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	<title>Urbanamente &#187; espaço público</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Lira paulistana</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Feb 2011 23:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Foram cinco dias em São Paulo. Eu gastei dois posts longos pra falar do primeiro dia e agora vou escrever mais um pra falar de todo o resto e fazer um apanhado geral das coisas que pensei com essa viagem.</p>
<p>Como eu disse, eu cheguei lá na quarta já de tardinha. Na quinta flanei sozinha pela cidade, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foram cinco dias em São Paulo. Eu gastei dois posts longos pra falar do primeiro dia e agora vou escrever mais um pra falar de todo o resto e fazer um apanhado geral das coisas que pensei com essa viagem.</p>
<p>Como eu disse, eu cheguei lá na quarta já de tardinha. Na quinta flanei sozinha pela cidade, conhecendo o Centro e o Bom Retiro. Na sexta, o dia foi das amigas. Acordei mais tarde, encontrei a Flávia pra um café delicioso no <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Conjunto_Nacional" target="_blank">Conjunto Nacional</a>, ali na Av. Paulista. Papo atrasado há mais de um ano, ela tinha que voltar ao trabalho e eu ali querendo segurá-la só mais um pouquinho, contar só mais uma novidade, perguntar só mais um detalhe. Toda vez que nos encontramos eu fico com a sensação de que é pouco demais, e de que poderíamos ficar conversando por mais muitas horas, com o mesmo deleite.</p>
<div id="attachment_1002" class="wp-caption alignleft" style="width: 490px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/bolinhos.jpg"><img class="size-full wp-image-1002" title="bolinhos" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/bolinhos.jpg" alt="" width="480" height="180" /></a><p class="wp-caption-text">Nham nham</p></div>
<p>Almoço na Aclimação, com mais duas queridas, bem de frente para o<a href="http://www.sampa.art.br/parques/aclimacao/" target="_blank"> parque</a>. Com direito ao melhor bolinho com recheio de creme de limão siciliano e cobertura de chocolate branco que eu jamais comerei na minha vida, de sobremesa, na casa de uma delas logo depois.</p>
<p>Mais tarde, fui dar pitacos arquitetônicos para outra amada que acabou de comprar apartamento, enquanto visitávamos o <em>stand</em> de vendas do prédio e o apartamento decorado que eles colocam lá pra encher os olhos dos clientes. Todos os cômodos com teto (bem) rebaixado de gesso, polvilhado de lâmpadas dicróicas a pouco mais de meio metro da cabeça das pobres criaturas, inclusive no banheiro. Como este apartamento-vitrine é todo climatizado, ar central, fresquinho até no banheiro, parece tudo lindo. Mas se você vai viver num lugar normal, em que isso não é o padrão, essas lampadinhas vão cozinhar os seus miolos. Devagar com o andor. Mas minha amada fez uma compra muito boa. Agora é torcer pro empreendimento ser concluído e entregue no tempo previsto.</p>
<div id="attachment_1003" class="wp-caption alignright" style="width: 250px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/lambreta.jpg"><img class="size-full wp-image-1003" title="lambreta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/lambreta.jpg" alt="" width="240" height="180" /></a><p class="wp-caption-text">Tirando onda na lambreta</p></div>
<p>De noite, fomos de grupinho para o <a href="http://www.zedohamburger.com.br/" target="_blank"><strong>Zé do Hamburguer</strong></a>, em Perdizes. Vocês não têm noção do tanto que eu gostei. O bar tem decoração temática 100% anos 50. Do piso ao teto, passando por todos os móveis, copos, pratos, talheres, cores e ornamentos. Tem até uma jukebox e uma lambreta verde no meio do salão! A trilha sonora também segue a onda, e eu me fartei de ouvir Elvis Presley, Chucky Berry e Cely Campelo. Comida boa, preço justo, companhia indescritivelmente gostosa e divertida. Meninas, adorei cada minutinho ao lado de vocês, não tenho como agradecer por tantos mimos e atenção.</p>
<p>No sábado, fui para a Av. Paulista ver o <a href="http://masp.art.br/masp2010/"><strong>MASP</strong></a> e render minha homenagem à <a href="http://www.institutobardi.com.br/lina/biografia/index.html">Lina Bo Bardi</a> por um projeto tão bacana. Mas minha maior surpresa foi mesmo o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Trianon"><strong>Trianon</strong></a>, o parque que fica bem em frente. Aliás, antes, quando eu falava em parque urbano em São Paulo, só me vinha à cabeça o Ibirapuera. Minha ignorância me levava a crer que o Ibira era uma ilha verde no meio do interminável maciço cinzento da cidade. Que surpresa. São Paulo tem uma grande rede de parques urbanos muito bacanas. E, diferentemente de tantos parques aqui no Rio em que a classe média evita transitar, porque são frequentados majoritariamente por desocupados, mendigos e pivetes (é o que escuto, por exemplo, em relação ao Passeio Público e à Praça da República, também conhecida como Campo de Santana, aqui no Centro), os parques paulistanos têm bastante movimento. Pelo menos dos que eu conheci, eu gostei muito. No sábado, ali no <a href="http://jeguiando.com/2008/02/09/parque-trianon-sao-paulo/">Trianon</a>, tinha gente lendo livros e jornais em bancos sob as árvores, correndo ao som de seus ipods, senhoras fazendo tai chi chuan, crianças brincando em parquinhos, casais passeando de mãos dadas.</p>
<div id="attachment_1004" class="wp-caption aligncenter" style="width: 800px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AvPaulista1.jpg"><img class="size-full wp-image-1004" title="AvPaulista1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AvPaulista1.jpg" alt="" width="790" height="230" /></a><p class="wp-caption-text">Cenas da Av. Paulista e do MASP</p></div>
<div id="attachment_1005" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Trianon.jpg"><img class="size-full wp-image-1005" title="Trianon" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Trianon.jpg" alt="" width="800" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">O Trianon visto do MASP e ao lado um passeio pelas trilhas do parque</p></div>
<div id="attachment_1006" class="wp-caption alignleft" style="width: 235px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AvSJoao.jpg"><img class="size-full wp-image-1006" title="AvSJoao" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AvSJoao.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Av. São João, vista lá de cima do mirante do Banespa</p></div>
<p>Dali, voltei ao Centro para percorrer, do início, a famosa e cantada Av. São João. Bom, eu me lembro pelo menos de <a href="http://paulo-vanzolini.musicas.mus.br/letras/397820/" target="_blank"><strong>Ronda</strong></a>, do <a href="http://cliquemusic.uol.com.br/materias/ver/paulo-vanzolini--o-samba-com-a-cara-de-sao-paulo" target="_blank">Paulo Vanzolini</a>, e <a href="http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/sampa.html" target="_blank"><strong>Sampa</strong></a>, do Caetano Veloso, que citam a longa avenida. Não pude deixar de passar na <a href="http://www.galeriadorock.org.br/site/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=98&amp;Itemid=12" target="_blank"><strong>Galeria do Rock</strong></a>, claro, onde descolei, com enorme surpresa e prazer, o cd dos Beatles ao vivo em Hamburgo, gravado em 1962, no lendário Star Club.  Eu tinha isso em vinil no século passado <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Pensei em tirar uma foto da placa ali onde cruza a Ipiranga e a Avenida São João, mas achei que era cliché demais e segui adiante. O percurso pela avenida também é um dos roteiros do meu livrinho de viagem, e eu até tencionava caminhar o trajeto todo sugerido no guia, ou ir pelo menos até o Largo de Santa Cecília. Mas pouco antes de chegar ao Arouche o cansaço me venceu e eu resolvi que já tinha visto o bastante. Meia-volta, metrô até o Araçá, ônibus para Pinheiros, e fui encontrar Juju, minha anfitriã e <em>sister</em>, na feira da <a href="http://www.pracabeneditocalixto.com.br/localizacao.htm" target="_blank"><strong>Praça Benedito Calixto</strong></a>. Eu amo essas feirinhas de antiguidades, fico alucinada com os cristais e porcelanas, babando por tacinhas coloridas de licor que possam incrementar minha fajuta coleção. Mas era tudo caro demais. Apaixonei por um oclinhos de sol, redondo, bem John Lennon. Experimentei, ficou divino, perguntei o preço, disposta a extravagâncias. 180 paus. Desapaixonei imediatamente e fui fuxicar as quinquilharias de outras barracas. Máquinas velhas, bonecas encardidas, carrinhos de quando meu avô era criança, revistinhas, puxadores de gaveta de cerâmica esmaltada, LPs de Dalva de Oliveira, espelhinhos de penteadeira com cabo em madrepérola, aldravas de ferro fundido, camafeus, caçarolas de cobre. <em>De um tudo</em>, como se diz por aí. Quase surtei.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/chorinho.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1007" title="chorinho" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/chorinho-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Sob um toldo armado no meio da praça, um grupo tocava os clássicos do chorinho. Delicado, Odeon, Pedacinho do Céu. Isso só enquanto eu tomava uma água de côco numa barraquinha ao lado. Rebatemos a água de côco com uma cerveja bem gelada no barzinho em frente, enquanto esperávamos a chuva passar, Juju e eu, rindo, contando planos, falando bobagens e seriedades, como só se faz com pessoas a quem se ama.</p>
