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	<title>Urbanamente &#187; Rio de Janeiro</title>
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		<title>Mestre Valentim: um filme, uma conversa, uma cidade</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Apr 2011 21:18:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos de e-mails que eu escrevi há algum tempo, e nos quais me estendi além da conta em assuntos sobre os quais algum pobre coitado me perguntou alguma coisa, sem imaginar que eu desembestaria a falar como um bonde sem freio.</p>
<p>Mas qual o problema?, você pode me perguntar. É que no meu traço obsessivo, eu sempre acho que o texto precisa de uma melhorada, uma atualizada, uma revisada. Eu tenho que inserir links, fontes, imagens. E essa é a parte que demora. Daí me dá preguiça, ou eu me enrolo com prazos mais urgentes, e vou sempre me prometendo escrever no próximo final de semana. Por vício acadêmico, se bobear, eu inseriria inclusive as notações bibliográficas, até que a <a href="http://www.gatomia.com/" target="_blank"><strong>Dedéia</strong></a> me lembrou que isso aqui é um blog, não uma revista científica.</p>
<p>Semana passada me aconteceu uma coisa que eu achei muito legal. Eu cheguei a dizer por telefone, a uma amiga, que não iria divulgar as ideias que me ocorreram depois deste evento, enquanto a gente não amadurecesse e formatasse melhor os planos que nos ocorreram, mas eu não resisto. Então vou falar um pedacinho, sobretudo para não perder o entusiasmo e para repartir um pensamento ou dois, que eu já mencionei aqui, mas que eu gosto de reforçar.</p>
<p>No início do semestre, apareceu uma moça lá no Departamento de Urbanismo da <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank"><strong>FAU</strong></a> (FAU é Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a unidade da UFRJ em que eu trabalho), falando alguma coisa sobre estar fazendo um documentário sobre <a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/mestre-valentim" target="_blank"><strong>Mestre Valentim</strong> </a>(já explico quem foi), e gostaria de saber se algum professor poderia dar um depoimento a respeito. Alguma coisa assim, sem mais detalhes. O secretário do departamento, muito solícito, anotou os dados da moça e encaminhou em e-mail para os professores, contando a história e pedindo que algum de nós entrasse em contato com ela, se quisesse saber mais. Eu achei interessante e escrevi. Queria saber do que se tratava exatamente, qual o objetivo, se era uma produção independente ou se estava vinculada a um programa para alguma tv, quem estava produzindo, essas coisas.</p>
<p>A moça foi tremendamente gentil e profissional, me respondeu em seguida, agradeceu o contato, deu todas as explicações. É um trabalho acadêmico, de uma turma que estuda <a href="http://portal.estacio.br/cursos/graduacao.aspx?query_curso=Cinema" target="_blank">Cinema</a> na <a href="http://portal.estacio.br/" target="_blank">Faculdade Estácio de Sá</a>, para uma disciplina chamada Documentário II. A professora deu algumas alternativas de temas, o pessoal escolheu esse e eles têm que apresentar no final do semestre. Fizeram uma pesquisa preliminar (ela me encaminhou o roteiro que eles estavam seguindo, com alguns dados levantados e eu achei tudo bastante pertinente), e estavam em busca de profissionais que topassem gravar entrevistas sobre a vida e a obra deste que foi um dos maiores mestres-artesãos do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII. Expliquei a ela que minha área era de História, de Urbanismo. Eu não saberia fazer crítica de arte sobre o trabalho dele, mas poderia, se ela achasse válido, falar sobre a cidade naquele momento, as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e urbanas do Rio de Janeiro no qual Mestre Valentim viveu e atuou. Ela gostou e nós marcamos a data. Foi quarta passada, num recanto agradabilíssimo do Jardim Botânico. A equipe, pequena e afiada, me deixou muito à vontade e acabou sendo um papo delicioso, espero realmente ter contribuído para que eles apresentem um trabalho bacana. Eu não entendo tanto de cinema, mas sei que eles gravaram entrevistas com outras pessoas, fizeram tomadas com imagens variadas das diversas <a href="http://historicidadecultural.blogspot.com/2009/10/obras-de-mestre-valentim.html" target="_blank"><strong>obras do Mestre Valentim</strong></a> espalhadas pela cidade, e agora eles precisam juntar tudo isso, editar, montar, sonorizar, sei lá mais o quê, e que leva um tempo pra ficar pronto. Eles me disseram que eu vou ganhar um dvd com o documentário pronto, deve ser lá pra julho, eu fiquei toda boba e feliz.</p>
<p>Mesmo falando sobre um assunto que faz parte do conteúdo das minhas aulas, é claro que eu fui dar uma estudada antes, ler alguma coisa a mais, pra não fazer feio. Eu sei um bocadinho sobre o panorama do Rio naquela época, sei alguns nomes e datas de tanto ler e repetir semestre após semestre, conheço a contribuição do Mestre Valentim para a cidade, mas não sabia muita coisa sobre a biografia dele. Descobri coisas interessantíssimas, que me puseram pra pensar e fazer outras conexões e suposições.</p>
<p>Pra esse post não ficar muito comprido, eu prometo que faço outro, em seguida, só sobre isso. O que eu queria mesmo, agora, é falar do que eu pensei <strong>depois</strong> da gravação.</p>
<p>Eu fiquei tendo mil ideias. Não, não vou contar todas agora, mas me deu vontade, por exemplo, de fazer uma exibição do documentário para os alunos de Arquitetura, na FAU. A galera de Cinema adorou e topou na hora. Dá pra desdobrar um monte de coisas a partir daí. Os alunos de arquitetura estudam isso. Eles falam sobre Mestre Valentim nas aulas de História da Cidade, nas aulas de História da Arte e da Arquitetura (o cara deixou um legado precioso em esculturas e talhas barrocas em várias igrejas do Centro do Rio), nas aulas de Paisagismo. Foi ele que desenhou e fez o <a href="http://www.passeiopublico.com/index2.htm" target="_blank">Passeio Público do Rio</a>. É verdade que o Passeio que está lá, hoje, não tem mais o traçado original de Mestre Valentim, e é fruto de uma reforma feita pelo paisagista francês <a href="http://www.casaruibarbosa.gov.br/glaziou/" target="_blank">Auguste-Marie Glaziou</a>, em meados do século XIX, seguindo já outros princípios filosóficos e projetuais, conforme a moda dos jardins românticos ingleses da época, em contraste com os jardins barrocos predominantes no século XVIII. Mas aquela área ali, entre a Cinelândia e a Lapa, era uma lagoa fétida até 1770, a Lagoa do Boqueirão, local de depósito de lixo e acúmulo de mosquitos, quando o vice-rei, D. Luís de Vasconcelos, resolve aterrá-la para transformar a área em um jardim, e é o mestre Valentim que projeta e executa o primeiro jardim público do Brasil.</p>
<p>O que me encantou nesse projeto foi algo que, como eu disse no início do texto, eu já falei aqui neste blog outras vezes. Me encanta e me interessa o amor pela cidade. Pela<span style="text-decoration: underline;">s</span> cidade<span style="text-decoration: underline;">s</span>, como produto humano, como construção e processo. E dentro disso, claro, pela minha cidade, tão linda, tão rica, tão cheia de possibilidades pouco exploradas. Me fascinam iniciativas como esta, de jovens que querem falar sobre a cidade, sua história, seus personagens, seu legado. A gente só ama e só dá valor àquilo que conhece. Como falar em preservação de patrimônio se só meia dúzia de estudiosos sabe o que significa determinado monumento ou pedaço da cidade? É preciso que as pessoas comuns, todas as pessoas, se interessem por conhecer, discutir, que sintam a cidade como sua, aquele cantinho, aquele bairro, aquela praça, aquele prédio meio em ruínas. Só assim elas vão defender esses lugares e objetos da sanha especulativa que tudo destrói em nome do lucro rápido.</p>
<p>Eu às vezes ouço com dó e profunda discordância alguns técnicos e profissionais, não apenas na minha área, de arquitetura e urbanismo, mas em algumas outras também, falando como se tivessem o monopólio do direito ao discurso sobre a cidade. Como se fossem os detentores de um saber que os coloca acima dos pobres mortais, do cidadão comum, coitado, que não sabe nada e só fala bobagem (e vamos combinar que especialistas vira e mexe falam bobagens também, eu já ouvi algumas bem constrangedoras).</p>
