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	<title>Urbanamente &#187; direitos</title>
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		<title>Você quer MESMO que a polícia seja honesta?</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Feb 2011 00:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está aqui, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está <a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/luiz-eduardo-soares-a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html" target="_blank">aqui</a>, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, porque sei que muita gente tem preguiça de clicar em link <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://g1.globo.com/Eleicoes2008/0,,MUL784487-15693,00-MILITARES+REMOVEM+BARRICADAS+DO+TRAFICO+NO+ALEMAO+E+VILA+CRUZEIRO.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-953" title="VilaCruzeiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro1-300x187.jpg" alt="" width="300" height="187" /></a>Antes, deixa eu dizer. Eu fiquei um bocado impressionada quando a polícia tomou a Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão em novembro. Não pela ação em si, mas por um conjunto de fatores. Primeiro que, coincidentemente, eu estou propondo estudar estratégias de planejamento e de projeto urbano exatamente naquela área do subúrbio da Leopoldina, pegando os bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, e estava ali, aos 45 do segundo tempo, escrevendo o projeto, quando o conflito todo se armou, colocando aquela área sob intenso holofote. Mas principalmente porque, independente de apoiar a presença do Estado nas comunidades mais pobres (e Estado é MUITO MAIS que segurança e policiamento), achei a cobertura toda muito &#8220;espetaculosa&#8221;, muito teatral, como que jogando uma cortina de fumaça sobre questões mais profundas, mas estruturais e mais incômodas, que precisam ser debatidas com urgência. Eu só não sei (?) se há interesse nisso.</p>
<p>Aí, uns dias depois, li este artigo e achei que tem bastante coisa boa aí para ser pensada e conversada. Acho que partilhei com alguns amigos na época, mas não pus aqui e acho que é o caso de retomar a discussão. Neste momento, estamos de novo, pela <em>enésima</em> vez, com o tema da corrupção policial e da &#8220;banda podre&#8221; nas manchetes dos jornais aqui no Rio, e o artigo fala disso também, e bem. Eu podia fazer um blog inteirinho só sobre esse assunto, com postagens diárias por muitos anos &#8211; política de segurança, polícia, tráfico, violência &#8211; e não chegaria perto de esgotá-lo. Mas não posso deixar de frisar duas coisas:</p>
<p><a href="http://www.guiame.com.br/v4/79646-1696-Cantora-gospel-se-voluntaria-em-quot-Ocupa-o-Cultural-quot-da-Vila-Cruzeiro.html"><img class="alignright size-full wp-image-954" title="VilaCruzeiro3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro3.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>1) Como eu disse lá no <a href="http://primeirafonte.blogspot.com/2011/01/correspondencia-urbana.html" target="_blank">Primeira Fonte</a>, eu sonho com uma cidade em que a segurança é corolário de um estado de justiça social, e não locomotiva da ação do Estado. Todo mundo diz isso, mas é difícil colocar na prática: não basta tirar os traficantes e instalar delegacias, quartéis, UPPs. Tem que ter escola, creche, posto de saúde, saneamento, luz, água, telefone, transporte, lazer, comércio, praças. Tem que ter oportunidade real de melhoria de vida, emprego, casa digna, ser tratado com respeito. A segurança vem a reboque. Eu sei que em situações extremas, é preciso cuidar prioritariamente de desfazer a rede da bandidagem, mas se o resto não vier em seguida, não adianta de nada. Daqui a pouco está tudo como antes. Só vigilância, blitz e ações assistenciais não dão conta.</p>
<p>2) Sobre o título do post. Eu li o que eu vou falar agora em algum lugar, mas não guardei e por isso não encontrei a fonte para colocar aqui. Mas a grande questão é que quando a gente vê um monte de vozes se levantando para criticar a corrupção policial, principalmente vozes da &#8220;boa sociedade&#8221;, da nossa ilibada classe média (da qual sou parte, não me esquivo), a gente deve se perguntar com sinceridade: nós queremos MESMO uma polícia honesta, que não corrompa e não seja corrompida? Porque não tem mais ou menos nisso.</p>
