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	<title>Urbanamente &#187; Livros</title>
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		<title>Cidades Literárias: Agatha Christie</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 2009 20:41:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A verdade é que estou numa preguiça homérica. Sei perfeitamente bem que o Cidades Literárias, que começou com uma proposta séria e sistemática de ser publicado toda sexta-feira virou algo que eu faço quando dá. Eu adoro a série e ainda tenho dezenas de autores na fila, para publicar, mas não tou dando conta de manter o ritmo. Enfim, um blog também é pra isso, pro meu prazer, e não mais uma guilhotina no meu pescoço, ameaçando com prazos e cobranças de conteúdo e metodologias. Para isto, basta a vida real.</p>
<p>Entretanto, de vez em quando acho que já faz tempo que não aparece um post da série, e hoje foi um caso desses. Com a preguiça supracitada e a pilha de trabalhos para corrigir que me espia ali da mesa, resolvi pelo que era mais prático e rápido (nem por isso menos saboroso), em vez de folhear os livros em busca da citação mais adequada ou mais arrebatadora.</p>
<p>Tem uma piada que classifica as pessoas entre as que amam Beatles e as que amam Rolling Stones, e eu incluiria aí que outra divisão clássica é entre os leitores de Agatha Christie e os de Conan Doyle. Não que não se possa gostar de todos eles, mas a gente sempre tem uma quedinha preferencial por um dos lados. Eu sou Beatles e Agatha Christie, pronto. Amo a maneira leve e arguta com que ela retrata a sociedade inglesa do século XX, especialmente entre os anos 20 e 60, período em que escreveu (e no qual situou) a maioria de suas histórias. Eu tenho e já li mais de 50 livros da Rainha do Crime, com protagonistas variados como o indefectível e empoado Monsieur Hercule Poirot, a perspicaz e vitoriana Miss Marple, o casal moderninho Tommy e Tuppence Beresford, o sólido e prudente Superintendente Battle, entre outros menos frequentes. Gosto dos tipos que ela cria porque há algo sempre de deliciosamente risível e profundamente humano em todos eles, com suas vaidades, preconceitos, e capacidade de observação da sociedade que os cerca. Amo sobretudo a forma como eles vão envelhecendo ao longo do tempo, junto com sua autora. Por baixo de uma narrativa quase tola, que a gente devora em poucas horas, há um estudo sociológico nada desprezível. A parte da psicologia do crime e do criminoso é um pouco barata, eu acho, e reflete um determinado modo de pensar próprio de sua época. Quem sabe falar disso muito melhor do que eu é nossa leitora e amiga querida Paula Clarice, jovem e brilhante advogada, estudiosa dessas questões. Quem sabe ela aparece nos comentários para algum esclarecimento adicional.</p>
<p>Voltando à minha escolha de hoje, eu peguei meia dúzia de livros de Mrs. Christie e dei uma folheada, esperando encontrar descrições deliciosas de cidades, já que ela &#8211; como mulher viajadíssima e culta que era &#8211; tem romances espalhados pelos quatro cantos do globo, mas dei-me conta de que minha memória me traiu. O seu estilo ágil e intimista se detém muito mais no perfil psicológico dos personagens, tecido ao longo de diálogos e observações concisas e não de longos parágrafos descritivos, do que na análise urbana. As cidades quase nunca são personagens importantes para Agatha Christie, funcionando como molduras incidentais. Seus assassinatos e disputas se passam em ambientes privados, em mansões, escolas, hotéis, propriedades rurais. Ficamos sabendo de salas e quartos, mobílias, cortinas, objetos de decoração, cardápios de jantar e vestimentas dos criados,  mas quase nada sobre as cidades em que se passam os eventos. Elas até são mencionadas, mas raramente merecem mais do que duas ou três linhas.</p>
<p>Uma breve exceção está no livro E no final a morte que, de maneira inusitada, se passa no Antigo Egito, mais especificamente por volta de 2000 a.C., em Tebas, margem oeste do Nilo. De maneira original, e baseada em pesquisas sérias (não nos esqueçamos que seu marido era arqueólogo e que ela não só viajou com ele por todo o Oriente Médio como tinha acesso a um prestigioso círculo intelectual) Agatha Christie constrói uma narrativa interessante, em que se destaca uma minuciosa explicação do contexto sócio-cultural da época.</p>
<p>A trama mostra uma família numerosa em que os filhos maiores, já casados e com filhos, trabalham com o pai na agricultura e na pecuária de ovelhas.  O filho mais novo, adolescente, quer se envolver nas atividades profissionais e ser tratado como adulto, e a filha, recentemente viúva, retorna para viver com a família de origem, mas não gosta muito de ter que conviver com as cunhadas, preferindo cultivar amizade com o escrivão da família. O grupo inclui também  a mãe do dono da casa, meio cega mas muito sábia. Quando o pai traz para viver com eles a sua bela, jovem e maldosa concubina, que se diverte instigando intrigas e manipulando os outros para demonstrar o seu poder, a rotina da família muda. A moça acaba assassinada, seguindo-se depois outras mortes, que fazem suspeitar de fenômenos sobrenaturais. Claro que é alguém muito vivo que está por trás dos crimes, e a filha, o escrivão e a mãe do dono da casa vão desempenhar um papel decisivo na busca da verdade.</p>
