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	<title>Urbanamente &#187; patrimônio</title>
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		<title>Mestre Valentim: um filme, uma conversa, uma cidade</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Apr 2011 21:18:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu tenho tanto texto “pronto” que é uma vergonha eu ficar tanto tempo sem postar. O problema (para mim) é que a maior parte é uma rascunhada, reflexões mais ou menos soltas de acordo com alguma coisa que eu esteja lendo ou tenha visto, material que sobrou de artigos que eu não cheguei a completar, trechos de e-mails que eu escrevi há algum tempo, e nos quais me estendi além da conta em assuntos sobre os quais algum pobre coitado me perguntou alguma coisa, sem imaginar que eu desembestaria a falar como um bonde sem freio.</p>
<p>Mas qual o problema?, você pode me perguntar. É que no meu traço obsessivo, eu sempre acho que o texto precisa de uma melhorada, uma atualizada, uma revisada. Eu tenho que inserir links, fontes, imagens. E essa é a parte que demora. Daí me dá preguiça, ou eu me enrolo com prazos mais urgentes, e vou sempre me prometendo escrever no próximo final de semana. Por vício acadêmico, se bobear, eu inseriria inclusive as notações bibliográficas, até que a <a href="http://www.gatomia.com/" target="_blank"><strong>Dedéia</strong></a> me lembrou que isso aqui é um blog, não uma revista científica.</p>
<p>Semana passada me aconteceu uma coisa que eu achei muito legal. Eu cheguei a dizer por telefone, a uma amiga, que não iria divulgar as ideias que me ocorreram depois deste evento, enquanto a gente não amadurecesse e formatasse melhor os planos que nos ocorreram, mas eu não resisto. Então vou falar um pedacinho, sobretudo para não perder o entusiasmo e para repartir um pensamento ou dois, que eu já mencionei aqui, mas que eu gosto de reforçar.</p>
<p>No início do semestre, apareceu uma moça lá no Departamento de Urbanismo da <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank"><strong>FAU</strong></a> (FAU é Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a unidade da UFRJ em que eu trabalho), falando alguma coisa sobre estar fazendo um documentário sobre <a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/mestre-valentim" target="_blank"><strong>Mestre Valentim</strong> </a>(já explico quem foi), e gostaria de saber se algum professor poderia dar um depoimento a respeito. Alguma coisa assim, sem mais detalhes. O secretário do departamento, muito solícito, anotou os dados da moça e encaminhou em e-mail para os professores, contando a história e pedindo que algum de nós entrasse em contato com ela, se quisesse saber mais. Eu achei interessante e escrevi. Queria saber do que se tratava exatamente, qual o objetivo, se era uma produção independente ou se estava vinculada a um programa para alguma tv, quem estava produzindo, essas coisas.</p>
<p>A moça foi tremendamente gentil e profissional, me respondeu em seguida, agradeceu o contato, deu todas as explicações. É um trabalho acadêmico, de uma turma que estuda <a href="http://portal.estacio.br/cursos/graduacao.aspx?query_curso=Cinema" target="_blank">Cinema</a> na <a href="http://portal.estacio.br/" target="_blank">Faculdade Estácio de Sá</a>, para uma disciplina chamada Documentário II. A professora deu algumas alternativas de temas, o pessoal escolheu esse e eles têm que apresentar no final do semestre. Fizeram uma pesquisa preliminar (ela me encaminhou o roteiro que eles estavam seguindo, com alguns dados levantados e eu achei tudo bastante pertinente), e estavam em busca de profissionais que topassem gravar entrevistas sobre a vida e a obra deste que foi um dos maiores mestres-artesãos do Rio de Janeiro, na segunda metade do século XVIII. Expliquei a ela que minha área era de História, de Urbanismo. Eu não saberia fazer crítica de arte sobre o trabalho dele, mas poderia, se ela achasse válido, falar sobre a cidade naquele momento, as circunstâncias sociais, políticas, econômicas e urbanas do Rio de Janeiro no qual Mestre Valentim viveu e atuou. Ela gostou e nós marcamos a data. Foi quarta passada, num recanto agradabilíssimo do Jardim Botânico. A equipe, pequena e afiada, me deixou muito à vontade e acabou sendo um papo delicioso, espero realmente ter contribuído para que eles apresentem um trabalho bacana. Eu não entendo tanto de cinema, mas sei que eles gravaram entrevistas com outras pessoas, fizeram tomadas com imagens variadas das diversas <a href="http://historicidadecultural.blogspot.com/2009/10/obras-de-mestre-valentim.html" target="_blank"><strong>obras do Mestre Valentim</strong></a> espalhadas pela cidade, e agora eles precisam juntar tudo isso, editar, montar, sonorizar, sei lá mais o quê, e que leva um tempo pra ficar pronto. Eles me disseram que eu vou ganhar um dvd com o documentário pronto, deve ser lá pra julho, eu fiquei toda boba e feliz.</p>