<p><a href="http://www.omelhordaweb.com.br/piadas/pagina_imagens.php?cdImagem=40"><img class="alignleft size-medium wp-image-956" title="propina" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/propina1-300x254.jpg" alt="" width="300" height="254" /></a></p>
<p>Não dá pra ser duro e inflexível na favela, e aliviar a barra do cidadão bacana que foi pego com documento vencido, aceitar uma cerveja pra não multar a criatura que estacionou em fila dupla pra deixar o filho na escola (ô, seu guarda, libera aí, é rapidinho!), trocar a multa por excesso de velocidade por 50 pratas e uma advertência faz-de-conta. Nós tentamos driblar a lei todos os dias, mas só com delitos insignificantes. Afinal, nós somos pessoas de bem, pagamos nossos impostos, tem coisa muito mais grave para a polícia se preocupar por aí, em vez de perder tempo com essas mixarias. Todos os dias os jornais têm alguma notícia sobre pais que vão à delegacia liberar seus filhos que atropelaram alguém porque estavam dirigindo bêbados, ou que foram pegos com drogas numa festa ou brigando numa boate, ou espancando uma prostituta ou um gay. Mas afinal, eles são jovens, estudam, são bons meninos, estavam só brincando, quem é que nunca fez suas artes por aí, não justifica tanto rigor, enquanto os bandidos de verdade estão soltos. Uma cesta básica e estamos conversados.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-959" title="VilaCruzeiro2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></a>Estamos dispostos a ter uma polícia realmente comprometida com o cumprimento da lei, igualmente, para todos? Que não vai aliviar nossos insignificantes delitos de cidadãos de bem? Ou continuamos preferindo nos enganar de que é possível (e desejável) ter uma polícia que sabe &#8220;distinguir as coisas&#8221; e quebra o nosso galho mas não amolece com vagabundo? Porque, pra mim, é tudo uma coisa só. O problema é sistêmico, estrutural. Leiam o Luiz Eduardo Soares que é melhor:</p>
<p><strong>LUIZ EDUARDO SOARES: A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO</strong><br />
quinta-feira, 25 de novembro de 2010</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.</p>
<p>Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.</p>
<p>(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?</p>
<p>(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</p>
<p>Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.</p>
<p>Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.</p>
<p>Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?</strong></p>
<p>Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia.  Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?</p>
<p>Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.</p>
<p>A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.</p>
<p>A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.</p>
<p><strong>(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?</strong></p>
<p>Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.</p>
<p>Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.</p>
<p>Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.</p>
<p>Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.</p>
<p>O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.</p>
<p>É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.</p>
<p><strong>(c) O Exército deveria participar?</strong></p>
<p>Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.</p>
<p>E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.</p>
<p><strong>(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?</strong></p>
<p>Claro. Mais uma vez.</p>
<p><strong>(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</strong></p>
<p>Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>Palavras Finais</strong></p>
<p>Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.</p>
<p>As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.</p>
<p>A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.</p>
<p>O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.</p>
<p>Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.</p>
<p>Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?</p>
<p>As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.</p>
<p>A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.</p>
