renhido combate, o exército de Tom saiu vitorioso. Nessa altura, contaram-se os mortos, trocaram-se os prisioneiros, combinaram-se os termos do próximo encontro e marcou-se o dia para ele. em seguida, os dois exércitos formaram e marcharam, cada um para seu lado, enquanto Tom voltava sozinho para casa&#8221;. </em></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-438" title="225_166-crianca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/225_166-crianca-300x199.jpg" alt="225_166-crianca" width="300" height="199" />Também vou deixar vocês aqui, com minha homenagem às brincadeiras de rua, à sociabilidade que eu ainda creio ser possível resgatar ou incrementar, ainda que de jeitos novos. Esse livro foi escrito em 1876. Cem anos depois, numa cidade do subúrbio, eu, bem pequena, brincava de queimado e pique-bandeira na rua em frente à minha casa na volta da escola, de tarde. Me ajudem a não parecer uma velha coroca resmungando por uma nostalgia ingênua e vazia. Uma cidade melhor é possível. Mas, do meu ponto de vista, passa necessariamente por espaços públicos com mais vida e mais trocas.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Patrick Süskind</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 00:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Paris]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de O Perfume, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume" target="_blank"><strong>O Perfume</strong></a>, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir identificar com rara presteza e eficiência odores e componentes individuais de todos os perfumes existentes, e cuja característica pessoal mais estranha era não ter, ele próprio, cheiro algum. Há alguns anos, rendeu um <a href="http://www.imdb.com/title/tt0396171/" target="_blank">filme</a> bastante interessante, que conseguiu captar quase todo o espírito do livro.</p>
<p>Mas por mais que uma imagem valha mil palavras, não houve, pelo menos para mim, imagem alguma que desse conta de transpor para a tela as sensações despertadas pela descrição que consta nos primeiros parágrafos do livro, e que eu selecionei para hoje. Eu fico imaginando viver em Paris nessa época&#8230; Ou em quase qualquer outra grande cidade do mundo. As condições de higiene e habitabilidade eram mesmo terríveis. Fiquei aqui pensando duas coisas. Uma é na nossa obsessão moderna com escamotear cheiros corporais, e como os cheiros e perfumes têm significados que vão tão além do &#8220;conforto olfativo&#8221;. Outra coisa que me ocorreu é que estas condições de (falta de) higiene e as sensações e consequências delas decorrentes  não diferem muito de hoje, em tantas de nossas favelas miseráveis. Mas nos nossos dias, acho que nada fede mais que o Congresso Nacional. Tapemos nossos narizes.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e arainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar  havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas.; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. e só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre&#8221;. </em></p>
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		<title>A volta ao mundo em muitos exotismos</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 18:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na coluna de sexta-feira retrasada, eu optei por selecionar um trecho de A cidade flutuante, em detrimento d&#8217;A volta ao mundo em 80 dias, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/07/cidades-literarias-julio-verne/" target="_blank">coluna de sexta-feira retrasada</a>, eu optei por selecionar um trecho de <strong>A cidade flutuante</strong>, em detrimento d&#8217;<strong>A volta ao mundo em 80 dias</strong>, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar esse livro, porque fala tão bem do que eu chamei de fascínio e estranhamento com outros povos e lugares, sentimentos bastante comuns ao século XIX. Aí, nesta última sexta, eu trouxe o <strong>Mário Quintana</strong>, e ele dá um beliscão no turista deslumbrado, que acha tudo exótico e pitoresco, como se ele representasse algum tipo de norma universal, e o resto do mundo fosse um zoológico que se visita para desfrutar de algo que está ali para o seu entretenimento. Achei perfeito.</p>
