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	<title>Urbanamente &#187; Arte</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Obeliscos</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2011 03:03:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[arquitetura]]></category>
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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">O obelisco da 9 de Julio, em Buenos Aires</p>
<p>Enquanto eu não volto com mais Mestre Valentim, partilho com vocês este texto, fruto de dois e-mails que escrevi, em épocas diferentes, para pessoas diferentes, por acaso em torno do mesmo tema: a função dos obeliscos nas cidades. Em 2007, uma amiga foi a Buenos Aires, adorou, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1036" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://argentina.pordescubrir.com/la-avenida-9-de-julio.html"><img class="size-full wp-image-1036 " style="margin-left: 5px; margin-right: 5px;" title="avenida-9-de-julio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/avenida-9-de-julio1.jpg" alt="" width="290" height="335" /></a><p class="wp-caption-text">O obelisco da 9 de Julio, em Buenos Aires</p></div>
<p>Enquanto eu não volto com mais <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2011/04/23/mestre-valentim-um-filme-uma-conversa-uma-cidade/" target="_blank">Mestre Valentim</a>, partilho com vocês este texto, fruto de dois e-mails que escrevi, em épocas diferentes, para pessoas diferentes, por acaso em torno do mesmo tema: a função dos obeliscos nas cidades. Em 2007, uma amiga foi a Buenos Aires, adorou, mas na volta falou o seguinte:  <em>&#8220;Agora, uma coisa que eu não consigo achar graça é o tal do Obelisco da Avenida 9 de Julio. E daí? Uma avenidona enorme, muito larga, tá bom. Cadê a beleza disso?&#8221;</em></p>
<p>Depois, em 2009, outras amigas foram a Paris e eu não lembro se elas me pediram para falar a respeito ou se eu, enxerida, meti o bedelho por conta própria, morrendo de inveja por não poder ir junto. Começando por Buenos Aires, eu propus contextualizar a criação da própria avenida, antes de falar sobre o monumento.</p>
<p>A Av. 9 de Julio, cujo traçado já era estudado, como eixo Norte-Sul para a cidade, desde o final do século XIX, começou a ser aberta em 1937, e levou cerca de 40 anos até se completar toda a sua extensão, que eu procurei na internet, mas não descobri de quantos quilômetros é. Tive preguiça de pegar um mapa em escala e medir. Se alguém tiver essa informação, com a fonte, eu agradeço.</p>
<div id="attachment_1037" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/BsAs-PresVargas.jpg"><img class="size-full wp-image-1037 " title="BsAs-PresVargas" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/BsAs-PresVargas.jpg" alt="" width="700" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">À esquerda e no meio, a localização da 9 de Julio em Buenos Aires. À direita, a Av. Presidente Vargas, no Rio.</p></div>
<p>É uma época de abertura de grandes avenidas, no mundo todo, pelo menos no mundo que ainda não tinha feito isso no século XIX, tipo Paris. A nossa Av. Presidente Vargas (aqui no centro do Rio de Janeiro) é de 1945, por exemplo, e tem os mesmos propósitos funcionais/simbólicos. Grandes avenidas se prestam a exibir poder, ordem, glória; abrem canais de ventilação e iluminação em cidades excessivamente adensadas, disciplinam e otimizam fluxos, além de escoar o tráfego. E neste momento (décadas de 30 e 40), o urbanismo Modernista ainda dá as cartas, com sua aposta na primazia do automóvel (crise do petróleo? Naquela época isso merecia risadas incrédulas), baseada na crença de que a indústria e sua fabricação em massa barateariam os custos e tornariam o automóvel acessível e necessário a todos. Bom, junta tudo isso, e abriu-se a 9 de Julio. São 130 metros de largura. Pra vocês terem uma medida de comparação, de novo, a Av. Presidente Vargas tem 80 metros, chegando a 90 em alguns poucos trechos, no finalzinho. Em São Paulo eu não saberia mencionar uma comparação adequada. Mas sei que a 9 de Julio é considerada, segundo diversas fontes, a mais larga do mundo, deixando seguramente a Champs Elysées parisiense no chinelo. E está sempre lotada de carros e engarrafada, que coisa!</p>
<div id="attachment_1038" class="wp-caption aligncenter" style="width: 817px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/Obelisco-e-9Julio-const.jpg"><img class="size-full wp-image-1038" title="Obelisco-e-9Julio-const" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/Obelisco-e-9Julio-const.jpg" alt="" width="807" height="419" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: livro &quot;Imágenes de Buenos Aires 1915-1940&quot;. Ediciones de la Antorcha, 2006.</p></div>
<p>Eu vi um site que eu queria deixar como sugestão, mas depois que fechei, não consigo mais lembrar como cheguei ali, e perdi a referência. Mas <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/9_de_Julio_Avenue">aqui</a> tem umas informações interessantes sobre esta avenida. Quanto ao obelisco, oras, tem também suas explicações. Um obelisco é um monumento, normalmente em pedra (os mais moderninhos já o fazem de concreto, e já vi até obeliscos estilosos em aço, mas vamos nos ater aos clássicos), esguio e alto, erguido por (ou em homenagem a) grandes reis ou líderes militares, servindo tradicionalmente para celebrar uma vitória em batalha, uma conquista importante, ou a glória do soberano. Os homens (sim, é evidentemente um monumento bem carregado de simbologia masculina, bem fálico mesmo) erguem elementos marcantes para comemorar suas vitórias ou realizar rituais místicos desde tempos imemoriais, pré-históricos.</p>
