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	<title>Urbanamente &#187; Geografia</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Muçulmanos, islâmicos, e outras provocações</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</p>
<p>Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que está indo ao ar agora.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como diz a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank">Fal</a>, pra isso Deus inventou o blog, pra gente falar o que bem entende, então tou com uma vontade irresistível de abordar mais a fundo esse tema dos muçulmanos. Claro, vou encaminhar o assunto mais para o lado da arte, arquitetura, urbanismo, contribuições científicas, história. Não estou com disposição, nem tenho conhecimento aprofundado pra isso, de entrar na seara da política internacional contemporânea, muito menos da teologia, mas o objetivo é dar uma beliscada também nisso, ainda que indiretamente.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Na verdade, desde muito nova, a região do Oriente Médio e a cultura muçulmana me despertam enorme curiosidade, não sei explicar por quê. Sempre foi um paradoxo para mim que a cultura rica, avançada e tolerante que eu conhecia através das histórias das Mil e Uma Noites e de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar_de_Melo_e_Sousa" target="_blank">Malba Tahan</a> (que muito mais tarde eu vim a descobrir que era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Melo e Souza, escritor e matemático, que ainda por cima era o pai do meu primeiro professor de projeto na faculdade de Arquitetura – e vocês não podem imaginar a emoção do velhinho quando eu reconheci o sobrenome dele e elogiei o papel da literatura do pai dele na divulgação da matemática e de uma visão mais positiva da religião islâmica)&#8230; O problema de fazer orações muito longas é que a gente começa e depois se perde. Eu dizia que achava um paradoxo que essa mesma cultura estivesse associada, através dos noticiários, desde que eu me entendo por gente (e hoje eu sei que desde muito antes disso) a tantas guerras e disputas sangrentas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span></p>
<div id="attachment_797" class="wp-caption aligncenter" style="width: 774px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg"><img class="size-full wp-image-797" title="islam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg" alt="" width="764" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fontes das imagens, em ordem: http://www.grupoescolar.com/a/b/7AC53.jpg; http://conexaooriente.wordpress.com/2007/09/10/as-mil-e-uma-noites/; http://independenciasulamericana.com.br/2009/01/falcoes-impoem-guerra-a-obama/</p></div>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como eu expliquei no post anterior, eu tinha dado aula sobre as cidades muçulmanas e me dei conta do universo que o tema abria em termos de discussão de preconceitos, de história, de recuperação de dados e episódios que podem nos ajudar a ter um entendimento mais amplo e livre sobre o assunto. Assim, idealizei esta série, composta por alguns capítulos fartamente ilustrados e que já estão quase todos prontos, de maneira que eu não devo ter intervalos tão longos entre uma postagem e outra.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje farei <strong>provocações iniciais</strong> e pretendo esclarecer alguns conceitos no campo da semântica mesmo, e da antropologia, que é pra gente combinar a que está se referindo quando disser uma coisa ou outra.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Depois, teremos uma breve história da <strong>Arábia pré-islâmica</strong> e a importância do <strong>surgimento de Maomé</strong> naquele tempo e espaço específicos, o que ajuda a explicar a rápida disseminação de sua doutrina.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">No capítulo seguinte,  daremos uma olhada no período de <strong>expansão territoria</strong>l e o surgimento das  primeiras <strong>dissenções</strong> (a gente escuta tanto falar em xiitas e sunitas:  quem são eles, quando se dividiram, quais as suas principais  diferenças?).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A seguir, veremos as <strong>contribuições dos muçulmanos no campo da ciência e cultura</strong> (especialmente a literatura e a nossa  herança linguística via portugueses-espanhóis).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Aí entraremos no capítulo  específico de <strong>Artes e Arquitetura</strong>. Falaremos dos arcos em ferradura, das mesquitas,  dos minaretes, ds mosaicos belíssimos, dos palácios e do Taj Mahal, um  dos monumentos funerários mais conhecidos do mundo.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">E como fechamento, uma  <strong>análise das cidades e dos traçados urbanos</strong>, buscando explicar a forma  tão característica das cidades muçulmanas à luz da cultura e de uma  sabedoria interessante em termos de conforto ambiental. E  reconheceremos, mais uma vez via colonização portuguesa, alguns  elementos e desenhos tão comuns nas nossas cidades coloniais, aqui no Brasil.<br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O objetivo geral será provocar uma reflexão sobre a diversidade de um mundo que tendemos a generalizar de forma muito reducionista, e enxergar esse que é o &#8220;Outro&#8221; por excelência no nosso mundo ocidental menos sob o enfoque de certo/errado, civilizado/bárbaro, moderno/conservador, e mais do ponto de vista da diferença mesmo, e de como, no meio dessa diferença, temos tantas coisas e humanidades em comum. O que vocês acham? Vou indicar livros, fontes diversas e principalmente muitos filmes (para os quais aceito sugestões).</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Diversidade</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A verdade é que, pra nós, esse é um pessoal muito esquisito mesmo. E a gente tende a olhar com desconfiança, quando não com medo e hostilidade pra tudo o que é muito diferente de nós. Se é tão diferente, não pode ser bom. Ou certo. Porém, especialmente a partir dos ataques às torres gêmeas de Nova York, em 2001, a gente tende a associar rapidamente muçulmano com Oriente Médio, terrorista, mulher de burca, guerra, intolerância, pouca participação política. E não é por acaso. Mas eu falo disso daqui a pouco.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O que eu quero afirmar é que o mundo muçulmano é extenso, rico e diverso, e qualquer generalização é empobrecedora da visão que se pretende ter. Pra nós, eles podem ser gente esquisita. Mas vamos relativizar: nós somos esquisitos pra eles também. Olhar para culturas diferentes requer um exercício de empatia, um esforço de – nem que seja por uma fugaz fração de tempo, conseguir se colocar no lugar do outro, e tentar ver o mundo como ele o vê.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje, o Islamismo é a religião em mais rápida expansão no mundo, com 1.3 bilhões de fiéis, cerca de 20% da humanidade (é a maior religião do mundo, considerada individualmente. O Cristianismo tem mais fiéis, mas que estão divididos em variadas denominações e igrejas: católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais etc). Ou seja, não temos saída a não ser repensar a convivência com este “Outro”.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Esta imensa população muçulmana habita um vasto arco no planeta, que vai da África Ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e a Índia. Algumas vezes, são maioria da população local, outras vezes são importantes minorias. As migrações intensas que caracterizam nosso mundo contemporâneo já formam  enclaves consideráveis de grupos muçulmanos em diversos países da Europa e das Américas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-800" title="Image-001" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg" alt="" width="750" height="535" /></a><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Este mundo é diverso quanto às histórias, etnias, línguas, tradições sociais, maneiras de ver e conviver com o mundo, com o meio ambiente e com os vizinhos. Como traço comum, eles têm o Islã, a religião. Mas mesmo aí há contrastes: nas formas rituais e sociais, e até no núcleo de crenças e maneiras de aplicá-las à sociedade. Nem tem como ser diferente. O Islã surgiu há mais de 1400 anos e se espalhou, como acabamos de ver, por três continentes, onde teve contato com sociedades variadas, algumas milenares, e encontrou em cada lugar condições diferentes entre si, que geraram mesclas diferentes.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma questão de terminologia</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A primeira coisa, portanto, é tentarmos tecer alguns esclarecimentos semânticos, para desfazer confusões terminológicas.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Pra começar, <strong>árabe</strong>: termo que se refere a uma etnia, oriunda da península arábica (olha o mapinha aí embaixo, com a divisão político-territorial de hoje). E como já vimos, há muçulmanos de outros outros povos, malaios, africanos, iranianos (de origem persa), turcos, hindus. E mesmo entre os árabes, há os que professam outras religiões, ainda que sejam minorias. Portanto, <strong>muçulmano não é sinônimo de árabe</strong>. Nem de palestino, que por sinal também não é árabe.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg"><img class="size-full wp-image-801" title="arabian_peninsula_map" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg" alt="" width="441" height="371" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog/2009/07/iemen/</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Oriente Médio:</strong> diz  respeito a uma região geográfica em particular, maior que a Península  Arábica, e que é apenas uma fração do território hoje ocupado pelos  muçulmanos (numericamente falando, menos de 30% de todos os muçulmanos  do planeta estão ali). Além disso, há no Oriente Médio importantes  nações muçulmanas de povos não-árabes, como turcos e curdos, e mesmo  nações não-muçulmanas (ou pelo menos não majoritariamente muçulmanas),  como Israel. Além de grupos e populações de outras religiões em várias  dessas nações (cristãos e ortodoxos no Líbano, na Síria, em Israel etc).  Aliás, a própria designação daquela região geográfica como Oriente  Médio é discutível. O termo é evidentemente eurocentrista, de origem  inglesa, e data do século XIX, quando o império britânico controlava um  quarto da Terra. Também não podemos esquecer que historicamente o  Oriente Médio se encontra na encruzilhada de múltiplas influências  culturais e foi, durante séculos, o ponto de comunicação, tanto por mar  quanto por terra, entre a Europa e as civilizações orientais (Índia,  China e sudeste asiático). Se a gente ainda pensa que após séculos de  supremacia islâmica as potências européias ocuparam e retalharam a  região a partir do século XIX, segundo seus interesses e em prejuízo da  população local, o que é (mais uma) fonte de grande humilhação e  ressentimento desses povos em relação ao mundo e aos valores ocidentais,  e pra culminar grande parte do petróleo do mundo está ali, começamos a  entender a importância estratégica dessa região e a cobiça de tantas  nações pelo controle desse território.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_802" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg"><img class="size-full wp-image-802" title="ori_medio_mapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg" alt="" width="515" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/conflito_israel_x_palestina</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Muçulmano:</strong> termo  que se refere a um fenômeno sociológico, cultural, e que tem uma  abrangência muito maior, envolvendo muitos aspectos para além do  fenômeno religioso.