<p>Eu não quero com isso desqualificar o saber técnico-acadêmico e nivelar toda a conversa pelo senso comum. O que eu penso é que há percepções e instrumentos de análise diferentes, que se complementam e enriquecem. O pesquisador se debruça sobre autores variados, documentos, reflete, supera visões cristalizadas, escreve montes de páginas em artigos e teses que, muitas vezes, só outros pesquisadores como ele vão ler, se ele tiver sorte pra tanto. As pessoas em geral (e os próprios pesquisadores, que também são pessoas em geral, que vão à padaria, andam de ônibus e frequentam bares) vivem a cidade, seu cotidiano, suaz mazelas. As pessoas todas – médicos, executivos, economistas, motoristas de ônibus, donas de casa, mendigos, aposentados, estudantes, vocês entenderam – constroem esse objeto-cidade, todos os dias. Têm queixas, demandas, reivindicações, preferências, prazeres, memórias. Elas conferem significados, afetos, estabelecem vínculos com certos lugares e práticas, criam relações sociais e espaciais. As pessoas mudam os lugares e estes mudam as pessoas.</p>
<p>Por que não prestar atenção a isso, não ouvir com atenção, não considerar? Por que os projetos que vão incidir sobre as cidades, interferir na vida das pessoas, alterar paisagens e rotinas, precisam ser concebidos em âmbitos exclusivamente técnicos e políticos, sem incorporar a participação efetiva dos interessados? Não apenas uma consultinha do tipo “vocês querem que ponha a praça aqui ou ali?”, mas uma participação de verdade, uma troca, um protagonismo. Tudo bem, eu sei a resposta para estas perguntas, mas não me conformo com elas e não gostaria que minhas indagações ficassem no campo da retórica. Participar nas decisões implica em assumir co-responsabilidades pelo que será feito e suas consequências, e estimula cuidados maiores do que os que a gente costuma ter com coisas que simplesmente nos são dadas ou impostas.</p>
<p>De novo. Comecei querendo falar de uma coisa e acabei enveredando por outra. Só pra resumir então. Eu fiquei felicíssima com o convite, emocionada com o carinho e empenho com que o trabalho está sendo realizado, e quero expressar publicamente o quanto valorizo e prezo essas iniciativas, que tendem a atingir muito mais gente e dar muito mais resultado em termos de preservação de patrimônio e discussão sobre a cidade do que mil palestras em congressos. Acho a troca interdisciplinar (e interinstitucional) fundamental para arejar ideias e acredito que sempre temos muito para aprender uns com os outros. Depois conto pra vocês o que aprendi com esta experiência.</p>
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		<title>Você quer MESMO que a polícia seja honesta?</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Feb 2011 00:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está <a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/luiz-eduardo-soares-a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html" target="_blank">aqui</a>, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, porque sei que muita gente tem preguiça de clicar em link <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://g1.globo.com/Eleicoes2008/0,,MUL784487-15693,00-MILITARES+REMOVEM+BARRICADAS+DO+TRAFICO+NO+ALEMAO+E+VILA+CRUZEIRO.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-953" title="VilaCruzeiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro1-300x187.jpg" alt="" width="300" height="187" /></a>Antes, deixa eu dizer. Eu fiquei um bocado impressionada quando a polícia tomou a Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão em novembro. Não pela ação em si, mas por um conjunto de fatores. Primeiro que, coincidentemente, eu estou propondo estudar estratégias de planejamento e de projeto urbano exatamente naquela área do subúrbio da Leopoldina, pegando os bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, e estava ali, aos 45 do segundo tempo, escrevendo o projeto, quando o conflito todo se armou, colocando aquela área sob intenso holofote. Mas principalmente porque, independente de apoiar a presença do Estado nas comunidades mais pobres (e Estado é MUITO MAIS que segurança e policiamento), achei a cobertura toda muito &#8220;espetaculosa&#8221;, muito teatral, como que jogando uma cortina de fumaça sobre questões mais profundas, mas estruturais e mais incômodas, que precisam ser debatidas com urgência. Eu só não sei (?) se há interesse nisso.</p>
<p>Aí, uns dias depois, li este artigo e achei que tem bastante coisa boa aí para ser pensada e conversada. Acho que partilhei com alguns amigos na época, mas não pus aqui e acho que é o caso de retomar a discussão. Neste momento, estamos de novo, pela <em>enésima</em> vez, com o tema da corrupção policial e da &#8220;banda podre&#8221; nas manchetes dos jornais aqui no Rio, e o artigo fala disso também, e bem. Eu podia fazer um blog inteirinho só sobre esse assunto, com postagens diárias por muitos anos &#8211; política de segurança, polícia, tráfico, violência &#8211; e não chegaria perto de esgotá-lo. Mas não posso deixar de frisar duas coisas:</p>
<p><a href="http://www.guiame.com.br/v4/79646-1696-Cantora-gospel-se-voluntaria-em-quot-Ocupa-o-Cultural-quot-da-Vila-Cruzeiro.html"><img class="alignright size-full wp-image-954" title="VilaCruzeiro3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro3.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>1) Como eu disse lá no <a href="http://primeirafonte.blogspot.com/2011/01/correspondencia-urbana.html" target="_blank">Primeira Fonte</a>, eu sonho com uma cidade em que a segurança é corolário de um estado de justiça social, e não locomotiva da ação do Estado. Todo mundo diz isso, mas é difícil colocar na prática: não basta tirar os traficantes e instalar delegacias, quartéis, UPPs. Tem que ter escola, creche, posto de saúde, saneamento, luz, água, telefone, transporte, lazer, comércio, praças. Tem que ter oportunidade real de melhoria de vida, emprego, casa digna, ser tratado com respeito. A segurança vem a reboque. Eu sei que em situações extremas, é preciso cuidar prioritariamente de desfazer a rede da bandidagem, mas se o resto não vier em seguida, não adianta de nada. Daqui a pouco está tudo como antes. Só vigilância, blitz e ações assistenciais não dão conta.</p>
<p>2) Sobre o título do post. Eu li o que eu vou falar agora em algum lugar, mas não guardei e por isso não encontrei a fonte para colocar aqui. Mas a grande questão é que quando a gente vê um monte de vozes se levantando para criticar a corrupção policial, principalmente vozes da &#8220;boa sociedade&#8221;, da nossa ilibada classe média (da qual sou parte, não me esquivo), a gente deve se perguntar com sinceridade: nós queremos MESMO uma polícia honesta, que não corrompa e não seja corrompida? Porque não tem mais ou menos nisso.</p>
<p><a href="http://www.omelhordaweb.com.br/piadas/pagina_imagens.php?cdImagem=40"><img class="alignleft size-medium wp-image-956" title="propina" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/propina1-300x254.jpg" alt="" width="300" height="254" /></a></p>
<p>Não dá pra ser duro e inflexível na favela, e aliviar a barra do cidadão bacana que foi pego com documento vencido, aceitar uma cerveja pra não multar a criatura que estacionou em fila dupla pra deixar o filho na escola (ô, seu guarda, libera aí, é rapidinho!), trocar a multa por excesso de velocidade por 50 pratas e uma advertência faz-de-conta. Nós tentamos driblar a lei todos os dias, mas só com delitos insignificantes. Afinal, nós somos pessoas de bem, pagamos nossos impostos, tem coisa muito mais grave para a polícia se preocupar por aí, em vez de perder tempo com essas mixarias. Todos os dias os jornais têm alguma notícia sobre pais que vão à delegacia liberar seus filhos que atropelaram alguém porque estavam dirigindo bêbados, ou que foram pegos com drogas numa festa ou brigando numa boate, ou espancando uma prostituta ou um gay. Mas afinal, eles são jovens, estudam, são bons meninos, estavam só brincando, quem é que nunca fez suas artes por aí, não justifica tanto rigor, enquanto os bandidos de verdade estão soltos. Uma cesta básica e estamos conversados.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-959" title="VilaCruzeiro2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></a>Estamos dispostos a ter uma polícia realmente comprometida com o cumprimento da lei, igualmente, para todos? Que não vai aliviar nossos insignificantes delitos de cidadãos de bem? Ou continuamos preferindo nos enganar de que é possível (e desejável) ter uma polícia que sabe &#8220;distinguir as coisas&#8221; e quebra o nosso galho mas não amolece com vagabundo? Porque, pra mim, é tudo uma coisa só. O problema é sistêmico, estrutural. Leiam o Luiz Eduardo Soares que é melhor:</p>
<p><strong>LUIZ EDUARDO SOARES: A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO</strong><br />
quinta-feira, 25 de novembro de 2010</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.</p>
<p>Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.</p>
<p>(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?</p>
<p>(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</p>
<p>Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.</p>
