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	<title>Urbanamente</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>O cimento, a América Latina e outros pensamentos partilhados</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 04:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do Fernando Lara, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/parededemeia.blogspot.com/?referer=');">Fernando Lara</a>, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no <a href="http://www.proarq.fau.ufrj.br/site/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.proarq.fau.ufrj.br/site/?referer=');">PROARQ</a> (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade de comunicação imensa. Acaba não sendo uma palestra, mas um papo, gostoso, instrutivo, em que você não sente o tempo passar e fica querendo mais quando termina. Dessa vez, o tema era<em><strong> &#8220;O cimento feroz &#8211; considerações sobre arquiteturas contemporâneas da América Latina&#8221;</strong></em>, assunto que ele vem estudando há bastante tempo e desenvolvendo em seus <a href="http://soa.utexas.edu/latitudes/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/soa.utexas.edu/latitudes/?referer=');">grupos de pesquisa</a> sobre Arquitetura Latinoamericana  Moderna na <a href="http://www.soa.utexas.edu/lama" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.soa.utexas.edu/lama?referer=');">Universidade do Texas</a>.</p>
<p>Como é um assunto que eu absolutamente não domino, fui lá aprender. E, como boa aluna, tomei notas, que divido agora com vocês. Já comecei me surpreendendo com a frase-provocação que abriu a conversa, que o Fernando nos informou ter sido dita por Paulo Venâncio, professor da EBA (Escola de Belas-Artes), num livro sobre o Burle Marx. Sente só: &#8220;o brasileiro só consegue lidar com a paisagem mediada pelo cimento&#8221;. Gente, e não é verdade?</p>
<p>Gostei muito dele ter trazido, para começar, uma discussão sobre esse conceito de &#8220;América Latina&#8221;. O que é isso, afinal, o que quer dizer, o que expressa? Nós temos (ou pelo menos muitos de nós) a tendência a naturalizar certos termos e é preciso um certo esforço para ficarmos atentos aos seus significados, e sobretudo ao entendimento de como, quando e onde esses significados foram propostos e construídos. A idéia de uma América &#8220;latina&#8221; surge na segunda metade do século XIX, e é uma tentativa francesa de trazer, para seu círculo de influência &#8220;latinizante&#8221;, uma parte da América que orbitava, em vários aspectos, tanto políticos quanto econômicos, em torno do universo anglo-saxão. A França acenava com nossas raízes latinas, via Portugal e Espanha, para nos suscitar a ideia de uma herança cultural comum, que favorecesse nosso alinhamento aos seus interesses. Eu sei que estou encurtando um assunto que é mais comprido e mais complexo do que isso.  O que nos cabe discutir aqui é que esse conceito, ou esse agrupamento não é fruto de uma identidade própria ou auto-reconhecimento, mas sim uma característica, ou conjunto de características que nos é atribuída por outrem (por mais que hoje muita gente tenha se apropriado positivamente dessa identidade), e se a gente pensar bem,  é um conceito que já nasce problemático. Em outras palavras, não fomos nós mesmos que nos reconhecemos e designamos assim: &#8220;somos latinoamericanos&#8221;, mas um outro, europeu, que  veio nos dizer: &#8220;ei, <em>prestenção</em>, vocês são herdeiros de uma tradição latina, por MEU intermédio, fiquem aqui do meu lado&#8221;.  E vingou, né? Ou melhor, vingou especialmente a denominação. Não necessariamente o interesse francês.</p>
<p>Mas qual seria esse nosso traço comum, que nos permitiria abrigar-nos todos sob esse &#8220;guarda-chuva&#8221;? Um recorte simplesmente geopolítico arbitrário, que diz que do México pra baixo é tudo latinoamericano? Mas e as Ilhas Virgens, as Guianas holandesa e inglesa, as outras colônias de povos não-latinos no Caribe? Bom, seria então uma unidade linguística? Não, nesse conjunto de países há falantes de outras línguas também. Seria uma unidade religiosa? Econômica? Há algum dado <em>a priori</em> que permita nos agrupar sob esta classificação? Ele vai desmontando e desnaturalizando o conceito, pra mostrar que qualquer denominador comum que se busque tem seus furos, ou seja, dizer &#8220;América Latina&#8221; é enfatizar uma construção política e cultural, que serve (ainda hoje) a determinados interesses, para o bem ou para o mal.</p>
<p>Agora, uma coisa que muito me impressionou, das diversas imagens que ele mostrou, fruto da transcrição cartográfica das pesquisas que ele vem fazendo, é como, nas nossas revistas de arquitetura, aparece tão hegemonicamente a produção do hemisfério norte, em detrimento da produção abaixo da linha do Equador! Ele fez um levantamento em diversas revistas, das obras que são mencionadas, apresentadas como significativas da produção arquitetônica contemporânea. E foi marcando com uma bolinha num mapa mundi a localização da tal obra. Tá lá: só dá hemisfério norte! E ele mostrou, com exemplos muito legais, que não é por falta de produção de qualidade do lado de baixo do Equador, mas por falta de valorização e divulgação dessa produção. E isso não é só no Brasil. Segundo o Fernando, falta uma maior comunicação e trocas entre arquitetos e urbanistas &#8211; vá lá &#8211; latinoamericanos. Nas revistas brasileiras saem artigos e críticas sobre obras brasileiras, européias, norteamericanas, alguma coisa asiática. Nas revistas colombianas saem sobre obras colombianas, européias, norteamericanas, asiáticas. Nas revistas argentinas, a mesma coisa. E assim em todo lado.</p>
<p>A partir daí, ele começou a mostrar arquitetos e arquiteturas desses países nossos vizinhos, e, veja bem, a audiência da palestra era quase toda de professores e estudantes de mestrado e doutorado de arquitetura (e alguns dos meus alunos da graduação que eu chamei também), e é impressionante que tantos nomes que ele citou nós simplesmente nunca tínhamos ouvido falar, ou mal conhecíamos o nome. Entre tantos edifícios e intervenções urbanas de qualidade, um traço comum: o uso maciço do concreto, do tal &#8220;cimento feroz&#8221;, algumas vezes com rara poesia e leveza.</p>
<p>Vou mencionar apenas alguns (deixei os brasileiros de fora dessa vez, e ele mostrou projetos ótimos também) e fazer vocês irem pesquisar a respeito:</p>
<p><a href="http://www.rafaeliglesia.com.ar/first-E.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.rafaeliglesia.com.ar/first-E.htm?referer=');">Rafael Iglesia</a> (Argentina), que diz que nós não temos História, mas Geografias, porque estamos sempre fazendo tabula rasa para novos experimentos;<br />
<a href="http://www.worldarchitecture.org/world-architects/index.asp?worldarchitects=architectdetail&amp;country=Mexico&amp;no=3" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.worldarchitecture.org/world-architects/index.asp?worldarchitects=architectdetail_amp_country=Mexico_amp_no=3&amp;referer=');">Alberto Kalach</a> (México);<br />
<a href="http://www.arqsaez.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.arqsaez.com/?referer=');">José Maria Saez</a> (Equador);</p>
<div id="attachment_837" class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg"><img class="size-full wp-image-837" title="montagem-latino" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg" alt="" width="590" height="564" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, à esquerda, uma escada maravilhosa de Iglesia, que não usa um único prego, só encaixe. Ao lado, a Biblioteca Nacional, do Kalach, no México. Abaixo, também do Kalach, a casa que está na página de abertura do seu site</p></div>
<p><a href="http://www.alejandroaravena.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.alejandroaravena.com/?referer=');">Alejandro Aravena</a> (Chile): gostei muito de um projeto que foi mostrado, de habitação social, batizado de <a href="http://www.elementalchile.cl/viviendas/quinta-monroy/quinta-monroy/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.elementalchile.cl/viviendas/quinta-monroy/quinta-monroy/?referer=');">Elemental</a>, que usa alguns blocos-padrão, modulares, intercalados com espaços livres que permitem que cada família construa o restante da unidade conforme suas necessidades (e possibilidades), gerando uma diversidade formal muito rica e interessante.</p>
<div id="attachment_838" class="wp-caption aligncenter" style="width: 790px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg"><img class="size-full wp-image-838" title="Alejandro-Elemental-quintamoroy" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg" alt="" width="780" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Casas em Quinta Monroy, no Chile, nessa &quot;metodologia&quot; do Elemental, que permite arranjos posteriores diferentes com maior flexibilidade para os moradores. </p></div>
<p>Em todos os projetos apresentados, havia uma preocupação de melhoria e valorização do espaço público como estratégia para um melhor exercício da cidadania. E sobretudo, uma enorme confiança na arquitetura, no espaço construído, como elemento impactante nessa transformação. A premissa é de que ao construir creches, escolas, postos de saúde, praças, conjuntos habitacionais de grande qualidade formal e espacial você está, de certa forma, &#8220;educando&#8221; as novas gerações, oferecendo a possibilidade delas incorporarem novos parâmetros de qualidade, que as tornem mais críticas e exigentes no futuro. Isso é genial.</p>
<p>Eu achei espetacular saber que, na Colômbia, por exemplo, há uma lei que obriga todo projeto em terreno público, com mais de 5000 m2 de área construída, a ser alvo de concurso público. E tá certo. Isso provoca uma profunda renovação na arquitetura local, e contribui de maneira fundamental para a melhoria dos nossos referenciais construtivos. Estimula talentos novos, revigora o ensino, alavanca a pesquisa e o investimento em novas tecnologias, diversifica a paisagem urbana, favorece o controle e a fiscalização dos gastos públicos com as obras. Já pensou isso aqui, no Rio, no Brasil, com as obras da Copa e das Olimpíadas? Com a requalificação da área portuária? Nós só teríamos a ganhar, eu tenho certeza!</p>
<p>&#8212;&#8212;- x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212;</p>
<p>Umas rapidinhas, pra fechar por hoje:</p>
<p>- imperdível o <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/2010/08/29/campanha-incentivando-violencia-contra-candidata/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/sexismonapolitica.wordpress.com/2010/08/29/campanha-incentivando-violencia-contra-candidata/?referer=');">post da Cynthia</a>, no blog <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/sexismonapolitica.wordpress.com/?referer=');">Sexismo na política</a>. É pra ser lido e divulgado. Longe de ser uma brincadeira, o teor da malfadada campanha é de um mau gosto grotesco e revela o quanto a violência contra a mulher continua um assunto sério e descuidado no país. E não se trata de uma defesa partidária, nem de falta de humor. É muito mais grave e amplo do que isso.</p>
<p>- ainda sobre política, um aviso importantíssimo: não se esqueçam que, este ano, para poder votar, não basta levar o título de eleitor à seção eleitoral. É <strong>OBRIGATÓRIO</strong> levar <strong>TAMBÉM</strong> um <strong>DOCUMENTO DE IDENTIDADE, OFICIAL, COM FOTO! </strong>Ou seja, são <span style="color: #ff0000;"><strong>DOIS DOCUMENTOS:</strong></span> o título e a identidade. Serve a carteira de identidade propriamente, passaporte, carteira de trabalho, carteira de habilitação, mas tem que ter foto. Divulgue essa notícia entre todos os seus conhecidos. Não vamos perder votos por causa disso, gente!</p>
<p>(nem vou entrar no mérito do quão &#8220;oportuna&#8221; é essa lei, e do quanto ela provavelmente vai punir os eleitores mais humildes, que muitas vezes não têm documentação completa, e o pessoal das cidades mais do interior, para quem, talvez, essa informação nem seja suficientemente divulgada. Olho vivo)</p>
<p>- fechando com mais política e cidade: ao escolher seus candidatos, se possível, avalie também a posição deles em relação aos nossos principais temas urbanos: habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, sustentabilidade, educação. De preferência, do ponto de vista da maior inclusão social possível, democratizando o acesso do maior número de pessoas a esses bens e serviços, e que eles tenham mais qualidade, em todos os sentidos.</p>
<p>- agora é pra fechar, mesmo. Por falar em mobilidade e cidadania, não posso deixar de recomendar, também, veementemente, o<a href="http://mateipormenos.apostos.com/2010/08/26/antes-morrer-de-bicicleta/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/mateipormenos.apostos.com/2010/08/26/antes-morrer-de-bicicleta/?referer=');"> post da Juliana</a>, sobre a banalização da morte de pedestres por atropelamentos. No mesmo assunto, sempre tem textos interessantíssimos no<a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.apocalipsemotorizado.net/?referer=');"> Apocalipse Motorizado</a>, como <a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/2009/01/12/a-maioria-silenciosa/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.apocalipsemotorizado.net/2009/01/12/a-maioria-silenciosa/?referer=');">esse daqui</a>, do ano passado.</p>
<p>Volto já, até daqui a pouco.</p>
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		<title>Verás que um filho teu não foge à luta*</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 22:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outros]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu pensei, de verdade, que durante as férias eu ia conseguir voltar a escrever com calma e mais regularidade. Vejo que subestimei o tamanho do meu cansaço. Eu estava realmente exausta, e bateu aquele vazio, aquela vontade de só dormir e mais nada. Acho mesmo que não cheguei a descansar tudo o que precisava, e diariamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu pensei, de verdade, que durante as férias eu ia conseguir voltar a escrever com calma e mais regularidade. Vejo que subestimei o tamanho do meu cansaço. Eu estava realmente exausta, e bateu aquele vazio, aquela vontade de só dormir e mais nada. Acho mesmo que não cheguei a descansar tudo o que precisava, e diariamente me sinto atropelada pelo ritmo do novo semestre que já começou com toda a corda, enquanto eu ainda me sinto zonza, com sono e com mais de 5 semanas de trabalho atrasado. Eu vejo o futuro repetir o passado e o tempo não pára. Ticking away the moments that make up a dull day&#8230; waiting for someone or something to show you the way. Cara, eu preciso sacudir a cabeça, espanar a letargia e me mexer.</p>
