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	<title>Urbanamente &#187; Modernismo</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>O cimento, a América Latina e outros pensamentos partilhados</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Aug 2010 04:40:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Ensino]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do Fernando Lara, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no PROARQ (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como prometido, eu vou contar a vocês alguma coisa da palestra do <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, a que eu assisti no dia 06 de agosto, no <a href="http://www.proarq.fau.ufrj.br/site/" target="_blank">PROARQ</a> (Programa de Pós-Graduação em Arquietura, da FAU-UFRJ).</p>
<p>Eu fiquei realmente encantada com a palestra, como aliás sempre fico ao ouvir o Fernando falar, porque o cara sabe muito, e tem uma facilidade de comunicação imensa. Acaba não sendo uma palestra, mas um papo, gostoso, instrutivo, em que você não sente o tempo passar e fica querendo mais quando termina. Dessa vez, o tema era<em><strong> &#8220;O cimento feroz &#8211; considerações sobre arquiteturas contemporâneas da América Latina&#8221;</strong></em>, assunto que ele vem estudando há bastante tempo e desenvolvendo em seus <a href="http://soa.utexas.edu/latitudes/" target="_blank">grupos de pesquisa</a> sobre Arquitetura Latinoamericana  Moderna na <a href="http://www.soa.utexas.edu/lama" target="_blank">Universidade do Texas</a>.</p>
<p>Como é um assunto que eu absolutamente não domino, fui lá aprender. E, como boa aluna, tomei notas, que divido agora com vocês. Já comecei me surpreendendo com a frase-provocação que abriu a conversa, que o Fernando nos informou ter sido dita por Paulo Venâncio, professor da EBA (Escola de Belas-Artes), num livro sobre o Burle Marx. Sente só: &#8220;o brasileiro só consegue lidar com a paisagem mediada pelo cimento&#8221;. Gente, e não é verdade?</p>
<p>Gostei muito dele ter trazido, para começar, uma discussão sobre esse conceito de &#8220;América Latina&#8221;. O que é isso, afinal, o que quer dizer, o que expressa? Nós temos (ou pelo menos muitos de nós) a tendência a naturalizar certos termos e é preciso um certo esforço para ficarmos atentos aos seus significados, e sobretudo ao entendimento de como, quando e onde esses significados foram propostos e construídos. A idéia de uma América &#8220;latina&#8221; surge na segunda metade do século XIX, e é uma tentativa francesa de trazer, para seu círculo de influência &#8220;latinizante&#8221;, uma parte da América que orbitava, em vários aspectos, tanto políticos quanto econômicos, em torno do universo anglo-saxão. A França acenava com nossas raízes latinas, via Portugal e Espanha, para nos suscitar a ideia de uma herança cultural comum, que favorecesse nosso alinhamento aos seus interesses. Eu sei que estou encurtando um assunto que é mais comprido e mais complexo do que isso.  O que nos cabe discutir aqui é que esse conceito, ou esse agrupamento não é fruto de uma identidade própria ou auto-reconhecimento, mas sim uma característica, ou conjunto de características que nos é atribuída por outrem (por mais que hoje muita gente tenha se apropriado positivamente dessa identidade), e se a gente pensar bem,  é um conceito que já nasce problemático. Em outras palavras, não fomos nós mesmos que nos reconhecemos e designamos assim: &#8220;somos latinoamericanos&#8221;, mas um outro, europeu, que  veio nos dizer: &#8220;ei, <em>prestenção</em>, vocês são herdeiros de uma tradição latina, por MEU intermédio, fiquem aqui do meu lado&#8221;.  E vingou, né? Ou melhor, vingou especialmente a denominação. Não necessariamente o interesse francês.</p>
<p>Mas qual seria esse nosso traço comum, que nos permitiria abrigar-nos todos sob esse &#8220;guarda-chuva&#8221;? Um recorte simplesmente geopolítico arbitrário, que diz que do México pra baixo é tudo latinoamericano? Mas e as Ilhas Virgens, as Guianas holandesa e inglesa, as outras colônias de povos não-latinos no Caribe? Bom, seria então uma unidade linguística? Não, nesse conjunto de países há falantes de outras línguas também. Seria uma unidade religiosa? Econômica? Há algum dado <em>a priori</em> que permita nos agrupar sob esta classificação? Ele vai desmontando e desnaturalizando o conceito, pra mostrar que qualquer denominador comum que se busque tem seus furos, ou seja, dizer &#8220;América Latina&#8221; é enfatizar uma construção política e cultural, que serve (ainda hoje) a determinados interesses, para o bem ou para o mal.</p>
<p>Agora, uma coisa que muito me impressionou, das diversas imagens que ele mostrou, fruto da transcrição cartográfica das pesquisas que ele vem fazendo, é como, nas nossas revistas de arquitetura, aparece tão hegemonicamente a produção do hemisfério norte, em detrimento da produção abaixo da linha do Equador! Ele fez um levantamento em diversas revistas, das obras que são mencionadas, apresentadas como significativas da produção arquitetônica contemporânea. E foi marcando com uma bolinha num mapa mundi a localização da tal obra. Tá lá: só dá hemisfério norte! E ele mostrou, com exemplos muito legais, que não é por falta de produção de qualidade do lado de baixo do Equador, mas por falta de valorização e divulgação dessa produção. E isso não é só no Brasil. Segundo o Fernando, falta uma maior comunicação e trocas entre arquitetos e urbanistas &#8211; vá lá &#8211; latinoamericanos. Nas revistas brasileiras saem artigos e críticas sobre obras brasileiras, européias, norteamericanas, alguma coisa asiática. Nas revistas colombianas saem sobre obras colombianas, européias, norteamericanas, asiáticas. Nas revistas argentinas, a mesma coisa. E assim em todo lado.</p>
