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	<title>Urbanamente &#187; Outro</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Muçulmanos, islâmicos, e outras provocações</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2010 00:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</p>
<p>Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } --><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Historinha inicial (claro, senão não seria eu)</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Eu devia ter passado o domingo preparando as aulas da semana, mas estou desde a hora que acordei (umas 10 e meia da manhã, Deus seja louvado) vendo jogo de futebol da Copa e escrevendo coisas pra uma série que pretendo inaugurar no blog, cuja primeira parte é esta que está indo ao ar agora.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como diz a <a href="http://www.dropsdafal.blogbrasil.com/" target="_blank">Fal</a>, pra isso Deus inventou o blog, pra gente falar o que bem entende, então tou com uma vontade irresistível de abordar mais a fundo esse tema dos muçulmanos. Claro, vou encaminhar o assunto mais para o lado da arte, arquitetura, urbanismo, contribuições científicas, história. Não estou com disposição, nem tenho conhecimento aprofundado pra isso, de entrar na seara da política internacional contemporânea, muito menos da teologia, mas o objetivo é dar uma beliscada também nisso, ainda que indiretamente.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Na verdade, desde muito nova, a região do Oriente Médio e a cultura muçulmana me despertam enorme curiosidade, não sei explicar por quê. Sempre foi um paradoxo para mim que a cultura rica, avançada e tolerante que eu conhecia através das histórias das Mil e Uma Noites e de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_C%C3%A9sar_de_Melo_e_Sousa" target="_blank">Malba Tahan</a> (que muito mais tarde eu vim a descobrir que era o pseudônimo do brasileiro Júlio César de Melo e Souza, escritor e matemático, que ainda por cima era o pai do meu primeiro professor de projeto na faculdade de Arquitetura – e vocês não podem imaginar a emoção do velhinho quando eu reconheci o sobrenome dele e elogiei o papel da literatura do pai dele na divulgação da matemática e de uma visão mais positiva da religião islâmica)&#8230; O problema de fazer orações muito longas é que a gente começa e depois se perde. Eu dizia que achava um paradoxo que essa mesma cultura estivesse associada, através dos noticiários, desde que eu me entendo por gente (e hoje eu sei que desde muito antes disso) a tantas guerras e disputas sangrentas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span></p>
<div id="attachment_797" class="wp-caption aligncenter" style="width: 774px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg"><img class="size-full wp-image-797" title="islam" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/islam.jpg" alt="" width="764" height="199" /></a><p class="wp-caption-text">Fontes das imagens, em ordem: http://www.grupoescolar.com/a/b/7AC53.jpg; http://conexaooriente.wordpress.com/2007/09/10/as-mil-e-uma-noites/; http://independenciasulamericana.com.br/2009/01/falcoes-impoem-guerra-a-obama/</p></div>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Como eu expliquei no post anterior, eu tinha dado aula sobre as cidades muçulmanas e me dei conta do universo que o tema abria em termos de discussão de preconceitos, de história, de recuperação de dados e episódios que podem nos ajudar a ter um entendimento mais amplo e livre sobre o assunto. Assim, idealizei esta série, composta por alguns capítulos fartamente ilustrados e que já estão quase todos prontos, de maneira que eu não devo ter intervalos tão longos entre uma postagem e outra.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje farei <strong>provocações iniciais</strong> e pretendo esclarecer alguns conceitos no campo da semântica mesmo, e da antropologia, que é pra gente combinar a que está se referindo quando disser uma coisa ou outra.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Depois, teremos uma breve história da <strong>Arábia pré-islâmica</strong> e a importância do <strong>surgimento de Maomé</strong> naquele tempo e espaço específicos, o que ajuda a explicar a rápida disseminação de sua doutrina.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">No capítulo seguinte,  daremos uma olhada no período de <strong>expansão territoria</strong>l e o surgimento das  primeiras <strong>dissenções</strong> (a gente escuta tanto falar em xiitas e sunitas:  quem são eles, quando se dividiram, quais as suas principais  diferenças?).