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Islâmico:</strong> termo que  diz respeito especificamente à religião. Por isso a minha preferência  em me referir às cidades como sendo muçulmanas, e não necessariamente  islâmicas. Vou dar exemplos: Teerã, capital do Irã, pode ser considerada  uma cidade islâmica. Mas Istambul, capital da Turquia, ainda que de  maioria muçulmana, não é islâmica. O estado turco é laico, e o arcabouço  jurídico-institucional que rege a vida dos cidadãos de Istambul não se  baseia na <em>shariah</em> (a lei islâmica, interpretada pelos  religiosos), mas em leis laicas. <strong>UPDATE ANTES TARDE DO QUE MAIS TARDE:  A capital da Turquia é Ankara e não Istambul, embora esta cidade (a antiga Constantinopla e, antes disso, Bizâncio) ainda seja uma das mais &#8211; senão A mais &#8211; conhecida e importante do território turco. </strong><br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A sobreposição dessas definições tem origem num raciocínio simplista: os árabes moram no Oriente Médio e são majoritariamente muçulmanos. Daí para serem majoritariamente fundamentalistas e terroristas não custa muito. Eu tenho cá pra mim que há um certo interesse ideológico, hoje mais que nunca, em que essa confusão permaneça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">De fato, originalmente, os termos árabe e muçulmano coincidiam, quando a religião nasceu ali, em Meca, e se expandiu primeiramente pela Península Arábica, onde rapidamente converteu quase todos os habitantes. Depois, a expansão do Islã levou à conquista do Oriente Médio (sempre vale repetir: maior e mais amplo do que os países árabes), que adotou em grande escala a língua arábica e a fé islâmica. E num terceiro momento alcançou outras partes do planeta, de forma que – eu volto a frisar – o mundo muçulmano hoje é muito mais amplo e diverso do que o mundo árabe ou mesmo do que o Oriente Médio. Claro que aquela região tem um peso ideológico grande, afinal, foi ali que nasceu Maomé, e o árabe é a língua sagrada do Alcorão. Ainda que nem todos os muçulmanos falem necessariamente árabe, diga-se de passagem.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Por outro lado, islamismo e islamista têm sido termos utilizados para se referir ao movimento religioso radical do Islã político, o tal do fundamentalismo. Portanto, é confuso e incorreto falar em islamismo como sinônimo de Islã, como acontece às vezes em português. A teoria política do Islã prescreve a unidade de todos os fiéis numa única comunidade (<em>ummah</em>), pressupondo uma unidade política, que chegou a existir nos primeiros dois séculos, mas rapidamente se desfez. A própria diversidade de experiências sociais, políticas e culturais encontradas nas vastas terras conquistadas fez com que o mundo muçulmano tenha sempre sido e continue sendo muito dividido. Como a religião ocupa uma parte muito central e essencial na cultura muçulmana, as divergências internas comportam debates sobre o papel das leis religiosas (<em>shariah</em>) na vida pública e privada, comportam leituras fundamentalistas dos textos sagrados que municiam ideologicamente grupos terroristas, e comportam o pensamento de grupos menos conhecidos (e eu sempre me pergunto: a quem interessa que esses grupos sejam menos conhecidos por nós?) do Marrocos à Malásia, que, com base na mesma religião, lutam pela democracia e pelo diálogo pacífico com outras civilizações. E por fim, eu pergunto: essas mesmas divergências e extremismos não existem também entre os seguidores de outras fés, como judeus e cristãos? Quantas atrocidades já foram e continuam a ser cometidas em nome de Deus e brandindo Bíblias e Torás?</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Mas afinal, o que quer dizer Islã?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A tradução do árabe, literalmente, quer dizer <strong>submissão, rendição à vontade de Allah.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">É fundamental entender que o Islã é uma religião tão expansionista e reinvindicadora do monopólio da verdade quanto o cristianismo. Porém, de forma mais radical e total, o Islã abrange<strong> todas as esferas da vida </strong>de seus seguidores:<strong> </strong>é uma religião (crenças, rituais, normas, fonte de consolação), mas também é uma comunidade (<em>ummah, </em>em árabe) e um modo de viver ou tradição (<em>sunna</em>), que regulariza todas os aspectos da vida: o modo de viver dos indivíduos e as etapas de seu desenvolvimento, a educação, as relações entre homens e mulheres, a vida familiar e comunal, o comércio e o governo, a justiça e a filosofia. Ou seja, enquanto para nós, ocidentais, a religião pertence à esfera da vida privada, para os islamistas, este conceito não existe, e a religião regula toda a vida da comunidade, pública, política e privada. Em consequência dessa onipresença da religião, o Islã é o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações submetidas a ele.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O Islã é também um <strong>sistema jurídico-religioso total: </strong>edificado nas bases sagradas dos prímeiros séculos e que continua evoluindo, com toda a complexidade já exposta. Sua estrutura hierárquica pressupõe a igualdade entre os fiéis. Os legistas especializados são intérpretes da vontade de Deus e não mediadores ou representantes divinos.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>E a Jihad, o que é?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Segundo o Alcorão (e no próximo post sobre o assunto veremos em que circunstâncias isso foi escrito), o primeiro dever de um muçulmano consiste em construir uma sociedade justa e igualitária, em que pobres e fracos sejam tratados com respeito. Isso demanda uma <em>jihad</em>, cuja tradução literal deveria ser a de<strong> “luta ou esforço em favor de Deus”</strong>. Ou seja, a <em>jihad</em> mais importante é a que o fiel trava consigo mesmo, a disciplina de transformação interior que leva ao compromisso total com Deus. Poderia ser ainda traduzida por militância, em todas as frentes: espiritual, política, social, pessoal, econômica e militar. Daí sua aplicação também como “guerra santa”, tendo tido grande impacto na rápida expansão islâmica. A mobilização pela fé muitas vezes se fez através da guerra. Mas não pode ser reduzida a esta tradução.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Vou terminar explicitando e recomendando fortemente a bibliografia em que me baseei para as reflexões e dados expostos hoje. Em primeiro lugar, sempre, recomendo os livros (e são vários) da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong" target="_blank"><strong>Karen Armstrong</strong></a>. Ela é uma inglesa, ex-freira, formada pela Universidade de Oxford e atualmente grande e respeitada estudiosa das religiões. Leciona numa faculdade de estudos do judaísmo e formação de rabinos, e é a mesmo tempo membro da Associação Muçulmana de Ciências Sociais, com prêmios concedidos por várias organizações de estudos islâmicos. Entre seus livros mais famosos estão <span style="text-decoration: underline;">Uma História de Deus</span> (1994), <span style="text-decoration: underline;">Jerusalém, uma cidade, três religiões</span> (2000), e <span style="text-decoration: underline;">A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias</span> (2006). Além, é claro, deste que eu usei aqui, que foi o primeiro que eu li e pelo qual me apaixonei, chamado <span style="text-decoration: underline;">Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo</span> (2001). Todos foram editados no Brasil pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank">Companhia das Letras</a>, têm linguagem envolvente, narrativa fascinante, não requerem nem grandes conhecimentos prévios nem nenhuma crença ou espiritualidade por parte do leitor, já que os temas são encaminhados da maneira mais isenta possível, ainda que se perceba que a autora é, pessoalmente, uma mulher de tocante fé religiosa, e de uma visão profundamente humanista.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O segundo livro usado hoje se chama <span style="text-decoration: underline;">O Mundo Muçulmano</span> (2004), de autoria de <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921" target="_blank"><strong>Peter Demant</strong></a>, e publicado pela <a href="http://www.editoracontexto.com.br/" target="_blank">Editora Contexto</a>. Demant é um historiador holandês, especialista em Oriente Médio, cuja tese de doutorado tratou sobre a ocupação e colonização israelense nos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém na década de 90, como pesquisador na Universidade Hebraica e membro ativo nos diálogos pela paz entre acadêmicos israelenses e palestinos. Mora no Brasil desde 1999, onde dá aulas no Departamento de História da USP. Eu achei o livro dele muito, muito claro, organizado didaticamente, de maneira a nos levar a entender os contextos históricos do surgimento do islamismo e da eclosão das ondas fundamentalistas que varrem o Oriente Médio há tantas décadas, sem descuidar de questões importantes em  vários outros lugares em que o islamismo é a religião principal. Foi nesse livro que eu li pela primeira vez e aprendi sobre os interesses e problemas envolvidos na criação do Estado de Israel em 1948, pela ONU, sobre as guerras de Israel com Egito, Síria e Líbano, sobre a ascensão dos aiatolás no Irã, sobre a Primeira Guerra do Golfo, sobre a disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e muitas outras coisas. Vira e mexe eu pego de novo para consultar alguma coisa.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Embora com enfoques diferentes, ambos apresentam dados solidamente fundamentados e um pequeno dicionário ao final, com esses termos todos do árabe que a gente às vezes escuta e não sabe o que querem dizer.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Deixo vocês, também, com uma pequena lista de filmes, entre os que eu assisti, e que me ajudaram a rir, a me emocionar, a me reconhecer, a estranhar e a aprender muita coisa que desmitificou esse universo e esses lugares para mim. Outras contribuições, tanto bibliográficas quanto cinematográficas são muito bem-vindas. No próximo capítulo, a <strong>Arábia pré-islâmica e o aparecimento de Maomé</strong>. </span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Fahreinheit 11 de setembro (Fahreinheit 9/11)</strong>, EUA, 2004. Dir: Michael Moore. Documentário sobre como os ataques foram o pretexto perfeito para a guerra contra o Afeganistão e, mais tarde, o Iraque.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma amizade sem fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran)</strong>, França, 2003. Dir: François Dupeyront. Romance fofo sobre a amizade, num bairro pobre de Paris da década de 60, entre um dono de armazém muçulmano (Omar Shariff, impagável) e um menino judeu. Trilha sonora deliciosa.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Cruzada (Kingdom of Heaven)</strong>, EUA, 2005. Dir: Ridley Scott. Não que seja um filmaço, mas tenta ver as Cruzadas e a disputa por Jerusalém também por ângulos outros que não só o ponto de vista cristão. A fotografia é linda.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Munique (Munich)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Spielberg.Sobre o atentado que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 e a vingança orquestrada por Israel contra os que idealizaram e participaram dele. O ponto de vista é judaico, mas o incômodo pela brutalidade e pela inutilidade do ódio, que aparecem de vez em quando no personagem principal são válidos.