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	<title>Urbanamente &#187; opiniões</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Verás que um filho teu não foge à luta*</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Aug 2010 22:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Outros]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu pensei, de verdade, que durante as férias eu ia conseguir voltar a escrever com calma e mais regularidade. Vejo que subestimei o tamanho do meu cansaço. Eu estava realmente exausta, e bateu aquele vazio, aquela vontade de só dormir e mais nada. Acho mesmo que não cheguei a descansar tudo o que precisava, e diariamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu pensei, de verdade, que durante as férias eu ia conseguir voltar a escrever com calma e mais regularidade. Vejo que subestimei o tamanho do meu cansaço. Eu estava realmente exausta, e bateu aquele vazio, aquela vontade de só dormir e mais nada. Acho mesmo que não cheguei a descansar tudo o que precisava, e diariamente me sinto atropelada pelo ritmo do novo semestre que já começou com toda a corda, enquanto eu ainda me sinto zonza, com sono e com mais de 5 semanas de trabalho atrasado. Eu vejo o futuro repetir o passado e o tempo não pára. Ticking away the moments that make up a dull day&#8230; waiting for someone or something to show you the way. Cara, eu preciso sacudir a cabeça, espanar a letargia e me mexer.</p>
<p>Nesse tempo em que eu estive parada, pelo menos algumas coisas boas aconteceram, e uma das melhores, sem dúvida, foi a volta do<a href="http://www.idelberavelar.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/?referer=');"> Idelber </a>e seu <a href="http://www.idelberavelar.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/?referer=');"><strong>Biscoito Fino</strong></a>, que podemos voltar a degustar diariamente. Corre lá que tem <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/jose_serra_e_seu_descompasso_com_o_mundo.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/jose_serra_e_seu_descompasso_com_o_mundo.php?referer=');">muita</a> <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/sobre_o_conflito_colombiano.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/sobre_o_conflito_colombiano.php?referer=');">coisa</a> <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/08/autocritica_do_dunguismo_de_esquerda.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.idelberavelar.com/archives/2010/08/autocritica_do_dunguismo_de_esquerda.php?referer=');">ótima</a>.</p>
<p>Outro fato que me surpreendeu também foi a repercussão <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/07/12/posso-falar-um-pouquinho-sobre-gramatica/" target="_blank">deste post</a> sobre gramática, tema que nem é central no blog, mas que foi alvo de um desabafo meu enquanto corrigia provas dois meses atrás, e que rendeu boas conversas e um debate interessante na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/07/12/posso-falar-um-pouquinho-sobre-gramatica/#comments" target="_blank">caixa de comentários</a>.</p>
<p>Quero voltar a falar dos assuntos parados. Ouvi uma observação um tempo atrás que está correta, e cuja constatação me causa incômodo: eu tenho o mau hábito de iniciar (e anunciar) séries que depois não levo adiante, gerando expectativas e causando alguma frustração nos que gostariam de acompanhar o desenrolar do assunto. As cidades muçulmanas foram as últimas vítimas. Mas vou retomar (eu já ia completando com um &#8220;prometo&#8221;, mas achei melhor não. Minhas promessas bloguísticas não estão valendo muito na praça). Pra ir reesquentando os motores, eu dou uma sugestão de filme: <a href="http://www.adorocinema.com/filmes/o-que-resta-do-tempo/#ficha-tecnica" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.adorocinema.com/filmes/o-que-resta-do-tempo/_ficha-tecnica?referer=');"><strong>O que resta do tempo</strong></a> (<a href="http://www.imdb.com/title/tt1037163/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt1037163/?referer=');">The time that remains</a>), de Elia Suleiman. Aqui no Rio acho que já saiu de cartaz, mas a gente pode colocar na lista de espera para o dvd. O filme trança a vida do próprio diretor, recuperada através dos diários do pai e de cartas da mãe, com a história de ocupação da Palestina pelo governo israelense nos últimos 60 anos. Só não concordo, no título da <a href="http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/29/e29049133.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/jbonline.terra.com.br/pextra/2010/04/29/e29049133.asp?referer=');">resenha do jornal</a>, com chamar de &#8220;conflito&#8221; uma guerra cruel que já se tornou um verdadeiro massacre.</p>
<p>Além das cidades muçulmanas eu estou devendo falar mais sobre algumas impressões de viagem, no que diz respeito à análise de espaços públicos e projetos urbanos. Enquanto isso, algumas coisas:</p>
<p>- No<a href="http://www.bb.com.br/portalbb/home22,128,10151,0,0,1,1.bb?codigoMenu=9887" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bb.com.br/portalbb/home22_128_10151_0_0_1_1.bb?codigoMenu=9887&amp;referer=');"> Centro Cultural do Banco do Brasil</a> aqui no Rio, está em cartaz uma belíssima<a href="http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10154,1,0,1,1.bb?dtInicio=8/2010&amp;codigoEvento=3535" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.bb.com.br/portalbb/page511_128_10154_1_0_1_1.bb?dtInicio=8/2010_amp_codigoEvento=3535&amp;referer=');"> exposição</a> sobre a viagem capitaneada pelo alemão <strong>Langsdorff</strong> ao interior do Brasil entre 1821 e 1829. Eu acho fascinante que a gente tenha descoberto tanto do nosso país através dos olhos de tantos estrangeiros que por aqui estiveram, que pintaram as paisagens, as cenas urbanas,  retrataram índios, negros, portugueses, mestiços, recolheram espécimes de plantas e bichos, relataram em seus diários os hábitos, os eventos, as aventuras que viveram. Além das aquarelas bem ao gosto do Enciclopedismo típico da época, há mapas e plantas de cidades, e um texto cuidadoso que fala das circunstâncias da expedição e seus personagens &#8211; Rugendas, Taunay, Florence. Até 26 de setembro, entrada franca.</p>