<p>Minha visita terminou no domingo. Passeio pela Liberdade de manhã, de novo com as amigas mais queridas que se pode ter, bem no dia em que os chineses comemoravam o Ano Novo, sob o signo do Coelho. Gente demais da conta, um calor de fritar ovo no asfalto, mas a festa estava tão linda e colorida que eu adorei assim mesmo. Almoçamos num restaurante chinês, e se eu não visse eu não acreditava: o chef produzindo fios perfeitos de macarrão, ali na minha frente (a cozinha é aberta, você pode olhar tudo por um painel de vidro), só esticando e dobrando a massa, sem um corte, sem uso de nenhum instrumento. Uau!</p>
<div id="attachment_1008" class="wp-caption aligncenter" style="width: 790px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/NaLiberdade.jpg"><img class="size-full wp-image-1008" title="NaLiberdade" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/NaLiberdade.jpg" alt="" width="780" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Comemorações do Ano Novo Chinês na Liberdade</p></div>
<p>Ficou faltando tanta coisa. Eu não comi pastel no japa, nem sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. Não vi o Museu do Futebol, a Faculdade de Arquitetura da USP, a Sala São Paulo, a Estação Júlio Prestes. Não fui ao Brás, à Mooca, à Lapa, não visitei Santa Ifigênia. Não passeei nos Jardins, nem mesmo para conferir o desenho urbano calcado no princípio das <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidade_Jardim_%28teoria%29" target="_blank"><strong>cidades jardins</strong></a> de <a href="http://urbanidades.arq.br/2008/10/ebenezer-howard-e-a-cidade-jardim/" target="_blank">Ebenezer Howard</a>. Não fiz compras na Oscar Freire, e tanto minha conta bancária quanto meu marido suspiram aliviados com isso, aleluia! Não visitei a <a href="http://dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank">Fal</a>, olha o pecado maior (mas só porque ela não estava na cidade). Ótimo. Assim, tenho pretextos a rodo para voltar.</p>
<p>Cheguei com olhar de carioca, saí com um monte de reflexões e descobertas. Que eu sou apaixonada pela vida urbana, pela diferença e pela diversidade já é sabido. Sou fascinada por este construto social e cultural tão complexo que são as cidades. Essa forma que nós, humanos, há milênios, encontramos de nos organizar espacialmente, economicamente, politicamente.</p>
<p>Ficou muito claro para mim, muito mais óbvio que em qualquer outra ocasião, que para apreciar uma cidade, é preciso de certa forma se despir das outras cidades que nos habitam. Fala-se tanto (com exagero demais, pro meu gosto) das rivalidades entre paulistas e cariocas, cada um defendendo, entre outras coisas, as vantagens de sua cidade e de seu jeito de ser urbano. Acontece que não dá para ir a São Paulo tendo o Rio como parâmetro e vice-versa. São identidades e trajetórias históricas diferentes, suportes físicos diferentes, que geram espaços, paisagens e vivências urbanas diferentes. Se você vai esperando encontrar o Rio, comparar com o Rio, a frustração é grande. Mas se você vai aberto para o novo, é uma cidade fantástica, cheia de oportunidades, uma síntese do Brasil e do mundo. São Paulo é a nossa Nova York, eu acho. Gentes de todos os lugares, línguas e cores. Camadas de história sobrepostas, justapostas, expostas.</p>
<p>O Brasil colônia está lá, o Brasil bandeirante, indígena. O Brasil do açúcar, do negro. O Brasil do café, dos barões, da ferrovia. O Brasil da indústria, do imigrante. O Brasil digital. O Brasil da elite rica e às vezes arrogante, dos negócios e investimentos, da cultura e da gastronomia, da vanguarda intelectual, e também o Brasil de todos os brasis, da periferia, do futebol, do hip hop, dos &#8220;mano&#8221; e dos &#8220;truta&#8221;. Os Jardins e a Cracolândia. A Oscar Freire e a 25 de março. Os arranha-céus e os parques lindíssimos, bucólicos, deliciosos. Um Brasil de trabalhadores das mais diversas origens. Em São Paulo, os paulistas são gaúchos, cariocas, paraibanos, mato-grossenses. E são também italianos, judeus, armênios, sírios, coreanos, bolivianos, turcos, japoneses. São até paulistanos, veja só.</p>
<p>Agora que eu cheguei por aqui é que eu tudo entendi. Rondar a cidade revela que, por trás da dura poesia concreta das esquinas, a lira é paulistana.</p>
<div id="attachment_1009" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/saopaulo-geral.jpg"><img class="size-full wp-image-1009" title="saopaulo-geral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/saopaulo-geral.jpg" alt="" width="800" height="675" /></a><p class="wp-caption-text">Panorama geral. Acima, à esquerda, Vale do Anhangabaú; à direita Mercado Municipal. Embaixo, à esquerda, o conjunto da Igreja de São Bento, à direita, Av. São João.</p></div>
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		<title>A rua, a ordem e a desordem</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 17:34:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma matéria que li no jornal ontem, e de um vídeo bizarro que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu falei em partilhar algumas leituras, eu tinha outros textos em mente. Eles ainda aparecerão. Mas é que eu acabei de topar com este aqui, e aí lembrei de uma <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/13/prefeitura-anuncia-nova-etapa-do-choque-de-ordem-com-unidades-ao-estilo-das-upps-923021204.asp" target="_blank">matéria que li no jornal ontem</a>, e de um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=rWwEaTYddOo" target="_blank">vídeo bizarro</a> que vi sobre essa questão da ordem e do uso da rua.</p>
<p>Essa coisa toda de Choque de Ordem &#8211; da forma como é colocada &#8211; sempre me soa tremendamente fascista. Eu fico só lembrando de uma música que eu adoro, dos Titãs (me perdoem os mais novos, mas pra mim, é do tempo em que os Titãs realmente prestavam), chamada Desordem (1987). Um pedacinho da letra aqui, e o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=nIuVVjavUNY" target="_blank"> vídeo</a> pra vcs assistirem, lembrarem, aprenderem e cantarem.</p>
<p><strong><em>É seu dever manter a ordem,<br />
É seu dever de cidadão,<br />
Mas o que é criar desordem,<br />
Quem é que diz o que é ou não?</em></strong></p>
<p>Esses dias, em sala de aula, conversando com os alunos sobre o zoneamento estrito e a funcionalização da cidade proposta pelo movimento modernista (especialmente a Carta de Atenas, no contexto dos CIAM &#8211; Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna), que dividia as funções da cidade (e portanto sua especialização espacial) em habitação, trabalho, circulação e lazer, falávamos de como a rua, nesse momento de início de século XX, foi demonizada como lugar da desorganização, do tumulto, da sujeira, da promiscuidade. Para estes teóricos, a função primordial da rua era a de circulação. e isso fazia tremendo sentido diante do surgimento do automóvel, instrumento que subverteria as noções de velocidade, de tempo, de mobilidade, de conforto e que &#8211; acreditavam muitos &#8211; seria em breve, por força da industrialização e do barateamento dos custos em função da produção em massa, acessível a todos. Nunca mais precisaríamos andar a pé.</p>
<p>Eu perguntei aos alunos o que eles achavam especificamente de reduzir a função da rua à circulação, e que outras coisas eles conseguiam lembrar e mencionar com sendo atos que se realizam na rua. Foi uma verdadeira festa. Tanta coisa legal que eles lembraram. E vocês, o que acham da rua?</p>
<p>Os trechos a seguir foram retirados do livro <strong>A Revolução Urbana, de Henri Lefebvre.</strong> O original foi escrito em 1970, a minha edição é da Editora UFMG, 1999 (pp 29 e 30). Logo no capítulo I, em que ele explica o conceito de sociedade urbana com que trabalha no livro, ele elenca alguns argumentos que foram desenvolvidos a favor da rua e contra a rua, dentro dos variados modelos teóricos e ideológicos do campo do urbanismo. Meu convite a vocês é: tendo como pano de fundo:</p>
<p>a) a sua própria experiência de passagem ou vivência de rua, contando com as dúvidas e inquietações trazidas pelas questões contemporâneas de violência e insegurança;</p>
<p>b) a leitura e reflexão sobre o discurso de ordem urbana embutido em projetos como o Choque de Ordem proposto pela prefeitura do Rio (e quaisquer projetos correlatos em outras cidades que vocês queiram partilhar);</p>
<p>Como vocês vêem, sentem e se posicionam diante dos argumentos levantados neste texto?</p>