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A seguir, veremos as <strong>contribuições dos muçulmanos no campo da ciência e cultura</strong> (especialmente a literatura e a nossa  herança linguística via portugueses-espanhóis).</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Aí entraremos no capítulo  específico de <strong>Artes e Arquitetura</strong>. Falaremos dos arcos em ferradura, das mesquitas,  dos minaretes, ds mosaicos belíssimos, dos palácios e do Taj Mahal, um  dos monumentos funerários mais conhecidos do mundo.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">E como fechamento, uma  <strong>análise das cidades e dos traçados urbanos</strong>, buscando explicar a forma  tão característica das cidades muçulmanas à luz da cultura e de uma  sabedoria interessante em termos de conforto ambiental. E  reconheceremos, mais uma vez via colonização portuguesa, alguns  elementos e desenhos tão comuns nas nossas cidades coloniais, aqui no Brasil.<br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O objetivo geral será provocar uma reflexão sobre a diversidade de um mundo que tendemos a generalizar de forma muito reducionista, e enxergar esse que é o &#8220;Outro&#8221; por excelência no nosso mundo ocidental menos sob o enfoque de certo/errado, civilizado/bárbaro, moderno/conservador, e mais do ponto de vista da diferença mesmo, e de como, no meio dessa diferença, temos tantas coisas e humanidades em comum. O que vocês acham? Vou indicar livros, fontes diversas e principalmente muitos filmes (para os quais aceito sugestões).</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Diversidade</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A verdade é que, pra nós, esse é um pessoal muito esquisito mesmo. E a gente tende a olhar com desconfiança, quando não com medo e hostilidade pra tudo o que é muito diferente de nós. Se é tão diferente, não pode ser bom. Ou certo. Porém, especialmente a partir dos ataques às torres gêmeas de Nova York, em 2001, a gente tende a associar rapidamente muçulmano com Oriente Médio, terrorista, mulher de burca, guerra, intolerância, pouca participação política. E não é por acaso. Mas eu falo disso daqui a pouco.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O que eu quero afirmar é que o mundo muçulmano é extenso, rico e diverso, e qualquer generalização é empobrecedora da visão que se pretende ter. Pra nós, eles podem ser gente esquisita. Mas vamos relativizar: nós somos esquisitos pra eles também. Olhar para culturas diferentes requer um exercício de empatia, um esforço de – nem que seja por uma fugaz fração de tempo, conseguir se colocar no lugar do outro, e tentar ver o mundo como ele o vê.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Hoje, o Islamismo é a religião em mais rápida expansão no mundo, com 1.3 bilhões de fiéis, cerca de 20% da humanidade (é a maior religião do mundo, considerada individualmente. O Cristianismo tem mais fiéis, mas que estão divididos em variadas denominações e igrejas: católicos, ortodoxos, evangélicos, pentecostais etc). Ou seja, não temos saída a não ser repensar a convivência com este “Outro”.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Esta imensa população muçulmana habita um vasto arco no planeta, que vai da África Ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e a Índia. Algumas vezes, são maioria da população local, outras vezes são importantes minorias. As migrações intensas que caracterizam nosso mundo contemporâneo já formam  enclaves consideráveis de grupos muçulmanos em diversos países da Europa e das Américas.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-800" title="Image-001" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/Image-0011.jpg" alt="" width="750" height="535" /></a><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Este mundo é diverso quanto às histórias, etnias, línguas, tradições sociais, maneiras de ver e conviver com o mundo, com o meio ambiente e com os vizinhos. Como traço comum, eles têm o Islã, a religião. Mas mesmo aí há contrastes: nas formas rituais e sociais, e até no núcleo de crenças e maneiras de aplicá-las à sociedade. Nem tem como ser diferente. O Islã surgiu há mais de 1400 anos e se espalhou, como acabamos de ver, por três continentes, onde teve contato com sociedades variadas, algumas milenares, e encontrou em cada lugar condições diferentes entre si, que geraram mesclas diferentes.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma questão de terminologia</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A primeira coisa, portanto, é tentarmos tecer alguns esclarecimentos semânticos, para desfazer confusões terminológicas.