<p>A partir daí, ele começou a mostrar arquitetos e arquiteturas desses países nossos vizinhos, e, veja bem, a audiência da palestra era quase toda de professores e estudantes de mestrado e doutorado de arquitetura (e alguns dos meus alunos da graduação que eu chamei também), e é impressionante que tantos nomes que ele citou nós simplesmente nunca tínhamos ouvido falar, ou mal conhecíamos o nome. Entre tantos edifícios e intervenções urbanas de qualidade, um traço comum: o uso maciço do concreto, do tal &#8220;cimento feroz&#8221;, algumas vezes com rara poesia e leveza.</p>
<p>Vou mencionar apenas alguns (deixei os brasileiros de fora dessa vez, e ele mostrou projetos ótimos também) e fazer vocês irem pesquisar a respeito:</p>
<p><a href="http://www.rafaeliglesia.com.ar/first-E.htm" target="_blank">Rafael Iglesia</a> (Argentina), que diz que nós não temos História, mas Geografias, porque estamos sempre fazendo tabula rasa para novos experimentos;<br />
<a href="http://www.worldarchitecture.org/world-architects/index.asp?worldarchitects=architectdetail&amp;country=Mexico&amp;no=3" target="_blank">Alberto Kalach</a> (México);<br />
<a href="http://www.arqsaez.com/" target="_blank">José Maria Saez</a> (Equador);</p>
<div id="attachment_837" class="wp-caption aligncenter" style="width: 600px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg"><img class="size-full wp-image-837" title="montagem-latino" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/montagem-latino.jpg" alt="" width="590" height="564" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, à esquerda, uma escada maravilhosa de Iglesia, que não usa um único prego, só encaixe. Ao lado, a Biblioteca Nacional, do Kalach, no México. Abaixo, também do Kalach, a casa que está na página de abertura do seu site</p></div>
<p><a href="http://www.alejandroaravena.com/" target="_blank">Alejandro Aravena</a> (Chile): gostei muito de um projeto que foi mostrado, de habitação social, batizado de <a href="http://www.elementalchile.cl/viviendas/quinta-monroy/quinta-monroy/" target="_blank">Elemental</a>, que usa alguns blocos-padrão, modulares, intercalados com espaços livres que permitem que cada família construa o restante da unidade conforme suas necessidades (e possibilidades), gerando uma diversidade formal muito rica e interessante.</p>
<div id="attachment_838" class="wp-caption aligncenter" style="width: 790px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg"><img class="size-full wp-image-838" title="Alejandro-Elemental-quintamoroy" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/Alejandro-Elemental-quintamoroy.jpg" alt="" width="780" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Casas em Quinta Monroy, no Chile, nessa &quot;metodologia&quot; do Elemental, que permite arranjos posteriores diferentes com maior flexibilidade para os moradores. </p></div>
<p>Em todos os projetos apresentados, havia uma preocupação de melhoria e valorização do espaço público como estratégia para um melhor exercício da cidadania. E sobretudo, uma enorme confiança na arquitetura, no espaço construído, como elemento impactante nessa transformação. A premissa é de que ao construir creches, escolas, postos de saúde, praças, conjuntos habitacionais de grande qualidade formal e espacial você está, de certa forma, &#8220;educando&#8221; as novas gerações, oferecendo a possibilidade delas incorporarem novos parâmetros de qualidade, que as tornem mais críticas e exigentes no futuro. Isso é genial.</p>
<p>Eu achei espetacular saber que, na Colômbia, por exemplo, há uma lei que obriga todo projeto em terreno público, com mais de 5000 m2 de área construída, a ser alvo de concurso público. E tá certo. Isso provoca uma profunda renovação na arquitetura local, e contribui de maneira fundamental para a melhoria dos nossos referenciais construtivos. Estimula talentos novos, revigora o ensino, alavanca a pesquisa e o investimento em novas tecnologias, diversifica a paisagem urbana, favorece o controle e a fiscalização dos gastos públicos com as obras. Já pensou isso aqui, no Rio, no Brasil, com as obras da Copa e das Olimpíadas? Com a requalificação da área portuária? Nós só teríamos a ganhar, eu tenho certeza!</p>
<p>&#8212;&#8212;- x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212; x &#8212;&#8212;</p>
<p>Umas rapidinhas, pra fechar por hoje:</p>
<p>- imperdível o <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/2010/08/29/campanha-incentivando-violencia-contra-candidata/" target="_blank">post da Cynthia</a>, no blog <a href="http://sexismonapolitica.wordpress.com/" target="_blank">Sexismo na política</a>. É pra ser lido e divulgado. Longe de ser uma brincadeira, o teor da malfadada campanha é de um mau gosto grotesco e revela o quanto a violência contra a mulher continua um assunto sério e descuidado no país. E não se trata de uma defesa partidária, nem de falta de humor. É muito mais grave e amplo do que isso.</p>
