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	<title>Urbanamente &#187; Urbanidades</title>
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		<title>Você quer MESMO que a polícia seja honesta?</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Feb 2011 00:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está aqui, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está <a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/luiz-eduardo-soares-a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html" target="_blank">aqui</a>, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, porque sei que muita gente tem preguiça de clicar em link <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://g1.globo.com/Eleicoes2008/0,,MUL784487-15693,00-MILITARES+REMOVEM+BARRICADAS+DO+TRAFICO+NO+ALEMAO+E+VILA+CRUZEIRO.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-953" title="VilaCruzeiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro1-300x187.jpg" alt="" width="300" height="187" /></a>Antes, deixa eu dizer. Eu fiquei um bocado impressionada quando a polícia tomou a Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão em novembro. Não pela ação em si, mas por um conjunto de fatores. Primeiro que, coincidentemente, eu estou propondo estudar estratégias de planejamento e de projeto urbano exatamente naquela área do subúrbio da Leopoldina, pegando os bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, e estava ali, aos 45 do segundo tempo, escrevendo o projeto, quando o conflito todo se armou, colocando aquela área sob intenso holofote. Mas principalmente porque, independente de apoiar a presença do Estado nas comunidades mais pobres (e Estado é MUITO MAIS que segurança e policiamento), achei a cobertura toda muito &#8220;espetaculosa&#8221;, muito teatral, como que jogando uma cortina de fumaça sobre questões mais profundas, mas estruturais e mais incômodas, que precisam ser debatidas com urgência. Eu só não sei (?) se há interesse nisso.</p>
<p>Aí, uns dias depois, li este artigo e achei que tem bastante coisa boa aí para ser pensada e conversada. Acho que partilhei com alguns amigos na época, mas não pus aqui e acho que é o caso de retomar a discussão. Neste momento, estamos de novo, pela <em>enésima</em> vez, com o tema da corrupção policial e da &#8220;banda podre&#8221; nas manchetes dos jornais aqui no Rio, e o artigo fala disso também, e bem. Eu podia fazer um blog inteirinho só sobre esse assunto, com postagens diárias por muitos anos &#8211; política de segurança, polícia, tráfico, violência &#8211; e não chegaria perto de esgotá-lo. Mas não posso deixar de frisar duas coisas:</p>
<p><a href="http://www.guiame.com.br/v4/79646-1696-Cantora-gospel-se-voluntaria-em-quot-Ocupa-o-Cultural-quot-da-Vila-Cruzeiro.html"><img class="alignright size-full wp-image-954" title="VilaCruzeiro3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro3.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>1) Como eu disse lá no <a href="http://primeirafonte.blogspot.com/2011/01/correspondencia-urbana.html" target="_blank">Primeira Fonte</a>, eu sonho com uma cidade em que a segurança é corolário de um estado de justiça social, e não locomotiva da ação do Estado. Todo mundo diz isso, mas é difícil colocar na prática: não basta tirar os traficantes e instalar delegacias, quartéis, UPPs. Tem que ter escola, creche, posto de saúde, saneamento, luz, água, telefone, transporte, lazer, comércio, praças. Tem que ter oportunidade real de melhoria de vida, emprego, casa digna, ser tratado com respeito. A segurança vem a reboque. Eu sei que em situações extremas, é preciso cuidar prioritariamente de desfazer a rede da bandidagem, mas se o resto não vier em seguida, não adianta de nada. Daqui a pouco está tudo como antes. Só vigilância, blitz e ações assistenciais não dão conta.</p>
<p>2) Sobre o título do post. Eu li o que eu vou falar agora em algum lugar, mas não guardei e por isso não encontrei a fonte para colocar aqui. Mas a grande questão é que quando a gente vê um monte de vozes se levantando para criticar a corrupção policial, principalmente vozes da &#8220;boa sociedade&#8221;, da nossa ilibada classe média (da qual sou parte, não me esquivo), a gente deve se perguntar com sinceridade: nós queremos MESMO uma polícia honesta, que não corrompa e não seja corrompida? Porque não tem mais ou menos nisso.</p>
<p><a href="http://www.omelhordaweb.com.br/piadas/pagina_imagens.php?cdImagem=40"><img class="alignleft size-medium wp-image-956" title="propina" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/propina1-300x254.jpg" alt="" width="300" height="254" /></a></p>
<p>Não dá pra ser duro e inflexível na favela, e aliviar a barra do cidadão bacana que foi pego com documento vencido, aceitar uma cerveja pra não multar a criatura que estacionou em fila dupla pra deixar o filho na escola (ô, seu guarda, libera aí, é rapidinho!), trocar a multa por excesso de velocidade por 50 pratas e uma advertência faz-de-conta. Nós tentamos driblar a lei todos os dias, mas só com delitos insignificantes. Afinal, nós somos pessoas de bem, pagamos nossos impostos, tem coisa muito mais grave para a polícia se preocupar por aí, em vez de perder tempo com essas mixarias. Todos os dias os jornais têm alguma notícia sobre pais que vão à delegacia liberar seus filhos que atropelaram alguém porque estavam dirigindo bêbados, ou que foram pegos com drogas numa festa ou brigando numa boate, ou espancando uma prostituta ou um gay. Mas afinal, eles são jovens, estudam, são bons meninos, estavam só brincando, quem é que nunca fez suas artes por aí, não justifica tanto rigor, enquanto os bandidos de verdade estão soltos. Uma cesta básica e estamos conversados.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-959" title="VilaCruzeiro2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></a>Estamos dispostos a ter uma polícia realmente comprometida com o cumprimento da lei, igualmente, para todos? Que não vai aliviar nossos insignificantes delitos de cidadãos de bem? Ou continuamos preferindo nos enganar de que é possível (e desejável) ter uma polícia que sabe &#8220;distinguir as coisas&#8221; e quebra o nosso galho mas não amolece com vagabundo? Porque, pra mim, é tudo uma coisa só. O problema é sistêmico, estrutural. Leiam o Luiz Eduardo Soares que é melhor:</p>
<p><strong>LUIZ EDUARDO SOARES: A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO</strong><br />
quinta-feira, 25 de novembro de 2010</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.</p>
<p>Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.</p>
<p>(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?</p>
<p>(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</p>
<p>Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.</p>
<p>Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.</p>
<p>Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?</strong></p>
<p>Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia.  Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?</p>
<p>Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.</p>
<p>A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.</p>
<p>A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.</p>
<p><strong>(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?</strong></p>
<p>Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.</p>
