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	<title>Urbanamente &#187; natureza</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Indo além e mais fundo</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Apr 2010 17:35:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o Sakamoto, apontando ainda que “demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Passado o meu momento de “lamúrio de quem fica preso no trânsito”, como disse muito bem o <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">Sakamoto</a>, apontando ainda que <em>“demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos tem se a certeza de que ainda existe uma casa para voltar”</em>, e – confesso – depois de uma longa e confortável noite de sono, eu gostaria de tentar ir além da questão “nós jogamos lixo na rua e isso entope os bueiros”. Tá, educação é fundamental, mas a gente pode ir mais fundo e analisar questões mais estruturais na nossa cidade. Ponderando, algumas coisas me vieram à cabeça. São reflexões de primeiro momento, eu não aprofundei, não pesquisei dados, mas também não quis deixar passar o instante. Como eu já disse hoje por e-mail pra alguns amigos, a televisão tá cheia de análises altamente instrutivas feitas por todo tipo de especialista. Mas assim que secar tudo e voltar a fazer sol, voltamos à rotina e ninguém fala mais nisso, até a próxima tempestade. Que virá, óbvio.</p>
<ol>
<li>A primeira coisa é que eu tenho 	visto muita gente falando alarmada sobre os efeitos do aquecimento 	global. Não sei disso, não. Pra mim, que não estudo isso e posso 	estar dizendo asneira, e do ponto de vista estrita (e estreitamente) 	relativo da minha curta experiência pessoal, os padrões de mudança 	de estação parecem estar se alterando mesmo. As famosas águas de 	março há algum tempo viraram águas de abril, o verão começa pra 	valer mais tarde e se estica mais, essas coisas. Os arautos da 	catástrofe iminente também anunciam que tudo está ficando mais 	intenso em todo o mundo, terremotos, furacões, tempestades. Numa 	escala de tempo mais &#8230; planetária, digamos assim, eu não saberia 	dizer se é isso mesmo. Vejam bem, eu não estou negando os efeitos 	tantas vezes danosos da ação do homem sobre o equilíbrio de 	forças da natureza, mas acho que a gente devia ver essa questão é 	pelo outro lado. Explico. Eu não sei se (ou quanto) os nossos 	padrões de urbanização e ocupação do solo causam ou 	potencializam esses fenômenos, mas sei que nossos padrões de 	urbanização e ocupação do solo são grandemente responsáveis 	pelas consequências, isto é, pelo fato de nós sofrermos mais cada 	vez que uma chuva como essa acontece.</li>
<li>Eu estou vendo na televisão todo 	mundo falando da ocupação irregular das encostas e do risco que 	isso representa. Calma que chegaremos lá. Mas tem outro aspecto que 	quase ninguém fala, que é o da crescente impermeabilização do 	solo nas nossas cidades.  O ciclo da água prevê que uma parte 	significativa do volume de água que cai do céu precisa retornar ao 	lençol freático, mas a gente vai expandindo as cidades 	indefinidamente, asfaltando, cimentando, e a água não tem como 	escoar, acumulando-se mesmo. Aí quando o Código de Obras 	estabelece parâmetros de construção que limitam a ocupação do 	solo urbano a uma porcentagem da área do lote, eu ouço um monte de 	gente reclamando.  Ah, sim, e <a href="http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/11/02/camara-de-vereadores-aprova-peu-das-vargens-914575545.asp" target="_blank">querem expandir a cidade</a>, num padrão 	Barra da Tijuca, lá pros lados de Vargem Grande e Vargem Pequena. 	Afinal, a gente ainda tem muito espaço pra cimentar e cobrir de 	condomínio, shopping e avenidas largas. Não tem galeria de água 	pluvial que dê conta, gente, ponham isso na cabeça.</li>
<li>E já que falamos de ocupação 	irregular das encostas. Aquele noticiário que passa na tv antes da 	novela, com o casal bonitinho fazendo cara de consternado na 	bancada, tava ontem mostrando que grande parte do problema é a 	ocupação irregular  desordenada da cidade, o monte de barraco de 	pobre que se pendura irresponsavelmente nos morros da cidade. Aí 	mostra o governador dizendo que a prefeitura tem que ser dura, 	remover, e que não adianta, porque as pessoas insistem em morar aí 	e voltam pros mesmos lugares assim que pára de chover. Poupe-me. 	