<div id="attachment_1043" class="wp-caption alignleft" style="width: 125px"><a href="http://aeterna.no.sapo.pt/lusophia/lusophia36-jc.htm"><img class="size-full wp-image-1043" title="Menir" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/Menir.jpg" alt="" width="115" height="177" /></a><p class="wp-caption-text">Menir em Portugal</p></div>
<p>Muito antes dos obeliscos, já havia os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Menir" target="_blank"><span style="color: #0000ff;">menires</span></a> de pedra, menos sofisticados e de razões supostamente mais esotéricas que militares, mas ainda assim impressionantes. Eram pedras imensas, altas, mas bem irregulares, brutas, cravadas no solo. Aquelas pedras em <span style="color: #000000;"><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Stonehenge" target="_blank">Stonehenge </a>(Inglaterra)</span> são como menires. Mais tarde, alguns desses monumentos passaram a se sofisticar mais e se tornaram mais associados com essa coisa da batalha mesmo, perdendo a conexão com o divino. Passaram a ser blocos de pedra mais altos, mais trabalhados, com as faces geometricamente talhadas, recebendo inscrições que narram as glórias da guerra, desenhos e entalhes, alto-relevos, enfim, tinham também uma função didática, porque impunham respeito e temor, ao descrever o poder do líder e do império, os suplícios dos perdedores, as marchas vitoriosas do exército. Eram cravados em algum espaço importante da cidade, para que todos pudessem contemplá-lo. Eram uma espécie de jornal, de panfleto, eram em si mesmos uma narrativa histórica.</p>
<div>
<dl id="attachment_1046">
<dt>Os  egípcios e os romanos foram mestres no uso de obeliscos, e alguns   deles mais tarde foram roubados pelos novos conquistadores e trasladados   para lugares como Paris (por Napoleão, claro), Roma, Londres, como um   troféu. Bem  mais tarde, no Renascimento e principalmente durante o  Barroco, a  partir do século XVII, os urbanistas se deram conta de que  aqueles  marcos verticais tão imponentes serviam como elementos  estéticos e  compositivos espetaculares nas novas ordenações  urbanísticas. Eles  servem, por exemplo, como ponto focal, ao final do  eixo de perspectiva  formado por uma longa, reta e larga avenida, ou  para enfatizar a  simetria de uma imensa fachada. </dt>
<dt> </dt>
<dt>
<div id="attachment_1048" class="wp-caption alignleft" style="width: 455px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/ChampsElisees-Vaticano.jpg"><img class="size-full wp-image-1048" title="ChampsElisees-Vaticano" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/ChampsElisees-Vaticano.jpg" alt="" width="445" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">Os obeliscos de Paris e do Vaticano, respectivamente. </p></div>
</dt>
<dt>Como exemplo do  primeiro caso, temos o  obelisco do templo de Luxor,  que Napoleão  trouxe do Egito e posicionou na Champs Elisées, na Place  de la Concorde  (no outro extremo da avenida, em relação ao Arco do  Triunfo). No  segundo caso, temos o obelisco, também egípcio, trazido para Roma por  Calígula, no século I,  para ostentar a sua própria glória no centro do  Circo que levava seu nome. No  século XVI, quando o circo já não existia  mais e a Basílica de São Pedro, no Vaticano, começou a ser construída no  lugar da milenar Basílica de Constantino, o obelisco de Calígula não  estava na posição em que está hoje. Ficava ao lado da nova basílica e,  pelos princípios barrocos, atrapalhava o eixo da perspectiva, desviando o  olhar de quem se postasse diante da fachada em construção. O papa da  ocasião, Sisto V, incomodado esteticamente, com toda a razão, cismou em  remover o monolito do lugar e trazê-lo para o centro da praça, onde ele  direcionaria a visada para a o eixo certo, valorizando a praça e a  igreja. Foi uma empreitada de engenharia supercomplexa, com uma história  genial! </dt>
<dt> </dt>
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<div id="attachment_1049" class="wp-caption aligncenter" style="width: 754px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/basilica-circus.jpg"><img class="size-full wp-image-1049" title="basilica-circus" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/basilica-circus.jpg" alt="" width="744" height="518" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: SCOTTI, R.A. Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano. RJ: Nova Fronteira, 2007. p.80</p></div>
</dt>
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<dt> </dt>
<dt>Em 1586, tendo se dado conta de que o obelisco estava deslocado, e sua imponência era tal que desviava o olhar do que deveria ser o centro da composição, o papa ordenou que ele fosse removido e reposicionado. Como ninguém achasse que isso era possível, Sisto V fez um concurso público, vencido pelo engenheiro e arquiteto Domenico Fontana, que pôs o obelisco na sua posição atual, a partir de estudos históricos de como os próprios egípcios tinham transportado o bloco de pedra pelo Nilo, quase 3 mil anos antes, e de cálculos precisos que envolviam o uso de macacos hidráulicos, alavancas e polias. Esta história está contada, em detalhes deliciosos, no livro <span style="color: #000000;"><a href="http://www.submarino.com.br/busca?franq=134562&amp;q=basilica+de+sao+pedro+++esplendor+e+escandalo+na+construcao+da+catedral+do+vatic+r+a+scotti" target="_blank"><strong>Basílica de São Pedro: esplendor e escândalo na construção da Catedral do Vaticano</strong></a>, de R. A. Scotti, publicado pela Editora Nova Fronteira.<br />