<p>Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.</p>
<p>Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.</p>
<p>Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.</p>
<p>O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.</p>
<p>É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.</p>
<p><strong>(c) O Exército deveria participar?</strong></p>
<p>Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.</p>
<p>E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.</p>
<p><strong>(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?</strong></p>
<p>Claro. Mais uma vez.</p>
<p><strong>(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</strong></p>
<p>Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>Palavras Finais</strong></p>
<p>Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.</p>
<p>As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.</p>
<p>A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.</p>
<p>O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.</p>
<p>Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.</p>
<p>Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?</p>
<p>As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.</p>
<p>A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.</p>
<p>A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.</p>
<p>E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.</p>
<p>Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.</p>
<p>Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.</p>
<p>O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.</p>
<p>Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.</p>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/09/07/domingo-no-parque-espaco-publico-e-urbanidade/</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O cimento, a América Latina e outros pensamentos partilhados</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 04:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do Fernando Lara, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no <a href="http://www.proarq.fau.ufrj.br/site/" target="_blank">PROARQ</a> (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade de comunicação imensa. Acaba não sendo uma palestra, mas um papo, gostoso, instrutivo, em que você não sente o tempo passar e fica querendo mais quando termina. Dessa vez, o tema era<em><strong> &#8220;O cimento feroz &#8211; considerações sobre arquiteturas contemporâneas da América Latina&#8221;</strong></em>, assunto que ele vem estudando há bastante tempo e desenvolvendo em seus <a href="http://soa.utexas.edu/latitudes/" target="_blank">grupos de pesquisa</a> sobre Arquitetura Latinoamericana  Moderna na <a href="http://www.soa.utexas.edu/lama" target="_blank">Universidade do Texas</a>.</p>
<p>Como é um assunto que eu absolutamente não domino, fui lá aprender. E, como boa aluna, tomei notas, que divido agora com vocês. Já comecei me surpreendendo com a frase-provocação que abriu a conversa, que o Fernando nos informou ter sido dita por Paulo Venâncio, professor da EBA (Escola de Belas-Artes), num livro sobre o Burle Marx. Sente só: &#8220;o brasileiro só consegue lidar com a paisagem mediada pelo cimento&#8221;. Gente, e não é verdade?</p>
<p>Gostei muito dele ter trazido, para começar, uma discussão sobre esse conceito de &#8220;América Latina&#8221;. O que é isso, afinal, o que quer dizer, o que expressa? Nós temos (ou pelo menos muitos de nós) a tendência a naturalizar certos termos e é preciso um certo esforço para ficarmos atentos aos seus significados, e sobretudo ao entendimento de como, quando e onde esses significados foram propostos e construídos. A idéia de uma América &#8220;latina&#8221; surge na segunda metade do século XIX, e é uma tentativa francesa de trazer, para seu círculo de influência &#8220;latinizante&#8221;, uma parte da América que orbitava, em vários aspectos, tanto políticos quanto econômicos, em torno do universo anglo-saxão. A França acenava com nossas raízes latinas, via Portugal e Espanha, para nos suscitar a ideia de uma herança cultural comum, que favorecesse nosso alinhamento aos seus interesses. Eu sei que estou encurtando um assunto que é mais comprido e mais complexo do que isso.  O que nos cabe discutir aqui é que esse conceito, ou esse agrupamento não é fruto de uma identidade própria ou auto-reconhecimento, mas sim uma característica, ou conjunto de características que nos é atribuída por outrem (por mais que hoje muita gente tenha se apropriado positivamente dessa identidade), e se a gente pensar bem,  é um conceito que já nasce problemático. Em outras palavras, não fomos nós mesmos que nos reconhecemos e designamos assim: &#8220;somos latinoamericanos&#8221;, mas um outro, europeu, que  veio nos dizer: &#8220;ei, <em>prestenção</em>, vocês são herdeiros de uma tradição latina, por MEU intermédio, fiquem aqui do meu lado&#8221;.  E vingou, né? Ou melhor, vingou especialmente a denominação. Não necessariamente o interesse francês.</p>
<p>Mas qual seria esse nosso traço comum, que nos permitiria abrigar-nos todos sob esse &#8220;guarda-chuva&#8221;? Um recorte simplesmente geopolítico arbitrário, que diz que do México pra baixo é tudo latinoamericano? Mas e as Ilhas Virgens, as Guianas holandesa e inglesa, as outras colônias de povos não-latinos no Caribe? Bom, seria então uma unidade linguística? Não, nesse conjunto de países há falantes de outras línguas também. Seria uma unidade religiosa? Econômica? Há algum dado <em>a priori</em> que permita nos agrupar sob esta classificação? Ele vai desmontando e desnaturalizando o conceito, pra mostrar que qualquer denominador comum que se busque tem seus furos, ou seja, dizer &#8220;América Latina&#8221; é enfatizar uma construção política e cultural, que serve (ainda hoje) a determinados interesses, para o bem ou para o mal.</p>
<p>Agora, uma coisa que muito me impressionou, das diversas imagens que ele mostrou, fruto da transcrição cartográfica das pesquisas que ele vem fazendo, é como, nas nossas revistas de arquitetura, aparece tão hegemonicamente a produção do hemisfério norte, em detrimento da produção abaixo da linha do Equador! Ele fez um levantamento em diversas revistas, das obras que são mencionadas, apresentadas como significativas da produção arquitetônica contemporânea. E foi marcando com uma bolinha num mapa mundi a localização da tal obra. Tá lá: só dá hemisfério norte! E ele mostrou, com exemplos muito legais, que não é por falta de produção de qualidade do lado de baixo do Equador, mas por falta de valorização e divulgação dessa produção. E isso não é só no Brasil. Segundo o Fernando, falta uma maior comunicação e trocas entre arquitetos e urbanistas &#8211; vá lá &#8211; latinoamericanos. Nas revistas brasileiras saem artigos e críticas sobre obras brasileiras, européias, norteamericanas, alguma coisa asiática. Nas revistas colombianas saem sobre obras colombianas, européias, norteamericanas, asiáticas. Nas revistas argentinas, a mesma coisa. E assim em todo lado.</p>
<p>A partir daí, ele começou a mostrar arquitetos e arquiteturas desses países nossos vizinhos, e, veja bem, a audiência da palestra era quase toda de professores e estudantes de mestrado e doutorado de arquitetura (e alguns dos meus alunos da graduação que eu chamei também), e é impressionante que tantos nomes que ele citou nós simplesmente nunca tínhamos ouvido falar, ou mal conhecíamos o nome. Entre tantos edifícios e intervenções urbanas de qualidade, um traço comum: o uso maciço do concreto, do tal &#8220;cimento feroz&#8221;, algumas vezes com rara poesia e leveza.</p>