<p>Esse tema do turismo é quentíssimo, sei de bastante gente boa que tem estudado isso, suas implicações para a vida da cidade, o surgimento cada vez mais intenso e sofisticado não só de parques temáticos, mas de verdadeiras cidades temáticas cuja existência só faz sentido em função de um apelo de marketing e turismo, e uma série de críticas e reflexões que se estão construindo, pesando os aspectos econômicos e culturais envolvidos para a vida da cidade e seus cidadãos. E é algo que, se não surge efetivamente a partir do século XIX com todas essas questões que eu levantei, do surgimento e disseminação de novos meios de transporte encurtando distâncias e tempos, pelo menos tem, aí, o estabelecimento de bases materiais para começar a se desenvolver.</p>
<p>Tergiversei um pouco, mas o que eu queria era mostrar esse trechinho do Julio Verne, que complementa o que falamos nas últimas semanas: tem a avidez com que as pessoas no século XIX queriam conhecer novos mundos; tem uma visão que hoje parece bastante romântica, de um inglês visitando &#8220;terras exóticas&#8221; (embora nesse trecho específico, a paisagem seja vista por um francês); tem um texto que pode ser lido como o embrião das crônicas de viagem mais modernas; tem a própria descrição da paisagem, o que nos remete de novo ao texto do Quintana sobre o assunto (o narrador nos mostra uma paisagem, mas não nos impõe a paisagem, ele nos transporta para ela e permite que nós a vejamos com nossos próprios olhos do coração e da imaginação); mas não sei se tem esse ranço para o qual o Quintana nos alerta. Ou talvez eu seja muito indulgente com o Verne. Leia e me diga o que você acha. *</p>
<p><a href="http://quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/"><img class="alignright size-medium wp-image-418" title="do-trem" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/do-trem-300x225.jpg" alt="do-trem" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não absorveu de imediato o fato de que ele estava realmente cruzando a Índia num trem. A locomotiva, guiada por um maquinista inglês e alimentada com carvão inglês, cuspia sua fumaça sobre plantações de algodão, café, cravo e pimenta, enquanto o vapor espiralava em redor de palmeiras, no meio das quais podiam se avistar bangalôs pitorescos, viharis (um tipo de monastério abandonado), e templos maravilhosos, adornados com os ornamentos inesgotáveis da arquitetura indiana. Então eles atravessaram vastos campos que se estendiam pelo horizonte, com selvas habitadas por serpentes e tigres, que fugiam ao ruído do trem; a estas se sucediam florestas rasgadas pela estrada de ferro, e ainda assombradas por elefantes que, com seus olhos pensativos, contemplavam o trem que passava. Os viajantes cruzaram, acima de Malligaum, as terras mortais, tão frequentemente manchadas de sangue, pelos seguidores da deusa Kali. Não muito longe dali se elevava Ellora, com seus graciosos pagodes, e a famosa Aurungabad, capital da temível Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias emancipadas do reino de Nizam&#8221;.</em></p>
<p><span style="color: #0000ff;">* Se alguém não conhece, a história narra as aventuras de um inglês muito rico e entediado, Phileas Fogg, que aceita uma aposta com seus amigos do clube londrino, de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, acompanhado de seu empregado, o francês Jean Passepartout. </span></p>
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		<title>Cidades Literárias: Mário Quintana</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 20:58:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem de repetir o mesmo autor duas semanas consecutivas. E depois, se deixar, eu fico falando só do século XIX. É uma paixão pessoal. E um interesse acadêmico. Mas é bom variar de vez em quando também.</p>
<p>Então decidi adiar mais um pouco o cumprimento das promessas, e dar um refresco. Vai daí que eu pensei em poesia, e puxei um <a href="http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp" target="_blank"><strong>Mário Quintana</strong></a> da estante. Este livro tem um dos meus títulos preferidos: <strong>Da preguiça como método de trabalho</strong>. Não é uma delícia? Esbarrei nuns textos falando sobre a poética do habitar, que casaram tão bem com outros de mesma temática que eu li na Adélia Prado um dia desses. Ainda vou trazer a Adélia pra cá também. Mas estavam intimistas demais, e eu não queria fugir muito da proposta de discutir a cidade. Então achei outros dois, na verdade minicrônicas (eu ia dizer micro, mas soou esquisitíssimo). Não descrevem uma cidade em especial, mas falam da experiência de observar uma cidade diferente, ou uma paisagem diferente. Como alguns amigos estão saindo em viagem, podem aproveitar essa reflexão.</p>