<p>&#8220;A FAVOR DA RUA:</p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Não se trata simplesmente de um lugar de passagem e circulação. A invasão dos automóveis e a pressão dessa indústria, isto é, do lobby do automóvel, fazem dele um objeto-piloto, do estacionamento uma obsessão, da circulação um objetivo prioritário, destruidores de toda vida social e urbana. Aproxima-se o dia em que será preciso limitar os direitos e poderes do automóvel, não sem dificuldades e destruições.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? É o lugar (topia) do encontro, sem o qual não existem outros encontros possíveis nos lugares determinados (cafés, teatros, salas diversas). Esses lugares privilegiados animam as ruas e são favorecidos por sua animação, ou então não existem. Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação estipulada e imobilizada. Quando se suprimiu a rua (desde Le Corbusier, nos “novos conjuntos”), viu-se as consequências: a extinção da vida, a redução da “cidade” a dormitório, a aberrante funcionalização da existência. A rua contém as funções negligenciadas por Le Corbusier: a função informativa, a função simbólica, a função lúdica. Nela joga-se, nela aprende-se.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua é a desordem? Certamente. Todos os elementos da vida urbana, noutra parte congelados numa ordem imóvel e redundante, liberam-se e afluem às ruas e por elas em direção aos centros; aí se encontram, arrancados de seus lugares fixos. Essa desordem vive. Informa. Surpreende. Além disso, essa desordem constrói uma ordem superior. Os trabalhos de Jane Jacobs mostraram que nos Estados Unidos, a rua (movimentada, frequentada) fornece a única segurança possível contra a violência criminal (roubo, estupro, agressão). Onde quer que a rua desapareça, a criminalidade aumenta, se organiza. Na rua, e por esse espaço, um grupo (a própria cidade) se manifesta, aparece, apropria-se dos lugares, realiza um tempo-espaçȯ apropriado. Uma tal apropriação mostra que o uso e o valor de uso podem dominar a troca e o valor de troca. Quanto ao acontecimento revolucionário, ele geralmente ocorre na rua (em caso de ameaça, a primeira imposição do poder é a interdição à permanência e à reunião na rua). Isso não mostra também que sua desordem engendra uma outra ordem? </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">O espaço urbano da rua não é o lugar da palavra, o lugar da troca pelas palavras e signos, assim como pelas coisas? Não é o lugar privilegiado no qual se escreve a palavra? Nde ela pôde tornar-se “selvagem”  e inscrever-se nos muros, escapando das prescrições e instituições?</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">POR OUTRO LADO:</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">Os encontros nas ruas são superficiais. A rua não permite a constituição de um grupo, de um “sujeito”, mas se povoa de um amontoado de seres em busca. O mundo da mercadoria desenvolve-se na rua. A mercadoria que não pôde confinar-se nos lugares especializados, os mercados, praças, invadiu a cidade inteira. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua? Uma vitrine, um desfile entre as lojas. A mercadoria, tornada espetáculo (provocante, atraente), transforma as pessoas em espetáculo umas para as outras. Nela, mais que noutros lugares, a troca e o valor de troca prevalecem sobre o uso, até reduzí-lo a um resíduo. De tal modo que a crítica da rua deve ir mais longe: a rua torna-se o lugar privilegiado de uma repressão, possibilitada pelo caráter “real” das relações que aí se constituem, ou seja, ao mesmo tempo débil e alienado-alienante.</span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">A rua converteu-se em rede organizada para/pelo consumo. A velocidade da circulação de pedestres é aí determinada e demarcada pela possibilidade de perceber as vitrines, de comprar os objetos expostos. O tempo torna-se o tempo-mercadoria, a rua o submete ao mesmo sistema, o do rendimento e do lucro. A rua, série de vitrines, exposição de objetos à venda, mostra como a lógica da mercadoria é acompanhada de uma contemplação (passiva) que adquire o aspecto e a importância de uma estética e de uma ética. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">É assim que se pode falar de uma “colonização” do espaço urbano, que se efetua na rua pela imagem, pela publicidade, pelo espetáculo de objetos. A uniformização do cenário, visível na modernização das ruas antigas, reserva aos objetos (mercadorias) os efeitos de cores e formas que os tornam atraentes. Trata-se de uma aparência caricata de apropriação e de reapropriação do espaço que o poder autoriza quando permite a realização de eventos nas ruas: carnaval, bailes, festivais folclóricos. Quanto à verdadeira apropriação, a da “manifestação” efetiva, é combatida pelas forças repressivas, que comandam o silêncio e o esquecimento&#8221;. </span></span></span></p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: x-medium;">E aí?<br />
</span></span></span></p>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>O cimento, a América Latina e outros pensamentos partilhados</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 04:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[Outros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do Fernando Lara, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no <a href="http://www.proarq.fau.ufrj.br/site/" target="_blank">PROARQ</a> (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade de comunicação imensa. Acaba não sendo uma palestra, mas um papo, gostoso, instrutivo, em que você não sente o tempo passar e fica querendo mais quando termina. Dessa vez, o tema era<em><strong> &#8220;O cimento feroz &#8211; considerações sobre arquiteturas contemporâneas da América Latina&#8221;</strong></em>, assunto que ele vem estudando há bastante tempo e desenvolvendo em seus <a href="http://soa.utexas.edu/latitudes/" target="_blank">grupos de pesquisa</a> sobre Arquitetura Latinoamericana  Moderna na <a href="http://www.soa.utexas.edu/lama" target="_blank">Universidade do Texas</a>.</p>
<p>Como é um assunto que eu absolutamente não domino, fui lá aprender. E, como boa aluna, tomei notas, que divido agora com vocês. Já comecei me surpreendendo com a frase-provocação que abriu a conversa, que o Fernando nos informou ter sido dita por Paulo Venâncio, professor da EBA (Escola de Belas-Artes), num livro sobre o Burle Marx. Sente só: &#8220;o brasileiro só consegue lidar com a paisagem mediada pelo cimento&#8221;. Gente, e não é verdade?</p>
<p>Gostei muito dele ter trazido, para começar, uma discussão sobre esse conceito de &#8220;América Latina&#8221;. O que é isso, afinal, o que quer dizer, o que expressa? Nós temos (ou pelo menos muitos de nós) a tendência a naturalizar certos termos e é preciso um certo esforço para ficarmos atentos aos seus significados, e sobretudo ao entendimento de como, quando e onde esses significados foram propostos e construídos. A idéia de uma América &#8220;latina&#8221; surge na segunda metade do século XIX, e é uma tentativa francesa de trazer, para seu círculo de influência &#8220;latinizante&#8221;, uma parte da América que orbitava, em vários aspectos, tanto políticos quanto econômicos, em torno do universo anglo-saxão. A França acenava com nossas raízes latinas, via Portugal e Espanha, para nos suscitar a ideia de uma herança cultural comum, que favorecesse nosso alinhamento aos seus interesses. Eu sei que estou encurtando um assunto que é mais comprido e mais complexo do que isso.  O que nos cabe discutir aqui é que esse conceito, ou esse agrupamento não é fruto de uma identidade própria ou auto-reconhecimento, mas sim uma característica, ou conjunto de características que nos é atribuída por outrem (por mais que hoje muita gente tenha se apropriado positivamente dessa identidade), e se a gente pensar bem,  é um conceito que já nasce problemático. Em outras palavras, não fomos nós mesmos que nos reconhecemos e designamos assim: &#8220;somos latinoamericanos&#8221;, mas um outro, europeu, que  veio nos dizer: &#8220;ei, <em>prestenção</em>, vocês são herdeiros de uma tradição latina, por MEU intermédio, fiquem aqui do meu lado&#8221;.  E vingou, né? Ou melhor, vingou especialmente a denominação. Não necessariamente o interesse francês.</p>
<p>Mas qual seria esse nosso traço comum, que nos permitiria abrigar-nos todos sob esse &#8220;guarda-chuva&#8221;? Um recorte simplesmente geopolítico arbitrário, que diz que do México pra baixo é tudo latinoamericano? Mas e as Ilhas Virgens, as Guianas holandesa e inglesa, as outras colônias de povos não-latinos no Caribe? Bom, seria então uma unidade linguística? Não, nesse conjunto de países há falantes de outras línguas também. Seria uma unidade religiosa? Econômica? Há algum dado <em>a priori</em> que permita nos agrupar sob esta classificação? Ele vai desmontando e desnaturalizando o conceito, pra mostrar que qualquer denominador comum que se busque tem seus furos, ou seja, dizer &#8220;América Latina&#8221; é enfatizar uma construção política e cultural, que serve (ainda hoje) a determinados interesses, para o bem ou para o mal.</p>
<p>Agora, uma coisa que muito me impressionou, das diversas imagens que ele mostrou, fruto da transcrição cartográfica das pesquisas que ele vem fazendo, é como, nas nossas revistas de arquitetura, aparece tão hegemonicamente a produção do hemisfério norte, em detrimento da produção abaixo da linha do Equador! Ele fez um levantamento em diversas revistas, das obras que são mencionadas, apresentadas como significativas da produção arquitetônica contemporânea. E foi marcando com uma bolinha num mapa mundi a localização da tal obra. Tá lá: só dá hemisfério norte! E ele mostrou, com exemplos muito legais, que não é por falta de produção de qualidade do lado de baixo do Equador, mas por falta de valorização e divulgação dessa produção. E isso não é só no Brasil. Segundo o Fernando, falta uma maior comunicação e trocas entre arquitetos e urbanistas &#8211; vá lá &#8211; latinoamericanos. Nas revistas brasileiras saem artigos e críticas sobre obras brasileiras, européias, norteamericanas, alguma coisa asiática. Nas revistas colombianas saem sobre obras colombianas, européias, norteamericanas, asiáticas. Nas revistas argentinas, a mesma coisa. E assim em todo lado.</p>
