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	<title>Urbanamente &#187; Paris</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Cidades Literárias: Patrick Süskind</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2009 00:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Este é um dos textos mais eloquentes (não me conformo com a ausência do trema) e vívidos, em termos de descrição de cheiros e ambiência de uma cidade, que eu conheço. Sim, estamos falando de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Perfume" target="_blank"><strong>O Perfume</strong></a>, que narra a vida de Jean-Baptiste Grenouille na França do século XVIII,  um homem cujo maior talento era conseguir identificar com rara presteza e eficiência odores e componentes individuais de todos os perfumes existentes, e cuja característica pessoal mais estranha era não ter, ele próprio, cheiro algum. Há alguns anos, rendeu um <a href="http://www.imdb.com/title/tt0396171/" target="_blank">filme</a> bastante interessante, que conseguiu captar quase todo o espírito do livro.</p>
<p>Mas por mais que uma imagem valha mil palavras, não houve, pelo menos para mim, imagem alguma que desse conta de transpor para a tela as sensações despertadas pela descrição que consta nos primeiros parágrafos do livro, e que eu selecionei para hoje. Eu fico imaginando viver em Paris nessa época&#8230; Ou em quase qualquer outra grande cidade do mundo. As condições de higiene e habitabilidade eram mesmo terríveis. Fiquei aqui pensando duas coisas. Uma é na nossa obsessão moderna com escamotear cheiros corporais, e como os cheiros e perfumes têm significados que vão tão além do &#8220;conforto olfativo&#8221;. Outra coisa que me ocorreu é que estas condições de (falta de) higiene e as sensações e consequências delas decorrentes  não diferem muito de hoje, em tantas de nossas favelas miseráveis. Mas nos nossos dias, acho que nada fede mais que o Congresso Nacional. Tapemos nossos narizes.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e arainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar  havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas.; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. e só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre&#8221;. </em></p>
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