<p>Nesse tempo em que eu estive parada, pelo menos algumas coisas boas aconteceram, e uma das melhores, sem dúvida, foi a volta do<a href="http://www.idelberavelar.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/?referer=');"> Idelber </a>e seu <a href="http://www.idelberavelar.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/?referer=');"><strong>Biscoito Fino</strong></a>, que podemos voltar a degustar diariamente. Corre lá que tem <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/jose_serra_e_seu_descompasso_com_o_mundo.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/jose_serra_e_seu_descompasso_com_o_mundo.php?referer=');">muita</a> <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/sobre_o_conflito_colombiano.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/sobre_o_conflito_colombiano.php?referer=');">coisa</a> <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/autocritica_do_dunguismo_de_esquerda.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/autocritica_do_dunguismo_de_esquerda.php?referer=');">ótima</a>.</p>
<p>Outro fato que me surpreendeu também foi a repercussão <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/07/12/posso-falar-um-pouquinho-sobre-gramatica/" target="_blank">deste post</a> sobre gramática, tema que nem é central no blog, mas que foi alvo de um desabafo meu enquanto corrigia provas dois meses atrás, e que rendeu boas conversas e um debate interessante na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/07/12/posso-falar-um-pouquinho-sobre-gramatica/#comments" target="_blank">caixa de comentários</a>.</p>
<p>Quero voltar a falar dos assuntos parados. Ouvi uma observação um tempo atrás que está correta, e cuja constatação me causa incômodo: eu tenho o mau hábito de iniciar (e anunciar) séries que depois não levo adiante, gerando expectativas e causando alguma frustração nos que gostariam de acompanhar o desenrolar do assunto. As cidades muçulmanas foram as últimas vítimas. Mas vou retomar (eu já ia completando com um &#8220;prometo&#8221;, mas achei melhor não. Minhas promessas bloguísticas não estão valendo muito na praça). Pra ir reesquentando os motores, eu dou uma sugestão de filme: <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/o-que-resta-do-tempo/#ficha-tecnica" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.adorocinema.com/filmes/o-que-resta-do-tempo/_ficha-tecnica?referer=');"><strong>O que resta do tempo</strong></a> (<a href="http://www.imdb.com/title/tt1037163/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt1037163/?referer=');">The time that remains</a>), de Elia Suleiman. Aqui no Rio acho que já saiu de cartaz, mas a gente pode colocar na lista de espera para o dvd. O filme trança a vida do próprio diretor, recuperada através dos diários do pai e de cartas da mãe, com a história de ocupação da Palestina pelo governo israelense nos últimos 60 anos. Só não concordo, no título da <a href="http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/29/e29049133.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/29/e29049133.asp?referer=');">resenha do jornal</a>, com chamar de &#8220;conflito&#8221; uma guerra cruel que já se tornou um verdadeiro massacre.</p>
<p>Além das cidades muçulmanas eu estou devendo falar mais sobre algumas impressões de viagem, no que diz respeito à análise de espaços públicos e projetos urbanos. Enquanto isso, algumas coisas:</p>
<p>- No<a href="http://www.bb.com.br/portalbb/home22,128,10151,0,0,1,1.bb?codigoMenu=9887" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bb.com.br/portalbb/home22_128_10151_0_0_1_1.bb?codigoMenu=9887&amp;referer=');"> Centro Cultural do Banco do Brasil</a> aqui no Rio, está em cartaz uma belíssima<a href="http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10154,1,0,1,1.bb?dtInicio=8/2010&amp;codigoEvento=3535" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bb.com.br/portalbb/page511_128_10154_1_0_1_1.bb?dtInicio=8/2010_amp_codigoEvento=3535&amp;referer=');"> exposição</a> sobre a viagem capitaneada pelo alemão <strong>Langsdorff</strong> ao interior do Brasil entre 1821 e 1829. Eu acho fascinante que a gente tenha descoberto tanto do nosso país através dos olhos de tantos estrangeiros que por aqui estiveram, que pintaram as paisagens, as cenas urbanas,  retrataram índios, negros, portugueses, mestiços, recolheram espécimes de plantas e bichos, relataram em seus diários os hábitos, os eventos, as aventuras que viveram. Além das aquarelas bem ao gosto do Enciclopedismo típico da época, há mapas e plantas de cidades, e um texto cuidadoso que fala das circunstâncias da expedição e seus personagens &#8211; Rugendas, Taunay, Florence. Até 26 de setembro, entrada franca.</p>
<p>- Outra exposição que estou louca para ver, mas ainda não entrou em cartaz é <a href="http://mapasinvisiveis.wordpress.com/2010/08/11/a-cidade-e-sua-escrita/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/mapasinvisiveis.wordpress.com/2010/08/11/a-cidade-e-sua-escrita/?referer=');"><strong>Mapas invisíveis</strong></a>, que vai estrear na Caixa Cultural (prédio da Caixa Econômica do Rio, no Centro, próximo ao Largo da Carioca) no dia 08 de novembro. Neste <a href="http://mapasinvisiveis.wordpress.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/mapasinvisiveis.wordpress.com/?referer=');">link</a> você pode ver em que consiste a proposta, os artistas que participarão, e acompanhar as discussões a respeito.</p>
<p>- No próximo post eu quero comentar a palestra que assisti na UFRJ há poucas semanas, com o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/parededemeia.blogspot.com/?referer=');">Fernando Lara</a>, com o instigante título de <strong>&#8220;O cimento feroz: considerações sobre Arquiteturas Contemporâneas da América Latina&#8221;</strong>. Fiz diversas anotações, e alguns aspectos do que ele disse me chamaram muito a atenção, quero dividir com vocês.</p>
<p>- Por fim, um assunto que tanta gente evita, mas que eu acho necessário trazer pra frente da discussão: as nossas próximas eleições. Quem me acompanha aqui ou no <a href="https://www.google.com/reader/view/?tab=my#overview-page" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.google.com/reader/view/?tab=my_overview-page&amp;referer=');">GReader</a>, pelos links que partilho, sabe o que penso e as ideias que defendo. O que isso tem a ver com a cidade e com os temas urbanos que procuramos discutir aqui? TUDO. Vocês já se deram conta de que o mesmo termo grego que designa a cidade &#8211; POLIS &#8211; está na raiz da palavra POLÍTICA? Em que pesem as diferenças históricas e conceituais entre a democracia grega e a democracia contemporânea, a política continua sendo essencialmente a expressão da nossa participação na vida da cidade (ou do país, do mundo) em que vivemos. Todas as nossas ações e decisões nesse sentido são políticas, mesmo &#8211; e especialmente danosas &#8211; as de não participar (ou achar que não está participando do processo ao dar as costas).</p>
<p>Eu prezo acima de tudo a pluralidade democrática, que nos permite fazer nossas escolhas e manifestá-las livremente. Sobre isso, vou contar uma coisa. Estava em sala de aula esta semana, falando sobre plano diretor e as modificações trazidas pela <a href="http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume%20i/constituicao%20federal.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume_20i/constituicao_20federal.htm?referer=');">Constituição de 1988</a>, em seus artigos 182 e 183, que tratam da política de desenvolvimento urbano e enfatizam a função social da propriedade (artigos regulamentados em 2001 pelo <a href="www.ibam.org.br/publique/media/Cidade.pdf" target="_blank">Estatuto da Cidade</a> &#8211; link em pdf), quando me dei conta de que estavam todos me olhando como se eu falasse do século passado (e pior que eu falava mesmo!). Perguntei e não deu outra: ninguém ali tinha nascido antes disso. Uau!  Em 1988 eu era uma pirralha recém-formada em Comunicação Social, morando no interior do Tocantins, trabalhando como jornalista (péssima jornalista, diga-se, sem nenhuma paixão pela profissão, tanto que larguei), engajada na minha primeira eleição para presidente da República (Collor x Lula, 1989). A maioria dos meus alunos passou a infância na década de 90, enquanto eu tinha filhos e fazia minha segunda faculdade.</p>
<p>Há entre vários desses jovens uma crença disseminada de que não vale a pena se interessar ou participar do processo político porque  os políticos são todos corruptos, ninguém presta, o jogo é sujo e portanto tanto faz, melhor não votar, anular para mostrar minha insatisfação &#8220;com tudo isso que está aí&#8221;. Este pensamento encerra, pra começar, uma premissa moral de que a política deveria ser um sacerdócio praticado por idealistas isentos de qualquer interesse próprio, seres 100% honestos, abnegados, incorruptíveis. Algum de nós é assim? A política é uma fricção constante, uma negociação por objetivos e estratégias, praticada por atores que agem e também sofrem os resultados de suas ações, que têm interesses, bagagens culturais, históricas, sociais diferentes. E não estou falando só dos detentores de cargos eletivos, mas de todos nós que &#8211; ainda que sem perceber &#8211; fazemos política o tempo todo. Associações civis, grupos de empresários, comunidade acadêmica, sindicatos e organizações profissionais, cidadãos que constroem e partilham o espaço urbano o tempo todo.</p>
<p>Eu me pergunto: a quem interessa esse discurso e essa prática, de despolitização? Quem se beneficia da apatia política, da desmobilização popular, do clima de não-vale-a-pena? Que bem pode fazer à democracia o meu nariz torcido, o meu desdém, a minha ilusão de que eu não faço parte disso tudo? Quem ocupa a brecha deixada pelos que dão as costas? Qual a alternativa? Sim, porque o lugar do poder e da decisão será sempre ocupado, quer eu goste ou não. E a minha recusa em meter a colher nesse mingau sob a alegação de que é tudo imundo e eu não quero me sujar só abre espaço pra mais daquilo que eu tanto critico. Melhor prestar atenção, acompanhar, cobrar, participar. Pensem nisso antes de ir às urnas em outubro.</p>
<p>Volto já. Mesmo.</p>
<p><em>* Referência à excelente arte feita sobre a capa da revista Época desta semana, que destaca ameaçadoramente o &#8220;passado guerrilheiro&#8221; da candidata do PT à presidência, Dilma Roussef.</em></p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/dilma_ALUTA.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-822" title="dilma_ALUTA" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/dilma_ALUTA.jpg" alt="" width="200" height="267" /></a></p>
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		<title>Posso falar um pouquinho sobre gramática?</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Jul 2010 04:39:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Língua]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ainda esta semana eu volto para retomar os assuntos pendentes.  Cheguei a pensar que faria isso hoje, mas entre ver a final da Copa (só pra constar: eu não acertei NENHUM prognóstico, ou pelo menos nenhuma torcida. Sou o anti-polvo, rsrsrs) e dormir muito desde sexta-feira, simplesmente não deu. O resultado, inclusive, é que são mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ainda esta semana eu volto para retomar os assuntos pendentes.  Cheguei a pensar que faria isso hoje, mas entre ver a final da Copa (só pra constar: eu não acertei NENHUM prognóstico, ou pelo menos nenhuma torcida. Sou o <a href="http://esportes.terra.com.br/futebol/copa/2010/noticias/0,,OI4544554-EI14416,00-Polvo+profeta+trai+Alemanha+e+preve+vitoria+espanhola+na+semi.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/esportes.terra.com.br/futebol/copa/2010/noticias/0_OI4544554-EI14416_00-Polvo+profeta+trai+Alemanha+e+preve+vitoria+espanhola+na+semi.html?referer=');">anti-polvo</a>, rsrsrs) e dormir muito desde sexta-feira, simplesmente não deu. O resultado, inclusive, é que são mais de 11 da noite de domingo e eu ainda estou terminando de corrigir provas que deviam estar prontas há 3 semanas, e ainda vou elaborar a prova de amanhã de manhã. Tudo bem, o semestre já começou a desacelerar e só isso já me dá um alívio enorme. Amanhã acho até que vou ao cinema! <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>O que me traz aqui com uma certa urgência é a necessidade/desejo de comentar umas coisas que sempre ficam entaladas na minha garganta quando eu corrijo provas e trabalhos de alunos. Há muito tempo. Ultimamente, quando eu leio jornais também, o caso é (cada vez) sério.</p>
<p>Eu não sei o que acontece com o ensino de Língua Portuguesa, que simplesmente não consegue, na maior parte dos casos, se refletir numa prática escrita e oral decente. Ou seja, as criaturas decoram (sim, porque eu desconfio que raros conseguem entender) objetos diretos e indiretos, nomes enormes de classificação sintática de orações, regras sobre verbos defectivos e irregulares, exceções a regras de acentuação, e isso acaba não tendo nenhuma relação prática com o que eles escrevem. E tem piorado.</p>
<p>Eu não sou nenhuma expert no assunto, não sou linguista, ainda não me adaptei inteiramente ao novo acordo ortográfico (e cometo birras propositais ocasionalmente). Vira e mexe, ao revisar um texto meu, encontro erros de toda sorte; tenho dúvidas e consulto dicionários e gramáticas com frequência (ó aí, eu odeio a queda do trema). Porém, peço licença aos professores de português (e peço ajuda também, caso eu diga alguma bobagem) para comentar alguns dos erros mais frequentes que encontro e divagar sobre algumas causas para isso.</p>
<p>Eu encontro principalmente erros de três ordens:</p>