Insistem como se elas tivessem muita escolha (“vou morar nesse 	bairro com rede de água e esgoto”, deve dizer a mulher. “Ah, 	não, eu prefiro morar ali em cima naquela encosta bonita”, 	responde o marido). Claro que há ocupação irregular e sobretudo 	desordenada, não tem ninguém aqui defendendo que as pessoas devem 	continuar onde estão, sob risco constante, óbvio que as pessoas 	devem ter lugares dignos e seguros para morar, mas ninguém fala (ou 	não fala o suficiente) que a grande questão é que deve haver uma 	<strong>política habitacional</strong> séria e consistente, e não apenas esforços 	de remoção de meia dúzia na hora que tá tudo vindo abaixo. Como 	diz, de novo, o Sakamoto, <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/2010/04/06/estava-chovendo-em-sao-paulo-e-agora-no-rio-muito/" target="_blank">“considerando que quando há um problema 	urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um 	lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não 	me importa aonde”, é de se esperar também que a remoção deles 	de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de 	grandes protestos”</a>. <strong>Política habitacional séria, de verdade</strong>. 	Procurem por este item no programa dos candidatos em quem vocês 	pretendem votar esse ano.</li>
<li>Outra coisa que eu não aguento: 	tudo agora será apresentado em termos de glorificar ou culpabilizar 	as pessoas individualmente. É o heroísmo do cara que saiu de sua 	casa pra ajudar a resgatar o pobre-coitado, a solidariedade das 	pessoas que mandam donativos, o conjunto de dramas pessoais de quem 	perdeu casa, sofá, mercadoria, parente. Tudo com imagens impactantes e um fundo musical 	pungente. Tudo fica num plano midiático, fácil de explorar através 	da provocação de empatia ou indignação. Tratar o assunto 	individualmente não é solução.  O todo é muito maior do que a 	costura dos vários casos pessoais. É uma questão de <strong>política 	pública</strong>, de <strong>ação coordenada de planejamento</strong>. E mesmo a política 	habitacional mais extensa e eficiente não vai resolver a questão 	se nós continuarmos produzindo miséria, porque novos pobres e 	novos barracos surgirão. Mas é mais fácil situar o problema – e 	a solução – nos outros. Aí a gente chora, manda uns cobertores 	e mantimentos, bate palma pra coragem dos bombeiros, diz que a culpa 	é do prefeito (ou mesmo de quem joga lixo na rua, que nunca somos 	nós, claro) e pode tocar com a vida.</li>
<li>O Rio de Janeiro tem, sim, uma 	situação geográfica frágil, com o território ocupado por três 	grandes maciços rochosos, entre os quais existem faixas de terra 	estreitas, cuja ocupação, historicamente, se deu &#8211; em extensas áreas, principalmente do Centro da cidade &#8211; através do 	dessecamento de brejos e mangues e da construção de aterros. Isso 	explica muita coisa, mas não justifica. Um outro ponto que eu quero 	levantar pra quem teve paciência de ler até aqui, por exemplo, é como nós 	encaramos e tratamos os rios da cidade. A solução engenheirística 	clássica, há mais de século, é retificar o traçado dos rios e 	encaixotá-los em canais concretados, com avenidas de ambos os lados. 	Canal do Mangue, na Presidente Vargas, Francisco Bicalho, Av. 	Maracanã, Av. Visconde de Albuquerque, Av. Paulo de Frontin, quem 	lembra de mais algum? Tem aos montes. Ou então simplesmente cobrir 	o rio, transformando-o em galeria subterrânea. Alguém lembra que o 	Rio Carioca nasce ali em Santa Teresa e atravessava originalmente 	tudo o que hoje é Cosme Velho e Laranjeiras, para desaguar na Praia 	do Flamengo? Ele continua lá, sob as ruas desses bairros. Os rios e 	cursos d&#8217;água têm , além do seu leito “normal”, o que nós 	chamamos de leito inundável, que também é normal, e que é a 	área, para além de sua margem, sujeita a inundação em 	determinados momentos, por questões de maré ou de ciclos de chuva. 	Mesmo rios saudáveis e sem lixo ou esgoto, transbordam em situações 	extraordinárias e é possível calcular esse volume extra e se 	preparar para ele. Mas a gente não respeita as faixas marginais, 	acha exagero, reclama. Não só a população mais pobre constrói 	suas casas “em cima” dos rios e canais, mas a cidade formal 	também dá as costas aos rios, asfalta suas margens, considera-o um 	entrave. Depois, reclama da violência das águas. Não é o rio que 	é violento e transborda, nós é que somos violentos com o rio ao 	aprisioná-lo em galeria cimentada e não respeitar seus ciclos. Os 	canais viram esgotos e os rios são percebidos como obstáculo, como 	problema urbano. É preciso mudar essa mentalidade e propor 	tratamentos paisagísticos diferentes, projetos que incluam os rios 	de maneira favorável à cidade, ao lazer, e, por que não, ao 	escoamentos das águas de chuva (mas sem fazer ciclovias 	me-engana-que-eu-gosto como essa <a href="http://guaciara.wordpress.com/2010/03/23/a-ciclovia-da-merda/" target="_blank">aqui </a>de São Paulo, por favor).</li>