<p>- Outra exposição que estou louca para ver, mas ainda não entrou em cartaz é <a href="http://mapasinvisiveis.wordpress.com/2010/08/11/a-cidade-e-sua-escrita/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/mapasinvisiveis.wordpress.com/2010/08/11/a-cidade-e-sua-escrita/?referer=');"><strong>Mapas invisíveis</strong></a>, que vai estrear na Caixa Cultural (prédio da Caixa Econômica do Rio, no Centro, próximo ao Largo da Carioca) no dia 08 de novembro. Neste <a href="http://mapasinvisiveis.wordpress.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/mapasinvisiveis.wordpress.com/?referer=');">link</a> você pode ver em que consiste a proposta, os artistas que participarão, e acompanhar as discussões a respeito.</p>
<p>- No próximo post eu quero comentar a palestra que assisti na UFRJ há poucas semanas, com o <a href="http://parededemeia.blogspot.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/parededemeia.blogspot.com/?referer=');">Fernando Lara</a>, com o instigante título de <strong>&#8220;O cimento feroz: considerações sobre Arquiteturas Contemporâneas da América Latina&#8221;</strong>. Fiz diversas anotações, e alguns aspectos do que ele disse me chamaram muito a atenção, quero dividir com vocês.</p>
<p>- Por fim, um assunto que tanta gente evita, mas que eu acho necessário trazer pra frente da discussão: as nossas próximas eleições. Quem me acompanha aqui ou no <a href="https://www.google.com/reader/view/?tab=my#overview-page" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.google.com/reader/view/?tab=my_overview-page&amp;referer=');">GReader</a>, pelos links que partilho, sabe o que penso e as ideias que defendo. O que isso tem a ver com a cidade e com os temas urbanos que procuramos discutir aqui? TUDO. Vocês já se deram conta de que o mesmo termo grego que designa a cidade &#8211; POLIS &#8211; está na raiz da palavra POLÍTICA? Em que pesem as diferenças históricas e conceituais entre a democracia grega e a democracia contemporânea, a política continua sendo essencialmente a expressão da nossa participação na vida da cidade (ou do país, do mundo) em que vivemos. Todas as nossas ações e decisões nesse sentido são políticas, mesmo &#8211; e especialmente danosas &#8211; as de não participar (ou achar que não está participando do processo ao dar as costas).</p>
<p>Eu prezo acima de tudo a pluralidade democrática, que nos permite fazer nossas escolhas e manifestá-las livremente. Sobre isso, vou contar uma coisa. Estava em sala de aula esta semana, falando sobre plano diretor e as modificações trazidas pela <a href="http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume%20i/constituicao%20federal.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/dh/volume_20i/constituicao_20federal.htm?referer=');">Constituição de 1988</a>, em seus artigos 182 e 183, que tratam da política de desenvolvimento urbano e enfatizam a função social da propriedade (artigos regulamentados em 2001 pelo <a href="www.ibam.org.br/publique/media/Cidade.pdf" target="_blank">Estatuto da Cidade</a> &#8211; link em pdf), quando me dei conta de que estavam todos me olhando como se eu falasse do século passado (e pior que eu falava mesmo!). Perguntei e não deu outra: ninguém ali tinha nascido antes disso. Uau!  Em 1988 eu era uma pirralha recém-formada em Comunicação Social, morando no interior do Tocantins, trabalhando como jornalista (péssima jornalista, diga-se, sem nenhuma paixão pela profissão, tanto que larguei), engajada na minha primeira eleição para presidente da República (Collor x Lula, 1989). A maioria dos meus alunos passou a infância na década de 90, enquanto eu tinha filhos e fazia minha segunda faculdade.</p>
<p>Há entre vários desses jovens uma crença disseminada de que não vale a pena se interessar ou participar do processo político porque  os políticos são todos corruptos, ninguém presta, o jogo é sujo e portanto tanto faz, melhor não votar, anular para mostrar minha insatisfação &#8220;com tudo isso que está aí&#8221;. Este pensamento encerra, pra começar, uma premissa moral de que a política deveria ser um sacerdócio praticado por idealistas isentos de qualquer interesse próprio, seres 100% honestos, abnegados, incorruptíveis. Algum de nós é assim? A política é uma fricção constante, uma negociação por objetivos e estratégias, praticada por atores que agem e também sofrem os resultados de suas ações, que têm interesses, bagagens culturais, históricas, sociais diferentes. E não estou falando só dos detentores de cargos eletivos, mas de todos nós que &#8211; ainda que sem perceber &#8211; fazemos política o tempo todo. Associações civis, grupos de empresários, comunidade acadêmica, sindicatos e organizações profissionais, cidadãos que constroem e partilham o espaço urbano o tempo todo.</p>