</span></span></p>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Pra começar, <strong>árabe</strong>: termo que se refere a uma etnia, oriunda da península arábica (olha o mapinha aí embaixo, com a divisão político-territorial de hoje). E como já vimos, há muçulmanos de outros outros povos, malaios, africanos, iranianos (de origem persa), turcos, hindus. E mesmo entre os árabes, há os que professam outras religiões, ainda que sejam minorias. Portanto, <strong>muçulmano não é sinônimo de árabe</strong>. Nem de palestino, que por sinal também não é árabe.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_801" class="wp-caption aligncenter" style="width: 451px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg"><img class="size-full wp-image-801" title="arabian_peninsula_map" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/arabian_peninsula_map.jpg" alt="" width="441" height="371" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog/2009/07/iemen/</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Oriente Médio:</strong> diz  respeito a uma região geográfica em particular, maior que a Península  Arábica, e que é apenas uma fração do território hoje ocupado pelos  muçulmanos (numericamente falando, menos de 30% de todos os muçulmanos  do planeta estão ali). Além disso, há no Oriente Médio importantes  nações muçulmanas de povos não-árabes, como turcos e curdos, e mesmo  nações não-muçulmanas (ou pelo menos não majoritariamente muçulmanas),  como Israel. Além de grupos e populações de outras religiões em várias  dessas nações (cristãos e ortodoxos no Líbano, na Síria, em Israel etc).  Aliás, a própria designação daquela região geográfica como Oriente  Médio é discutível. O termo é evidentemente eurocentrista, de origem  inglesa, e data do século XIX, quando o império britânico controlava um  quarto da Terra. Também não podemos esquecer que historicamente o  Oriente Médio se encontra na encruzilhada de múltiplas influências  culturais e foi, durante séculos, o ponto de comunicação, tanto por mar  quanto por terra, entre a Europa e as civilizações orientais (Índia,  China e sudeste asiático). Se a gente ainda pensa que após séculos de  supremacia islâmica as potências européias ocuparam e retalharam a  região a partir do século XIX, segundo seus interesses e em prejuízo da  população local, o que é (mais uma) fonte de grande humilhação e  ressentimento desses povos em relação ao mundo e aos valores ocidentais,  e pra culminar grande parte do petróleo do mundo está ali, começamos a  entender a importância estratégica dessa região e a cobiça de tantas  nações pelo controle desse território.</span></span></li>
</ul>
<div id="attachment_802" class="wp-caption aligncenter" style="width: 525px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg"><img class="size-full wp-image-802" title="ori_medio_mapa" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/06/ori_medio_mapa.jpg" alt="" width="515" height="393" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/conflito_israel_x_palestina</p></div>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Muçulmano:</strong> termo  que se refere a um fenômeno sociológico, cultural, e que tem uma  abrangência muito maior, envolvendo muitos aspectos para além do  fenômeno religioso.</span></span></li>
</ul>
<ul>
<li><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Islâmico:</strong> termo que  diz respeito especificamente à religião. Por isso a minha preferência  em me referir às cidades como sendo muçulmanas, e não necessariamente  islâmicas. Vou dar exemplos: Teerã, capital do Irã, pode ser considerada  uma cidade islâmica. Mas Istambul, capital da Turquia, ainda que de  maioria muçulmana, não é islâmica. O estado turco é laico, e o arcabouço  jurídico-institucional que rege a vida dos cidadãos de Istambul não se  baseia na <em>shariah</em> (a lei islâmica, interpretada pelos  religiosos), mas em leis laicas. <strong>UPDATE ANTES TARDE DO QUE MAIS TARDE:  A capital da Turquia é Ankara e não Istambul, embora esta cidade (a antiga Constantinopla e, antes disso, Bizâncio) ainda seja uma das mais &#8211; senão A mais &#8211; conhecida e importante do território turco. </strong><br />
</span></span></li>
