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	<title>Urbanamente &#187; Bauman</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Muitos filmes e algumas reflexões</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 18:36:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Bauman]]></category>
		<category><![CDATA[Clint Eastwood]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>É, é amanhã. Claro que eu vou ver, ainda mais depois de tudo o que a <a href="http://vinhoselivros.blogspot.com/2010/03/jc-ja-voltou-esta-entre-nos.html" target="_blank">Suzi</a> falou, aí nos comentários do post de baixo e lá no <a href="http://vinhoselivros.blogspot.com/" target="_blank">Vinhos e Livros</a>. Melhor mesmo só se eu pudesse ver a entrega dos prêmios sentada no mesmo sofá que ela, bebendo vinho e falando bobagens. Não tem ninguém melhor no mundo com quem falar bobagens do que a Suzi. Segunda-feira voltamos à programação normal.</p>
<p>Dos badalados todos eu não vi <a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/bastardosinglorios.htm" target="_blank">Bastardos Inglórios</a>. Já falei que não gosto de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Quentin_Tarantino" target="_blank">Tarantino</a>? Pois é, vai entender. Mas estou quase dando o braço a torcer, já saiu em dvd, tou pensando. Falta ver alguns também, que estão em cartaz, mas ainda não tive tempo de assistir: <a href="http://cinema.uol.com.br/ultnot/efe/2010/03/04/jeff-bridges-rouba-a-cena-em-coracao-louco.jhtm" target="_blank"><strong>Coração Louco (Crazy heart)</strong></a> com o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000313/" target="_blank"><strong>Jeff Bridges</strong></a>, <a href="http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/2010/03/04/estreia+direito+de+amar+encontra+forca+em+papel+de+colin+firth+9417102.html" target="_blank"><strong>Direito de Amar (A single man)</strong></a> com o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000147/" target="_blank"><strong>Colin Firth</strong></a> e <a href="http://www.portaldecinema.com.br/Filmes/simplesmente_complicado.htm" target="_blank"><strong>Simplesmente Complicado (It&#8217;s complicated)</strong></a> com a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000658/" target="_blank"><strong>Meryl Streep</strong></a> são os principais. Tá, eu sei que esse filme da Meryl não concorre a nada, mas é Meryl, tá em cartaz e eu quero ver. Rir também faz bem. Ah, e a barbada para prêmio de melhor atriz esse ano, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000113/" target="_blank"><strong>Sandra Bullock</strong></a>, em <a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/sonhopossivel.php" target="_blank"><strong>Um sonho possível (The blind side)</strong></a>, ainda não está em exibição. Inacreditavelmente, o filme com mais indicações, <a href="http://www.cinematorio.com.br/2009/08/guerra-ao-terror-hurt-locker.html" target="_blank"><strong>Guerra ao Terror (The hurt locker)</strong></a>, praticamente já saiu de cartaz no Rio. Está em pouquíssimas salas, todas em horários e localizações que praticamente inviabilizam que eu possa ir ver. Blé.</p>
<p>Entre os que eu já vi, e foram muitos (oba), não falarei nada sobre <a href="http://www.avatarmovie.com/" target="_blank">Avatar</a>. É bacana, e a Suzi, que eu mencionei ali em cima, falou tudo o que eu poderia falar. Mas não me arrebatou. Eu devia ter falado aqui de <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/distrito-9/" target="_blank">Distrito 9 (District 9)</a>, que aborda questões de um ponto de vista urbano que tem tudo a ver com o que discutimos aqui no blog. Assistam, se puderem. Já falei de <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/03/solto-no-ar/" target="_blank">Amor sem escalas (Up in the air)</a>, e recomendo também <a href="http://cinecartografo.wordpress.com/2010/02/09/educao-an-education-2009/" target="_blank">Educação (An education)</a> e <a href="http://www.amalgama.blog.br/02/2010/preciosa-uma-historia-de-esperanca/" target="_blank">Preciosa (Precious: based on the novel Push by Sapphire)</a>, que como a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank">Fal </a>me advertiu, é um soco no estômago. Não percam de vista que ambos tratam de encruzilhadas na vida de duas meninas-mulheres de 16 anos. Eu vi em dois dias seguidos e de alguma maneira isso acrescentou muitas minhocas às minhas caraminholações.</p>