<p>Eu me pergunto: a quem interessa esse discurso e essa prática, de despolitização? Quem se beneficia da apatia política, da desmobilização popular, do clima de não-vale-a-pena? Que bem pode fazer à democracia o meu nariz torcido, o meu desdém, a minha ilusão de que eu não faço parte disso tudo? Quem ocupa a brecha deixada pelos que dão as costas? Qual a alternativa? Sim, porque o lugar do poder e da decisão será sempre ocupado, quer eu goste ou não. E a minha recusa em meter a colher nesse mingau sob a alegação de que é tudo imundo e eu não quero me sujar só abre espaço pra mais daquilo que eu tanto critico. Melhor prestar atenção, acompanhar, cobrar, participar. Pensem nisso antes de ir às urnas em outubro.</p>
<p>Volto já. Mesmo.</p>
<p><em>* Referência à excelente arte feita sobre a capa da revista Época desta semana, que destaca ameaçadoramente o &#8220;passado guerrilheiro&#8221; da candidata do PT à presidência, Dilma Roussef.</em></p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/dilma_ALUTA.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-822" title="dilma_ALUTA" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/08/dilma_ALUTA.jpg" alt="" width="200" height="267" /></a></p>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (1)</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/</link>
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		<pubDate>Sat, 13 Mar 2010 22:51:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[direitos]]></category>
		<category><![CDATA[opiniões]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi punk. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">Esta semana foi <em>punk</em>. Muito trabalho, as aulas entraram no ritmo avassalador de sempre, com o agravante de que este ano eu tenho mais turmas e cada turma tem mais alunos, e entre os vários deslocamentos, os horários de aula, de estudo e atividades domésticas, eu trabalhei demais, dormi de menos e cheguei ao fim da semana exausta. Parece que vai ser assim o semestre todo.</p>
<p>Mas a semana foi <em>punk</em> também em outros sentidos. E um deles foi ter acompanhado, estarrecida, as <a href="http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/05/cotas-raciais-a-entrevista-de-demostenes/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/05/cotas-raciais-a-entrevista-de-demostenes/?referer=');">declarações</a> do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), no Supremo Tribunal Federal, a respeito das cotas para negros nas universidades brasileiras. Veja bem, eu acho perfeitamente legítimo uma pessoa ser contra a adoção das cotas, e já li argumentos honestos e válidos nesse sentido. Eu mesma confesso que no início era contra as cotas, acompanhei por bastante tempo várias discussões a respeito, li artigos e opiniões contra e a favor, fui ficando cada vez mais na dúvida, e hoje estou convencida que a política de cotas raciais nas universidades públicas é um instrumento &#8211; que não deve ser o único &#8211; mas é um instrumento legal, necessário, e tudo indica que de excelentes resultados, para a inclusão social e econômica de uma parcela imensa da população brasileira que tem especificidades históricas que justificam e demandam ações como essa. No mínimo, acho que a política de cotas trouxe e continua trazendo um benefício gigantesco para o país, que é provocar um debate às claras sobre a discriminação racial no Brasil, trazendo muitas vezes à luz recalques insuspeitos e ressentimentos velados, desmascarando o racismo que infelizmente existe no nosso país, camuflado por uma ilusão de convivência harmônica. Sim, enquanto os negros se comportarem direitinho, souberem seu lugar na sociedade e não perturbarem reivindicando coisas absurdas, o Brasil será um oásis de paz e harmonia nesse aspecto.</p>
<p>Entre as várias <a href="http://blogdofavre.ig.com.br/2010/03/a-teoria-negreira-do-dem-saiu-do-armario/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/blogdofavre.ig.com.br/2010/03/a-teoria-negreira-do-dem-saiu-do-armario/?referer=');">estultices proferidas</a> pelo senador, nenhuma me chocou mais do que creditar a miscigenação do povo brasileiro a relações consensuais entre senhores e escravas. Não consigo acreditar que isso seja falta de conhecimento histórico, é tão insultuoso e revoltante que só pode ser má-fé. Alguém precisa explicar para ele que estupro e violência não se dá só quando há sangue, terror e armas apontadas, ou quando a vítima se debate furiosamente. O constrangimento, o medo da punição e a falta de alternativa também caracterizam o estupro. Só se pode falar em relações consensuais quando há possibilidade de escolha. Consentir pressupõe que a alternativa &#8211; dizer não &#8211; é igualmente possível. E ninguém em sã consciência vai me dizer que as escravas podiam simplesmente virar pros senhores e dizer &#8220;não quero&#8221; impunemente. Aliás, querer, desejar, é um ato de absoluta subjetividade e os escravos e escravas nunca foram tratados como sujeitos de seus quereres, seus corpos e destinos, mas sim como objetos, como bens, como patrimônio material. Eram contabilizados da mesma maneira que cabeças de gado ou pés de milho, e tinham tanto direito de querer ou decidir alguma coisa sobre suas vidas quanto um boi. Quando o senador diz que a miscigenação no Brasil, como processo histórico, foi majoritariamente consensual, ele ofende milhões de mulheres negras, daquele tempo e de hoje, e por extensão, milhões de mulheres simplesmente, que ainda hoje vivem situações de constrangimento e violência por esse Brasil afora.</p>