</span></p>
<div id="attachment_1050" class="wp-caption aligncenter" style="width: 740px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/Basilica-planta-perspect.jpg"><img class="size-full wp-image-1050" title="Basilica-planta-perspect" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/Basilica-planta-perspect.jpg" alt="" width="730" height="450" /></a><p class="wp-caption-text">A planta final e a perspectiva da Basílica e Praça de São Pedro, com o obelisco reposicionado.</p></div>
</dt>
<dt> </dt>
<dt>Se você pensar bem, um obelisco tem mesmo esse poder de atrair o olhar, e quando bem usado, ele pode ajudar a equilibrar uma composição muito horizontal, dar proporção e senso de profundidade a uma visada muita ampla. É o caso do enorme obelisco da Av. 9 de Julio, em Buenos Aires. Pena que mais modernamente, o pessoal &#8211; que ouviu o galo cantar, mas não sabe bem onde &#8211; tem usado levianamente desse recurso, que não serve pra celebrar mais nada, e muitas vezes é projetado sem manter proporção com porcaria nenhuma, só para a glória duvidosa de algum político chinfrim ou para a vaidade de algum arquiteto que &#8220;se acha&#8221;. Preciso dar exemplos? Cada um aqui dá conta de lembrar de mais de um, se duvidar.</p>
</dt>
</dl>
</div>
<p>Tá bom, não dá pra comparar o obelisco da Praça de São Pedro com o da 9 de Julio, mas é pra dizer que são marcos verticais que ajudam a dar proporção, senso de profundidade e orientar a perspectiva. Como elementos verticais de destaque na paisagem servem de referência e ajudam as pessoas a se situarem. Isso, claro, num momento em que as construções ainda não eram tão altas a ponto de achatarem os ditos cujos. A largura da 9 de Julio ajuda muito a que o obelisco ainda se destaque, a despeito dos prédios construídos ao redor.</p>
<div id="attachment_1052" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/obelisco-AvRioBranco.jpeg"><img class="size-medium wp-image-1052" title="obelisco-AvRioBranco" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/05/obelisco-AvRioBranco-300x201.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a><p class="wp-caption-text">O obelisco da Av. Rio Branco.  Fonte: Google Streetview</p></div>
<p>No final da Av. Rio Branco (Centro do Rio) também há um obelisco e uma vez eu comentei isso com meu marido. Ele, que passa ali desde sempre, perguntou, incrédulo: Tem? Nunca vi&#8230; Claro, o obelisco era perfeitamente visível na abertura da Avenida, quando todos os prédios em volta tinham a altura da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas Artes, do Teatro Municipal. Depois que os arranha-céus foram construídos indiscriminadamente (e criminosamente, também, na minha modesta opinião), a avenida ficou com uma cara apertadinha e o obelisco ficou com a escala ridícula de um palitinho de fósforos. É tudo uma questão de proporção, e não é da proporção do lucro que eu estou falando, mas isso é outra história.</p>
<p>Buenos Aires tem coisas muito mais interessantes e legais que o obelisco da 9 de Julio, mas se algum dia um de vocês for visitar a bela capital argentina, não deixe de considerá-lo como um marco na paisagem da cidade, na história urbanística local e como um testemunho de um modo de pensar e construir a cidade.</p>
<p><em>PS: Eu não sei como, mas as fontes se desconfiguraram aqui e eu não consegui arrumar de jeito nenhum. </em></p>
<p><em>Update: como vocês podem ver, as fontes foram arrumadas. Oba!<br />
</em></p>
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		<title>Cisnes</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Feb 2011 01:58:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[desejos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Estar de férias é bom. Hoje eu fiz as unhas, almocei com uma amiga querida, com direito a algumas horas de conversa de mulheres &#8211; marido, filhos, trabalho, idade, nossa relação com o corpo e com o mundo (eu sei que é tremendamente clichê e reducionista chamar isso de &#8220;conversa de mulheres&#8221;, mas isso é outro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estar de férias é bom. Hoje eu fiz as unhas, almocei com uma amiga querida, com direito a algumas horas de conversa de mulheres &#8211; marido, filhos, trabalho, idade, nossa relação com o corpo e com o mundo (eu sei que é tremendamente clichê e reducionista chamar isso de &#8220;conversa de mulheres&#8221;, mas isso é outro assunto). Depois fui ao cinema.</p>
<p>Eu tinha em mente mesmo sentar e escrever hoje, o que eu ia postar já está até pronto, é sobre São Paulo, faltava só acrescentar algumas imagens e links e publicar. Mas estou sob tão forte impacto do filme que acabei de assistir que preciso falar dele enquanto ainda está tudo borbulhando.</p>
<p><a href="http://www.adorocinema.com/filmes/cisne-negro/trailers-e-imagens/"><img class="alignleft size-medium wp-image-946" title="cartaz_black_swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cartaz_black_swan-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a>Fui ver <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/cisne-negro/" target="_blank"><strong>Cisne Negro</strong></a> (The Black Swan), com o qual eu espero que a Natalie Portman ganhe o Oscar de melhor atriz esse ano.</p>