</ul>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A sobreposição dessas definições tem origem num raciocínio simplista: os árabes moram no Oriente Médio e são majoritariamente muçulmanos. Daí para serem majoritariamente fundamentalistas e terroristas não custa muito. Eu tenho cá pra mim que há um certo interesse ideológico, hoje mais que nunca, em que essa confusão permaneça.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">De fato, originalmente, os termos árabe e muçulmano coincidiam, quando a religião nasceu ali, em Meca, e se expandiu primeiramente pela Península Arábica, onde rapidamente converteu quase todos os habitantes. Depois, a expansão do Islã levou à conquista do Oriente Médio (sempre vale repetir: maior e mais amplo do que os países árabes), que adotou em grande escala a língua arábica e a fé islâmica. E num terceiro momento alcançou outras partes do planeta, de forma que – eu volto a frisar – o mundo muçulmano hoje é muito mais amplo e diverso do que o mundo árabe ou mesmo do que o Oriente Médio. Claro que aquela região tem um peso ideológico grande, afinal, foi ali que nasceu Maomé, e o árabe é a língua sagrada do Alcorão. Ainda que nem todos os muçulmanos falem necessariamente árabe, diga-se de passagem.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Por outro lado, islamismo e islamista têm sido termos utilizados para se referir ao movimento religioso radical do Islã político, o tal do fundamentalismo. Portanto, é confuso e incorreto falar em islamismo como sinônimo de Islã, como acontece às vezes em português. A teoria política do Islã prescreve a unidade de todos os fiéis numa única comunidade (<em>ummah</em>), pressupondo uma unidade política, que chegou a existir nos primeiros dois séculos, mas rapidamente se desfez. A própria diversidade de experiências sociais, políticas e culturais encontradas nas vastas terras conquistadas fez com que o mundo muçulmano tenha sempre sido e continue sendo muito dividido. Como a religião ocupa uma parte muito central e essencial na cultura muçulmana, as divergências internas comportam debates sobre o papel das leis religiosas (<em>shariah</em>) na vida pública e privada, comportam leituras fundamentalistas dos textos sagrados que municiam ideologicamente grupos terroristas, e comportam o pensamento de grupos menos conhecidos (e eu sempre me pergunto: a quem interessa que esses grupos sejam menos conhecidos por nós?) do Marrocos à Malásia, que, com base na mesma religião, lutam pela democracia e pelo diálogo pacífico com outras civilizações. E por fim, eu pergunto: essas mesmas divergências e extremismos não existem também entre os seguidores de outras fés, como judeus e cristãos? Quantas atrocidades já foram e continuam a ser cometidas em nome de Deus e brandindo Bíblias e Torás?</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Mas afinal, o que quer dizer Islã?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">A tradução do árabe, literalmente, quer dizer <strong>submissão, rendição à vontade de Allah.</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">É fundamental entender que o Islã é uma religião tão expansionista e reinvindicadora do monopólio da verdade quanto o cristianismo. Porém, de forma mais radical e total, o Islã abrange<strong> todas as esferas da vida </strong>de seus seguidores:<strong> </strong>é uma religião (crenças, rituais, normas, fonte de consolação), mas também é uma comunidade (<em>ummah, </em>em árabe) e um modo de viver ou tradição (<em>sunna</em>), que regulariza todas os aspectos da vida: o modo de viver dos indivíduos e as etapas de seu desenvolvimento, a educação, as relações entre homens e mulheres, a vida familiar e comunal, o comércio e o governo, a justiça e a filosofia. Ou seja, enquanto para nós, ocidentais, a religião pertence à esfera da vida privada, para os islamistas, este conceito não existe, e a religião regula toda a vida da comunidade, pública, política e privada. Em consequência dessa onipresença da religião, o Islã é o principal elemento formativo da identidade coletiva das populações submetidas a ele.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O Islã é também um <strong>sistema jurídico-religioso total: </strong>edificado nas bases sagradas dos prímeiros séculos e que continua evoluindo, com toda a complexidade já exposta. Sua estrutura hierárquica pressupõe a igualdade entre os fiéis. Os legistas especializados são intérpretes da vontade de Deus e não mediadores ou representantes divinos.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>E a Jihad, o que é?