<p>A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.</p>
<p>E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.</p>
<p>Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.</p>
<p>Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.</p>
<p>O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.</p>
<p>Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.</p>
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		<title>Para o dia de hoje</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/11/25/para-o-dia-de-hoje/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2010 05:44:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
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		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Da minha série de fichamentos. Contextualizações e debates a partir da semana que vem. Por enquanto, fiquem com Zygmunt Bauman, Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000</p>
<p>Na página 51:
&#8220;Na sua forma pura e bruta, o medo existencial que nos torna ansiosos e preocupados é incontrolável, intratável e portanto incapacitante. A única maneira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Da minha série de fichamentos. Contextualizações e debates a partir da semana que vem. Por enquanto, fiquem com <strong>Zygmunt Bauman</strong>, <em>Em busca da política</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000</p>
<p><strong>Na página 51:</strong><br />
&#8220;<span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na sua forma pura e bruta, o medo existencial que nos torna ansiosos e preocupados é incontrolável, intratável e portanto incapacitante. A única maneira de suprimir essa verdade horripilante é dividir o grande medo esmagador em pedacinhos menores e controláveis – reformular a grande questão (sobre a qual nada podemos fazer) num conjunto de pequenas tarefas “práticas” que podemos esperar realizar.  Nada acalma mais o ser pavoroso que não conseguimos erradicar do que se preocupar e “fazer algo” a respeito do problema que podemos enfrentar.&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na página 56:</span></span></span></span></strong><br />
<span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">&#8220;Transferir a ansiedade da insegurança e da instabilidade globais, suas verdadeiras causas, para o campo da segurança privada é seguir no fundamental a mesma lógica. Ameaças à segurança, reais ou imaginárias, têm a vantagem de serem concretas, visíveis e palpáveis – vantagem que é encimada e reforçada por outra: a da relativa facilidade de confrontá-las e talvez até derrotá-las. Não admira que essa transferência seja tão comum; não admira também que em consequência, as preocupações populares com segurança, apelidada “a lei e a ordem”, reduzam o interesse popular com os mecanismos produtivos da insegurança e da incerteza e a vontade popular de interromper ou pelo menos refrear sua operação&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Na página 59:</span></span></span></span></strong><br />
<!-- p { margin-bottom: 0.08in; }a:link { color: rgb(0, 0, 255); } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">&#8220;O problema é que o clima difuso e generalizado de insegurança e vulnerabilidade que emana desse mundo polifônico, opaco e imprevisível torna simplesmente impossível o mapeamento claro e inequívoco da experiência e a emissão de juízos confiantes; de modo que ele solapa a própria noção de comportamento desviante.</span></span></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">(&#8230;) Hoje, o crime já não é estigmatizado e condenado como uma ruptura da norma, mas como ameaça à segurança. (&#8230;) Podemos perceber uma tendência geral de “deslocar todas as questões públicas para a área do direito penal”, uma tendência a criminalizar os problemas sociais e particularmente aqueles que consideramos – ou que podem ser construídos como – capazes de afetar a segurança da pessoa, do corpo ou da propriedade&#8221;.</span></span></span></span></p>
<p><strong><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;">Pobre Rio de Janeiro. O buraco é tããão mais embaixo&#8230;.</span></span></span></span></strong></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-small;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #000000;"><br />