<p>Pensando nisso, eu quis trazer hoje um trecho de um livro que estou lendo, escrito por <a href="http://www.flip.org.br/edicoes_anteriores_autores.php3?idautor=302" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.flip.org.br/edicoes_anteriores_autores.php3?idautor=302&amp;referer=');"><strong>Ana Maria Gonçalves</strong></a>, chamado <a href="http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2099" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2099&amp;referer=');"><strong>Um defeito de cor</strong></a>. Eu ia acabar falando dele mesmo, mas achei que a ocasião era especialmente oportuna, e vai como desagravo e homenagem a tantas mulheres, escravas, negras, que fizeram parte da História deste país e tiveram participações importantes na luta pelo fim da escravidão. Eu estou particularmente encantada com o livro. Tem 950 páginas, eu ainda estou na 320, mas estou fascinada. A autora narra com maestria a história de Kehinde, uma mulher que, quando criança, viu sua mãe e seu irmão serem mortos na aldeia em que vivia, na África, após o que se muda com a avó e a irmã gêmea para uma outra cidade, onde acaba sendo capturada e trazida como escrava para o Brasil. Aliás, quem narra a história é a própria Kehinde, que no Brasil recebeu o nome de Luísa Gama. Consta que ela seria a mãe do poeta romântico brasileiro Luís Gama, e que o livro é na verdade, o relato, em primeira pessoa, da vida dela, que, já idosa, conta a história de sua vida para o filho com quem ela perdeu contato. A linguagem é saborosa, flui com facilidade, o leitor vai ficando enredado por aquelas descrições e acontecimentos, e vai querendo saber sempre mais das danças, comidas, roupas, da vida no engenho da Ilha de Itaparica, das andanças na cidade de Salvador na primeira metade do século XIX, dos rituais e orixás, das relações com as sinhás e com os outros escravos e escravas, das tramas e rebeliões, de tudo. Achei muito vívida e bonita a descrição que ela faz da cidade de Uidá, para onde ela, a irmã gêmea e a avó se mudaram após a morte da mãe. A visão que uma criança pode ter de uma cidade, colorida, cheia de movimento e potencial. Como será que nossas crianças vêem as cidades em que vivem?</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://nandabras.bloguepessoal.com/107329/Quadro-43/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nandabras.bloguepessoal.com/107329/Quadro-43/?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-723" title="mercadoafricano" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/mercadoafricano-300x201.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a>&#8220;Uidá era muito mais interessante que Savalu, e a minha avó segurava as nossas mãos para que não nos perdêssemos. Eu tinha vontade de parar e ficar olhando tudo o que acontecia ao meu redor, as mulheres que andavam com vários colares de contas, as casas que eram maiores do que eu jamais teria imaginado, com cobertura de palha e paredes de barro vazadas por portas muito baixas, e ainda tomavam os dois lados da rua, quase sem nenhum espaço entre elas. Gostei quando chegamos à praça, ao lado do mercado, e ficamos admirando as roupas, as pessoas, muita gente com marcas que nem a minha avó sabia de onde eram. Quase todas as mulheres andavam cobertas, pelo menos da cintura para baixo, e os panos que usavam eram ricos em cores e em bordados com búzios e sementes, que também enfeitavam os diversos colares e pulseiras e, às vezes, os penteados. (&#8230;) O mercado era grande e muito bem dividido, com lugares certos para se comprar cerâmicas, tecidos, frutas, artigos de religião, animais e, principalmente, comida. (&#8230;) As pessoas circulavam procurando os produtos de que precisavam ou assistiam às apresentações de dança, de acrobacias, de música e até de desafios de versos, que eu nunca tinha visto. A minha avó estendeu uma esteira para mim e para a Taiwo dentro da barraca, ao lado da mulher, e dormi pensando em como seria a feira nos dias seguintes, que grandes novidades estariam esperando por nós em Uidá&#8221;.</em></p>
<p>PS 1: Lá no título do post, o (1) ao lado do nome da Ana Maria é porque, mais adiante, no mesmo livro, há uma descrição da cidade de Salvador que é uma verdadeira aula sobre cidades coloniais no Brasil, e eu pretendo reproduzí-lo aqui em breve.</p>
<p>PS 2: Sobre as asneiras ditas pelo Senador no STF, há <a href="http://www.culturaebarbarie.org/blog/2010/03/a-dimensao-formal-do-direito.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.culturaebarbarie.org/blog/2010/03/a-dimensao-formal-do-direito.html?referer=');">estes</a> <a href="http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/03/09/reporteres-no-pelourinho/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/03/09/reporteres-no-pelourinho/?referer=');">outros</a> <a href="http://bahiadefato.blogspot.com/2010/03/parecer-de-luis-felipe-de-alencastro-no.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/bahiadefato.blogspot.com/2010/03/parecer-de-luis-felipe-de-alencastro-no.html?referer=');">textos</a> que eu também recomendo, lidos via Google Reader do <a href="https://www.google.com/reader/view/?tab=my#stream/user%2F04786639375024921666%2Fstate%2Fcom.google%2Fbroadcast" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.google.com/reader/view/?tab=my_stream/user_2F04786639375024921666_2Fstate_2Fcom.google_2Fbroadcast&amp;referer=');">Idelber</a>.</p>
<p><strong>UPDATE:</strong> Acabei de ler um post na <a href="http://beauvoriana2.zip.net/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/beauvoriana2.zip.net/?referer=');">Mary W</a> que eu achei fora de série, sobre essa questão das cotas. Perfeito pro pessoal que torce o nariz e diz que as cotas deviam ser apenas sociais, por critério de renda. Vai <a href="http://beauvoriana2.zip.net/arch2010-03-01_2010-03-31.html#2010_03-09_16_55_45-127299368-0" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/beauvoriana2.zip.net/arch2010-03-01_2010-03-31.html_2010_03-09_16_55_45-127299368-0?referer=');">lá</a> ler.</p>