<p>Em alguma altura do livro, Hori, o escriba, conversa com Renisenb, a filha do patriarca, do alto de um penhasco:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Olhe, Renisenb, olhe daqui do alto, através do vale, até o rio e mais além. Isto é o Egito, nossa terra. Enfraquecido por guerras e disputas durante muitos anos, dividido em insignificantes reinos, mas que agora, muito em breve, irá se unir para formar mais uma vez um país unido: Baixo e Alto Egito novamente consolidados em um; espero e acredito na recuperação de sua antiga grandeza! Quando esse dia chegar, o Egito precisará de homens e mulheres de coração e coragem, mulheres como você, Renisenb. Não de homens como Imhotep, eternamente preocupados com seus parcos ganhos e perdas, nem de homens como Sobek, negligentes e faroleiros, nem de rapazes como Ipy, que pensam apenas naquilo que podem ganhar para si próprios; não, nem mesmo de filhos conscienciosos e honestos, como Yahmose o Egito irá precisar. Aqui, sentado, entre os mortos, calculando perdas e ganhos, lançando a contabilidade, eu me deparei com ganhos que não podem ser avaliados em termos de prosperidade e perdas que causam mais dano do que a perda da colheita&#8230; Eu olho o rio e vejo o sangue vital do Egito, que existiu antes de nascermos e continuará a existir depois de morrermos&#8230; Vida e morte, Renisenb, não contam tanto. Eu sou apenas Hori, o homem de negócios de Imhotep, mas quando observo o Egito, eu conheço a paz e uma exultação que não trocaria nem mesmo pelo cargo de Governador da Província. Você compreende tudo o que eu disse, Renisenb?&#8221;</em></p>
<p>PS Agora, que acabei de escrever, me lembrei que a Cláudia, outra amiga querida que está sempre nos comentários, está justamente indo esta semana em viagem ao Egito. Fica dedicado a ela este post, portanto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Mark Twain</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 02:34:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na Universidade Veiga de Almeida (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na <a href="http://www.uva.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uva.br/?referer=');">Universidade Veiga de Almeida</a> (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio novo e interessante para mim, sob vários aspectos. Uma mudança bastante significativa, principalmente em termos de rotina, é que o campus da  Universidade fica na Barra da Tijuca, que é um bairro do Rio bastante longe pra mim, com um trânsito complicado, e sobretudo, uma configuração urbana muito diferente do que eu estou habituada. Quero falar exatamente sobre isso depois, e sobre uma experiência quase, eu diria, antropológica, que eu tive ontem. Mas isso é depois.</p>
<p>Voltando, eu dou aulas por lá às terças e quintas. Um dos cursos é o de Design de Interiores, e estou num processo de imersão nesse novo universo pra mim. Mas dou também uma matéria chamada <strong>Planejamento Urbano</strong>, no curso de Gestão de Negócios Imobiliários. É uma turma grande, um pessoal mais velho, vários numa segunda graduação, a maioria buscando uma qualificação maior para ingressar ou se aperfeiçoar no ramo da corretagem de imóveis.</p>
<p>Na aula de ontem, eu estava falando com eles sobre o que é o estudo da morfologia da cidade, na tentativa de despertar uma maior sensibilidade para olhar &#8211; e ver &#8211; os vários elementos que compõem a estrutura urbana: as ruas, os prédios, as praças, a vegetação urbana, os padrões de parcelamento do solo, e até os monumentos e mobiliário. São todos peças que se relacionam e que ajudam a criar o espaço urbano, interferindo na percepção que temos dele e nas sensações que nos despertam.</p>
<p>É um tema que me apaixona. Especialmente quando falo das ruas e praças, espaços públicos tão importantes e tão esvaziados de tudo hoje &#8211; de significado, de usos, de conteúdo político.</p>
<p>(Calma que eu tou quase chegando no Mark Twain)</p>
<p>Aí, preparando a aula, na quarta-feira, eu tava pesquisando imagens para os slides. Eu queria falar da importância e das várias funções das ruas. Lá na Barra, especialmente, como em diversos outros locais de desenho modernista, as ruas são quase exclusivamente reduzidas à sua função de canal de deslocamento. Elas servem para a &#8220;circulação&#8221;, como dizia <a href="http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm?referer=');"><strong>Le Corbusier</strong></a> na <a href="www.icomos.org.br/cartas/Carta_de_Atenas_1931.pdf" target="_blank"><strong>Carta de Atenas</strong></a> (link em pdf). Você usa uma rua para ir de um lugar a outro. Ponto. E isso é tão pouco, tão empobrecedor. As ruas servem para fazer passetas, para eventos cívicos, servem para as crianças jogarem bola no final da tarde, para as pessoas sentarem na calçada e conversarem com os vizinhos. Servem como mercado, como ponto de encontro, no chopp da esquina, bebido de pé na calçada ou sentado no meio-fio, servem para passear com o cachorro, servem  para você cruzar com pessoas diferentes e quem, sabe, até, realizar pequenas trocas sociais, nem que seja respondendo a um passante desconhecido que horas são ou onde fica a rua tal.</p>
<p>Eu queria procurar imagens dessas coisas, e joguei no google: &#8220;crianças na calçada&#8221;, &#8220;velhinhos na calçada&#8221;, crianças na rua&#8221;, &#8220;brincadeiras na rua&#8221; e todo tipo de coisas semelhantes. As únicas imagens que atendiam ao que eu estava procurando eram velhas fotos em preto e branco, como essa aí embaixo, que ilustra esse post. De maneira geral, expressões com crianças ou velhinhos ou o que quer que seja na rua ou na calçada, só te devolvem imagens de sem-teto, pivetes, mendigos. Achei tão sintomático. E triste.</p>
<div id="attachment_436" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-436" title="mark-twain" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/mark-twain.jpg" alt="Olha a pinta da figura!" width="300" height="207" /><p class="wp-caption-text">Olha a pinta da figura!</p></div>