<p>Hoje, sábado, estou planejando assistir ao argentino <a href="http://cinemmarte.wordpress.com/2009/09/29/festival-do-rio-2009-o-segredo-dos-seus-olhos/" target="_blank">O segredo de seus olhos (El secreto de sus ojos)</a>. Como se eu não tivesse um monte de coisas pra fazer. Depois vocês me verão reclamando que estou atrasada com o planejamento das aulas, mas isso é outra história.</p>
<p>Já que eu mencionei a Meryl, ela concorre por<a href="http://www.omelete.com.br/cine/100022382/Critica__Julie___Julia.aspx" target="_blank"> Julie &amp; Julia</a>. Delícia de filme, e a Fal fez uma série inteira de posts imperdíveis sobre ele. Last but not least, sabe que eu adorei <a href="http://www.cineplayers.com/filme.php?id=6046" target="_blank">Nine</a>? Não é um filmaço, se a gente ficar esperando reviver <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Fellini" target="_blank">Fellini </a>a frustração é garantida, mas é bem feito, e os números musicais são bons, muito bons, com destaque, na minha modesta opinião, para o empolgante <a href="http://www.youtube.com/watch?v=gVISTjbHC0Q&amp;feature=related" target="_blank"><em>Cinema Italiano</em></a> a cargo da <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005028/" target="_blank">Kate Hudson</a>. E a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0004851/" target="_blank">Penelope Cru</a>z faz bonito como a sexy, intempestiva e carente Carla, merecendo concorrer a coadjuvante. Se eu fosse homem eu enlouquecia com a cena em que ela diz pro <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000358/" target="_blank">Daniel Day-Lewis</a> que vai esperá-lo ali mesmo (ela está num quarto vagabundo de hotel), de pernas abertas. Eu sou mulher, e não jogo nesse time, mas juro que o calor subiu com vontade nessa hora.</p>
<p>Sobre <a href="http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomeFilme/invictus/id/16334" target="_blank"><strong>Invictus</strong></a>. É <a href="http://cinema.cineclick.uol.com.br/filmes/ficha/nomeFilme/invictus/id/16334" target="_blank"><strong>Clint Eastwood</strong></a>, já é razão suficiente para conferir. Gostei tanto. Eu sempre fico esperando polêmica e alguma amargura, pelo menos uma certa dureza e desencanto, uma confrontação qualquer, quando se trata de filme do Clint. Mas neste ele não poupou doçura. Sem cair na pieguice, embora às vezes chegasse bem perto. De novo, ele se arriscou com sucesso na composição da linda canção-tema, como já tinha feito em <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/03/29/cineminha-ops-cinemao-no-caso/" target="_blank">Gran Torino</a> e outros. filmes. O cara é o cara mesmo, impressionante.  Cada vez mais ele se torna um dos meus diretores preferidos. Numa troca de e-mails falando sobre cinema, a Vera disse que uma coisa que ela admira é que ele (bem como o <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000487/" target="_blank">Ang Lee</a> que ela também mencionou) faz sempre filmes muito diferentes entre si, sem medo de arriscar. É verdade. Ele já reinventou o faroeste, já dirigiu a <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005476/" target="_blank">Hillary Swank</a> em <a href="http://www.imdb.com/title/tt0405159/" target="_blank">Menina de Ouro</a>, já falou da 2a. guerra mundial, fez o maravilhoso Gran Torino ano passado e agora conta um pedaço da história recente da África do Sul, o episódio de 1995 em que Mandela coopta o jogador de rugby François Pienaar para a missão de ganhar o campeonato mundial, como parte da estratégia de reunificar o país pós-apartheid. As caracterizações são impressionantes, ainda mais quando comparadas às fotos históricas da entrega da taça. <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000151/" target="_blank">Morgan Freeman</a>, como sempre, e em mais uma parceria com Eastwood, dá um show, com uma postura corporal mimética. E tem o bonitinho do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000354/" target="_blank">Matt Damon</a>. Eu gosto desse rapaz (olha o calor subindo de novo, hahahaha).</p>