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		<title>Solto no ar</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Mar 2010 19:15:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[opiniões]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>O reinício das aulas tem esse efeito sobre os professores: a gente enlouquece um pouco até acertar toda a grade, os horários, fazer os planejamentos. Eu ainda não consegui fechar tudo, dia sim dia não a coordenadora me liga ou escreve trocando as aulas que tinha combinado comigo na semana anterior, e eu já fiz plano [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O reinício das aulas tem esse efeito sobre os professores: a gente enlouquece um pouco até acertar toda a grade, os horários, fazer os planejamentos. Eu ainda não consegui fechar tudo, dia sim dia não a coordenadora me liga ou escreve trocando as aulas que tinha combinado comigo na semana anterior, e eu já fiz plano de aula pra umas quatro disciplinas diferentes, mas só uma delas está realmente certa, inclusive com aulas já começadas. Amanhã de manhã tem mais uma e na sexta uma terceira. Semana que vem tá muito longe ainda e nesse meio tempo tudo pode mudar. Deve ser assim mesmo que funcionam as coisas, mas eu nunca me acostumo, e fico sempre cansada antes mesmo do semestre engrenar.<br />
Enquanto isso, deu vontade de falar de cinema. Afinal, a entrega do Oscar, esse prêmio decadente e imperialista americano (é pra ser lido com seriedade e ironia ao mesmo tempo, entende?) é domingo agora, e não sou eu que vou perder. Digam o que disserem, eu adoro assistir. E torcer. E falar mal dos vestidos, revelando meu momento fútil-mulherzinha, que eu não sou de ferro.<br />
Brincadeiras à parte, eu gostaria de comentar umas coisas sobre três dos filmes que concorrem esse ano, em categorias variadas. São os três que eu vi mais recentemente, e gostei por motivos que explico aqui.</p>
<p><a href="http://www.imdb.com/title/tt1193138/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt1193138/?referer=');"></a><a href="http://www.cinepop.com.br/filmes/amorsemescalas.php" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.cinepop.com.br/filmes/amorsemescalas.php?referer=');"><strong>AMOR SEM ESCALAS</strong></a><strong> </strong><a href="http://www.imdb.com/title/tt1193138/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.imdb.com/title/tt1193138/?referer=');"><strong>(Up in the air)</strong></a></p>
<div id="attachment_709" class="wp-caption alignleft" style="width: 212px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-In-The-Air-2.jpg"><img class="size-medium wp-image-709" title="Up-In-The-Air-2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-In-The-Air-2-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Cartaz original do filme</p></div>
<p>É o filme em que o George Clooney faz o papel de um executivo cujo papel é demitir as pessoas. Imagine que você trabalha numa grande empresa, essa empresa pretende demitir vários funcionários e contrata uma outra empresa para fazer isso, ou seja, terceiriza o processo de comunicar ao empregado que ele está demitido, e quais são as providências que ele deve tomar agora. Eu achei o filme muito coeso, muito. As imagens todas, e a música, o &#8220;clima&#8221; do filme, é muito acertado, cada coisa contribui para um todo muito bem amarradinho. Antes de tocar nesses temas mais evidentes, os &#8220;grandes&#8221; temas do filme, tem pequenos detalhes que me chamaram muito a atenção.</p>
<p>1 – Antes de mais nada, devo deixar o meu protesto com relação ao título que o filme teve em português. Ridículo, idiota, tolo, infeliz, enganador. Absolutamente nada a ver com o filme. Não tenho nenhuma sugestão a fazer, mas Amor sem escalas é inaceitável. Tá, eu sei, atrai um monte de incautos (ou incautas, mais provavelmente), que junta essa promessa de romance com a figura de galã do Clooney, mas se você ainda não assistiu o filme, não vá esperando por essa água com açúcar. O filme dói.</p>
<p>2 &#8211; Eu fui capturada pelo filme logo na abertura, com aquela sequência de imagens de paisagens aéreas, cidades vistas de cima, do avião, campos, imagens de satélite quase. Eu amo essas imagens. Tem uma beleza quase abstrata em algumas delas, é plasticamente lindo. E do ponto de vista urbano também, eu gosto dessas imagens macro, em que você vê o desenho da cidade, seus limites (quando há), as bordas imprecisas do tecido urbano, as grandes linhas que cortam e estruturam a cidade (avenidas, auto-estradas, rios, ferrovias), a forma como os terrenos da cidade se constituem, se são pequenos lotes, densamente ocupados, se há verde entremeado, se há (e onde) lotes imensos ocupados por shoppings, estacionamentos, áreas industriais, parques urbanos, campi universitários. Diz tanto sobre a cidade e a história de sua ocupação.</p>
<div id="attachment_711" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-in-the-air3.jpg"><img class="size-full wp-image-711" title="Up in the air3" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/03/Up-in-the-air3.jpg" alt="" width="800" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Tipos de imagens a que me refiro. Essas fui eu que fiz, do avião, a da esquerda na viagem ao Canadá, e a da direita na viagem à Italia, na saída de Amsterdam, onde fizemos escala.</p></div>