<p>No início da semana, sabendo que teria dias de muito trabalho e pouco tempo, eu já estava pensando em que autor escolher para hoje. E já tinha pensado em <strong>Mark Twain</strong>. Se você nunca leu Mark Twain, faça-o correndo. É delicioso, ele é mordaz, bem-humorado, ácido e doce na medida certa. Eu tenho um livro dele, de não-ficção, chamado <strong>Dicas úteis para uma vida fútil: um manual para a maldita raça humana </strong>(Ed. Relume Dumará,<strong> </strong>2005, tradução de Beatriz Horta), que é uma coleção &#8211; organizada postumamente &#8211; de pensamentos, pequenas crônicas, trechos de diário, cartas e conselhos:  divertidíssima! Mas depois da aula de ontem, eu não tive dúvida. Corri para <strong>As Aventuras de Tom Sawyer</strong>, e saiu isso aqui:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tom caminhou junto às casas e tomou uma rua enlameada, que dava para os fundos do estábulo onde a tia tinha a vaca. Passados momentos estava a salvo de que o apanhassem para o castigar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Então apressou-se para o largo da aldeia, onde os meninos, formados em duas companhias &#8220;militares&#8221;, deviam encontrar-se para um combate, segundo uma combinação prévia. Tom era general de um desses exércitos e Joe Harper &#8211; um amigo de infância &#8211; general do outro. Estes dois grandes comandantes não se dignavam combater em pessoa &#8211; o que competia a outros de menos importância -, mas ambos, sentados numa elevação do terreno, dirigiam as operações transmitindo ordens aos seus ajudantes-de-ordens. Depois de um longo e renhido combate, o exército de Tom saiu vitorioso. Nessa altura, contaram-se os mortos, trocaram-se os prisioneiros, combinaram-se os termos do próximo encontro e marcou-se o dia para ele. em seguida, os dois exércitos formaram e marcharam, cada um para seu lado, enquanto Tom voltava sozinho para casa&#8221;. </em></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-438" title="225_166-crianca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/225_166-crianca-300x199.jpg" alt="225_166-crianca" width="300" height="199" />Também vou deixar vocês aqui, com minha homenagem às brincadeiras de rua, à sociabilidade que eu ainda creio ser possível resgatar ou incrementar, ainda que de jeitos novos. Esse livro foi escrito em 1876. Cem anos depois, numa cidade do subúrbio, eu, bem pequena, brincava de queimado e pique-bandeira na rua em frente à minha casa na volta da escola, de tarde. Me ajudem a não parecer uma velha coroca resmungando por uma nostalgia ingênua e vazia. Uma cidade melhor é possível. Mas, do meu ponto de vista, passa necessariamente por espaços públicos com mais vida e mais trocas.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Patrick Süskind</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 00:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de O Perfume, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume?referer=');"><strong>O Perfume</strong></a>, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir identificar com rara presteza e eficiência odores e componentes individuais de todos os perfumes existentes, e cuja característica pessoal mais estranha era não ter, ele próprio, cheiro algum. Há alguns anos, rendeu um <a href="http://www.imdb.com/title/tt0396171/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt0396171/?referer=');">filme</a> bastante interessante, que conseguiu captar quase todo o espírito do livro.</p>
<p>Mas por mais que uma imagem valha mil palavras, não houve, pelo menos para mim, imagem alguma que desse conta de transpor para a tela as sensações despertadas pela descrição que consta nos primeiros parágrafos do livro, e que eu selecionei para hoje. Eu fico imaginando viver em Paris nessa época&#8230; Ou em quase qualquer outra grande cidade do mundo. As condições de higiene e habitabilidade eram mesmo terríveis. Fiquei aqui pensando duas coisas. Uma é na nossa obsessão moderna com escamotear cheiros corporais, e como os cheiros e perfumes têm significados que vão tão além do &#8220;conforto olfativo&#8221;. Outra coisa que me ocorreu é que estas condições de (falta de) higiene e as sensações e consequências delas decorrentes  não diferem muito de hoje, em tantas de nossas favelas miseráveis. Mas nos nossos dias, acho que nada fede mais que o Congresso Nacional. Tapemos nossos narizes.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e arainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar  havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas.; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. e só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre&#8221;. </em></p>
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		<title>A volta ao mundo em muitos exotismos</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 18:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na coluna de sexta-feira retrasada, eu optei por selecionar um trecho de A cidade flutuante, em detrimento d&#8217;A volta ao mundo em 80 dias, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/07/cidades-literarias-julio-verne/" target="_blank">coluna de sexta-feira retrasada</a>, eu optei por selecionar um trecho de <strong>A cidade flutuante</strong>, em detrimento d&#8217;<strong>A volta ao mundo em 80 dias</strong>, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar esse livro, porque fala tão bem do que eu chamei de fascínio e estranhamento com outros povos e lugares, sentimentos bastante comuns ao século XIX. Aí, nesta última sexta, eu trouxe o <strong>Mário Quintana</strong>, e ele dá um beliscão no turista deslumbrado, que acha tudo exótico e pitoresco, como se ele representasse algum tipo de norma universal, e o resto do mundo fosse um zoológico que se visita para desfrutar de algo que está ali para o seu entretenimento. Achei perfeito.</p>