<p>Sabem o que eu gostei nesse filme? A coragem de falar de perdão e reconciliação de maneira tão limpa, tão honesta, sem hipocrisia. Não é discurso burocrático, não tem moralismo ali, não da forma piegas que pode soar. Mandela, em sua vida privada, tem problemas de relacionamento com a própria família, e não está em questão se ele foi ou não um excelente chefe de estado, se resolveu questões graves em seu país, no campo econômico e social. Certamente ele cometeu erros, tanto pessoais quanto políticos, mas sua figura, para toda a humanidade e não só para a África do Sul, já faz parte de um panteão mítico, onde se encontram outros líderes como Abraham Lincoln ou Gandhi. E a história deste episódio é sobretudo muito bem contada, cheia de detalhes que, embora fora do foco principal da narrativa, ajudam a compor os personagens e o próprio momento que se vivia então. Nas mãos e pelo olhar de Eastwood, a gente acha que é possível acreditar – senão na humanidade – pelo menos em alguns homens como motores de transformação, apesar do caos, da violência e da miséria que nos rodeiam a todos. E que isso vale a pena.</p>
<p><a href="http://cinema10.com.br/filme/a-fita-branca" target="_blank"><strong>A Fita Branca (Das weisse band)</strong></a> merecia um post exclusivo. É um filme alemão, concorre a oscar de filme estrangeiro, e é fora de série, retratando acontecimentos inusitados e crimes misteriosos ocorridos em um pacífico vilarejo no interior da Alemanha no início do século XX. Assim que eu vi, eu comentei com amigos que ainda não sabia se tinha gostado do filme. Isso acontece às vezes, eu vou pensando, conversando e só depois descubro se gostei mesmo ou não. Nesse caso, não se trata nem de gostar, se trata de sentir que é um grande filme e que eu adorei tê-lo visto, apesar de ser do tipo que causa tremendo mal-estar e incômodo. Ou talvez por isso mesmo. Desses filmes que nos tiram da zona de conforto e nos forçam a pensar, a confrontar nossas posições.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/a-fita-branca.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-718" title="a-fita-branca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/a-fita-branca-212x300.jpg" alt="" width="212" height="300" /></a>Na tal conversa sobre cinema com a Vera, ela recomendou, e eu li, duas ótimas resenhas que sugerem interpretações diferentes e ambas válidas para o filme. Na <a href=" http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/10/24/as-raizes-do-mal-haneke-explica-“a-fita-branca”/" target="_blank">primeira</a>, a partir de uma entrevista com o diretor do filme, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0359734/" target="_blank">Michael Haneke</a>, tenta-se driblar a análise prevalecente de que o filme disseca a gênese do nazismo no seio da sociedade alemã da década de 10. Eu também consigo ver o filme assim, digo, sem conexão necessária com essa questão do nazismo, e sim como um debruçar-se sobre o Mal, desse jeito mesmo, com letra maiúscula. Nada de sobrenatural, antes que vocês pensem. É um Mal brotado e alimentado no coração humano e perversamente instilado em mentes e comportamentos de crianças que, longe de aprenderem de seus pais e cuidadores lições de tolerância e solidariedade, recebem deles exemplos de crueldade, preconceito, arrogância, travestidos de discursos morais e ensinamentos cristãos, embalados em exortações à correção de caráter, pureza de sentimentos e disciplina de comportamentos. E aí essas crianças devolvem o que aprenderam, eficientemente. Assustador.</p>
<p>Como aula de cinema o filme é impecável. Fotografia preto e branco perfeita, atuações memoráveis. O que é a expressão do menino que ilustra o cartaz do filme?</p>
<p>Na <a href="http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca" target="_blank">segunda resenha</a>, o autor parte do princípio de que o objetivo do filme é mesmo explicar a origem do nazismo e do Holocausto, a partir de uma verdadeira anatomia moral e psicológica dos moradores do vilarejo alemão. Vou tomar a liberdade de transcrever aqui, trechos do que ele escreveu, porque acho que sintetiza bem a principal reflexão que podemos fazer a respeito do tema. O original pode ser lido <a href="http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p><em>“A tese de Haneke é que esta estrutura autoritária da sociedade alemã, sobretudo a patriarcal, gerou fortes sentimentos de indiferença, crueldade e desprezo entre a geração de jovens do início do século XX, a mesma geração que anos mais tarde abraçaria a causa do nazismo.</em></p>