<p>- ainda sobre política, um aviso importantíssimo: não se esqueçam que, este ano, para poder votar, não basta levar o título de eleitor à seção eleitoral. É <strong>OBRIGATÓRIO</strong> levar <strong>TAMBÉM</strong> um <strong>DOCUMENTO DE IDENTIDADE, OFICIAL, COM FOTO! </strong>Ou seja, são <span style="color: #ff0000;"><strong>DOIS DOCUMENTOS:</strong></span> o título e a identidade. Serve a carteira de identidade propriamente, passaporte, carteira de trabalho, carteira de habilitação, mas tem que ter foto. Divulgue essa notícia entre todos os seus conhecidos. Não vamos perder votos por causa disso, gente!</p>
<p>(nem vou entrar no mérito do quão &#8220;oportuna&#8221; é essa lei, e do quanto ela provavelmente vai punir os eleitores mais humildes, que muitas vezes não têm documentação completa, e o pessoal das cidades mais do interior, para quem, talvez, essa informação nem seja suficientemente divulgada. Olho vivo)</p>
<p>- fechando com mais política e cidade: ao escolher seus candidatos, se possível, avalie também a posição deles em relação aos nossos principais temas urbanos: habitação, saneamento, mobilidade e acessibilidade, sustentabilidade, educação. De preferência, do ponto de vista da maior inclusão social possível, democratizando o acesso do maior número de pessoas a esses bens e serviços, e que eles tenham mais qualidade, em todos os sentidos.</p>
<p>- agora é pra fechar, mesmo. Por falar em mobilidade e cidadania, não posso deixar de recomendar, também, veementemente, o<a href="http://mateipormenos.apostos.com/2010/08/26/antes-morrer-de-bicicleta/" target="_blank"> post da Juliana</a>, sobre a banalização da morte de pedestres por atropelamentos. No mesmo assunto, sempre tem textos interessantíssimos no<a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/" target="_blank"> Apocalipse Motorizado</a>, como <a href="http://www.apocalipsemotorizado.net/2009/01/12/a-maioria-silenciosa/" target="_blank">esse daqui</a>, do ano passado.</p>
<p>Volto já, até daqui a pouco.</p>
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		<title>Um contraponto</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/05/23/um-contraponto/</link>
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		<pubDate>Sun, 23 May 2010 17:12:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília]]></category>
		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>
		<category><![CDATA[parabéns]]></category>

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		<description><![CDATA[<p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_780" class="wp-caption alignleft" style="width: 273px"><a href="http://instinctalternative.blogspot.com/2010/04/artigo-brasilia-50-anos-feliz.html"><img class="size-medium wp-image-780" title="16 abr 1960" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/16-abr-1960-263x300.jpg" alt="" width="263" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Brasília - vista do Eixo Rodoviário - ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abr 1960</p></div>
<p>Falamos sobre a cidade de Salvador, em seu período colonial, aí no post de baixo. E eu me dei conta de que não comentei até agora uma efeméride importantíssima , que é o aniversário de <strong>50 anos de Brasília</strong>, nossa capital idealizada e construída sob a égide do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo" target="_blank">Movimento Modernista</a>.</p>
<p>Antes de qualquer outra coisa, quero saudar os candangos, o povo todo que faz de Brasília, entendida em sua totalidade e não apenas reduzida a seu Plano Piloto, uma cidade realmente especial, múltipla, com tanto a nos ensinar. Quero dizer que, como arquiteta e urbanista, considero Brasília um momento importantíssimo na história do planejamento urbano, tanto no Brasil quanto no mundo, e um laboratório sem igual para a análise e o aprendizado de modelos, propostas, soluções. Repudio a redução que muita gente faz de Brasília, como se a cidade se resumisse às mazelas da classe política que mal e mal habita seu território quando comparece às sessões do Congresso.  Brasília é muito mais do que o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, o Palácio da Alvorada, o Senado e a Câmara, muito mais inclusive que as superquadras imaginadas por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%BAcio_Costa" target="_blank">Lúcio Costa</a>. Brasília é também Taguatinga, Gama, Sobradinho, Planaltina, Ceilândia, é todo o povo que foi trabalhar na sua construção, saído de tudo que é lugar do Brasil, e que não foi considerado na hora de prever habitação para todos. O povo e seus descendentes que ficaram ali, em volta do Plano Piloto, e que hoje demandam serviços públicos, equipamentos de saúde, educação, lazer, infra-estrutura, transporte coletivo.</p>
<div id="attachment_786" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><a href="http://doc.brazilia.jor.br/Cidades.htm"><img class="size-full wp-image-786" title="DF-ampliado" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/DF-ampliado2.jpg" alt="" width="700" height="456" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de satélite, de 1990, mostrando a ocupação em torno do Plano Piloto</p></div>