<p>Eu sou chorona e me envolvo emocionalmente com personagens e histórias, em filmes e livros. Por tudo o que eu já tinha lido e ouvido falar sobre este filme, eu esperava mesmo me impressionar. Só que eu não chorei desta vez. Fiquei tensa e atenta, acompanhando a história crescer. Atenta às minhas emoções e às angústias da personagem, analisando cenas e diálogos, processando imagens, luz, cores, enquadramentos, atuações. Enlevada com a excelência de tudo, as escolhas perfeitas de todos os detalhes. Mas na hora que o filme acabou e começaram a subir os créditos, eu me vi colada na cadeira; subitamente as lágrimas brotaram grossas e eu precisei me esforçar para conter uma forte crise de choro ali mesmo. Estou me segurando até agora, embora não consiga parar de tremer. Respirei fundo, fui ao banheiro lavar o rosto, as palavras começaram a jorrar na minha cabeça e eu achei melhor sentar para tomar um café e escrever (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2011/02/04/antes-tarde/" target="_blank">a cadernetinha, lembra?</a>). Neste exato momento estou em casa passando a limpo o que saiu às pressas ao longo de uma grande xícara de capuccino.</p>
<p>Uma das coisas deliciosas do bom cinema (cada um sabe o que considera bom) é justamente permitir leituras várias, na medida em que encontra em cada espectador terrenos diferentes, predisposições diferentes, e desperta fantasmas, feridas, resistências, crenças, lembranças e afetos diferentes. Nenhuma dessas leituras invalida a outra, todas se enriquecem e complementam, numa grande e coletiva recriação da obra. Aliás, é por isso que eu odeio quando perguntam pra meninos e meninas de escola, obrigados a ler livros que não desejam porque &#8220;cai no vestibular&#8221;: o que o autor quis dizer com&#8230;? Porra, eu sei lá? Faz diferença? No máximo &#8211; e já é muito se eu der conta disso &#8211; eu sei o que aquilo disse pra mim, o que eu senti naquele momento, e que pode ser diferente do que eu sentirei se reler em outro momento da vida.</p>
<p>Meu café acabou e eu estou mais calma. A partir de agora, eu devo alertá-los de uma coisa. Se você não viu o filme ainda, é hora de parar aqui e voltar depois. <strong>Daqui pra diante é só spoiler, por sua conta e risco.</strong> Se você já viu, ou não vai ver, ou não se importa de saber previamente de cenas e desfechos, fique à vontade para entrar na conversa.</p>
<p>Basicamente, o filme mostra a trágica e delirante trajetória de uma jovem bailarina, competentíssima e dedicada, além de meiga e vulnerável, em direção à loucura, ao aceitar (<em>ela mais do que aceita, ela deseja</em>) o papel de Rainha dos Cisnes numa montagem da célebre obra de Tchaikowsky. Aí entram outros elementos, claro. A mocinha tem uma mãe tirana e manipuladora, ex-bailarina que nunca saiu do anonimato do corpo de baile, abandonou o palco quando engravidou, e agora esmaga a filha com a obrigação de vingar suas frustrações. Aflige ver, na primeira metade do filme, a garota como dócil massinha de modelar nas mãos da mãe, sublimando seus próprios desejos, ao mesmo tempo em que pressentimos a revolta sob a pele, manifesta em compulsões como se coçar ou cutucar até arrancar sangue. Ao mesmo tempo, há o diretor da companhia, déspota e sedutor (Vincent Cassel, magnífico), que molda suas estrelas a ponto de subjugá-las, para substituí-las quando seu desempenho já não rende o necessário para a companhia de dança. Sem falar da culpa que a novata sente ao destronar a bailarina que até então era a diva intocável, invejada e venerada. De todo lado há pressões e tormentos, que por habilidade do diretor do filme, nem sempre distinguimos de imediato se são reais ou alucinatórios. Prato cheio.</p>
<p>No balé Lago dos Cisnes (que música arrebatadora) há essa personagem, a mocinha que é enfeitiçada e vira um lindo cisne branco. Só o verdadeiro amor pode salvá-la. O amor chega na forma de um príncipe, mas eis que surge um cisne negro, que encanta, seduz e conquista o amor desse príncipe, levando-o embora. Em desespero, o cisne branco se atira de um precipício, pois entende que só assim terá a sonhada liberdade. A montagem visceral e inovadora idealizada pelo diretor da companhia e coreógrafo bam-bam-bam para a abertura da temporada propõe que a mesma bailarina interprete ambos os cisnes, o branco e o negro.</p>
<p><a href="http://larioscine.blogspot.com/2010/12/indicados-ao-globo-de-ouro-2011.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-947" title="White-Swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/White-Swan-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a>Nossa mocinha, Nina, é perfeita para o papel de cisne branco: técnica apuradíssima, doçura, inocência e entrega às raias do desamparo. Mas o cara duvida que ela seja também capaz de incorporar o lado sombrio, passional, do outro cisne. Ela ensaia exaustiva e repetidamente. Seus movimentos são tecnicamente irretocáveis. Ele empurra seus limites, quer mais, reclama, não está satisfeito. Ela não entende, quer saber onde está errando. Ela quer ser perfeita. Num dos momentos que mais me tocaram no filme, ele lhe diz que perfeição não tem a ver com controle, com disciplina. Perfeição não existe. Existe o maravilhamento que vem da entrega absoluta. É preciso se soltar, diz ele. Eu não entendi direito no original se ele diz &#8220;loose yourself&#8221; ou &#8220;lose yourself&#8221;. Eu sei que a pronúncia é ligeiramente diferente, mas meu inglês não deu pra tanto. Não importa. Loose é soltar, afrouxar. Lose, literalmente, é perder. Se soltar pode ser também se perder. Quando a gente se solta, abre mão do controle (o que pode dar a sensação de <span style="text-decoration: underline;">perder</span> o controle)  e isso pode assustar, travar.</p>