<p><strong>1) ERROS ORTOGRÁFICOS</strong><br />
Caramba (quase que eu falo um palavrão bem cabeludo, deu vontade)! Ninguém mais olha dicionário, não? Tem<em> online</em>, nem precisa ir até a estante abrir o livrão. Letras trocadas, letras comidas, letras sobrando, e não são erros de digitação. São erros mesmo, em provas feitas à mão. Sem falar que o vocabulário anda empobrecendo rapidamente. Nossa língua é belíssima (como é mesmo o verso sobre &#8220;a última flor do Lácio&#8221;?) e provê vocábulos para quase todas as ocasiões, com distinções sutis que permitem escolher o mais adequado a cada caso. Entretanto, o repertório mais corrente é fraquinho a vida toda, e tome repetições de termos, uso indiscriminado de &#8220;coisas&#8221; e outros termos genéricos, que prejudicam muitas vezes a própria compreensão correta do que se pretendia dizer, truncando a comunicação da mensagem. Termos que eu cresci ouvindo e utilizando na liguagem oral cotidiana, como corriqueiros, são considerados hoje como &#8220;falar difícil&#8221;.</p>
<p>Ainda nesta categoria, incluo os erros de acentuação. Isso quando há acentuação. É preguiça? Uma das coisas que eu mais faço em prova é ir colocando (ou tirando) acento, conforme esteja faltando ou sobrando. Eu não sei de cor aquelas regras todas (acentuar ditongos abertos em oxítonas e coisas do gênero, só lembro de certeza que se acentuam as proparoxítonas, com algumas raras e clássicas exceções), e agora, de novo, com esse maldito acordo ortográfico, vou errar muito, porque idéia e herói pra mim são inadmissíveis sem acento, bem como é inadmissível, para mim, deixar de existir acento na flexão do verbo parar (pára), que ajudava tanto a diferenciar da preposição &#8220;para&#8221;.  Mas enfim. O fato é que de tanto ler a gente acaba absorvendo. E as dúvidas, tá aí o dicionário para dirimí-las (hahaha, essa foi de propósito, não resisti).</p>
<p>Não posso deixar de falar da crase. Ninguém mais sabe usar, não? Nem em placa de trânsito, vamos combinar. Ou muito menos. O que a gente encontra de, sei lá, &#8220;Parati <strong>à</strong> 10 km&#8221;, não está no gibi. Cruzes. A irmã da <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/duasfridas.wordpress.com/?referer=');">Monix</a>, uma vez, numa conversa, disse uma coisa engraçadíssima que é a pura verdade, e eu vivo repetindo desde então: a impressão que se tem é que a crase é usada como orégano na pizza. A gente acaba de escrever, polvilha umas tantas sobre o texto, onde cair, caiu. Não tem lógica, não tem padrão. Regrinhas básicas, minha gente: a crase, pra começar, não é um acento. Ela é um fenômeno de contração, da preposição &#8220;a&#8221; com o artigo feminino &#8220;a&#8221; (tá, eu sei que pode contrair também com os pronomes demonstrativos &#8220;aquele&#8221;, &#8220;aquela&#8221;, &#8220;aquilo&#8221; e seus plurais, mas não vamos complicar agora). Ou seja, se a palavra que você for usar puder ser substituída por uma masculina e o resultado ficar &#8220;ao&#8221;, então tem crase (antes da feminina), se não, não tem. Exemplo idiota: Vou <em>AO</em> salão de beleza. Troque &#8220;salão de beleza&#8221; por alguma coisa no feminino, que pressuponha o artigo &#8220;a&#8221;, tipo &#8220;a lavanderia&#8221;. Fica: Vou <strong><span style="text-decoration: underline;">à</span></strong> lavanderia. Mas eu não posso ir <strong>à</strong> São Paulo, entende? São Paulo não é uma palavra feminina, portanto, não tem nenhum artigo aí escondido. Exatamente por isso, <em>pelamordedeus</em>, não ponham crase antes de verbo no infinitivo! Me dá calafrios ler na prova &#8220;não-sei-o-quê levou o rei <strong>à</strong> decidir que&#8230;&#8221;. Argh. Nunca mais, prometem? Eu só toquei na pontinha do iceberg, não vou me alongar , caso contrário fica um post gigante só sobre o uso da crase (já vai ficar um post gigante). Releiam as gramáticas de vocês. Ainda se adota <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Evanildo_Bechara" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Evanildo_Bechara?referer=');">Evanildo Bechara</a> no colégio? E adianta alguma coisa?</p>
<p>Pontuação entra aqui, em erros ortográficos? Acho que não. Mas eu vou dizer uma coisinha só, por favor: <strong>NÃO EXISTE VÍRGULA ENTRE O SUJEITO E O VERBO!</strong> A menos que haja uma outra expressão ou oração intercalada. Olha só: &#8220;Fulano de tal, aquele salafrário, me deve um dinheirão&#8221;. A expressão &#8220;aquele salafrário&#8221;, que ficou entre o sujeito &#8220;Fulano de tal&#8221; e o verbo &#8220;me deve&#8221;, fez aparecerem as vírgulas (me poupe, eu sei que o pronome &#8220;me&#8221; não faz parte do verbo, sei até que ele é objeto indireto nessa frase, é só pra facilitar o entendimento pro povo que não deve ter nem idéia do que eu estou falando &#8211; idéia com acento emburrado, sim, mas não emburrecido). Se eu dissesse apenas &#8220;Fulano de tal me deve um dinheirão&#8221;, não haveria vírgula depois do Fulano de Tal.</p>
<p>Eu tenho uma teoria de que as pessoas colocam vírgula onde os repórteres fazem pausas na hora das reportagens. Alguém ensinou um dia que a vírgula é a pausa, a hora em que você pára para respirar (viu? imagina se eu não pusesse o acento no verbo pára? No mínimo, fica muito feio). Aí, a maioria dos repórteres hoje em dia, ao vivo, na TV, sei lá por quê, fala assim, roboticamente: &#8220;o delegado titular da 14a. DP&#8230; revelou que&#8230; o suspeito&#8230; já se encontra&#8230; sob vigilância&#8221;. Tudo picotadinho, já reparou?. E o povo dana de botar vírgula em todas essas pausas, na hora de escrever.</p>
<p>Sim, o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jos_C3_A9_Saramago?referer=');">Saramago</a> pode (podia) escrever do jeito que ele bem entender, sem vírgula nem ponto nenhum, nem parágrafo, nem travessão para indicar diálogos, e ainda assim estará tudo certíssimo e maravilhoso. Nenhum de nós outros mortais tem esse direito.</p>
<p>Não, eu não vou falar sobre o uso dos por quês, juntos, separados, com ou sem acento. Mas muita gente boa erra demais nisso aí também. Tá, eu vou falar, mas bem rasinho. O critério não é se é pergunta (separado) ou resposta (junto). Isso é ridículo. Eles têm sentidos diferentes, expressam relações diferentes entre as orações que conectam. Não é pra decorar. Tem que entender o sentido da frase pra saber se é junto ou separado. Mas se você, aluno, se deparar com um enunciado de prova assim: &#8220;Explique <strong>porque</strong> tal coisa aconteceu&#8221;, me faz um favor? Corrija o professor que escreveu isso. Presta atenção: o que o cara quer perguntar é: &#8220;Explique POR QUE RAZÃO tal coisa aconteceu&#8221;. Dá até pra trocar por: &#8220;Explique POR QUAL MOTIVO tal coisa aconteceu&#8221;.  Ou seja, o que você tem aí é uma preposição e um pronome relativo, e não uma conjunção. Tá bom, esquece essa parte. Mas esse é um macetezinho que resolve quase sempre: se você puder enfiar a palavra &#8220;razão&#8221; ou &#8220;motivo&#8221; depois da expressão &#8220;por que&#8221;, sem prejuízo do entendimento da frase, então é pra escrever separado. O &#8220;porque&#8221; junto exprime <strong>a causa</strong> do que foi dito imediatamente antes. Assim: &#8220;Faltei à aula PORQUE estava doente&#8221;. Ou seja, estar doente é <strong>a causa</strong> de eu ter faltado à aula (ou AO jogo, tá vendo como a gente substitui feminino por masculino pra conferir se tem o artigo e aí colocar a crase?). Conclusão: se eu disser (eu não, mas eu já vi enunciado de prova assim): &#8220;Explique <strong>porque</strong> tal coisa aconteceu&#8221;, com o &#8220;porque&#8221; junto, eu estou assumindo que o acontecimento dessa coisa é a causa da minha explicação, é o que me faz ter que dar explicações. Ficou claro? Eu acho que não o suficiente, mas vamos adiante.</p>
<p><strong>2) ERROS DE CONCORDÂNCIA OU REGÊNCIA VERBAL.</strong><br />
Saber se um verbo pede ou não pede uma preposição é muito difícil?Jura? Eu me sinto pernóstica e pré-histórica. Olha só: eu digo &#8220;a regra <strong>a </strong>que me refiro é essa&#8221;. Esse &#8220;a&#8221; em negrito é uma preposição que rege o verbo referir-se. Quem se refere, se refere A alguma coisa. Então eu não posso dizer &#8220;a regra que eu me refiro&#8221;, o verbo fica capenga. Quando meus filhos eram menores e traziam deveres para casa e eu tentava ajudar, eu sempre dizia a eles (e eles morriam de rir), que o verbo é O CARA de qualquer oração. Tudo você pergunta pro verbo, se apertar direitinho, ele entrega tudo. Olhem o verbo, sempre, criem outra frase com o mesmo verbo, de preferência bem simples e em ordem direta, e confiram se ele tem preposição ou não.</p>
<p>Nessa mesma seara, do uso das preposições (e de um pronome em particular), eu estou louca pra dar um ponto extra pro aluno que conseguir usar um &#8220;cujo&#8221; corretamente. Dou dois pontos se a frase estiver corretamente articulada usando &#8220;de cujo&#8221;, &#8220;para cujo&#8221;, &#8220;com cujo&#8221; e suas variantes no plural e/ou no feminino. Pausa para eu suspirar.</p>
<p>Ainda sobre concordâncias. De gênero e número. Queridinhos, prestem atenção ao que vocês escrevem, e a quais coisas vocês estão se referindo. Quando a criatura resolve escrever uma frase comprida e o sujeito fica muito longe do verbo, pronto, danou-se: o verbo perde qualquer relação com esse sujeito. Aí a gente vê sujeitos no plural com verbos no singular, sujeitos no feminino e os complementos, lá no final da frase, no masculino, uma beleza. Vejam isso: &#8220;As leis criadas pelo imperador X, no ano Y, determinava que&#8230;&#8221;. Quem é que determinava alguma coisa? Interroga o verbo que ele é frouxo e responde sempre: a<span style="text-decoration: underline;">S</span> Lei<span style="text-decoration: underline;">S</span>.<strong> Plural</strong>. Então, elas determinava<span style="text-decoration: underline;"><strong>M</strong></span>. Eu encontro isso nos textos muito mais vezes do que seria tolerável.</p>
<p><strong>3) O tipo de erro mais grave na minha opinião: ERROS DE LÓGICA OU DE CONSTRUÇÃO DE SENTIDO.</strong><br />
Esse é sério porque compromete o entendimento do que se diz, ou seja, compromete a própria comunicação. Uma das partículas que nos ajudam a construir as frases para dizer o que a gente quer são as benditas conjunções. Eu estou me lixando (desculpem-me os professores de português) se você sabe se aquela conjunção é adversativa ou conclusiva, ou mesmo se você sabe identificar quais são as conjunções num trecho de texto qualquer, mas você tem que saber usá-las de forma a dizer o que você quer dizer, ou seja, tem que saber o sentido que elas dão às frases, de que maneira elas ligam as frases umas nas outras. Caso contrário, você acha que está dizendo uma coisa e está dizendo outra completamente diferente.</p>
<p>Eu cansei de ver, nos exercícios que meus filhos traziam para casa da escola, questões que pediam que eles identificassem as conjunções num determinado período, e apontassem o &#8220;valor semântico&#8221; dessa conjunção. Quem sou eu pra dizer se a maneira de elaborar esse tipo de questão é a mais pertinente ou eficaz, mas eu vejo, diariamente, que isso é uma coisa que os alunos simplesmente não aprendem. As falhas mais constantes são na hora de estabelecer relações de causa e efeito entre fenômenos ou situações diversas. O pessoal não se dá conta do que está dizendo. Eu queria lembrar uns exemplos recentes pra contar pra vocês, mas agora me fogem. Eu estou com sono, larguei o trabalho às 11 da noite pra vir aqui escrever isso, já é mais de 1 da manhã e eu ainda tenho que montar a prova de daqui a pouco.</p>
<p>Tem um monte de outras coisas&#8230; ah, lembrei só mais uma que não posso deixar de gritar. Sim, gritar: <strong>o verbo HAVER (e as expressões verbais que o utilizam) com o sentido de EXISTIR <span style="text-decoration: underline;">NÃO FLEXIONA NO PLURAL!!!</span></strong> Ponham isso na cabeça, por mais que possa parecer estranho. <span style="text-decoration: underline;">HOUVE</span> uma série de acontecimentos, e não &#8220;HOUVERAM&#8221;. <span style="text-decoration: underline;">DEVERIA HAVER</span> muitas pessoas lendo isso, e não &#8220;DEVERIAM&#8221;. Promete que esse você não erra mais? Por favor? Obrigada.</p>
<p>Se eu ficar aqui lembrando de todos os outros casos, eu vou reescrever a gramática, e eu não tenho competência pra isso, além do que excelentes gramáticas já estão escritas. O que eu quero defender aqui é que a gente não escreve corretamente só por obrigação chata. E não só jornalistas, escritores ou gente que se forma em Letras têm obrigação de escrever direito. A linguagem escrita é uma das nossas formas de comunicação mais usadas. Todos os profissionais precisam ou precisarão escrever alguma coisa algum dia: uma dissertação, um artigo, um contrato para um cliente, um memorial de um projeto, uma prova num concurso, um e-mail para um fornecedor, um bilhete de instruções para um funcionário. E não é uma questão apenas de &#8220;pegar mal&#8221; você cometer erros crassos (embora isso pese um bocado em algumas situações), mas de você transmitir a sua mensagem da melhor forma possível, de maneira a não criar dúvidas, não gerar mal-entendidos, não perder oportunidades por falta de saber se expressar corretamente.</p>
<p>Eu não sei por que (separado, viu?) os alunos escrevem cada vez pior. Não vou culpar internet nem msn, pelo menos não apenas. Acho que se lê muito pouco, e com pouca atenção, e isso é crônico. Acho também que os métodos de ensino contemporâneos estão defasadíssimos. Ainda usamos metodologias didáticas do início de século XX, para uma geração que faz conexões diferentes, domina recursos diferentes, tem ritmos e percepções de mundo diferentes. Não é só culpar o aluno. A escola também precisa se adaptar, se reinventar e ainda não deu conta disso. Precisa aprender a explorar e utilizar os potenciais das novas habilidades destes novos alunos. Como? Eu também não sei. Mas acho que buscar e construir respostas a essas questões é urgente. E escrever direito também. Ô gente, faz um esforço aí, vai?</p>