<p><em>Ao explicar o nazismo e o holocausto pela via do germanismo, em particular por sua estrutura patriarcal castradora, A Fita Branca é um enorme passo atrás na compreensão desses fenômenos. Primeiramente, é preciso dizer que esta tese não é nova. O que Haneke faz é endossar uma idéia do intelectual alemão Theodor Adorno, o mesmo autor dos principais estudos sociológicos da “indústria cultural” (“A Personalidade Autoritária”, 1950). A explicação de Adorno para o nazismo e para o holocausto, requentada mais de cinquenta anos depois por Haneke, é extremamente problemática. Em primeiro lugar, a tese é frágil porque tenta levar para o plano coletivo (das massas) conceitos e justificativas que são usados pela psicologia e, sobretudo, pela psicanálise, no âmbito individual. Ao fazer isso, ela não só trata erroneamente a massa como um indivíduo unificado (psicologização excessiva da história), mas também ignora fatos políticos e econômicos do período histórico do qual se refere. Em segundo lugar, olhar para o passado alemão buscando uma origem retroativa do nazismo é extremamente conveniente.</em></p>
<p><em>A tese de Adorno, defendida de forma apaixonante por Haneke, foi duramente criticada e derrubada por dois trabalhos brilhantes no século XX, um deles sendo o <strong>“Modernidade e Holocausto”</strong>, escrito pelo cultuado sociólogo <strong>Zygmunt Bauman</strong>. Bauman rejeita todas as teses que germanizam e particularizam o Holocausto. Em suas palavras, “o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura”. Nesse sentido, tratar do holocausto como uma questão de patologia psicológica e marcadamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é o símbolo do fracasso da modernidade.</em></p>
<p><em><strong>Bauman conclui acertadamente que os defensores da germanização do holocausto acreditam que uma vez estabelecida a responsabilidade moral e material da Alemanha, dos alemães e dos nazistas, a procura das causas está concluída. Em outras palavras, suas causas foram confinadas num espaço e num tempo limitados, para nossa sorte, o passado. Não raro, o nazismo foi durante um bom tempo classificado como uma “doença alemã”, um “desvio da civilização”, um “momento de cegueira”, quando, na verdade, trata-se de uma questão ligada a gênese do mundo moderno”. </strong></em></p>
<p>Partindo desse raciocínio, estamos todos implicados nesse horror, e mais, continuamos implicados nos horrores perpetrados até hoje onde quer que pousemos nosso olhar nesse mundo. Não estamos livres de que coisas pavorosas como o Holocausto voltem a acontecer (na verdade, já ocorreram antes da Guerra, e continuam acontecendo, como eu acabei de falar, atingindo outros povos e culturas, muitas vezes tendo como algozes muitos dos que já foram vítimas em massacres anteriores), e me preocupa muito que os nossos jovens não só achem que isso é um episódio circunscrito a um tempo e um lugar específicos, como muitas vezes e cada vez mais nem sequer saibam muito bem do que se trata. É uma questão de vestibular no máximo, que não tem nenhuma ligação com queimar índios ou apedrejar prostitutas ou gays nas madrugadas, imagina.</p>
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		<title>A materialização do amor</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/09/a-materializacao-do-amor/</link>
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		<pubDate>Tue, 09 Jun 2009 15:59:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Bauman]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estamos nós, de novo, na proximidade de mais uma dessas datas tão queridas à indústria do consumo: o Dia dos Namorados. Não que ter um(a) namorado(a) não seja uma delícia, e que fazer um agrado ao ser amado, seja na forma de um presente ou um carinho especial, não seja importante. Imagina. O problema está em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos nós, de novo, na proximidade de mais uma dessas datas tão queridas à indústria do consumo: o Dia dos Namorados. Não que ter um(a) namorado(a) não seja uma delícia, e que fazer um agrado ao ser amado, seja na forma de um presente ou um carinho especial, não seja importante. Imagina. O problema está em alguns detalhinhos escondidos nesse massacre publicitário em torno da data:</p>