<p>Vou mencionar apenas alguns (deixei os brasileiros de fora dessa vez, e ele mostrou projetos ótimos também) e fazer vocês irem pesquisar a respeito:</p>
<p><a href="http://www.rafaeliglesia.com.ar/first-E.htm" target="_blank">Rafael Iglesia</a> (Argentina), que diz que nós não temos História, mas Geografias, porque estamos sempre fazendo tabula rasa para novos experimentos;<br />
<a href="http://www.worldarchitecture.org/world-architects/index.asp?worldarchitects=architectdetail&amp;country=Mexico&amp;no=3" target="_blank">Alberto Kalach</a> (México);<br />
<a href="http://www.arqsaez.com/" target="_blank">José Maria Saez</a> (Equador);</p>
<div id="attachment_837" class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg"><img class="size-full wp-image-837" title="montagem-latino" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg" alt="" width="590" height="564" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, à esquerda, uma escada maravilhosa de Iglesia, que não usa um único prego, só encaixe. Ao lado, a Biblioteca Nacional, do Kalach, no México. Abaixo, também do Kalach, a casa que está na página de abertura do seu site</p></div>
<p><a href="http://www.alejandroaravena.com/" target="_blank">Alejandro Aravena</a> (Chile): gostei muito de um projeto que foi mostrado, de habitação social, batizado de <a href="http://www.elementalchile.cl/viviendas/quinta-monroy/quinta-monroy/" target="_blank">Elemental</a>, que usa alguns blocos-padrão, modulares, intercalados com espaços livres que permitem que cada família construa o restante da unidade conforme suas necessidades (e possibilidades), gerando uma diversidade formal muito rica e interessante.</p>
<div id="attachment_838" class="wp-caption aligncenter" style="width: 790px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg"><img class="size-full wp-image-838" title="Alejandro-Elemental-quintamoroy" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg" alt="" width="780" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Casas em Quinta Monroy, no Chile, nessa &quot;metodologia&quot; do Elemental, que permite arranjos posteriores diferentes com maior flexibilidade para os moradores. </p></div>
<p>Em todos os projetos apresentados, havia uma preocupação de melhoria e valorização do espaço público como estratégia para um melhor exercício da cidadania. E sobretudo, uma enorme confiança na arquitetura, no espaço construído, como elemento impactante nessa transformação. A premissa é de que ao construir creches, escolas, postos de saúde, praças, conjuntos habitacionais de grande qualidade formal e espacial você está, de certa forma, &#8220;educando&#8221; as novas gerações, oferecendo a possibilidade delas incorporarem novos parâmetros de qualidade, que as tornem mais críticas e exigentes no futuro. Isso é genial.</p>
<p>Eu achei espetacular saber que, na Colômbia, por exemplo, há uma lei que obriga todo projeto em terreno público, com mais de 5000 m2 de área construída, a ser alvo de concurso público. E tá certo. Isso provoca uma profunda renovação na arquitetura local, e contribui de maneira fundamental para a melhoria dos nossos referenciais construtivos. Estimula talentos novos, revigora o ensino, alavanca a pesquisa e o investimento em novas tecnologias, diversifica a paisagem urbana, favorece o controle e a fiscalização dos gastos públicos com as obras. Já pensou isso aqui, no Rio, no Brasil, com as obras da Copa e das Olimpíadas? Com a requalificação da área portuária? Nós só teríamos a ganhar, eu tenho certeza!</p>
<p>&#8212;&#8212;- x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212;</p>
<p>Umas rapidinhas, pra fechar por hoje:</p>
<p>- imperdível o <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/2010/08/29/campanha-incentivando-violencia-contra-candidata/" target="_blank">post da Cynthia</a>, no blog <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/" target="_blank">Sexismo na política</a>. É pra ser lido e divulgado. Longe de ser uma brincadeira, o teor da malfadada campanha é de um mau gosto grotesco e revela o quanto a violência contra a mulher continua um assunto sério e descuidado no país. E não se trata de uma defesa partidária, nem de falta de humor. É muito mais grave e amplo do que isso.</p>
<p>- ainda sobre política, um aviso importantíssimo: não se esqueçam que, este ano, para poder votar, não basta levar o título de eleitor à seção eleitoral. É <strong>OBRIGATÓRIO</strong> levar <strong>TAMBÉM</strong> um <strong>DOCUMENTO DE IDENTIDADE, OFICIAL, COM FOTO! </strong>Ou seja, são <span style="color: #ff0000;"><strong>DOIS DOCUMENTOS:</strong></span> o título e a identidade. Serve a carteira de identidade propriamente, passaporte, carteira de trabalho, carteira de habilitação, mas tem que ter foto. Divulgue essa notícia entre todos os seus conhecidos. Não vamos perder votos por causa disso, gente!</p>
<p>(nem vou entrar no mérito do quão &#8220;oportuna&#8221; é essa lei, e do quanto ela provavelmente vai punir os eleitores mais humildes, que muitas vezes não têm documentação completa, e o pessoal das cidades mais do interior, para quem, talvez, essa informação nem seja suficientemente divulgada. Olho vivo)</p>
<p>- fechando com mais política e cidade: ao escolher seus candidatos, se possível, avalie também a posição deles em relação aos nossos principais temas urbanos: habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, sustentabilidade, educação. De preferência, do ponto de vista da maior inclusão social possível, democratizando o acesso do maior número de pessoas a esses bens e serviços, e que eles tenham mais qualidade, em todos os sentidos.</p>
<p>- agora é pra fechar, mesmo. Por falar em mobilidade e cidadania, não posso deixar de recomendar, também, veementemente, o<a href="http://mateipormenos.apostos.com/2010/08/26/antes-morrer-de-bicicleta/" target="_blank"> post da Juliana</a>, sobre a banalização da morte de pedestres por atropelamentos. No mesmo assunto, sempre tem textos interessantíssimos no<a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/" target="_blank"> Apocalipse Motorizado</a>, como <a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/2009/01/12/a-maioria-silenciosa/" target="_blank">esse daqui</a>, do ano passado.</p>
<p>Volto já, até daqui a pouco.</p>