<p style="text-align: right;"><em>O FORASTEIRO</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nada mais chato que nos quererem mostrar uma paisagem. Quando compreenderão que a gente as vê sem saber? E como se fossem elas que estivessem olhando para nós. Assim como o sol matinal nos entra janela adentro e fica aguardando o nosso despertar. Mas olhar detidamente uma paisagem que nos impingem é como ouvir um discurso de luzes e cores. Ninguém ouve um discurso por muito tempo: começa-se a pensar em outras coisas&#8230; É preciso que haja paulatinamente uma osmose entre nós e a paisagem. Uma paisagem é sempre grande em demasia: só quando reduzida em cartões postais &#8211; que aliás a gente manda para outras gentes&#8230; Quando se chega numa cidade, as belezas naturais da terra logo nos obrigam a vê-las e estão geralmente longe: uma estopada. Sou um tipo urbano. Eu gosto mesmo é de ficar no Centro, furungando cafés e livrarias; às vezes até encontro um livro meu, por descuido dos distribuidores. Mas há pior: é quando certos aborígenes nos levam a visitar monumentos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>EXOTISMOS</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Desconfio desses turistas que consideram exóticos os países visitados. ficam de fora, vendo o pitoresco em tudo: nas casas, nas roupas, nos costumes, nas crenças&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E nem desconfiam que a única nota exótica desses indefesos países são precisamente eles!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas isso ainda não é nada. Um dia os modernistas brasileiros descobriram o Brasil.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Que engraçado! &#8211; assaranharam-se em coro. -Mais um país exótico!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E surgiu daí essa infinidade de poemas-piadas, de tão pouco saudosa memória.</em></p>
<p>Eu achei fora de série essa percepção de que a paisagem também olha para nós, e que é preciso haver uma osmose entre nós e a paisagem, para que ela seja melhor apreendida. De fato, isso não se impinge a ninguém. Quanto ao último trecho, ele tem tudo a ver com o tal trechinho do Júlio Verne que eu não trouxe ainda, mas que agora vou ter que trazer. é exatamente a postura predominante nessas viagens e &#8220;descobertas&#8221; de que eu falava na semana passada, que espoucaram no século XIX. Que lição reconhecer que tantas vezes, o exótico somos nós. O que é saber relativizar, hein?</p>
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		<title>Cidades Literárias: Júlio Verne</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 21:08:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.</p>
<p>Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.</p>
<p>Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er&#8230;quer dizer&#8230; dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.</p>
<p>Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho  de<strong> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank">Júlio Verne</a>.</strong> Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época &#8211; submarinos, foguetes de viagem à lua &#8211; e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se <a href="http://es.bookmooch.com/detail/8498190614" target="_blank"><strong>A cidade flutuante</strong></a><strong> </strong>(1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.</p>
<p>Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: <em>&#8220;Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida&#8221;</em>.</p>
<p>Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e <em>&#8220;escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos&#8221;</em>. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_396" class="wp-caption alignright" style="width: 251px"><em><a href="http://www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg"><img class="size-medium wp-image-396" title="newyorkcity1860" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/newyorkcity1860-241x300.jpg" alt="Planta de Nova York em 1860" width="241" height="300" /></a></em><p class="wp-caption-text">Planta de Nova York em 1860</p></div>
<p>&#8220;Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d&#8217;<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours" target="_blank">A volta ao mundo em 80 dias</a>, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?</p>
<p style="text-align: left;">Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.</p>