<p>Esse tema do turismo é quentíssimo, sei de bastante gente boa que tem estudado isso, suas implicações para a vida da cidade, o surgimento cada vez mais intenso e sofisticado não só de parques temáticos, mas de verdadeiras cidades temáticas cuja existência só faz sentido em função de um apelo de marketing e turismo, e uma série de críticas e reflexões que se estão construindo, pesando os aspectos econômicos e culturais envolvidos para a vida da cidade e seus cidadãos. E é algo que, se não surge efetivamente a partir do século XIX com todas essas questões que eu levantei, do surgimento e disseminação de novos meios de transporte encurtando distâncias e tempos, pelo menos tem, aí, o estabelecimento de bases materiais para começar a se desenvolver.</p>
<p>Tergiversei um pouco, mas o que eu queria era mostrar esse trechinho do Julio Verne, que complementa o que falamos nas últimas semanas: tem a avidez com que as pessoas no século XIX queriam conhecer novos mundos; tem uma visão que hoje parece bastante romântica, de um inglês visitando &#8220;terras exóticas&#8221; (embora nesse trecho específico, a paisagem seja vista por um francês); tem um texto que pode ser lido como o embrião das crônicas de viagem mais modernas; tem a própria descrição da paisagem, o que nos remete de novo ao texto do Quintana sobre o assunto (o narrador nos mostra uma paisagem, mas não nos impõe a paisagem, ele nos transporta para ela e permite que nós a vejamos com nossos próprios olhos do coração e da imaginação); mas não sei se tem esse ranço para o qual o Quintana nos alerta. Ou talvez eu seja muito indulgente com o Verne. Leia e me diga o que você acha. *</p>
<p><a href="http://quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-418" title="do-trem" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/do-trem-300x225.jpg" alt="do-trem" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não absorveu de imediato o fato de que ele estava realmente cruzando a Índia num trem. A locomotiva, guiada por um maquinista inglês e alimentada com carvão inglês, cuspia sua fumaça sobre plantações de algodão, café, cravo e pimenta, enquanto o vapor espiralava em redor de palmeiras, no meio das quais podiam se avistar bangalôs pitorescos, viharis (um tipo de monastério abandonado), e templos maravilhosos, adornados com os ornamentos inesgotáveis da arquitetura indiana. Então eles atravessaram vastos campos que se estendiam pelo horizonte, com selvas habitadas por serpentes e tigres, que fugiam ao ruído do trem; a estas se sucediam florestas rasgadas pela estrada de ferro, e ainda assombradas por elefantes que, com seus olhos pensativos, contemplavam o trem que passava. Os viajantes cruzaram, acima de Malligaum, as terras mortais, tão frequentemente manchadas de sangue, pelos seguidores da deusa Kali. Não muito longe dali se elevava Ellora, com seus graciosos pagodes, e a famosa Aurungabad, capital da temível Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias emancipadas do reino de Nizam&#8221;.</em></p>
<p><span style="color: #0000ff;">* Se alguém não conhece, a história narra as aventuras de um inglês muito rico e entediado, Phileas Fogg, que aceita uma aposta com seus amigos do clube londrino, de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, acompanhado de seu empregado, o francês Jean Passepartout. </span></p>
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		<title>Cidades Literárias: Mário Quintana</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 20:58:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem de repetir o mesmo autor duas semanas consecutivas. E depois, se deixar, eu fico falando só do século XIX. É uma paixão pessoal. E um interesse acadêmico. Mas é bom variar de vez em quando também.</p>
<p>Então decidi adiar mais um pouco o cumprimento das promessas, e dar um refresco. Vai daí que eu pensei em poesia, e puxei um <a href="http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.releituras.com/mquintana_bio.asp?referer=');"><strong>Mário Quintana</strong></a> da estante. Este livro tem um dos meus títulos preferidos: <strong>Da preguiça como método de trabalho</strong>. Não é uma delícia? Esbarrei nuns textos falando sobre a poética do habitar, que casaram tão bem com outros de mesma temática que eu li na Adélia Prado um dia desses. Ainda vou trazer a Adélia pra cá também. Mas estavam intimistas demais, e eu não queria fugir muito da proposta de discutir a cidade. Então achei outros dois, na verdade minicrônicas (eu ia dizer micro, mas soou esquisitíssimo). Não descrevem uma cidade em especial, mas falam da experiência de observar uma cidade diferente, ou uma paisagem diferente. Como alguns amigos estão saindo em viagem, podem aproveitar essa reflexão.</p>
<p style="text-align: right;"><em>O FORASTEIRO</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nada mais chato que nos quererem mostrar uma paisagem. Quando compreenderão que a gente as vê sem saber? E como se fossem elas que estivessem olhando para nós. Assim como o sol matinal nos entra janela adentro e fica aguardando o nosso despertar. Mas olhar detidamente uma paisagem que nos impingem é como ouvir um discurso de luzes e cores. Ninguém ouve um discurso por muito tempo: começa-se a pensar em outras coisas&#8230; É preciso que haja paulatinamente uma osmose entre nós e a paisagem. Uma paisagem é sempre grande em demasia: só quando reduzida em cartões postais &#8211; que aliás a gente manda para outras gentes&#8230; Quando se chega numa cidade, as belezas naturais da terra logo nos obrigam a vê-las e estão geralmente longe: uma estopada. Sou um tipo urbano. Eu gosto mesmo é de ficar no Centro, furungando cafés e livrarias; às vezes até encontro um livro meu, por descuido dos distribuidores. Mas há pior: é quando certos aborígenes nos levam a visitar monumentos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>EXOTISMOS</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Desconfio desses turistas que consideram exóticos os países visitados. ficam de fora, vendo o pitoresco em tudo: nas casas, nas roupas, nos costumes, nas crenças&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E nem desconfiam que a única nota exótica desses indefesos países são precisamente eles!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas isso ainda não é nada. Um dia os modernistas brasileiros descobriram o Brasil.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Que engraçado! &#8211; assaranharam-se em coro. -Mais um país exótico!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E surgiu daí essa infinidade de poemas-piadas, de tão pouco saudosa memória.</em></p>