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		<title>Desculpa esfarrapada, de novo.</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/04/25/desculpa-esfarrapada-de-novo/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Apr 2010 15:13:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[problemas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-771" title="caos1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1-300x191.jpg" alt="" width="300" height="191" /></a>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto faz. Foi uma sucessão de erros grossos e teve uma lista de consequências danosas à cidade como um todo, além de desnudar, mais uma vez, o despreparo dos nossos governantes para administrar a cidade, começando pelo argumento estapafúrdio de que <a href="http://www.sidneyrezende.com/noticia/83034+nao+dimensionamos+direito+o+evento+diz+cet+rio+sobre+caos+no+dia+do+culto" target="_blank">dimensionaram mal a proporção do evento</a>, passando pelo desencontro de informações e o repetitivo empurra-empurra de responsabilidades e terminando com o <a href="http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20100421180756&amp;assunto=40&amp;onde=Brasil" target="_blank">pedido de desculpas</a> (de novo) patético do prefeito, com a promessa vã de que “não vai acontecer de novo”. Pode começar lendo <a href="http://noticias.terra.com.br/transito/interna/0,,OI4397530-EI11777,00-Edir+Macedo+diz+que+megaevento+religioso+no+RJ+se+repetira.html" target="_blank"><strong>aqui</strong></a> a bravata do Sr. Edir Macedo, que desafia a cidade e as autoridades impunemente, sabendo do poder de fogo que tem. Leia-se aí, com todas as letras, poder político, além do econômico.</p>
<p>Aliás, parênteses. Não é novidade pra ninguém, mas eu vou deixar bem claro que não há a mais remota possibilidade de eu vir a votar no Serra nem pra síndico de prédio, que dirá pra presidente. Não voto e faço campanha contra. Mas quando eu vejo o PT negociando apoio com Garotinho ou Crivella me dá um desespero e uma vergonha tão grandes que chacoalham todas as minhas mais tolerantes convicções. Eu queria mesmo era que o Idelber viesse me explicar por que cargas d&#8217;água, em nome do tabuleiro político-eleitoral, eu devo engolir esse tipo de aliança. Isso é um apelo sincero e numa boa, de quem quer aprender e entender mesmo. Fecha parênteses.</p>
<p>Mas voltando ao nosso feriado. Foi um espetáculo de mídia, ocorreu em várias capitais do país simultaneamente (<a href="http://www.diariosp.com.br/Noticias/Dia-a-dia/4131/Evento+da+Universal+cria+o+caos+no+transito" target="_blank">olha aqui o Diário de São Paulo contando dos 16 km de engarrafamento na Marginal Pinheiros por conta da igreja de lá</a>), e muito mais do que “louvar a Deus”, isso <a href="http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/22/e22046687.asp" target="_blank">só pode ser demonstração de poder em ano eleitoral</a> (pra quem tiver interesse, esse link é de uma matéria no Jornal do Brasil, em que a presidente da Associação de Moradores de Botafogo afirma que o administrador regional da área, Rodrigo Pian, comunicou aos representantes comunitários, durante reunião, que o culto era um acontecimento político, porque &#8220;o prefeito não pode desperdiçar um milhão de votos&#8221;).</p>
<p>Agora, como é que a prefeitura autoriza uma coisa dessas? Baseado no fato de que os organizadores prometeram que só dava 100 mil pessoas e os ônibus iam ficar estacionados nos locais autorizados? Se a Associação de Moradores da minha rua solicitar licença pra fazer uma festinha na praça com 500 pessoas e aparecerem 5.000, infernizando a vida do bairro, quem é que vai pagar o pato? É fácil assim? Eu digo um número, a prefeitura engole e depois eu faço o que bem entendo? Se fosse a primeira vez que isso tivesse acontecido, a gente ainda podia dar desconto, mas não é. E não será a última, a julgar pela ameaça do líder da igreja (sim, o que ele fez foi ameaça, no mesmo nível de qualquer bandido que peita a polícia dizendo que vai “barbarizar”).  Bom, depois de tudo que eu acabei de falar essas perguntas ficam até um pouco  sem sentido&#8230;</p>
<p>Além do aspecto abominável mas pontual do trânsito caótico (eu digo pontual porque circunscrito num tempo curto, ainda que inaceitável assim mesmo), há os custos e danos do dia seguinte, com a sujeira deixada e a depredação de árvores do parque. Há o cerceamento do direito das pessoas de circular (porque não só os ônibus regulares quase desapareceram, já que as empresas deslocaram todos para transportar os fiéis, por mais que digam o contrário, mas os poucos que rodavam não conseguiam fazer seus trajetos por causa dos engarrafamentos e obstruções no trânsito); há o cerceamento do direito ao lazer porque as pistas do Aterro, que em dias de feriado deveriam ser espaço público de recreação ficaram tomadas por filas intermináveis de ônibus estacionados irregularmente. Mas sobretudo, ao meu ver, há o desprezo debochado e o desrespeito a qualquer traço de ordem pública, e a sensação de que nossos governantes não têm força, coragem ou interesse para fazer valer a lei. E quando, numa cidade, a população se vê assim abandonada por quem deveria cuidar do bem público, isso abre ou alimenta o precedente perigoso do salve-se quem puder, que agora vale tudo. E isso, sim, é preocupante.</p>
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		<title>Apanhado geral</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/02/21/apanhado-geral/</link>
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		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 18:11:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu não esperava que essa série sobre transporte público ganhasse tamanha dimensão. Sinal de que é mesmo um tema dos mais urgentes, e afeta as nossas vidas e a vida de nossas cidades de maneira crucial. Certamente a discussão não teria sido tão rica sem tantas participações, tão generosas na partilha de suas próprias experiências. Sugiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não esperava que essa série sobre transporte público ganhasse tamanha dimensão. Sinal de que é mesmo um tema dos mais urgentes, e afeta as nossas vidas e a vida de nossas cidades de maneira crucial. Certamente a discussão não teria sido tão rica sem tantas participações, tão generosas na partilha de suas próprias experiências. Sugiro &#8211; pra quem ainda não o fez &#8211; que leiam os comentários. Lá, o <strong><a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/" target="_blank">Cláudio Luiz</a></strong> acrescenta temas para nossa reflexão a partir do que ele mesmo viveu aqui, durante o Carnaval, e conta como são as coisas em Portugal, onde viveu parte dos últimos anos; a <a href="http://www.noncapisconiente.blogspot.com/" target="_blank"><strong>Alline</strong></a> fornece e ajusta as informações a respeito de Milão; a <a href="http://www.interney.net/blogs/malla/" target="_blank"><strong>Lucia Malla</strong></a>, queridíssima, amplia geograficamente a discussão contando o funcionamento do transporte no Havaí, e me sugere passear pelo Leste Asiático, para conhecer o metrô de Tokyo e Hong Kong. Eu sou a favor de que alguém me patrocine, prometo em troca relatos vívidos, análises acuradíssimas <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' />  e uma enxurrada de fotos!</p>