<p>Nina tem medo. E o sofrimento de parir/soltar esse personagem, leva-a gradativamente a perder a sanidade.</p>
<p>Esse tema é muito caro para mim. Eu fui uma criança e uma adolescente com esse ímpeto: ser a melhor aluna, a filha exemplar, a mocinha educada, simpática, gentil, inteligente, ser perfeita. Só assim eu seria amada. Desagradar a alguém, quem quer que fosse, era uma dor insuportável, uma vergonha e um fracasso. Não, meus pais não eram tiranos, isso era um traço meu, a minha forma de perceber o meu mundo e lidar com ele. Claro, eu sei, (claro hoje, tsc tsc tsc), a perfeição não existe. Lutar por ela, nesse nível, exige, entre outras coisas, abdicar de uma ampla gama de emoções. Domar, sufocar o cisne negro, mantê-lo sob controle (e isso cansa e aprisiona, eu garanto).</p>
<p>Todos temos dentro de nós luz e sombra, bondade e crueldade, generosidade e mesquinharia. Quando cindimos e exilamos de nós qualquer dessas dimensões, dessas facetas, há frustração, dor, e em casos muito extremos, como acontece no filme, pode haver loucura, esquizofrenia. Eu passei bem longe disso, vamos deixar claro, mas tive minha cota de sofrimento nessa batalha inglória e inócua. Demorei muitos anos para, já na minha vida adulta, conciliar em paz as duas partes em mim. Aliás, minto. Hoje eu vejo tudo de uma forma que eu não sei se sei explicar direito. Porque não são <strong>duas partes</strong>, como se existisse ora uma, ora outra. Eu não vejo a vida de maneira tão dicotômica. É tudo junto, misturado, camadas que formam um uno complexo e fascinante, imperfeito e maravilhoso. A falha, a falta, esse indizível buraco escuro e estranho em nosso peito, são parte integrante e inalienável de todos nós, o que nos faz humanos, o que nos faz andar.</p>
<p>Se eu aceito e integro isso em mim, eu não preciso ser o cisne branco OU o cisne negro, eu posso ser simultaneamente os dois e muito mais. Não existe mais isso de ter que ser educada, doce e inteligente <strong>ou então</strong> botar tudo a perder e ser porralouca, respondona, arrogante. Casta ou vagabunda. Careta ou drogada. Disciplinada ou desleixada. Perfeita ou fracassada. Sim, porque quando a gente se dá conta do horror, do peso de ter sido &#8220;a certinha&#8221; tanto tempo, o risco de pendular para o lado oposto é enorme. Principalmente quando a gente é muito jovem e tudo tem tanto contraste. E o pior é que a gente não percebe que a moeda é a mesma. Cara e coroa. Então, eu não preciso abrir mão de ser gentil para viver (em paz) com o fato de que eu posso ocasionalmente cometer uma grosseria. Inadvertidamente&#8230; ou não. Como todo mundo. Ser uma &#8220;garota meiga&#8221;, como a Nina é chamada pela mãe, não deveria impedir ninguém de sentir (e poder externar de alguma forma) raiva, inveja, ciúme, medo, desejo. Afinal, forçar a existência de um só lado é se mutilar&#8230;</p>
<p><a href="http://entretenimento.pt.msn.com/cinema/gallery.aspx?cp-documentid=155708823&amp;page=1"><img class="alignright size-medium wp-image-948" title="Black-Swan" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Black-Swan-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a>Quando, no final do filme, o cisne negro eclode, a fórceps, de dentro dela, Nina precisa fazer os dois cisnes lutarem entre si, porque, na sua experiência desesperada, só um pode sobreviver. E quando só um lado existe, nenhum dos dois consegue viver, realmente.</p>
<p>Meu encantamento com a arte é esse. Ela nos permite vivenciar simbolicamente todos os limites. Vislumbrar ou fantasiar o que poderíamos ser se nosso próprio trem descarrilhasse. Uma pausa aqui. Eu lembro que, numa certa fase da adolescência, toda vez (foram poucas, confesso) que eu tinha essa sensação de que ninguém me entendia, e ficava tão exageradamente devastada que flertava com a idéia de morrer só pra ver os outros se martirizando por não terem me dado a devida atenção (adolescentes podem ser muito dramáticos e teatrais &#8211; e horrivelmente narcisistas), eu me trancava no quarto e ouvia Pink Floyd. De olhos fechados, no escuro. Especialmente <em>The Wall</em> e <em>The dark side of the moon</em>. Eu me emociono até hoje com a sequência de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=SNoUGO0StKg" target="_blank">Time e The great gig in the sky</a>. Me confortava realizar qualquer fantasia (principalmente as dolorosas) através da música. Aí eu chorava um balde, desanuviava e seguia a minha vida, feliz e contente. Não, eu não fui uma adolescente depressiva, longe disso. Mas é como eu estou dizendo: existe de tudo lá dentro da gente. Fim da pausa.</p>
<p>Pela arte, a gente pode se soltar sem se perder, experimentar sensações que não conseguiria externar de outra forma, se aproximar emocionalmente não só das nossas próprias (e de vez em quando ocultas) entranhas, como dos outros em geral,  porque todas as emoções existem potencialmente dentro de nós e nos conectam uns aos outros, nos igualam de certa forma, ou estabelecem um denominador comum pelo menos.</p>