</span></span></span></span></p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; }a:link { color: rgb(0, 0, 255); } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;"><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #ff0000;"><em> </em></span></span><span style="color: #0000ff;"><span style="color: #ff0000;"><br />
</span></span></span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (1)</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 22:51:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi punk. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi <em>punk</em>. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao fim da semana exausta. Parece que vai ser assim o semestre todo.</p>
<p>Mas a semana foi <em>punk</em> também em outros sentidos. E um deles foi ter acompanhado, estarrecida, as <a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/05/cotas-raciais-a-entrevista-de-demostenes/" target="_blank">declarações</a> do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), no Supremo Tribunal Federal, a respeito das cotas para negros nas universidades brasileiras. Veja bem, eu acho perfeitamente legítimo uma pessoa ser contra a adoção das cotas, e já li argumentos honestos e válidos nesse sentido. Eu mesma confesso que no início era contra as cotas, acompanhei por bastante tempo várias discussões a respeito, li artigos e opiniões contra e a favor, fui ficando cada vez mais na dúvida, e hoje estou convencida que a política de cotas raciais nas universidades públicas é um instrumento &#8211; que não deve ser o único &#8211; mas é um instrumento legal, necessário, e tudo indica que de excelentes resultados, para a inclusão social e econômica de uma parcela imensa da população brasileira que tem especificidades históricas que justificam e demandam ações como essa. No mínimo, acho que a política de cotas trouxe e continua trazendo um benefício gigantesco para o país, que é provocar um debate às claras sobre a discriminação racial no Brasil, trazendo muitas vezes à luz recalques insuspeitos e ressentimentos velados, desmascarando o racismo que infelizmente existe no nosso país, camuflado por uma ilusão de convivência harmônica. Sim, enquanto os negros se comportarem direitinho, souberem seu lugar na sociedade e não perturbarem reivindicando coisas absurdas, o Brasil será um oásis de paz e harmonia nesse aspecto.</p>
<p>Entre as várias <a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2010/03/a-teoria-negreira-do-dem-saiu-do-armario/" target="_blank">estultices proferidas</a> pelo senador, nenhuma me chocou mais do que creditar a miscigenação do povo brasileiro a relações consensuais entre senhores e escravas. Não consigo acreditar que isso seja falta de conhecimento histórico, é tão insultuoso e revoltante que só pode ser má-fé. Alguém precisa explicar para ele que estupro e violência não se dá só quando há sangue, terror e armas apontadas, ou quando a vítima se debate furiosamente. O constrangimento, o medo da punição e a falta de alternativa também caracterizam o estupro. Só se pode falar em relações consensuais quando há possibilidade de escolha. Consentir pressupõe que a alternativa &#8211; dizer não &#8211; é igualmente possível. E ninguém em sã consciência vai me dizer que as escravas podiam simplesmente virar pros senhores e dizer &#8220;não quero&#8221; impunemente. Aliás, querer, desejar, é um ato de absoluta subjetividade e os escravos e escravas nunca foram tratados como sujeitos de seus quereres, seus corpos e destinos, mas sim como objetos, como bens, como patrimônio material. Eram contabilizados da mesma maneira que cabeças de gado ou pés de milho, e tinham tanto direito de querer ou decidir alguma coisa sobre suas vidas quanto um boi. Quando o senador diz que a miscigenação no Brasil, como processo histórico, foi majoritariamente consensual, ele ofende milhões de mulheres negras, daquele tempo e de hoje, e por extensão, milhões de mulheres simplesmente, que ainda hoje vivem situações de constrangimento e violência por esse Brasil afora.</p>