<p>A partir daí, ele começou a mostrar arquitetos e arquiteturas desses países nossos vizinhos, e, veja bem, a audiência da palestra era quase toda de professores e estudantes de mestrado e doutorado de arquitetura (e alguns dos meus alunos da graduação que eu chamei também), e é impressionante que tantos nomes que ele citou nós simplesmente nunca tínhamos ouvido falar, ou mal conhecíamos o nome. Entre tantos edifícios e intervenções urbanas de qualidade, um traço comum: o uso maciço do concreto, do tal &#8220;cimento feroz&#8221;, algumas vezes com rara poesia e leveza.</p>
<p>Vou mencionar apenas alguns (deixei os brasileiros de fora dessa vez, e ele mostrou projetos ótimos também) e fazer vocês irem pesquisar a respeito:</p>
<p><a href="http://www.rafaeliglesia.com.ar/first-E.htm" target="_blank">Rafael Iglesia</a> (Argentina), que diz que nós não temos História, mas Geografias, porque estamos sempre fazendo tabula rasa para novos experimentos;<br />
<a href="http://www.worldarchitecture.org/world-architects/index.asp?worldarchitects=architectdetail&amp;country=Mexico&amp;no=3" target="_blank">Alberto Kalach</a> (México);<br />
<a href="http://www.arqsaez.com/" target="_blank">José Maria Saez</a> (Equador);</p>
<div id="attachment_837" class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg"><img class="size-full wp-image-837" title="montagem-latino" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg" alt="" width="590" height="564" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, à esquerda, uma escada maravilhosa de Iglesia, que não usa um único prego, só encaixe. Ao lado, a Biblioteca Nacional, do Kalach, no México. Abaixo, também do Kalach, a casa que está na página de abertura do seu site</p></div>
<p><a href="http://www.alejandroaravena.com/" target="_blank">Alejandro Aravena</a> (Chile): gostei muito de um projeto que foi mostrado, de habitação social, batizado de <a href="http://www.elementalchile.cl/viviendas/quinta-monroy/quinta-monroy/" target="_blank">Elemental</a>, que usa alguns blocos-padrão, modulares, intercalados com espaços livres que permitem que cada família construa o restante da unidade conforme suas necessidades (e possibilidades), gerando uma diversidade formal muito rica e interessante.</p>
<div id="attachment_838" class="wp-caption aligncenter" style="width: 790px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg"><img class="size-full wp-image-838" title="Alejandro-Elemental-quintamoroy" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg" alt="" width="780" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Casas em Quinta Monroy, no Chile, nessa &quot;metodologia&quot; do Elemental, que permite arranjos posteriores diferentes com maior flexibilidade para os moradores. </p></div>
<p>Em todos os projetos apresentados, havia uma preocupação de melhoria e valorização do espaço público como estratégia para um melhor exercício da cidadania. E sobretudo, uma enorme confiança na arquitetura, no espaço construído, como elemento impactante nessa transformação. A premissa é de que ao construir creches, escolas, postos de saúde, praças, conjuntos habitacionais de grande qualidade formal e espacial você está, de certa forma, &#8220;educando&#8221; as novas gerações, oferecendo a possibilidade delas incorporarem novos parâmetros de qualidade, que as tornem mais críticas e exigentes no futuro. Isso é genial.</p>
<p>Eu achei espetacular saber que, na Colômbia, por exemplo, há uma lei que obriga todo projeto em terreno público, com mais de 5000 m2 de área construída, a ser alvo de concurso público. E tá certo. Isso provoca uma profunda renovação na arquitetura local, e contribui de maneira fundamental para a melhoria dos nossos referenciais construtivos. Estimula talentos novos, revigora o ensino, alavanca a pesquisa e o investimento em novas tecnologias, diversifica a paisagem urbana, favorece o controle e a fiscalização dos gastos públicos com as obras. Já pensou isso aqui, no Rio, no Brasil, com as obras da Copa e das Olimpíadas? Com a requalificação da área portuária? Nós só teríamos a ganhar, eu tenho certeza!</p>
<p>&#8212;&#8212;- x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212;</p>
<p>Umas rapidinhas, pra fechar por hoje:</p>
<p>- imperdível o <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/2010/08/29/campanha-incentivando-violencia-contra-candidata/" target="_blank">post da Cynthia</a>, no blog <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/" target="_blank">Sexismo na política</a>. É pra ser lido e divulgado. Longe de ser uma brincadeira, o teor da malfadada campanha é de um mau gosto grotesco e revela o quanto a violência contra a mulher continua um assunto sério e descuidado no país. E não se trata de uma defesa partidária, nem de falta de humor. É muito mais grave e amplo do que isso.</p>
<p>- ainda sobre política, um aviso importantíssimo: não se esqueçam que, este ano, para poder votar, não basta levar o título de eleitor à seção eleitoral. É <strong>OBRIGATÓRIO</strong> levar <strong>TAMBÉM</strong> um <strong>DOCUMENTO DE IDENTIDADE, OFICIAL, COM FOTO! </strong>Ou seja, são <span style="color: #ff0000;"><strong>DOIS DOCUMENTOS:</strong></span> o título e a identidade. Serve a carteira de identidade propriamente, passaporte, carteira de trabalho, carteira de habilitação, mas tem que ter foto. Divulgue essa notícia entre todos os seus conhecidos. Não vamos perder votos por causa disso, gente!</p>
<p>(nem vou entrar no mérito do quão &#8220;oportuna&#8221; é essa lei, e do quanto ela provavelmente vai punir os eleitores mais humildes, que muitas vezes não têm documentação completa, e o pessoal das cidades mais do interior, para quem, talvez, essa informação nem seja suficientemente divulgada. Olho vivo)</p>
<p>- fechando com mais política e cidade: ao escolher seus candidatos, se possível, avalie também a posição deles em relação aos nossos principais temas urbanos: habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, sustentabilidade, educação. De preferência, do ponto de vista da maior inclusão social possível, democratizando o acesso do maior número de pessoas a esses bens e serviços, e que eles tenham mais qualidade, em todos os sentidos.</p>
<p>- agora é pra fechar, mesmo. Por falar em mobilidade e cidadania, não posso deixar de recomendar, também, veementemente, o<a href="http://mateipormenos.apostos.com/2010/08/26/antes-morrer-de-bicicleta/" target="_blank"> post da Juliana</a>, sobre a banalização da morte de pedestres por atropelamentos. No mesmo assunto, sempre tem textos interessantíssimos no<a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/" target="_blank"> Apocalipse Motorizado</a>, como <a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/2009/01/12/a-maioria-silenciosa/" target="_blank">esse daqui</a>, do ano passado.</p>
<p>Volto já, até daqui a pouco.</p>
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		<title>Canadá 5 &#8211; Espaço público</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Nov 2009 18:51:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Canadá]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Uma coisa que eu sempre observo nas cidades que eu visito são os espaços públicos: seu uso, suas tipologias, sua conservação. Muito da vida, do charme e do fascínio que uma cidade exerce se deve ao que acontece nos espaços públicos: se são bem cuidados, limpos, mas principalmente se as pessoas efetivamente os utilizam, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Uma coisa que eu sempre observo nas cidades que eu visito são os espaços públicos: seu uso, suas tipologias, sua conservação. Muito da vida, do charme e do fascínio que uma cidade exerce se deve ao que acontece nos espaços públicos: se são bem cuidados, limpos, mas principalmente se as pessoas efetivamente os utilizam, se há feiras, festas, eventos, arte, se é acolhedor e dinâmico ou arrogante e frio, como se dissesse “olha como eu sou chique, não é todo mundo que pode transitar aqui”. Muitas coisas contribuem para que o espaço público de uma cidade seja de um jeito ou de outro. Políticas públicas, questões culturais, padrões de urbanização e a relação da arquitetura com o entorno, ou seja, dos prédios com as ruas e praças que os cercam.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Eu tive excelente impressão do Canadá nesse sentido. As coisas acontecem nas ruas, há vitrines vistosas que tornam o passeio pelas calçadas mais bonito e atrativo; bares, cafés e restaurantes onde se pode parar para beber alguma coisa, fumar um cigarro, ler sossegado ou simplesmente observar o movimento. Há quiosques de frutas frescas e sucos feitos na hora, flores e souvenirs. Há exposições e espetáculos de música, há artistas de rua exibindo suas performances (quantidades de peruanos e bolivianos tocando nas praças), vendendo suas obras (eu cheguei a comprar duas gravuras muito bonitas, feitas a nanquim) e atraindo curiosos. E sobretudo há todo tipo de gente.