<p>A <a href="http://terapiazero.blogspot.com/" target="_blank"><strong>Anna V.</strong></a> também deu seus pitacos, o <a href="http://dispersoesdeliriosedivagacoes.blogspot.com/" target="_blank"><strong>Fabiano Camilo</strong></a> e a <strong>super-Vera</strong> trouxeram não só dados mas discussões interessantíssimas sobre Brasília, que foram desde o transporte propriamente dito até o uso do solo urbano para fins de estacionamento decorrente da utilização maciça dos automóveis como forma de deslocamento. E por falar em deslocamento, o <a href="http://caderno.allanpatrick.net/" target="_blank"><strong>Patrick</strong></a> mencionou que em Natal, estudos revelam que até 20% dos deslocamentos são feitos de bicicleta. Ele conta a história toda <a href="http://caderno.allanpatrick.net/2010/02/20/20-dos-deslocamentos-na-grande-natal-sao-feitos-de-bicicleta/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Pra encerrar (temporariamente) esta série, que eu já estou me coçando pra contar pra vocês dos últimos filmes a que assisti no cinema, trago um artigo escrito pelo Professor Flávio Ferreira, que eu recebi por e-mail no fim do ano passado. Foi publicado no periódico eletrônico <a href="http://www.opiniaoenoticia.com.br" target="_blank">Opinião e Notícia</a>, em 01/10/2009, e para ler o artigo no original, basta clicar <a href="http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/arquitetura/como-resolver-o-transito-do-rio-de-janeiro-em-seis-dias/?ga=dtf" target="_blank">aqui</a>. Tomei a liberdade de transcrevê-lo porque sei que tem gente que acaba com preguiça de clicar e nevagar para outra página. Ele defende uma solução polêmica, radical, arrojada, mas também corajosa. Vale a pena ler os comentários (pra isso você vai ter que ir lá na página), porque há desde os questionamentos lúcidos e procedentes até as críticas mais agressivas e virulentas. O tema é bom, e estamos longe de esgotá-lo. Digam o que vocês acham a respeito:</p>
<p><strong>COMO RESOLVER O TRÂNSITO DO RIO DE JANEIRO EM SEIS DIAS</strong><br />
(Por Flávio Ferreira)<br />
Um dos poucos consensos entre os especialistas (embora não entre a população) em relação ao tráfego congestionado das metrópoles é diminuir a circulação de carros particulares nas ruas. São eles, e não os ônibus e caminhões, que congestionam a cidade. É necessário mostrar à classe média que os “bandidos” do trânsito não são os ônibus e caminhões, mas seus próprios carros.</p>
<p>Caso se consiga retirar carros das ruas em número considerável, nenhuma outra medida será necessária, como intensificar e estender o metrô, colocar sistemas de metrô nas atuais vias férreas, construir faixas exclusivas para ônibus gigantes, racionalizar o sistema de linhas de ônibus, etc. É claro que estas medidas poderão também ser implementadas, mas serão medidas apenas complementares.</p>
<p>É importante considerar que o tráfego de carros particulares precisa diminuir apenas no acesso ao centro da metrópole, nos dias úteis. Nos fins de semana, nas noites e no tráfego entre bairros sem passar pelo centro, não se necessita destas medidas.</p>
<p>O maior tráfego da metrópole é de pessoas indo e vindo do trabalho. Deste tráfego, hoje apenas 20% dos que usam as ruas vão e vêem do centro em carros particulares. A grande maioria, 80%, vêem e vão de ônibus. Entretanto os ônibus ocupam aproximadamente cerca de 20% dos espaços das vias públicas, enquanto os carros ocupam cerca de 80%.</p>
<p>Mas o que é o centro da metrópole do Rio de Janeiro, hoje? O que chamamos hoje de Centro da Cidade funcionava realmente como centro quando a cidade tinha cerca de 1 milhão de habitantes, no inicio do século XX. A metrópole cresceu cerca de cinco vezes em população e o seu centro se expandiu na mesma proporção.<br />
Se considerarmos a definição dos engenheiros de tráfego, que centro de uma cidade é o lugar aonde chega mais gente que sai de manhã e de onde sai mais pessoas que entram no final da tarde, podemos observar que hoje o Centro do Rio começa no Leblon, passa pelo Jardim Botânico, por Ipanema e Copacabana, Botafogo, Flamengo e Glória, passa pelo dito “centro” e vai até a Tijuca e São Cristóvão.Esta grande área é mais ou menos do mesmo tamanho de Manhattan, o centro de Nova Iorque, e da cidade de Paris, que é o centro da região metropolitana parisiense.</p>
<p>Basta observar o sentido do congestionamento dos veículos e das pessoas dentro dos ônibus para se comprovar esta observação. Entendido assim, o congestionamento do centro e sua área, o que fazer para se evitar que a maioria dos carros não o demande?</p>
<p>Há duas soluções, uma óbvia e muito visível: impedir que os carros cheguem ao centro, fechando-o nas horas de rush. Esta solução foi primeiro aplicada em Jacarta, nos anos 1970, com êxito, e ultimamente solução semelhante foi adotada em Londres: cobra-se pedágio para se entrar no centro de Londres, que se torna gradativamente mais caro ao longo do dia: quanto mais carros entram no centro, mais caro fica o pedágio.Entretanto há outra mais sutil e invisível aos olhos dos leigos: os carros não vão ao centro porque não há estacionamentos disponíveis. Os melhores exemplos desta política “invisível” de resolver o congestionamento são Nova Iorque e Paris.</p>
<p>Em Manhattan, o centro de Nova Iorque, que é a cidade com mais carros do mundo, o tráfego flui razoavelmente. Em Paris também. A região metropolitana de Paris tem população equivalente à do Grande Rio. Poucos, no centro de Paris ou em Manhattan têm carros, mesmo os muito ricos. Antes desta política, Paris experimentou o oposto: grandes garagens subterrâneas no centro. Seus planejadores viram o suicídio que era esta política e a eliminaram.Proibido o estacionamento ao longo das ruas e nos outros locais públicos do grande centro o número de veículos que o demandam diminui em 80% na hora do rush.A velocidade média do tráfego aumentaria. É hoje de 18 km/h e aumentaria para pelo menos 54 km/h.</p>
<p>Não haveria a necessidade de maior número de ônibus, já que a maioria dos usuários de carros vai andar de ônibus?Não, porque com a triplicação da velocidade a oferta de assentos nos ônibus também triplicaria.Como hoje já transportam 80% dos que vão ao centro ficariam até mais vazios ao se triplicar a oferta de assentos. De fato, portanto, se necessitará de menos ônibus.</p>
<p>Quando exponho essas ideias, meus colegas e alunos sempre afirmam:<br />
- Mas primeiro temos que melhorar o nosso horrível transporte coletivo.<br />
- O lobby das fábricas de automóvel não deixará que isto aconteça.</p>
<p>O pior do transporte em ônibus são os grandes congestionamentos que tiram das pessoas anos de suas vidas, e serão resolvidos no mesmo dia em que se implementar essa política.Além disso, muitas das pessoas que usualmente se transportam de carro passarão a usar os ônibus, e reclamarão muito. Esta pressão ajudará a diagnosticar corretamente as falhas, e ai então o sistema será ainda mais melhorado.</p>
<p>Respondendo à segunda dúvida: Nova Iorque por acaso não sofreria pressões semelhantes? Não sofreu. É curioso observar que a sede da Chrysler, um dos maiores e dos mais altos arranha-céus de Nova Iorque, não tem garagem para um carro sequer, como também o Empire State Building e outros grandes arranha-céus mais recentes de Manhattan.</p>
<p>Quando menino a minha professora leu um texto que contava que Paulo de Frontin havia resolvido, no seu tempo, o problema da falta d’água no Rio em seis dias. Podemos também resolver o congestionamento do tráfego do Rio de Janeiro em seis dias proibindo o estacionamento no grande centro nas horas de trabalho dos dias úteis.A preparação para esses seis dias é mais longa. É necessário calibrarmos um Modelo Gravitacional de Uso da Terra e Transporte para a região metropolitana para testar a proposta. É necessário também divulgá-la amplamente.</p>
<p>Esta solução tem uma vantagem que nenhuma das outras tem: não se gasta quase nada para experimentá-la. Pode-se aperfeiçoá-la após o experimento. Pode-se até voltar atrás com pouco desgaste.Esta solução do trânsito do Rio de Janeiro tem uma vantagem suplementar, talvez mais importante do que tudo: causa o decréscimo vertiginoso das emissões de CO e CO² na cidade.Vale a pena tentar!</p>