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Syriana – a indústria do petróleo (Syriana)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Gaghan. A politicagem por trás da indústria do petróleo e como isso move guerras e gera lucros monstruosos (em todos os sentidos).<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>O caminho para Guantánamo (The road to Guantánamo)</strong>, EUA, 2006. Dir: Mat Whitecross e Michael Winterbottom. </span><span style="color: #000000;">D</span></span></span></span><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">ocumentário sobre</span> <span style="color: #000000;">as arbitrariedades das prisões de suspeitos em Guantanamo, a partir da história de três muçulmanos britânicos que ficam presos 3 anos sem acusação formal.</span> </span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Babel (Babel)</strong>, EUA, 2006. Dir: Alejandro Iñárritu. Nem sei bem por que eu incluí esse aqui, porque envolve tantos outros temas, mas eu gostei muito. E o mote para toda a ação começa numa explosão que quase mata uma turista americana no deserto do Marrocos, e toda a intrincada rede que se forma a partir daí, envolvendo comércio de armas, imigração ilegal, choque de culturas e solidão.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the Bridge: The Sound of Istambul)</strong>, 2005. Dir: Fatih Akin. Não sei de quem ou de onde é a produção. É um documentário também, que explora a riqueza e diversidade da cultura turca, através de uma viagem pela música, pela gastronomia, pelos pontos turísticos principais e pela observação e contato com as pessoas comuns da cidade.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>O caçador de pipas (The Kite Runner)</strong>, 2007. Dir: Marc Forster. Certamente é uma produção multinacional, mas com participação americana (eu não sei de onde mais). Eu gostei bem mais do livro que do filme, que dá uma “dourada de pílula”, mas é um olhar interessante sobre o Afeganistão, vale a pena.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Persépolis (Persepolis)</strong>, França/Irã, 2007. Dir: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Agora estamos chegando onde interessa. Animação GENIAL, em preto e branco, baseada nas histórias em quadrinho criadas pela iraniana Marjane Satrapi (que também faz a adaptação do roteiro), sobre a vida de uma menina (a história é narrada e apresentada do ponto de vista dela, da infância à vida adulta), sua família, seus dilemas quanto à identidade cultural e participação política no Irã, a partir da Revolução Islâmica. Imperdível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Lemon Tree 	(Etz limon)</strong>, 2008. Dir: Eran Riklis. A produção é parcialmente israelense? Não lembro, não achei a informação. É provavelmente o meu preferido dessa lista toda. Uma viúva palestina sobrevive da plantação de limões. Um dia um ministro de Israel acaba virando seu vizinho e por motivos de segurança, exige que ela derrube todos os limoeiros. Tocante, lindo, angustiante. Com minha atriz palestina preferida, Salma Zidane.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>A banda (Bikur Ha-Tizmoret)</strong>,<span style="text-decoration: line-through;"> Egito</span>, Israel, 2007. Dir: Eran Korilin. Tem momentos engraçados, mas eu não chamaria de comédia. Uma banda da força policial egípcia vai a Israel tocar na inauguração de um centro de artes muçulmano, mas acaba parando na cidadezinha errada. Eles não falam hebraico, os habitantes não falam árabe. Mas a comunicação é possível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Valsa com Bashir (Waltz with Bashir)</strong>, Israel, 2008. Dir: Ari Folman. Outra animação. Dura, realista, amarga, parcialmente autobiográfica. Um veterano israelense da guerra contra o Líbano revisita suas memórias, os motivos e os cenários do conflito. Barra pesada, mas muito bom.<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Caramelo (Sukkar Banat)</strong>, Líbano, 2007. Dir: Nadine Labaki. Já falei desse filme <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">aqui</a>. O cenário é exatamente a Beirute pobre e ainda devastada pela guerra de que trata o filme citado aí em cima. Num salão de beleza transitam mulheres diferentes, com seus dramas pessoais, nos quais a gente consegue se reconhecer tão pungentemente quanto identificar diferenças imensas. Eu amei.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Tem muitos outros, ótimos. <strong>A noiva Síria</strong>, <strong>Procurando Elly</strong> (um iraniano do ano passado que eu acabei não vendo e estou esperando sair em dvd), <strong>Free Zone</strong>, do Amos Gitai, um outro americano recente que eu não consigo lembrar o nome, sobre a relação de amizade improvável mas bonita entre duas moças, professoras do ensino fundamental de uma escola nos EUA, sendo uma de família ortodoxa judia, e a outra de origem palestina. Um fantástico, prêmio pra quem lembrar o nome, sobre dois irmãos palestinos que se transformam em homens-bomba para um atentado do lado judaico, e os conflitos de consciência de cada um. Tem o próprio <strong>Guerra ao Terror</strong>, que ganhou o Oscar desse ano, mas eu não vi, não posso opinar. Lembrem mais e partilhem.</span></span></span></p>
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		<title>Sobre dar aulas e sobre dar aulas de História</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/28/sobre-dar-aulas-e-sobre-dar-aulas-de-historia/</link>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 17:21:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensino]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p>O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem, enquanto eu voltava pra casa depois de mais uma aula de História da Cidade na FAU, eu vim pensando um monte de coisas, e me deu vontade de falar sobre elas.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->O tema da aula (conforme o programa) era Cidades Islâmicas, e eu comecei questionando a terminologia e dizendo que eu preferia chamar de Cidades Muçulmanas. Claro que os alunos já levantaram a sobrancelha pra perguntar que diferença existe. Aí um levantou o dedo pra saber por que não Cidades Árabes, e eu adorei a deixa.</p>
<p>Não, não vou explicar a diferença agora, porque eu quero falar de outro assunto (depois eu volto nesse, se houver interesse). Mas acabou que eu achei importante falar de algumas questões básicas antes de entrar no assunto urbano propriamente, e no fim das contas vou ter que apresentar o resto da aula em outra semana ou preparar decentemente os slides que eu fiquei devendo, com as imagens que ilustram o que eu falei. Fiquei agradavelmente surpresa com o interesse dos alunos por um tema que a gente tem tão pouca oportunidade de discutir e sobre o qual, de maneira geral, temos uma visão tão parcial, tão limitada. É triste perceber que, quando se fala a palavra “muçulmano”, o estereótipo imediato são as imagens de mulheres de burca e homens-bomba, como se fosse tudo um grande bloco monolítico, cujo foco reside ali naquele miolo do Oriente Médio que o pessoal não sabe nem localizar no mapa. E aí é uma surpresa descobrir que há uma imensa variedade de visões e interpretações doutrinárias dentro da vivência islâmica, que há muçulmanos vivendo em todos os continentes do planeta, e em cada lugar a própria prática da religião assume aspectos diferentes, sem falar nas tradições e costumes sociais, e que há mulheres que gostam de usar o véu e não deixariam de usá-lo nem que deixasse de ser obrigatório. E que isso não impede que elas trabalhem, estudem, usem maquiagem, pintem as unhas de vermelho e comprem lingerie sexy. Não estou dizendo que são todas assim, mas estou dizendo que existem possibilidades distintas dentro do mundo islâmico, uma riqueza e uma multiplicidade de experiências que nós normalmente ignoramos. E perguntar-se POR QUE nós ignoramos é fundamental. A velha história do Outro e do temor que o Outro representa.</p>
<p>Mas aí eu vim pensando essas coisas, e me lembrei que esta mesma semana uma outra aluna veio me procurar no fim da aula pra dizer que queria trocar de turma e vir assistir aula comigo, porque ela tem dificuldades de se concentrar e dispersa muito fácil, daí sempre teve problemas com aulas teóricas e expositivas, porque quando ela se dá conta, o pensamento já tá muito longe e ela não tem idéia do que o professor estava falando, por mais que se esforce por prestar atenção. E que, tendo assistido uma aula minha ela conseguiu acompanhar e entender tudo, porque minha aula era mais “animada”.</p>
<p>Não vou entrar no mérito da saia justa em que isso me coloca, porque o período de alterações de inscrição em disciplina já acabou e o Departamento recomendou expressamente que os alunos permancessem nas turmas em que estão inscritos, nem vou também falar que isso evidentemente alimenta minha vaidade, porque eu luto com ela diaria e sinceramente, e sei que se der sopa ela aparece toda rebolativa e o risco de estragar tudo fica gigante. O que acontece é que isso me botou pra pensar em coisas sobre o ofício de dar aulas, sobre meu jeito particular de dar aulas e refletir sobre os prós e contras de tudo.</p>
<p>Eu saí dali rindo um pouco por dentro, e achando que no fundo o que a aluna quis dizer é que minha aula é <em>performática</em>. E é verdade, tem um pouco de teatro em tudo. Não que eu não seja uma pessoa expansiva e otimista na minha vida em geral, ou que uma aula seja uma farsa, mas há uma certa representação ali, um <em>timing</em>, um ritmo que a gente vai regulando. Tem a hora da piadinha, tem a hora de afrouxar a linguagem, a hora de usar os termos todos corretos e formais. Eu falo alto, eu gesticulo, eu ando pela sala, eu gosto de saber o nome dos alunos para interpelá-los nominalmente, eu fico enfática de vez em quando (e provavelmente vermelha). Os alunos sabem que eu sou flamenguista (e eu sempre brinco quando chega um com camisa de outro time, dizendo que vai perder ponto na prova), sabem que eu tenho dois filhos adolescentes, que eu gosto de cinema e literatura. E eu não sei explicar como, dando aula há vários anos, sempre brincando e tendo um jeito muito afetivo em relação às minhas turmas, eu nunca tive casos de insubordinação em sala, nem nunca alunos que cruzaram o limite da intimidade. A maioria inclusive me chama de “senhora”, mesmo pra fazer alguma brincadeira. Quando eu era bem mais jovem eu achava ruim, tinha vontade de dizer “que isso, pode me tratar por você”, depois passei um tempo encucada achando que eu devia estar ficando mesmo velha, e hoje acho tranquilíssimo. Não me sinto velha por ser chamada de senhora e vejo nisso, pelo contrário, um sinal de respeito e reconhecimento de autoridade quase carinhoso, até. Não ligo e até gosto, embora jamais fosse exigir esse tratamento caso o aluno me trate por você. O respeito não está exclusivamente nas palavras, mas num conjunto muito mais amplo de atitudes e postura.</p>
<p>Claro que já enfrentei discordâncias, algumas mal-humoradas, outras tremendamente respeitosas e pertinentes, com as quais aprendi muito, já revi avaliações, já mantive avaliações apesar do chororô, me dói reprovar aluno, mas eu reprovo se precisar, graças a Deus não sou unanimidade e sei que tem aluno que não gosta de mim ou do meu jeito, mas de maneira geral consigo estabelecer relações muito amistosas com a maioria, que duram às vezes muito além da sala de aula, e gosto disso. Mas quando a menina falou que minha aula é animada, eu me dei conta, talvez pela primeira vez, que é verdade, eu fico mesmo cansada e suada depois de cada aula, como se eu tivesse dispendido ali enorme energia. Não sei se terei esse pique sempre, talvez seja bom se eu aos poucos ficar mais sábia e madura e aprender a dar boas aulas sem me desgastar tanto. O que eu sei é que hoje eu sou assim.</p>