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="aligncenter size-full wp-image-564" title="espacopublico1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/espacopublico12.jpg" alt="espacopublico1" width="765" height="432" /></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="alignleft size-medium wp-image-554" title="mendigo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/mendigo-300x197.jpg" alt="mendigo" width="300" height="197" />Todo tipo mesmo. Eu me surpreendi um pouco com a grande quantidade de pedintes nas ruas, tanto em Montreal quanto em Toronto. Há uma expressiva população de rua, e até mesmo o famigerado fenômeno dos limpadores de parabrisa nos sinais de trânsito (será que fomos nós que exportamos esse know-how?). Minha amiga que mora lá me explicou que a maioria absoluta não é pobre, não é uma questão de miséria. São quase todos viciados em drogas ou álcool. Aí me dei conta que de fato, só vi homens adultos nessa situação (na verdade, vi uma única mulher, sentada na calçada). Não há crianças pedintes, não vi nenhuma criança pobre. E mesmo esses homens não são agressivos. Eles pedem, mas se você recusa ou passa direto eles resmungam alguma coisa e fica por isso mesmo.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">O Serviço Social é bastante efetivo, e fornece a essa população abrigo e alimentação (cheguei a ver uma distribuição de sopa numa praça, com uma longa fila de necessitados esperando sua vez de receber alimento), além de uma espécie de pensão ou auxílio financeiro mensal que garante que eles estejam assistidos. Eu pensei bastante sobre o assunto, e ouvi muitos argumentos, principalmente de gente que defende que esta atitude do governo “estimula a vagabundagem”, e que se eles tivessem que se virar sozinhos talvez tivesse menos pedinte na rua, já que trabalho não falta. Eu discordo. Esse é o velho discurso (neo)liberalista, que estimula o cada um por si e acredita que o sucesso ou o fracasso de todos e de qualquer um depende só de seus próprios esforços, ignorando as estruturas sociais que empurram pessoas para a margem e perversamente impedem que elas retornem ao jogo, ao mesmo tempo em que finge consternação e culpa os fracassados sociais pela sua própria situação. Eu simpatizo com uma sociedade que acredita que é dever coletivo cuidar de todos os seus membros, inclusive (e talvez principalmente) os rejeitados, os inadequados, os outsiders. Mas eu não vou me alongar nisso agora porque se eu enveredar por essa seara vou escrever três páginas sobre isso e ninguém vai ler. Isso dá outro post.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Voltando ao Canadá. Todo mundo partilha os espaços, adultos, crianças e&#8230; cachorros. Agora, parando pra pensar e rever as fotos, eu vi poucos idosos. Talvez até pela política de imigração, e por serem tanto Montreal quanto Toronto cidades com grandes universidades, o perfil etário destas populações seja mais de jovens. Em Quebec tinha mais idosos, principalmente em excursões turísticas. Vi uma coisa que achei particularmente divertida e interessante: casamentos. Não a cerimônia em si, mas o casal de noivos, vestidos a caráter, com suas damas de honra, fazendo as fotos do casamento. Vi um desses na praça, ou melhor, no calçadão da Jacques Cartier; vi outro em Toronto, sexta de tarde, na calçada em frente ao Royal Ontario Museum, e vi ainda um terceiro, também em Toronto, dentro do mercado público, entre barracas de legumes e frutos do mar. Estão aí as fotos pra não me deixar mentir. Muito legal.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="aligncenter size-full wp-image-565" title="casamentos" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/casamentos1.jpg" alt="casamentos" width="770" height="190" /></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Com relação aos cachorros, eu devo dizer que ainda não tinha visto uma cidade que os acolhesse tão bem. Não vi um só cachorro de rua, abandonado, mas vi dezenas andando com seus donos, inclusive (os de menor porte) transitando sem problemas nos bondes, metrô e até em algumas lojas. Essa tolerância implica a existência e o cumprimento de códigos de conduta rígidos e claros. Por exemplo, eu não vi cocô de cachorro em nenhum lugar, os bichinhos estão sempre de coleira, independente da raça, e têm um comportamento exemplar. Em Toronto, eu vi uma praça com uma área cercada específica para os donos soltarem seus cachorros, e uma quadro de regras de uso afixado no portão, dizendo o que pode e o que não pode fazer e recomendando aos donos cuidados com higiene, sociabilidade de seus animais e manutenção dos equipamentos públicos. Enquanto eu pude observar, pareceu-me que as recomendações eram seguidas por todos.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<div id="attachment_566" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><img class="size-full wp-image-566" title="cachorros" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/cachorros1.jpg" alt="Au au au!" width="800" height="225" /><p class="wp-caption-text">Au au au!</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;">A relação do canadense com a luz e o sol é muito forte. Pudera, o inverno é rigoroso e longo, com pouca incidência de luz solar e dias mais curtos. Logo, eles aproveitam, e muito, todo o sol que podem, em praças, parques, jardins, ruas. Até a arquitetura expressa isso. As fachadas e as empenas (as paredes laterais dos edifícios, especialmente aquelas “cegas”, ou sem aberturas de portas e janelas) são quase sempre pintadas e muito coloridas.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<div id="attachment_569" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><img class="size-full wp-image-569" title="empenas" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/empenas2.jpg" alt="Fachadas e empenas coloridas. Na foto do alto à direita, tirada em Quebec, não se iluda: é tudo pintura!" width="800" height="455" /><p class="wp-caption-text">Fachadas e empenas coloridas. Na foto do alto à direita, tirada em Quebec, não se iluda: é tudo pintura!</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="alignleft size-medium wp-image-558" title="cafe" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/cafe-300x168.jpg" alt="cafe" width="300" height="168" />Eu estive lá em setembro, finalzinho de verão, início de outono, temperaturas ainda bem agradáveis, em torno de 18 a 24 graus. Os cafés e terraços estavam cheios, com suas mesinhas na calçada, e era engraçado ver que a calçada onde batia o sol estava sempre cheia, e a que ficava na sombra, vazia. Estudos mostram que a falta muito prolongada de luz solar pode aumentar ou intensificar episódios de depressão e doença mental. Essa minha amiga disse que o índice de tentativas de suicídio aumenta muito no inverno, e o governo faz campanhas maciças, disponibilizando serviços de apoio e estimulando as pessoas a ligarem para esses serviços e se juntarem às atividades comunitárias quando perceberem os primeiros sintomas dos surtos depressivos. Deve ser difícil mesmo. Pra nós, que vivemos num país tropical e luminoso, é difícil até de imaginar essa situação triste.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="alignright size-full wp-image-572" title="obras" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/obras1.jpg" alt="obras" width="169" height="300" />Pra terminar, não posso deixar de dizer que Montreal me chamou a atenção por ser uma cidade em obras. Pra todo lado há uma praça sendo reformada, uma infra-estrutura sendo modernizada, um prédio novo sendo construído (e ruas interditadas e tapumes por conta disso. Não sei se os canadenses reclamam tanto disso quanto a gente reclamaria aqui). Como turista isso não me incomodou em nada. Tem inclusive uma das obras em andamento sobre a qual eu quero falar, mas no próximo post, porque me serviu como contraponto ao que eu penso sobre a tal Cidade da Música, cujas obras foram retomadas essa semana, aqui no Rio.</p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><img class="alignleft size-medium wp-image-576" title="3D" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/3D-300x168.jpg" alt="3D" width="300" height="168" />Só mais dois comentários. Um é sobre fotografar o espaço público. Eu achei muito legal poder andar com minha máquina e fotografar tudo, inclusive dentro de shoppings, metrô e museus, sem ter o tempo todo um brutamontes de terno e walkie-talkie preso no cinto me dizendo que não pode, que é bem o que acontece aqui no Rio. Outro é sobre uma exposição específica que eu vi, e que eu amei, com fotos históricas da cidade. As fotos estavam dispostas em painéis numa rua, e os painéis de fotos eram intercalados com outros painéis com lentes verdes e vermelhas, que davam efeito de 3D às fotos. A gente devia olhar as fotos através desses painéis coloridos para ter o efeito, dá pra entender melhor com a foto aí do lado. Lúdico, divertido, instrutivo. O que a gente precisa para ter mais coisas assim por aqui?</p>
<p style="margin-bottom: 0in;">
<p style="margin-bottom: 0in;">
<div id="attachment_573" class="wp-caption aligncenter" style="width: 815px"><img class="size-full wp-image-573" title="campus_praca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/campus_praca.jpg" alt="À esq., uma praça no complexo Place des Arts; à dir. o campus da Universidade de Toronto, no centro da cidade, aberto à população." width="805" height="225" /><p class="wp-caption-text">À esq., uma praça no complexo Place des Arts; à dir. o campus da Universidade de Toronto, no centro da cidade, aberto à população.</p></div>