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		<title>Rapidinho, só pra dizer que eu não sumi</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2010 15:43:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Não só eu não sumi, como estou com os dedos coçando muito de vontade de continuar este assunto e começar outros. Mas o final do semestre está pior do que eu imaginava.</p>
<p>Além das pilhas de trabalhos e provas para corrigir, provas finais para preparar, notas para lançar, últimas aulas para montar (algumas de assuntos que &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não só eu não sumi, como estou com os dedos coçando muito de vontade de continuar este assunto e começar outros. Mas o final do semestre está pior do que eu imaginava.</p>
<p>Além das pilhas de trabalhos e provas para corrigir, provas finais para preparar, notas para lançar, últimas aulas para montar (algumas de assuntos que &#8211; eu confesso sem pudor &#8211; tenho que pesquisar e ler muito antes porque nunca falei do tema), juntaram-se questões familiares que requisitaram a minha completa prioridade. Já está tudo encaminhado, ou pelo menos se encaminhando, com boas perspectivas de solução/tratamento, mas deu pra passar susto.</p>
<p>Nesse meio tempo, meu filho caçula fez 16 anos essa semana e isso me provocou uma avalanche de sentimentos muito bons mas muito intensos, reavaliações da minha própria adolescência, da minha relação com ele, da maneira como eu o vejo e como me sinto em relação a ele, e uma pequena frase num e-mail da minha mãe fez tanto significado pra mim. Eu tinha escrito umas coisas sobre isso tudo, e quis mostrar a ela. Ela me disse que ficou emocionada e que viu, na descrição que eu fiz dele, muito de mim, quando eu era pequena. Ela me chamou a atenção para o quanto ele se parece comigo em diversos traços de personalidade. Engraçado como a gente esquece as coisas (algumas coisas pelo menos), e é verdade. Ao longo desses 16 anos do crescimento, desenvolvimento, amadurecimento dele, muitas vezes olhar para o meu filho foi como olhar para um espelho, só que esse processo todo é inconsciente, e gera uns conflitos e até uns desconfortos dos quais só agora eu tenho me dado conta. Hoje eu percebo o quanto ele está num momento bonito e importante, tomando pé dos seus destinos, fazendo suas escolhas com clareza e maturidade (para a idade dele, claro), se tornando um rapaz bacana e cheio dos melhores potenciais e fico tão orgulhosa disso. Principalmente porque ele tem mostrado personalidade para traçar o próprio caminho, sem andar na sombra de ninguém. Essa coisa de reconhecer (e acolher em paz) os traços que a gente traz dos pais, da história da família, e ainda assim se saber e se contruir diferente é muito bonita. E complicada, e difícil de vez em quando, e leva tempo (levou pra mim, pelo menos). Pronto, acabou o momento terapia em público. <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Devo dizer ainda, em minha defesa, que cerca de dez dias atrás, eu cheguei a escrever o capítulo 2 inteirinho desse nosso tema islamismo, bem como prometido: a Arábia pré-islâmica e o contexto do surgimento de Maomé, assim como dos fundamentos da nova religião.  Estava sendo tudo escrito num arquivo separadinho, e, devo sucumbir à vaidade pra dizer que ficou muito bem arrumadinho. Faltava só inserir as imagens e links. Tudo sendo salvo a cada parágrafo acrescentado. Aí (parece desculpa de aluno, pra eu pagar a minha língua) o computador travou (meu <em>departamento técnico</em>, <em>aka Marido</em>, já identificou que o HD está em seus últimos suspiros de vida e é isso que está ocasionando esses problemas), eu tive que reiniciar e eis que: cabum! ele havia simplesmente esvaziado o arquivo inteirinho. O arquivo estava lá, na pasta certa, mas o conteúdo sumiu! Mesmo com meu personal expert, não foi possível recuperar nenhuma linha. Fiquei tão braba e chateada (eu tinha levado três horas ajustando tudo, checando informações, revisando, vocês pensam que escrever é fácil?) que m abati e não consegui escrever de novo. Os problemas já mencionados de final de semestre e prazos se acumularam e eu ainda não consegui enfrentar o assunto de novo. Mas vou fazê-lo, tenham paciência. Quem sabe semana que vem?</p>
<p>Bom, isso é porque o título do post era &#8220;Rapidinho&#8221;. Imagina se fosse &#8220;Devagarinho&#8221;. <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Já volto. Bjs</p>
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		<title>Muçulmanos, islâmicos, e outras provocações</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/06/13/muculmanos-islamicos-e-outras-provocacoes/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2010/06/13/muculmanos-islamicos-e-outras-provocacoes/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Islã]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</p>
<p>Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que está indo ao ar agora.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como diz a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.dropsdafal.blogbrasil.com/?referer=');">Fal</a>, pra isso Deus inventou o blog, pra gente falar o que bem entende, então tou com uma vontade irresistível de abordar mais a fundo esse tema dos muçulmanos. Claro, vou encaminhar o assunto mais para o lado da arte, arquitetura, urbanismo, contribuições científicas, história. Não estou com disposição, nem tenho conhecimento aprofundado pra isso, de entrar na seara da política internacional contemporânea, muito menos da teologia, mas o objetivo é dar uma beliscada também nisso, ainda que indiretamente.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Na verdade, desde muito nova, a região do Oriente Médio e a cultura muçulmana me despertam enorme curiosidade, não sei explicar por quê. Sempre foi um paradoxo para mim que a cultura rica, avançada e tolerante que eu conhecia através das histórias das Mil e Uma Noites e de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar_de_Melo_e_Sousa" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_C_C3_A9sar_de_Melo_e_Sousa?referer=');">Malba Tahan</a> (que muito mais tarde eu vim a descobrir que era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Melo e Souza, escritor e matemático, que ainda por cima era o pai do meu primeiro professor de projeto na faculdade de Arquitetura – e vocês não podem imaginar a emoção do velhinho quando eu reconheci o sobrenome dele e elogiei o papel da literatura do pai dele na divulgação da matemática e de uma visão mais positiva da religião islâmica)&#8230; O problema de fazer orações muito longas é que a gente começa e depois se perde. Eu dizia que achava um paradoxo que essa mesma cultura estivesse associada, através dos noticiários, desde que eu me entendo por gente (e hoje eu sei que desde muito antes disso) a tantas guerras e disputas sangrentas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span></p>
<div id="attachment_797" class="wp-caption aligncenter" style="width: 774px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg"><img class="size-full wp-image-797" title="islam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg" alt="" width="764" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fontes das imagens, em ordem: http://www.grupoescolar.com/a/b/7AC53.jpg; http://conexaooriente.wordpress.com/2007/09/10/as-mil-e-uma-noites/; http://independenciasulamericana.com.br/2009/01/falcoes-impoem-guerra-a-obama/</p></div>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como eu expliquei no post anterior, eu tinha dado aula sobre as cidades muçulmanas e me dei conta do universo que o tema abria em termos de discussão de preconceitos, de história, de recuperação de dados e episódios que podem nos ajudar a ter um entendimento mais amplo e livre sobre o assunto. Assim, idealizei esta série, composta por alguns capítulos fartamente ilustrados e que já estão quase todos prontos, de maneira que eu não devo ter intervalos tão longos entre uma postagem e outra.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje farei <strong>provocações iniciais</strong> e pretendo esclarecer alguns conceitos no campo da semântica mesmo, e da antropologia, que é pra gente combinar a que está se referindo quando disser uma coisa ou outra.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Depois, teremos uma breve história da <strong>Arábia pré-islâmica</strong> e a importância do <strong>surgimento de Maomé</strong> naquele tempo e espaço específicos, o que ajuda a explicar a rápida disseminação de sua doutrina.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">No capítulo seguinte,  daremos uma olhada no período de <strong>expansão territoria</strong>l e o surgimento das  primeiras <strong>dissenções</strong> (a gente escuta tanto falar em xiitas e sunitas:  quem são eles, quando se dividiram, quais as suas principais  diferenças?).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A seguir, veremos as <strong>contribuições dos muçulmanos no campo da ciência e cultura</strong> (especialmente a literatura e a nossa  herança linguística via portugueses-espanhóis).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Aí entraremos no capítulo  específico de <strong>Artes e Arquitetura</strong>. Falaremos dos arcos em ferradura, das mesquitas,  dos minaretes, ds mosaicos belíssimos, dos palácios e do Taj Mahal, um  dos monumentos funerários mais conhecidos do mundo.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">E como fechamento, uma  <strong>análise das cidades e dos traçados urbanos</strong>, buscando explicar a forma  tão característica das cidades muçulmanas à luz da cultura e de uma  sabedoria interessante em termos de conforto ambiental. E  reconheceremos, mais uma vez via colonização portuguesa, alguns  elementos e desenhos tão comuns nas nossas cidades coloniais, aqui no Brasil.<br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O objetivo geral será provocar uma reflexão sobre a diversidade de um mundo que tendemos a generalizar de forma muito reducionista, e enxergar esse que é o &#8220;Outro&#8221; por excelência no nosso mundo ocidental menos sob o enfoque de certo/errado, civilizado/bárbaro, moderno/conservador, e mais do ponto de vista da diferença mesmo, e de como, no meio dessa diferença, temos tantas coisas e humanidades em comum. O que vocês acham? Vou indicar livros, fontes diversas e principalmente muitos filmes (para os quais aceito sugestões).</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Diversidade</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A verdade é que, pra nós, esse é um pessoal muito esquisito mesmo. E a gente tende a olhar com desconfiança, quando não com medo e hostilidade pra tudo o que é muito diferente de nós. Se é tão diferente, não pode ser bom. Ou certo. Porém, especialmente a partir dos ataques às torres gêmeas de Nova York, em 2001, a gente tende a associar rapidamente muçulmano com Oriente Médio, terrorista, mulher de burca, guerra, intolerância, pouca participação política. E não é por acaso. Mas eu falo disso daqui a pouco.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O que eu quero afirmar é que o mundo muçulmano é extenso, rico e diverso, e qualquer generalização é empobrecedora da visão que se pretende ter. Pra nós, eles podem ser gente esquisita. Mas vamos relativizar: nós somos esquisitos pra eles também. Olhar para culturas diferentes requer um exercício de empatia, um esforço de – nem que seja por uma fugaz fração de tempo, conseguir se colocar no lugar do outro, e tentar ver o mundo como ele o vê.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje, o Islamismo é a religião em mais rápida expansão no mundo, com 1.3 bilhões de fiéis, cerca de 20% da humanidade (é a maior religião do mundo, considerada individualmente. O Cristianismo tem mais fiéis, mas que estão divididos em variadas denominações e igrejas: católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais etc). Ou seja, não temos saída a não ser repensar a convivência com este “Outro”.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Esta imensa população muçulmana habita um vasto arco no planeta, que vai da África Ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e a Índia. Algumas vezes, são maioria da população local, outras vezes são importantes minorias. As migrações intensas que caracterizam nosso mundo contemporâneo já formam  enclaves consideráveis de grupos muçulmanos em diversos países da Europa e das Américas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-800" title="Image-001" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg" alt="" width="750" height="535" /></a><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Este mundo é diverso quanto às histórias, etnias, línguas, tradições sociais, maneiras de ver e conviver com o mundo, com o meio ambiente e com os vizinhos. Como traço comum, eles têm o Islã, a religião. Mas mesmo aí há contrastes: nas formas rituais e sociais, e até no núcleo de crenças e maneiras de aplicá-las à sociedade. Nem tem como ser diferente. O Islã surgiu há mais de 1400 anos e se espalhou, como acabamos de ver, por três continentes, onde teve contato com sociedades variadas, algumas milenares, e encontrou em cada lugar condições diferentes entre si, que geraram mesclas diferentes.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma questão de terminologia</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A primeira coisa, portanto, é tentarmos tecer alguns esclarecimentos semânticos, para desfazer confusões terminológicas.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Pra começar, <strong>árabe</strong>: termo que se refere a uma etnia, oriunda da península arábica (olha o mapinha aí embaixo, com a divisão político-territorial de hoje). E como já vimos, há muçulmanos de outros outros povos, malaios, africanos, iranianos (de origem persa), turcos, hindus. E mesmo entre os árabes, há os que professam outras religiões, ainda que sejam minorias. Portanto, <strong>muçulmano não é sinônimo de árabe</strong>. Nem de palestino, que por sinal também não é árabe.