<li>Por fim e não menos importante, 	nós, definitivamente, temos carros demais nessa cidade. E eles 	foram os protagonistas de diversas manchetes e imagens de desolação. 	São os carros boiando, sendo abandonados, ficando presos em 	engarrafamentos monstruosos, tendo que ser rebocados, cheios de 	lama, no dia seguinte. Eu sei, eu estava de carro também. E embora 	eu estivesse em local relativamente seguro (não fiquei alagada ou 	submersa, não tive que ser resgatada de bote) e seco, minha 	mobilidade era zero. Tá certo, o transporte público também deu um 	nó. É um volume de água, uma intensidade de fenômeno que afeta a 	todos e inviabiliza qualquer deslocamento. Se eu estivesse de 	ônibus, por exemplo, teria ficado mais desconfortável ainda, ou teria 	que colocar meus lindos pezinhos na água imunda se quisesse sair 	dali, mas poderia sair. Ontem mesmo me lembrei ou fui lembrada de 	diversos amigos queridos que moram ali, do lado de onde eu estava, a 	poucos metros mesmo. Se eu estivesse de ônibus, poderia ter descido 	e ido a pé, e teria passado a noite seca e confortável, teria 	jantado, teria abrigo e boa companhia. De carro, precisei ficar 	apegada a este bem material que não podia abandonar no meio da rua 	simplesmente (não, eu não tinha sequer como deixá-lo na calçada, 	eu tava ilhada no MEIO da pista, com carros em toda a minha volta, e 	agarrada à esperança de que a qualquer momento o trânsito fosse 	andar e eu saísse dali). De manhã, as poucas pessoas que se mexiam 	estavam a pé ou de bicicleta.</li>
</ol>
<p>Isso tudo não esgota a questão, longe disso. Não conforta as dores, não repõe o que foi perdido, mas aponta alguns caminhos. A gente precisa começar a pensar nisso e agir.</p>
<p>(nem falei de um outros aspecto importantíssimo que é o fato de que essas chuvas são sazonais, não são novidade pra ninguém, desde sempre o Rio de Janeiro sofre com enchentes e tempestades, deslizamentos e desabrigados, e no entanto, fica sempre todo mundo com cara de “nossa, choveu muuuuito!, eu não esperava”. Conversei sobre isso no telefone ontem de noite com a <a href="http://duasfridas.wordpress.com/" target="_blank">Monix</a>, e por sinal, foi ela que levantou essa questão. Ela bem podia escrever sobre isso e sobre como a cidade deve incorporar a estação das chuvas ao calendário, com treinamento para a população, instruções e planejamento. Novamente, o planejamento. Escreve, Monix!)</p>
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		<title>Moldura Maravilhosa</title>
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		<pubDate>Tue, 05 May 2009 01:32:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Num post aí embaixo, sobre lugares que a gente conhece em viagem, a Tati fez um comentário e eu me empolguei na resposta. Daí a Monix botou pilha pra eu transformar essa resposta num post à parte e eu resolvi topar.</p>
<p>Eu disse o seguinte:</p>
<p></p>
<p>&#8220;Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/27/prazeres-de-viagem/" target="_blank">post aí embaixo</a>, sobre lugares que a gente conhece em viagem, a Tati fez um comentário e eu me empolguei na resposta. Daí a Monix botou pilha pra eu transformar essa resposta num post à parte e eu resolvi topar.</p>
<p>Eu disse o seguinte:</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-214" title="att00096" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/att00096.jpg" alt="att00096" width="321" height="480" /></p>
<p>&#8220;<em>Ah, agora vão me apedrejar. Sabe o que é? Eu tenho implicância com a alcunha de “Cidade Maravilhosa” pro Rio de Janeiro. As maiores maravilhas da cidade são de ordem geográfica, natural, é a paisagem de morros e praias, de florestas tão próximas à ocupação urbana. Mas a parte construída em si não é tão espetacular. Há equívocos gigantescos no que diz respeito à preservação de patrimônio histórico, a expansão urbana é mal feita, a arquitetura anda de péssimo gosto, as ruas e praças são mal cuidadas. E é exatamente o que eu gosto em Buenos Aires. A cidade não tem grandes atrativos naturais, mas em compensação, em termos de <strong>cidade</strong> (aqui significando o ambiente construído), é um espetáculo. E tem várias avenidas por lá que eu passo e fico pensando “poxa, o Rio já teve avenidas assim, abertas na mesma época, com os mesmos parâmetros e a mesma arquitetura. Mas descaracterizou de tal forma que não tem mais o mesmo conjunto, a mesma ambiência&#8221;. </em></p>