<p>Quando eu chorei no fim do filme foi porque, ao abandonar a &#8220;perfeição&#8221; da análise técnica e psicológica, eu relaxei e fui inundada de empatia por aquela personagem. Eu pude sentir, por um minúsculo instante, todo o peso de sua dor, de seu medo, de sua cisão interna, até sua trágica libertação. Pude sentir quão frágil é nossa humanidade, minha humanidade imperfeita, quão tênues são às vezes os véus que nos separam ou nos resguardaram, ao longo da vida, de caminhos mais turbulentos. Chorei por mim, pelas minhas falhas, mas também pela minha sorte e pela minha força, pela minha história e pelos meus próprios cisnes, entrelaçados em mim. Como numa dança contínua, eles se espreitam, se atraem, se afastam, se tocam, e por fim se abraçam e se fundem no que eu sou. E entre o branco e o negro eu sou também todos os infinitos matizes e nuances aí no meio. O cisne negro não é meu lado escuro e falho. Ele simplesmente é parte integrante de mim, uma das muitas manifestações do meu ser, em toda a imperfeita inteireza que me constitui.</p>
<p>O meu cisne negro não precisa ser destrutivo, no sentido de aniquilador, embora possa ser transformador. Às vezes é preciso destruir algumas coisas para que surjam outras novas, quebrar o ovo para fazer o omelete, sabe como? Quando eu abraço meu cisne negro e permito que ele venha à tona, ele pode ser uma força poderosamente criativa, propulsora e até bem-humorada. Buscar esse equilíbrio e essa integração é o espetáculo da nossa vida inteira.</p>
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		<title>Livros, músicas, filmes, vida</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Sep 2010 16:53:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem eu estava conversando com alguns amigos, por e-mail, sobre um livro que alguns de nós lemos recentemente, e que nos provocou reações intensas.  Pelo rumo que a conversa tomou, eu acabei pensando em como é a minha relação com a arte. Especialmente a literatura, a música e o cinema. As artes plásticas não me provocam a mesma coisa, não na<br />
mesma intensidade.  A <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a> (uma das amigas dessa conversa) estava dizendo a mesma coisa, como que ler nos provoca viagens espantosamente emocionais, quando a leitura, supostamente, deveria ser alguma coisa que nos estimulasse mais racionalmente, e a imagem (pensando aqui em pinturas e esculturas) não nos transportam tanto. Claro, falando por mim e por ela. Eu amo e me emociono profundamente com algumas obras, sou capaz de ficar uma eternidade na frente de alguns quadros &#8211; e já fiz isso &#8211; maravilhada, ou com a garganta em nó, sacudida por sentimentos profundos. Mas raramente fico povoada por aquele quadro dias, meses depois, como sou capaz de ficar com livros, filmes e músicas.</p>
<p>O sinal de que alguma coisa é boa para mim é quando me arrebata, quando dribla qualquer possibilidade de defesa racional e quando eu me deixo levar pela emoção, me colocando no lugar daquelas pessoas/personagens. Alguns<br />
autores conseguem isso comigo, outros não. A autora do livro que nós estávamos discutindo, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lionel_Shriver" target="_blank">Lionel Schriver</a>, pelo que eu vi, consegue. E eu adoro. Adoro sentir confiança o bastante para me abandonar e permitir que o autor me conduza numa viagem emocional diferente, mesmo que ela seja devastadora, como foi o caso. Só paro pra pensar depois, como se tivesse pulado de <em>bungee-jump</em>. Na hora da queda livre, não dá tempo nem adianta racionalizar, querer pular fora. Só depois, no chão, vc se dá conta de tudo o que sentiu durante.</p>
<p>O <a href="http://www.interney.net/blogs/lll/" target="_blank">Alex Castro</a> falou uma vez (acho que no<a href="http://www.formspring.me/alexcastrolll" target="_blank"> formspring</a>, eu tou adorando aquilo) que a importância da literatura &#8211; acho que ele se referia a por que ler os clássicos &#8211; mas ele falou que a literatura oferece uma oportunidade de vivência da <strong>alteridade</strong>, ou seja, de você se colocar na pele de outra pessoa, de experimentar sensações, emoções, viver experiências tantas vezes completamente distintas da sua realidade, de, em suma, prestar atenção e enxergar o Outro como<br />
semelhante. Isso numa perspectiva de desenvolver sua capacidade de empatia, de humanizar as relações, relativizar as diferenças. Eu concordo 100%, a literatura, a música e o cinema têm esse efeito sobre mim, me humanizam, na medida em que me fazem comungar com outros seres humanos, em suas glórias e misérias, virtudes e mesquinharias. E ver que todos esses sentimentos existem potencialmente dentro de cada um de nós, e sabe Deus qual o gatilho que faz aflorar em maior ou menor intensidade cada coisa, em cada pessoa, em cada momento da vida.</p>
<p>O livro ao qual nós nos referíamos no e-mail é <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2248154" target="_blank">Precisamos falar sobre o Kevin</a>. Neste romance, a autora cria uma situação ficcional mas perfeitamente plausível e realista, sobre um adolescente de 16 anos que, num belo dia, comete uma carnificina na escola, matando uma professora e vários colegas. A personagem que narra a história é a mãe do garoto, na forma de cartas que ela escreve ao marido. Nessas cartas, ela mescla lembranças da vida do casal, desde que se conheceram, como casaram, como e por que tiveram um filho, a infância que ela acredita tão flagrantemente sintomática do menino (ao mesmo tempo em que ninguém mais percebe a mesma coisa, muito menos o pai, o que a faz imaginar se não seria ela a neurótica), com descrições da sua vida despedaçada de hoje, pontuada e confrontada todo o tempo com as visitas que ela faz à penitenciária juvenil onde o filho está preso. É uma tentativa de entender, dar sentido a tudo o que aconteceu, impiedosamente vasculhando suas próprias culpas ou pelo menos tentando ver se e onde elas existiram. Ao mesmo tempo em que a autora traça, pela voz e olhar dessa mãe, um raio-x daquela família em particular, consegue também desenhar um panorama assustador de questões estruturais da sociedade norteamericana que tornam esse tipo de acontecimento tão comum e quase banal, apesar da comoção que vira e mexe causa na mídia.</p>