<p>Mesmo falando sobre um assunto que faz parte do conteúdo das minhas aulas, é claro que eu fui dar uma estudada antes, ler alguma coisa a mais, pra não fazer feio. Eu sei um bocadinho sobre o panorama do Rio naquela época, sei alguns nomes e datas de tanto ler e repetir semestre após semestre, conheço a contribuição do Mestre Valentim para a cidade, mas não sabia muita coisa sobre a biografia dele. Descobri coisas interessantíssimas, que me puseram pra pensar e fazer outras conexões e suposições.</p>
<p>Pra esse post não ficar muito comprido, eu prometo que faço outro, em seguida, só sobre isso. O que eu queria mesmo, agora, é falar do que eu pensei <strong>depois</strong> da gravação.</p>
<p>Eu fiquei tendo mil ideias. Não, não vou contar todas agora, mas me deu vontade, por exemplo, de fazer uma exibição do documentário para os alunos de Arquitetura, na FAU. A galera de Cinema adorou e topou na hora. Dá pra desdobrar um monte de coisas a partir daí. Os alunos de arquitetura estudam isso. Eles falam sobre Mestre Valentim nas aulas de História da Cidade, nas aulas de História da Arte e da Arquitetura (o cara deixou um legado precioso em esculturas e talhas barrocas em várias igrejas do Centro do Rio), nas aulas de Paisagismo. Foi ele que desenhou e fez o <a href="http://www.passeiopublico.com/index2.htm" target="_blank">Passeio Público do Rio</a>. É verdade que o Passeio que está lá, hoje, não tem mais o traçado original de Mestre Valentim, e é fruto de uma reforma feita pelo paisagista francês <a href="http://www.casaruibarbosa.gov.br/glaziou/" target="_blank">Auguste-Marie Glaziou</a>, em meados do século XIX, seguindo já outros princípios filosóficos e projetuais, conforme a moda dos jardins românticos ingleses da época, em contraste com os jardins barrocos predominantes no século XVIII. Mas aquela área ali, entre a Cinelândia e a Lapa, era uma lagoa fétida até 1770, a Lagoa do Boqueirão, local de depósito de lixo e acúmulo de mosquitos, quando o vice-rei, D. Luís de Vasconcelos, resolve aterrá-la para transformar a área em um jardim, e é o mestre Valentim que projeta e executa o primeiro jardim público do Brasil.</p>
<p>O que me encantou nesse projeto foi algo que, como eu disse no início do texto, eu já falei aqui neste blog outras vezes. Me encanta e me interessa o amor pela cidade. Pela<span style="text-decoration: underline;">s</span> cidade<span style="text-decoration: underline;">s</span>, como produto humano, como construção e processo. E dentro disso, claro, pela minha cidade, tão linda, tão rica, tão cheia de possibilidades pouco exploradas. Me fascinam iniciativas como esta, de jovens que querem falar sobre a cidade, sua história, seus personagens, seu legado. A gente só ama e só dá valor àquilo que conhece. Como falar em preservação de patrimônio se só meia dúzia de estudiosos sabe o que significa determinado monumento ou pedaço da cidade? É preciso que as pessoas comuns, todas as pessoas, se interessem por conhecer, discutir, que sintam a cidade como sua, aquele cantinho, aquele bairro, aquela praça, aquele prédio meio em ruínas. Só assim elas vão defender esses lugares e objetos da sanha especulativa que tudo destrói em nome do lucro rápido.</p>
<p>Eu às vezes ouço com dó e profunda discordância alguns técnicos e profissionais, não apenas na minha área, de arquitetura e urbanismo, mas em algumas outras também, falando como se tivessem o monopólio do direito ao discurso sobre a cidade. Como se fossem os detentores de um saber que os coloca acima dos pobres mortais, do cidadão comum, coitado, que não sabe nada e só fala bobagem (e vamos combinar que especialistas vira e mexe falam bobagens também, eu já ouvi algumas bem constrangedoras).</p>
<p>Eu não quero com isso desqualificar o saber técnico-acadêmico e nivelar toda a conversa pelo senso comum. O que eu penso é que há percepções e instrumentos de análise diferentes, que se complementam e enriquecem. O pesquisador se debruça sobre autores variados, documentos, reflete, supera visões cristalizadas, escreve montes de páginas em artigos e teses que, muitas vezes, só outros pesquisadores como ele vão ler, se ele tiver sorte pra tanto. As pessoas em geral (e os próprios pesquisadores, que também são pessoas em geral, que vão à padaria, andam de ônibus e frequentam bares) vivem a cidade, seu cotidiano, suaz mazelas. As pessoas todas – médicos, executivos, economistas, motoristas de ônibus, donas de casa, mendigos, aposentados, estudantes, vocês entenderam – constroem esse objeto-cidade, todos os dias. Têm queixas, demandas, reivindicações, preferências, prazeres, memórias. Elas conferem significados, afetos, estabelecem vínculos com certos lugares e práticas, criam relações sociais e espaciais. As pessoas mudam os lugares e estes mudam as pessoas.</p>