</strong></span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Segundo o Alcorão (e no próximo post sobre o assunto veremos em que circunstâncias isso foi escrito), o primeiro dever de um muçulmano consiste em construir uma sociedade justa e igualitária, em que pobres e fracos sejam tratados com respeito. Isso demanda uma <em>jihad</em>, cuja tradução literal deveria ser a de<strong> “luta ou esforço em favor de Deus”</strong>. Ou seja, a <em>jihad</em> mais importante é a que o fiel trava consigo mesmo, a disciplina de transformação interior que leva ao compromisso total com Deus. Poderia ser ainda traduzida por militância, em todas as frentes: espiritual, política, social, pessoal, econômica e militar. Daí sua aplicação também como “guerra santa”, tendo tido grande impacto na rápida expansão islâmica. A mobilização pela fé muitas vezes se fez através da guerra. Mas não pode ser reduzida a esta tradução.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Vou terminar explicitando e recomendando fortemente a bibliografia em que me baseei para as reflexões e dados expostos hoje. Em primeiro lugar, sempre, recomendo os livros (e são vários) da <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Karen_Armstrong" target="_blank"><strong>Karen Armstrong</strong></a>. Ela é uma inglesa, ex-freira, formada pela Universidade de Oxford e atualmente grande e respeitada estudiosa das religiões. Leciona numa faculdade de estudos do judaísmo e formação de rabinos, e é a mesmo tempo membro da Associação Muçulmana de Ciências Sociais, com prêmios concedidos por várias organizações de estudos islâmicos. Entre seus livros mais famosos estão <span style="text-decoration: underline;">Uma História de Deus</span> (1994), <span style="text-decoration: underline;">Jerusalém, uma cidade, três religiões</span> (2000), e <span style="text-decoration: underline;">A Grande Transformação: o mundo na época de Buda, Sócrates, Confúcio e Jeremias</span> (2006). Além, é claro, deste que eu usei aqui, que foi o primeiro que eu li e pelo qual me apaixonei, chamado <span style="text-decoration: underline;">Em Nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo</span> (2001). Todos foram editados no Brasil pela <a href="http://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank">Companhia das Letras</a>, têm linguagem envolvente, narrativa fascinante, não requerem nem grandes conhecimentos prévios nem nenhuma crença ou espiritualidade por parte do leitor, já que os temas são encaminhados da maneira mais isenta possível, ainda que se perceba que a autora é, pessoalmente, uma mulher de tocante fé religiosa, e de uma visão profundamente humanista.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">O segundo livro usado hoje se chama <span style="text-decoration: underline;">O Mundo Muçulmano</span> (2004), de autoria de <a href="http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=C970921" target="_blank"><strong>Peter Demant</strong></a>, e publicado pela <a href="http://www.editoracontexto.com.br/" target="_blank">Editora Contexto</a>. Demant é um historiador holandês, especialista em Oriente Médio, cuja tese de doutorado tratou sobre a ocupação e colonização israelense nos territórios palestinos entre 1967 e 1977. Morou em Jerusalém na década de 90, como pesquisador na Universidade Hebraica e membro ativo nos diálogos pela paz entre acadêmicos israelenses e palestinos. Mora no Brasil desde 1999, onde dá aulas no Departamento de História da USP. Eu achei o livro dele muito, muito claro, organizado didaticamente, de maneira a nos levar a entender os contextos históricos do surgimento do islamismo e da eclosão das ondas fundamentalistas que varrem o Oriente Médio há tantas décadas, sem descuidar de questões importantes em  vários outros lugares em que o islamismo é a religião principal. Foi nesse livro que eu li pela primeira vez e aprendi sobre os interesses e problemas envolvidos na criação do Estado de Israel em 1948, pela ONU, sobre as guerras de Israel com Egito, Síria e Líbano, sobre a ascensão dos aiatolás no Irã, sobre a Primeira Guerra do Golfo, sobre a disputa entre Índia e Paquistão pela Caxemira, e muitas outras coisas. Vira e mexe eu pego de novo para consultar alguma coisa.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Embora com enfoques diferentes, ambos apresentam dados solidamente fundamentados e um pequeno dicionário ao final, com esses termos todos do árabe que a gente às vezes escuta e não sabe o que querem dizer.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Deixo vocês, também, com uma pequena lista de filmes, entre os que eu assisti, e que me ajudaram a rir, a me emocionar, a me reconhecer, a estranhar e a aprender muita coisa que desmitificou esse universo e esses lugares para mim. Outras contribuições, tanto bibliográficas quanto cinematográficas são muito bem-vindas. No próximo capítulo, a <strong>Arábia pré-islâmica e o aparecimento de Maomé</strong>. </span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Fahreinheit 11 de setembro (Fahreinheit 9/11)</strong>, EUA, 2004. Dir: Michael Moore. Documentário sobre como os ataques foram o pretexto perfeito para a guerra contra o Afeganistão e, mais tarde, o Iraque.