<p>Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.</p>
<p>Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?</strong></p>
<p>Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia.  Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?</p>
<p>Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.</p>
<p>A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.</p>
<p>A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.</p>
<p><strong>(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?</strong></p>
<p>Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.</p>
<p>Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.</p>
<p>Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.</p>
<p>Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.</p>
<p>O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.</p>
<p>É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.</p>
<p><strong>(c) O Exército deveria participar?</strong></p>
<p>Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.</p>
<p>E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.</p>
<p><strong>(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?</strong></p>
<p>Claro. Mais uma vez.</p>
<p><strong>(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</strong></p>
<p>Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>Palavras Finais</strong></p>
<p>Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.</p>
<p>As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.</p>
<p>A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.</p>
<p>O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.</p>
<p>Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.</p>
<p>Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?</p>
<p>As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.</p>
<p>A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.</p>
<p>A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.</p>
<p>E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.</p>
<p>Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.</p>
<p>Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.</p>
<p>O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.</p>
<p>Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Não há mentiras nem verdades aqui</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/11/25/nao-ha-mentiras-nem-verdades-aqui/</link>
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		<pubDate>Fri, 26 Nov 2010 02:02:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Dia esquisito, esse, na Cidade Maravilhosa (com ironia, por favor. Não no esquisito. No &#8220;maravilhosa&#8221;).</p>
<p>E aí eu ouvi isso. Na voz e na interpretação insuperáveis de Cássia Eller. Tipo, totalmente continuação do que escrevi ontem. Resumo de tudo.</p>
<p>E viva Renato Russo que escreveu mais essa letra maravilhosa:</p>
<p>MÚSICA URBANA 2</p>
<p>Em cima dos telhados as antenas de TV [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dia esquisito, esse, na <em>Cidade Maravilhosa</em> (com ironia, por favor. Não no esquisito. No &#8220;maravilhosa&#8221;).</p>
<p>E aí eu ouvi<a href="http://www.youtube.com/watch?v=fJjJ1A1PVcc&amp;list=PLF56C2AF73BAD297E&amp;index=12" target="_blank"> isso</a>. Na voz e na interpretação insuperáveis de Cássia Eller. Tipo, totalmente continuação do que escrevi ontem. Resumo de tudo.</p>
<p>E viva Renato Russo que escreveu mais essa letra maravilhosa:</p>
<p><strong>MÚSICA URBANA 2</strong></p>
<p>Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,<br />
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres cantam música urbana,<br />
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -<br />
É só música urbana.</p>
<p><strong>Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana</strong><br />
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana.<br />
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.</p>
<p>O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto parece música urbana.<br />
E a matilha de crianças sujas no meio da rua: música urbana.<br />
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.</p>
<p>Os uniformes, os cartazes<br />
Os cinemas e os lares<br />
<strong>Nas favelas, coberturas<br />
Quase todos os lugares.</strong><br />
E mais uma criança nasceu.</p>
<p><strong>Não há mentiras nem verdades aqui<br />
Só há música urbana.</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Para o dia de hoje</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2010 05:44:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Da minha série de fichamentos. Contextualizações e debates a partir da semana que vem. Por enquanto, fiquem com Zygmunt Bauman, Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000</p>
<p>Na página 51:
&#8220;Na sua forma pura e bruta, o medo existencial que nos torna ansiosos e preocupados é incontrolável, intratável e portanto incapacitante. A única maneira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Da minha série de fichamentos. Contextualizações e debates a partir da semana que vem. Por enquanto, fiquem com <strong>Zygmunt Bauman</strong>, <em>Em busca da política</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000</p>
<p><strong>Na página 51:</strong><br />
&#8220;<span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na sua forma pura e bruta, o medo existencial que nos torna ansiosos e preocupados é incontrolável, intratável e portanto incapacitante. A única maneira de suprimir essa verdade horripilante é dividir o grande medo esmagador em pedacinhos menores e controláveis – reformular a grande questão (sobre a qual nada podemos fazer) num conjunto de pequenas tarefas “práticas” que podemos esperar realizar.  Nada acalma mais o ser pavoroso que não conseguimos erradicar do que se preocupar e “fazer algo” a respeito do problema que podemos enfrentar.&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na página 56:</span></span></span></span></strong><br />
<span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">&#8220;Transferir a ansiedade da insegurança e da instabilidade globais, suas verdadeiras causas, para o campo da segurança privada é seguir no fundamental a mesma lógica. Ameaças à segurança, reais ou imaginárias, têm a vantagem de serem concretas, visíveis e palpáveis – vantagem que é encimada e reforçada por outra: a da relativa facilidade de confrontá-las e talvez até derrotá-las. Não admira que essa transferência seja tão comum; não admira também que em consequência, as preocupações populares com segurança, apelidada “a lei e a ordem”, reduzam o interesse popular com os mecanismos produtivos da insegurança e da incerteza e a vontade popular de interromper ou pelo menos refrear sua operação&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na página 59:</span></span></span></span></strong><br />
<!-- p { margin-bottom: 0.08in; }a:link { color: rgb(0, 0, 255); } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">&#8220;O problema é que o clima difuso e generalizado de insegurança e vulnerabilidade que emana desse mundo polifônico, opaco e imprevisível torna simplesmente impossível o mapeamento claro e inequívoco da experiência e a emissão de juízos confiantes; de modo que ele solapa a própria noção de comportamento desviante.</span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">(&#8230;) Hoje, o crime já não é estigmatizado e condenado como uma ruptura da norma, mas como ameaça à segurança. (&#8230;) Podemos perceber uma tendência geral de “deslocar todas as questões públicas para a área do direito penal”, uma tendência a criminalizar os problemas sociais e particularmente aqueles que consideramos – ou que podem ser construídos como – capazes de afetar a segurança da pessoa, do corpo ou da propriedade&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Pobre Rio de Janeiro. O buraco é tããão mais embaixo&#8230;.</span></span></span></span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-small;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;"><br />
</span></span></span></span></p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; }a:link { color: rgb(0, 0, 255); } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #ff0000;"><em> </em></span></span><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #ff0000;"><br />
</span></span></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pensamentos (nem tão) soltos na madrugada</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/11/18/pensamentos-nem-tao-soltos-na-madrugada/</link>
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		<pubDate>Thu, 18 Nov 2010 05:18:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Três horas da manhã e estou eu aqui trabalhando. Acabo de ler isso, e tive vontade de colar aqui:</p>
<p>Uma cidade é uma cidade. Ela é feita à imagem e semelhança de nosso sangue mais secreto.