<p>Por que não prestar atenção a isso, não ouvir com atenção, não considerar? Por que os projetos que vão incidir sobre as cidades, interferir na vida das pessoas, alterar paisagens e rotinas, precisam ser concebidos em âmbitos exclusivamente técnicos e políticos, sem incorporar a participação efetiva dos interessados? Não apenas uma consultinha do tipo “vocês querem que ponha a praça aqui ou ali?”, mas uma participação de verdade, uma troca, um protagonismo. Tudo bem, eu sei a resposta para estas perguntas, mas não me conformo com elas e não gostaria que minhas indagações ficassem no campo da retórica. Participar nas decisões implica em assumir co-responsabilidades pelo que será feito e suas consequências, e estimula cuidados maiores do que os que a gente costuma ter com coisas que simplesmente nos são dadas ou impostas.</p>
<p>De novo. Comecei querendo falar de uma coisa e acabei enveredando por outra. Só pra resumir então. Eu fiquei felicíssima com o convite, emocionada com o carinho e empenho com que o trabalho está sendo realizado, e quero expressar publicamente o quanto valorizo e prezo essas iniciativas, que tendem a atingir muito mais gente e dar muito mais resultado em termos de preservação de patrimônio e discussão sobre a cidade do que mil palestras em congressos. Acho a troca interdisciplinar (e interinstitucional) fundamental para arejar ideias e acredito que sempre temos muito para aprender uns com os outros. Depois conto pra vocês o que aprendi com esta experiência.</p>
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		<title>E fez-se a Luz!</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Feb 2011 21:23:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>As férias vão chegando ao fim e minha preguiça vai aumentando exponencialmente. Mas vamos voltar a São Paulo.</p>
<p>Naquele mesmo primeiro dia de passeio, depois de lanchar na Casa Godinho, eu achei que dava tempo de mais um roteirinho do meu livro, e me mandei pro Bom Retiro, um dos bairros mais antigos da cidade, verdadeiro testemunho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As férias vão chegando ao fim e minha preguiça vai aumentando exponencialmente. Mas vamos voltar a São Paulo.</p>
<p>Naquele mesmo primeiro dia de passeio, depois de lanchar na <strong>Casa Godinho</strong>, eu achei que dava tempo de mais um roteirinho do meu livro, e me mandei pro Bom Retiro, um dos bairros mais antigos da cidade, verdadeiro testemunho urbano desde 1800. Primeira parada: <a href="http://www.estacoesferroviarias.com.br/l/luz.htm" target="_blank">Estação da Luz</a>. Estava louca há anos para conhecer o <a href="http://www.museudalinguaportuguesa.org.br/exposicoes.php" target="_blank">Museu da Língua Portuguesa</a>, que funciona ali numa parte reformada da estação. Não me decepcionei. Lindíssimo o museu, uma pena a loja e a cafeteria estarem fechadas. Mas a estrutura é toda muito bem organizada, há a parte das exposições temporárias, que dessa vez era sobre <strong>Fernando Pessoa</strong>, um andar inteiro e imenso com painéis, projeções e todo tipo de artefato interativo e tecnológico, contando a formação da língua, desde lá atrás, na bifurcação dos ramos linguísticos, de onde surgiu o indo-europeu que dá origem à grande quantidade de línguas que hoje conhecemos, extintas (como o latim) ou vivas, como seus derivados português, espanhol, francês, romeno, para ficar só nas mais conhecidas.</p>
<p>O que eu achei mais legal foram os vários computadores à disposição, que mostram as contribuições das diversas línguas africanas e indígenas à formação do português que falamos hoje no Brasil. Cada computador com um dialeto ou língua, explicando sua origem, falando dos povos que falavam essas línguas, um monte de outras informações culturais interessantíssimas e finalmente uma lista das palavras incorporadas ao nosso vocabulário, em todas as áreas, que são oriundas dessas línguas e do saber desses povos. É impressionante, a gente não se dá conta do tanto que fala e que vem de jejes, eve-fons, iorubás, guaranis, tamoios, e tantos outros. Ah, há também as palavras que vieram de outros grupos de imigrantes, das mais diversas nacionalidades, principalmente nos dois últimos séculos.</p>
<p>Entretanto, o que mais me emocionou mesmo foi a projeção com artistas e escritores declamando trechos de poemas em português. A versão rap para um poema de Gregório de Matos ficou sensacional. Na pequena arena circular em que a projeção era feita nas paredes, em 360°, os textos e imagens abstratas iam se encaixando no tema ou no ritmo, enquanto nós sentávamos em arquibancadas de madeira. O piso, no centro, é escuro, e aqueles versos estão escritos em luz, numa montagem simples e poética. Foi muito lúdico também. Havia crianças se divertindo com a maleabilidade da língua, as aliterações, a cadência que dá vida às frases. Será que eu sou boba porque eu chorei um pouquinho, algumas vezes?</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Museu.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-986" title="Museu" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/Museu.jpg" alt="" width="850" height="300" /></a></p>
