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	<title>Urbanamente &#187; favela</title>
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		<title>Você quer MESMO que a polícia seja honesta?</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Feb 2011 00:25:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está aqui, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Enquanto eu estou aqui terminando de colocar fotos e links no post sobre São Paulo, que deve ir ao ar amanhã, deixo vocês com um texto que eu li no final do ano passado, quando estava escrevendo o projeto de tese. O texto original está <a href="http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/luiz-eduardo-soares-a-crise-no-rio-e-o-pastiche-midiatico.html" target="_blank">aqui</a>, mas eu vou tomar a liberdade de copiar e colar, porque sei que muita gente tem preguiça de clicar em link <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><a href="http://g1.globo.com/Eleicoes2008/0,,MUL784487-15693,00-MILITARES+REMOVEM+BARRICADAS+DO+TRAFICO+NO+ALEMAO+E+VILA+CRUZEIRO.html"><img class="alignleft size-medium wp-image-953" title="VilaCruzeiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro1-300x187.jpg" alt="" width="300" height="187" /></a>Antes, deixa eu dizer. Eu fiquei um bocado impressionada quando a polícia tomou a Vila Cruzeiro e o Morro do Alemão em novembro. Não pela ação em si, mas por um conjunto de fatores. Primeiro que, coincidentemente, eu estou propondo estudar estratégias de planejamento e de projeto urbano exatamente naquela área do subúrbio da Leopoldina, pegando os bairros de Bonsucesso, Olaria, Ramos e Penha, e estava ali, aos 45 do segundo tempo, escrevendo o projeto, quando o conflito todo se armou, colocando aquela área sob intenso holofote. Mas principalmente porque, independente de apoiar a presença do Estado nas comunidades mais pobres (e Estado é MUITO MAIS que segurança e policiamento), achei a cobertura toda muito &#8220;espetaculosa&#8221;, muito teatral, como que jogando uma cortina de fumaça sobre questões mais profundas, mas estruturais e mais incômodas, que precisam ser debatidas com urgência. Eu só não sei (?) se há interesse nisso.</p>
<p>Aí, uns dias depois, li este artigo e achei que tem bastante coisa boa aí para ser pensada e conversada. Acho que partilhei com alguns amigos na época, mas não pus aqui e acho que é o caso de retomar a discussão. Neste momento, estamos de novo, pela <em>enésima</em> vez, com o tema da corrupção policial e da &#8220;banda podre&#8221; nas manchetes dos jornais aqui no Rio, e o artigo fala disso também, e bem. Eu podia fazer um blog inteirinho só sobre esse assunto, com postagens diárias por muitos anos &#8211; política de segurança, polícia, tráfico, violência &#8211; e não chegaria perto de esgotá-lo. Mas não posso deixar de frisar duas coisas:</p>
<p><a href="http://www.guiame.com.br/v4/79646-1696-Cantora-gospel-se-voluntaria-em-quot-Ocupa-o-Cultural-quot-da-Vila-Cruzeiro.html"><img class="alignright size-full wp-image-954" title="VilaCruzeiro3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro3.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a>1) Como eu disse lá no <a href="http://primeirafonte.blogspot.com/2011/01/correspondencia-urbana.html" target="_blank">Primeira Fonte</a>, eu sonho com uma cidade em que a segurança é corolário de um estado de justiça social, e não locomotiva da ação do Estado. Todo mundo diz isso, mas é difícil colocar na prática: não basta tirar os traficantes e instalar delegacias, quartéis, UPPs. Tem que ter escola, creche, posto de saúde, saneamento, luz, água, telefone, transporte, lazer, comércio, praças. Tem que ter oportunidade real de melhoria de vida, emprego, casa digna, ser tratado com respeito. A segurança vem a reboque. Eu sei que em situações extremas, é preciso cuidar prioritariamente de desfazer a rede da bandidagem, mas se o resto não vier em seguida, não adianta de nada. Daqui a pouco está tudo como antes. Só vigilância, blitz e ações assistenciais não dão conta.</p>
<p>2) Sobre o título do post. Eu li o que eu vou falar agora em algum lugar, mas não guardei e por isso não encontrei a fonte para colocar aqui. Mas a grande questão é que quando a gente vê um monte de vozes se levantando para criticar a corrupção policial, principalmente vozes da &#8220;boa sociedade&#8221;, da nossa ilibada classe média (da qual sou parte, não me esquivo), a gente deve se perguntar com sinceridade: nós queremos MESMO uma polícia honesta, que não corrompa e não seja corrompida? Porque não tem mais ou menos nisso.</p>
<p><a href="http://www.omelhordaweb.com.br/piadas/pagina_imagens.php?cdImagem=40"><img class="alignleft size-medium wp-image-956" title="propina" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/propina1-300x254.jpg" alt="" width="300" height="254" /></a></p>