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Uma amizade sem fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran)</strong>, França, 2003. Dir: François Dupeyront. Romance fofo sobre a amizade, num bairro pobre de Paris da década de 60, entre um dono de armazém muçulmano (Omar Shariff, impagável) e um menino judeu. Trilha sonora deliciosa.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Cruzada (Kingdom of Heaven)</strong>, EUA, 2005. Dir: Ridley Scott. Não que seja um filmaço, mas tenta ver as Cruzadas e a disputa por Jerusalém também por ângulos outros que não só o ponto de vista cristão. A fotografia é linda.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Munique (Munich)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Spielberg.Sobre o atentado que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 e a vingança orquestrada por Israel contra os que idealizaram e participaram dele. O ponto de vista é judaico, mas o incômodo pela brutalidade e pela inutilidade do ódio, que aparecem de vez em quando no personagem principal são válidos.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Syriana – a indústria do petróleo (Syriana)</strong>, EUA, 2005. Dir: Steven Gaghan. A politicagem por trás da indústria do petróleo e como isso move guerras e gera lucros monstruosos (em todos os sentidos).<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;"><strong>O caminho para Guantánamo (The road to Guantánamo)</strong>, EUA, 2006. Dir: Mat Whitecross e Michael Winterbottom. </span><span style="color: #000000;">D</span></span></span></span><span style="color: #ff0000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><span style="color: #000000;">ocumentário sobre</span> <span style="color: #000000;">as arbitrariedades das prisões de suspeitos em Guantanamo, a partir da história de três muçulmanos britânicos que ficam presos 3 anos sem acusação formal.</span> </span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Babel (Babel)</strong>, EUA, 2006. Dir: Alejandro Iñárritu. Nem sei bem por que eu incluí esse aqui, porque envolve tantos outros temas, mas eu gostei muito. E o mote para toda a ação começa numa explosão que quase mata uma turista americana no deserto do Marrocos, e toda a intrincada rede que se forma a partir daí, envolvendo comércio de armas, imigração ilegal, choque de culturas e solidão.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Atravessando a ponte: o som de Istambul (Crossing the Bridge: The Sound of Istambul)</strong>, 2005. Dir: Fatih Akin. Não sei de quem ou de onde é a produção. É um documentário também, que explora a riqueza e diversidade da cultura turca, através de uma viagem pela música, pela gastronomia, pelos pontos turísticos principais e pela observação e contato com as pessoas comuns da cidade.</span></span></span></p>
<p lang="en-US"><span style="color: #000000;"> </span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>O caçador de pipas (The Kite Runner)</strong>, 2007. Dir: Marc Forster. Certamente é uma produção multinacional, mas com participação americana (eu não sei de onde mais). Eu gostei bem mais do livro que do filme, que dá uma “dourada de pílula”, mas é um olhar interessante sobre o Afeganistão, vale a pena.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Persépolis (Persepolis)</strong>, França/Irã, 2007. Dir: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Agora estamos chegando onde interessa. Animação GENIAL, em preto e branco, baseada nas histórias em quadrinho criadas pela iraniana Marjane Satrapi (que também faz a adaptação do roteiro), sobre a vida de uma menina (a história é narrada e apresentada do ponto de vista dela, da infância à vida adulta), sua família, seus dilemas quanto à identidade cultural e participação política no Irã, a partir da Revolução Islâmica. Imperdível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Lemon Tree 	(Etz limon)</strong>, 2008. Dir: Eran Riklis. A produção é parcialmente israelense? Não lembro, não achei a informação. É provavelmente o meu preferido dessa lista toda. Uma viúva palestina sobrevive da plantação de limões. Um dia um ministro de Israel acaba virando seu vizinho e por motivos de segurança, exige que ela derrube todos os limoeiros. Tocante, lindo, angustiante. Com minha atriz palestina preferida, Salma Zidane.