<p>Eu achei fora de série essa percepção de que a paisagem também olha para nós, e que é preciso haver uma osmose entre nós e a paisagem, para que ela seja melhor apreendida. De fato, isso não se impinge a ninguém. Quanto ao último trecho, ele tem tudo a ver com o tal trechinho do Júlio Verne que eu não trouxe ainda, mas que agora vou ter que trazer. é exatamente a postura predominante nessas viagens e &#8220;descobertas&#8221; de que eu falava na semana passada, que espoucaram no século XIX. Que lição reconhecer que tantas vezes, o exótico somos nós. O que é saber relativizar, hein?</p>
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		<title>Cidades Literárias: Júlio Verne</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 21:08:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.</p>
<p>Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.</p>
<p>Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er&#8230;quer dizer&#8230; dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.</p>
<p>Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho  de<strong> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_Verne?referer=');">Júlio Verne</a>.</strong> Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época &#8211; submarinos, foguetes de viagem à lua &#8211; e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se <a href="http://es.bookmooch.com/detail/8498190614" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/es.bookmooch.com/detail/8498190614?referer=');"><strong>A cidade flutuante</strong></a><strong> </strong>(1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.</p>
<p>Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: <em>&#8220;Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida&#8221;</em>.</p>
<p>Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e <em>&#8220;escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos&#8221;</em>. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_396" class="wp-caption alignright" style="width: 251px"><em><a href="http://www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg?referer=');"><img class="size-medium wp-image-396" title="newyorkcity1860" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/newyorkcity1860-241x300.jpg" alt="Planta de Nova York em 1860" width="241" height="300" /></a></em><p class="wp-caption-text">Planta de Nova York em 1860</p></div>
<p>&#8220;Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d&#8217;<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours?referer=');">A volta ao mundo em 80 dias</a>, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?</p>
<p style="text-align: left;">Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.</p>
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		<title>(agora sim) Cidades Literárias: José Saramago</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 23:28:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de José Saramago. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas posições e opiniões como cidadão. Ensaio sobre a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Separei a conversinha aí debaixo, senão ia ficar um post muito grande.</p>
<p>Eu sou do time que gosta muito de <strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jos_C3_A9_Saramago?referer=');">José Saramago</a></strong>. Gosto dele como escritor (embora não consiga ler muitos de seus livros um atrás do outro, preciso de uma pausa), e gosto muito de algumas de suas <a href="http://caderno.josesaramago.org/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/caderno.josesaramago.org/?referer=');">posições e opiniões</a> como cidadão. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_cegueira" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Ensaio_sobre_a_cegueira?referer=');">Ensaio sobre a cegueira</a> e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_intermit%C3%AAncias_da_morte" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/As_intermit_C3_AAncias_da_morte?referer=');">As intermitências da morte</a> estão entre alguns de meus livros favoritos. Eu certamente poderia extrair de qualquer um deles trechos ótimos pra esta série, mas tive vontade de partilhar um outro, simples mas que me tocou profundamente, e eu nem sei explicar bem por quê.</p>
<p>O livro se chama <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/As_pequenas_mem%C3%B3rias" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/As_pequenas_mem_C3_B3rias?referer=');"><strong>As pequenas memórias</strong></a> (Companhia das Letras, 2006) e nele o autor narra episódios e lembranças de sua infância e juventude, em Portugal, lá pelos idos das décadas de 30 e 40. É leve, gostoso, um pouco nostálgico, muito bem humorado e escrito numa linguagem um pouco mais direta e fluida do que a que ele utiliza em seus romances. A pontuação, por exemplo, é quase &#8220;normal&#8221; (Saramago quase nunca usa vírgulas ou pontos e jamais indica as falas dos personagens por travessões, aspas ou qualquer outro recurso em seus livros, o que confunde um bocado o leitor desavisado ou desacostumado).</p>