<p>Pra quem gosta desse tipo de temática, é um livro que eu recomendo. Mas é pesado, indigesto, e se você é que nem eu e mergulha, há grandes chances de que destampe incômodos e fantasmas pessoais. Não estou sugerindo nenhum tipo de identificação rasa e imediata com instintos assassinos e disfunções familiares, mas questões mais universais como as nossas culpas, as nossas escolhas, as nossas relações com os outros, ciúme, inveja, solidão, negação, desejo de ser amado, desejo de encontrar seu lugar no mundo.</p>
<p>Antes que eu esqueça. Muito menos estou sugerindo nenhuma abordagem pseudo-terapêutica, de &#8220;análise&#8221; dos personagens, num viés de avaliar o caráter e a estrutura emocional deles como se fossem &#8220;pacientes&#8221;, na busca de enquadrá-los num diagnóstico que aponte quais os problemas, com o objetivo de curar esses problemas. Mais normativo que isso impossível. E pessoalmente, eu nem sequer acreditaria numa psicanálise ou psicoterapia que trabalhasse nesse rumo.</p>
<p>Quando li este livro, ao contrário disso, eu confesso que senti profunda empatia com os personagens todos, de vez em quando inclusive com o adolescente assassino. Evidentemente, muito mais ainda com a mãe. Mas eu me pus na pele mesmo daquelas pessoas, e senti a cadeia de responsabilidades e dúvidas que existem a cada momento na vida de todos nós, tanto na hora das escolhas quanto lá na frente, na hora &#8211; que muitas vezes não tem como prever antes &#8211; de avaliar o resultado dessas escolhas. E senti como que a culpa, pura e simples, seja para imputá-la ou para sentí-la na carne, não constrói nada, só consome e paralisa. Para avançar, para não repetir, para compreender e colocar a vida em movimento é preciso superar a culpa. Responsabilidade é outra coisa completamente diferente.</p>
<p>Já comprei mais um livro da autora, <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2968789" target="_blank">O mundo pós-aniversário</a>, mas ainda não comecei. E tem outro, ainda não traduzido em português, que também está na mira, por recomendação da Vera: <a href="http://www.goodreads.com/book/show/708268.A_Perfectly_Good_Family" target="_blank">A perfectly good family</a>.</p>
<p>Pronto, gastei o tempo falando de livros (e se vocês soubessem a pilha que está na minha mesinha, com livros de todos os tipos, ensaios, poesias, romances, História, bibliografia para preparar aulas e para escrever projeto de tese, caramba, eu queria largar tudo e passar dois meses só lendo, mais nada). Música e cinema ficarão para outra vez. Eu ia contar o papel que o <strong>Pink Floyd</strong> teve na minha juventude (especialmente <a href="http://www.pinkfloyd.co.uk/dsotm/content/setup.html" target="_blank">The dark side of the moon</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt0084503/" target="_blank">The Wall</a>), e ia falar do filme <a href="http://www.cinepop.com.br/criticas/origem_103.htm" target="_blank">A Origem</a>, que assisti essa semana e do qual gostei muito. Essa é pros alunos de <strong>História da Cidade II</strong>, que essa semana tiveram aula sobre Grécia Antiga, e que nunca tinham ouvido falar do mito de <a href="http://colimao.blogspot.com/2005/10/teseu-e-o-minotauro.html" target="_blank">Teseu e o Minotauro</a>. Saber um tiquinho disso ajuda até mesmo a sacar a brincadeira que o diretor do filme faz, ao colocar uma arquiteta com o nome de Ariadne para construir um labirinto. Cultura geral também é diversão, môs fios.</p>
<p>Até já.</p>
<p>PS: Hoje é dia 11 de setembro. Não quero nem ouvir essa palhaçada de queimar Alcorão nos Estados Unidos. Prefiro me emocionar com <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">esse post</a> do <a href="htthttp://www.idelberavelar.com/" target="_blank">Idelber</a> que lembra e homenageia o grande Salvador Allende, e sua heroica e digna resistência ao golpe militar no Chile. <em>Compañera Urbanamente, presente!</em> (vai <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/09/11_de_setembro_37_anos_allende_vive.php" target="_blank">lá</a> ler pra entender a citação).</p>
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		<title>Cidades lit&#8230; péra aí, uma palavrinha antes</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jul 2009 22:32:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[universidade]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Não, ainda não é desta vez que eu vou faltar com o combinado. Tudo bem que já são sete da noite, mas ainda é sexta-feira, então, tá valendo. E não, esse blog não vai se tornar um blog de uma série semanal só. Vocês acreditam em promessas de aniversário, ano-novo, essas coisas? Tá, eu também não. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não, ainda não é desta vez que eu vou faltar com o combinado. Tudo bem que já são sete da noite, mas ainda é sexta-feira, então, tá valendo. E não, esse blog não vai se tornar um blog de uma série semanal só. Vocês acreditam em promessas de aniversário, ano-novo, essas coisas? Tá, eu também não. Mas quero declarar que tenho a intenção de voltar a escrever mais assiduamente. Não o tenho feito nem sequer por falta de assunto. E chega a ser engraçado alegar falta de tempo, porque eu estou de férias.</p>