<p>Hoje eu tenho urgência. Eu preciso me apaixonar por um assunto pra poder dar aulas sobre ele. Na minha cabeça, o professor tem um papel que é também de sedução, de cativar o aluno, de trazê-lo para esse universo novo e fazê-lo se interessar por ele. Eu já descobri que o meu prazer maior não é ensinar, é ver o aluno aprender. Testemunhar esse momento em que brilha um olho, ou ouvir um único aluno dentro da turma vir dizer que agora conseguiu entender alguma coisa, ou passou a gostar de uma matéria que ele antes achava um saco, compensa todas as noites em claro preparando aula, todo o cansaço. Adoro quando os alunos tiram notas boas (mas não faço prova mole), e mais ainda quando alguém que começa o semestre mal chega no final com melhora significativa. Sinal de alguma coisa ali fez sentido. Talvez por isso eu goste tanto de dar aulas na graduação, e especialmente nos primeiros períodos. É uma diversão desconstruir alguns mitos e manias que vêm do ensino médio, enfiar minhocas na cabeça da garotada, botar o povo pra pensar e questionar coisas que sempre pareceram tão “naturais”. E aula de História é uma beleza pra isso.</p>
<p>Só que eu também fiquei me perguntando coisas. Deixa eu ver se sei explicar. Eu amo História. Mas há muito tempo eu deixei de ver a História como uma linha universal em que se sucedem períodos (numa pressuposição de escala evolutiva), delimitados por datas específicas, como se o mundo todo estivesse vivendo os mesmos processos ao mesmo tempo e depois passassem todos para a etapa seguinte, e nos bastasse seguir o fio dessa meada. Que é mais ou menos como a gente aprende na escola: os gregos, os romanos, a idade média, o renascimento, a idade moderna, etc. E não é nada disso.</p>
<p>Pra começar, a gente ainda estuda uma história tremendamente eurocêntrica. Tá bom que nós (e aqui eu estou falando de nós, brasileiros) descendemos em grande parte desse ramo aí que vem desde os gregos ou antes. Não estou falando de descendência genética, mas de filiação filosófica, ideológica, política. Mas eu acho que a gente precisa pelo menos de vez em quando alertar os alunos para o fato de que há um mundo vasto e diverso além daquele umbigo. Existem outros povos, com outras formas de viver, de fazer cidades, de pensar. Que o Império Romano não abarcava o mundo inteiro, que tem a Índia, a China e o Japão vivendo outras coisas, sem falar nos povos e civilizações que estavam ali do lado, nas fronteiras do império. Que enquanto a maior parte da Europa vivia a retração urbana da Alta Idade Média, Bagdá tinha mais de um milhão de habitantes e era a maior e mais rica metrópole do mundo, onde florescia não só o comércio intenso, mas a matemática, a literatura, a filosofia. Sem falar na África e nas Américas, que só entram nos nossos livros de História quando os europeus chegam lá, como “descobridores” (parece que esses lugares não existiam antes), como colonizadores, como capturadores de escravos, dizimadores de índios, portadores da civilização. E ainda tem a Oceania que a gente nunca nem estuda pra nada.</p>
<p>Por tudo isso, eu tenho muita dificuldade com essas divisões didáticas de eras e datas. Eu sempre acho que quando tematiza demais a impressão que fica é de que aqueles episódios ou civilizações são estanques, um sucede ao outro ordenadamente, quando na verdade há sobreposições, conflitos, convergências. É preciso fazer leituras sincrônicas (do que acontece em lugares diferentes ao mesmo tempo) e diacrônicas (do que acontece nos lugares ao longo do tempo) meio simultaneamente. Só que ver isso transforma a história (como a vida) num painel multidimensional e dinâmico, com vários sujeitos, várias perspectivas. E como passar isso é algo que me aflige às vezes.</p>
<p>Eu tendo a ver os temas de aula sempre inseridos num panorama mais amplo e me interessa entender os processos, de onde vieram aquelas coisas e pessoas, para onde foram, as relações que estabeleceram. O Outro, de qualquer tempo ou lugar, me interessa. Saber como ele vê as coisas, de que lugar ou posição ele fala, tentar, por um breve instante, ver e sentir o mundo como ele vê e sente, seus objetivos, seu ponto de vista. As idéias me empolgam, os conceitos por trás das ações, os encaixes, as diferenças. O nome ou a data a gente acaba absorvendo de tanto ler e estudar, mas não são o objetivo. Eles têm sua importância: ajudam a pontuar, localizar, identificar, dão nome e rosto, mas estão a reboque de um entendimento mais amplo.</p>
<p>Eu junto muito Urbanismo e Arquitetura. Não dá pra falar de cidade sem falar de arquitetura, e vice-versa. Eu junto também História e Geografia. Eu tenho fascinação por mapas, sempre tem mapa nas minhas aulas, a gente fala de tantos lugares diferentes, eu gosto de dar ao aluno a chance de saber onde é que fica aquilo (ou ficava, quando hoje não existe mais). Relacionar o que está sendo dito com coisas que ele conheça. Por exemplo, em outra turma eu estava essa semana falando sobre a Reforma de Viena no final do século XIX e a construção do ringstrasse. Aí eu me toquei que eu falava da Áustria e provavelmente a maioria ali estava pensando na Áustria de hoje, e eu pus um mapa de 1900, pra lembrar a eles que, quando eu falasse “Áustria” nesse contexto de final do século XIX-início do XX, eu estava me referindo ao grande Império Austro-Húngaro, um território que abarcava partes do que hoje é a Alemanha, a Polônia, A Hungria e os Bálcãs. Historicamente, é outro lugar. Eu fico sempre preocupada e perplexa com o fato de que as pessoas sabem muito menos geografia hoje. Tá bom que decorar por decorar é um saco e não faz sentido, mas eu sabia onde ficavam os principais rios e cadeias de montanhas do mundo todo, e as capitais dos diversos países, e isso caía em prova. Daí, hoje, se alguém falar Mar Cáspio, ou Negro, ou Estreito de Bósforo, ou Pirineus, Apeninos, Rio Danúbio, Rio Arno, Rio Eufrates, o mapa vem na minha cabeça rapidinho e eu sei onde fica. E isso ajuda a fazer relações geopolíticas, entender por que a conquista de determinado território era estratégica, ou por que determinado povo demorou para chegar a determinado lugar em seu processo de ocupação do território.</p>
<p>A minha dificuldade às vezes, é que na minha cabeça vem tudo junto, um quadro grande, tudo ao mesmo tempo agora. E um monte de referências pop também: músicas, filmes, livros. Isso às vezes é um problema, e às vezes causa grandes risadas. Porque de vez em quando eu cito, toda contente, crente que estou abafando, um filme ou música que pra mim é manjadíssimo, e ficam aquelas 30 carinhas me olhando com cara de “hein?”. E aí eu vejo que eu tou ficando velha mesmo. Ou o povo tá ficando menos informado. Caramba, eu nasci na década de 60, mas isso não me impede de conhecer Cole Porter, ou ter visto filmes das décadas de 30 e 40, ou lido Jane Austen. Mas outro dia, falando da colonização dos Estados Unidos, e mencionando a importância, em determinado momento, da cidade de Filadélfia, eu mencionei Philadelphia Freedom do Elton John e ninguém sabia do que se tratava. Pior foi o mico dessa aula sobre Viena, quando eu perguntei se eles já tinham visto Sissi, a Imperatriz. Eu fiquei me achando um Matusalém. Aí zanguei (de brincadeira) e mandei todo mundo ir perguntar pras mães sobre o filme. Não é possível que as mães desses meninos não tenham visto isso na Sessão da Tarde.</p>
<p>Eu sempre mando ver filmes, ler livros, ouvir músicas. Eu levo pilhas de livros meus (de ficção, romances, ou de estudo mesmo) pra sala, pra eles folhearem. Isso tudo pode ser bem legal, e “animado”, como disse a aluna, mas pode também ser cansativo, agitado demais, disperso. Essa coisa de ver o conjunto e cruzar tantas referências pode me levar a perder o foco da aula, e eu sei que vira e mexe eu estouro o tempo antes de ter falado tudo o que eu tinha pensado em apresentar. A gente tem que fatiar a história em pedacinhos (com começo, meio e fim) pra caber no tempo da aula, e ao mesmo tempo articular, contextualizar, costurar os assuntos. E tudo isso tem que fazer sentido. Não é fácil. Talvez às vezes fique confuso. Eu gostaria sempre que os alunos me dessem um feedback se as coisas estão indo rápido demais, ou lento demais, ou repetitivo, ou confuso simplesmente. A vida é confusa, vamos combinar. As coisas não cabem em gavetinhas. Mas o papel da gente ali na frente, pilotando o quadro e o giz (eita coisa antiga) é ajudar a trilhar esse caminho. Eu tenho tantas dúvidas, mas eu amo tanto o que eu faço, que desejo e me esforço para fazer bem. Se tocar alguém, eu fico feliz.</p>
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		<title>Indo além e mais fundo</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Apr 2010 17:35:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[enchente]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o Sakamoto, apontando ainda que “demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">Sakamoto</a>, apontando ainda que <em>“demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”</em>, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de sono, eu gostaria de tentar ir além da questão “nós jogamos lixo na rua e isso entope os bueiros”. Tá, educação é fundamental, mas a gente pode ir mais fundo e analisar questões mais estruturais na nossa cidade. Ponderando, algumas coisas me vieram à cabeça. São reflexões de primeiro momento, eu não aprofundei, não pesquisei dados, mas também não quis deixar passar o instante. Como eu já disse hoje por e-mail pra alguns amigos, a televisão tá cheia de análises altamente instrutivas feitas por todo tipo de especialista. Mas assim que secar tudo e voltar a fazer sol, voltamos à rotina e ninguém fala mais nisso, até a próxima tempestade. Que virá, óbvio.</p>
<ol>
<li>A primeira coisa é que eu tenho 	visto muita gente falando alarmada sobre os efeitos do aquecimento 	global. Não sei disso, não. Pra mim, que não estudo isso e posso 	estar dizendo asneira, e do ponto de vista estrita (e estreitamente) 	relativo da minha curta experiência pessoal, os padrões de mudança 	de estação parecem estar se alterando mesmo. As famosas águas de 	março há algum tempo viraram águas de abril, o verão começa pra 	valer mais tarde e se estica mais, essas coisas. Os arautos da 	catástrofe iminente também anunciam que tudo está ficando mais 	intenso em todo o mundo, terremotos, furacões, tempestades. Numa 	escala de tempo mais &#8230; planetária, digamos assim, eu não saberia 	dizer se é isso mesmo. Vejam bem, eu não estou negando os efeitos 	tantas vezes danosos da ação do homem sobre o equilíbrio de 	forças da natureza, mas acho que a gente devia ver essa questão é 	pelo outro lado. Explico. Eu não sei se (ou quanto) os nossos 	padrões de urbanização e ocupação do solo causam ou 	potencializam esses fenômenos, mas sei que nossos padrões de 	urbanização e ocupação do solo são grandemente responsáveis 	pelas consequências, isto é, pelo fato de nós sofrermos mais cada 	vez que uma chuva como essa acontece.</li>
<li>Eu estou vendo na televisão todo 	mundo falando da ocupação irregular das encostas e do risco que 	isso representa. Calma que chegaremos lá. Mas tem outro aspecto que 	quase ninguém fala, que é o da crescente impermeabilização do 	solo nas nossas cidades.  O ciclo da água prevê que uma parte 	significativa do volume de água que cai do céu precisa retornar ao 	lençol freático, mas a gente vai expandindo as cidades 	indefinidamente, asfaltando, cimentando, e a água não tem como 	escoar, acumulando-se mesmo. Aí quando o Código de Obras 	estabelece parâmetros de construção que limitam a ocupação do 	solo urbano a uma porcentagem da área do lote, eu ouço um monte de 	gente reclamando.  Ah, sim, e <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/11/02/camara-de-vereadores-aprova-peu-das-vargens-914575545.asp" target="_blank">querem expandir a cidade</a>, num padrão 	Barra da Tijuca, lá pros lados de Vargem Grande e Vargem Pequena. 	Afinal, a gente ainda tem muito espaço pra cimentar e cobrir de 	condomínio, shopping e avenidas largas. Não tem galeria de água 	pluvial que dê conta, gente, ponham isso na cabeça.</li>