<p>Pensando nisso, eu quis trazer hoje um trecho de um livro que estou lendo, escrito por <a href="http://www.flip.org.br/edicoes_anteriores_autores.php3?idautor=302" target="_blank"><strong>Ana Maria Gonçalves</strong></a>, chamado <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2099" target="_blank"><strong>Um defeito de cor</strong></a>. Eu ia acabar falando dele mesmo, mas achei que a ocasião era especialmente oportuna, e vai como desagravo e homenagem a tantas mulheres, escravas, negras, que fizeram parte da História deste país e tiveram participações importantes na luta pelo fim da escravidão. Eu estou particularmente encantada com o livro. Tem 950 páginas, eu ainda estou na 320, mas estou fascinada. A autora narra com maestria a história de Kehinde, uma mulher que, quando criança, viu sua mãe e seu irmão serem mortos na aldeia em que vivia, na África, após o que se muda com a avó e a irmã gêmea para uma outra cidade, onde acaba sendo capturada e trazida como escrava para o Brasil. Aliás, quem narra a história é a própria Kehinde, que no Brasil recebeu o nome de Luísa Gama. Consta que ela seria a mãe do poeta romântico brasileiro Luís Gama, e que o livro é na verdade, o relato, em primeira pessoa, da vida dela, que, já idosa, conta a história de sua vida para o filho com quem ela perdeu contato. A linguagem é saborosa, flui com facilidade, o leitor vai ficando enredado por aquelas descrições e acontecimentos, e vai querendo saber sempre mais das danças, comidas, roupas, da vida no engenho da Ilha de Itaparica, das andanças na cidade de Salvador na primeira metade do século XIX, dos rituais e orixás, das relações com as sinhás e com os outros escravos e escravas, das tramas e rebeliões, de tudo. Achei muito vívida e bonita a descrição que ela faz da cidade de Uidá, para onde ela, a irmã gêmea e a avó se mudaram após a morte da mãe. A visão que uma criança pode ter de uma cidade, colorida, cheia de movimento e potencial. Como será que nossas crianças vêem as cidades em que vivem?</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://nandabras.bloguepessoal.com/107329/Quadro-43/"><img class="alignright size-medium wp-image-723" title="mercadoafricano" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/mercadoafricano-300x201.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a>&#8220;Uidá era muito mais interessante que Savalu, e a minha avó segurava as nossas mãos para que não nos perdêssemos. Eu tinha vontade de parar e ficar olhando tudo o que acontecia ao meu redor, as mulheres que andavam com vários colares de contas, as casas que eram maiores do que eu jamais teria imaginado, com cobertura de palha e paredes de barro vazadas por portas muito baixas, e ainda tomavam os dois lados da rua, quase sem nenhum espaço entre elas. Gostei quando chegamos à praça, ao lado do mercado, e ficamos admirando as roupas, as pessoas, muita gente com marcas que nem a minha avó sabia de onde eram. Quase todas as mulheres andavam cobertas, pelo menos da cintura para baixo, e os panos que usavam eram ricos em cores e em bordados com búzios e sementes, que também enfeitavam os diversos colares e pulseiras e, às vezes, os penteados. (&#8230;) O mercado era grande e muito bem dividido, com lugares certos para se comprar cerâmicas, tecidos, frutas, artigos de religião, animais e, principalmente, comida. (&#8230;) As pessoas circulavam procurando os produtos de que precisavam ou assistiam às apresentações de dança, de acrobacias, de música e até de desafios de versos, que eu nunca tinha visto. A minha avó estendeu uma esteira para mim e para a Taiwo dentro da barraca, ao lado da mulher, e dormi pensando em como seria a feira nos dias seguintes, que grandes novidades estariam esperando por nós em Uidá&#8221;.</em></p>
<p>PS 1: Lá no título do post, o (1) ao lado do nome da Ana Maria é porque, mais adiante, no mesmo livro, há uma descrição da cidade de Salvador que é uma verdadeira aula sobre cidades coloniais no Brasil, e eu pretendo reproduzí-lo aqui em breve.</p>
<p>PS 2: Sobre as asneiras ditas pelo Senador no STF, há <a href="http://www.culturaebarbarie.org/blog/2010/03/a-dimensao-formal-do-direito.html" target="_blank">estes</a> <a href="http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/03/09/reporteres-no-pelourinho/" target="_blank">outros</a> <a href="http://bahiadefato.blogspot.com/2010/03/parecer-de-luis-felipe-de-alencastro-no.html" target="_blank">textos</a> que eu também recomendo, lidos via Google Reader do <a href="https://www.google.com/reader/view/?tab=my#stream/user%2F04786639375024921666%2Fstate%2Fcom.google%2Fbroadcast" target="_blank">Idelber</a>.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong> Acabei de ler um post na <a href="http://beauvoriana2.zip.net/" target="_blank">Mary W</a> que eu achei fora de série, sobre essa questão das cotas. Perfeito pro pessoal que torce o nariz e diz que as cotas deviam ser apenas sociais, por critério de renda. Vai <a href="http://beauvoriana2.zip.net/arch2010-03-01_2010-03-31.html#2010_03-09_16_55_45-127299368-0" target="_blank">lá</a> ler.</p>