<div id="attachment_987" class="wp-caption alignleft" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/DSC09429.jpg"><img class="size-full wp-image-987" title="DSC09429" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/DSC09429.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Estação da Luz</p></div>
<p>Na saída do Museu, fiz questão de verificar que a Estação da Luz continua funcionando como um ponto intermodal importante em São Paulo, integrando a malha ferroviária com o metrô e o ônibus. O prédio original era de 1867, mas desapareceu sob o fogo. O que está lá foi inaugurado em 1901, símbolo da indústria e da arquitetura do ferro e do tijolo da Revolução Industrial. Como aconteceu tantas vezes (e aqui no Rio não é diferente), foi a estrada de ferro que urbanizou a região, levando ao loteamento das chácaras e abertura de ruas. Isso atraiu moradores, casas comerciais, oficinas, armazéns e depósitos. Ainda hoje, é fascinante observar aquele monte de gente passando por ali, como fizeram centenas de milhares italianos, japoneses, coreanos, judeus (de origens várias), mineiros, baianos, paraenses, pernambucanos, peruanos, paraguaios, desde o século XIX até hoje. Isso sem falar nas toneladas de café que vinham do interior do estado rumo ao Porto de Santos e que fizeram a riqueza da metrópole.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/jardim.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-989" title="jardim" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/jardim.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Por recomendação das amigas (e do guia), fui passear no parque em frente, o Parque da Luz. O jardim é anterior à estrada de ferro, e foi aberto em 1825, com um jardim botânico e um zoológico! Tem o típico desenho romântico inglês, com imensas árvores, lagos, canais, pontezinhas, estátuas, grutas artificiais, tudo emulando uma paisagem campestre e nostálgica, que convida o passante à ilusão de que, por um momento, se saiu da cidade e se mergulhou em alguma paisagem idílica. O lindo coreto de ferro ao centro está reformado, e o programa mais delicioso a fazer é simplesmente caminhar e contemplar. O parque é muito frequentado, com dezenas de pessoas percorrendo os caminhos sinuosos, ou sentados jogando dominó, lendo, batendo papo. Ah, antes que eu esqueça, a Pinacoteca fica ali, quase de frente para a Estação da Luz, e o prédio é lindo, mas eu não tive tempo de visitá-la desta vez. Ao seu lado, há um belo Jardim de Esculturas, com obras de geniais artistas contemporâneos brasileiros, como Waltércio Caldas, Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Ascânio MMM.</p>
<div id="attachment_990" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/pqe-da-luz.jpg"><img class="size-full wp-image-990" title="pqe-da-luz" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/pqe-da-luz.jpg" alt="" width="800" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Movimento e vida no parque</p></div>
<p>Antes de entrar no coração do bairro propriamente, assinalado por uma placa de Bem-vindo ao Bom Retiro, numa esquina da rua José Paulino, uma das mais conhecidas e badaladas, um pequeno trecho do <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3227054" target="_blank">livro</a> que me serviu de Guia, no capítulo escrito pelo historiador <strong>Roney Cytrynowicz</strong>:</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/bem_vindo.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-991" title="bem_vindo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/bem_vindo-130x300.jpg" alt="" width="130" height="300" /></a><em>&#8220;Poucos bairros e lugares da cidade de São Paulo têm uma característica tão definida como o bairro do Bom Retiro, principalmente por três aspectos relacionados entre si: o comércio têxtil (&#8230;) que atrai pessoas e negócios de todos os cantos da cidade e do país; os restaurantes de culinária &#8216;típica&#8217; de vários grupos étnicos, citados com destaque em todos os roteiros gastronômicos da cidade e, por fim, a presença visível de paulistanos de várias origens étnicas e nacionais. O Bom Retiro tornou-se assim uma espécie de cartão-postal ou vitrine do cosmopolitismo da cidade, [de um] multiculturalismo efetivo, cotidiano, que embaralha pessoas, culturas e comércio. O lado cartão-postal convive com o dia-a-dia dos imigrantes, seus descendentes de várias gerações e sua intensa produção de signos culturais, de letreiros de loja a cardápios de restaurante em várias línguas, brincando com os nomes, seus sentidos, as sonoridades e seus grafismos.</em></p>