<p>Brasília é uma conquista imensa para o Brasil. O Rio de Janeiro pode ter tido perdas consideráveis com a mudança da capital, e até hoje se ressente do esvaziamento que isso causou, embora eu acredite que esteja mais do que na hora de superar isso e olhar pra frente, ocupar seu lugar no país. Um país como o Brasil tem espaço para o destaque e a importância de muitas cidades. Sem dúvida que a interiorização da capital levou crescimento às áreas centrais do território brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento de Goiânia, de Belo Horizonte, do Triângulo Mineiro, de partes do Nordeste, entre tantas outras regiões ao longo do eixo que liga Brasília aos centros de poder econômico do sudeste.</p>
<p><a href="http://www.nosrevista.com.br/2010/03/23/o-cinquentenario-de-brasilia-df/"><img class="alignleft size-medium wp-image-782" title="brasiliamapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/brasiliamapa-300x276.jpg" alt="" width="300" height="276" /></a>Sobre a análise do traçado de Brasília, os princípios funcionalistas de sua concepção, e até sua arquitetura, que inclui alguns ícones da produção de <a href="http://www.niemeyer.org.br/" target="_blank">Oscar</a> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Oscar_Niemeyer" target="_blank">Niemeyer</a>, numa fase de apogeu do mestre, e todas as suas consequências, hoje, para a integração e desenvolvimento democrático do conjunto do Distrito Federal, eu vou sugerir dois livros e uma visita. Os livros são:</p>
<p><a href="http://books.google.com.br/books?id=8fYRTXWG5cYC&amp;printsec=frontcover&amp;dq=A+cidade+modernista,+James+Holston&amp;source=bl&amp;ots=4OA6sQ8npz&amp;sig=_I_nawSA_-67LPekDloP6qzUJnY&amp;hl=pt-BR&amp;ei=B1j5S-HIDImmuAfCh_W9Dg&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=1&amp;ved=0CBgQ6AEwAA#v=onepage&amp;q&amp;f=false" target="_blank"><strong>A cidade modernista: uma crítica de Brasília e sua utopia</strong></a>, de James Holston, publicado pela Companhia das Letras, em 1993.<br />
<a href="http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/33/textos/931/" target="_blank"><strong>O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital</strong></a>, de Milton Braga, publicado pela Cosac Naify, este ano.</p>
<p>Claro que há inúmeros outros livros maravilhosos, eu destaquei esses dois porque o primeiro eu tenho e gosto muito dele, por incorporar uma análise que privilegia a questão da cidadania e da inclusão das várias Brasílias, numa perspectiva contemporânea, ao mesmo tempo que não descuida da história, das teorias e até das polêmicas que envolveram o concurso e a adoção daquele modelo específico. O segundo, porque foi recém-lançado, eu estou louca para comprar, e apresenta os outros projetos que participaram do concurso, com autoria de gente grande como os <a href="www.docomomo.org.br/seminario 6 pdfs/izaga-docomomo-2005-MMM.pdf" target="_blank">irmãos Roberto</a> (excelente artigo em pdf), <a href="http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.014/3223" target="_blank">Rino Levi </a>e <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista_Vilanova_Artigas" target="_blank">Villanova Artigas</a>, o que nos permite fazer comparações e até especulações interessantes.</p>
<p>A visita, imperdível para quem mora ou está no Rio, é à exposição<strong> As construções de Brasília</strong>, em cartaz no <a href="http://ims.uol.com.br/" target="_blank"><strong>Instituto Moreira Sales</strong></a>, na Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 476, telefone 2274-2149), em cartaz até o final de julho, com entrada franca e visitas guiadas de 3a a 6a feira, sempre às 17 horas. Esta semana, entre os dias 24 e 28 de maio, acontece também um <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=312" target="_blank">Seminário</a> que complementa a exposição. No <a href="http://ims.uol.com.br/Cinema/D17/P=303" target="_blank">site</a> do Instituto haverá outras informações sobre horários e endereço exato. Eu já combinei de ir sexta agora com uma amiga, no fim da tarde.</p>
<p>Uma das nossas primeiras colunas do <strong>Cidades Literárias</strong> foi justamente sobre Brasília, numa crônica de <strong>Clarice Lispector</strong>, vale a pena <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/19/cidades-literarias-clarice-lispector/" target="_blank">reler</a>.</p>
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		<title>Novidades</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/04/18/novidades/</link>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 14:29:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo  </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':-D' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento de aulas (e até no doméstico) e a uma desorganização geral da rotina. Aproveitei para escrever umas coisas que estavam atrasadas e que eu tinha prazo pra entregar. Aí, nesta semana que se encerrou havia entrega de trabalhos em quase todas as minhas turmas, o que quer dizer pilhas de coisas para corrigir, além de uma ansiedade extra, ligada à novidade a que eu me referi aí no título.</p>