<p>E hoje, no jornal, eu vi que o Rio está se candidatando a receber o título de Patrimônio da Humanidade por sua paisagem cultural, pela UNESCO. Tudo bem, de fato, a paisagem é uma construção cultural, o Corcovado deixou de ser só um morro há muito tempo, desde antes de colocarem a estátua do Cristo Redentor lá. O que a gente tá chamando de paisagem natural aqui tem o olhar e a intervenção  urbanos, não tem nem o que discutir. Mas o que eu estou questionando é a qualidade do espaço público e da arquitetura que se produz na nossa cidade. As ruas são mal cuidadas, as calçadas são estreitas, esburacadas, as praças são gradeadas com o argumento da segurança, mas o resultado é que ficam ainda mais vazias e abandonadas, o mobiliário urbano (bancos, postes de iluminação, sinalização, telefones públicos, lixeiras) é inadequado e mal distribuído, e deixa muitíssimo a desejar em termos de acessibilidade, por exemplo. Principalmente isso. As benesses urbanas são mal distribuídas. A imagem de CIDADE maravilhosa se limita à zona sul e praias. O subúrbio, a Zona Oeste, o Centro, não fazem parte da &#8220;Cidade&#8221;? Porque do &#8220;Maravilhosa&#8221; parece que não.</p>
<p>Sei lá, precisa acrescentar alguma coisa? Falem, discordem, ponderem, que a conversa anda.</p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 15:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha lido), a medida tem o menor cabimento.</p>
<p>Resolvi primeiro apresentar alguns argumentos e textos que já foram divulgados por aí.</p>
<p>Todo mundo sabe qual é exatamente o objetivo oficial do governo do Estado? Construir muros (concreto, 3 metros de altura) nos limites de algumas favelas do Rio (5 favelas no total, todas na Zona Sul) com as áreas florestadas, visando impedir o crescimento da favela sobre essas áreas, preservando assim o remanescente de Mata Atlântica.</p>
<p>Bom, o <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/posts/2009/04/04/minha-opiniao-174716.asp" target="_blank">Sérgio Besserman</a>, que é economista e escreve um <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/" target="_blank">blog</a> no Jornal O Globo, é bem pragmático. <span style="color: #000000;"><span>Ele acha que é possível e até desejável algum tipo de contenção das favelas para impedir o seu avanço sobre as áreas verdes, mas discorda tecnicamente desta solução específica, que não só não resolve como traz problemas novos e complicados. Olha a questão do ponto de vista do que representa o espaço verde (e a “alma democrática” do Rio de Janeiro, hummmm&#8230;.) enquanto ativo econômico e social. Para ele, o argumento de que o muro estanca a expansão horizontal das favelas é falho, primeiro porque não estanca nada (parece consenso que o muro não vai cumprir sua missão expressa), e ele ainda diz que se a prefeitura garante que vai fiscalizar o muro, então pra que muro? E em segundo lugar porque, citando <a href="http://http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/" target="_blank">dados</a> do </span></span><a href="http://www.rio.rj.gov.br/ipp/" target="_blank">IPP</a> (Instituto Pereira Passos, órgão ligado à Secretaria de Urbanismo do município) e da <span style="color: #000000;"><span><a href="http://www.firjan.org.br/" target="_blank">FIRJAN</a> (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), ele defende que o principal crescimento a ser evitado é o crescimento vertical. Segundo esses órgãos, e a análise das fotos aéreas da cidade, as favelas que mais crescem horizontalmente são as da zona oeste, e para estas não há nenhum plano de muros, por outros motivos políticos que Besserman até menciona. Para ele – e aí entra um ponto interessante – </span></span><span style="color: #000000;"><em><span>“O VERDADEIRO PROBLEMA é o controle territorial por parte da bandidagem, e a perda, pelo Estado, do monopólio do uso da força nesses territórios”. </span></em></span><span style="color: #000000;"><span style="font-style: normal;"><span>Não sei se concordo com isso. Quer dizer, claro que o Estado paralelo instaurado pela criminalidade precisa ser combatido, mas o Estado deve se fazer presente não apenas pela força da lei, pelo policiamento, e sim, <strong>antes e muito mais importante,</strong> pela garantia de acesso, para estas populações, aos serviços a