<p>Esse trecho que eu escolhi, em que ele fala da aldeia em que nasceu e onde viveu os primeiros anos de vida, não é um relato bem urbano, é quase rural, mas ao mesmo tempo diz tanto sobre mecanismos que atingem as vidas das pequenas e médias cidades, até hoje, sua economia, seu ritmo, e sobretudo, as vidas das pessoas que aí residem, e eu achei lindo, então está aí pra vocês:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Dizem os entendidos que a aldeia nasceu e cresceu ao longo de uma vereda, de uma azinhaga, termo que vem de uma palavra árabe, </em>as-zinaik<em>, &#8220;rua estreita&#8221;, o que em sentido literal não poderia ter sido naqueles começos, pois uma rua, seja estreita, seja larga, sempre será uma rua, ao passo que uma vereda nunca será mais que um atalho, um desvio para chegar mais depressa aonde se pretende, e em geral sem outro futuro nem desmedidas ambições de distância. Ignoro em que altura se terá introduzido na região o cultivo extensivo da oliveira, mas não duvido, porque assim o afirmava a tradição pela boca dos velhos, de que por cima dos mais antigos daqueles olivais já teriam passado, pelo menos, dois ou três séculos. Não passarão outros. Hectares e hectares de terra plantados de oliveiras foram impiedosamente rasoirados há alguns anos, cortaram-se centenas de milhares de árvores, extirparam-se do solo profundo, ou ali se deixaram a apodrecer, as velhas raízes que, durante gerações e gerações, haviam dado luz às candeias e sabor ao caldo. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em></em></p>
<div id="attachment_364" class="wp-caption alignleft" style="width: 399px"><em><em><a href="http://vi.sualize.us/view/f5b91562a6121bcc027c5e0403fd3883/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/vi.sualize.us/view/f5b91562a6121bcc027c5e0403fd3883/?referer=');"><img class="size-full wp-image-364" title="olivetrees" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/olivetrees.jpg" alt="Olive trees - Vincent Van Gogh" width="389" height="308" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Olive trees - Vincent Van Gogh</p></div>
<p><em>Por cada pé de oliveira arrancado, a Comunidade Européia pagou um prêmio aos proprietários das terras, na sua maioria grandes latifundiários, e hoje, em lugar dos misteriosos e vagamente inquietantes olivais do meu tempo de criança e adolescente, em lugar dos troncos retorcidos, cobertos de musgo e líquenes, esburacados de locas onde se acoitavam os lagartos, em lugar dos dosséis de ramos carregados de azeitonas negras e de pássaros, o que se nos apresenta aos olhos é um enorme, um monótono, um interminável campo de milho híbrido, todo com a mesma altura, talvez com o mesmo número de folhas nas canoilas, e amanhã talvez com a mesma disposição e o mesmo número de maçarocas, e cada maçaroca talvez com o mesmo número de bagos. Não estou a queixar-me, não estou a chorar a perda de algo que nem sequer me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste sítio que nasci, que não me criei aqui. Já sabemos que o milho é um cereal de primeira necessidade, para muita gente ainda mais que o azeite, e eu próprio, nos meus tempos de rapaz, nos verdes anos da primeira adolescência, andei pelos milharais de então, depois de terminada a apanha pelos trabalhadores, com uma sacola de pano pendurada ao pescoço, a rabiscar as maçarocas que tivessem passado em claro. Confesso, no entanto, que experimento agora algo assim como uma satisfação maliciosa, uma desforra que não procurei nem quis, mas que veio ao meu encontro, quando ouço dizer à gente da aldeia que foi um erro, um disparate dos maiores, terem-se arrancado os velhos olivais. Também inutilmente se chorará o azeite derramado. Contam-me agora que se está voltando a plantar oliveiras, mas daquelas que, por muitos anos que vivam, serão sempre pequenas. Crescem mais depressa e as azeitonas colhem-se mais facilmente. O que não sei é onde se irão meter os lagartos&#8221;. </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cidades Literárias: Marguerite Yourcenar</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 15:26:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que não tive mais dúvidas. De forma que segue aí pra vocês, tirado do livro <strong>Memórias de Adriano</strong>, de <strong>Marguerite Yourcenar</strong> (das melhores coisas que eu já comprei num sebo, por 1 real!) o depoimento do famoso imperador romano sobre a construção do <strong>Panteão</strong>, em Roma.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-332" title="180px-hadrien-ven" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/180px-hadrien-ven.jpg" alt="180px-hadrien-ven" width="180" height="212" />Só contextualizando o personagem e a obra. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Adriano?referer=');">Adriano</a> foi imperador de Roma entre os anos 117 e 138 d.C, no auge do Império (auge esse para o qual ele muito contribuiu). Foi um líder militar prudente, que preferiu negociar e consolidar fronteiras a prosseguir em guerras de expansão. É dele, por exemplo, a muralha que durante séculos marcou os limites entre a Inglaterra e a Escócia, da qual existem ainda ruínas, e que passou à História como Muralha de Adriano. Era um homem culto e letrado, que difundiu a cultura clássica grega em suas muitas viagens pelo vasto território imperial, sempre construindo estradas e monumentos. Era também arquiteto e estudioso de materiais de construção. Por outro lado, era um homem vaidosíssimo e de perfil bastante autoritário, que muitas vezes manipulou e alienou o Senado na hora de tomar decisões importantes.</p>