Uma cidade não é um diamante transparente. Ela espelha, palmo a palmo, o mundo dos homens, suas contradições, abusões, virtudes e desterros.
Milímetro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Três horas da manhã e estou eu aqui trabalhando. Acabo de ler isso, e tive vontade de colar aqui:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Uma cidade é uma cidade. Ela é feita à imagem e semelhança de nosso sangue mais secreto.<br />
<span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Uma cidade não é um diamante transparente. Ela espelha, palmo a palmo, o mundo dos homens, suas contradições, abusões, virtudes e desterros.<br />
<span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Milímetro por milímetro. A mão do homem em toda parte. No asfalto. No basalto domado. Na pedreira. Nos calçadões. Na rua, onde os veículos veiculam o nosso exaspero e desespero.<br />
<span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Uma cidade nos revela. Nos denuncia naquilo que escondemos.<br />
<span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Construímos nossa cidade. Somos construídos por ela.</span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Hélio Pellegrino.<br />
Retirado do livro <strong>Favela, alegria e dor na cidade</strong>, de Jailson de Souza e Silva e Jorge Luiz Barbosa. Editora Senac Rio, 2005.<br />
</span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>A rua, a ordem e a desordem</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/11/15/a-rua-a-ordem-e-a-desordem/</link>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 17:34:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[ruas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma matéria que li no jornal ontem, e de um vídeo bizarro que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/13/prefeitura-anuncia-nova-etapa-do-choque-de-ordem-com-unidades-ao-estilo-das-upps-923021204.asp" target="_blank">matéria que li no jornal ontem</a>, e de um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=rWwEaTYddOo" target="_blank">vídeo bizarro</a> que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda de Choque de Ordem &#8211; da forma como é colocada &#8211; sempre me soa tremendamente fascista. Eu fico só lembrando de uma música que eu adoro, dos Titãs (me perdoem os mais novos, mas pra mim, é do tempo em que os Titãs realmente prestavam), chamada Desordem (1987). Um pedacinho da letra aqui, e o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=nIuVVjavUNY" target="_blank"> vídeo</a> pra vcs assistirem, lembrarem, aprenderem e cantarem.</p>
<p><strong><em>É seu dever manter a ordem,<br />
É seu dever de cidadão,<br />
Mas o que é criar desordem,<br />
Quem é que diz o que é ou não?</em></strong></p>
<p>Esses dias, em sala de aula, conversando com os alunos sobre o zoneamento estrito e a funcionalização da cidade proposta pelo movimento modernista (especialmente a Carta de Atenas, no contexto dos CIAM &#8211; Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), que dividia as funções da cidade (e portanto sua especialização espacial) em habitação, trabalho, circulação e lazer, falávamos de como a rua, nesse momento de início de século XX, foi demonizada como lugar da desorganização, do tumulto, da sujeira, da promiscuidade. Para estes teóricos, a função primordial da rua era a de circulação. e isso fazia tremendo sentido diante do surgimento do automóvel, instrumento que subverteria as noções de velocidade, de tempo, de mobilidade, de conforto e que &#8211; acreditavam muitos &#8211; seria em breve, por força da industrialização e do barateamento dos custos em função da produção em massa, acessível a todos. Nunca mais precisaríamos andar a pé.</p>
<p>Eu perguntei aos alunos o que eles achavam especificamente de reduzir a função da rua à circulação, e que outras coisas eles conseguiam lembrar e mencionar com sendo atos que se realizam na rua. Foi uma verdadeira festa. Tanta coisa legal que eles lembraram. E vocês, o que acham da rua?</p>
<p>Os trechos a seguir foram retirados do livro <strong>A Revolução Urbana, de Henri Lefebvre.</strong> O original foi escrito em 1970, a minha edição é da Editora UFMG, 1999 (pp 29 e 30). Logo no capítulo I, em que ele explica o conceito de sociedade urbana com que trabalha no livro, ele elenca alguns argumentos que foram desenvolvidos a favor da rua e contra a rua, dentro dos variados modelos teóricos e ideológicos do campo do urbanismo. Meu convite a vocês é: tendo como pano de fundo:</p>
<p>a) a sua própria experiência de passagem ou vivência de rua, contando com as dúvidas e inquietações trazidas pelas questões contemporâneas de violência e insegurança;</p>
<p>b) a leitura e reflexão sobre o discurso de ordem urbana embutido em projetos como o Choque de Ordem proposto pela prefeitura do Rio (e quaisquer projetos correlatos em outras cidades que vocês queiram partilhar);</p>
<p>Como vocês vêem, sentem e se posicionam diante dos argumentos levantados neste texto?</p>
<p>&#8220;A FAVOR DA RUA:</p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Não se trata simplesmente de um lugar de passagem e circulação. A invasão dos automóveis e a pressão dessa indústria, isto é, do lobby do automóvel, fazem dele um objeto-piloto, do estacionamento uma obsessão, da circulação um objetivo prioritário, destruidores de toda vida social e urbana. Aproxima-se o dia em que será preciso limitar os direitos e poderes do automóvel, não sem dificuldades e destruições.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? É o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis nos lugares determinados (cafés, teatros, salas diversas). Esses lugares privilegiados animam as ruas e são favorecidos por sua animação, ou então não existem. Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação estipulada e imobilizada. Quando se suprimiu a rua (desde Le Corbusier, nos “novos conjuntos”), viu-se as consequências: a extinção da vida, a redução da “cidade” a dormitório, a aberrante funcionalização da existência. A rua contém as funções negligenciadas por Le Corbusier: a função informativa, a função simbólica, a função lúdica. Nela joga-se, nela aprende-se.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua é a desordem? Certamente. Todos os elementos da vida urbana, noutra parte congelados numa ordem imóvel e redundante, liberam-se e afluem às ruas e por elas em direção aos centros; aí se encontram, arrancados de seus lugares fixos. Essa desordem vive. Informa. Surpreende. Além disso, essa desordem constrói uma ordem superior. Os trabalhos de Jane Jacobs mostraram que nos Estados Unidos, a rua (movimentada, frequentada) fornece a única segurança possível contra a violência criminal (roubo, estupro, agressão). Onde quer que a rua desapareça, a criminalidade aumenta, se organiza. Na rua, e por esse espaço, um grupo (a própria cidade) se manifesta, aparece, apropria-se dos lugares, realiza um tempo-espaçȯ apropriado. Uma tal apropriação mostra que o uso e o valor de uso podem dominar a troca e o valor de troca. Quanto ao acontecimento revolucionário, ele geralmente ocorre na rua (em caso de ameaça, a primeira imposição do poder é a interdição à permanência e à reunião na rua). Isso não mostra também que sua desordem engendra uma outra ordem? </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">O espaço urbano da rua não é o lugar da palavra, o lugar da troca pelas palavras e signos, assim como pelas coisas? Não é o lugar privilegiado no qual se escreve a palavra? Nde ela pôde tornar-se “selvagem”  e inscrever-se nos muros, escapando das prescrições e instituições?