<li>E já que falamos de ocupação 	irregular das encostas. Aquele noticiário que passa na tv antes da 	novela, com o casal bonitinho fazendo cara de consternado na 	bancada, tava ontem mostrando que grande parte do problema é a 	ocupação irregular  desordenada da cidade, o monte de barraco de 	pobre que se pendura irresponsavelmente nos morros da cidade. Aí 	mostra o governador dizendo que a prefeitura tem que ser dura, 	remover, e que não adianta, porque as pessoas insistem em morar aí 	e voltam pros mesmos lugares assim que pára de chover. Poupe-me. 	Insistem como se elas tivessem muita escolha (“vou morar nesse 	bairro com rede de água e esgoto”, deve dizer a mulher. “Ah, 	não, eu prefiro morar ali em cima naquela encosta bonita”, 	responde o marido). Claro que há ocupação irregular e sobretudo 	desordenada, não tem ninguém aqui defendendo que as pessoas devem 	continuar onde estão, sob risco constante, óbvio que as pessoas 	devem ter lugares dignos e seguros para morar, mas ninguém fala (ou 	não fala o suficiente) que a grande questão é que deve haver uma 	<strong>política habitacional</strong> séria e consistente, e não apenas esforços 	de remoção de meia dúzia na hora que tá tudo vindo abaixo. Como 	diz, de novo, o Sakamoto, <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">“considerando que quando há um problema 	urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um 	lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não 	me importa aonde”, é de se esperar também que a remoção deles 	de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de 	grandes protestos”</a>. <strong>Política habitacional séria, de verdade</strong>. 	Procurem por este item no programa dos candidatos em quem vocês 	pretendem votar esse ano.</li>
<li>Outra coisa que eu não aguento: 	tudo agora será apresentado em termos de glorificar ou culpabilizar 	as pessoas individualmente. É o heroísmo do cara que saiu de sua 	casa pra ajudar a resgatar o pobre-coitado, a solidariedade das 	pessoas que mandam donativos, o conjunto de dramas pessoais de quem 	perdeu casa, sofá, mercadoria, parente. Tudo com imagens impactantes e um fundo musical 	pungente. Tudo fica num plano midiático, fácil de explorar através 	da provocação de empatia ou indignação. Tratar o assunto 	individualmente não é solução.  O todo é muito maior do que a 	costura dos vários casos pessoais. É uma questão de <strong>política 	pública</strong>, de <strong>ação coordenada de planejamento</strong>. E mesmo a política 	habitacional mais extensa e eficiente não vai resolver a questão 	se nós continuarmos produzindo miséria, porque novos pobres e 	novos barracos surgirão. Mas é mais fácil situar o problema – e 	a solução – nos outros. Aí a gente chora, manda uns cobertores 	e mantimentos, bate palma pra coragem dos bombeiros, diz que a culpa 	é do prefeito (ou mesmo de quem joga lixo na rua, que nunca somos 	nós, claro) e pode tocar com a vida.</li>
<li>O Rio de Janeiro tem, sim, uma 	situação geográfica frágil, com o território ocupado por três 	grandes maciços rochosos, entre os quais existem faixas de terra 	estreitas, cuja ocupação, historicamente, se deu &#8211; em extensas áreas, principalmente do Centro da cidade &#8211; através do 	dessecamento de brejos e mangues e da construção de aterros. Isso 	explica muita coisa, mas não justifica. Um outro ponto que eu quero 	levantar pra quem teve paciência de ler até aqui, por exemplo, é como nós 	encaramos e tratamos os rios da cidade. A solução engenheirística 	clássica, há mais de século, é retificar o traçado dos rios e 	encaixotá-los em canais concretados, com avenidas de ambos os lados. 	Canal do Mangue, na Presidente Vargas, Francisco Bicalho, Av. 	Maracanã, Av. Visconde de Albuquerque, Av. Paulo de Frontin, quem 	lembra de mais algum? Tem aos montes. Ou então simplesmente cobrir 	o rio, transformando-o em galeria subterrânea. Alguém lembra que o 	Rio Carioca nasce ali em Santa Teresa e atravessava originalmente 	tudo o que hoje é Cosme Velho e Laranjeiras, para desaguar na Praia 	do Flamengo? Ele continua lá, sob as ruas desses bairros. Os rios e 	cursos d&#8217;água têm , além do seu leito “normal”, o que nós 	chamamos de leito inundável, que também é normal, e que é a 	área, para além de sua margem, sujeita a inundação em 	determinados momentos, por questões de maré ou de ciclos de chuva. 	Mesmo rios saudáveis e sem lixo ou esgoto, transbordam em situações 	extraordinárias e é possível calcular esse volume extra e se 	preparar para ele. Mas a gente não respeita as faixas marginais, 	acha exagero, reclama. Não só a população mais pobre constrói 	suas casas “em cima” dos rios e canais, mas a cidade formal 	também dá as costas aos rios, asfalta suas margens, considera-o um 	entrave. Depois, reclama da violência das águas. Não é o rio que 	é violento e transborda, nós é que somos violentos com o rio ao 	aprisioná-lo em galeria cimentada e não respeitar seus ciclos. Os 	canais viram esgotos e os rios são percebidos como obstáculo, como 	problema urbano. É preciso mudar essa mentalidade e propor 	tratamentos paisagísticos diferentes, projetos que incluam os rios 	de maneira favorável à cidade, ao lazer, e, por que não, ao 	escoamentos das águas de chuva (mas sem fazer ciclovias 	me-engana-que-eu-gosto como essa <a href="http://guaciara.wordpress.com/2010/03/23/a-ciclovia-da-merda/" target="_blank">aqui </a>de São Paulo, por favor).</li>
<li>Por fim e não menos importante, 	nós, definitivamente, temos carros demais nessa cidade. E eles 	foram os protagonistas de diversas manchetes e imagens de desolação. 	São os carros boiando, sendo abandonados, ficando presos em 	engarrafamentos monstruosos, tendo que ser rebocados, cheios de 	lama, no dia seguinte. Eu sei, eu estava de carro também. E embora 	eu estivesse em local relativamente seguro (não fiquei alagada ou 	submersa, não tive que ser resgatada de bote) e seco, minha 	mobilidade era zero. Tá certo, o transporte público também deu um 	nó. É um volume de água, uma intensidade de fenômeno que afeta a 	todos e inviabiliza qualquer deslocamento. Se eu estivesse de 	ônibus, por exemplo, teria ficado mais desconfortável ainda, ou teria 	que colocar meus lindos pezinhos na água imunda se quisesse sair 	dali, mas poderia sair. Ontem mesmo me lembrei ou fui lembrada de 	diversos amigos queridos que moram ali, do lado de onde eu estava, a 	poucos metros mesmo. Se eu estivesse de ônibus, poderia ter descido 	e ido a pé, e teria passado a noite seca e confortável, teria 	jantado, teria abrigo e boa companhia. De carro, precisei ficar 	apegada a este bem material que não podia abandonar no meio da rua 	simplesmente (não, eu não tinha sequer como deixá-lo na calçada, 	eu tava ilhada no MEIO da pista, com carros em toda a minha volta, e 	agarrada à esperança de que a qualquer momento o trânsito fosse 	andar e eu saísse dali). De manhã, as poucas pessoas que se mexiam 	estavam a pé ou de bicicleta.</li>
</ol>
<p>Isso tudo não esgota a questão, longe disso. Não conforta as dores, não repõe o que foi perdido, mas aponta alguns caminhos. A gente precisa começar a pensar nisso e agir.</p>
<p>(nem falei de um outros aspecto importantíssimo que é o fato de que essas chuvas são sazonais, não são novidade pra ninguém, desde sempre o Rio de Janeiro sofre com enchentes e tempestades, deslizamentos e desabrigados, e no entanto, fica sempre todo mundo com cara de “nossa, choveu muuuuito!, eu não esperava”. Conversei sobre isso no telefone ontem de noite com a <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a>, e por sinal, foi ela que levantou essa questão. Ela bem podia escrever sobre isso e sobre como a cidade deve incorporar a estação das chuvas ao calendário, com treinamento para a população, instruções e planejamento. Novamente, o planejamento. Escreve, Monix!)</p>
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		<title>Debaixo d&#8217;água</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Apr 2010 20:19:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>O texto que está aí foi escrito durante a madrugada. São 5 da tarde agora, volta a chover muito forte na cidade, mas eu já estou em casa. Mas de ontem pra hoje foi assim:</p>
<p>São 3 e pouca da manhã. Eu saí de casa às 5 e meia da tarde de ontem para ir trabalhar. Num [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O texto que está aí foi escrito durante a madrugada. São 5 da tarde agora, volta a chover muito forte na cidade, mas eu já estou em casa. Mas de ontem pra hoje foi assim:</em></p>
<p>São 3 e pouca da manhã. Eu saí de casa às 5 e meia da tarde de ontem para ir trabalhar. Num dia comum, nesse horário que é normalmente engarrafado, eu levaria quase uma hora para atravessar os 10 km que separam minha casa, em Botafogo, da faculdade onde dou aula, na Tijuca.</p>
<p>Mas ontem não foi um dia comum. Eu tinha amanhecido meio febril, a gripe que me pegou no fim de semana ia piorando, e eu já tinha cancelado ou faltado a todos os compromissos do dia. Devia ter atendido às sugestões do marido e telefonado pro trabalho pra avisar que não ia dar aula. Mas como eu tinha melhorado ao longo da tarde, o maldito senso de responsabilidade me fez sair de casa.</p>
<p>Às 6 da tarde eu estava chegando na Praça da Bandeira. Chovia forte. Não chegou a ser um temporal daqueles de verão, com raios e trovões, mas era um volume de água consistente e vinha chovendo e parando, chovendo e parando, o dia todo. A Praça da Bandeira é uma região, ali entre o Centro e a Zona Norte da cidade, onde normalmente há enchentes, e eu fiquei feliz de passar enquanto o volume de água não era calamitoso. De toda forma, retornar já estava fora de cogitação. Pensei: &#8220;na pior das hipóteses, a essa altura, eu chego na faculdade e fico por lá até passar, sei lá, umas 10 da noite no máximo eu volto pra casa&#8221;.</p>
<p>Embiquei na rua que acaba em frente ao Instituto de Educação, na rua Mariz e Barros. Dali seriam mais 200 metros até a rua Ibituruna, que já é a rua da faculdade. Detalhe, a faculdade fica no final da Ibituruna, e na esquina passa um canal com o Rio Maracanã. Mas vejam que eu estava na outra ponta da rua, no início. Tudo parado. Água pelo meio da roda do carro. Eram 6 e meia e eu estava na esquina da rua Mariz e Barros com rua Ibituruna, quando deveria estar entrando em sala de aula. Liguei para a coordenação para avisar que já estava perto e que atrasaria, mas que estava chegando. Tsc, tsc, tsc&#8230;</p>
<p>O que eu não sabia é que o rio Maracanã já tinha transbordado e a essa hora a situação já era caótica em toda a cidade. Vou dar marcha a ré, seguir pela Mariz e Barros mais um pouco, até retornar e voltar por outro caminho. Isso é o que eu queria. O mar em que toda aquela região se transformou me deixou presa naquela esquina, porque os carros e ônibus que vinham atrás também já tinham desavisadamente embicado e bloqueado a passagem. E tome água. Se eu abrisse a porta do carro, teria água pelo meu joelho. A rua enchendo e a gente ali, sem conseguir andar pra frente, ou pra trás, ou pra qualquer lado. Não havia como chegar sequer na calçada.</p>
<div id="attachment_758" class="wp-caption aligncenter" style="width: 655px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/enchente.jpg"><img class="size-full wp-image-758" title="enchente" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/enchente.jpg" alt="" width="645" height="137" /></a><p class="wp-caption-text">Imediações da Praça da Bandeira, ali pertinho de onde eu estava</p></div>