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg"><img class="size-full wp-image-801" title="arabian_peninsula_map" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg" alt="" width="441" height="371" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog/2009/07/iemen/</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Oriente Médio:</strong> diz  respeito a uma região geográfica em particular, maior que a Península  Arábica, e que é apenas uma fração do território hoje ocupado pelos  muçulmanos (numericamente falando, menos de 30% de todos os muçulmanos  do planeta estão ali). Além disso, há no Oriente Médio importantes  nações muçulmanas de povos não-árabes, como turcos e curdos, e mesmo  nações não-muçulmanas (ou pelo menos não majoritariamente muçulmanas),  como Israel. Além de grupos e populações de outras religiões em várias  dessas nações (cristãos e ortodoxos no Líbano, na Síria, em Israel etc).  Aliás, a própria designação daquela região geográfica como Oriente  Médio é discutível. O termo é evidentemente eurocentrista, de origem  inglesa, e data do século XIX, quando o império britânico controlava um  quarto da Terra. Também não podemos esquecer que historicamente o  Oriente Médio se encontra na encruzilhada de múltiplas influências  culturais e foi, durante séculos, o ponto de comunicação, tanto por mar  quanto por terra, entre a Europa e as civilizações orientais (Índia,  China e sudeste asiático). Se a gente ainda pensa que após séculos de  supremacia islâmica as potências européias ocuparam e retalharam a  região a partir do século XIX, segundo seus interesses e em prejuízo da  população local, o que é (mais uma) fonte de grande humilhação e  ressentimento desses povos em relação ao mundo e aos valores ocidentais,  e pra culminar grande parte do petróleo do mundo está ali, começamos a  entender a importância estratégica dessa região e a cobiça de tantas  nações pelo controle desse território.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_802" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg"><img class="size-full wp-image-802" title="ori_medio_mapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg" alt="" width="515" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/conflito_israel_x_palestina</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Muçulmano:</strong> termo  que se refere a um fenômeno sociológico, cultural, e que tem uma  abrangência muito maior, envolvendo muitos aspectos para além do  fenômeno religioso.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Islâmico:</strong> termo que  diz respeito especificamente à religião. Por isso a minha preferência  em me referir às cidades como sendo muçulmanas, e não necessariamente  islâmicas. Vou dar exemplos: Teerã, capital do Irã, pode ser considerada  uma cidade islâmica. Mas Istambul, capital da Turquia, ainda que de  maioria muçulmana, não é islâmica. O estado turco é laico, e o arcabouço  jurídico-institucional que rege a vida dos cidadãos de Istambul não se  baseia na <em>shariah</em> (a lei islâmica, interpretada pelos  religiosos), mas em leis laicas. <strong>UPDATE ANTES TARDE DO QUE MAIS TARDE:  A capital da Turquia é Ankara e não Istambul, embora esta cidade (a antiga Constantinopla e, antes disso, Bizâncio) ainda seja uma das mais &#8211; senão A mais &#8211; conhecida e importante do território turco. </strong><br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A sobreposição dessas definições tem origem num raciocínio simplista: os árabes moram no Oriente Médio e são majoritariamente muçulmanos. Daí para serem majoritariamente fundamentalistas e terroristas não custa muito. Eu tenho cá pra mim que há um certo interesse ideológico, hoje mais que nunca, em que essa confusão permaneça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">De fato, originalmente, os termos árabe e muçulmano coincidiam, quando a religião nasceu ali, em Meca, e se expandiu primeiramente pela Península Arábica, onde rapidamente converteu quase todos os habitantes. Depois, a expansão do Islã levou à conquista do Oriente Médio (sempre vale repetir: maior e mais amplo do que os países árabes), que adotou em grande escala a língua arábica e a fé islâmica. E num terceiro momento alcançou outras partes do planeta, de forma que – eu volto a frisar – o mundo muçulmano hoje é muito mais amplo e diverso do que o mundo árabe ou mesmo do que o Oriente Médio. Claro que aquela região tem um peso ideológico grande, afinal, foi ali que nasceu Maomé, e o árabe é a língua sagrada do Alcorão. Ainda que nem todos os muçulmanos falem necessariamente árabe, diga-se de passagem.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Por outro lado, islamismo e islamista têm sido termos utilizados para se referir ao movimento religioso radical do Islã político, o tal do fundamentalismo. Portanto, é confuso e incorreto falar em islamismo como sinônimo de Islã, como acontece às vezes em português. A teoria política do Islã prescreve a unidade de todos os fiéis numa única comunidade (<em>ummah</em>), pressupondo uma unidade política, que chegou a existir nos primeiros dois séculos, mas rapidamente se desfez. A própria diversidade de experiências sociais, políticas e culturais encontradas nas vastas terras conquistadas fez com que o mundo muçulmano tenha sempre sido e continue sendo muito dividido. Como a religião ocupa uma parte muito central e essencial na cultura muçulmana, as divergências internas comportam debates sobre o papel das leis religiosas (<em>shariah</em>) na vida pública e privada, comportam leituras fundamentalistas dos textos sagrados que municiam ideologicamente grupos terroristas, e comportam o pensamento de grupos menos conhecidos (e eu sempre me pergunto: a quem interessa que esses grupos sejam menos conhecidos por nós?) do Marrocos à Malásia, que, com base na mesma religião, lutam pela democracia e pelo diálogo pacífico com outras civilizações. E por fim, eu pergunto: essas mesmas divergências e extremismos não existem também entre os seguidores de outras fés, como judeus e cristãos? Quantas atrocidades já foram e continuam a ser cometidas em nome de Deus e brandindo Bíblias e Torás?</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Mas afinal, o que quer dizer Islã?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A tradução do árabe, literalmente, quer dizer <strong>submissão, rendição à vontade de Allah.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">É fundamental entender que o Islã é uma religião tão expansionista e reinvindicadora do monopólio da verdade quanto o cristianismo. Porém, de forma mais radical e total, o Islã abrange<strong> todas as esferas da vida </strong>de seus seguidores:<strong> </strong>é uma religião (crenças, rituais, normas, fonte de consolação), mas também é uma comunidade (<em>ummah, </em>em árabe) e um modo de viver ou tradição (<em>sunna</em>), que regulariza todas os aspectos da vida: o modo de viver dos indivíduos e as etapas de seu desenvolvimento, a educação, as relações entre homens e mulheres, a vida familiar e comunal, o comércio e o governo, a justiça e a filosofia. Ou seja, enquanto para nós, ocidentais, a religião pertence à esfera da vida privada, para os islamistas, este conceito não existe, e a religião regula toda a vida da comunidade, pública, política e privada. Em consequência dessa onipresença da religião, o Islã é o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações submetidas a ele.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O Islã é também um <strong>sistema jurídico-religioso total: </strong>edificado nas bases sagradas dos prímeiros séculos e que continua evoluindo, com toda a complexidade já exposta. Sua estrutura hierárquica pressupõe a igualdade entre os fiéis. Os legistas especializados são intérpretes da vontade de Deus e não mediadores ou representantes divinos.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>E a Jihad, o que é?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Segundo o Alcorão (e no próximo post sobre o assunto veremos em que circunstâncias isso foi escrito), o primeiro dever de um muçulmano consiste em construir uma sociedade justa e igualitária, em que pobres e fracos sejam tratados com respeito. Isso demanda uma <em>jihad</em>, cuja tradução literal deveria ser a de<strong> “luta ou esforço em favor de Deus”</strong>. Ou seja, a <em>jihad</em> mais importante é a que o fiel trava consigo mesmo, a disciplina de transformação interior que leva ao compromisso total com Deus. Poderia ser ainda traduzida por militância, em todas as frentes: espiritual, política, social, pessoal, econômica e militar. Daí sua aplicação também como “guerra santa”, tendo tido grande impacto na rápida expansão islâmica. A mobilização pela fé muitas vezes se fez através da guerra. Mas não pode ser reduzida a esta tradução.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Vou terminar explicitando e recomendando fortemente a bibliografia em que me baseei para as reflexões e dados expostos hoje. Em primeiro lugar, sempre, recomendo os livros (e são vários) da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong?referer=');"><strong>Karen Armstrong</strong></a>. Ela é uma inglesa, ex-freira, formada pela Universidade de Oxford e atualmente grande e respeitada estudiosa das religiões. Leciona numa faculdade de estudos do judaísmo e formação de rabinos, e é a mesmo tempo membro da Associação Muçulmana de Ciências Sociais, com prêmios concedidos por várias organizações de estudos islâmicos. Entre seus livros mais famosos estão <span style="text-decoration: underline;">Uma História de Deus</span> (1994), <span style="text-decoration: underline;">Jerusalém, uma cidade, três religiões</span> (2000), e <span style="text-decoration: underline;">A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias</span> (2006). Além, é claro, deste que eu usei aqui, que foi o primeiro que eu li e pelo qual me apaixonei, chamado <span style="text-decoration: underline;">Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo</span> (2001). Todos foram editados no Brasil pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.companhiadasletras.com.br/?referer=');">Companhia das Letras</a>, têm linguagem envolvente, narrativa fascinante, não requerem nem grandes conhecimentos prévios nem nenhuma crença ou espiritualidade por parte do leitor, já que os temas são encaminhados da maneira mais isenta possível, ainda que se perceba que a autora é, pessoalmente, uma mulher de tocante fé religiosa, e de uma visão profundamente humanista.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O segundo livro usado hoje se chama <span style="text-decoration: underline;">O Mundo Muçulmano</span> (2004), de autoria de <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921&amp;referer=');"><strong>Peter Demant</strong></a>, e publicado pela <a href="http://www.editoracontexto.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.editoracontexto.com.br/?referer=');">Editora Contexto</a>. Demant é um historiador holandês, especialista em Oriente Médio, cuja tese de doutorado tratou sobre a ocupação e colonização israelense nos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém na década de 90, como pesquisador na Universidade Hebraica e membro ativo nos diálogos pela paz entre acadêmicos israelenses e palestinos. Mora no Brasil desde 1999, onde dá aulas no Departamento de História da USP. Eu achei o livro dele muito, muito claro, organizado didaticamente, de maneira a nos levar a entender os contextos históricos do surgimento do islamismo e da eclosão das ondas fundamentalistas que varrem o Oriente Médio há tantas décadas, sem descuidar de questões importantes em  vários outros lugares em que o islamismo é a religião principal. Foi nesse livro que eu li pela primeira vez e aprendi sobre os interesses e problemas envolvidos na criação do Estado de Israel em 1948, pela ONU, sobre as guerras de Israel com Egito, Síria e Líbano, sobre a ascensão dos aiatolás no Irã, sobre a Primeira Guerra do Golfo, sobre a disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e muitas outras coisas. Vira e mexe eu pego de novo para consultar alguma coisa.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Embora com enfoques diferentes, ambos apresentam dados solidamente fundamentados e um pequeno dicionário ao final, com esses termos todos do árabe que a gente às vezes escuta e não sabe o que querem dizer.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Deixo vocês, também, com uma pequena lista de filmes, entre os que eu assisti, e que me ajudaram a rir, a me emocionar, a me reconhecer, a estranhar e a aprender muita coisa que desmitificou esse universo e esses lugares para mim. Outras contribuições, tanto bibliográficas quanto cinematográficas são muito bem-vindas. No próximo capítulo, a <strong>Arábia pré-islâmica e o aparecimento de Maomé</strong>. </span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Fahreinheit 11 de setembro (Fahreinheit 9/11)</strong>, EUA, 2004. Dir: Michael Moore. Documentário sobre como os ataques foram o pretexto perfeito para a guerra contra o Afeganistão e, mais tarde, o Iraque.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma amizade sem fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran)</strong>, França, 2003. Dir: François Dupeyront. Romance fofo sobre a amizade, num bairro pobre de Paris da década de 60, entre um dono de armazém muçulmano (Omar Shariff, impagável) e um menino judeu. Trilha sonora deliciosa.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Cruzada (Kingdom of Heaven)</strong>, EUA, 2005. Dir: Ridley Scott. Não que seja um filmaço, mas tenta ver as Cruzadas e a disputa por Jerusalém também por ângulos outros que não só o ponto de vista cristão. A fotografia é linda.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Munique (Munich)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Spielberg.Sobre o atentado que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 e a vingança orquestrada por Israel contra os que idealizaram e participaram dele. O ponto de vista é judaico, mas o incômodo pela brutalidade e pela inutilidade do ódio, que aparecem de vez em quando no personagem principal são válidos.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Syriana – a indústria do petróleo (Syriana)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Gaghan. A politicagem por trás da indústria do petróleo e como isso move guerras e gera lucros monstruosos (em todos os sentidos).