<p>A brilhante autora <span style="text-decoration: line-through;">francesa</span> belga de língua francesa Marguerite Yourcenar escreveu este livro em 1950, fruto de um extenso e seríssimo trabalho de pesquisa. A edição que eu tenho, de 1986, da Editora Record, tem uma nota no final primorosa, em que ela esclarece a metodologia de trabalho, menciona os documentos originais a que teve acesso, incluindo os próprios diários que Adriano deixou, cita os trabalhos de história que leu, revela quais são os dados e personagens que ela inventou, mesclou ou suprimiu para o melhor andamento da narrativa, e quais são os reais. O resultado é um livro delicioso, narrado em primeira pessoa, que mistura um tiquinho de poesia e ficção a um universo fascinantemente real, ou realmente fascinante.</p>
<p>Mas chega, né? Olha aí o Adriano se apresentando e apresentando uma de suas obras mais importantes. No final, eu tenho mais duas palavrinhas pra acrescentar:</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Adriano?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-334" title="25879331" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/25879331-300x200.jpg" alt="25879331" width="300" height="200" /></a>&#8220;A construção de um templo dedicado a Todos os Deuses, de um Panteon, se me impunha. Escolhera seu lugar sobre as ruínas dos antigos banhos públicos oferecidos ao povo romano por Agripa, o genro de Augusto. Nada restava do antigo edifício além de um pórtico e de uma placa de mármore com uma dedicatória ao povo de Roma. Essa placa foi cuidadosamente recolocada, exatamente como era, no frontão do novo templo. Pouco me importava que meu nome figurasse ou não num monumento que era a expressão do meu pensamento. Agradava-me, muito pelo contrário, que uma velha inscrição de mais de um século o associasse ao princípio do Império, ao reino pacificado de Augusto. Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O ato de dedicação do templo de Vênus e de Roma foi uma espécie de triunfo acompanhado por corridas de carros, espetáculos públicos, distribuição de especiarias e perfumes.(&#8230;) A data escolhida para a festa foi o dia do aniversário de Roma, o oitavo após os Idos de Abril do ano 882 depois da fundação da Cidade. A primavera romana nunca fora mais doce, mais violenta, nem mais azul. No mesmo dia, com uma solenidade mais grave e como que abafada, teve lugar uma cerimônia consagratória no interior do Panteon. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://www.bolsanobolso.com/showthread.php?t=24771" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bolsanobolso.com/showthread.php?t=24771&amp;referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-338" title="4752641" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/4752641-200x300.jpg" alt="4752641" width="200" height="300" /></a>Eu próprio corrigira os planos demasiado tímidos do arquiteto Apolodoro. Utilizando as artes da Grécia como simples ornamentação, ou um luxo a mais, procurei voltar, pela própria estrutura do edifício, à época fabulosa e primitiva de Roma, ao mesmo tempo que reproduzia os templos redondos da Etrúria antiga. Quis que esse santuário de todos os deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera estelar, do globo onde se encerram as origens do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém. Era igualmente a forma das cabanas ancestrais, nas quais a fumaça dos mais antigos lumes humanos escapava por um orifício situado no topo. A cúpula construída de uma lava sólida e leve, que parecia participar ainda do movimento ascendente das chamas, comunicava com o céu por uma grande abertura alternadamente negra e azul, tal como a noite e o dia. Esse templo, ao mesmo tempo aberto e secreto, era concebido como um quadrante solar. As horas girariam naqueles caixotes cuidadosamente polidos por artífices gregos, e o disco do dia ficaria suspenso ali como um escudo de ouro. A chuva formaria uma poça de água pura no pavimento e as preces escapar-se-iam como fumaça em direção ao vazio onde costumamos colocar os deuses. Essa festa foi para mim uma dessas horas em que tudo converge.&#8221;</em></p>
<p>Acho que nem cabe falar muito mais, né? Mas eu quero lembrar que esse texto tenta dialogar com o da <a href="http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/06/19/um-coliseu-para-voce-e-para-mim/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/06/19/um-coliseu-para-voce-e-para-mim/?referer=');">Fal</a>, em que ela fala do Coliseu como sendo seu monumento romano favorito. Nos comentários a essa crônica, eu disse que o meu era o Panteão, mas como eu não sei falar tão bem quanto ela, deixei o Adriano mesmo descrever tudo.</p>
<p>O outro aspecto que eu quero lembrar é o quanto a gente pode falar ou pensar, a partir desse pedacinho, sobre o papel da arquitetura na composição da paisagem urbana, da identidade da cidade. O que nos leva a pensar em preservação de patrimônio. Eu tenho uma birra infernal com o fato deste templo tão solene e belo ter sido continuamente profanado ao longo dos séculos, a começar pela própria Igreja Católica, que o transformou em igreja, destruindo as imagens dos deuses pagãos que ocupavam os nichos ao redor do salão e instalando ali um altar cristão, com crucifixo e tudo. Eu sei, outros tempos, outra concepção de tudo, hoje o Panteão está aberto à visitação pública como museu, como testemunho da obra de Adriano, mas mesmo assim.</p>
<p>Para os arquitetos e estudantes de arquitetura, atenção para o elegante e corretíssimo memorial justificativo da obra. É aquele documento em que o arquiteto apresenta seu projeto, justifica suas escolhas, descreve os elementos importantes, partido arquitetônico, estrutura, materiais, formas e funções. O cara faz isso ainda por cima com qualidade literária. Mestre.</p>