<p>Às 8 e meia, quando a minha aula devia estar acabando, sem que tivesse começado, eu entendi que muita gente não devia ter ido também, e liguei de novo, pra avisar que não chegaria mesmo. Só às 11 da noite alguns carros começaram a dar ré, finalmente convencidos que ali não haveria saída tão cedo. O rádio (viva o rádio! E devo dar o crédito, viva a cobertura da <a href="http://bandnewsfm.band.com.br/" target="_blank">BandNews</a>, que acompanhou tudo o tempo todo, com participações dos ouvintes de toda a cidade e região metropolitana) dava notícia de que a cidade estava absolutamente parada. Gente dentro do carro ou do ônibus há mais de quatro horas. Marido tava no aeroporto desde as 7 da noite, esperando um vôo que saiu com mais de 5 horas de atraso. Meu filho saiu da faculdade às 5 da tarde e chegou às 10 da noite em casa, mas chegou, e o outro estava em casa desde cedo, eu estava tranquila quanto a isso. Eles é que estavam preocupados comigo.</p>
<p>Faltava luz em vários bairros; os trens urbanos não funcionavam em toda a rede, por conta de alagamentos que impediram a circulação em alguns ramais; o metrô tinha as estações superlotadas e os trens não conseguiam manter intervalos regulares; os ônibus tinham desligado os motores, e as pessoas desciam para continuar o caminho a pé, nas piores condições imagináveis.</p>
<p>Assim que desobstruiu a via atrás de mim, dei meia volta e achei que finalmente ia andar. Avancei um ou dois quilômetros sem problema nenhum, rumo ao meu plano de descer a Rua Conde de Bonfim em direção ao Estácio para pegar o Túnel Santa Bárbara. Aí, na altura da Praça Saens Pena, ao fazer o retorno, empacou de novo. e é aqui que estou, desde as onze e meia da noite. Nessas quatro horas que se passaram, se eu andei mais 100 metros foi muito. O pessoal que volta a pé, em sentido contrário diz que mais ali na frente, no Largo da Segunda-Feira, está tudo debaixo d&#8217;água, e não passa nem ônibus, nada. Não tem pra onde eu ir. A chuva não parou nem um minuto. diminuiu às vezes, pra depois apertar de novo, numa alternância enervante, que não permite que o nível das águas baixe.</p>
<p>Eu nunca vi ou passei por isso na vida, e não sei por onde começar a tentar entender. É um problema do projeto de macro-drenagem? De infra-estrutura, da instalação da rede de coleta das águas pluviais? A prefeitura não cuida devidamente da limpeza das galerias e bueiros e dragagem dos rios? Somos nós que produzimos lixo demais, e jogamos plásticos e papéis na rua? É um gargalo inevitável por conta da geografia do Rio? É tudo isso junto?</p>
<p>Eu sei que, teoricamente, daqui a duas horas eu devia estar levantando para ir trabalhar de novo. Eu terei muita sorte se tiver chegado em casa daqui a duas horas.</p>
<p><em>Bom, isso foi o que eu escrevi entre 3 e meia e 4 horas da manhã. Claro que não cheguei, vi o dia clarear sem ter arredado nem meio metro da minha posição, e só passei do tal Largo depois das 8. Cheguei em casa às 9 horas, assustada e exausta, depois de ter visto cenas que pareciam de filme americano, desses que retratam o fim do mundo. Lama, lixo, pedaços de pau, trechos fantasmagoricamente desertos onde deveria haver o movimento de início do dia, tampas de bueiro jogadas, carros abandonados ou enguiçados pelo caminho, tudo imundo e abandonado, não havia mais mão ou contramão nas ruas, os carros indo na direção que bem entendiam, fugindo dos becos sem saída e bolsões de água, nenhum guarda ou policial nos cruzamentos, nada. Eu não preciso descrever tudo, porque vocês devem ter visto os noticiários e sabem que o Rio de Janeiro ficou inviável nesta terça-feira. Caos é pouco. </em></p>
<p><em></p>
<div id="attachment_759" class="wp-caption aligncenter" style="width: 680px"><em><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/lixo-transito.jpg"><img class="size-full wp-image-759" title="lixo-transito" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/lixo-transito.jpg" alt="" width="670" height="210" /></a></em><p class="wp-caption-text">Eu passei a madrugada parada assim como nessa imagem, só não foi nessa rua, mas a cena é a mesma. E vi coisas como essas da outra imagem aí do lado.</p></div>
<p></em></p>
<p><em>A idade já não me permite essas extravagâncias, e mesmo tendo dormido um pouco depois que cheguei, estou com muita dor de cabeça e mal-estar. Mas não posso deixar de pensar em quase 80 pessoas terem morrido na Região Metropolitana, nos deslizamentos, nos desabrigados, na repetição desse pesadelo e no fato de que não é possível que isso seja um destino inescapável. </em></p>
<p><em>E chove forte de novo. </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Canadá 1 &#8211; Primeiras impressões</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 23:31:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Canadá]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Vamos começar logo com isso, porque já tá ficando chato, eu só anuncio e nada de comparecer. Daqui a pouco vai ter gente achando que essa viagem foi imaginação minha.</p>
<p>Primeiro, as circunstâncias da viagem. Meu marido trabalha com treinamento em telecomunicações, basicamente atendendo companhias de telefonia celular. Por conta disso, viaja um bocado, quase sempre pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vamos começar logo com isso, porque já tá ficando chato, eu só anuncio e nada de comparecer. Daqui a pouco vai ter gente achando que essa viagem foi imaginação minha.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Primeiro, as circunstâncias da viagem. Meu marido trabalha com treinamento em telecomunicações, basicamente atendendo companhias de telefonia celular. Por conta disso, viaja um bocado, quase sempre pela América Latina, e de vez em quando vai a alguma cidade mais distante um pouco, em algum outro continente. Posso garantir a vocês que, passado o deslumbramento dos primeiros anos, é um trabalho duro, cansativo, que impõe muitas horas de aeroporto e de vôo, muitas datas familiares comemoradas por telefone, de um quarto de hotel (e viva o skype). Mas tem também a vantagem de permitir a ele acumular milhas nos programas de fidelidade das companhias aéreas, e de vez em quando eu aproveito alguma chance para ir junto, principalmente quando é um lugar que me interessa conhecer e a minha própria agenda de trabalho permite. Foi exatamente esse o caso dessa vez. Quando eu vi que ele iria a Montreal, no Canadá, eu rapidamente me organizei pra ir também, porque uma oportunidade dessas não aparece toda hora.</p>
<p>Ainda por cima, eu <span style="color: #000000;">tenho uma amiga querida, a Gabriela, que mora em Montreal há algum tempo, e que foi uma fonte importante de conversas, informações e troca de impressões, além de uma companhia deliciosa tanto pra um almoço num restaurante português numa ruazinha charmosíssima, quanto para passeios de interesse arquitetônico-urbanístico ou compras nas lojas mais descoladas que eu não teria como descobrir sozinha. </span></p>
<p>Já que eu já tinha ido tão longe mesmo, aproveitei pra ir numa excursão de um dia a Quebec, que fica pertinho, e fui, junto com o marido, a Toronto no fim de semana seguinte ao curso que ele deu. Toronto já é mais longe um pouquinho, uns 500 km de Montreal, mas valeu cada instante da visita. Olha aí uma mapinha pra dar ideia:</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-479" title="Mapas" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/Mapas.jpg" alt="Mapas" width="1350" height="436" /></p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">No mapa da esquerda vocês podem ver a região nordeste dos Estados Unidos e o sudeste do Canadá (a bolinha vermelha mais de baixo marca a posição de Nova York, só pra dar referência). Aliás, meu vôo, pela Continental Airlines, foi Rio-Houston-Newark-Montreal. Em cada escala dessas, uma troca de avião. No trecho final, o teco-teco (mentira, mas era o menor aviãozinho em que eu já voei, fileiras de duas poltronas de um lado e uma poltrona só do outro lado, um único e estreito corredor central, evidentemente uma única comissária de bordo, que mal conseguia se mover), mas eu dizia, no último trecho, ao decolar, o avião sobrevoa a ilha de Manhattan, e eu tirei montes de fotinhas pela janelinha do avião: Empire State, Estátua da Liberdade, Central Park. Foi o mais próximo que eu já cheguei de Nova York até hoje. Mas tou me aproximando, hehehe. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">Voltando ao nosso mapa. Logo acima da fronteira com o Canadá, vocês podem ver três outras bolinhas. A do meio assinala a posição de Montreal, a mais de cima é Quebec, e a sudoeste de Montreal está Toronto, bem na beira do Lago Ontario. No mapa seguinte, dei um “zoom” só em Montreal. A cidade ocupa uma grande ilha (que eu tentei contornar de vermelho, mas não sei se a linha ficou muito fina) no Rio São Lourenço. O quadrado em destaque mostra a região central, que está ampliada no último mapa, à direita. Nós ficamos num hotelzinho simples, mas muito bem localizado, em frente a um dos prédios da UQÀM (Université de Quebec à Montreal), no coração do que eles chamam de Quartier Latin, próximo de tudo. Tá lá marcado no mapa também. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_482" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><span><img class="size-full wp-image-482" title="Montreal_chegada" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/Montreal_chegada1.jpg" alt="Em cima à esquerda, Nova York vista da janela do avião; à direita os campos cultivados nos arredores de Montreal. Embaixo, à esquerda, vista geral de Montreal a partir do topo do Mont Royal, ponto turístico importante na cidade. Por fim, aspecto de uma rua típica, nas proximidades do meu hotel." width="800" height="535" /></span><p class="wp-caption-text">Em cima à esquerda, Nova York vista da janela do avião; à direita os campos cultivados nos arredores de Montreal. Embaixo, à esquerda, vista geral de Montreal a partir do topo do Mont Royal, ponto turístico importante na cidade. Por fim, aspecto de uma rua típica, nas proximidades do meu hotel.</p></div>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">Só pra vocês terem uma ideia dos deslocamentos, e já levantando uma lebre a ser explorada em textos vindouros, a distância de Montreal a Quebec é de 233 km e de Montreal a Toronto é de 540 km, cobertos em 6 horas de viagem. Por comparação, temos que Rio-São Paulo são 440 km. Pois bem, infelizmente o transporte no Canadá é bastante baseado no modelo rodoviário. Não é que não haja trens entre essas cidades, mas é muito mais caro, muito mesmo. Então, a alternativa é o ônibus (considerando que avião também estava fora das minhas possibilidades). A moeda local é o dólar canadense, que vale, hoje, cerca de R$1,65. Assim, vamos fazer contas: eu consigo comprar uma passagem em ônibus leito, RJ-SP, por um valor entre R$80 e R$100, perfazendo R$ 0,22 por quilômetro rodado, na pior hipótese. Paguei CAD$ 90 (= R$148,50) na passagem Montreal-Toronto, num ônibus equivalente ao nosso comum (eles não têm o nosso conceito de ônibus leito). Conforto bem escasso, não fosse o fato de que peguei um horário cedo, tava vazio e eu viajei quase esticada, ocupando as duas poltronas. Mas a relação é de R$ 0,28 por quilômetro rodado, um bocado mais caro que o que eu pago aqui. Pelo menos as estradas são maravilhosas, o ônibus parece que flutua. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">Ainda nas informações preliminares, vamos saber um bocadinho mais sobre o Canadá. Eu não sei vocês, mas quando eu viajo pra um lugar que eu não conheço, eu adoro fazer dever de casa antes, pesquisar, chegar lá tendo alguma ideia de onde eu estou. </span></p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_483" class="wp-caption alignleft" style="width: 250px"><span><img class="size-full wp-image-483" title="GOVERNOR-GENERAL" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/mi_jean_1.jpg" alt="Michaëlle Jean" width="240" height="321" /></span><p class="wp-caption-text">Michaëlle Jean</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;">Pelo que diz o Atlas da National Geographic, com dados de 2006, o Canadá tem quase 10 milhões de km<span style="font-family: Times New Roman,serif;">²</span>, sendo o segundo maior país do mundo em área (o primeiro é a Rússia). Dizem as más línguas que isso só vale se medir no inverno, porque no verão derrete o gelo e o Brasil fica maior. É um Estado federal, cuja capital é Ottawa, com Senado e Câmara dos Comuns e – eu não sabia – reconhece o Soberano do Reino Unido como Chefe de Estado. Faz parte até da Comunidade Britânica das Nações, e tem a cara, ops, a efígie da rainha Elizabeth II em suas moedas. Em território canadense, a rainha é representada por um governador-geral. Atualmente, a governadora-geral do Canadá é Michaëlle Jean, uma jornalista nascida no Haiti, primeira negra a ocupar esse cargo. O Chefe de Governo (quem manda mesmo), entretanto, é o primeiro-ministro, que hoje é Stephen Harper.</p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">A população total deste enorme país é de 32 milhões de habitantes, com uma baixíssima densidade de 3,27 hab/km<span style="font-family: Times New Roman,serif;">²</span>.  Montreal, que fica na província de Québec (cuja capital é a cidade de Québec), concentra, em sua área metropolitana, mais de 3 milhões e meio de habitantes. É o segundo maior núcleo urbano do país. O primeiro é Toronto, capital da província de Ontario, quinta maior cidade da América do Norte, com 5 milhões e 100 mil habitantes em sua área metropolitana, sendo quase 2 milhões e meio só na cidade. Toronto só perde para a Cidade do México (8.600.000 hab na cidade e 18.300.000 na área metropolitana), Nova York (8.000.000 na cidade, 21.500.000 na área metropolitana), Los Angeles (3.700.000 na cidade, 17.000.000 na área metropolitana) e Chicago (2.900.000 na cidade, 9.500.000 na área metropolitana). Números arredondados.</span></p>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">O país adota tanto o inglês quanto o francês como línguas oficiais, em função de especificidades de seu período colonial, mezzo-francês, mezzo-britânico. Em Montreal, por exemplo (em toda a província de Quebec), o imediato é falar francês. Todos os letreiros são em francês e a abordagem inicial será sempre francófona. Até a arquitetura é mais afrancesada, com muitas construções remanescentes do final do século XVIII e de todo o século XIX. Mas é uma cidade bem bilíngue, e todo mundo fala inglês também, facilitando bastante a comunicação (pra mim, hohoho. Se bem que eu fiz algum uso do meu ano de Aliança Francesa, e dei meus passinhos no merci, bon jour e s&#8217;il vous plaît). Toronto já é uma cidade mais americanizada, sob vários aspectos, e a língua básica é o inglês mesmo. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_485" class="wp-caption aligncenter" style="width: 877px"><img class="size-full wp-image-485" title="Toronto1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/Toronto1.jpg" alt="Uma das coisas mais legais de Toronto é a convivência do antigo com o moderno, quase sempre surpreendentemente bem resolvida. " width="867" height="400" /><p class="wp-caption-text">Uma das coisas mais legais de Toronto é a convivência do antigo com o moderno, quase sempre surpreendentemente bem resolvida.  </p></div>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">De maneira geral, minha primeira e boa impressão de ambas as cidades é de uma imensa diversidade étnica e social. Como cidades (mais até Montreal do que Toronto) que abrigam importantes universidades, há uma enorme quantidade de jovens de todas as origens e tribos transitando, o que dá um ar alegre e dinâmico à cidade. A gente anda pelas ruas e vê todas as cores, roupas, escuta inúmeras línguas. São negros (muitos imigrantes e descendentes de imigrantes de ex-colônias francesas), asiáticos (aos montes), latinos, muçulmanos, indianos, americanos e até canadenses! O pessoal é extremamente gentil, solícito, tem, na média, bom nível intelectual e interesse genuíno nas realidades externas ao país. São acolhedores e bem-humorados, de um humor que lembra muito o nosso, e eu senti que um esporte nacional, não muito velado, é sacanear os americanos. Dei boas risadas várias vezes, com estampas de camisetas e títulos de publicações. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;">Como eu já disse, enchi muitas páginas da minha caderneta de anotações, e tirei centenas de fotos. Ainda não sei bem como vou organizar esse material. Não sei se por ordem cronológica (no primeiro dia fiz isso, depois aquilo&#8230;), ou se por temas. Observei aspectos que às vezes foram se repetindo, com relação a transporte público, comidas, soluções de arquitetura, preocupações com ecologia e meio-ambiente, turismo, saúde e assistência social, e um monte de outros. Vou ver. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_486" class="wp-caption aligncenter" style="width: 1210px"><span><img class="size-full wp-image-486" title="bichinhos" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/bichinhos.jpg" alt="Não dá pra não se encantar. Uma marmota, um passarinho diferente e um esquilo. Eu queria trazer meia dúzia de cada na bagagem..." width="1200" height="267" /></span><p class="wp-caption-text">Não dá pra não se encantar. Uma marmota, um passarinho diferente e um esquilo. Eu queria trazer meia dúzia de cada na bagagem...</p></div>
]]></content:encoded>
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		<title>Cidades Literárias: João do Rio</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 02:32:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Aproveitando que o Rio de Janeiro está na moda, ainda mais agora que será a primeira sede dos Jogos Olímpicos na América Latina, resolvi fazer esta homenagem. Sério, se eu quisesse manter esta coluna só com textos sobre o Rio de Janeiro, eu teria dezenas de posts prontos lendo a obra de João do Rio.</p>
<p class="wp-caption-text">O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aproveitando que o Rio de Janeiro está na moda, ainda mais agora que será a primeira sede dos Jogos Olímpicos na América Latina, resolvi fazer esta homenagem. Sério, se eu quisesse manter esta coluna só com textos sobre o Rio de Janeiro, eu teria dezenas de posts prontos lendo a obra de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_do_Rio" target="_blank"><strong>João do Rio</strong></a>.</p>
<div id="attachment_473" class="wp-caption alignleft" style="width: 212px"><img class="size-full wp-image-473" title="JoaodoRio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/JoaodoRio.jpg" alt="O escritor" width="202" height="300" /><p class="wp-caption-text">O escritor</p></div>
<p>João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu e viveu no Rio de Janeiro, entre 1881 e 1921, como jornalista, cronista, tradutor e teatrólogo. Aos 19 anos, Paulo Barreto conquista popularidade com uma série de reportagens de enorme repercussão, para a <em>Gazeta de Notícias</em>, apresentando um estilo vivo, ágil, num processo inteiramente novo de apresentar a informação. No mesmo jornal, a partir de 1903, adota o pseudônimo com o qual ficaria eternizado. Não é exagero dizer que <strong>João do Rio</strong> revolucionou o processo de fazer jornalismo no país, introduzindo a reportagem com a feição moderna com que  a conhecemos hoje, interessada nos aspectos sociais e humanos da vida urbana, e criando um novo tipo de crônica. Sobretudo, ele foi um arguto e crítico observador na vida da cidade do início do século, deixando deliciosas descrições de espaços e de comportamentos, que nos ajudam a ter uma ideia melhor do que deve ter sido viver no Rio no alvorecer do século XX. O trecho a seguir é retirado de sua obra <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&amp;co_obra=2051" target="_blank"><strong>A alma encantadora das ruas</strong></a>, de 1908, e consta do livro <strong>João do Rio, uma antologia</strong>, organizado por Luís Martins e publicado pela José Olympio Editora. Ah, o texto completo está disponível para download, gratuitamente, no site <a href="http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&amp;co_obra=2051" target="_blank">Domínio Público</a>, se alguém se interessar.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Oh, sim, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, speenéticas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;) Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém dantes imaginara &#8211; a rua dos Ourives &#8211; há ruas que, pouco honestas no passado, acabaram tomando vergonha &#8211; a da Quitanda. Há ruas, guardas tradicionais da fidalguia, que deslizam como matronas conservadoras &#8211; a das Laranjeiras; há ruas lúgubres, por onde passais com um arrepio, sentindo o perigo da morte &#8211; o Largo do Moura, por exemplo. Foi sempre assim. Lá existiu o necrotério e, antes do necrotério, lá se erguia a forca. antes da autópsia, o enforcamento.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;) Há, entretanto, outras ruas que nascem íntimas, familiares, incapazes de dar um passo sem que todas as vizinhas não saibam. As ruas de Santa Teresa estão nestas condições. Um cavalheiro salta no Curvelo, vai a pé até o França, e quando volta já todas as ruas perguntam que deseja ele, se as suas tenções são puras e outras impertinências íntimas. (&#8230;) Há ruas oradoras, ruas de meeting &#8211; o Largo do Capim que assim foi sempre, o Largo de São Francisco; ruas de calma alegria burguesa, que parecem sorrir com honestidade &#8211; a rua Haddock Lobo; ruas em que não se arrisca a gente sem volver os olhos para trás a ver se nos vêem &#8211; a travessa da Barreira; ruas melancólicas, da tristeza dos poetas; ruas de prazer suspeito próximo do centro urbano e como que dele afastadas; ruas de paixão romântica, que pedem virgens loiras e luar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_474" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><em><img class="size-medium wp-image-474" title="rio_belleepoque" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/rio_belleepoque-300x209.jpg" alt="A Av. Rio Branco (então, Av. Central), recém inaugurada" width="300" height="209" /></em><p class="wp-caption-text">A Av. Rio Branco (então, Av. Central), recém inaugurada</p></div>
<p></em></p>
<p>Acho bacana esse olhar poético sobre as ruas da cidade. Para os moradores do Rio, fica o desafio. Você conhece as ruas e locais citados? Quase todos referentes ao Centro da cidade e adjacências, chegando até a Tijuca, para os lados da Zona Norte, e até Laranjeiras e Botafogo, que era o que existia de Zona Sul. Quando ele escreve esse texto, Copacabana tem menos de 20 anos de criada e ainda é pouco mais que um areal, e Ipanema e Leblon ainda não sonham em existir. Gosto de dar esse destaque ao Centro. Temos falado tanto de Revitalização da Zona Portuária, Pier Mauá, Aquário do Rio, é bom nos familiarizarmos com esta área da cidade.</p>
<p>Para os que identificaram lugares, o que mudou, o que permanece? E para os que moram fora do Rio, qual a alma das ruas da sua cidade?</p>
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		<title>Cidades Literárias: Júlio Verne</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 21:08:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.</p>
<p>Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.</p>