<p>Não dá pra ser duro e inflexível na favela, e aliviar a barra do cidadão bacana que foi pego com documento vencido, aceitar uma cerveja pra não multar a criatura que estacionou em fila dupla pra deixar o filho na escola (ô, seu guarda, libera aí, é rapidinho!), trocar a multa por excesso de velocidade por 50 pratas e uma advertência faz-de-conta. Nós tentamos driblar a lei todos os dias, mas só com delitos insignificantes. Afinal, nós somos pessoas de bem, pagamos nossos impostos, tem coisa muito mais grave para a polícia se preocupar por aí, em vez de perder tempo com essas mixarias. Todos os dias os jornais têm alguma notícia sobre pais que vão à delegacia liberar seus filhos que atropelaram alguém porque estavam dirigindo bêbados, ou que foram pegos com drogas numa festa ou brigando numa boate, ou espancando uma prostituta ou um gay. Mas afinal, eles são jovens, estudam, são bons meninos, estavam só brincando, quem é que nunca fez suas artes por aí, não justifica tanto rigor, enquanto os bandidos de verdade estão soltos. Uma cesta básica e estamos conversados.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-959" title="VilaCruzeiro2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/VilaCruzeiro21-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></a>Estamos dispostos a ter uma polícia realmente comprometida com o cumprimento da lei, igualmente, para todos? Que não vai aliviar nossos insignificantes delitos de cidadãos de bem? Ou continuamos preferindo nos enganar de que é possível (e desejável) ter uma polícia que sabe &#8220;distinguir as coisas&#8221; e quebra o nosso galho mas não amolece com vagabundo? Porque, pra mim, é tudo uma coisa só. O problema é sistêmico, estrutural. Leiam o Luiz Eduardo Soares que é melhor:</p>
<p><strong>LUIZ EDUARDO SOARES: A CRISE NO RIO E O PASTICHE MIDIÁTICO</strong><br />
quinta-feira, 25 de novembro de 2010</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –- supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu–, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –- ou sob tanta pressão — quanto os jornalistas.</p>
<p>Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } -->(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.</p>
<p>(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –- em uma palavra, banido –, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?</p>
<p>(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são: (a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência? (b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas? (c) Por que o governo não chama o Exército? (d) A imagem internacional do Rio foi maculada? (e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</p>
<p>Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas –- nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes.</p>
<p>Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.</p>
<p>Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?</strong></p>
<p>Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia.  Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?</p>
<p>Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.</p>
<p>A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.</p>
<p>A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.</p>
<p><strong>(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?</strong></p>
<p>Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.</p>
<p>Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –- isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia — teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.</p>
<p>Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.</p>
<p>Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –- mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente.</p>
<p>O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.</p>
<p>É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.</p>
<p><strong>(c) O Exército deveria participar?</strong></p>
<p>Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.</p>
<p>E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.</p>
<p><strong>(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?</strong></p>
<p>Claro. Mais uma vez.</p>
<p><strong>(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?</strong></p>
<p>Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.</p>
<p><!-- p { margin-bottom: 0.08in; } --><strong>Palavras Finais</strong></p>
<p>Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente.</p>
<p>As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo.</p>