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		<title>(agora sim) Cidades Literárias: José Saramago</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 23:28:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Saramago]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de José Saramago. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas posições e opiniões como cidadão. Ensaio sobre a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de <strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago" target="_blank">José Saramago</a></strong>. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas <a href="http://caderno.josesaramago.org/" target="_blank">posições e opiniões</a> como cidadão. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_cegueira" target="_blank">Ensaio sobre a cegueira</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_intermit%C3%AAncias_da_morte" target="_blank">As intermitências da morte</a> estão entre alguns de meus livros favoritos. Eu certamente poderia extrair de qualquer um deles trechos ótimos pra esta série, mas tive vontade de partilhar um outro, simples mas que me tocou profundamente, e eu nem sei explicar bem por quê.</p>
<p>O livro se chama <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_pequenas_mem%C3%B3rias" target="_blank"><strong>As pequenas memórias</strong></a> (Companhia das Letras, 2006) e nele o autor narra episódios e lembranças de sua infância e juventude, em Portugal, lá pelos idos das décadas de 30 e 40. É leve, gostoso, um pouco nostálgico, muito bem humorado e escrito numa linguagem um pouco mais direta e fluida do que a que ele utiliza em seus romances. A pontuação, por exemplo, é quase &#8220;normal&#8221; (Saramago quase nunca usa vírgulas ou pontos e jamais indica as falas dos personagens por travessões, aspas ou qualquer outro recurso em seus livros, o que confunde um bocado o leitor desavisado ou desacostumado).</p>
<p>Esse trecho que eu escolhi, em que ele fala da aldeia em que nasceu e onde viveu os primeiros anos de vida, não é um relato bem urbano, é quase rural, mas ao mesmo tempo diz tanto sobre mecanismos que atingem as vidas das pequenas e médias cidades, até hoje, sua economia, seu ritmo, e sobretudo, as vidas das pessoas que aí residem, e eu achei lindo, então está aí pra vocês:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, </em>as-zinaik<em>, &#8220;rua estreita&#8221;, o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância. Ignoro em que altura se terá introduzido na região o cultivo extensivo da oliveira, mas não duvido, porque assim o afirmava a tradição pela boca dos velhos, de que por cima dos mais antigos daqueles olivais já teriam passado, pelo menos, dois ou três séculos. Não passarão outros. Hectares e hectares de terra plantados de oliveiras foram impiedosamente rasoirados há alguns anos, cortaram-se centenas de milhares de árvores, extirparam-se do solo profundo, ou ali se deixaram a apodrecer, as velhas raízes que, durante gerações e gerações, haviam dado luz às candeias e sabor ao caldo. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em></em></p>
<div id="attachment_364" class="wp-caption alignleft" style="width: 399px"><em><em><a href="http://vi.sualize.us/view/f5b91562a6121bcc027c5e0403fd3883/"><img class="size-full wp-image-364" title="olivetrees" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/olivetrees.jpg" alt="Olive trees - Vincent Van Gogh" width="389" height="308" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Olive trees - Vincent Van Gogh</p></div>
<p><em>Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Européia pagou um prêmio aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitavam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos. Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui. Já sabemos que o milho é um cereal de primeira necessidade, para muita gente ainda mais que o azeite, e eu próprio, nos meus tempos de rapaz, nos verdes anos da primeira adolescência, andei pelos milharais de então, depois de terminada a apanha pelos trabalhadores, com uma sacola de pano pendurada ao pescoço, a rabiscar as maçarocas que tivessem passado em claro. Confesso, no entanto, que experimento agora algo assim como uma satisfação maliciosa, uma desforra que não procurei nem quis, mas que veio ao meu encontro, quando ouço dizer à gente da aldeia que foi um erro, um disparate dos maiores, terem-se arrancado os velhos olivais. Também inutilmente se chorará o azeite derramado. Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras, mas daquelas que, por muitos anos que vivam, serão sempre pequenas. Crescem mais depressa e as azeitonas colhem-se mais facilmente. O que não sei é onde se irão meter os lagartos&#8221;. </em></p>
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