<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>O caminho para Guantánamo (The road to Guantánamo)</strong>, EUA, 2006. Dir: Mat Whitecross e Michael Winterbottom. </span><span style="color: #000000;">D</span></span></span></span><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">ocumentário sobre</span> <span style="color: #000000;">as arbitrariedades das prisões de suspeitos em Guantanamo, a partir da história de três muçulmanos britânicos que ficam presos 3 anos sem acusação formal.</span> </span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Babel (Babel)</strong>, EUA, 2006. Dir: Alejandro Iñárritu. Nem sei bem por que eu incluí esse aqui, porque envolve tantos outros temas, mas eu gostei muito. E o mote para toda a ação começa numa explosão que quase mata uma turista americana no deserto do Marrocos, e toda a intrincada rede que se forma a partir daí, envolvendo comércio de armas, imigração ilegal, choque de culturas e solidão.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the Bridge: The Sound of Istambul)</strong>, 2005. Dir: Fatih Akin. Não sei de quem ou de onde é a produção. É um documentário também, que explora a riqueza e diversidade da cultura turca, através de uma viagem pela música, pela gastronomia, pelos pontos turísticos principais e pela observação e contato com as pessoas comuns da cidade.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>O caçador de pipas (The Kite Runner)</strong>, 2007. Dir: Marc Forster. Certamente é uma produção multinacional, mas com participação americana (eu não sei de onde mais). Eu gostei bem mais do livro que do filme, que dá uma “dourada de pílula”, mas é um olhar interessante sobre o Afeganistão, vale a pena.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Persépolis (Persepolis)</strong>, França/Irã, 2007. Dir: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Agora estamos chegando onde interessa. Animação GENIAL, em preto e branco, baseada nas histórias em quadrinho criadas pela iraniana Marjane Satrapi (que também faz a adaptação do roteiro), sobre a vida de uma menina (a história é narrada e apresentada do ponto de vista dela, da infância à vida adulta), sua família, seus dilemas quanto à identidade cultural e participação política no Irã, a partir da Revolução Islâmica. Imperdível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Lemon Tree 	(Etz limon)</strong>, 2008. Dir: Eran Riklis. A produção é parcialmente israelense? Não lembro, não achei a informação. É provavelmente o meu preferido dessa lista toda. Uma viúva palestina sobrevive da plantação de limões. Um dia um ministro de Israel acaba virando seu vizinho e por motivos de segurança, exige que ela derrube todos os limoeiros. Tocante, lindo, angustiante. Com minha atriz palestina preferida, Salma Zidane.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>A banda (Bikur Ha-Tizmoret)</strong>,<span style="text-decoration: line-through;"> Egito</span>, Israel, 2007. Dir: Eran Korilin. Tem momentos engraçados, mas eu não chamaria de comédia. Uma banda da força policial egípcia vai a Israel tocar na inauguração de um centro de artes muçulmano, mas acaba parando na cidadezinha errada. Eles não falam hebraico, os habitantes não falam árabe. Mas a comunicação é possível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Valsa com Bashir (Waltz with Bashir)</strong>, Israel, 2008. Dir: Ari Folman. Outra animação. Dura, realista, amarga, parcialmente autobiográfica. Um veterano israelense da guerra contra o Líbano revisita suas memórias, os motivos e os cenários do conflito. Barra pesada, mas muito bom.<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Caramelo (Sukkar Banat)</strong>, Líbano, 2007. Dir: Nadine Labaki. Já falei desse filme <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">aqui</a>. O cenário é exatamente a Beirute pobre e ainda devastada pela guerra de que trata o filme citado aí em cima. Num salão de beleza transitam mulheres diferentes, com seus dramas pessoais, nos quais a gente consegue se reconhecer tão pungentemente quanto identificar diferenças imensas. Eu amei.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Tem muitos outros, ótimos. <strong>A noiva Síria</strong>, <strong>Procurando Elly</strong> (um iraniano do ano passado que eu acabei não vendo e estou esperando sair em dvd), <strong>Free Zone</strong>, do Amos Gitai, um outro americano recente que eu não consigo lembrar o nome, sobre a relação de amizade improvável mas bonita entre duas moças, professoras do ensino fundamental de uma escola nos EUA, sendo uma de família ortodoxa judia, e a outra de origem palestina. Um fantástico, prêmio pra quem lembrar o nome, sobre dois irmãos palestinos que se transformam em homens-bomba para um atentado do lado judaico, e os conflitos de consciência de cada um. Tem o próprio <strong>Guerra ao Terror</strong>, que ganhou o Oscar desse ano, mas eu não vi, não posso opinar. Lembrem mais e partilhem.</span></span></span></p>
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		<title>Sobre dar aulas e sobre dar aulas de História</title>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 17:21:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p>O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. Claro que os alunos já levantaram a sobrancelha pra perguntar que diferença existe. Aí um levantou o dedo pra saber por que não Cidades Árabes, e eu adorei a deixa.</p>
<p>Não, não vou explicar a diferença agora, porque eu quero falar de outro assunto (depois eu volto nesse, se houver interesse). Mas acabou que eu achei importante falar de algumas questões básicas antes de entrar no assunto urbano propriamente, e no fim das contas vou ter que apresentar o resto da aula em outra semana ou preparar decentemente os slides que eu fiquei devendo, com as imagens que ilustram o que eu falei. Fiquei agradavelmente surpresa com o interesse dos alunos por um tema que a gente tem tão pouca oportunidade de discutir e sobre o qual, de maneira geral, temos uma visão tão parcial, tão limitada. É triste perceber que, quando se fala a palavra “muçulmano”, o estereótipo imediato são as imagens de mulheres de burca e homens-bomba, como se fosse tudo um grande bloco monolítico, cujo foco reside ali naquele miolo do Oriente Médio que o pessoal não sabe nem localizar no mapa. E aí é uma surpresa descobrir que há uma imensa variedade de visões e interpretações doutrinárias dentro da vivência islâmica, que há muçulmanos vivendo em todos os continentes do planeta, e em cada lugar a própria prática da religião assume aspectos diferentes, sem falar nas tradições e costumes sociais, e que há mulheres que gostam de usar o véu e não deixariam de usá-lo nem que deixasse de ser obrigatório. E que isso não impede que elas trabalhem, estudem, usem maquiagem, pintem as unhas de vermelho e comprem lingerie sexy. Não estou dizendo que são todas assim, mas estou dizendo que existem possibilidades distintas dentro do mundo islâmico, uma riqueza e uma multiplicidade de experiências que nós normalmente ignoramos. E perguntar-se POR QUE nós ignoramos é fundamental. A velha história do Outro e do temor que o Outro representa.</p>
<p>Mas aí eu vim pensando essas coisas, e me lembrei que esta mesma semana uma outra aluna veio me procurar no fim da aula pra dizer que queria trocar de turma e vir assistir aula comigo, porque ela tem dificuldades de se concentrar e dispersa muito fácil, daí sempre teve problemas com aulas teóricas e expositivas, porque quando ela se dá conta, o pensamento já tá muito longe e ela não tem idéia do que o professor estava falando, por mais que se esforce por prestar atenção. E que, tendo assistido uma aula minha ela conseguiu acompanhar e entender tudo, porque minha aula era mais “animada”.</p>
<p>Não vou entrar no mérito da saia justa em que isso me coloca, porque o período de alterações de inscrição em disciplina já acabou e o Departamento recomendou expressamente que os alunos permancessem nas turmas em que estão inscritos, nem vou também falar que isso evidentemente alimenta minha vaidade, porque eu luto com ela diaria e sinceramente, e sei que se der sopa ela aparece toda rebolativa e o risco de estragar tudo fica gigante. O que acontece é que isso me botou pra pensar em coisas sobre o ofício de dar aulas, sobre meu jeito particular de dar aulas e refletir sobre os prós e contras de tudo.</p>
<p>Eu saí dali rindo um pouco por dentro, e achando que no fundo o que a aluna quis dizer é que minha aula é <em>performática</em>. E é verdade, tem um pouco de teatro em tudo. Não que eu não seja uma pessoa expansiva e otimista na minha vida em geral, ou que uma aula seja uma farsa, mas há uma certa representação ali, um <em>timing</em>, um ritmo que a gente vai regulando. Tem a hora da piadinha, tem a hora de afrouxar a linguagem, a hora de usar os termos todos corretos e formais. Eu falo alto, eu gesticulo, eu ando pela sala, eu gosto de saber o nome dos alunos para interpelá-los nominalmente, eu fico enfática de vez em quando (e provavelmente vermelha). Os alunos sabem que eu sou flamenguista (e eu sempre brinco quando chega um com camisa de outro time, dizendo que vai perder ponto na prova), sabem que eu tenho dois filhos adolescentes, que eu gosto de cinema e literatura. E eu não sei explicar como, dando aula há vários anos, sempre brincando e tendo um jeito muito afetivo em relação às minhas turmas, eu nunca tive casos de insubordinação em sala, nem nunca alunos que cruzaram o limite da intimidade. A maioria inclusive me chama de “senhora”, mesmo pra fazer alguma brincadeira. Quando eu era bem mais jovem eu achava ruim, tinha vontade de dizer “que isso, pode me tratar por você”, depois passei um tempo encucada achando que eu devia estar ficando mesmo velha, e hoje acho tranquilíssimo. Não me sinto velha por ser chamada de senhora e vejo nisso, pelo contrário, um sinal de respeito e reconhecimento de autoridade quase carinhoso, até. Não ligo e até gosto, embora jamais fosse exigir esse tratamento caso o aluno me trate por você. O respeito não está exclusivamente nas palavras, mas num conjunto muito mais amplo de atitudes e postura.</p>
<p>Claro que já enfrentei discordâncias, algumas mal-humoradas, outras tremendamente respeitosas e pertinentes, com as quais aprendi muito, já revi avaliações, já mantive avaliações apesar do chororô, me dói reprovar aluno, mas eu reprovo se precisar, graças a Deus não sou unanimidade e sei que tem aluno que não gosta de mim ou do meu jeito, mas de maneira geral consigo estabelecer relações muito amistosas com a maioria, que duram às vezes muito além da sala de aula, e gosto disso. Mas quando a menina falou que minha aula é animada, eu me dei conta, talvez pela primeira vez, que é verdade, eu fico mesmo cansada e suada depois de cada aula, como se eu tivesse dispendido ali enorme energia. Não sei se terei esse pique sempre, talvez seja bom se eu aos poucos ficar mais sábia e madura e aprender a dar boas aulas sem me desgastar tanto. O que eu sei é que hoje eu sou assim.</p>
<p>Hoje eu tenho urgência. Eu preciso me apaixonar por um assunto pra poder dar aulas sobre ele. Na minha cabeça, o professor tem um papel que é também de sedução, de cativar o aluno, de trazê-lo para esse universo novo e fazê-lo se interessar por ele. Eu já descobri que o meu prazer maior não é ensinar, é ver o aluno aprender. Testemunhar esse momento em que brilha um olho, ou ouvir um único aluno dentro da turma vir dizer que agora conseguiu entender alguma coisa, ou passou a gostar de uma matéria que ele antes achava um saco, compensa todas as noites em claro preparando aula, todo o cansaço. Adoro quando os alunos tiram notas boas (mas não faço prova mole), e mais ainda quando alguém que começa o semestre mal chega no final com melhora significativa. Sinal de alguma coisa ali fez sentido. Talvez por isso eu goste tanto de dar aulas na graduação, e especialmente nos primeiros períodos. É uma diversão desconstruir alguns mitos e manias que vêm do ensino médio, enfiar minhocas na cabeça da garotada, botar o povo pra pensar e questionar coisas que sempre pareceram tão “naturais”. E aula de História é uma beleza pra isso.</p>
<p>Só que eu também fiquei me perguntando coisas. Deixa eu ver se sei explicar. Eu amo História. Mas há muito tempo eu deixei de ver a História como uma linha universal em que se sucedem períodos (numa pressuposição de escala evolutiva), delimitados por datas específicas, como se o mundo todo estivesse vivendo os mesmos processos ao mesmo tempo e depois passassem todos para a etapa seguinte, e nos bastasse seguir o fio dessa meada. Que é mais ou menos como a gente aprende na escola: os gregos, os romanos, a idade média, o renascimento, a idade moderna, etc. E não é nada disso.</p>
<p>Pra começar, a gente ainda estuda uma história tremendamente eurocêntrica. Tá bom que nós (e aqui eu estou falando de nós, brasileiros) descendemos em grande parte desse ramo aí que vem desde os gregos ou antes. Não estou falando de descendência genética, mas de filiação filosófica, ideológica, política. Mas eu acho que a gente precisa pelo menos de vez em quando alertar os alunos para o fato de que há um mundo vasto e diverso além daquele umbigo. Existem outros povos, com outras formas de viver, de fazer cidades, de pensar. Que o Império Romano não abarcava o mundo inteiro, que tem a Índia, a China e o Japão vivendo outras coisas, sem falar nos povos e civilizações que estavam ali do lado, nas fronteiras do império. Que enquanto a maior parte da Europa vivia a retração urbana da Alta Idade Média, Bagdá tinha mais de um milhão de habitantes e era a maior e mais rica metrópole do mundo, onde florescia não só o comércio intenso, mas a matemática, a literatura, a filosofia. Sem falar na África e nas Américas, que só entram nos nossos livros de História quando os europeus chegam lá, como “descobridores” (parece que esses lugares não existiam antes), como colonizadores, como capturadores de escravos, dizimadores de índios, portadores da civilização. E ainda tem a Oceania que a gente nunca nem estuda pra nada.</p>