<p>1) Eu me rebelo contra essa ditadura do calendário publicitário. Já repararam que a gente divide o ano nos temas importantes para o comércio? (a gente quem, cara pálida?, vc pode se perguntar e eu direi: ok, nem todo mundo, mas a maioria, do meu ponto de vista).  Pulamos do Reveillon para o Carnaval, desse para a Volta às Aulas, seguida de perto pela Páscoa (ovos de chocolate nas lojas no final de fevereiro!), e pelo Dia das Mães. Mal acaba o Dia das Mães vem o Dia dos Namorados, a Festa Junina, o Dia dos Pais. Aí segue o Dia das Crianças e o Natal, que agora começa em outubro, com árvores e luzinhas pra todo lado, afinal, há que se ter uma motivação para o consumo, não dá pra deixar um mês inteiro, como novembro, passar em brancas nuvens. Tá bom, eu visito minha mãe no dia das Mães, participo das festas familiares natalinas, acredito no valor de algumas datas como sinais que nos ajudam &#8211; nesse mundo tão enlouquecido &#8211; a parar em algum momento, nem que seja assim, para dar atenção ao que realmente importa: as pessoas que amamos. Mas eu me recuso a regular meus afetos e <strong><em>sobretudo a expressão do meu afeto</em></strong> pela propaganda.</p>
<p>2) Essa ditadura das datas acaba concentrando as manifestações de amor e carinho em torno desses dias, ou pelo menos privilegiando esses dias em detrimento de outros; gerando expectativas e criando mal-entendidos. Então um namorado te dá amor, atenção, sempre, mas justo naquele dia ele não tem como escapar de uma reunião, ou então a namorada que está sempre lá pra você, desmarca compromisso pra te ajudar com alguma coisa, mas no dia 12 por qualquer motivo não pode te ver. Ou está exausta e prefere ficar em casa, ou &#8211; pecado supremo &#8211; não teve tempo para a depilação ou para comprar lingerie nova. Por isso, você deixou de ser importante para ele/ela?</p>
<p><img class="aligncenter size-medium wp-image-272" title="namorados2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/06/namorados2-300x225.jpg" alt="namorados2" width="300" height="225" /></p>
<p>3) A cereja do bolo: o tamanho do seu amor e da importância que você confere ao ser amado fica atrelado ao preço do presente que você se dispõe a dar. Nossa, se você fizer o sacrifício de empenhar parte do salário em 5 prestações numa coisa que nem teria condições de comprar agora, isso então é mostra de um amor supremo!</p>
<p>Foi nisso que eu pensei quando eu li esse trechinho aqui, no livro do <strong>Bauman</strong> (sempre ele), <em>Vida para Consumo</em> (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007). Nesse trechinho, inclusive, tirado da página 153, ele está fazendo uma citação a a outro autor, <strong>Arlie Russel Hochschild</strong>, no livro <em>&#8220;The commercialization of intimate life&#8221;</em>. Mas vejam se vocês não acham uma pequena pérola:</p>
<p><em>&#8220;O consumismo atua para manter a reversão emocional do trabalho e da família. Expostos a um bombardeio contínuo de anúncios graças a uma média diária de três horas de televisão (metade de todo o seu tempo de lazer), os trabalhadores são persuadidos a &#8216;precisar&#8217; de mais coisas. Para comprar aquilo de que agora necessitam, precisam de dinheiro. Para ganhar dinheiro, aumentam sua jornada de trabalho. Estando fora de casa por tantas horas, compensam sua ausência do lar com presentes que custam dinheiro. Materializam o amor. E assim continua o ciclo.&#8221;</em></p>
<p>Tem tantas coisas a mais que se pode pensar e dizer sobre o assunto, mas eu deixo pra vocês. Não estou dizendo ao Marido que ele não vai ganhar presente esse ano, porque ele até vai (hohoho). Mas às vezes, ter mais tempo, olhar para o outro de verdade, com amor, sair pra andar de mãos dadas, conversar de coração aberto, podem ser presentes muito mais valiosos e necessários que todas as promoções anunciadas na tv e nos shoppings. E não, não são coisas grátis. Mas o que elas custam não nos endivida: pelo contrário, nos enriquece.</p>
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		<title>Conforme prometido</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Apr 2009 16:21:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Bauman]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu ouvi falar do Bauman pela primeira vez há uns cinco anos. Eu fazia parte de um grupo de estudos na universidade, durante o mestrado, e a galera tava lendo Comunidade, foi o primeiro livro dele que eu li. Me interessou, porque eu estudava umas questões ligadas ao espaço público, naquele momento mais ligadas a análises [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu ouvi falar do Bauman pela primeira vez há uns cinco anos. Eu fazia parte de um grupo de estudos na universidade, durante o mestrado, e a galera tava lendo <strong>Comunidade</strong>, foi o primeiro livro dele que eu li. Me interessou, porque eu estudava umas questões ligadas ao espaço público, naquele momento mais ligadas a análises de forma e funcionamento, e ele trazia nesse livro uma discussão interessantíssima sobre as dificuldades de conciliar o anseio por segurança com o direito à privacidade, até onde as pessoas estariam preparadas para sacrificar aspectos importantes da vida na cidade, de abertura ao novo, ao diferente, em troca de mais segurança, os conflitos entre a diversidade que caracteriza a vida urbana e a homogeneidade que se vende como proteção nas novas comunidades.