<p>É que abriu um concurso para professor substituto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu me inscrevi. Muitos candidatos bons (eu dei uma olhada na lista e conhecia vários pelo nome, colegas com quem eu já trabalhei ou estudei) e um processo sumário: a banca faz uma análise do currículo e chama os que ela considera os melhores para a entrevista. Eu já participei de um concurso desses, dois anos atrás, e fiquei em segundo lugar, mas era uma vaga única e eu fiquei de fora. A inscrição foi na segunda, a entrevista foi na quinta e o resultado saiu na própria quinta de noite. Fui chamada para a entrevista (eu e mais 13 candidatos), que se revelou, na verdade, uma verdadeira arguição oral, clima de avaliação mesmo. Se eu soubesse que seria assim, talvez tivesse estudado, mas juro que não me preparei nesse sentido. Mesmo assim, devo ter me saído bem, porque, desta vez, <span style="text-decoration: underline;">eu passei</span>!</p>
<p>Estou feliz da vida e começo nesta segunda-feira (amanhã), provavelmente assumindo turmas de História da Cidade e do Urbanismo. A gente nem sempre se dá muito conta de como esses processos de seleção são emocionalmente cansativos. Depois que a Chefe de Departamento me telefonou, quinta de noite, para dar o meu resultado e me convocar para a reunião de amanhã, eu estava numa descarga de adrenalina tão grande que dormi agitada. Aí, na sexta, quando eu achei que finalmente teria tempo de vir aqui, acabei dormindo a tarde quase toda&#8230;</p>
<p>Enfim, bola pra frente. As disciplinas que eu lecionarei abarcarão, entre outros períodos, o século XIX, que é alvo do que eu pretendo estudar num possível (e, tomara que em breve) doutorado. Daí que eu tenho lido e estudado um pouco sobre o assunto. Esses dias, revendo livros e textos sobre os tratados e utopias que propõem cidades ideais, que proliferaram a partir do século XV, e se estendem, com características e premissas um pouco diferentes, até o século XIX, me deparei com o projeto d&#8217;<strong>A Cidade Industrial</strong>, do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier" target="_blank">Tony Garnier</a> (que na verdade é do início do século XX, tendo sido apresentado pela primeira vez em 1904). Dá uma espiada no que ele diz, que eu comento em seguida:</p>
<p><em></p>
<div id="attachment_767" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><em><a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html"><img class="size-medium wp-image-767" title="Garnier-planta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/Garnier1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></em><p class="wp-caption-text">Zoneamento por usos na cidade de Tony Garnier</p></div>
<p>“Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximidade de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como energia, ou a conveniência dos métodos de transporte. Em nosso caso, o fator determinante para a localização da cidade é o afluente que é a fonte de energia; também existem minas na região, mas poderiam estar situadas mais adiante. O afluente está represado; uma usina hidrelétrica distribui energia, luz e calor par as fábricas e para a cidade toda. As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluente. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade, estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul</em> (NOTA: ele está falando no hemisfério norte, em que esta é a fachada mais ensolarada, ao contrário do hemisfério sul, em que a fachada que toma sol é a norte). <em>Cada um desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar possível sua expansão.</em></p>
<p><em>(&#8230;) Os estudos sobre o programa mais satisfatório para as necessidades morais e materiais dos indivíduos resultou no estabelecimento de regras a respeito do uso das estradas, da higiene, etc.; o pressuposto é o de que um certo progresso da</em> <em>ordem social que resultou na adoção automática dessas regras já foi alcançado, de modo que não será necessário decretar as leis efetivas. A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição da água, pão, carne, leite e suprimentos médicos, bem como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder público.”</em></p>
<p style="text-align: right;">(Tony Garnier: Prefácio a Une Cité Industrielle,<br />
retirado de FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997)</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/"><img class="aligncenter size-full wp-image-768" title="GarnierCidadeIndustrialPerspectiva" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/GarnierCidadeIndustrialPerspectiva.jpg" alt="" width="500" height="258" /></a></p>
<p>Observe que essa proposta se alinha com o pensamento dito progressista (dito, por exemplo, por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Choay" target="_blank">Françoise Choay</a>, em seu livro<strong> O Urbanismo</strong>), de final do século XIX-início do XX, que acreditava MESMO que a indústria, a máquina, traria as soluções para uma cidade melhor. Melhor aqui quer dizer mais limpa, organizada, racional, higiênica, ordenada, próspera, veloz. A produção em massa baratearia custos e todos teriam acesso a todos os bens necessários – e isso inclui carros, para proporcionar a mobilidade requerida nesta cidade de avenidas largas e funções separadas em áreas distintas da cidade. Eu não tenho dúvidas (isso está escrito em mais de um livro, hohoho) de que <a href="http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm" target="_blank">Le Corbusier</a> leu e foi influenciado por Tony Garnier. Se você reparar bem, a semente da cidade modernista, funcionalista, já está toda aí.</p>