</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">POR OUTRO LADO:</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Os encontros nas ruas são superficiais. A rua não permite a constituição de um grupo, de um “sujeito”, mas se povoa de um amontoado de seres em busca. O mundo da mercadoria desenvolve-se na rua. A mercadoria que não pôde confinar-se nos lugares especializados, os mercados, praças, invadiu a cidade inteira. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? Uma vitrine, um desfile entre as lojas. A mercadoria, tornada espetáculo (provocante, atraente), transforma as pessoas em espetáculo umas para as outras. Nela, mais que noutros lugares, a troca e o valor de troca prevalecem sobre o uso, até reduzí-lo a um resíduo. De tal modo que a crítica da rua deve ir mais longe: a rua torna-se o lugar privilegiado de uma repressão, possibilitada pelo caráter “real” das relações que aí se constituem, ou seja, ao mesmo tempo débil e alienado-alienante.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua converteu-se em rede organizada para/pelo consumo. A velocidade da circulação de pedestres é aí determinada e demarcada pela possibilidade de perceber as vitrines, de comprar os objetos expostos. O tempo torna-se o tempo-mercadoria, a rua o submete ao mesmo sistema, o do rendimento e do lucro. A rua, série de vitrines, exposição de objetos à venda, mostra como a lógica da mercadoria é acompanhada de uma contemplação (passiva) que adquire o aspecto e a importância de uma estética e de uma ética. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">É assim que se pode falar de uma “colonização” do espaço urbano, que se efetua na rua pela imagem, pela publicidade, pelo espetáculo de objetos. A uniformização do cenário, visível na modernização das ruas antigas, reserva aos objetos (mercadorias) os efeitos de cores e formas que os tornam atraentes. Trata-se de uma aparência caricata de apropriação e de reapropriação do espaço que o poder autoriza quando permite a realização de eventos nas ruas: carnaval, bailes, festivais folclóricos. Quanto à verdadeira apropriação, a da “manifestação” efetiva, é combatida pelas forças repressivas, que comandam o silêncio e o esquecimento&#8221;. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">E aí?<br />
</span></span></span></p>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Desculpa esfarrapada, de novo.</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/04/25/desculpa-esfarrapada-de-novo/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Apr 2010 15:13:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[problemas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-771" title="caos1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1-300x191.jpg" alt="" width="300" height="191" /></a>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto faz. Foi uma sucessão de erros grossos e teve uma lista de consequências danosas à cidade como um todo, além de desnudar, mais uma vez, o despreparo dos nossos governantes para administrar a cidade, começando pelo argumento estapafúrdio de que <a href="http://www.sidneyrezende.com/noticia/83034+nao+dimensionamos+direito+o+evento+diz+cet+rio+sobre+caos+no+dia+do+culto" target="_blank">dimensionaram mal a proporção do evento</a>, passando pelo desencontro de informações e o repetitivo empurra-empurra de responsabilidades e terminando com o <a href="http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20100421180756&amp;assunto=40&amp;onde=Brasil" target="_blank">pedido de desculpas</a> (de novo) patético do prefeito, com a promessa vã de que “não vai acontecer de novo”. Pode começar lendo <a href="http://noticias.terra.com.br/transito/interna/0,,OI4397530-EI11777,00-Edir+Macedo+diz+que+megaevento+religioso+no+RJ+se+repetira.html" target="_blank"><strong>aqui</strong></a> a bravata do Sr. Edir Macedo, que desafia a cidade e as autoridades impunemente, sabendo do poder de fogo que tem. Leia-se aí, com todas as letras, poder político, além do econômico.</p>
<p>Aliás, parênteses. Não é novidade pra ninguém, mas eu vou deixar bem claro que não há a mais remota possibilidade de eu vir a votar no Serra nem pra síndico de prédio, que dirá pra presidente. Não voto e faço campanha contra. Mas quando eu vejo o PT negociando apoio com Garotinho ou Crivella me dá um desespero e uma vergonha tão grandes que chacoalham todas as minhas mais tolerantes convicções. Eu queria mesmo era que o Idelber viesse me explicar por que cargas d&#8217;água, em nome do tabuleiro político-eleitoral, eu devo engolir esse tipo de aliança. Isso é um apelo sincero e numa boa, de quem quer aprender e entender mesmo. Fecha parênteses.</p>
<p>Mas voltando ao nosso feriado. Foi um espetáculo de mídia, ocorreu em várias capitais do país simultaneamente (<a href="http://www.diariosp.com.br/Noticias/Dia-a-dia/4131/Evento+da+Universal+cria+o+caos+no+transito" target="_blank">olha aqui o Diário de São Paulo contando dos 16 km de engarrafamento na Marginal Pinheiros por conta da igreja de lá</a>), e muito mais do que “louvar a Deus”, isso <a href="http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/22/e22046687.asp" target="_blank">só pode ser demonstração de poder em ano eleitoral</a> (pra quem tiver interesse, esse link é de uma matéria no Jornal do Brasil, em que a presidente da Associação de Moradores de Botafogo afirma que o administrador regional da área, Rodrigo Pian, comunicou aos representantes comunitários, durante reunião, que o culto era um acontecimento político, porque &#8220;o prefeito não pode desperdiçar um milhão de votos&#8221;).</p>
<p>Agora, como é que a prefeitura autoriza uma coisa dessas? Baseado no fato de que os organizadores prometeram que só dava 100 mil pessoas e os ônibus iam ficar estacionados nos locais autorizados? Se a Associação de Moradores da minha rua solicitar licença pra fazer uma festinha na praça com 500 pessoas e aparecerem 5.000, infernizando a vida do bairro, quem é que vai pagar o pato? É fácil assim? Eu digo um número, a prefeitura engole e depois eu faço o que bem entendo? Se fosse a primeira vez que isso tivesse acontecido, a gente ainda podia dar desconto, mas não é. E não será a última, a julgar pela ameaça do líder da igreja (sim, o que ele fez foi ameaça, no mesmo nível de qualquer bandido que peita a polícia dizendo que vai “barbarizar”).  Bom, depois de tudo que eu acabei de falar essas perguntas ficam até um pouco  sem sentido&#8230;</p>