<p>Por fim, só levantando a bola e deixando pra vocês cortarem, que aula de marketing político, hein? Mais atual, impossível.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Monteiro Lobato</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 22:46:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Já está de noite, eu não tinha tido tempo de vir aqui ainda, e estava &#8211; confesso &#8211; sem a menor ideia de qual trecho usar hoje. Tá certo que eu tenho uma fila de livros, entre os meus e as sugestões de vocês, que dá pra ficar fazendo essa coluna até o final do ano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já está de noite, eu não tinha tido tempo de vir aqui ainda, e estava &#8211; confesso &#8211; sem a menor ideia de qual trecho usar hoje. Tá certo que eu tenho uma fila de livros, entre os meus e as sugestões de vocês, que dá pra ficar fazendo essa coluna até o final do ano que vem, pelo menos. Mas não é assim, abre o livro ao acaso e copia dois parágrafos. Eu gosto de escolher com cuidado, pescar alguma coisa legal, pensar com carinho a respeito, desdobrar o assunto. E essa semana foi tão apertada de trabalho que eu não tive tempo, sério.</p>
<p>Bom, aí Marido me perguntou assim, meio com cara de quem quer cobrar uma coisa, mas não quer parecer que está cobrando: você ainda vai escrever alguma coisa hoje? Não sei, eu respondi. Tenho que escrever, mas não sei o quê. Então ele me sai com essa pérola, do Monteiro Lobato, que junta duas coisas que eu amo: a cidade e a Língua. Na nossa (ops, dele) edição de capa dura, verde escuro com filigranas douradinhas, de 1962, é o volume 6, que tem <strong>Emília no País da Gramática</strong> e <strong>Aritmética da Emília</strong>. O capítulo chamado <strong>Portugália</strong> começa assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Era uma cidade como todas as outras. A gente importante morava no centro e a gente de baixa condição, ou decrépita, morava nos subúrbios. Os meninos entraram por um desses bairros pobres, chamado o Bairro do Refugo, e viram grande número de palavras muito velhas, bem corocas, que ficavam tomando sol à porta de seus casebres. Umas pemaneciam imóveis, de cócoras, como os índios das fitas americanas; outras coçavam-se.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>-Essas coitadinhas são bananeiras que já deram cacho &#8211; explicou Quindim. Ninguém as usa mais, salvo por fantasia e de longe em longe. Estão morrendo. Os gramáticos classificam essas palavras de Arcaísmos. Arcaico quer dizer coisa velha, caduca.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Então, Dona Benta e Tia Nastácia são Arcaísmos! &#8211; lembrou Emília.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Mais respeito com vovó, Emília! Ao menos na cidade da língua, tenha compostura, está entendendo? &#8211; protestou Narizinho.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O rinoceronte prosseguiu:</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- As coitadas que ficam arcaicas são expulsas do centro da cidade e passam a morar aqui, até que morram e sejam enterradas naquele cemitério, lá no alto do morro. Porque as palavras também nascem, crescem e morrem, como tudo mais.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: left;">Eu não sei se as cidades nascem, crescem e morrem. Ou melhor, não sei se morrem. Tem algumas cidades por aí que, de transformação em transformação, já existem há bem uns 2 ou 3 mil anos. Mas o tema toca num assunto sobre o qual eu penso de vez em quando, que é a segregação. Nas nossas cidades, quais são os arcaísmos, os refugos, que nós tiramos de circulação, expelimos para fora das nossas vistas? Seja porque já deram o que tinham que dar e não servem mais aos nossos modelos de vida modernos e ágeis, seja porque nunca serviram mesmo, são feios, sujos, cafonas, não combinam? A gente pode falar nisso pensando em gente, e pensando em arquitetura, em funções urbanas, o que vocês quiserem. E aí?</p>
<p style="text-align: left;">
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		<title>Cidades Literárias: Italo Calvino</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Jun 2009 14:02:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>As Cidades Invisíveis (Cia das Letras) é um livro muito especial. Nele, Italo Calvino narra os diálogos imaginários entre o viajante Marco Polo, que depois de passar mais de dois anos viajando, chega ao Extremo Oriente, e Kublai Khan, o imperador dos vastíssimos territórios onde o navegador veneziano vai dar os costados. Segundo a História, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As <strong>Cidades Invisíveis</strong> (Cia das Letras) é um livro muito especial. Nele, <strong>Italo Calvino</strong> narra os diálogos imaginários entre o viajante Marco Polo, que depois de passar mais de dois anos viajando, chega ao Extremo Oriente, e Kublai Khan, o imperador dos vastíssimos territórios onde o navegador veneziano vai dar os costados. Segundo a História, a viagem de Marco Polo se passou no século XIII, e ele ficou 17 anos na corte de Khan.</p>
<p>Em 1972, Calvino escreve esse livro estranho e belo, no qual Kublai Khan, triste porque não tinha como ver toda a extensão de seus domínios infindáveis, pede a Polo que lhe conte as maravilhas vislumbradas.<br />
Segue-se uma coleção de breves e fantásticas &#8211; pelo que têm de fantasia, de onírico &#8211; descrições de cidades imaginárias, todas com nomes de mulher: Diomira, Dorotéia, Cecília, Leônia, Esmeraldina. Todas cidades que escapam do controle, da razão, da medida humana. Suas ruas, seu traçado não podem ser contidos no papel. Eu encontrei <a href="http://br.geocities.com/ciberliteratura/tese/cidades.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/br.geocities.com/ciberliteratura/tese/cidades.htm?referer=');">aqui</a> um texto bem interessante que faz uma resenha mais completa do livro, pra quem tiver curiosidade. Hoje, eu só quis escolher uma delas, Isidora, e apresentar pra vocês:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol, incrustradas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres, sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações&#8221;.</em></p>
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