<p>3 &#8211; Outra coisa que durante o filme me chamou a atenção foi a trilha sonora. Uma coisa meio folk, quase melancólica às vezes, letras que funcionavam como um subtexto para o roteiro (desde a música de abertura, que cobre e percorre o território americano tanto quanto o protagonista). Particularmente linda é a última música que toca, quando a sala já está de luzes acesas, e o restinho dos créditos termina de subir. Logo antes da música tem um som de secretária eletrônica, e um cara liga, aparentemente para o diretor do filme, Jason Reitman, porque ele diz Hi, Jason, e aí se identifica como alguém que também perdeu o seu emprego, e compôs a música para ajudar a entender esse momento, ou superar essa sensação de estar meio solto, sem amarras, meio sem saber onde ir, sem saber como será o futuro. Aí ele diz que espera que o Jason goste da música, e se quiser que pode aproveitá-la no filme. Só violão e voz, e o título da música (a frase que ele repete no refrão) é exatamente Up in the air.</p>
<p>4 &#8211; Essa sensação que o cara descreve, de estar sem amarras, sem futuro, esse desconcerto diante de um determinado momento na vida, me parece que descreve bem o estado emocional do Ryan (protagonista da história). Só que pra ele, não é um estado transitório, não é &#8220;um determinado momento na vida&#8221;, é como ele organizou a própria vida. Acho que é uma das interpretações que eu mais gosto do George Clooney. Ele está tão frágil, tão enclausurado, tem um quê nos olhos dele que é meio amedrontado, e ao mesmo tempo, profissional, evasivo, ele tem uma capacidade de empatia ao mesmo tempo que evita meticulosamente qualquer envolvimento emocional, como se ele soubesse (ou temesse) que também teria que “demitir” as pessoas da sua vida em algum momento, ou tivesse receio de “ser demitido”, porque ele sabe a sensação de abandono que isso causa. O final meio aberto também me agradou, eu gosto de ficar me perguntando o que vai acontecer agora, gosto quando carrego um filme pra fora da sala de projeção, quando fico com aquelas personagens na cabeça, imaginando o destino delas, me identificando com algum sentimento, evocando meus próprios fantasmas e emoções.</p>
<p>6 – Nesse sentido eu adorei as três personagens principais, o Ryan Bingham do Clooney, a Alex Goran da Vera Farmiga e a Natalie Keener da Anna Kendrick. Cada um deles tem alguma coisa com que eu posso me identificar, hoje ou em algum momento da minha vida, e é como se eu pudesse compreendê-los, de alguma forma. Ah, sim, para quem não viu, a Alex é uma executiva que, como ele, viaja o tempo todo a trabalho, e com quem ele acaba tendo um envolvimento amoroso do tipo “somos ambos adultos e livres, vamos nos divertir sem compromisso”. E a Natalie é uma mocinha recém contratada pela empresa, cheia de ideias sobre como otimizar o serviço de demitir pessoas usando uma webcam em vez de indo até cada lugar demitir pessoalmente.</p>
<p>7 &#8211; Gostei muito dos embates entre o Ryan e a garota. Achei bacana a maneira como os dois personagens vão se alternando nas demonstrações de maturidade e/ou dificuldades pessoais, com tudo o que cada um tem de melhor e pior, até por conta das experiências próprias de cada idade. Acho que a atriz também se saiu extremamente bem. Difícil não ter uma certa condescendência com aqueles 20 e poucos anos, sua arrogância, seus idealismos, a rigidez de suas expectativas, a falta de noção em determinados comentários (alguns diálogos entre ela e a Alex são hilários), eu me senti meio &#8220;caramba, não é que a gente é assim mesmo nessa idade? putz&#8221;. Acho que eu meio que viajei pros meus próprios 20 e poucos anos, quando eu tinha tantos pontos em comum com aquela mocinha: um monte de certezas que toda hora eram chacoalhadas mas eu fazia de tudo pra não dar o braço a torcer, eu também me sentia A tal, A brilhante, e tinha no fundo tantos medos, e fazia tantos planos exatamente do mesmo jeito: quando eu tiver tantos anos, eu quero que seja assim ou assado, quero estar fazendo tal coisa, em tal lugar. Coisa mais tolinha, hoje dá vontade até de rir.</p>
<p>8 &#8211; Por fim, achei o tema geral tão interessante, e provavelmente, tão oportuno pros americanos. Não gosto dessa palavra aqui, oportuno, mas não consigo achar outra. Tão sincrônico, talvez. É uma experiência que eles estão passando a sério, muito mais do que nós aqui, essa coisa do desemprego, da instabilidade econômica. E dentro desse aspecto mais social, o diretor e o roteirista acharam um jeito de encaixar uma história tão pessoal. Tem camadas e camadas de metáforas ali se a gente pensa na vida do Ryan, no trabalho que ele faz, e no tema geral do filme. A coisa de falar do desemprego aqui é muito mais do que pano de fundo, tá costurado nas entranhas da lente pessoal e psicológica com que se pode olhar o personagem principal, que vive num estado afetivo e emocional de desemprego contínuo, up in the air, solto. A cereja do bolo é que todos os depoimentos dos desempregados no filme são reais, ou seja, não são atores ali, mas gente de verdade, demitida de verdade, falando dos seus medos, de como encarar a família, da sensação de ser traído pela firma em que trabalhou tantos anos da vida. Foi uma forma inteligente e sensível de tratar o assunto, e ficou bem encaixada na estrutura narrativa.</p>
<p>Falei demais, né? Vocês ainda têm fôlego pros outros filmes? Eu queria falar de Invictus e de A Fita Branca. Prometo não falar tanto de cada um deles. Deixa eu ir dar aula, que tá na minha hora. Quando eu voltar, eu escrevo mais.</p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 15:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha lido), a medida tem o menor cabimento.</p>