<p>Além do aspecto abominável mas pontual do trânsito caótico (eu digo pontual porque circunscrito num tempo curto, ainda que inaceitável assim mesmo), há os custos e danos do dia seguinte, com a sujeira deixada e a depredação de árvores do parque. Há o cerceamento do direito das pessoas de circular (porque não só os ônibus regulares quase desapareceram, já que as empresas deslocaram todos para transportar os fiéis, por mais que digam o contrário, mas os poucos que rodavam não conseguiam fazer seus trajetos por causa dos engarrafamentos e obstruções no trânsito); há o cerceamento do direito ao lazer porque as pistas do Aterro, que em dias de feriado deveriam ser espaço público de recreação ficaram tomadas por filas intermináveis de ônibus estacionados irregularmente. Mas sobretudo, ao meu ver, há o desprezo debochado e o desrespeito a qualquer traço de ordem pública, e a sensação de que nossos governantes não têm força, coragem ou interesse para fazer valer a lei. E quando, numa cidade, a população se vê assim abandonada por quem deveria cuidar do bem público, isso abre ou alimenta o precedente perigoso do salve-se quem puder, que agora vale tudo. E isso, sim, é preocupante.</p>
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		<title>Indo além e mais fundo</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Apr 2010 17:35:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[enchente]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o Sakamoto, apontando ainda que “demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">Sakamoto</a>, apontando ainda que <em>“demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”</em>, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de sono, eu gostaria de tentar ir além da questão “nós jogamos lixo na rua e isso entope os bueiros”. Tá, educação é fundamental, mas a gente pode ir mais fundo e analisar questões mais estruturais na nossa cidade. Ponderando, algumas coisas me vieram à cabeça. São reflexões de primeiro momento, eu não aprofundei, não pesquisei dados, mas também não quis deixar passar o instante. Como eu já disse hoje por e-mail pra alguns amigos, a televisão tá cheia de análises altamente instrutivas feitas por todo tipo de especialista. Mas assim que secar tudo e voltar a fazer sol, voltamos à rotina e ninguém fala mais nisso, até a próxima tempestade. Que virá, óbvio.</p>
<ol>
<li>A primeira coisa é que eu tenho 	visto muita gente falando alarmada sobre os efeitos do aquecimento 	global. Não sei disso, não. Pra mim, que não estudo isso e posso 	estar dizendo asneira, e do ponto de vista estrita (e estreitamente) 	relativo da minha curta experiência pessoal, os padrões de mudança 	de estação parecem estar se alterando mesmo. As famosas águas de 	março há algum tempo viraram águas de abril, o verão começa pra 	valer mais tarde e se estica mais, essas coisas. Os arautos da 	catástrofe iminente também anunciam que tudo está ficando mais 	intenso em todo o mundo, terremotos, furacões, tempestades. Numa 	escala de tempo mais &#8230; planetária, digamos assim, eu não saberia 	dizer se é isso mesmo. Vejam bem, eu não estou negando os efeitos 	tantas vezes danosos da ação do homem sobre o equilíbrio de 	forças da natureza, mas acho que a gente devia ver essa questão é 	pelo outro lado. Explico. Eu não sei se (ou quanto) os nossos 	padrões de urbanização e ocupação do solo causam ou 	potencializam esses fenômenos, mas sei que nossos padrões de 	urbanização e ocupação do solo são grandemente responsáveis 	pelas consequências, isto é, pelo fato de nós sofrermos mais cada 	vez que uma chuva como essa acontece.</li>
<li>Eu estou vendo na televisão todo 	mundo falando da ocupação irregular das encostas e do risco que 	isso representa. Calma que chegaremos lá. Mas tem outro aspecto que 	quase ninguém fala, que é o da crescente impermeabilização do 	solo nas nossas cidades.  O ciclo da água prevê que uma parte 	significativa do volume de água que cai do céu precisa retornar ao 	lençol freático, mas a gente vai expandindo as cidades 	indefinidamente, asfaltando, cimentando, e a água não tem como 	escoar, acumulando-se mesmo. Aí quando o Código de Obras 	estabelece parâmetros de construção que limitam a ocupação do 	solo urbano a uma porcentagem da área do lote, eu ouço um monte de 	gente reclamando.  Ah, sim, e <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/11/02/camara-de-vereadores-aprova-peu-das-vargens-914575545.asp" target="_blank">querem expandir a cidade</a>, num padrão 	Barra da Tijuca, lá pros lados de Vargem Grande e Vargem Pequena. 	Afinal, a gente ainda tem muito espaço pra cimentar e cobrir de 	condomínio, shopping e avenidas largas. Não tem galeria de água 	pluvial que dê conta, gente, ponham isso na cabeça.</li>
<li>E já que falamos de ocupação 	irregular das encostas. Aquele noticiário que passa na tv antes da 	novela, com o casal bonitinho fazendo cara de consternado na 	bancada, tava ontem mostrando que grande parte do problema é a 	ocupação irregular  desordenada da cidade, o monte de barraco de 	pobre que se pendura irresponsavelmente nos morros da cidade. Aí 	mostra o governador dizendo que a prefeitura tem que ser dura, 	remover, e que não adianta, porque as pessoas insistem em morar aí 	e voltam pros mesmos lugares assim que pára de chover. Poupe-me. 	Insistem como se elas tivessem muita escolha (“vou morar nesse 	bairro com rede de água e esgoto”, deve dizer a mulher. “Ah, 	não, eu prefiro morar ali em cima naquela encosta bonita”, 	responde o marido). Claro que há ocupação irregular e sobretudo 	desordenada, não tem ninguém aqui defendendo que as pessoas devem 	continuar onde estão, sob risco constante, óbvio que as pessoas 	devem ter lugares dignos e seguros para morar, mas ninguém fala (ou 	não fala o suficiente) que a grande questão é que deve haver uma 	<strong>política habitacional</strong> séria e consistente, e não apenas esforços 	de remoção de meia dúzia na hora que tá tudo vindo abaixo. Como 	diz, de novo, o Sakamoto, <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">“considerando que quando há um problema 	urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um 	lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não 	me importa aonde”, é de se esperar também que a remoção deles 	de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de 	grandes protestos”</a>. <strong>Política habitacional séria, de verdade</strong>. 	Procurem por este item no programa dos candidatos em quem vocês 	pretendem votar esse ano.</li>