<p>O que eu proponho a gente pensar é: quais desses paradigmas ainda estão vigentes, hoje, mais de um século depois? Esse modelo ainda nos serve? O que deu certo? O que deu errado? Quais seriam os &#8220;fatores determinantes&#8221; para uma cidade do século XXI? Que modelos ou propostas temos hoje para nossas cidades, diante das condições e perspectivas que estão colocadas diante de nós?</p>
<p>Vão pensando e escrevendo, que eu já volto.</p>
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		<title>Affonso Eduardo Reidy</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/</link>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 17:07:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[arquitetura]]></category>
		<category><![CDATA[homenagem]]></category>
		<category><![CDATA[Modernismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY">Eu tinha outros temas na fila, mas relendo os comentários postados aqui no último post, especialmente os de estudantes de arquitetura e colegas de profissão achei que já estava passando da hora de escrever sobre este arquiteto brilhante, cujo centenário de nascimento se comemora este ano, e para quem eu não tenho visto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US">Eu tinha outros temas na fila, mas relendo os comentários postados aqui no último post, especialmente os de estudantes de arquitetura e colegas de profissão achei que já estava passando da hora de escrever sobre este arquiteto brilhante, cujo centenário de nascimento se comemora este ano, e para quem eu não tenho visto tantas homenagens quanto deveria. </span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Olha que eu nem sou uma modernista de carteirinha. Eu sempre brinco com isso, ao me definir com um pé no Barroco, porque eu já gosto de um ornamento, um friso aqui, uma voluta acolá. Mas não tem como a gente não reconhecer valor e admirar a elegância, a pureza das linhas e formas, o rigor técnico e estético de obras exemplares da produção de Reidy, como o Conjunto Residencial Pedregulho e o Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, pra ficar só entre as mais famosas. E a gente tem falado tanto aqui sobre a inserção da arquitetura na cidade, o respeito ao entorno, às condições de conforto ambiental e o papel social da arquitetura, aspectos em que Reidy – esse cara que a história trata com a mesma discrição que ele teve em vida – foi mestre imbatível. Ele é a prova de que é possível, sim, fazer uma arquitetura bela e arrojada e ao mesmo tempo voltada prioritariamente para o bem-estar das pessoas que vão usá-la, vê-la, passar por ela, para o bem-estar, em última instância, da cidade em que ela se insere e dos cidadãos que nela vivem.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US"> </span></span></span></p>
<div id="attachment_601" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://daniname.files.wordpress.com/2009/10/reidy-mam.jpg"><img class="size-medium wp-image-601" title="reidy-mam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/reidy-mam-300x206.jpg" alt="O arquiteto e o MAM" width="300" height="206" /></a><p class="wp-caption-text">O arquiteto e o MAM</p></div>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US"><strong>Affonso Eduardo Reidy</strong> nasceu em 1909, em Paris, filho de pai inglês e mãe brasileira, e em 1930 formou-se em Arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde recebeu, como todos os outros seus contemporâneos, uma formação acadêmica e tradicional. Mas cedo teve contato com o pensamento de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_Corbusier">Le Corbusier </a>e com as propostas dos arquitetos racionalistas da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Bauhaus" target="_blank">Bauhaus</a>, que tiveram grande impacto em sua vida e obra. </span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Por opção própria e singular, <span lang="en-US">Reidy trilhou a carreira pública, onde ingressou recém-formado, por concurso, trabalhando como arquiteto da Prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, por mais de 30 anos. Ficou à margem da especulação imobiliária, e jamais projetou palácios ou obras suntuosas, consciente e defensor da enorme responsabilidade social da arquitetura. Foi estagiário, e depois, assistente do urbanista francês Alfred Agache, convidado pela prefeitura do Rio, em 1929, para a elaboração de um Plano Diretor para a cidade; foi professor da Faculdade Nacional de Arquitetura  e ganhador de diversas medalhas e prêmios desde o início da carreira. Seu trabalho começa a ter projeção quando ganha o primeiro prêmio no concurso público para o projeto do Albergue da Boa Vontade, que viria a ser o seu primeiro projeto construído. Era um projeto audacioso, em que aparecem as características funcionalistas que marcaram os primeiros trabalhos de Reidy na prefeitura, priorizando aspectos construtivos e buscando praticidade, conforto e  economia, em detrimento da ostentação e ornamentação excessivas.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US"> </span></span></span></p>