<p>Bom, a gente reclama de falta de tempo quando o trabalho aperta, mas a verdade é que, tendo tarefas e prazos a cumprir, a gente se organiza melhor, eu acho. Estando de férias, tudo pode ser feito mais tarde, ou depois do almoço, ou amanhã sem falta, e os dias vão se embora. É bom também.</p>
<p>Posso contar historinha? Explica em parte meu sumiço aqui. Para quem não sabe, eu dei aula, até o fim do ano passado, na Faculdade de Arquitetura da Universidade Santa Úrsula, aqui no Rio. Pedi demissão no início deste ano, por diversos motivos, mas tenho orgulho e felicidade de ter trabalhado lá. Aprendi muita coisa, fiz bons amigos, amadureci profissionalmente e abri algumas portas legais. Saí lamentando muito que as condições de crise em que a faculdade se encontra impossibilitassem minha permanência.</p>
<p>Neste primeiro semestre fiz alguns trabalhos avulsos, comecei o Urbanamente, e fiz &#8211; senão um ano, pelo menos uns meses sabáticos, que me ajudaram a clarear idéias e criar espaço para que novas coisas pudessem surgir. E surgiram. A partir da sugestão e apoio de <a href="http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">um bom amigo</a>,  eu começarei em agosto a dar aulas na Universidade Veiga de Almeida. Serão, por enquanto, duas disciplinas diferentes, em dois cursos: História da Arte no curso de Design de Interiores, e Planejamento Urbano no curso de Gestão de Negócios. Acertei tudo ontem com a Direção Acadêmica, tive a melhor impressão possível em termos de profissionalismo e disposição de levar adiante um curso com qualidade acadêmica e estou bem feliz. Quis dividir isso com vocês porque pode ser que eu acabe introduzindo alguns temas desses por aqui em futuro breve.</p>
<p>Isto posto, vamos às Literárias de hoje.</p>
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		<title>Ainda sobre educação, cidade e crianças</title>
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		<pubDate>Tue, 26 May 2009 21:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, pelos prédios e jardins, pelas comidas e paisagens. Uma das coisas que mais amei foi a oportunidade de visitar, com calma, os museus da cidade, apaixonada que sou por História da Arte. Fui a dois deles, o Centro de Arte Reina Sofia, com um respeitável acervo de arte moderna, e o famoso Museu do Prado, com seus vários andares repletos de Boticcellis, Caravaggios, Rembrandts, El Grecos, e, obviamente, das obras dos mestres espanhóis Velázquez e Goya. Não há palavras para descrever a emoção de contemplar esses quadros de perto.</p>
<p><a href="http://vi.sualize.us/view/e8bf5994551cc2d49e09e42b48c0c5a0/"><img class="alignleft size-medium wp-image-261" title="children-and-art2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/children-and-art2-300x300.jpg" alt="children-and-art2" width="300" height="300" /></a>Porém, o que me faz falar disso agora é que, nos dois museus, eu presenciei uma cena que me chamou a atenção. Excursões escolares, com criancinhas bem pequenas, passeando atentamente pelos salões e corredores. Várias. De escolas diferentes, com turminhas de idades diferentes, variando dos 4-5 aninhos até meninos e meninas de 8-9 anos. Uniformes, mãozinha no ombro do colega da frente, as &#8220;tias&#8221; orientando as filas. E sabe o que eu mais achei interessante e me fez pensar? Em nenhuma dessas excursões havia uma pessoa &#8220;explicando&#8221; as obras, falando do autor, do estilo, da época histórica. Nada disso. As crianças apenas passavam e iam olhando, como pequenas esponjinhas absorvendo imagens e cores, sem mediação racional. De vez em quando, alguma criança fazia uma observação qualquer, por livre associação, e jamais era criticada ou corrigida. A professora sorria e perguntava mais alguma coisa, que estimulasse uma elaboração maior, de acordo com a idade da criança. Não eram feitos juízos de valor, do tipo &#8220;bonito&#8221; ou &#8220;feio&#8221;, &#8220;certo&#8221; ou &#8220;errado&#8221;.</p>
<p>Eu achei fantástico, e passei um bom tempo pensando sobre o assunto. O que é que forma nosso repertório de referências visuais e estéticas? Tudo o que a gente vê, principalmente o que a gente vê repetidamente, nos molda. Se vemos sempre ou principalmente ruas feias, sujas, casas amontoadas e escuras, muros pichados, cenas de violência e miséria, é isso que tendemos a achar natural. Eu não sei o que as criancinhas espanholas vêem no seu dia a dia urbano, mas ali estava uma oportunidade de impregnar suas retinas e almas com algumas das melhores obras de arte  já produzidas pela humanidade, num ambiente igualmente belo e elegante.  E se a gente pensar bem, além das referências visuais, há ainda a chance de conviver por algumas horas com referências de comportamento, de convívio social, de valorização de patrimônio, que certamente contribuem para desenvolver o que chamamos de atitudes civilizadas.</p>
<p>Claro que só visitar museus não resolve, claro que formas variadas de expressão artística devem ser valorizadas, mas eu gostaria que existisse um programa que oferecesse às nossas crianças a chance de, desde bem cedo, e com bastante frequência, ter contato com a beleza, a arte, os espaços bonitos e nobres da cidade, independente de decorar nomes e datas, só pelo prazer da fruição mesmo. Isso também alimenta e ajuda a fazer pessoas melhores.</p>
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