<li>Outra coisa que eu não aguento: 	tudo agora será apresentado em termos de glorificar ou culpabilizar 	as pessoas individualmente. É o heroísmo do cara que saiu de sua 	casa pra ajudar a resgatar o pobre-coitado, a solidariedade das 	pessoas que mandam donativos, o conjunto de dramas pessoais de quem 	perdeu casa, sofá, mercadoria, parente. Tudo com imagens impactantes e um fundo musical 	pungente. Tudo fica num plano midiático, fácil de explorar através 	da provocação de empatia ou indignação. Tratar o assunto 	individualmente não é solução.  O todo é muito maior do que a 	costura dos vários casos pessoais. É uma questão de <strong>política 	pública</strong>, de <strong>ação coordenada de planejamento</strong>. E mesmo a política 	habitacional mais extensa e eficiente não vai resolver a questão 	se nós continuarmos produzindo miséria, porque novos pobres e 	novos barracos surgirão. Mas é mais fácil situar o problema – e 	a solução – nos outros. Aí a gente chora, manda uns cobertores 	e mantimentos, bate palma pra coragem dos bombeiros, diz que a culpa 	é do prefeito (ou mesmo de quem joga lixo na rua, que nunca somos 	nós, claro) e pode tocar com a vida.</li>
<li>O Rio de Janeiro tem, sim, uma 	situação geográfica frágil, com o território ocupado por três 	grandes maciços rochosos, entre os quais existem faixas de terra 	estreitas, cuja ocupação, historicamente, se deu &#8211; em extensas áreas, principalmente do Centro da cidade &#8211; através do 	dessecamento de brejos e mangues e da construção de aterros. Isso 	explica muita coisa, mas não justifica. Um outro ponto que eu quero 	levantar pra quem teve paciência de ler até aqui, por exemplo, é como nós 	encaramos e tratamos os rios da cidade. A solução engenheirística 	clássica, há mais de século, é retificar o traçado dos rios e 	encaixotá-los em canais concretados, com avenidas de ambos os lados. 	Canal do Mangue, na Presidente Vargas, Francisco Bicalho, Av. 	Maracanã, Av. Visconde de Albuquerque, Av. Paulo de Frontin, quem 	lembra de mais algum? Tem aos montes. Ou então simplesmente cobrir 	o rio, transformando-o em galeria subterrânea. Alguém lembra que o 	Rio Carioca nasce ali em Santa Teresa e atravessava originalmente 	tudo o que hoje é Cosme Velho e Laranjeiras, para desaguar na Praia 	do Flamengo? Ele continua lá, sob as ruas desses bairros. Os rios e 	cursos d&#8217;água têm , além do seu leito “normal”, o que nós 	chamamos de leito inundável, que também é normal, e que é a 	área, para além de sua margem, sujeita a inundação em 	determinados momentos, por questões de maré ou de ciclos de chuva. 	Mesmo rios saudáveis e sem lixo ou esgoto, transbordam em situações 	extraordinárias e é possível calcular esse volume extra e se 	preparar para ele. Mas a gente não respeita as faixas marginais, 	acha exagero, reclama. Não só a população mais pobre constrói 	suas casas “em cima” dos rios e canais, mas a cidade formal 	também dá as costas aos rios, asfalta suas margens, considera-o um 	entrave. Depois, reclama da violência das águas. Não é o rio que 	é violento e transborda, nós é que somos violentos com o rio ao 	aprisioná-lo em galeria cimentada e não respeitar seus ciclos. Os 	canais viram esgotos e os rios são percebidos como obstáculo, como 	problema urbano. É preciso mudar essa mentalidade e propor 	tratamentos paisagísticos diferentes, projetos que incluam os rios 	de maneira favorável à cidade, ao lazer, e, por que não, ao 	escoamentos das águas de chuva (mas sem fazer ciclovias 	me-engana-que-eu-gosto como essa <a href="http://guaciara.wordpress.com/2010/03/23/a-ciclovia-da-merda/" target="_blank">aqui </a>de São Paulo, por favor).</li>
<li>Por fim e não menos importante, 	nós, definitivamente, temos carros demais nessa cidade. E eles 	foram os protagonistas de diversas manchetes e imagens de desolação. 	São os carros boiando, sendo abandonados, ficando presos em 	engarrafamentos monstruosos, tendo que ser rebocados, cheios de 	lama, no dia seguinte. Eu sei, eu estava de carro também. E embora 	eu estivesse em local relativamente seguro (não fiquei alagada ou 	submersa, não tive que ser resgatada de bote) e seco, minha 	mobilidade era zero. Tá certo, o transporte público também deu um 	nó. É um volume de água, uma intensidade de fenômeno que afeta a 	todos e inviabiliza qualquer deslocamento. Se eu estivesse de 	ônibus, por exemplo, teria ficado mais desconfortável ainda, ou teria 	que colocar meus lindos pezinhos na água imunda se quisesse sair 	dali, mas poderia sair. Ontem mesmo me lembrei ou fui lembrada de 	diversos amigos queridos que moram ali, do lado de onde eu estava, a 	poucos metros mesmo. Se eu estivesse de ônibus, poderia ter descido 	e ido a pé, e teria passado a noite seca e confortável, teria 	jantado, teria abrigo e boa companhia. De carro, precisei ficar 	apegada a este bem material que não podia abandonar no meio da rua 	simplesmente (não, eu não tinha sequer como deixá-lo na calçada, 	eu tava ilhada no MEIO da pista, com carros em toda a minha volta, e 	agarrada à esperança de que a qualquer momento o trânsito fosse 	andar e eu saísse dali). De manhã, as poucas pessoas que se mexiam 	estavam a pé ou de bicicleta.</li>
</ol>
<p>Isso tudo não esgota a questão, longe disso. Não conforta as dores, não repõe o que foi perdido, mas aponta alguns caminhos. A gente precisa começar a pensar nisso e agir.</p>
<p>(nem falei de um outros aspecto importantíssimo que é o fato de que essas chuvas são sazonais, não são novidade pra ninguém, desde sempre o Rio de Janeiro sofre com enchentes e tempestades, deslizamentos e desabrigados, e no entanto, fica sempre todo mundo com cara de “nossa, choveu muuuuito!, eu não esperava”. Conversei sobre isso no telefone ontem de noite com a <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a>, e por sinal, foi ela que levantou essa questão. Ela bem podia escrever sobre isso e sobre como a cidade deve incorporar a estação das chuvas ao calendário, com treinamento para a população, instruções e planejamento. Novamente, o planejamento. Escreve, Monix!)</p>
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		<title>Debaixo d&#8217;água</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 20:19:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>O texto que está aí foi escrito durante a madrugada. São 5 da tarde agora, volta a chover muito forte na cidade, mas eu já estou em casa. Mas de ontem pra hoje foi assim:</p>
<p>São 3 e pouca da manhã. Eu saí de casa às 5 e meia da tarde de ontem para ir trabalhar. Num [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O texto que está aí foi escrito durante a madrugada. São 5 da tarde agora, volta a chover muito forte na cidade, mas eu já estou em casa. Mas de ontem pra hoje foi assim:</em></p>
<p>São 3 e pouca da manhã. Eu saí de casa às 5 e meia da tarde de ontem para ir trabalhar. Num dia comum, nesse horário que é normalmente engarrafado, eu levaria quase uma hora para atravessar os 10 km que separam minha casa, em Botafogo, da faculdade onde dou aula, na Tijuca.</p>
<p>Mas ontem não foi um dia comum. Eu tinha amanhecido meio febril, a gripe que me pegou no fim de semana ia piorando, e eu já tinha cancelado ou faltado a todos os compromissos do dia. Devia ter atendido às sugestões do marido e telefonado pro trabalho pra avisar que não ia dar aula. Mas como eu tinha melhorado ao longo da tarde, o maldito senso de responsabilidade me fez sair de casa.</p>