<p>Resolvi primeiro apresentar alguns argumentos e textos que já foram divulgados por aí.</p>
<p>Todo mundo sabe qual é exatamente o objetivo oficial do governo do Estado? Construir muros (concreto, 3 metros de altura) nos limites de algumas favelas do Rio (5 favelas no total, todas na Zona Sul) com as áreas florestadas, visando impedir o crescimento da favela sobre essas áreas, preservando assim o remanescente de Mata Atlântica.</p>
<p>Bom, o <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/posts/2009/04/04/minha-opiniao-174716.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/posts/2009/04/04/minha-opiniao-174716.asp?referer=');">Sérgio Besserman</a>, que é economista e escreve um <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/?referer=');">blog</a> no Jornal O Globo, é bem pragmático. <span style="color: #000000;"><span>Ele acha que é possível e até desejável algum tipo de contenção das favelas para impedir o seu avanço sobre as áreas verdes, mas discorda tecnicamente desta solução específica, que não só não resolve como traz problemas novos e complicados. Olha a questão do ponto de vista do que representa o espaço verde (e a “alma democrática” do Rio de Janeiro, hummmm&#8230;.) enquanto ativo econômico e social. Para ele, o argumento de que o muro estanca a expansão horizontal das favelas é falho, primeiro porque não estanca nada (parece consenso que o muro não vai cumprir sua missão expressa), e ele ainda diz que se a prefeitura garante que vai fiscalizar o muro, então pra que muro? E em segundo lugar porque, citando <a href="http://http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/http_//www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/?referer=');">dados</a> do </span></span><a href="http://www.rio.rj.gov.br/ipp/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.rio.rj.gov.br/ipp/?referer=');">IPP</a> (Instituto Pereira Passos, órgão ligado à Secretaria de Urbanismo do município) e da <span style="color: #000000;"><span><a href="http://www.firjan.org.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.firjan.org.br/?referer=');">FIRJAN</a> (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), ele defende que o principal crescimento a ser evitado é o crescimento vertical. Segundo esses órgãos, e a análise das fotos aéreas da cidade, as favelas que mais crescem horizontalmente são as da zona oeste, e para estas não há nenhum plano de muros, por outros motivos políticos que Besserman até menciona. Para ele – e aí entra um ponto interessante – </span></span><span style="color: #000000;"><em><span>“O VERDADEIRO PROBLEMA é o controle territorial por parte da bandidagem, e a perda, pelo Estado, do monopólio do uso da força nesses territórios”. </span></em></span><span style="color: #000000;"><span style="font-style: normal;"><span>Não sei se concordo com isso. Quer dizer, claro que o Estado paralelo instaurado pela criminalidade precisa ser combatido, mas o Estado deve se fazer presente não apenas pela força da lei, pelo policiamento, e sim, <strong>antes e muito mais importante,</strong> pela garantia de acesso, para estas populações, aos serviços a que elas fazem jus pelo simples fato de serem cidadãos: educação, saúde, higiene, trabalho, moradia. Se não, você fica achando que pelo fato da polícia estar ocupando ostensivamente o Morro Dona Marta, todos os problemas do morro foram resolvidos. No máximo, foram resolvidos os problemas dos moradores de Botafogo, próximos ao morro, que acham que agora não terão mais os carros roubados, nem tiroteios nas janelas. Se os moradores do morro continuam com o esgoto correndo na porta, isso não é problema meu, certo? Mas eu não estou dizendo que não era pra polícia ocupar, antes que venham me dizer isso. Só estou dizendo que isso não basta. Tá longe de bastar. E o que eu vejo é o pessoal achando que se a segurança (de quem?) estiver resolvida (até quando?) então tudo bem.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Tem o <a href="http://http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/http_//www.parededemeia.blogspot.com/?referer=');">Fernando Lara</a>, de quem eu já falei aqui. Ele levanta a questão da sustentabilidade ambiental x sustentabilidade social, lembrando que elas não existem uma sem a outra. Para um debate acerca do conceito de sustentabilidade, eu convido vocês a lerem a caixa de comentários dele, e a gente pode voltar a falar disso também (Alline, meu bem, cadê você?). Ainda na esteira do Fernando, eu acrescento que além do muro ser uma medida sem a menor eficiência (não quero acusar de antemão, mas eu duvido que ele não seja demolido em alguns trechos ou escalado), e portanto gasto inútil de dinheiro, ele é recibo passado e assinado pelo Estado da falta de capacidade de fiscalizar, coibir práticas ilegais e até mesmo do descaso com que trata a questão da expansão das favelas.</p>
<p>Tem também a história da preservação das áreas verdes: preservação do que quer que seja só faz sentido com uso. Isolada, qualquer área, seja verde, seja urbana, ou mesmo um prédio, não só não será preservado como virará alvo de cobiça e acabará ocupado ilegalmente. Um dos pontos do texto do Fernando de que mais gostei foi quando ele diz que o muro <em>“materializa o preconceito, a desigualdade e o desinteresse numa solução melhor e mais permanente para o problema”. </em>Claro, porque com o muro construído, o resto da população acha que tudo bem, já fez a sua parte, resolveu o problema, e se o muro for quebrado a culpa é “deste bando de favelado”.</p>