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		<title>Cidades Literárias: Mark Twain</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 02:34:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na Universidade Veiga de Almeida (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou logo avisando. O trecho escolhido para hoje teve uma motivação altamente pessoal, que terá que ser desdobrada em outros posts. Só pra adiantar o assunto e explicar em parte a escolha, eu conto a vocês que estou dando aulas na <a href="http://www.uva.br/" target="_blank">Universidade Veiga de Almeida</a> (acho que essa parte vocês já sabem). Está sendo um desafio novo e interessante para mim, sob vários aspectos. Uma mudança bastante significativa, principalmente em termos de rotina, é que o campus da  Universidade fica na Barra da Tijuca, que é um bairro do Rio bastante longe pra mim, com um trânsito complicado, e sobretudo, uma configuração urbana muito diferente do que eu estou habituada. Quero falar exatamente sobre isso depois, e sobre uma experiência quase, eu diria, antropológica, que eu tive ontem. Mas isso é depois.</p>
<p>Voltando, eu dou aulas por lá às terças e quintas. Um dos cursos é o de Design de Interiores, e estou num processo de imersão nesse novo universo pra mim. Mas dou também uma matéria chamada <strong>Planejamento Urbano</strong>, no curso de Gestão de Negócios Imobiliários. É uma turma grande, um pessoal mais velho, vários numa segunda graduação, a maioria buscando uma qualificação maior para ingressar ou se aperfeiçoar no ramo da corretagem de imóveis.</p>
<p>Na aula de ontem, eu estava falando com eles sobre o que é o estudo da morfologia da cidade, na tentativa de despertar uma maior sensibilidade para olhar &#8211; e ver &#8211; os vários elementos que compõem a estrutura urbana: as ruas, os prédios, as praças, a vegetação urbana, os padrões de parcelamento do solo, e até os monumentos e mobiliário. São todos peças que se relacionam e que ajudam a criar o espaço urbano, interferindo na percepção que temos dele e nas sensações que nos despertam.</p>
<p>É um tema que me apaixona. Especialmente quando falo das ruas e praças, espaços públicos tão importantes e tão esvaziados de tudo hoje &#8211; de significado, de usos, de conteúdo político.</p>
<p>(Calma que eu tou quase chegando no Mark Twain)</p>
<p>Aí, preparando a aula, na quarta-feira, eu tava pesquisando imagens para os slides. Eu queria falar da importância e das várias funções das ruas. Lá na Barra, especialmente, como em diversos outros locais de desenho modernista, as ruas são quase exclusivamente reduzidas à sua função de canal de deslocamento. Elas servem para a &#8220;circulação&#8221;, como dizia <a href="http://www.educ.fc.ul.pt/icm/icm2000/icm33/Corbusier.htm" target="_blank"><strong>Le Corbusier</strong></a> na <a href="www.icomos.org.br/cartas/Carta_de_Atenas_1931.pdf" target="_blank"><strong>Carta de Atenas</strong></a> (link em pdf). Você usa uma rua para ir de um lugar a outro. Ponto. E isso é tão pouco, tão empobrecedor. As ruas servem para fazer passetas, para eventos cívicos, servem para as crianças jogarem bola no final da tarde, para as pessoas sentarem na calçada e conversarem com os vizinhos. Servem como mercado, como ponto de encontro, no chopp da esquina, bebido de pé na calçada ou sentado no meio-fio, servem para passear com o cachorro, servem  para você cruzar com pessoas diferentes e quem, sabe, até, realizar pequenas trocas sociais, nem que seja respondendo a um passante desconhecido que horas são ou onde fica a rua tal.</p>
<p>Eu queria procurar imagens dessas coisas, e joguei no google: &#8220;crianças na calçada&#8221;, &#8220;velhinhos na calçada&#8221;, crianças na rua&#8221;, &#8220;brincadeiras na rua&#8221; e todo tipo de coisas semelhantes. As únicas imagens que atendiam ao que eu estava procurando eram velhas fotos em preto e branco, como essa aí embaixo, que ilustra esse post. De maneira geral, expressões com crianças ou velhinhos ou o que quer que seja na rua ou na calçada, só te devolvem imagens de sem-teto, pivetes, mendigos. Achei tão sintomático. E triste.</p>
<div id="attachment_436" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-436" title="mark-twain" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/mark-twain.jpg" alt="Olha a pinta da figura!" width="300" height="207" /><p class="wp-caption-text">Olha a pinta da figura!</p></div>
<p>No início da semana, sabendo que teria dias de muito trabalho e pouco tempo, eu já estava pensando em que autor escolher para hoje. E já tinha pensado em <strong>Mark Twain</strong>. Se você nunca leu Mark Twain, faça-o correndo. É delicioso, ele é mordaz, bem-humorado, ácido e doce na medida certa. Eu tenho um livro dele, de não-ficção, chamado <strong>Dicas úteis para uma vida fútil: um manual para a maldita raça humana </strong>(Ed. Relume Dumará,<strong> </strong>2005, tradução de Beatriz Horta), que é uma coleção &#8211; organizada postumamente &#8211; de pensamentos, pequenas crônicas, trechos de diário, cartas e conselhos:  divertidíssima! Mas depois da aula de ontem, eu não tive dúvida. Corri para <strong>As Aventuras de Tom Sawyer</strong>, e saiu isso aqui:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Tom caminhou junto às casas e tomou uma rua enlameada, que dava para os fundos do estábulo onde a tia tinha a vaca. Passados momentos estava a salvo de que o apanhassem para o castigar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Então apressou-se para o largo da aldeia, onde os meninos, formados em duas companhias &#8220;militares&#8221;, deviam encontrar-se para um combate, segundo uma combinação prévia. Tom era general de um desses exércitos e Joe Harper &#8211; um amigo de infância &#8211; general do outro. Estes dois grandes comandantes não se dignavam combater em pessoa &#8211; o que competia a outros de menos importância -, mas ambos, sentados numa elevação do terreno, dirigiam as operações transmitindo ordens aos seus ajudantes-de-ordens. Depois de um longo e renhido combate, o exército de Tom saiu vitorioso. Nessa altura, contaram-se os mortos, trocaram-se os prisioneiros, combinaram-se os termos do próximo encontro e marcou-se o dia para ele. em seguida, os dois exércitos formaram e marcharam, cada um para seu lado, enquanto Tom voltava sozinho para casa&#8221;. </em></p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-438" title="225_166-crianca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/225_166-crianca-300x199.jpg" alt="225_166-crianca" width="300" height="199" />Também vou deixar vocês aqui, com minha homenagem às brincadeiras de rua, à sociabilidade que eu ainda creio ser possível resgatar ou incrementar, ainda que de jeitos novos. Esse livro foi escrito em 1876. Cem anos depois, numa cidade do subúrbio, eu, bem pequena, brincava de queimado e pique-bandeira na rua em frente à minha casa na volta da escola, de tarde. Me ajudem a não parecer uma velha coroca resmungando por uma nostalgia ingênua e vazia. Uma cidade melhor é possível. Mas, do meu ponto de vista, passa necessariamente por espaços públicos com mais vida e mais trocas.</p>
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		<title>Paisagens cariocas</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Aug 2009 23:37:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<category><![CDATA[Paisagismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Hoje de tarde, Marido chegou cedo do trabalho, tava um dia lindo, sol de inverno, e nós fomos andar de bicicleta no Aterro. Daí que eu voltei, mais uma vez encantada com a paisagem espetacular, e lembrei que fiquei de prestar minha homenagem ao Burle Marx.</p>
<p>Pra quem não sabe, Burle Marx foi um dos mais importantes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje de tarde, Marido chegou cedo do trabalho, tava um dia lindo, sol de inverno, e nós fomos andar de bicicleta no Aterro. Daí que eu voltei, mais uma vez encantada com a paisagem espetacular, e lembrei que fiquei de prestar minha homenagem ao Burle Marx.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-383" title="burle_himself" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle_himself-300x166.jpg" alt="burle_himself" width="300" height="166" />Pra quem não sabe, Burle Marx foi um dos mais importantes paisagistas do mundo no século XX, mas ele gostava mesmo é de se apresentar como artista plástico. Era pintor, ceramista, escultor, desenhou jóias, plantou jardins, idealizou painéis imensos e multicoloridos de azulejos. Tudo com uma delicadeza, uma noção de harmonia de cores, volumes e proporções que é uma coisa de louco. Ou de gênio. Burle nasceu em São Paulo, mas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, e podemos dizer que parte significativa da imagem que hoje temos da cidade se deve a ele.</p>
<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-384" title="burle2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle2-150x150.jpg" alt="burle2" width="150" height="150" />Além de inúmeros projetos para jardins privados, de residências urbanas ou chácaras e sítios, Burle Marx idealizou e executou vários dos mais conhecidos espaços públicos da cidade, entre eles os jardins do Museu de Arte Moderna, do Palácio Gustavo Capanema (antigo prédio do MEC, no Centro), o calçadão de Copacabana e o Aterro do Flamengo (aqui é bom que se diga que a idealização do Aterro é de Carlota Macedo de Soares, o projeto urbanístico e de diversos elementos arquitetônicos é de Afonso Eduardo Reidy e o projeto paisagístico, sim, de Burle Marx). Isso pra falar só de alguns dos seus projetos no Rio de Janeiro, porque os há em todo canto do mundo.</p>