<p>A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social –um dos melhores gestores do país–, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.</p>
<p>O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar.</p>
<p>Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios –- as bandas podres das polícias — prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.</p>
<p>Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?</p>
<p>As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça.</p>
<p>A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania.</p>
<p>A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.</p>
<p>E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.</p>
<p>Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino “gato orçamentário”, esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada.</p>
<p>Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.</p>
<p>O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.</p>
<p>Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.</p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 2: Tear down the wall!*</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/21/another-brick-in-the-wall-parte-2-tear-down-the-wall/</link>
		<comments>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/21/another-brick-in-the-wall-parte-2-tear-down-the-wall/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 21 Apr 2009 03:22:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[favela]]></category>
		<category><![CDATA[muros]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>(Essa vida de mãe e dona de casa atrapalha a minha assiduidade internética, ai, ai)</p>
<p></p>
<p>Eu tenho um monte de pontas soltas, de fiapos de pensamento que tenho tentado, em vão, costurar num texto contínuo e que faça sentido. Talvez tenha que desdobrar o assunto em mais posts, vamos ver. Por enquanto, seguem algumas notas, com temas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Essa vida de mãe e dona de casa atrapalha a minha assiduidade internética, ai, ai)</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-175" title="tornwall" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/tornwall.jpg" alt="tornwall" width="500" height="400" /></p>
<p>Eu tenho um monte de pontas soltas, de fiapos de pensamento que tenho tentado, em vão, costurar num texto contínuo e que faça sentido. Talvez tenha que desdobrar o assunto em mais posts, vamos ver. Por enquanto, seguem algumas notas, com temas em construção:</p>
<p>1 &#8211; A primeira coisa é que nós falamos da favela como se ela fosse um objeto inerte do qual podemos dispor à vontade, como um sofá velho que atrapalha a reforma da sala. Muita gente boa, ao falar da favela – remove favela, não remove favela, urbaniza favela – raramente tem em mente que está lidando com as vidas, os cotidianos, a rede de relações familiares, econômicas, sociais, de milhares de pessoas. Gente que tem trabalho, e uma rotina de horários e trajetos, que investiu o dinheiro na construção ou melhoria de suas casas, ainda que ela seja um barraco de dois cômodos e uma laje, que tem filhos matriculados na escola ou na creche, que tem conta anotada no caderninho da venda. Como é que a gente dispõe da vida dessas pessoas assim, sem perguntar o que elas acham? Os moradores das favelas do Rio de Janeiro, hoje, precisam ser considerados como atores legítimos, com direito a voz e participação em qualquer decisão que envolva o destino de suas comunidades.</p>
<p>2 &#8211; Ninguém cogita remover um condomínio de classe média, mesmo que ele seja uma ameaça ambiental. E olha que na Barra da Tijuca, aqui no Rio, só pra dar um exemplo, tem um monte deles que causa danos seríssimos ao complexo lagunar da Baixada de Jacarepaguá. O despejo de esgoto <em>in natura</em> desses condomínios e shoppings é grandemente responsável pelo assoreamento e consequente diminuição da superfície das lagoas, com a morte de inúmeras espécies vegetais e animais do ecossistema de restingas, outrora rico e exuberante nessa região. Por que a diferença de pesos e medidas?</p>
<p>3 &#8211; Será porque o pessoal que mora nesses condomínios paga seus impostos? As <strong><a href="http://duasfridas.wordpress.com/2009/03/31/condominio-brasil/" target="_blank">Fridas</a> </strong> já falaram, e muito bem: IPTU não é taxa condominial, pra começar a conversa. Pagar um IPTU mais alto não lhe dá mais direito do que aos outros de usufruir de serviços prestados pelo Estado (caso ele os prestasse, mas enfim). <strong>Todos</strong> temos direito a uma vida digna e a uma cidade habitável.</p>