<p><em>Mas é interessante superar uma visão folclorizante do bairro e dos seus habitantes, que seria olhar para seus moradores como seres pitorescos originário de outras terras: ; &#8216;coreano&#8217;, o &#8216;italiano&#8217;, o &#8216;judeu&#8217; e assim por diante, como se as pessoas portassem uma etnicidade ou cultura &#8216;pura&#8217; ou &#8216;original&#8217;. (&#8230;) Estas identidades existem, mas sempre em combinação com outras e em um jogo no qual os grupos reinventam sua cultura na troca com os outros, criando estratégias de manutenção interna de sua identidade e outra de consumo para o público &#8216;externo&#8217;.</em></p>
<p><em>Uma visita ao bairro é uma viagem a esse mundo em que &#8216;assim é se lhe parece&#8217;. O próprio comércio (&#8230;) convida a esse turismo de identidade, mas ele é apenas a superfície, a fachada de uma complexa vida diária na metrópole, de sucesso de imigração, de liberdade e afirmação étnica, cultural e religiosa, mas também de fracassos, de retornos, de frustrações, de ilegalidades no trabalho e de vidas sofridas, clandestinas e sem registro formal&#8221;.</em></p>
<p>Assim que passei a placa, procurei um café, sentei, tomei meu indefectível capuccino (adooooro), enquanto rabiscava minhas impressões daquelas primeiras horas e lia esse trecho que acabei de transcrever. Já eram mais de 4 horas da tarde, e eu tinha pressa de ver tudo o que pudesse. A mistura de culturas, arquiteturas, gentes e tempos é gritante. E deliciosa. Como diz o Roney mais adiante: <em>&#8220;o descompasso geométrico das construções, com alturas, tamanhos, estilos, cores e estado de conservação inteiramente diferentes, cada um brotando para um lado&#8221;</em> não deixa de ter seu charme. Os resquícios do passado industrial prioritariamente têxtil do bairro estão por todos os lados. Galpões que viraram centros comerciais, armarinhos, malharias, fiações. Lojas elegantes e caras numa rua, e logo ali depois da esquina, botequins, lojas de 1,99, pechinchas em bolsas e vestidos. Não desejo reforçar os estereótipos, mas meu espírito mulherzinha baixou num transe intenso, e quando eu vi, já tinha gasto mais de mil reais! Calma! Só mentalmente. Era o que eu teria gasto se tivesse comprado tudo o que cobicei nas lojas em que parei pra perguntar o preço. Na verdade, comportei-me estoica e prudentemente (mais ou menos) e minhas já sufocantes dívidas foram acrescidas de apenas cerca de 10% desse valor exorbitante. Mas veja se não valeu a pena: uma calça de malha (aquela viscose com elastano, de boa qualidade) marrom, lindésima, meio pantalona; uma camiseta de malha clarinha, com uma gola de cetim pérola, meio fru-fru, básica e elegantinha; um cinto tressê preto, de couro, fininho; uma echarpe bem levinha, de renda, ideal para o verão. Tudo isso junto, mais o café, o doce a que eu me referi no <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2011/02/17/pauliceia-desvairada/" target="_blank">post anterior</a>, e passagem incluída, somando pouco menos de cem reais. Não está mal, diz?</p>
<p>É uma tentação andar pelo Bom Retiro, aviso logo. Melhor voltar para a apreciação histórica. Pelo que li, além da maioria de italianos e judeus que chegaram no final do século XIX e princípios do XX, houve também grande quantidade de árabes, armênios, gregos, búlgaros. Eu, por exemplo, queria comer um falafel (sanduíche com variações comuns na culinária tanto de Israel quanto de diversos países árabes), ou uma bureka, na <strong>Casa Búlgara</strong>, mas na hora em que passei por lá, já estava fechada. Outro que ficou anotado para a próxima foi o <strong>Restaurante Acrópole</strong>, de comida grega (dãããã), na Rua da Graça.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/DSC09441.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-992" title="DSC09441" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/DSC09441.jpg" alt="" width="400" height="300" /></a>Foi bom passar por lá de toda forma. Uma entrada estreita, em paralelepípedos, me chamou a atenção, bem como a placa sobre o portal, que dizia <strong>Vila Michele Anestasi</strong>. Antes mesmo de criar coragem para entrar, reconheci na casinha ao fundo, a tipologia característica das vilas operárias dos oitocentos. Meninos pequenos e descalços brincavam no pequeno pátio, e eu puxei conversa na cara de pau. Carinha de bolivianos, mas falavam português. Pedi para fotografar, já fotografando, e a mãe de um deles apareceu, grávida, desconfiada, cara feia e pouco assunto, mandando o filho entrar. Não admira. Se cem anos atrás essas vilas eram ocupadas por italianos pobres, hoje é moradia principalmente de bolivianos (e outras nacionalidades latino-americanas), que quase sempre vêm para o Brasil atraídos pela ilusão de uma vida melhor, e acabam instalados clandestinamente, trabalhando em condições de miséria e escravidão em fábricas de tecidos e confecções. Quando a mãe fechou a porta atrás de si, a fresta da porta me permitiu vislumbrar uma casa escura e pobre. Para a situação de tantos trabalhadores estrangeiros ou não, ainda presos em relações de trabalho de escravidão, por este Brasil afora, recomendo que acompanhem o <a href="http://blogdosakamoto.uol.com.br/" target="_blank">blog do Sakamoto</a>.</p>