<p>Às 6 da tarde eu estava chegando na Praça da Bandeira. Chovia forte. Não chegou a ser um temporal daqueles de verão, com raios e trovões, mas era um volume de água consistente e vinha chovendo e parando, chovendo e parando, o dia todo. A Praça da Bandeira é uma região, ali entre o Centro e a Zona Norte da cidade, onde normalmente há enchentes, e eu fiquei feliz de passar enquanto o volume de água não era calamitoso. De toda forma, retornar já estava fora de cogitação. Pensei: &#8220;na pior das hipóteses, a essa altura, eu chego na faculdade e fico por lá até passar, sei lá, umas 10 da noite no máximo eu volto pra casa&#8221;.</p>
<p>Embiquei na rua que acaba em frente ao Instituto de Educação, na rua Mariz e Barros. Dali seriam mais 200 metros até a rua Ibituruna, que já é a rua da faculdade. Detalhe, a faculdade fica no final da Ibituruna, e na esquina passa um canal com o Rio Maracanã. Mas vejam que eu estava na outra ponta da rua, no início. Tudo parado. Água pelo meio da roda do carro. Eram 6 e meia e eu estava na esquina da rua Mariz e Barros com rua Ibituruna, quando deveria estar entrando em sala de aula. Liguei para a coordenação para avisar que já estava perto e que atrasaria, mas que estava chegando. Tsc, tsc, tsc&#8230;</p>
<p>O que eu não sabia é que o rio Maracanã já tinha transbordado e a essa hora a situação já era caótica em toda a cidade. Vou dar marcha a ré, seguir pela Mariz e Barros mais um pouco, até retornar e voltar por outro caminho. Isso é o que eu queria. O mar em que toda aquela região se transformou me deixou presa naquela esquina, porque os carros e ônibus que vinham atrás também já tinham desavisadamente embicado e bloqueado a passagem. E tome água. Se eu abrisse a porta do carro, teria água pelo meu joelho. A rua enchendo e a gente ali, sem conseguir andar pra frente, ou pra trás, ou pra qualquer lado. Não havia como chegar sequer na calçada.</p>
<div id="attachment_758" class="wp-caption aligncenter" style="width: 655px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/enchente.jpg"><img class="size-full wp-image-758" title="enchente" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/enchente.jpg" alt="" width="645" height="137" /></a><p class="wp-caption-text">Imediações da Praça da Bandeira, ali pertinho de onde eu estava</p></div>
<p>Às 8 e meia, quando a minha aula devia estar acabando, sem que tivesse começado, eu entendi que muita gente não devia ter ido também, e liguei de novo, pra avisar que não chegaria mesmo. Só às 11 da noite alguns carros começaram a dar ré, finalmente convencidos que ali não haveria saída tão cedo. O rádio (viva o rádio! E devo dar o crédito, viva a cobertura da <a href="http://bandnewsfm.band.com.br/" target="_blank">BandNews</a>, que acompanhou tudo o tempo todo, com participações dos ouvintes de toda a cidade e região metropolitana) dava notícia de que a cidade estava absolutamente parada. Gente dentro do carro ou do ônibus há mais de quatro horas. Marido tava no aeroporto desde as 7 da noite, esperando um vôo que saiu com mais de 5 horas de atraso. Meu filho saiu da faculdade às 5 da tarde e chegou às 10 da noite em casa, mas chegou, e o outro estava em casa desde cedo, eu estava tranquila quanto a isso. Eles é que estavam preocupados comigo.</p>
<p>Faltava luz em vários bairros; os trens urbanos não funcionavam em toda a rede, por conta de alagamentos que impediram a circulação em alguns ramais; o metrô tinha as estações superlotadas e os trens não conseguiam manter intervalos regulares; os ônibus tinham desligado os motores, e as pessoas desciam para continuar o caminho a pé, nas piores condições imagináveis.</p>
<p>Assim que desobstruiu a via atrás de mim, dei meia volta e achei que finalmente ia andar. Avancei um ou dois quilômetros sem problema nenhum, rumo ao meu plano de descer a Rua Conde de Bonfim em direção ao Estácio para pegar o Túnel Santa Bárbara. Aí, na altura da Praça Saens Pena, ao fazer o retorno, empacou de novo. e é aqui que estou, desde as onze e meia da noite. Nessas quatro horas que se passaram, se eu andei mais 100 metros foi muito. O pessoal que volta a pé, em sentido contrário diz que mais ali na frente, no Largo da Segunda-Feira, está tudo debaixo d&#8217;água, e não passa nem ônibus, nada. Não tem pra onde eu ir. A chuva não parou nem um minuto. diminuiu às vezes, pra depois apertar de novo, numa alternância enervante, que não permite que o nível das águas baixe.</p>
<p>Eu nunca vi ou passei por isso na vida, e não sei por onde começar a tentar entender. É um problema do projeto de macro-drenagem? De infra-estrutura, da instalação da rede de coleta das águas pluviais? A prefeitura não cuida devidamente da limpeza das galerias e bueiros e dragagem dos rios? Somos nós que produzimos lixo demais, e jogamos plásticos e papéis na rua? É um gargalo inevitável por conta da geografia do Rio? É tudo isso junto?</p>
<p>Eu sei que, teoricamente, daqui a duas horas eu devia estar levantando para ir trabalhar de novo. Eu terei muita sorte se tiver chegado em casa daqui a duas horas.</p>
<p><em>Bom, isso foi o que eu escrevi entre 3 e meia e 4 horas da manhã. Claro que não cheguei, vi o dia clarear sem ter arredado nem meio metro da minha posição, e só passei do tal Largo depois das 8. Cheguei em casa às 9 horas, assustada e exausta, depois de ter visto cenas que pareciam de filme americano, desses que retratam o fim do mundo. Lama, lixo, pedaços de pau, trechos fantasmagoricamente desertos onde deveria haver o movimento de início do dia, tampas de bueiro jogadas, carros abandonados ou enguiçados pelo caminho, tudo imundo e abandonado, não havia mais mão ou contramão nas ruas, os carros indo na direção que bem entendiam, fugindo dos becos sem saída e bolsões de água, nenhum guarda ou policial nos cruzamentos, nada. Eu não preciso descrever tudo, porque vocês devem ter visto os noticiários e sabem que o Rio de Janeiro ficou inviável nesta terça-feira. Caos é pouco. </em></p>
<p><em></p>
<div id="attachment_759" class="wp-caption aligncenter" style="width: 680px"><em><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/lixo-transito.jpg"><img class="size-full wp-image-759" title="lixo-transito" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/lixo-transito.jpg" alt="" width="670" height="210" /></a></em><p class="wp-caption-text">Eu passei a madrugada parada assim como nessa imagem, só não foi nessa rua, mas a cena é a mesma. E vi coisas como essas da outra imagem aí do lado.</p></div>
<p></em></p>
<p><em>A idade já não me permite essas extravagâncias, e mesmo tendo dormido um pouco depois que cheguei, estou com muita dor de cabeça e mal-estar. Mas não posso deixar de pensar em quase 80 pessoas terem morrido na Região Metropolitana, nos deslizamentos, nos desabrigados, na repetição desse pesadelo e no fato de que não é possível que isso seja um destino inescapável. </em></p>
<p><em>E chove forte de novo. </em></p>
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