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>A banda (Bikur Ha-Tizmoret)</strong>,<span style="text-decoration: line-through;"> Egito</span>, Israel, 2007. Dir: Eran Korilin. Tem momentos engraçados, mas eu não chamaria de comédia. Uma banda da força policial egípcia vai a Israel tocar na inauguração de um centro de artes muçulmano, mas acaba parando na cidadezinha errada. Eles não falam hebraico, os habitantes não falam árabe. Mas a comunicação é possível.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Valsa com Bashir (Waltz with Bashir)</strong>, Israel, 2008. Dir: Ari Folman. Outra animação. Dura, realista, amarga, parcialmente autobiográfica. Um veterano israelense da guerra contra o Líbano revisita suas memórias, os motivos e os cenários do conflito. Barra pesada, mas muito bom.<br />
</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;"><strong>Caramelo (Sukkar Banat)</strong>, Líbano, 2007. Dir: Nadine Labaki. Já falei desse filme <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/06/22/sukkar-banat-a-vida-e-doce-mas-nao-e-facil/" target="_blank">aqui</a>. O cenário é exatamente a Beirute pobre e ainda devastada pela guerra de que trata o filme citado aí em cima. Num salão de beleza transitam mulheres diferentes, com seus dramas pessoais, nos quais a gente consegue se reconhecer tão pungentemente quanto identificar diferenças imensas. Eu amei.</span></span></span></p>
<p lang="pt-BR"><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Arial,sans-serif;"><span style="font-size: small;">Tem muitos outros, ótimos. <strong>A noiva Síria</strong>, <strong>Procurando Elly</strong> (um iraniano do ano passado que eu acabei não vendo e estou esperando sair em dvd), <strong>Free Zone</strong>, do Amos Gitai, um outro americano recente que eu não consigo lembrar o nome, sobre a relação de amizade improvável mas bonita entre duas moças, professoras do ensino fundamental de uma escola nos EUA, sendo uma de família ortodoxa judia, e a outra de origem palestina. Um fantástico, prêmio pra quem lembrar o nome, sobre dois irmãos palestinos que se transformam em homens-bomba para um atentado do lado judaico, e os conflitos de consciência de cada um. Tem o próprio <strong>Guerra ao Terror</strong>, que ganhou o Oscar desse ano, mas eu não vi, não posso opinar. Lembrem mais e partilhem.</span></span></span></p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 2: Tear down the wall!*</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/21/another-brick-in-the-wall-parte-2-tear-down-the-wall/</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Apr 2009 03:22:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<category><![CDATA[Outro]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>(Essa vida de mãe e dona de casa atrapalha a minha assiduidade internética, ai, ai)</p>
<p></p>
<p>Eu tenho um monte de pontas soltas, de fiapos de pensamento que tenho tentado, em vão, costurar num texto contínuo e que faça sentido. Talvez tenha que desdobrar o assunto em mais posts, vamos ver. Por enquanto, seguem algumas notas, com temas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>(Essa vida de mãe e dona de casa atrapalha a minha assiduidade internética, ai, ai)</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-175" title="tornwall" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/tornwall.jpg" alt="tornwall" width="500" height="400" /></p>
<p>Eu tenho um monte de pontas soltas, de fiapos de pensamento que tenho tentado, em vão, costurar num texto contínuo e que faça sentido. Talvez tenha que desdobrar o assunto em mais posts, vamos ver. Por enquanto, seguem algumas notas, com temas em construção:</p>
<p>1 &#8211; A primeira coisa é que nós falamos da favela como se ela fosse um objeto inerte do qual podemos dispor à vontade, como um sofá velho que atrapalha a reforma da sala. Muita gente boa, ao falar da favela – remove favela, não remove favela, urbaniza favela – raramente tem em mente que está lidando com as vidas, os cotidianos, a rede de relações familiares, econômicas, sociais, de milhares de pessoas. Gente que tem trabalho, e uma rotina de horários e trajetos, que investiu o dinheiro na construção ou melhoria de suas casas, ainda que ela seja um barraco de dois cômodos e uma laje, que tem filhos matriculados na escola ou na creche, que tem conta anotada no caderninho da venda. Como é que a gente dispõe da vida dessas pessoas assim, sem perguntar o que elas acham? Os moradores das favelas do Rio de Janeiro, hoje, precisam ser considerados como atores legítimos, com direito a voz e participação em qualquer decisão que envolva o destino de suas comunidades.</p>