<div id="attachment_993" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/vila.jpg"><img class="size-full wp-image-993" title="vila" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/vila.jpg" alt="" width="800" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Vila Operária</p></div>
<p>Na rua Três Rios entrei &#8211; já quase na hora de fechar &#8211; numa lanchonete de nome <strong>Burekita</strong>, onde bebi um refrigerante bem gelado (ô calor!) e comi um docinho, enquanto a família de proprietários judeus conversava ao mesmo tempo em que o guri de seus 4 anos brincava de aviãozinho de papel com o avô. E comigo, né, já que a potente aeronave cismou de pousar na minha mesa algumas vezes. Dali, mais uma caminhada, dessa vez por uma área um tanto esquisita, com oficinas, terrenos baldios e hotéis de categoria duvidosa. Faz parte. Mas logo cheguei de volta à movimentada Av. Tiradentes, de onde peguei o metrô para casa. Um dia inesquecível.</p>
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		<title>Paulicéia desvairada*</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Feb 2011 14:56:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>
		<category><![CDATA[arquitetura]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Pergunta: onde mais, neste imenso Brasil, eu posso, num dia só:</p>
<p>- ser abordada por um iraniano pedindo que eu tirasse uma foto dele em frente a uma catedral católica,
- ouvir emocionada um trio nordestino, vestido a caráter, com sanfona, zabumba e triângulo, cantar Asa Branca numa pracinha, enquanto uma multidão se forma em volta,
- depois conversar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pergunta:</strong> onde mais, neste imenso Brasil, eu posso, num dia só:</p>
<p>- ser abordada por um iraniano pedindo que eu tirasse uma foto dele em frente a uma catedral católica,<br />
- ouvir emocionada um trio nordestino, vestido a caráter, com sanfona, zabumba e triângulo, cantar Asa Branca numa pracinha, enquanto uma multidão se forma em volta,<br />
- depois conversar com uma família de americanos num mirante no alto de um prédio, bem no Centro, de onde se vê a cidade quase toda,<br />
- fotografar um menino boliviano descalço e remelento, provavelmente imigrante clandestino, numa vila operária do século XIX,<br />
- comer um doce azedinho e bom, sentada sozinha num bar de judeus e acabar brincando de aviãozinho de papel com o Abraãozinho, neto do dono (era mesmo o nome do guri)?</p>
<p><strong>Resposta: Em São Paulo.</strong></p>
<p>Eu saí do Rio dia 27 de janeiro, para passar cinco dias na capital paulista, visitando amigas queridas, algumas das quais eu não via há mais de um ano. No caminho me dei conta de que era a primeira vez que eu ia a São Paulo a turismo, com disposição de conhecer a cidade. Sempre fui rapidinho, para algum evento específico, e ia do local onde estava hospedada para o evento e voltava. Tá, algumas vezes rolou um restaurante ou um barzinho, sempre ótimos, mas sempre guiada por moradores da cidade, e eu nunca prestei atenção em muita coisa à minha volta durante as andanças de carro. Ou então, passava por São Paulo (de novo de carro) a caminho do sul, e via só a parte ruim: os engarrafamentos da Marginal. Definitivamente, de carro é o pior jeito de conhecer uma cidade.</p>
<p>Vou confessar: São Paulo me intimidava. Engraçado que eu já visitei cidades estrangeiras, grandes, onde nem sempre eu sabia falar a língua local, e jamais deixei de pegar um mapinha e sair só (muitas vezes sozinha <span style="text-decoration: underline;">mesmo</span>, enquanto o marido trabalhava) para bater pernas, conhecer, fotografar. Pego ônibus, bonde, metrô, entro em lojas, exploro bairros mais afastados, paro para almoçar em lugares comuns (evito os restaurantes típicos para turistas, prefiro os cafés e bares onde vejo toda a gente da cidade sentada). Numa boa, adoro, e no final do primeiro dia já sinto como se tivesse a cidade nas mãos. Mas em São Paulo? Eu achava que ficaria paralisada, que ia acabar me perdendo, que todo mundo ia sacar que eu era uma carioca acuada. Pois vou logo dizer: foi mais fácil do que eu pensava, e muito mais agradável e emocionante também (fora o calor, que só não estava pior que no Rio, de onde eu me livrei dos mais de 40 graus que andou fazendo enquanto eu estava fora). Apaixonei.</p>