<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-385" title="burle1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle1-150x150.jpg" alt="burle1" width="150" height="150" />Recentemente houve uma belíssima exposição da obra de Burle Marx no Paço Imperial, que eu tive a oportunidade de ver na companhia deliciosa e encantadora do meu amigo e arquiteto <a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/" target="_blank">Cláudio Luiz</a>, e eu relembrei o quanto é fantástico admirar o desenho de Burle Marx e seus projetos, em planta baixa. Cada um deles é, em si mesmo, uma obra de arte, um quadro. Ele pensava os jardins como pinturas, com as cores, as formas, a geometria, a plasticidade de uma composição artística.</p>
<p>Eu podia falar também que ele é o responsável pela introdução de um novo conceito no paisagismo moderno, valorizando as árvores e espécies nativas, numa época em que ainda se importava tanta moda. E isso vale não só para as exuberantes palmeiras tropicais, bromélias e agaves, mas para desconhecidos arbustos e folhagens, que antes eram tratados como mato, quando não como erva-daninha, e que, a partir de Burle Marx, foram valorizados e elevados à categoria de protagonistas em canteiros coloridos. Mas o melhor que eu posso fazer é sugerir, pra você que é daqui do Rio, e pra você que venha aqui a passeio, uma visita ao <a href="http://www.rio.rj.gov.br/riotur/pt/atracao/?CodAtr=3900" target="_blank">Sítio Burle Marx</a>, lá em Guaratiba. É passeio para um dia inteiro, mas vale cada segundo.</p>
<p>Burle Marx nos deixou em 1994, aos 84 anos, mas sua obra está viva na cidade, literalmente. E a gente pode se emocionar com ela num simples passeio de bicicleta de fim da tarde, não tem coisa melhor.</p>
<div id="attachment_391" class="wp-caption aligncenter" style="width: 969px"><img class="size-full wp-image-391" title="burle_comp1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle_comp1.jpg" alt="Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo" width="959" height="278" /><p class="wp-caption-text">Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo</p></div>
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		<title>Espaço público: convivência ou vigilância?</title>
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		<pubDate>Tue, 19 May 2009 17:49:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[praça]]></category>
		<category><![CDATA[rua]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Suponha que você more num bairro residencial e sossegado, e tenha uma pracinha simpática na sua vizinhança, que você pode ver da janela do seu apartamento. Suponha também que um dia qualquer, aí pelas 3 horas da tarde, você veja, por esta janela, dois sujeitos sentados num dos bancos da praça, comendo sanduíches e bebendo refrigerante, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Suponha que você more num bairro residencial e sossegado, e tenha uma pracinha simpática na sua vizinhança, que você pode ver da janela do seu apartamento. Suponha também que um dia qualquer, aí pelas 3 horas da tarde, você veja, por esta janela, dois sujeitos sentados num dos bancos da praça, comendo sanduíches e bebendo refrigerante, enquanto riem e conversam animadamente. Talvez até os sujeitos sejam cabeludos. Ou não. Estejam de jeans e camiseta, tênis meio velho, em cima do banco. Eu não sei, eu não vi os sujeitos, tou aqui só imaginando uma cena. O fato é que você se dá conta de que nunca viu aqueles sujeitos antes por ali. O que você faz?</p>
<p>a) Não tenho idéia, eu jamais tive tempo pra ficar na janela às 3 horas da tarde de um dia de semana.</p>
<p>b) Ué, tem que fazer alguma coisa? Desde quando comer sanduíches e conversar numa praça é crime?</p>
<p>c) Liga pra polícia, afinal, se são desconhecidos, são suspeitos, e podem vir a fazer alguma coisa errada, melhor prevenir.</p>
<p>Você eu não sei, mas alguém, no bairro da Saúde, São Paulo, semana passada, resolveu pela opção c. Sim, esta história aconteceu com o Marcus Pessoa, do blog <a href="http://marcuspessoa.net/" target="_blank">Velho do Farol</a>, e um amigo dele (que por sinal, mora logo ali adiante, mas tinha esquecido a chave em casa naquele dia, e daí resolveram fazer hora na praça enquanto esperavam a mãe dele chegar). Você pode ler essa história com todos os detalhes, <a href="http://marcuspessoa.net/2009/05/14/sao-paulo-e-o-espaco-publico-privatizado/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>Na narrativa dele há todo o lado, revoltante, da truculência da polícia, que chega &#8220;atirando primeiro e perguntando depois&#8221;, num desrespeito flagrante a qualquer direito do cidadão, não importa o nível de violência a que a cidade tenha chegado. Você pode achar muito correto a polícia ser dura e não dar mole pra vagabundo, até o dia em que o vagabundo, pelos critérios (ou falta de) nebulosos da polícia seja você ou seu filho, que desceu de chinelo pra ir na padaria comprar uma cocacola pra janta e é parado por um guarda armado que manda calar a boca e só depois alega que &#8220;afinal, aquilo é ponto de maconheiro e o vizinho denunciou um movimento suspeito&#8221;.</p>
<p>Porém, não é nem sobre esse lado que eu quero discutir aqui. É sobre o uso do <strong>espaço público</strong> em si, cada vez mais cerceado, vigiado, homogeneizado, higienizado, reservado para o consumo de poucos eleitos, e sabe deus quem é que determina (e com que direito) que eleitos são esses.</p>
<p>Essa questão da rua estar sujeita a uma espécie de vigilância pública já foi discutida por dois autores fantásticos, leitura obrigatória em tudo que é faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de todos que pretendem debater seriamente sobre questões urbanas e espaço público. Um deles é a jornalista e escritora norteamericana <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jane_Jacobs" target="_blank">Jane Jacobs</a>, com seu clássico livro <a href="http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha020.asp" target="_blank"><strong>Morte e Vida de Grandes Cidades</strong></a>, que eu estou pensando em trazer pra cá uma hora dessas. O outro é o arquiteto brasileiro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Nelson_Ferreira_dos_Santos" target="_blank">Carlos Nelson Ferreira dos Santos</a>, de tantos livros e artigos primorosos e contundentes sobre o tema. Ambos, cada um a seu tempo e de seu jeito, trouxeram a idéia de uma &#8220;<strong>pedagogia da rua</strong>&#8220;: sendo a rua o lugar público por excelência, onde transitam as mais variadas pessoas, de todas as tribos e classes, é um espaço privilegiado para a experiência do convívio com a diferença, para a educação da cidadania e para a negociação democrática dos eventuais conflitos trazidos por essas diferenças. E ambos falam das janelas como sendo os &#8220;olhos da rua&#8221;, ou seja, de como as próprias pessoas, a partir desta convivência, e de uma apropriação afetiva dos espaços que frequentam, ajudam a &#8220;regular&#8221; o que acontece nos espaços. Sempre do ponto de vista do diálogo, do acolhimento democrático.</p>
<p>Só que parece que o pessoal não entendeu nada! Não vou nem falar do princípio legal da presunção de inocência (todo mundo é inocente até prova em contrário). De onde decorre que, a menos que o indivíduo esteja claramente praticando um ato ilícito, qual o problema de estar na praça? Na rua? Na calçada? É porque o cara é feio? Pobre? Desconhecido? Gente, de onde vem esse nosso pânico cada vez mais descontrolado do diferente, do Outro? Tão grande que não dá nem pra deixar o Outro se apresentar, se humanizar, com nome, história, sentimentos parecidos com os seus?</p>
<p>É a diversidade que enriquece a vida, nossas experiências, alarga o pensamento, acrescenta conhecimentos novos, cores, sabores. Que dentro de casa a gente tenha limites, escolha quem entra, tudo bem, tá certo, é o âmbito do privado. Mas na rua? Na praça pública? Uma coisa é a gente lutar, reivindicar, negociar que, como eu já disse antes, implica necessariamente considerar o outro como igualmente capacitado ao diálogo. Outra completamente diferente é se colocar na posição de decidir previamente quem pode e quem não pode frequentar o espaço público. Essa é uma atitude que eu repudio. É formação de gueto.</p>
<p>E você, tem medo de quê?</p>
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		<title>Moldura Maravilhosa</title>
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		<pubDate>Tue, 05 May 2009 01:32:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Num post aí embaixo, sobre lugares que a gente conhece em viagem, a Tati fez um comentário e eu me empolguei na resposta. Daí a Monix botou pilha pra eu transformar essa resposta num post à parte e eu resolvi topar.</p>
<p>Eu disse o seguinte:</p>
<p></p>
<p>&#8220;Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/27/prazeres-de-viagem/" target="_blank">post aí embaixo</a>, sobre lugares que a gente conhece em viagem, a Tati fez um comentário e eu me empolguei na resposta. Daí a Monix botou pilha pra eu transformar essa resposta num post à parte e eu resolvi topar.</p>