<p>Por tudo isso, eu tenho muita dificuldade com essas divisões didáticas de eras e datas. Eu sempre acho que quando tematiza demais a impressão que fica é de que aqueles episódios ou civilizações são estanques, um sucede ao outro ordenadamente, quando na verdade há sobreposições, conflitos, convergências. É preciso fazer leituras sincrônicas (do que acontece em lugares diferentes ao mesmo tempo) e diacrônicas (do que acontece nos lugares ao longo do tempo) meio simultaneamente. Só que ver isso transforma a história (como a vida) num painel multidimensional e dinâmico, com vários sujeitos, várias perspectivas. E como passar isso é algo que me aflige às vezes.</p>
<p>Eu tendo a ver os temas de aula sempre inseridos num panorama mais amplo e me interessa entender os processos, de onde vieram aquelas coisas e pessoas, para onde foram, as relações que estabeleceram. O Outro, de qualquer tempo ou lugar, me interessa. Saber como ele vê as coisas, de que lugar ou posição ele fala, tentar, por um breve instante, ver e sentir o mundo como ele vê e sente, seus objetivos, seu ponto de vista. As idéias me empolgam, os conceitos por trás das ações, os encaixes, as diferenças. O nome ou a data a gente acaba absorvendo de tanto ler e estudar, mas não são o objetivo. Eles têm sua importância: ajudam a pontuar, localizar, identificar, dão nome e rosto, mas estão a reboque de um entendimento mais amplo.</p>
<p>Eu junto muito Urbanismo e Arquitetura. Não dá pra falar de cidade sem falar de arquitetura, e vice-versa. Eu junto também História e Geografia. Eu tenho fascinação por mapas, sempre tem mapa nas minhas aulas, a gente fala de tantos lugares diferentes, eu gosto de dar ao aluno a chance de saber onde é que fica aquilo (ou ficava, quando hoje não existe mais). Relacionar o que está sendo dito com coisas que ele conheça. Por exemplo, em outra turma eu estava essa semana falando sobre a Reforma de Viena no final do século XIX e a construção do ringstrasse. Aí eu me toquei que eu falava da Áustria e provavelmente a maioria ali estava pensando na Áustria de hoje, e eu pus um mapa de 1900, pra lembrar a eles que, quando eu falasse “Áustria” nesse contexto de final do século XIX-início do XX, eu estava me referindo ao grande Império Austro-Húngaro, um território que abarcava partes do que hoje é a Alemanha, a Polônia, A Hungria e os Bálcãs. Historicamente, é outro lugar. Eu fico sempre preocupada e perplexa com o fato de que as pessoas sabem muito menos geografia hoje. Tá bom que decorar por decorar é um saco e não faz sentido, mas eu sabia onde ficavam os principais rios e cadeias de montanhas do mundo todo, e as capitais dos diversos países, e isso caía em prova. Daí, hoje, se alguém falar Mar Cáspio, ou Negro, ou Estreito de Bósforo, ou Pirineus, Apeninos, Rio Danúbio, Rio Arno, Rio Eufrates, o mapa vem na minha cabeça rapidinho e eu sei onde fica. E isso ajuda a fazer relações geopolíticas, entender por que a conquista de determinado território era estratégica, ou por que determinado povo demorou para chegar a determinado lugar em seu processo de ocupação do território.</p>
<p>A minha dificuldade às vezes, é que na minha cabeça vem tudo junto, um quadro grande, tudo ao mesmo tempo agora. E um monte de referências pop também: músicas, filmes, livros. Isso às vezes é um problema, e às vezes causa grandes risadas. Porque de vez em quando eu cito, toda contente, crente que estou abafando, um filme ou música que pra mim é manjadíssimo, e ficam aquelas 30 carinhas me olhando com cara de “hein?”. E aí eu vejo que eu tou ficando velha mesmo. Ou o povo tá ficando menos informado. Caramba, eu nasci na década de 60, mas isso não me impede de conhecer Cole Porter, ou ter visto filmes das décadas de 30 e 40, ou lido Jane Austen. Mas outro dia, falando da colonização dos Estados Unidos, e mencionando a importância, em determinado momento, da cidade de Filadélfia, eu mencionei Philadelphia Freedom do Elton John e ninguém sabia do que se tratava. Pior foi o mico dessa aula sobre Viena, quando eu perguntei se eles já tinham visto Sissi, a Imperatriz. Eu fiquei me achando um Matusalém. Aí zanguei (de brincadeira) e mandei todo mundo ir perguntar pras mães sobre o filme. Não é possível que as mães desses meninos não tenham visto isso na Sessão da Tarde.</p>
<p>Eu sempre mando ver filmes, ler livros, ouvir músicas. Eu levo pilhas de livros meus (de ficção, romances, ou de estudo mesmo) pra sala, pra eles folhearem. Isso tudo pode ser bem legal, e “animado”, como disse a aluna, mas pode também ser cansativo, agitado demais, disperso. Essa coisa de ver o conjunto e cruzar tantas referências pode me levar a perder o foco da aula, e eu sei que vira e mexe eu estouro o tempo antes de ter falado tudo o que eu tinha pensado em apresentar. A gente tem que fatiar a história em pedacinhos (com começo, meio e fim) pra caber no tempo da aula, e ao mesmo tempo articular, contextualizar, costurar os assuntos. E tudo isso tem que fazer sentido. Não é fácil. Talvez às vezes fique confuso. Eu gostaria sempre que os alunos me dessem um feedback se as coisas estão indo rápido demais, ou lento demais, ou repetitivo, ou confuso simplesmente. A vida é confusa, vamos combinar. As coisas não cabem em gavetinhas. Mas o papel da gente ali na frente, pilotando o quadro e o giz (eita coisa antiga) é ajudar a trilhar esse caminho. Eu tenho tantas dúvidas, mas eu amo tanto o que eu faço, que desejo e me esforço para fazer bem. Se tocar alguém, eu fico feliz.</p>
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		<title>Um contraponto</title>
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		<pubDate>Sun, 23 May 2010 17:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_780" class="wp-caption alignleft" style="width: 273px"><a href="http://instinctalternative.blogspot.com/2010/04/artigo-brasilia-50-anos-feliz.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/instinctalternative.blogspot.com/2010/04/artigo-brasilia-50-anos-feliz.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-780" title="16 abr 1960" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/16-abr-1960-263x300.jpg" alt="" width="263" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p></div>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de <strong>50 anos de Brasília</strong>, nossa capital idealizada e construída sob a égide do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo?referer=');">Movimento Modernista</a>.</p>
<p>Antes de qualquer outra coisa, quero saudar os candangos, o povo todo que faz de Brasília, entendida em sua totalidade e não apenas reduzida a seu Plano Piloto, uma cidade realmente especial, múltipla, com tanto a nos ensinar. Quero dizer que, como arquiteta e urbanista, considero Brasília um momento importantíssimo na história do planejamento urbano, tanto no Brasil quanto no mundo, e um laboratório sem igual para a análise e o aprendizado de modelos, propostas, soluções. Repudio a redução que muita gente faz de Brasília, como se a cidade se resumisse às mazelas da classe política que mal e mal habita seu território quando comparece às sessões do Congresso.  Brasília é muito mais do que o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio da Alvorada, o Senado e a Câmara, muito mais inclusive que as superquadras imaginadas por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcio_Costa" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/L_C3_BAcio_Costa?referer=');">Lúcio Costa</a>. Brasília é também Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina, Ceilândia, é todo o povo que foi trabalhar na sua construção, saído de tudo que é lugar do Brasil, e que não foi considerado na hora de prever habitação para todos. O povo e seus descendentes que ficaram ali, em volta do Plano Piloto, e que hoje demandam serviços públicos, equipamentos de saúde, educação, lazer, infra-estrutura, transporte coletivo.</p>
<div id="attachment_786" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><a href="http://doc.brazilia.jor.br/Cidades.htm" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/doc.brazilia.jor.br/Cidades.htm?referer=');"><img class="size-full wp-image-786" title="DF-ampliado" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/DF-ampliado2.jpg" alt="" width="700" height="456" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de satélite, de 1990, mostrando a ocupação em torno do Plano Piloto</p></div>
<p>Brasília é uma conquista imensa para o Brasil. O Rio de Janeiro pode ter tido perdas consideráveis com a mudança da capital, e até hoje se ressente do esvaziamento que isso causou, embora eu acredite que esteja mais do que na hora de superar isso e olhar pra frente, ocupar seu lugar no país. Um país como o Brasil tem espaço para o destaque e a importância de muitas cidades. Sem dúvida que a interiorização da capital levou crescimento às áreas centrais do território brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento de Goiânia, de Belo Horizonte, do Triângulo Mineiro, de partes do Nordeste, entre tantas outras regiões ao longo do eixo que liga Brasília aos centros de poder econômico do sudeste.</p>
<p><a href="http://www.nosrevista.com.br/2010/03/23/o-cinquentenario-de-brasilia-df/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.nosrevista.com.br/2010/03/23/o-cinquentenario-de-brasilia-df/?referer=');"><img class="alignleft size-medium wp-image-782" title="brasiliamapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/brasiliamapa-300x276.jpg" alt="" width="300" height="276" /></a>Sobre a análise do traçado de Brasília, os princípios funcionalistas de sua concepção, e até sua arquitetura, que inclui alguns ícones da produção de <a href="http://www.niemeyer.org.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.niemeyer.org.br/?referer=');">Oscar</a> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer?referer=');">Niemeyer</a>, numa fase de apogeu do mestre, e todas as suas consequências, hoje, para a integração e desenvolvimento democrático do conjunto do Distrito Federal, eu vou sugerir dois livros e uma visita. Os livros são:</p>
<p><a href="http://books.google.com.br/books?id=8fYRTXWG5cYC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=A+cidade+modernista,+James+Holston&amp;source=bl&amp;ots=4OA6sQ8npz&amp;sig=_I_nawSA_-67LPekDloP6qzUJnY&amp;hl=pt-BR&amp;ei=B1j5S-HIDImmuAfCh_W9Dg&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=1&amp;ved=0CBgQ6AEwAA#v=onepage&amp;q&amp;f=false" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/books.google.com.br/books?id=8fYRTXWG5cYC_amp_printsec=frontcover_amp_dq=A+cidade+modernista_+James+Holston_amp_source=bl_amp_ots=4OA6sQ8npz_amp_sig=_I_nawSA_-67LPekDloP6qzUJnY_amp_hl=pt-BR_amp_ei=B1j5S-HIDImmuAfCh_W9Dg_amp_sa=X_amp_oi=book_result_amp_ct=result_amp_resnum=1_amp_ved=0CBgQ6AEwAA_v=onepage_amp_q_amp_f=false&amp;referer=');"><strong>A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia</strong></a>, de James Holston, publicado pela Companhia das Letras, em 1993.<br />
<a href="http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/33/textos/931/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/33/textos/931/?referer=');"><strong>O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital</strong></a>, de Milton Braga, publicado pela Cosac Naify, este ano.</p>
<p>Claro que há inúmeros outros livros maravilhosos, eu destaquei esses dois porque o primeiro eu tenho e gosto muito dele, por incorporar uma análise que privilegia a questão da cidadania e da inclusão das várias Brasílias, numa perspectiva contemporânea, ao mesmo tempo que não descuida da história, das teorias e até das polêmicas que envolveram o concurso e a adoção daquele modelo específico. O segundo, porque foi recém-lançado, eu estou louca para comprar, e apresenta os outros projetos que participaram do concurso, com autoria de gente grande como os <a href="www.docomomo.org.br/seminario 6 pdfs/izaga-docomomo-2005-MMM.pdf" target="_blank">irmãos Roberto</a> (excelente artigo em pdf), <a href="http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.014/3223" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.014/3223?referer=');">Rino Levi </a>e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista_Vilanova_Artigas" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Jo_C3_A3o_Batista_Vilanova_Artigas?referer=');">Villanova Artigas</a>, o que nos permite fazer comparações e até especulações interessantes.</p>
<p>A visita, imperdível para quem mora ou está no Rio, é à exposição<strong> As construções de Brasília</strong>, em cartaz no <a href="http://ims.uol.com.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/?referer=');"><strong>Instituto Moreira Sales</strong></a>, na Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 476, telefone 2274-2149), em cartaz até o final de julho, com entrada franca e visitas guiadas de 3a a 6a feira, sempre às 17 horas. Esta semana, entre os dias 24 e 28 de maio, acontece também um <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=312" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=312?referer=');">Seminário</a> que complementa a exposição. No <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=303" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=303?referer=');">site</a> do Instituto haverá outras informações sobre horários e endereço exato. Eu já combinei de ir sexta agora com uma amiga, no fim da tarde.</p>
<p>Uma das nossas primeiras colunas do <strong>Cidades Literárias</strong> foi justamente sobre Brasília, numa crônica de <strong>Clarice Lispector</strong>, vale a pena <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/19/cidades-literarias-clarice-lispector/" target="_blank">reler</a>.</p>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 03:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.fau.ufrj.br/?referer=');">UFRJ</a>. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na <a href="http://www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm?referer=');">outra universidade</a>, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.</p>
<p>O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas <em>&#8220;embromations&#8221;</em> pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU120" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU120&amp;referer=');">HCU 2</a>, <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU230" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU230&amp;referer=');">HCU 3</a> e <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU240" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU240&amp;referer=');">HCU 4</a>, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.</p>