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		<title>Curtinhas</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/19/curtinhas/</link>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 01:51:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>

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		<description><![CDATA[
O papo de cinema rendeu, que legal! Entrando na safra de 2010, fui assitir a Sherlock Holmes, do Guy Ritchie, e gostei imensamente. Depois, claro, já rolaram várias conversas sobre o filme. É fiel ao personagem do Conan Doyle? Não é fiel? A crítica definitiva sobre o filme está aqui, ó. Não se esqueça de ler [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<ul>
<li>O papo de cinema rendeu, que legal! Entrando na safra de 2010, fui assitir a <a href="http://www.imdb.com/title/tt0988045/" target="_blank">Sherlock Holmes</a>, do Guy Ritchie, e gostei imensamente. Depois, claro, já rolaram várias conversas sobre o filme. É fiel ao personagem do Conan Doyle? Não é fiel? A crítica definitiva sobre o filme está <a href="http://duasfridas.wordpress.com/2010/01/17/elementar-meu-caro-watson/" target="_blank">aqui</a>, ó. Não se esqueça de ler os comentários. Tem pelo menos <a href="http://duasfridas.wordpress.com/2010/01/17/elementar-meu-caro-watson/#comment-2507" target="_blank">um adendo</a> altamente enriquecedor para a exposição brilhante feita pela <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a>.</li>
</ul>
<ul>
<li>Eu não sabia de nada, mas parece que um daqueles pastores protestantes americanos andou dizendo &#8211; pra variar &#8211; uma barbaridade imbecil sobre a relação entre Deus e a catástrofe no Haiti. Aí, passeando <a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/" target="_blank">aqui</a>, li <a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/69664.html" target="_blank">essa resposta</a> fantástica. Ri até não poder mais, e achei a crítica sarcástica e pertinente na medida certa. (Nessas horas, não posso deixar de pensar no <a href="http://letras.terra.com.br/cazuza/44997/" target="_blank">Cazuza</a>: <em>&#8220;Vamos pedir piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde!&#8221;</em>)</li>
</ul>
<ul>
<li>Eu já falei <a href="http://heckeranddecker.wordpress.com/" target="_blank">desse blog</a> aqui antes, mas eles tinham parado de escrever. Voltaram. É em inglês, pena, mas pra quem se vira bem no idioma e se interessa por análise da forma e da história urbana, é uma aula a cada post. O autor está fazendo uma série sobre as transformações ocorridas no último século na cidade de Rochester que é primorosa. Recomendo fortemente aos coleguinhas.</li>
</ul>
<ul>
<li>Por fim, o mais importante. Essa semana tive o prazer inenarrável de conhecer pessoalmente a <a href="http://beauvoriana2.zip.net/" target="_blank">Mary W</a>, figura carimbada e respeitadíssima na internet, a quem eu admirava e respeitava às raias da veneração. Pois confirmou-se uma pessoa doce, querida, divertida, apaixonada. Eu fiquei ainda mais fã. Encontro promovido pela Ângela, com as ilustres presenças das <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Fridas</a>, do <a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/" target="_blank">Cláudio Luiz</a>, da <a href="http://terapiazero.blogspot.com/" target="_blank">Anna V.</a> (que eu adorei conhecer) e da Cris, cujo blog eu &#8211; indesculpavelmente &#8211; esqueci de anotar. Só posso agradecer pela noite maravilhosa. Com chuva e tudo!</li>
</ul>
<ul>
<li>O próximo post tá pronto, viu? Como já é quase meia-noite, vou dormir. Mas amanhã é só inserir as imagens e publicar. Alguém se interessa em falar sobre o projeto de reforma da prefeitura do Rio para a Zona Portuária? É isso.</li>
</ul>
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		<item>
		<title>Ainda sobre educação, cidade e crianças</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/26/ainda-sobre-educacao-cidade-e-criancas/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 May 2009 21:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, pelos prédios e jardins, pelas comidas e paisagens. Uma das coisas que mais amei foi a oportunidade de visitar, com calma, os museus da cidade, apaixonada que sou por História da Arte. Fui a dois deles, o Centro de Arte Reina Sofia, com um respeitável acervo de arte moderna, e o famoso Museu do Prado, com seus vários andares repletos de Boticcellis, Caravaggios, Rembrandts, El Grecos, e, obviamente, das obras dos mestres espanhóis Velázquez e Goya. Não há palavras para descrever a emoção de contemplar esses quadros de perto.</p>
<p><a href="http://vi.sualize.us/view/e8bf5994551cc2d49e09e42b48c0c5a0/"><img class="alignleft size-medium wp-image-261" title="children-and-art2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/children-and-art2-300x300.jpg" alt="children-and-art2" width="300" height="300" /></a>Porém, o que me faz falar disso agora é que, nos dois museus, eu presenciei uma cena que me chamou a atenção. Excursões escolares, com criancinhas bem pequenas, passeando atentamente pelos salões e corredores. Várias. De escolas diferentes, com turminhas de idades diferentes, variando dos 4-5 aninhos até meninos e meninas de 8-9 anos. Uniformes, mãozinha no ombro do colega da frente, as &#8220;tias&#8221; orientando as filas. E sabe o que eu mais achei interessante e me fez pensar? Em nenhuma dessas excursões havia uma pessoa &#8220;explicando&#8221; as obras, falando do autor, do estilo, da época histórica. Nada disso. As crianças apenas passavam e iam olhando, como pequenas esponjinhas absorvendo imagens e cores, sem mediação racional. De vez em quando, alguma criança fazia uma observação qualquer, por livre associação, e jamais era criticada ou corrigida. A professora sorria e perguntava mais alguma coisa, que estimulasse uma elaboração maior, de acordo com a idade da criança. Não eram feitos juízos de valor, do tipo &#8220;bonito&#8221; ou &#8220;feio&#8221;, &#8220;certo&#8221; ou &#8220;errado&#8221;.</p>
<p>Eu achei fantástico, e passei um bom tempo pensando sobre o assunto. O que é que forma nosso repertório de referências visuais e estéticas? Tudo o que a gente vê, principalmente o que a gente vê repetidamente, nos molda. Se vemos sempre ou principalmente ruas feias, sujas, casas amontoadas e escuras, muros pichados, cenas de violência e miséria, é isso que tendemos a achar natural. Eu não sei o que as criancinhas espanholas vêem no seu dia a dia urbano, mas ali estava uma oportunidade de impregnar suas retinas e almas com algumas das melhores obras de arte  já produzidas pela humanidade, num ambiente igualmente belo e elegante.  E se a gente pensar bem, além das referências visuais, há ainda a chance de conviver por algumas horas com referências de comportamento, de convívio social, de valorização de patrimônio, que certamente contribuem para desenvolver o que chamamos de atitudes civilizadas.</p>
<p>Claro que só visitar museus não resolve, claro que formas variadas de expressão artística devem ser valorizadas, mas eu gostaria que existisse um programa que oferecesse às nossas crianças a chance de, desde bem cedo, e com bastante frequência, ter contato com a beleza, a arte, os espaços bonitos e nobres da cidade, independente de decorar nomes e datas, só pelo prazer da fruição mesmo. Isso também alimenta e ajuda a fazer pessoas melhores.</p>