<p><a href="http://www.narrativaum.com.br/guias01.html#"><img class="alignleft size-medium wp-image-966" title="capa_guia1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/capa_guia1-185x300.gif" alt="" width="185" height="300" /></a>É verdade que eu tive um guia fantástico, que eu recomendo muito, mesmo aos paulistanos (eu descobri coisas que minhas amigas locais desconheciam, hohoho). É um livro que eu ganhei de um amigo uns anos atrás e que andou comigo diariamente, debaixo do braço, na mão, na bolsa: <a href="http://www.narrativaum.com.br/guias01.html#" target="_blank"><strong>Dez roteiros históricos a pé em São Paulo</strong></a>. Um projeto da Secretaria de Estado da Cultura, realizado pelo Programa de Ação Cultural e publicado pela Editora Narrativa Um, em 2007. Cada roteiro é escrito por um autor diferente: arquitetos, historiadores, antropólogos, artistas plásticos, com olhares, formações e experiências urbanas distintas, e uma forma particular de tecer sua narrativa e apresentar seu &#8220;pedaço&#8221; da cidade. Todos têm um mapinha com o trajeto sugerido, em que os pontos citados no texto estão assinalados, bem como um pequeno histórico do bairro ou região descrita e sugestões de quitutes a experimentar, edifícios a visitar, praças a desfrutar, hábitos e personagens a observar. MUITO legal.</p>
<p>Mas vamos lá. Eu cheguei numa quarta de tardinha. Na quinta, todo mundo trabalhando, eu resolvi que iria explorar o centro histórico a pé. A querida <a href="http://www.jujubalandia.org/" target="_blank">Juju</a>, que me recebeu, pegou comigo o primeiro ônibus ali do Caxingui, onde eu estava (perto do estádio do Morumbi) até a Av. Paulista e de lá eu poderia tomar o metrô para quase qualquer lugar. Escolhi fazer este circuito aqui:</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/roteiro1.gif"><img class="aligncenter size-full wp-image-967" title="roteiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/roteiro1.gif" alt="" width="380" height="611" /></a></p>
<p>Foi na Praça da Sé, início do percurso, que o tal iraniano me pediu que eu o fotografasse diante da catedral, num inglês meio cheio de mímica, provavelmente porque ele não sabia se eu entenderia. Comunicação estabelecida, ele se ofereceu pra tirar uma foto de mim também, e me perguntou de onde eu era. Eu falei que era brasileira e perguntei de onde ele era. Irã. Que legal!</p>
<div id="attachment_972" class="wp-caption aligncenter" style="width: 791px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/catedral-e-praca.jpg"><img class="size-full wp-image-972" title="catedral-e-praca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/catedral-e-praca.jpg" alt="" width="781" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Eu diante da catedral, depois a Praça da Sé vista das escadarias da igreja</p></div>
<p>O livro adverte: <em>&#8220;o passeante curioso, ao ir descendo a Praça da Sé em direção ao antigo Pátio do Colégio, certamente vai trombar com meninos de rua, passar por cima de sem-tetos dormindo, desviar de camelôs, cruzar com ciganas ledoras de mão e ouvir a voz esganiçada de pregadores das mil seitas evangélicas que prosperam na cidade rica habitada exageradamente pelos muito pobres, atentos ouvintes embasbacados pelo som dos alto-falantes&#8221;.</em> Só não vi as ciganas. Mas isso tudo faz parte das nossas cidades, e traduz nossa situação urbana. Seria tapar o sol com a peneira querer andar só pelos ambientes assépticos dos shoppings e bairros mais requintados, onde vigora a vigilância privada.</p>
<p>Sorri, portanto, e prestei atenção, absorvendo tudo, ali no famoso &#8220;triângulo&#8221; que compõe o núcleo de fundação da cidade, formado pela Rua de São Bento, que liga a igreja dos beneditinos à dos franciscanos, a Rua Direita, fazendo ângulo reto com ela e a Rua Quinze de Novembro em oposição a este ângulo. Bem próximo a uma das pontas do triângulo, o Pátio do Colégio ostenta uma reprodução da igreja e do colégio dos jesuítas, construída já na década de 70, em substituição ao conjunto original, do século XVI, há muito desaparecido (não esquecer que em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de terras portuguesas). Há ali uma cripta dedicada ao Padre José de Anchieta, que expõe inclusive um dos fêmures do padre, como relíquia religiosa. Essa veneração por restos de corpos de santos me dá arrepios, juro que não entendo, mas passemos adiante.</p>
<div id="attachment_973" class="wp-caption aligncenter" style="width: 780px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/patiodocolegio.jpg"><img class="size-full wp-image-973" title="patiodocolegio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/patiodocolegio.jpg" alt="" width="770" height="370" /></a><p class="wp-caption-text">Pátio do Colégio</p></div>
<p>Esse capítulo do livro é escrito pelo arquiteto Carlos A. C. Lemos, e ele faz uma descrição bem&#8230; arquitetônica (!!!) de tudo. Vai apontando as obras mais importantes, com os nomes dos arquitetos e datas de construção, sem se furtar a elogiar os prédios e estilos que ele admira (o colonial autêntico, o eclético historicista da linhagem de Ramos de Azevedo, o próprio art déco) e descrever com visível desapreço obras mais contemporâneas e as neocoloniais, estilo que ele menosprezava. Olha só dois exemplos:</p>