<div id="attachment_602" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://www.rioquepassou.com.br/2006/09/29/albergue-da-boa-vontade/"><img class="size-medium wp-image-602" title="BoaVontade" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/BoaVontade-300x254.jpg" alt="Linhas bem afinadas com a Bauhaus, e um flerte com o Art Decô" width="300" height="254" /></a><p class="wp-caption-text">Linhas bem afinadas com a Bauhaus, e um flerte com o Art Decô</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US">Até 1935 realizou alguns dos seus raros projetos de residências, e algumas escolas, sendo importante mencionar uma escola rural primária, em Ricardo de Albuquerque, por ter sido a primeira construção dirigida pela também engenheira municipal <a href="http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq015/arq015_00.asp" target="_blank"><strong>Carmem Portinho</strong></a>, que se tornou sua companheira e presença marcante em toda a sua carreira. Essa parceria com Carmem  me é particularmente cara, porque de alguma forma fala também de um homem com arroubos feministas, o que só faz crescer minha admiração por ele. Portinho foi a terceira mulher a se formar engenheira no país, em 1926, e teve participação importante nos primeiros movimentos feministas organizados no Brasil, ainda nos anos 20. Ela era mais velha que ele 6 anos, e faleceu em agosto/2001, aos 98 anos de idade. A dupla que fez com Reidy no <strong>Departamento de Habitação Popular </strong>nos legou algumas das mais importantes obras da arquitetura brasileira. </span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US"> </span></span></span></p>
<div id="attachment_604" class="wp-caption aligncenter" style="width: 540px"><a href="http://www.vitruvius.com.br/.../arq074/arq074_01.asp"><img class="size-full wp-image-604" title="residenciaCarmemPortinho2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/residenciaCarmemPortinho2.jpg" alt="Residência Carmem Portinho, no Bairro de Jacarepaguá, 1950" width="530" height="299" /></a><p class="wp-caption-text">Residência Carmem Portinho, no Bairro de Jacarepaguá, 1950</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Reidy participou, nos anos 30, da equipe que elaborou o projeto do Ministério da Educação, situado na Esplanada do Castelo, e marco na arquitetura modernista no Brasil, junto com colegas igualmente jovens como Lúcio Costa,  Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, o que contribuiu para lhe dar grande projeção profissional.<br />
</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"> </span></span></p>
<div id="attachment_608" class="wp-caption alignleft" style="width: 360px"><a href="http://www.aguaforte.com/antropologia/weblog/2008/11/conjunto-pedregulho-de-afonso-eduardo.html"><img class="size-full wp-image-608" title="pedregulho-comp" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/pedregulho-comp.jpg" alt="Conjunto Residencial do Pedregulho, um marco na Arquitetura Moderna no Brasil" width="350" height="420" /></a><p class="wp-caption-text">Conjunto Residencial do Pedregulho, um marco na Arquitetura Moderna no Brasil</p></div>
<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Entretanto, foi seu próximo trabalho que o alçou à posição de um dos grandes arquitetos no mundo. De 1947 a 1958, Reidy se dedicou ao projeto e construção do Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, conhecido como Pedregulho, em São Cristóvao, pelo Departamento de Habitação Popular* da prefeitura. O objetivo do projeto era oferecer moradia digna a famílias de baixa renda, em local próximo ao trabalho, e seguiu conceitos revolucionários e inovadores para a época, desde a concepção plástica, a adequação à topografia acidentada até o programa proposto, que incluía quatro blocos de habitação, com lavanderia comunitária, escola primária, ginásio, piscina e campos de jogos ao ar livre, mercado e posto de saúde. O paisagismo era de Burle Marx e os painéis de mosaicos de azulejo e pintura eram de Burle Marx, Cândido Portinari e Anísio Medeiros. O que havia de melhor, em recursos humanos e materiais, foi reunido para executar uma obra que atenderia à classe trabalhadora. O projeto ganhou o primeiro prêmio na Bienal Internacional de São Paulo e tornou-se um dos projetos brasileiros mais divulgados no exterior, até hoje.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Durante esse período, ele ainda coordenou o Plano de Urbanização do Centro da Cidade, que compreendia o Plano para a Esplanada de Santo Antônio, com o desmonte do morro, e o Aterro do Flamengo, projeto só retomado muitos anos depois. Elaborou também o projeto do Conjunto Residencial da Gávea, nos moldes do Pedregulho, e que foi posteriormente mutilado e descaracterizado pela construção da autoestrada Lagoa-Barra.</span></span></p>
<div id="attachment_609" class="wp-caption aligncenter" style="width: 620px"><a href="http://www.rioquepassou.com.br/2005/07/21/av-norte-sul-ii/"><img class="size-full wp-image-609" title="EsplanadaStoAntonio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/EsplanadaStoAntonio.jpg" alt="Estudos para o projeto da nova Esplana de Santo Antônio" width="610" height="212" /></a><p class="wp-caption-text">Estudos para o projeto da nova Esplana de Santo Antônio</p></div>