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		<title>Educação Urbana</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 19:01:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O <strong>Professor Pedro Lessa</strong> é uma figuraça! E eu digo isso com todo o respeito e o carinho que essa expressão possa carregar. Nos meus tempos de aluna de Arquitetura da FAU/UFRJ, ele deu aula de História da Arquitetura IV pra minha turma. Um cara diferente, rigoroso, sistemático, com umas propostas de exercício meio heterodoxas, e umas idéias esquisitas. Imagina, ele dizia pra gente que se a gente olhasse com atenção, os prédios faziam &#8220;psiu&#8221; pra gente na rua.  E não é que, algum tempo depois, eu comecei a ouvir isso mesmo? Os prédios falam comigo hoje, um monte deles, e o professor Pedro Lessa é parcialmente responsável por isso, pela atenção com que eu olho pra cidade, pra cada detalhe, pros materiais, pro conjunto, pras gentes que andam na rua.</p>
<p>Alguns anos atrás, descobri que ele agora planta essas idéias estranhas na cabeça de criancinhas aqui no Rio de Janeiro, e fui lá conversar com ele. É um projeto fascinante, e eu só lamento que, após pelo menos 4 anos, ele ainda continue como um projeto piloto, sem a visibilidade e o apoio que deveria ter, tocado quase exclusivamente por esse Dom Quixote da Arquitetura carioca, ainda que com enorme paixão. Chama-se <strong>Projeto Educação Urbana nas Escolas</strong>, e é uma parceria entre as Secretarias Municipais de Urbanismo e de Educação, voltado para crianças que habitam áreas carentes e frequentam escolas municipais. Nesses quatro anos, o projeto já atingiu 450 alunos de 13 escolas em diferentes bairros e comunidades, e foi premiado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), pela relevância da iniciativa.</p>
<p>É pouco? Diante do tanto que esta cidade precisa, diante das milhares de crianças que ainda não foram beneficiadas, é. Mas é um trabalho de formiguinha, de alguém que arregaçou as mangas e se propôs fazer o que está a seu alcance, em vez de só se queixar que não há solução para a cidade. Ele vai nas escolas, dá umas aulas muito interessantes, procurando sensibilizar e instrumentalizar as crianças para uma observação do espaço mais atenta, partindo da escala da sala de aula, da casa do aluno, para o pátio da escola, até chegar aos passeios na rua. Nesse processo, idéias e conceitos sobre conforto e higiene, sobre estilos históricos, sobre cidadania, patrimônio e valorização do espaço público são discutidas com as crianças, que manifestam suas experiências urbanas através de desenhos e redações. Tem um videozinho <a href="http://www.youtube.com/watch?v=zg01cGeyas4" target="_blank">aqui</a> que mostra o professor em ação, e que eu achei bem legal.</p>
<p>São iniciativas que precisam ser apoiadas e replicadas. E eu diria até que não só nas escolas públicas. Tem muito aluno de escola particular que precisava discutir mais e aprender mais sobre esses temas todos, em especial sobre a convivência democrática no espaço público.</p>
<p>Se você tiver curiosidade, tem mais informações sobre esse projeto no <a href="http://edurbana.smu@pcrj.rj.gov.br" target="_blank">site</a> da Secretaria Municipal de Urbanismo.</p>
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		<title>Espaço público: convivência ou vigilância?</title>
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		<pubDate>Tue, 19 May 2009 17:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Suponha que você more num bairro residencial e sossegado, e tenha uma pracinha simpática na sua vizinhança, que você pode ver da janela do seu apartamento. Suponha também que um dia qualquer, aí pelas 3 horas da tarde, você veja, por esta janela, dois sujeitos sentados num dos bancos da praça, comendo sanduíches e bebendo refrigerante, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Suponha que você more num bairro residencial e sossegado, e tenha uma pracinha simpática na sua vizinhança, que você pode ver da janela do seu apartamento. Suponha também que um dia qualquer, aí pelas 3 horas da tarde, você veja, por esta janela, dois sujeitos sentados num dos bancos da praça, comendo sanduíches e bebendo refrigerante, enquanto riem e conversam animadamente. Talvez até os sujeitos sejam cabeludos. Ou não. Estejam de jeans e camiseta, tênis meio velho, em cima do banco. Eu não sei, eu não vi os sujeitos, tou aqui só imaginando uma cena. O fato é que você se dá conta de que nunca viu aqueles sujeitos antes por ali. O que você faz?</p>
<p>a) Não tenho idéia, eu jamais tive tempo pra ficar na janela às 3 horas da tarde de um dia de semana.</p>
<p>b) Ué, tem que fazer alguma coisa? Desde quando comer sanduíches e conversar numa praça é crime?</p>
<p>c) Liga pra polícia, afinal, se são desconhecidos, são suspeitos, e podem vir a fazer alguma coisa errada, melhor prevenir.</p>
<p>Você eu não sei, mas alguém, no bairro da Saúde, São Paulo, semana passada, resolveu pela opção c. Sim, esta história aconteceu com o Marcus Pessoa, do blog <a href="http://marcuspessoa.net/" target="_blank">Velho do Farol</a>, e um amigo dele (que por sinal, mora logo ali adiante, mas tinha esquecido a chave em casa naquele dia, e daí resolveram fazer hora na praça enquanto esperavam a mãe dele chegar). Você pode ler essa história com todos os detalhes, <a href="http://marcuspessoa.net/2009/05/14/sao-paulo-e-o-espaco-publico-privatizado/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Na narrativa dele há todo o lado, revoltante, da truculência da polícia, que chega &#8220;atirando primeiro e perguntando depois&#8221;, num desrespeito flagrante a qualquer direito do cidadão, não importa o nível de violência a que a cidade tenha chegado. Você pode achar muito correto a polícia ser dura e não dar mole pra vagabundo, até o dia em que o vagabundo, pelos critérios (ou falta de) nebulosos da polícia seja você ou seu filho, que desceu de chinelo pra ir na padaria comprar uma cocacola pra janta e é parado por um guarda armado que manda calar a boca e só depois alega que &#8220;afinal, aquilo é ponto de maconheiro e o vizinho denunciou um movimento suspeito&#8221;.</p>
<p>Porém, não é nem sobre esse lado que eu quero discutir aqui. É sobre o uso do <strong>espaço público</strong> em si, cada vez mais cerceado, vigiado, homogeneizado, higienizado, reservado para o consumo de poucos eleitos, e sabe deus quem é que determina (e com que direito) que eleitos são esses.</p>