que elas fazem jus pelo simples fato de serem cidadãos: educação, saúde, higiene, trabalho, moradia. Se não, você fica achando que pelo fato da polícia estar ocupando ostensivamente o Morro Dona Marta, todos os problemas do morro foram resolvidos. No máximo, foram resolvidos os problemas dos moradores de Botafogo, próximos ao morro, que acham que agora não terão mais os carros roubados, nem tiroteios nas janelas. Se os moradores do morro continuam com o esgoto correndo na porta, isso não é problema meu, certo? Mas eu não estou dizendo que não era pra polícia ocupar, antes que venham me dizer isso. Só estou dizendo que isso não basta. Tá longe de bastar. E o que eu vejo é o pessoal achando que se a segurança (de quem?) estiver resolvida (até quando?) então tudo bem.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Tem o <a href="http://http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, de quem eu já falei aqui. Ele levanta a questão da sustentabilidade ambiental x sustentabilidade social, lembrando que elas não existem uma sem a outra. Para um debate acerca do conceito de sustentabilidade, eu convido vocês a lerem a caixa de comentários dele, e a gente pode voltar a falar disso também (Alline, meu bem, cadê você?). Ainda na esteira do Fernando, eu acrescento que além do muro ser uma medida sem a menor eficiência (não quero acusar de antemão, mas eu duvido que ele não seja demolido em alguns trechos ou escalado), e portanto gasto inútil de dinheiro, ele é recibo passado e assinado pelo Estado da falta de capacidade de fiscalizar, coibir práticas ilegais e até mesmo do descaso com que trata a questão da expansão das favelas.</p>
<p>Tem também a história da preservação das áreas verdes: preservação do que quer que seja só faz sentido com uso. Isolada, qualquer área, seja verde, seja urbana, ou mesmo um prédio, não só não será preservado como virará alvo de cobiça e acabará ocupado ilegalmente. Um dos pontos do texto do Fernando de que mais gostei foi quando ele diz que o muro <em>“materializa o preconceito, a desigualdade e o desinteresse numa solução melhor e mais permanente para o problema”. </em>Claro, porque com o muro construído, o resto da população acha que tudo bem, já fez a sua parte, resolveu o problema, e se o muro for quebrado a culpa é “deste bando de favelado”.</p>
<p>A Cláudia, nos comentários, lembrou do texto do sociólogo <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_post=177524&amp;cx=0" target="_blank">Roberto da Matta</a>, também publicado n&#8217;O Globo. Ele toca na questão do discurso ambiental como máscara para a segregação. Diante do ideário politicamente correto, que impede ou dificulta a defesa pura e simples do emuralhamento da favela, a proposta vem então embalada na questão ecológica, que muda os termos do problema, deslocando-o do seu aspecto principal que é a desigualdade social, a produção e reprodução contínua da pobreza na nossa sociedade, para a defesa da Natureza. Gosto quando ele diz que &#8220;<em>a proteção da Natureza racionaliza a solução definitiva inapelável (e portanto ditatorial) para a pobreza em massa que envergonha (e ameaça) os que residem ao seu redor. Quando descobrirmos mais invasões, a culpa terá sido do muro, não nossa.&#8221;</em></p>
<p>Em artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/04, e <a href="http://www.cidadeinteira.blogspot.com" target="_blank"><strong>aqui</strong></a> reproduzido, o arquiteto Sérgio Magalhães, professor na FAU/UFRJ e ex-Secretário de Habitação do Rio, toca em questões realmente relevantes, como a estigmatização da favela como “lugar que dá causa à violência”. Sem favelas, a cidade seria pacífica? A matriz da violência é a morfologia urbana? Ele não acredita nisso, nem eu. Ele aponta a escassez de democracia (aí entendida como o acesso universal aos serviços públicos e à proteção do Estado) como cerne da questão, e está certo.</p>
<p>Até o <a href="http://caderno.josesaramago.org/page/11/" target="_blank">Saramago</a> já se manifestou contra o muro.</p>
<p>Na parte 2 eu quero continuar o assunto, tocando em outros aspectos, não expressa e ostensivamente ligados à proposta dos muros para as favelas do Rio, mas que englobam as idéias por trás dessa proposta. Para isso, recorrerei a um autor que eu tenho lido muito ultimamente, e que expressa bem muita coisa que sempre pensei e nunca consegui dizer com tamanha autoridade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.</p>
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