<p>4 &#8211; Eu temo a naturalização do discurso sobre cercar as favelas. Tudo bem que a proposta em questão atualmente é construir muros no limite da favela com a mata (e com que presteza os jornais e revistas se adiantam em apresentar matérias que garantam que é <strong>só</strong> isso mesmo). Mas todas as referências a ela falam do projeto de “cercar as favelas”. Cercar é enclausurar, rodear de cercas, muros, barreiras. E eu acho que não é sem malícia que fica por isso mesmo. A gente vai repetindo “cercar as favelas”, “cercar as favelas”, até que a idéia não parece mais tão estranha assim, não deve ser tão ruim. Já vi até gente comparando com os condomínios que também são cercados e os moradores não reclamam, até gostam. Me poupem. Já seria ruim o bastante se os moradores das favelas resolvessem murar tudo para controlar o acesso do “pessoal do asfalto”, assim, voluntariamente. Mas não me consta que essa seja a idéia que mais circula por aí.</p>
<p>Não se trata de baixar dogmas sobre o que pode ou o que não pode, não se trata de considerar a favela como intocável, não se trata de acobertar invasões ou crescimento ilegal e sim buscar uma solução em conjunto, negociar. Todos temos a ganhar e/ou a perder. Todos.</p>
<p>Soluções para o problema habitacional passam por uma série intrincada de questões que vão desde a construção de unidades residenciais, melhoria das condições de saneamento, oferta de serviços de qualidade (ninguém quer morar longe e não ter transporte ou apanhar dos caras da Supervia pra andar num trem lotado além da capacidade) até a discussão ampla sobre temas espinhosos como controle de natalidade, sem falar na corrupção que sangra os recursos eventualmente alocados para estes projetos.</p>
<p>5 – A Marjorie escreveu um <a href="http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/04/03/pensamentos-soltos/" target="_blank"><strong>post</strong></a> no início do mês que ficou ecoando na minha cabeça. Ela estava tratando de outro assunto (outro ma non troppo), a mania de tornar estanques e não-misturáveis os grupos políticos de esquerda e de direita. E levantou essa questão de considerar o diferente como Outro, assim mesmo, com maiúsculas. Quando a gente trata o outro como Outro, alvo do nosso medo, da nossa desconfiança, e não raro, do nosso desprezo, a tendência é tirar desse Outro qualquer legitimidade para o diálogo. A gente trata imediatamente de generalizar esse Outro numa espécie distinta de nós, a gente se distancia dele, reforça toda a diferença que possamos ter em relação a ele, objetifica esse Outro, às vezes chegamos a desumanizá-lo, primeiro passo para justificar e naturalizar toda a violência.</p>
<p>Não é mais ou menos isso que fazemos com os diferentes de nós, na cidade? Com os favelados (assim mesmo, numa referência geral que permite que pensemos “os favelados” como uma categoria de análise em bloco)? Não é essa a base para toda xenofobia, discriminação, segregação? É preciso encontrar alguma coisa em comum com o Outro para que valha a pena o esforço do diálogo com ele. Nossa humanidade não seria suficiente? Parece que não mais. Voltamos ao que foi dito antes: para evitar esse diálogo, é preciso naturalizar o discurso que objetifica e desumaniza o Outro, até que a gente nem se dê mais conta disso.</p>
<p>E eu ainda nem falei do Bauman. Tá prometido pro próximo post.</p>
<p>* Referências explícitas à fantástica obra The Wall, do Pink Floyd.</p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 1</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/16/another-brick-in-the-wall-parte-1/</link>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 15:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha lido), a medida tem o menor cabimento.</p>
<p>Resolvi primeiro apresentar alguns argumentos e textos que já foram divulgados por aí.</p>
<p>Todo mundo sabe qual é exatamente o objetivo oficial do governo do Estado? Construir muros (concreto, 3 metros de altura) nos limites de algumas favelas do Rio (5 favelas no total, todas na Zona Sul) com as áreas florestadas, visando impedir o crescimento da favela sobre essas áreas, preservando assim o remanescente de Mata Atlântica.</p>
<p>Bom, o <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/posts/2009/04/04/minha-opiniao-174716.asp" target="_blank">Sérgio Besserman</a>, que é economista e escreve um <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/" target="_blank">blog</a> no Jornal O Globo, é bem pragmático. <span style="color: #000000;"><span>Ele acha que é possível e até desejável algum tipo de contenção das favelas para impedir o seu avanço sobre as áreas verdes, mas discorda tecnicamente desta solução específica, que não só não resolve como traz problemas novos e complicados. Olha a questão do ponto de vista do que representa o espaço verde (e a “alma democrática” do Rio de Janeiro, hummmm&#8230;.) enquanto ativo econômico e social. Para ele, o argumento de que o muro