<p>A Cláudia, nos comentários, lembrou do texto do sociólogo <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_post=177524&amp;cx=0" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_post=177524_amp_cx=0&amp;referer=');">Roberto da Matta</a>, também publicado n&#8217;O Globo. Ele toca na questão do discurso ambiental como máscara para a segregação. Diante do ideário politicamente correto, que impede ou dificulta a defesa pura e simples do emuralhamento da favela, a proposta vem então embalada na questão ecológica, que muda os termos do problema, deslocando-o do seu aspecto principal que é a desigualdade social, a produção e reprodução contínua da pobreza na nossa sociedade, para a defesa da Natureza. Gosto quando ele diz que &#8220;<em>a proteção da Natureza racionaliza a solução definitiva inapelável (e portanto ditatorial) para a pobreza em massa que envergonha (e ameaça) os que residem ao seu redor. Quando descobrirmos mais invasões, a culpa terá sido do muro, não nossa.&#8221;</em></p>
<p>Em artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/04, e <a href="http://www.cidadeinteira.blogspot.com" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.cidadeinteira.blogspot.com?referer=');"><strong>aqui</strong></a> reproduzido, o arquiteto Sérgio Magalhães, professor na FAU/UFRJ e ex-Secretário de Habitação do Rio, toca em questões realmente relevantes, como a estigmatização da favela como “lugar que dá causa à violência”. Sem favelas, a cidade seria pacífica? A matriz da violência é a morfologia urbana? Ele não acredita nisso, nem eu. Ele aponta a escassez de democracia (aí entendida como o acesso universal aos serviços públicos e à proteção do Estado) como cerne da questão, e está certo.</p>
<p>Até o <a href="http://caderno.josesaramago.org/page/11/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/caderno.josesaramago.org/page/11/?referer=');">Saramago</a> já se manifestou contra o muro.</p>
<p>Na parte 2 eu quero continuar o assunto, tocando em outros aspectos, não expressa e ostensivamente ligados à proposta dos muros para as favelas do Rio, mas que englobam as idéias por trás dessa proposta. Para isso, recorrerei a um autor que eu tenho lido muito ultimamente, e que expressa bem muita coisa que sempre pensei e nunca consegui dizer com tamanha autoridade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.</p>
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		<title>Olá, mundo!</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Mar 2009 01:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[blogs]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Pois então.</p>
<p>Eu leio blogs há alguns anos, já não sei bem quantos. Não peguei as primeiras turmas, cheguei quando a coisa já estava bem instalada e minha cara de &#8220;uau, do que se trata isso?&#8221; já provocava sorrisos de &#8220;tolinha!&#8221; na galera mais experiente. Mas gostei do formato, gostei da dinâmica, da agilidade, e logo comecei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pois então.</p>
<p>Eu leio blogs há alguns anos, já não sei bem quantos. Não peguei as primeiras turmas, cheguei quando a coisa já estava bem instalada e minha cara de &#8220;<em>uau, do que se trata isso?</em>&#8221; já provocava sorrisos de &#8220;<em>tolinha!</em>&#8221; na galera mais experiente. Mas gostei do formato, gostei da dinâmica, da agilidade, e logo comecei a frequentar avidamente algumas páginas, onde aprendi um bocado de coisa, me informei melhor do que em muitos jornais on line, e fiz inúmeros amigos e amigas queridas.</p>
<p>Apesar disso, eu sempre disse que ter um blog não era pra mim. Eu não tinha nem o tempo, nem a necessária disciplina, nem o conhecimento técnico pra navegar pelos html da vida, nem sequer o que dizer pra abrir uma página e expô-la ao escrutínio público (ainda que &#8220;público&#8221; queira dizer a meia dúzia de pessoas entre amigos e familiares que eu imaginava que viria me dizer oi). Bom, ocorre que ao longo do tempo, através de trocas de e-mails e comentários deixados aqui e ali, algumas pessoas começaram a insistir pra que eu escrevesse. E confesso que foi dando vontade, sabe?</p>
<p>Eu continuo sem muito tempo (mais ou menos, até que eu comecei esse ano abrindo um bocado de tempo na agenda, mas isso é outro papo), zero disciplina (shame on me), descobri que o conhecimento técnico requerido é menor do que eu pensava, e o Marido deu uma mãozinha (momento confissão-mulherzinha. Thanks, babe!), e se eu tenho o que dizer ou não, aí é outra história. Eu sei que existem coisas que eu quero dizer, já é um começo. E vamos combinar que um certo receio do escrutínio público, quem é que não tem?</p>
<p>De toda forma, tem me seduzido a idéia de expor umas opiniões, fazer uns balões de ensaio, botar minha carinha (intelectual, se eu posso chamar assim) na medina e ampliar essa rede que eu tenho descoberto deliciosa, além de altamente produtiva, quando a gente sabe onde procurar e quem visitar.</p>
<p>Ali na barrinha mais de cima, onde está escrito ABOUT, vocês podem encontrar uma breve descrição das minhas modestas intenções. Tem umas ideiazinhas a mais cozinhando aqui na cachola, mas se eu esperasse ter tudo pronto pra botar o troço no ar, era capaz de eu adiar por mais uns anos, até desistir. Bem a minha cara, by the way. A listinha ali do lado, da ágora, ainda está incompletíssima, e eu peço perdão pros coleguinhas e queridos que ainda não foram linkados. Sê-los-ão ainda esta semana, eu prometo.</p>
<p>É isso, puxem uma cadeirinha, fiquem à vontade e vamos conversar.</p>
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