<p>Eu disse o seguinte:</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-214" title="att00096" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/att00096.jpg" alt="att00096" width="321" height="480" /></p>
<p>&#8220;<em>Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com a alcunha de “Cidade Maravilhosa” pro Rio de Janeiro. As maiores maravilhas da cidade são de ordem geográfica, natural, é a paisagem de morros e praias, de florestas tão próximas à ocupação urbana. Mas a parte construída em si não é tão espetacular. Há equívocos gigantescos no que diz respeito à preservação de patrimônio histórico, a expansão urbana é mal feita, a arquitetura anda de péssimo gosto, as ruas e praças são mal cuidadas. E é exatamente o que eu gosto em Buenos Aires. A cidade não tem grandes atrativos naturais, mas em compensação, em termos de <strong>cidade</strong> (aqui significando o ambiente construído), é um espetáculo. E tem várias avenidas por lá que eu passo e fico pensando “poxa, o Rio já teve avenidas assim, abertas na mesma época, com os mesmos parâmetros e a mesma arquitetura. Mas descaracterizou de tal forma que não tem mais o mesmo conjunto, a mesma ambiência&#8221;. </em></p>
<p>E hoje, no jornal, eu vi que o Rio está se candidatando a receber o título de Patrimônio da Humanidade por sua paisagem cultural, pela UNESCO. Tudo bem, de fato, a paisagem é uma construção cultural, o Corcovado deixou de ser só um morro há muito tempo, desde antes de colocarem a estátua do Cristo Redentor lá. O que a gente tá chamando de paisagem natural aqui tem o olhar e a intervenção  urbanos, não tem nem o que discutir. Mas o que eu estou questionando é a qualidade do espaço público e da arquitetura que se produz na nossa cidade. As ruas são mal cuidadas, as calçadas são estreitas, esburacadas, as praças são gradeadas com o argumento da segurança, mas o resultado é que ficam ainda mais vazias e abandonadas, o mobiliário urbano (bancos, postes de iluminação, sinalização, telefones públicos, lixeiras) é inadequado e mal distribuído, e deixa muitíssimo a desejar em termos de acessibilidade, por exemplo. Principalmente isso. As benesses urbanas são mal distribuídas. A imagem de CIDADE maravilhosa se limita à zona sul e praias. O subúrbio, a Zona Oeste, o Centro, não fazem parte da &#8220;Cidade&#8221;? Porque do &#8220;Maravilhosa&#8221; parece que não.</p>
<p>Sei lá, precisa acrescentar alguma coisa? Falem, discordem, ponderem, que a conversa anda.</p>
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		<title>Prazeres de viagem</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 17:49:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[espaço público]]></category>
		<category><![CDATA[livrarias]]></category>
		<category><![CDATA[supermercado]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu adoro viajar. Troco facilmente outras oportunidades de gasto por uma passagem pra quase qualquer lugar. Às vezes largo até a sensatez de lado e deixo de poupar um dinheiro quando a chance de botar o pezinho no avião se apresenta. No momento, inclusive, estou devendo uns dinheiros ao meu irmão caçula, que generosamente me ajudou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu adoro viajar. Troco facilmente outras oportunidades de gasto por uma passagem pra quase qualquer lugar. Às vezes largo até a sensatez de lado e deixo de poupar um dinheiro quando a chance de botar o pezinho no avião se apresenta. No momento, inclusive, estou devendo uns dinheiros ao meu irmão caçula, que generosamente me ajudou a financiar uma ida recente a Madri, acompanhando o marido que passou lá uma semana a trabalho (até o fim do ano eu pago de volta, mano, don&#8217;t worry). Eu não ia perder essa, né?</p>
<p>Mas esses dias eu tava pensando sobre essa coisa de viagem. Eu gosto de viajar sobretudo para conhecer lugares diferentes, pessoas, costumes, línguas, comidas, jeitos de viver e habitar. Eu AMO cidades diferentes, observar arquiteturas, ruas, calçadas, jardins, traçados, como as pessoas usam o espaço público, como cuidam do patrimônio artístico e histórico, como elas se locomovem (uma boa rede de transporte coletivo é fundamental), o que fazem nas horas de lazer, como tratam os visitantes, os imigrantes, se há velhinhos, crianças, animais de estimação nos lugares, enfim, eu gosto de respirar a vida cotidiana das cidades e de seus cidadãos, e não só me enfurnar nos pontos turísticos tradicionais. É óbvio que não dá pra ir a Madri e não ver o <a href="http://www.museodelprado.es/bienvenido/" target="_blank">Museu do Prado</a>, ou a Paris e não subir a <a href="http://www.tour-eiffel.fr/teiffel/fr/index.html" target="_blank">Torre Eiffel</a>, da mesma forma que a turistada (estrangeira ou não) que vem ao <a href="http://www.riodejaneiro-turismo.com.br/pt/" target="_blank">Rio</a> pela primeira vez precisa ir ao Pão de Açúcar ou ao Cristo Redentor, mas o que me encanta mesmo é andar solta pelas ruas, sentar em qualquer café e ficar olhando o movimento.</p>
<p>Tem dois tipos de lojas, se eu puder chamar assim, que eu adoro especialmente, e que me dizem muito sobre a cidade. Livrarias e supermercados.</p>
<div id="attachment_190" class="wp-caption alignleft" style="width: 259px"><img class="size-medium wp-image-190" title="supermercado2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/supermercado2-249x300.jpg" alt="Não precisa nem fazer compras, só passear já é uma delícia." width="249" height="300" /><p class="wp-caption-text">Não precisa nem fazer compras, só passear já é uma delícia.</p></div>
<p>Gente, eu não posso visitar uma cidade sem entrar num supermercado. Adoro! Se for em outro país então, nossa! Passear entre as gôndolas, ver a variedade e a quantidade de produtos diferentes, comparar preços. Vocês ficariam fascinados, por exemplo, com a quantidade de leites diferentes que tem na Finlândia. Eles têm (<span style="text-decoration: line-through;">não tem mais esse acento, é? Lamento </span>Update: o acento continua, cortesia da Monix &#8211; o esclarecimento, não a continuidade do acento) muitos problemas com alergias a lactose, e tem uma quantidade gigantesca de combinações de com/sem lactose, com/sem adição de ferro, com/sem/mais ou menos gordura, sabores, a gente fica perdidinho. E em Buenos Aires vende leite (leite comum, sem ser achocolatado ou com qualquer outro sabor) em caixinhas longa vida de 300 ml! E você ainda pode escolher com açúcar, com adoçante ou natural! Eu achei ótimo. Há muitos anos, nós estávamos lá, num passeio de carro, e meus filhos eram ainda muito pequenos, tomavam mamadeira. Eu achei super prático, porque você só abre a caixinha na hora de consumir e dá a quantidade certinha, não precisava ficar levando leite em pó, comprando água no caminho, preparando a gororoba. Nunca entendi por que isso não vende no Brasil. Dá pra ficar aqui fazendo uma lista interminável de frutas, produtos de limpeza, biscoitos e histórias inusitadas sobre preços e embalagens.</p>
<div id="attachment_189" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://www.flickr.com/photos/weisheng/2087133474"><img class="size-medium wp-image-189" title="livraria-holanda" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/livraria-holanda-300x300.jpg" alt="Essa é a Livraria Selexyz, em Maastricht, na Holanda. Eu não conheço (ainda), mas hei de. " width="300" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Essa é a Livraria Selexyz, em Maastricht, na Holanda. Eu não conheço (ainda), mas hei de. </p></div>
<p>Mas eu falei em livrarias também. Caramba, eu posso passar horas me perdendo dentro de uma livraria. E pra mim, livrarias (ou a ausência delas) dizem muito sobre uma cidade. Só de ter mercado para livros ou não já significa tanto. Aqui no Rio eu gosto muito da livraria que tem no Unibanco Arteplex, na Praia de Botafogo. Impossível passar por lá pra um cinema ou um café e não entrar na livraria. Quase sempre acabo saindo com mais um item pra pilha que cresce na minha mesa de cabeceira. Céus, por que a gente compra mais livro do que dá conta de ler? Claro, tem outras, várias, e hoje há a febre dos enormes conglomerados de livrarias, editoras e sebos via internet, mas eu gosto mesmo é de passear, ver as estantes, as lombadas, passar a mão nas capas, folhear, sentir o cheiro do papel, arregalar os olhos com as gravuras, descobrir títulos e autores novos. Em Madri eu fiquei algumas horas numa que tinha uns cinco andares, cada andar era uma seção, um tema diferente. Em Buenos Aires (de novo. É que eu gosto mesmo de lá) tem a <a href="http://www.tematika.com/inicio/index.jsp" target="_blank">Ateneo</a>, que é das coisas mais lindas que eu já vi, funciona onde era o antigo Teatro Gran Splendid, todo restaurado, com a arquitetura interna de teatro mantida (sem os assentos, claro), mas estão lá as galerias, os lustres e pinturas e até o palco, que virou um charmoso café. E &#8211; viva! &#8211; fica numa rua bem movimentada no Centro da cidade (Av. Santa Fe, 1860), e não dentro de um shopping. Tá, também dá pra fazer uma lista gigante de exemplos deliciosos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Mas vou deixar a lista por conta de vocês. O que vocês gostam de ver quando viajam?</p>
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