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		<title>Mania de cercadinho</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Apr 2009 02:54:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[favela]]></category>
		<category><![CDATA[muros]]></category>
		<category><![CDATA[problemas]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Isso aqui é uma provocação inicial, um teaser, vamos dizer assim.</p>
<p>Eu tenho pensado um bocado sobre esse assunto dos muros de contenção das favelas, no Rio. Tem tantos aspectos que podem ser debatidos, que isso merece um post mais demoradinho, um pouco de pesquisa e leitura, e é isso que eu estou fazendo.</p>
<p>Enquanto isso, vou levantar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Isso aqui é uma provocação inicial, um <em>teaser</em>, vamos dizer assim.</p>
<p>Eu tenho pensado um bocado sobre esse assunto dos muros de contenção das favelas, no Rio. Tem tantos aspectos que podem ser debatidos, que isso merece um post mais demoradinho, um pouco de pesquisa e leitura, e é isso que eu estou fazendo.</p>
<p>Enquanto isso, vou levantar só uma lebre, que me incomoda profundamente, e que é um fenômeno que por si só, precisa ser pensado e questionado, e não dado como normal e/ou inevitável: a proliferação de &#8220;cercadinhos&#8221; na nossa vida urbana. Não só no Rio de Janeiro, não. Como tendência geral. Tendência à fragmentação, a criar grupos estanques de pessoas, de coisas. Tendência a reforçar a cisão entre grupos sociais distintos, a criar barreiras, a excluir. Seja com o intuito de enfatizar a exclusividade e o privilégio, como os currais vip dos shows, seja disfarçando com o argumento da  preservação ambiental, como é o caso da atual discussão envolvendo as favelas do Rio, seja escancaradamente alegando medida de segurança, como os muros de Gaza, o <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/04/090410_muro_argentina_rc.shtml" target="_blank">muro polêmico e recente entre duas cidades argentinas</a>, os muros da fronteira dos Estados Unidos e do México, e outros que, se ainda não existem, são cada vez mais abertamente defendidos por tanta gente.</p>
<p>Em todos esses casos, eu acredito que, pra começar, há duas coisas em jogo. Uma é a falência cada vez mais evidente da nossa disposição e capacidade para negociar, porque negociar significa em primeiro lugar que você considera o seu interlocutor como igual, como alguém que tem tanto direito a voz quanto você, e por isso, negociar implica em ceder de vez em quando, e nós toleramos cada vez menos perder espaço ou ceder o que quer que seja. Voltarei a esse ponto. A outra coisa é que eu suspeito muito de todo papo que começa a ficar hegemônico a ponto de virar cortina de fumaça. É o que acontece com o tema da segurança, hoje. Independente dos reais riscos que a cidade do Rio (e tantas outras) oferece, das estatísticas da violência, existe um discurso sobre segurança que é preconceituoso, excludente, e encobre as verdadeiras questões e problemas que afligem nossas cidades.</p>
<p>Eu quero desenvolver um tiquinho mais essas idéias. Enquanto isso, convido vocês a darem uma espiada no que o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/2009/04/o-muro-do-rio-rios-wall.html" target="_blank">Fernando Lara</a> escreveu a respeito. Leiam os comentários, que é onde o debate esquenta. Pensem a respeito, deixa eu tomar aqui um fôlego, e vamos conversar sobre o assunto.</p>
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		<title>Urbanidades</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/03/29/urbanidades/</link>
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		<pubDate>Sun, 29 Mar 2009 03:22:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[estudantes]]></category>
		<category><![CDATA[Gi]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu recebi hoje um e-mail de uma amiga que vem bem a calhar com alguns temas que eu quero discutir aqui.</p>