<p>2 &#8211; Ninguém cogita remover um condomínio de classe média, mesmo que ele seja uma ameaça ambiental. E olha que na Barra da Tijuca, aqui no Rio, só pra dar um exemplo, tem um monte deles que causa danos seríssimos ao complexo lagunar da Baixada de Jacarepaguá. O despejo de esgoto <em>in natura</em> desses condomínios e shoppings é grandemente responsável pelo assoreamento e consequente diminuição da superfície das lagoas, com a morte de inúmeras espécies vegetais e animais do ecossistema de restingas, outrora rico e exuberante nessa região. Por que a diferença de pesos e medidas?</p>
<p>3 &#8211; Será porque o pessoal que mora nesses condomínios paga seus impostos? As <strong><a href="http://duasfridas.wordpress.com/2009/03/31/condominio-brasil/" target="_blank">Fridas</a> </strong> já falaram, e muito bem: IPTU não é taxa condominial, pra começar a conversa. Pagar um IPTU mais alto não lhe dá mais direito do que aos outros de usufruir de serviços prestados pelo Estado (caso ele os prestasse, mas enfim). <strong>Todos</strong> temos direito a uma vida digna e a uma cidade habitável.</p>
<p>4 &#8211; Eu temo a naturalização do discurso sobre cercar as favelas. Tudo bem que a proposta em questão atualmente é construir muros no limite da favela com a mata (e com que presteza os jornais e revistas se adiantam em apresentar matérias que garantam que é <strong>só</strong> isso mesmo). Mas todas as referências a ela falam do projeto de “cercar as favelas”. Cercar é enclausurar, rodear de cercas, muros, barreiras. E eu acho que não é sem malícia que fica por isso mesmo. A gente vai repetindo “cercar as favelas”, “cercar as favelas”, até que a idéia não parece mais tão estranha assim, não deve ser tão ruim. Já vi até gente comparando com os condomínios que também são cercados e os moradores não reclamam, até gostam. Me poupem. Já seria ruim o bastante se os moradores das favelas resolvessem murar tudo para controlar o acesso do “pessoal do asfalto”, assim, voluntariamente. Mas não me consta que essa seja a idéia que mais circula por aí.</p>
<p>Não se trata de baixar dogmas sobre o que pode ou o que não pode, não se trata de considerar a favela como intocável, não se trata de acobertar invasões ou crescimento ilegal e sim buscar uma solução em conjunto, negociar. Todos temos a ganhar e/ou a perder. Todos.</p>
<p>Soluções para o problema habitacional passam por uma série intrincada de questões que vão desde a construção de unidades residenciais, melhoria das condições de saneamento, oferta de serviços de qualidade (ninguém quer morar longe e não ter transporte ou apanhar dos caras da Supervia pra andar num trem lotado além da capacidade) até a discussão ampla sobre temas espinhosos como controle de natalidade, sem falar na corrupção que sangra os recursos eventualmente alocados para estes projetos.</p>
<p>5 – A Marjorie escreveu um <a href="http://marjorierodrigues.wordpress.com/2009/04/03/pensamentos-soltos/" target="_blank"><strong>post</strong></a> no início do mês que ficou ecoando na minha cabeça. Ela estava tratando de outro assunto (outro ma non troppo), a mania de tornar estanques e não-misturáveis os grupos políticos de esquerda e de direita. E levantou essa questão de considerar o diferente como Outro, assim mesmo, com maiúsculas. Quando a gente trata o outro como Outro, alvo do nosso medo, da nossa desconfiança, e não raro, do nosso desprezo, a tendência é tirar desse Outro qualquer legitimidade para o diálogo. A gente trata imediatamente de generalizar esse Outro numa espécie distinta de nós, a gente se distancia dele, reforça toda a diferença que possamos ter em relação a ele, objetifica esse Outro, às vezes chegamos a desumanizá-lo, primeiro passo para justificar e naturalizar toda a violência.</p>
<p>Não é mais ou menos isso que fazemos com os diferentes de nós, na cidade? Com os favelados (assim mesmo, numa referência geral que permite que pensemos “os favelados” como uma categoria de análise em bloco)? Não é essa a base para toda xenofobia, discriminação, segregação? É preciso encontrar alguma coisa em comum com o Outro para que valha a pena o esforço do diálogo com ele. Nossa humanidade não seria suficiente? Parece que não mais. Voltamos ao que foi dito antes: para evitar esse diálogo, é preciso naturalizar o discurso que objetifica e desumaniza o Outro, até que a gente nem se dê mais conta disso.</p>
<p>E eu ainda nem falei do Bauman. Tá prometido pro próximo post.</p>
<p>* Referências explícitas à fantástica obra The Wall, do Pink Floyd.</p>
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