<div id="attachment_610" class="wp-caption aligncenter" style="width: 615px"><a href="http://arquiteturabrasileirav.blogspot.com/2008_11_01_archive.html"><img class="size-full wp-image-610" title="Gavea" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/Gavea.jpg" alt="A proposta original de Reidy para o Conjunto da Gávea, ali perto da PUC, e como é hoje, com a autoestrada Lagoa-Barra passando por baixo do edifício" width="605" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">A proposta original de Reidy para o Conjunto da Gávea, ali perto da PUC, e como é hoje, com a autoestrada Lagoa-Barra passando por baixo do edifício</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">A partir de 1954, Reidy dedicou-se ainda a outro projeto que se tornou um dos marcos da cidade: o Museu de Arte Moderna. Sua estrutura elegante e sua brilhante inserção na paisagem da Baía de Guanabara e no Centro da Cidade se tornaram referência e fonte de estudo obrigatória para todos os estudantes, além de ser, para os moradores da cidade, uma enorme fonte de prazer estético e um justificado motivo de orgulho.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Seu último trabalho, antes de nos deixar, aos 55 anos, vítima de câncer, foi a participação, como coordenador de urbanismo, do grupo que construiu o Aterro do Flamengo, presidido por Carlota Macedo de Soares. Além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coreto, oficinas e edifícios administrativos.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"> </span></span></p>
<div id="attachment_611" class="wp-caption aligncenter" style="width: 710px"><img class="size-full wp-image-611" title="MAM-Aterro" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/11/MAM-Aterro.jpg" alt="O MAM e o Aterro, presentes de Reidy para o Rio de Janeiro e o Brasil" width="700" height="238" /><p class="wp-caption-text">O MAM e o Aterro, presentes de Reidy para o Rio de Janeiro e o Brasil</p></div>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Nós poderíamos dizer que sua maneira de trabalhar consiste para nós, estudantes, arquitetos e cidadãos em geral, numa verdadeira aula. Sua dedicação a cada etapa do projeto e da obra, seu apuro técnico, seu rigor, são motivos suficientes de reverência. Mas a grande lição que aprendemos aqui é de outra ordem. Nós vemos – e temos falado aqui toda hora –  tanta improbidade no uso do dinheiro público, tanta obra superfaturada, ou caindo aos pedaços por economia nos materiais e estrutura, visando a maiores lucros, que é um alívio e &#8211; visto com os olhos cansados e descrentes de hoje &#8211; quase um milagre que um homem como este tenha existido.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Pode-se discordar de certos pontos ideológicos ou formais, pode-se enxergar (olha o cinismo aí)  algo de utópico ou ingênuo na crença radical que ele tinha de poder mudar ou melhorar a sociedade com seus projetos, mas tem-se que respeitar a coerência entre pensamento e ação, a correção de caráter que norteava suas atitudes e trabalhos, a competência profissional com que planejava e executava cada obra, e, talvez mais importante que tudo, a coragem com que ofereceu sua contribuição, com toda a responsabilidade que isso acarreta, quando seria tão mais cômodo juntar-se ao côro dos que só criticam, sem nada apresentar em troca.</span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" lang="en-US" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;">Affonso Eduardo Reidy é o alerta constante, que não nos deixa desviar a atenção do verdadeiro sentido e função do arquiteto: servir a toda a sociedade, porque nosso trabalho atinge a todos, e não pode se limitar à glória da execução dos grandes edifícios, de impacto internacional. Mesmo porque a história ensina que o que é material passa, desmorona. O verdadeiro valor da arquitetura não está aí, mas no que se agrega ao que há de mais humano em nós: o afeto, a memória, o abrigo. E antes que alguém imagine que esta homenagem está impregnada de um sentimento de lamentação do tipo </span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US">&#8220;olha como era bom, isso não existe mais&#8221;, quero reafirmar que isto é, antes, uma tentativa de acender um farol de esperança do tipo &#8220;olha o que eu acredito que nós podemos voltar a fazer&#8221;.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US"> Por fim, s</span></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: medium;"><span lang="en-US">e pudéssemos sintetizar Reidy em poucas palavras, usaríamos as que o historiador Geraldo Ferraz pronunciou em 1964, por ocasião de sua morte: <em>&#8220;Correção, cavalheirismo, finura, sensibilidade &#8211; e tudo com uma franqueza de palavras e gestos, uma contida maneira de estar sempre entre humildes e poderosos, sem causar ressentimento a uns ou demonstrar submissão a outros. O gentil-homem da arquitetura brasileira, eis o que ele era&#8221;.</em></span></span></span></p>
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<p style="margin-bottom: 0in;" align="JUSTIFY"><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><span lang="en-US">* Sobre o trabalho do <strong>Departamento de Habitação Popular</strong> no Rio, eu recomendo o livro <strong>Entre a estética e o hábito: o Departamento de Habitação Popular, Rio de Janeiro, 1946-1960</strong>, escrito pela arquiteta, historiadora e minha queridíssima amiga <strong>Flávia Brito do Nascimento</strong>, publicado ano passado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, dentro da coleção Biblioteca Carioca. Vários dos dados e imagens aqui utilizados foram retirados do belíssimo livro <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, uma edição bilíngue muito caprichada e diria até que obrigatória para o pessoal da área, organizada por Nabil Bonduki e publicada pelo Editorial Blau e Instituto Lina Bo e P. M. Bardi.</span></span></span></p>
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