<p>Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er&#8230;quer dizer&#8230; dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.</p>
<p>Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho  de<strong> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank">Júlio Verne</a>.</strong> Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época &#8211; submarinos, foguetes de viagem à lua &#8211; e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se <a href="http://es.bookmooch.com/detail/8498190614" target="_blank"><strong>A cidade flutuante</strong></a><strong> </strong>(1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.</p>
<p>Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: <em>&#8220;Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida&#8221;</em>.</p>
<p>Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e <em>&#8220;escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos&#8221;</em>. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_396" class="wp-caption alignright" style="width: 251px"><em><a href="http://www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg"><img class="size-medium wp-image-396" title="newyorkcity1860" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/newyorkcity1860-241x300.jpg" alt="Planta de Nova York em 1860" width="241" height="300" /></a></em><p class="wp-caption-text">Planta de Nova York em 1860</p></div>
<p>&#8220;Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d&#8217;<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours" target="_blank">A volta ao mundo em 80 dias</a>, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?</p>
<p style="text-align: left;">Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.</p>
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		<title>Paisagens cariocas</title>
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		<pubDate>Wed, 05 Aug 2009 23:37:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<category><![CDATA[Paisagismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Hoje de tarde, Marido chegou cedo do trabalho, tava um dia lindo, sol de inverno, e nós fomos andar de bicicleta no Aterro. Daí que eu voltei, mais uma vez encantada com a paisagem espetacular, e lembrei que fiquei de prestar minha homenagem ao Burle Marx.</p>
<p>Pra quem não sabe, Burle Marx foi um dos mais importantes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje de tarde, Marido chegou cedo do trabalho, tava um dia lindo, sol de inverno, e nós fomos andar de bicicleta no Aterro. Daí que eu voltei, mais uma vez encantada com a paisagem espetacular, e lembrei que fiquei de prestar minha homenagem ao Burle Marx.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-383" title="burle_himself" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle_himself-300x166.jpg" alt="burle_himself" width="300" height="166" />Pra quem não sabe, Burle Marx foi um dos mais importantes paisagistas do mundo no século XX, mas ele gostava mesmo é de se apresentar como artista plástico. Era pintor, ceramista, escultor, desenhou jóias, plantou jardins, idealizou painéis imensos e multicoloridos de azulejos. Tudo com uma delicadeza, uma noção de harmonia de cores, volumes e proporções que é uma coisa de louco. Ou de gênio. Burle nasceu em São Paulo, mas viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, e podemos dizer que parte significativa da imagem que hoje temos da cidade se deve a ele.</p>
<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-384" title="burle2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle2-150x150.jpg" alt="burle2" width="150" height="150" />Além de inúmeros projetos para jardins privados, de residências urbanas ou chácaras e sítios, Burle Marx idealizou e executou vários dos mais conhecidos espaços públicos da cidade, entre eles os jardins do Museu de Arte Moderna, do Palácio Gustavo Capanema (antigo prédio do MEC, no Centro), o calçadão de Copacabana e o Aterro do Flamengo (aqui é bom que se diga que a idealização do Aterro é de Carlota Macedo de Soares, o projeto urbanístico e de diversos elementos arquitetônicos é de Afonso Eduardo Reidy e o projeto paisagístico, sim, de Burle Marx). Isso pra falar só de alguns dos seus projetos no Rio de Janeiro, porque os há em todo canto do mundo.</p>
<p><img class="alignright size-thumbnail wp-image-385" title="burle1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle1-150x150.jpg" alt="burle1" width="150" height="150" />Recentemente houve uma belíssima exposição da obra de Burle Marx no Paço Imperial, que eu tive a oportunidade de ver na companhia deliciosa e encantadora do meu amigo e arquiteto <a href="http://correioselado.blogs.sapo.pt/" target="_blank">Cláudio Luiz</a>, e eu relembrei o quanto é fantástico admirar o desenho de Burle Marx e seus projetos, em planta baixa. Cada um deles é, em si mesmo, uma obra de arte, um quadro. Ele pensava os jardins como pinturas, com as cores, as formas, a geometria, a plasticidade de uma composição artística.</p>
<p>Eu podia falar também que ele é o responsável pela introdução de um novo conceito no paisagismo moderno, valorizando as árvores e espécies nativas, numa época em que ainda se importava tanta moda. E isso vale não só para as exuberantes palmeiras tropicais, bromélias e agaves, mas para desconhecidos arbustos e folhagens, que antes eram tratados como mato, quando não como erva-daninha, e que, a partir de Burle Marx, foram valorizados e elevados à categoria de protagonistas em canteiros coloridos. Mas o melhor que eu posso fazer é sugerir, pra você que é daqui do Rio, e pra você que venha aqui a passeio, uma visita ao <a href="http://www.rio.rj.gov.br/riotur/pt/atracao/?CodAtr=3900" target="_blank">Sítio Burle Marx</a>, lá em Guaratiba. É passeio para um dia inteiro, mas vale cada segundo.</p>
<p>Burle Marx nos deixou em 1994, aos 84 anos, mas sua obra está viva na cidade, literalmente. E a gente pode se emocionar com ela num simples passeio de bicicleta de fim da tarde, não tem coisa melhor.</p>
<div id="attachment_391" class="wp-caption aligncenter" style="width: 969px"><img class="size-full wp-image-391" title="burle_comp1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/burle_comp1.jpg" alt="Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo" width="959" height="278" /><p class="wp-caption-text">Calçadão, jardins do MAM e Aterro do Flamengo</p></div>
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		<title>Circulando</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 18:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Rapidinho. Só pra partilhar com vocês algumas coisas que ando lendo por aí, na seara do Urbanismo.</p>
<p>Fernando Lara, sempre. O Parede de Meia é um blog obrigatório para quem gosta de arquitetura e urbanismo, pra quem se interessa pelo que é feito hoje em termos de ensino de arquitetura, e mesmo pra quem não é da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Rapidinho. Só pra partilhar com vocês algumas coisas que ando lendo por aí, na seara do Urbanismo.</p>
<p><a href="http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, sempre. O <a href="http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Parede de Meia</a> é um blog obrigatório para quem gosta de arquitetura e urbanismo, pra quem se interessa pelo que é feito hoje em termos de ensino de arquitetura, e mesmo pra quem não é da área. O Fernando sabe falar dos assuntos com paixão e competência, e sendo um cara tão bom e conceituado, seus textos têm um ar despretensioso, que sempre fazem a gente se sentir muito mais inteligente do que é. Recentemente, gostei muito do que ele falou sobre o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/2009/07/carta-aberta-aos-organizadores-da-copa.html" target="_blank">questionamento</a> de alguns arquitetos a respeito das obras &#8211; projetos, orçamentos, transparência nas licitações &#8211; destinadas à Copa de 2014. Adorei também a descrição de sua participação no Encontro Nacional de Estudantes de Arquitetura, e suas notícias sobre o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/2009/07/1800-esperancas-1800-hopes.html" target="_blank">interesse dos alunos pela questão da sustentabilidade</a> no ensino de projeto.</p>
<p>Outro blog que eu sempre dou uma olhada é o <a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/" target="_blank">Cidade Inteira</a>. Sérgio Magalhães é ex-Secretário de Urbanismo do Rio de Janeiro e professor da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, bem como do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo na mesma universidade. Ele comenta muita coisa sobre os projetos e acontecimentos que mexem com a vida da cidade do ponto de vista urbanístico, e tendo participado do jogo político pelo lado de dentro por tanto tempo, a gente sempre aprende alguma coisa. Por exemplo, neste <a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/08/politica-e-camara-na-cinelandia.html" target="_blank">último pos</a>t sobre a proposta de saída da Câmara de Vereadores do Rio ali do Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia. Confesso que eu não sabia disso e concordo com a opinião dele.</p>
<p>Pra quem lê em inglês, eu descobri recentemente  <a href="http://heckeranddecker.wordpress.com/" target="_blank">A Town Square</a>. Tendo por subtítulo &#8220;conversações sobre o lugar onde vivemos&#8221;, o negócio já me cativou. É um blog americano, de Washington D.C. até onde eu pude perceber, mas com uma discussão que interessa a todos nós. <a href="http://heckeranddecker.wordpress.com/about/" target="_blank">Olha só</a> como eles descrevem o que estão fazendo ali: &#8220;À medida em que viajamos e exploramos, nós nos descobrimos imaginando como será a Próxima Cidade, onde todos nós viveremos. Como esta cidade do futuro vai nos sustentar, sustentar as futuras gerações e a si mesma? A maioria das cidades americanas está enfrentando uma era de grandes desafios e uma necessidade urgente de se reinventar&#8221;. Bom, né? Pena que tem um tempinho que os cras não escrevem nada. Mas dá pra se divertir nos posts antigos.</p>
<p>Por fim, mas não menos importante, um blog que não é sobre arquitetura nem urbanismo, mas sobre o qual eu venho querendo falar. <a href="http://jabafilosofico.blogspot.com/" target="_blank">Pedro Gomlewski</a> é um rapaz de 17 anos, cursa o 3o. ano do Ensino Médio e da última vez que eu o ouvi falar sobre o assunto, ele confessou que queria prestar Vestibular para Filosofia, mas ainda não tinha certeza. Antes disso, parece que pensava fazer Economia. Num mundo em que a grande e podre mídia só nos empurra imagens idiotas de jovens cuja principal razão para existir é consumir &#8211; produtos, pessoas, comportamentos -, Pedro é um cara que pensa. Tá certo, ele tem 17 anos, vai mudar de opinião mil vezes, vai se desiludir com a política, a filosofia, a vida, depois vai redescobrir que vale a pena continuar lutando e acreditando pelos motivos mais insuspeitos, mas demonstra desde já uma invejável disposição para ler, estudar, discutir, ouvir os outros, e uma coragem admirável para expor suas opiniões. Eu nunca vi ninguém, com essa idade, falar sobre Nietzsche com tanta desenvoltura. E confesso que não tenho sequer gabarito pra saber se o que ele tá falando procede. Dá uma conferida no <a href="http://jabafilosofico.blogspot.com/" target="_blank">Jabá Filosófico</a> e conversa com ele. Depois me conta.</p>
<p>Se vivo estivesse, hoje <a href="http://www.burlemarx.com.br/historico.htm">Burle Marx</a> faria 100 anos. Eu queria escrever uma bobaginha sobre ele, mas agora deu minha hora e eu preciso ir. Se eu não voltar hoje ainda, venho amanhã, falar do grande mestre e sua obra maravilhosa.</p>
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