<p>Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/" target="_blank">aqui</a> que voltaria a citar <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629&amp;referer=');">o livro da Ana Maria</a>, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu &#8211; infelizmente &#8211; ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.</p>
<p>O texto é grande, mas vale cada sílaba:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (&#8230;) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_775" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_(Salvador)" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_Salvador?referer=');"><img class="size-full wp-image-775" title="Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (&#8230;) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento  e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)</em></strong></p>
<p>Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).</p>
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		<title>Desculpa esfarrapada, de novo.</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Apr 2010 15:13:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[problemas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu não vou me alongar muito, porque todo mundo já leu, já viu, já reclamou. É só pra não deixar passar em branco e marcar minha posição também.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-771" title="caos1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/caos1-300x191.jpg" alt="" width="300" height="191" /></a>O evento foi evangélico, como podia ter sido católico, espírita ou budista, não interessa. Foi na Zona Sul, como podia ter sido no Centro ou na Zona Oeste, tanto faz. Foi uma sucessão de erros grossos e teve uma lista de consequências danosas à cidade como um todo, além de desnudar, mais uma vez, o despreparo dos nossos governantes para administrar a cidade, começando pelo argumento estapafúrdio de que <a href="http://www.sidneyrezende.com/noticia/83034+nao+dimensionamos+direito+o+evento+diz+cet+rio+sobre+caos+no+dia+do+culto" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.sidneyrezende.com/noticia/83034+nao+dimensionamos+direito+o+evento+diz+cet+rio+sobre+caos+no+dia+do+culto?referer=');">dimensionaram mal a proporção do evento</a>, passando pelo desencontro de informações e o repetitivo empurra-empurra de responsabilidades e terminando com o <a href="http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20100421180756&amp;assunto=40&amp;onde=Brasil" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20100421180756_amp_assunto=40_amp_onde=Brasil&amp;referer=');">pedido de desculpas</a> (de novo) patético do prefeito, com a promessa vã de que “não vai acontecer de novo”. Pode começar lendo <a href="http://noticias.terra.com.br/transito/interna/0,,OI4397530-EI11777,00-Edir+Macedo+diz+que+megaevento+religioso+no+RJ+se+repetira.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/noticias.terra.com.br/transito/interna/0_OI4397530-EI11777_00-Edir+Macedo+diz+que+megaevento+religioso+no+RJ+se+repetira.html?referer=');"><strong>aqui</strong></a> a bravata do Sr. Edir Macedo, que desafia a cidade e as autoridades impunemente, sabendo do poder de fogo que tem. Leia-se aí, com todas as letras, poder político, além do econômico.</p>
<p>Aliás, parênteses. Não é novidade pra ninguém, mas eu vou deixar bem claro que não há a mais remota possibilidade de eu vir a votar no Serra nem pra síndico de prédio, que dirá pra presidente. Não voto e faço campanha contra. Mas quando eu vejo o PT negociando apoio com Garotinho ou Crivella me dá um desespero e uma vergonha tão grandes que chacoalham todas as minhas mais tolerantes convicções. Eu queria mesmo era que o Idelber viesse me explicar por que cargas d&#8217;água, em nome do tabuleiro político-eleitoral, eu devo engolir esse tipo de aliança. Isso é um apelo sincero e numa boa, de quem quer aprender e entender mesmo. Fecha parênteses.</p>
<p>Mas voltando ao nosso feriado. Foi um espetáculo de mídia, ocorreu em várias capitais do país simultaneamente (<a href="http://www.diariosp.com.br/Noticias/Dia-a-dia/4131/Evento+da+Universal+cria+o+caos+no+transito" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.diariosp.com.br/Noticias/Dia-a-dia/4131/Evento+da+Universal+cria+o+caos+no+transito?referer=');">olha aqui o Diário de São Paulo contando dos 16 km de engarrafamento na Marginal Pinheiros por conta da igreja de lá</a>), e muito mais do que “louvar a Deus”, isso <a href="http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/22/e22046687.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/22/e22046687.asp?referer=');">só pode ser demonstração de poder em ano eleitoral</a> (pra quem tiver interesse, esse link é de uma matéria no Jornal do Brasil, em que a presidente da Associação de Moradores de Botafogo afirma que o administrador regional da área, Rodrigo Pian, comunicou aos representantes comunitários, durante reunião, que o culto era um acontecimento político, porque &#8220;o prefeito não pode desperdiçar um milhão de votos&#8221;).</p>
<p>Agora, como é que a prefeitura autoriza uma coisa dessas? Baseado no fato de que os organizadores prometeram que só dava 100 mil pessoas e os ônibus iam ficar estacionados nos locais autorizados? Se a Associação de Moradores da minha rua solicitar licença pra fazer uma festinha na praça com 500 pessoas e aparecerem 5.000, infernizando a vida do bairro, quem é que vai pagar o pato? É fácil assim? Eu digo um número, a prefeitura engole e depois eu faço o que bem entendo? Se fosse a primeira vez que isso tivesse acontecido, a gente ainda podia dar desconto, mas não é. E não será a última, a julgar pela ameaça do líder da igreja (sim, o que ele fez foi ameaça, no mesmo nível de qualquer bandido que peita a polícia dizendo que vai “barbarizar”).  Bom, depois de tudo que eu acabei de falar essas perguntas ficam até um pouco  sem sentido&#8230;</p>
<p>Além do aspecto abominável mas pontual do trânsito caótico (eu digo pontual porque circunscrito num tempo curto, ainda que inaceitável assim mesmo), há os custos e danos do dia seguinte, com a sujeira deixada e a depredação de árvores do parque. Há o cerceamento do direito das pessoas de circular (porque não só os ônibus regulares quase desapareceram, já que as empresas deslocaram todos para transportar os fiéis, por mais que digam o contrário, mas os poucos que rodavam não conseguiam fazer seus trajetos por causa dos engarrafamentos e obstruções no trânsito); há o cerceamento do direito ao lazer porque as pistas do Aterro, que em dias de feriado deveriam ser espaço público de recreação ficaram tomadas por filas intermináveis de ônibus estacionados irregularmente. Mas sobretudo, ao meu ver, há o desprezo debochado e o desrespeito a qualquer traço de ordem pública, e a sensação de que nossos governantes não têm força, coragem ou interesse para fazer valer a lei. E quando, numa cidade, a população se vê assim abandonada por quem deveria cuidar do bem público, isso abre ou alimenta o precedente perigoso do salve-se quem puder, que agora vale tudo. E isso, sim, é preocupante.</p>
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		<title>Novidades</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 14:29:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo  </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':-D' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento de aulas (e até no doméstico) e a uma desorganização geral da rotina. Aproveitei para escrever umas coisas que estavam atrasadas e que eu tinha prazo pra entregar. Aí, nesta semana que se encerrou havia entrega de trabalhos em quase todas as minhas turmas, o que quer dizer pilhas de coisas para corrigir, além de uma ansiedade extra, ligada à novidade a que eu me referi aí no título.</p>
<p>É que abriu um concurso para professor substituto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu me inscrevi. Muitos candidatos bons (eu dei uma olhada na lista e conhecia vários pelo nome, colegas com quem eu já trabalhei ou estudei) e um processo sumário: a banca faz uma análise do currículo e chama os que ela considera os melhores para a entrevista. Eu já participei de um concurso desses, dois anos atrás, e fiquei em segundo lugar, mas era uma vaga única e eu fiquei de fora. A inscrição foi na segunda, a entrevista foi na quinta e o resultado saiu na própria quinta de noite. Fui chamada para a entrevista (eu e mais 13 candidatos), que se revelou, na verdade, uma verdadeira arguição oral, clima de avaliação mesmo. Se eu soubesse que seria assim, talvez tivesse estudado, mas juro que não me preparei nesse sentido. Mesmo assim, devo ter me saído bem, porque, desta vez, <span style="text-decoration: underline;">eu passei</span>!</p>
<p>Estou feliz da vida e começo nesta segunda-feira (amanhã), provavelmente assumindo turmas de História da Cidade e do Urbanismo. A gente nem sempre se dá muito conta de como esses processos de seleção são emocionalmente cansativos. Depois que a Chefe de Departamento me telefonou, quinta de noite, para dar o meu resultado e me convocar para a reunião de amanhã, eu estava numa descarga de adrenalina tão grande que dormi agitada. Aí, na sexta, quando eu achei que finalmente teria tempo de vir aqui, acabei dormindo a tarde quase toda&#8230;</p>
<p>Enfim, bola pra frente. As disciplinas que eu lecionarei abarcarão, entre outros períodos, o século XIX, que é alvo do que eu pretendo estudar num possível (e, tomara que em breve) doutorado. Daí que eu tenho lido e estudado um pouco sobre o assunto. Esses dias, revendo livros e textos sobre os tratados e utopias que propõem cidades ideais, que proliferaram a partir do século XV, e se estendem, com características e premissas um pouco diferentes, até o século XIX, me deparei com o projeto d&#8217;<strong>A Cidade Industrial</strong>, do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier?referer=');">Tony Garnier</a> (que na verdade é do início do século XX, tendo sido apresentado pela primeira vez em 1904). Dá uma espiada no que ele diz, que eu comento em seguida:</p>
<p><em></p>
<div id="attachment_767" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><em><a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-767" title="Garnier-planta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/Garnier1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></em><p class="wp-caption-text">Zoneamento por usos na cidade de Tony Garnier</p></div>
<p>“Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximidade de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como energia, ou a conveniência dos métodos de transporte. Em nosso caso, o fator determinante para a localização da cidade é o afluente que é a fonte de energia; também existem minas na região, mas poderiam estar situadas mais adiante. O afluente está represado; uma usina hidrelétrica distribui energia, luz e calor par as fábricas e para a cidade toda. As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluente. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade, estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul</em> (NOTA: ele está falando no hemisfério norte, em que esta é a fachada mais ensolarada, ao contrário do hemisfério sul, em que a fachada que toma sol é a norte). <em>Cada um desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar possível sua expansão.</em></p>
<p><em>(&#8230;) Os estudos sobre o programa mais satisfatório para as necessidades morais e materiais dos indivíduos resultou no estabelecimento de regras a respeito do uso das estradas, da higiene, etc.; o pressuposto é o de que um certo progresso da</em> <em>ordem social que resultou na adoção automática dessas regras já foi alcançado, de modo que não será necessário decretar as leis efetivas. A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição da água, pão, carne, leite e suprimentos médicos, bem como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder público.”</em></p>
<p style="text-align: right;">(Tony Garnier: Prefácio a Une Cité Industrielle,<br />
retirado de FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997)</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/?referer=');"><img class="aligncenter size-full wp-image-768" title="GarnierCidadeIndustrialPerspectiva" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/GarnierCidadeIndustrialPerspectiva.jpg" alt="" width="500" height="258" /></a></p>
<p>Observe que essa proposta se alinha com o pensamento dito progressista (dito, por exemplo, por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Choay" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Fran_C3_A7oise_Choay?referer=');">Françoise Choay</a>, em seu livro<strong> O Urbanismo</strong>), de final do século XIX-início do XX, que acreditava MESMO que a indústria, a máquina, traria as soluções para uma cidade melhor. Melhor aqui quer dizer mais limpa, organizada, racional, higiênica, ordenada, próspera, veloz. A produção em massa baratearia custos e todos teriam acesso a todos os bens necessários – e isso inclui carros, para proporcionar a mobilidade requerida nesta cidade de avenidas largas e funções separadas em áreas distintas da cidade. Eu não tenho dúvidas (isso está escrito em mais de um livro, hohoho) de que <a href="http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm?referer=');">Le Corbusier</a> leu e foi influenciado por Tony Garnier. Se você reparar bem, a semente da cidade modernista, funcionalista, já está toda aí.</p>
<p>O que eu proponho a gente pensar é: quais desses paradigmas ainda estão vigentes, hoje, mais de um século depois? Esse modelo ainda nos serve? O que deu certo? O que deu errado? Quais seriam os &#8220;fatores determinantes&#8221; para uma cidade do século XXI? Que modelos ou propostas temos hoje para nossas cidades, diante das condições e perspectivas que estão colocadas diante de nós?</p>
<p>Vão pensando e escrevendo, que eu já volto.</p>
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