estanca a expansão horizontal das favelas é falho, primeiro porque não estanca nada (parece consenso que o muro não vai cumprir sua missão expressa), e ele ainda diz que se a prefeitura garante que vai fiscalizar o muro, então pra que muro? E em segundo lugar porque, citando <a href="http://http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/" target="_blank">dados</a> do </span></span><a href="http://www.rio.rj.gov.br/ipp/" target="_blank">IPP</a> (Instituto Pereira Passos, órgão ligado à Secretaria de Urbanismo do município) e da <span style="color: #000000;"><span><a href="http://www.firjan.org.br/" target="_blank">FIRJAN</a> (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), ele defende que o principal crescimento a ser evitado é o crescimento vertical. Segundo esses órgãos, e a análise das fotos aéreas da cidade, as favelas que mais crescem horizontalmente são as da zona oeste, e para estas não há nenhum plano de muros, por outros motivos políticos que Besserman até menciona. Para ele – e aí entra um ponto interessante – </span></span><span style="color: #000000;"><em><span>“O VERDADEIRO PROBLEMA é o controle territorial por parte da bandidagem, e a perda, pelo Estado, do monopólio do uso da força nesses territórios”. </span></em></span><span style="color: #000000;"><span style="font-style: normal;"><span>Não sei se concordo com isso. Quer dizer, claro que o Estado paralelo instaurado pela criminalidade precisa ser combatido, mas o Estado deve se fazer presente não apenas pela força da lei, pelo policiamento, e sim, <strong>antes e muito mais importante,</strong> pela garantia de acesso, para estas populações, aos serviços a que elas fazem jus pelo simples fato de serem cidadãos: educação, saúde, higiene, trabalho, moradia. Se não, você fica achando que pelo fato da polícia estar ocupando ostensivamente o Morro Dona Marta, todos os problemas do morro foram resolvidos. No máximo, foram resolvidos os problemas dos moradores de Botafogo, próximos ao morro, que acham que agora não terão mais os carros roubados, nem tiroteios nas janelas. Se os moradores do morro continuam com o esgoto correndo na porta, isso não é problema meu, certo? Mas eu não estou dizendo que não era pra polícia ocupar, antes que venham me dizer isso. Só estou dizendo que isso não basta. Tá longe de bastar. E o que eu vejo é o pessoal achando que se a segurança (de quem?) estiver resolvida (até quando?) então tudo bem.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Tem o <a href="http://http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, de quem eu já falei aqui. Ele levanta a questão da sustentabilidade ambiental x sustentabilidade social, lembrando que elas não existem uma sem a outra. Para um debate acerca do conceito de sustentabilidade, eu convido vocês a lerem a caixa de comentários dele, e a gente pode voltar a falar disso também (Alline, meu bem, cadê você?). Ainda na esteira do Fernando, eu acrescento que além do muro ser uma medida sem a menor eficiência (não quero acusar de antemão, mas eu duvido que ele não seja demolido em alguns trechos ou escalado), e portanto gasto inútil de dinheiro, ele é recibo passado e assinado pelo Estado da falta de capacidade de fiscalizar, coibir práticas ilegais e até mesmo do descaso com que trata a questão da expansão das favelas.</p>
<p>Tem também a história da preservação das áreas verdes: preservação do que quer que seja só faz sentido com uso. Isolada, qualquer área, seja verde, seja urbana, ou mesmo um prédio, não só não será preservado como virará alvo de cobiça e acabará ocupado ilegalmente. Um dos pontos do texto do Fernando de que mais gostei foi quando ele diz que o muro <em>“materializa o preconceito, a desigualdade e o desinteresse numa solução melhor e mais permanente para o problema”. </em>Claro, porque com o muro construído, o resto da população acha que tudo bem, já fez a sua parte, resolveu o problema, e se o muro for quebrado a culpa é “deste bando de favelado”.</p>
<p>A Cláudia, nos comentários, lembrou do texto do sociólogo <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_post=177524&amp;cx=0" target="_blank">Roberto da Matta</a>, também publicado n&#8217;O Globo. Ele toca na questão do discurso ambiental como máscara para a segregação. Diante do ideário politicamente correto, que impede ou dificulta a defesa pura e simples do emuralhamento da favela, a proposta vem então embalada na questão ecológica, que muda os termos do problema, deslocando-o do seu aspecto principal que é a desigualdade social, a produção e reprodução contínua da pobreza na nossa sociedade, para a defesa da Natureza. Gosto quando ele diz que &#8220;<em>a proteção da Natureza racionaliza a solução definitiva inapelável (e portanto ditatorial) para a pobreza em massa que envergonha (e ameaça) os que residem ao seu redor. Quando descobrirmos mais invasões, a culpa terá sido do muro, não nossa.&#8221;</em></p>