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Até então, eu confesso, não sabia que a sociologia podia se interessar por temas como afetos, vínculos, amor, solidariedade. Deparei com um sociólogo profundamente humanista, que crê na possibilidade de mudança, no resultado do esforço coletivo, em valores que eu achava que estavam, infelizmente, ficando fora de moda.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<div id="attachment_178" class="wp-caption alignleft" style="width: 260px"><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Zygmunt_Bauman"><img class="size-full wp-image-178" title="zygmunt_bauman_by_kubik" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/zygmunt_bauman_by_kubik.jpg" alt="Bauman em Varsóvia, fevereiro de 2005" width="250" height="333" /></a><p class="wp-caption-text">Bauman em Varsóvia, fevereiro de 2005</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<p style="margin-bottom: 0in;">Sociólogo polonês, nascido em 1925, <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Zygmunt_Bauman" target="_blank">Zygmunt Bauman</a> vive desde 1971 na Inglaterra, onde é professor emérito na Universidade de Leeds. Ele faz severas críticas ao nosso modelo econômico, responsável pelo acirramento das desigualdades e sobretudo pelo abandono dos mais frágeis. Mas não necessariamente condena o capitalismo <em>per se</em>, embora certamente desça a lenha no liberalismo e na omissão do Estado na proteção de seus cidadãos.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">O conceito com que ele mais trabalha é o de <strong>sociedade líquida</strong>. Segundo ele, até o início/meados do século XX vivíamos uma fase sólida da Modernidade. Valores como produção, poupança e trabalho eram os dominantes, e as referências e parâmetros morais eram claros (ainda que fosse pra você divergir radicalmente deles). Hoje vivemos uma extrema fluidez em todas as relações, que são mais plásticas, ágeis, versáteis, mas em compensação mais escorregadias e difusas, dando margem a mais dúvidas e omissões e muito mais individualismo e imediatismo.</p>
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<p style="margin-bottom: 0in;">Pelo menos nos últimos 12 anos, Bauman vem sendo publicado no Brasil por <a href="http://www.zahar.com.br/catalogo_autores_detalhe.asp?aut=Zygmunt+Bauman" target="_blank">Jorge Zahar Editor</a>, com quase vinte títulos que analisam e destrincham aspectos das relações sócio-culturais existentes hoje no nosso mundo globalizado, transitando por temas como segurança, espaço público, ação política, medo, solidariedade, amor, consumismo, felicidade, xenofobia, desigualdade social, ética. Dentre os livros que eu tenho, recomendo intensa e urgentemente <strong>Amor Líquido</strong>, em que ele fala da fragilidade dos laços humanos, tanto os amorosos/sexuais, quanto os de amizade e de solidariedade; <strong>Vida para consumo</strong>, em que ele aponta e explica o processo de transformação das pessoas em mercadoria; e <strong>A Arte da Vida</strong>, sobre os parâmetros que norteiam nossa incessante (e hoje praticamente obrigatória) busca pela felicidade, ainda que nunca fique bem claro o que ela é.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Não, não tem nada a ver, nem de longe, com manuais de auto-ajuda. Pelo contrário, são socos secos,  certeiros e intransigentes num <em>modus vivendi</em> permeado pelo individualismo e pela ambição de ter cada vez mais, na esperança de aplacar uma angústia que tudo à nossa volta tenta nos fazer acreditar que não existe. Não há receitas, propostas salvadoras de solução, apenas o chacoalhar da nossa humanidade e do nosso destino comum diante dos nossos olhos anestesiados, e o convite a ser mais crítico diante das facilidades mefistofélicas dos nossos tempos, e sobretudo dos processos que garantem tanto conforto a alguns, ao mesmo tempo que empurram a miséria para longe das nossas vistas, como se nós não estivéssemos implicados até o pescoço na situação que nos rodeia.</p>
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