<p>Essa questão da rua estar sujeita a uma espécie de vigilância pública já foi discutida por dois autores fantásticos, leitura obrigatória em tudo que é faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de todos que pretendem debater seriamente sobre questões urbanas e espaço público. Um deles é a jornalista e escritora norteamericana <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jane_Jacobs" target="_blank">Jane Jacobs</a>, com seu clássico livro <a href="http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha020.asp" target="_blank"><strong>Morte e Vida de Grandes Cidades</strong></a>, que eu estou pensando em trazer pra cá uma hora dessas. O outro é o arquiteto brasileiro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Nelson_Ferreira_dos_Santos" target="_blank">Carlos Nelson Ferreira dos Santos</a>, de tantos livros e artigos primorosos e contundentes sobre o tema. Ambos, cada um a seu tempo e de seu jeito, trouxeram a idéia de uma &#8220;<strong>pedagogia da rua</strong>&#8220;: sendo a rua o lugar público por excelência, onde transitam as mais variadas pessoas, de todas as tribos e classes, é um espaço privilegiado para a experiência do convívio com a diferença, para a educação da cidadania e para a negociação democrática dos eventuais conflitos trazidos por essas diferenças. E ambos falam das janelas como sendo os &#8220;olhos da rua&#8221;, ou seja, de como as próprias pessoas, a partir desta convivência, e de uma apropriação afetiva dos espaços que frequentam, ajudam a &#8220;regular&#8221; o que acontece nos espaços. Sempre do ponto de vista do diálogo, do acolhimento democrático.</p>
<p>Só que parece que o pessoal não entendeu nada! Não vou nem falar do princípio legal da presunção de inocência (todo mundo é inocente até prova em contrário). De onde decorre que, a menos que o indivíduo esteja claramente praticando um ato ilícito, qual o problema de estar na praça? Na rua? Na calçada? É porque o cara é feio? Pobre? Desconhecido? Gente, de onde vem esse nosso pânico cada vez mais descontrolado do diferente, do Outro? Tão grande que não dá nem pra deixar o Outro se apresentar, se humanizar, com nome, história, sentimentos parecidos com os seus?</p>
<p>É a diversidade que enriquece a vida, nossas experiências, alarga o pensamento, acrescenta conhecimentos novos, cores, sabores. Que dentro de casa a gente tenha limites, escolha quem entra, tudo bem, tá certo, é o âmbito do privado. Mas na rua? Na praça pública? Uma coisa é a gente lutar, reivindicar, negociar que, como eu já disse antes, implica necessariamente considerar o outro como igualmente capacitado ao diálogo. Outra completamente diferente é se colocar na posição de decidir previamente quem pode e quem não pode frequentar o espaço público. Essa é uma atitude que eu repudio. É formação de gueto.</p>
<p>E você, tem medo de quê?</p>
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		<title>Juciara e o Dia do Trabalho</title>
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		<pubDate>Fri, 01 May 2009 20:03:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[ecletismo]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
		<category><![CDATA[preservação]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo arquitetônico que predominou do final do século XIX até mais ou menos os anos 20-30 do século passado, e que o Lúcio Costa chamava de pastiche, de cópia da cópia, portanto sem valor artístico, histórico, cultural. Hoje todo mundo lamenta a demolição do Palácio Monroe (exemplar típico do estilo), cujo desaparecimento foi autorizado e até recomendado pelo <a href="http://portal.iphan.gov.br/" target="_blank">IPHAN</a> (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e todo mundo tece loas ao pouco que sobrou na Avenida Rio Branco, principalmente o conjunto mais visível e bem preservado em torno da Cinelândia, composto pelo Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça, mas houve tempo em que os palacetes ecléticos da cidade iam desaparecendo rapidamente, considerados estorvos ao desenvolvimento e à modernização da cidade.</p>
<p>Mas não era nada disso que eu ia falar. Ou era mais ou menos. Essa historinha inicial é pra dizer que eu admiro o ecletismo, mas tenho um interesse e até &#8211; por que não dizer &#8211; um carinho especial, nem tanto pelos grandes palacetes e prédios que acabam abrigando instituições importantes, mas pelos sobrados e casas populares que existem aos montes nos bairros mais antigos do Rio. Em todo o Centro e Zona Portuária, Lapa, Catete, Estácio, Catumbi, Santa Teresa, e até em Botafogo, ainda é possível ver os sobrados característicos deste período, alguns com as datas de sua construção exibidas na fachada &#8211; 1894, 1903, 1914, e por aí vai. Há os que estão bem cuidados, tinta nova, esquadrias restauradas, balcões e grades inteirinhos, até por força de <a href="http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?id=5685" target="_blank">programas</a> de <a href="http://www.rio.rj.gov.br/culturas/pastas/legislacao/CENTRO%20-%20Lei%20506-84%20Corredor%20Cultural.pdf" target="_blank">preservação</a> levados a cabo pela Prefeitura nos últimos 30 anos. Vários hoje abrigam bares, restaurantes, antiquários, principalmente perto da Lapa. Mas dói ver um montão deles vazios, caindo aos pedaços, vidros partidos, transformados em cortiços que oferecem risco (de incêndio, de vazamento de gás, de desabamento) inclusive aos seus próprios moradores e ocupantes.</p>
<div id="attachment_197" class="wp-caption alignleft" style="width: 235px"><img class="size-medium wp-image-197" title="dsc07389" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/dsc07389-225x300.jpg" alt="Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante" width="225" height="300" /><p class="wp-caption-text">Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante</p></div>
<p>Daí eu resolvi, há pouco tempo, fazer um levantamento fotográfico desses sobrados. Por enquanto é só uma brincadeira pessoal, ainda não sei bem o que eu poderei fazer com esse material depois. Quer dizer, eu tenho umas idéias, vamos ver o que vai dar. Hoje de manhã, aproveitando o feriado que deixa tudo mais tranquilo, saí pra tirar umas fotos, no Centro. Estou eu na Av. Gomes Freire, tentando enquadrar mais um prédio, quando a senhora que estava em frente a ele, sacudindo o plástico onde estivera sentada até então, me viu e veio puxar papo.</p>
<p>&#8220;Bonitos esses prédios, né, moça?&#8221;. &#8220;Muito bonitos&#8221;, respondi.</p>
<p>&#8220;Eu vivo nessa rua há seis anos, moça, todo mundo me conhece aqui. É uma pena tantas dessas casas estarem fechadas. Aqui &#8211; e aponta uma das portas cerradas por conta do feriado &#8211; funciona um restaurante, mas aqui, aqui e aqui &#8211; indica outros térreos &#8211; não funciona nada, tá vazio mesmo. Devia ter um comércio, né? Uma loja de calcinhas, uma manicure. Eu pinto unha, sabe, pinto muito direitinho. Mora muita gente aqui, mas é gente pobre. Esses restaurantes atendem o pessoal rico, que trabalha nos escritórios por aí, devia ter alguma coisa pra esse pessoal que mora aqui também. Sei lá, se eu tivesse dinheiro, eu pegava uma casa dessas, eu fazia um escritório assim, como é que chama? Ah, uma agência, pra dar trabalho pras pessoas, indicar uma empregada doméstica, alguém pra passar uma roupa, fazer uma faxina. Eu sei passar muito bem, lavar, dou uma boa faxina, mas o pessoal que me conhece aqui da rua não pode me contratar, e quem pode contratar me vê sentada aqui na calçada, pensa que eu sou uma mendiga, não quer me dar trabalho. Se eu conseguisse alguma coisa assim, pra ganhar meio salário mesmo, com tudo certinho né, os direitos na carteira, mas meio salário mesmo já me bastava, se eu pudesse tomar um café com leite de manhã e um prato de comida no almoço, eu trabalhava bem certinho, aí podia pagar um quartinho pra eu dormir. Mas é difícil, moça&#8221;.</p>
<p>Juciara, o nome dela. O que eu vou dizer depois de uma aula dessa? Aula de urbanismo, de economia, de sociologia. Eu desejo boa sorte a ela. Fiquei encantada.</p>
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