<p>Em artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/04, e <a href="http://www.cidadeinteira.blogspot.com" target="_blank"><strong>aqui</strong></a> reproduzido, o arquiteto Sérgio Magalhães, professor na FAU/UFRJ e ex-Secretário de Habitação do Rio, toca em questões realmente relevantes, como a estigmatização da favela como “lugar que dá causa à violência”. Sem favelas, a cidade seria pacífica? A matriz da violência é a morfologia urbana? Ele não acredita nisso, nem eu. Ele aponta a escassez de democracia (aí entendida como o acesso universal aos serviços públicos e à proteção do Estado) como cerne da questão, e está certo.</p>
<p>Até o <a href="http://caderno.josesaramago.org/page/11/" target="_blank">Saramago</a> já se manifestou contra o muro.</p>
<p>Na parte 2 eu quero continuar o assunto, tocando em outros aspectos, não expressa e ostensivamente ligados à proposta dos muros para as favelas do Rio, mas que englobam as idéias por trás dessa proposta. Para isso, recorrerei a um autor que eu tenho lido muito ultimamente, e que expressa bem muita coisa que sempre pensei e nunca consegui dizer com tamanha autoridade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.</p>
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		<title>Mania de cercadinho</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Apr 2009 02:54:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Isso aqui é uma provocação inicial, um teaser, vamos dizer assim.</p>
<p>Eu tenho pensado um bocado sobre esse assunto dos muros de contenção das favelas, no Rio. Tem tantos aspectos que podem ser debatidos, que isso merece um post mais demoradinho, um pouco de pesquisa e leitura, e é isso que eu estou fazendo.</p>
<p>Enquanto isso, vou levantar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Isso aqui é uma provocação inicial, um <em>teaser</em>, vamos dizer assim.</p>
<p>Eu tenho pensado um bocado sobre esse assunto dos muros de contenção das favelas, no Rio. Tem tantos aspectos que podem ser debatidos, que isso merece um post mais demoradinho, um pouco de pesquisa e leitura, e é isso que eu estou fazendo.</p>
<p>Enquanto isso, vou levantar só uma lebre, que me incomoda profundamente, e que é um fenômeno que por si só, precisa ser pensado e questionado, e não dado como normal e/ou inevitável: a proliferação de &#8220;cercadinhos&#8221; na nossa vida urbana. Não só no Rio de Janeiro, não. Como tendência geral. Tendência à fragmentação, a criar grupos estanques de pessoas, de coisas. Tendência a reforçar a cisão entre grupos sociais distintos, a criar barreiras, a excluir. Seja com o intuito de enfatizar a exclusividade e o privilégio, como os currais vip dos shows, seja disfarçando com o argumento da  preservação ambiental, como é o caso da atual discussão envolvendo as favelas do Rio, seja escancaradamente alegando medida de segurança, como os muros de Gaza, o <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/04/090410_muro_argentina_rc.shtml" target="_blank">muro polêmico e recente entre duas cidades argentinas</a>, os muros da fronteira dos Estados Unidos e do México, e outros que, se ainda não existem, são cada vez mais abertamente defendidos por tanta gente.</p>
<p>Em todos esses casos, eu acredito que, pra começar, há duas coisas em jogo. Uma é a falência cada vez mais evidente da nossa disposição e capacidade para negociar, porque negociar significa em primeiro lugar que você considera o seu interlocutor como igual, como alguém que tem tanto direito a voz quanto você, e por isso, negociar implica em ceder de vez em quando, e nós toleramos cada vez menos perder espaço ou ceder o que quer que seja. Voltarei a esse ponto. A outra coisa é que eu suspeito muito de todo papo que começa a ficar hegemônico a ponto de virar cortina de fumaça. É o que acontece com o tema da segurança, hoje. Independente dos reais riscos que a cidade do Rio (e tantas outras) oferece, das estatísticas da violência, existe um discurso sobre segurança que é preconceituoso, excludente, e encobre as verdadeiras questões e problemas que afligem nossas cidades.</p>
<p>Eu quero desenvolver um tiquinho mais essas idéias. Enquanto isso, convido vocês a darem uma espiada no que o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/2009/04/o-muro-do-rio-rios-wall.html" target="_blank">Fernando Lara</a> escreveu a respeito. Leiam os comentários, que é onde o debate esquenta. Pensem a respeito, deixa eu tomar aqui um fôlego, e vamos conversar sobre o assunto.</p>
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