<p>Ela mora em Sorocaba, com a mãe, uma senhora de mais de 80 anos, em um prédio de apartamentos. Entre seus vizinhos, numa casa próxima, estão alguns rapazes de uma república de estudantes. Ora, os &#8220;meninos&#8221; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu recebi hoje um e-mail de uma <a title="bloggi" href="http://www.bloggi-gisa.blogspot.com/" target="_blank">amiga</a> que vem bem a calhar com alguns temas que eu quero discutir aqui.</p>
<p>Ela mora em Sorocaba, com a mãe, uma senhora de mais de 80 anos, em um prédio de apartamentos. Entre seus vizinhos, numa casa próxima, estão alguns rapazes de uma república de estudantes. Ora, os &#8220;meninos&#8221; só têm aula à tarde, e então passam a noite em rodadas de jogos e música, dormindo a manhã toda. Ela é professora e tradutora, trabalha muitas vezes em casa, no computador, e precisa acordar cedo pro pão de cada dia. Já viram onde eu quero chegar, certo?</p>
<p>A rapaziada faz uma barulheira que só eles acham que não incomoda ninguém, até duas, três, quatro horas da manhã. Ela (e quem sabe quantas outras pessoas) passa a noite em claro, comprometendo a qualidade do dia seguinte, e ainda tem que ouvir as pessoas dizendo que a solução é se mudar, ou usar tampão de ouvido, ou, como os próprios rapazes sugeriram, tomar um calmante pra dormir. Ah, sim, claro que ela já foi lá, amigavelmente, se apresentou, explicou que entende e tal, e pediu a eles que, por favor, combinassem um horário pra terminar o barulho, além de um nível mais baixo pra altura do som. Não deu certo. Ela passou a ligar pra polícia, que evidentemente tem mais o que fazer. Depois de um bom tempo assim, essa semana ela perdeu a paciência e não só chamou a polícia como foi à delegacia de madrugada, praticamente obrigou o policial a fazer a ocorrência (afinal, esses meninos no fundo são tão bonzinhos, é só fazer uma advertência, tsc tsc tsc) e bateu a campainha da casa deles acompanhada de dois policiais, o que resolveu o problema de dormir naquela noite. A seguir, contatou uma advogada e pretende entrar com um processo contra eles, coletivo ainda por cima, porque nesse meio-tempo arrebanhou o apoio de outros vizinhos do mesmo prédio.</p>
<p>Nossa, como dá trabalho a gente garantir direitos que deveriam ser mais óbvios, frequentes, sei lá, não quero usar a palavra &#8220;naturais&#8221; porque eu sei que não tem nada de natural nisso, é tudo uma construção política e cultural. E recente ainda por cima. Aí, conversando mais um pouco sobre o assunto, ela manda esse mail que resume bem o que eu acho que é a atitude que todos nós deveríamos ter:</p>
<p><em>Uma vez eu fui a um médico em SP e na frente do restaurante ao lado do prédio do consultório tinha uma vaga mas com um caixote colocado no meio para impedir os carros de estacionar.<br />
Eu perguntei se ia ter entrega e o guarda do restaurante disse que não &#8211; eram 2 horas da tarde.<br />
Eu desci do carro, tirei o caixote e estacionei.<br />
O guarda veio me dizer que a vaga era do restaurante.<br />
Respondi que quem tem vaga na rua é farmácia, na frente do restaurante só se tivesse uma placa determinando horário de entrega.<br />
Ele ficou me ameaçando de riscar meu carro, furar o pneu, o diabo a quatro e eu disse que se eu chegasse e tivesse qualquer coisa com meu carro eu chamaria a policia, mas antes peguei o segurança do prédio como testemunha.<br />
O homem ficou possesso mas eu estacionei ali.<br />
É o cúmulo a gente pagar pagar pagar e não ter direitos.<br />
Eu reclamo, chamo policia, vou aos jornais, chamo o rádio e a televisão.<br />
Minha mãe brinca que eu vou ser vereadora, eu não quero ser nada, só quero meus direitos de cidadã respeitados.<br />
Saio para passear o cachorro com sacos de lixo para catar as sujeiras que ele faz.<br />
Não jogo nem bituca de cigarro na rua.<br />
Cuido da minha cidade como cuido da minha casa.<br />
Ah, eu exijo ter meus direitos!<br />
O procom hoje funciona porque as pessoas começaram a botar a boca no trombone.<br />
Se o supermercado não te der o troco direitinho vc reclama e os caras piam fino.</em><em> </em></p>
<p><em>A gente não é menos que ninguém. Nem mais!<br />
</em></p>
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