<div id="attachment_977" class="wp-caption alignleft" style="width: 210px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cobertura-e-sfrancisco.jpg"><img class="size-medium wp-image-977" title="cobertura-e-sfrancisco" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cobertura-e-sfrancisco-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, a cobertura de Paulo Mendes da Rocha. Embaixo, a igreja de São Francisco e da Ordem Terceira</p></div>
<p>1) Falando da cobertura no Viaduto do Chá:<em> &#8220;Muita gente achava inexpressiva tal cobertura art déco acoplada ao Viaduto do Chá, certamente também projeto de Elisiário Bahiana. Construção simples, nada semostradeira, na expressão de Mário de Andrade. Foi demolida e substituída por outra concebida por outro notável arquiteto, o nosso amigo Paulo Mendes da Rocha. Obra inteligente e até bonita, mas uma intrusa a clamar: &#8216;cheguei!&#8217;. As pessoas em geral têm que saber que Patrimônio Cultural não é composto apenas de obras belas; algumas históricas são inexpressivas. Aliás, quem é o fazedor de juízos de valor com procuração do povo para derrubar e construir?&#8221;</em></p>
<p>2) Falando da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco: <em>&#8220;guandiloquente construção neocolonial projetada por Ricardo Severo e Felisberto Ranzini para o Escritório Técnico Ramos de Azevedo &#8211; Severo e Vilares, por volta de 1932/33, para substituir uma legítima e mais que histórica construção colonial. Substituíram um original por uma contrafação num total desrespeito ao nosso Patrimônio Cultural (&#8230;) É uma pena. Agora ali está a Igreja de São Francisco, último remanescente do século XVII, toda encolhida e amedrontada pela massa insólita de alvenaria pretensiosa&#8221;.</em></p>
<p>Eu vou bancar a atrevida e discordar do eminente mestre. Em primeiro lugar, eu não chamaria a atual Faculdade de Direito propriamente de neocolonial. Seu frontão é neocolonial, mas o pórtico que marca o corpo central, com colunas coríntias, e a própria disposição e ritmo das aberturas, classicizantes, enquadrariam este edifício, a meu ver, no estilo eclético em seu sentido mais estrito (a mistura de elementos e linguagens distintas). Em segundo lugar, ele fala como se este edifício que aí está tivesse tomado direta e abusivamente o lugar do original colonial. Pois bem, como podemos acompanhar pelas imagens abaixo (eu infelizmente não fotografei a faculdade, apenas o conjunto franciscano), até 1862, pelo menos, ainda era de fato o convento anexo à igreja que servia de Academia de Direito. Colonial, ok. Mas a foto seguinte, de 1867, já mostra uma reforma bastante modificadora, de feição neoclássica, com o telhado cerâmico escondido pela platibanda, a adição de pilastras decorativas sugerindo apoio ao entablamento e a criação de uma entrada destacada por uma porta em arco pleno, encimada por uma pequena torre com relógio. Neste momento, o edifício já deixou de ser o colonial original, que Carlos Lemos adoraria ter preservado. Ao prédio hoje existente não cabe a culpa pela destruição do patrimônio, a meu ver. Se algum colega mais apto, lendo isto, quiser dar seu parecer, eu agradeço.</p>
<div id="attachment_978" class="wp-caption aligncenter" style="width: 735px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/FacDireito-evolucao.jpg"><img class="size-full wp-image-978" title="FacDireito-evolucao" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/FacDireito-evolucao.jpg" alt="" width="725" height="160" /></a><p class="wp-caption-text">À esquerda, 1862; ao centro, 1867. Fotos de Militão Augusto de Azevedo, em http://marcos.mazo.nom.br/site/node/187. À direita, pórtico em 2011. Fonte: http://www.panoramio.com/photo/24618569</p></div>
<p>Vamos prosseguir, que eu nem cheguei na hora do almoço e já vi que meu passeio ao Bom Retiro vai ficar pro próximo post. O texto de Carlos Lemos, de toda forma, é cheio de indicações preciosas, e, por causa dele, eu almocei na tradicional <a href="http://www.casagodinho.com.br/" target="_blank">Casa Godinho</a>, no térreo do edifício Sampaio Correia, primeiro arranha-céu paulistano, projetado em 1924 por Cristiano Stockler das Neves. Depois, parei para prestar homenagem ao Edifício Martinelli, de 1929, que para mim sempre estará associado a duas situações. A primeira, é que ele é mencionado no belíssimo livro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Olhai_os_L%C3%ADrios_do_Campo" target="_blank">Olhai os lírios do campo</a>, de Érico Veríssimo e a festa de inauguração do prédio é um momento importante no livro. A segunda &#8211; vamos botar uma lenhazinha na fogueira da rivalidade rio-sãopaulo &#8211; é que eu sei que o Martinelli foi erigido na mesma época que o Edifício A Noite, sede da Rádio Nacional, aqui na Praça Mauá, e havia uma velada disputa para saber quem completaria mais depressa o primeiro edifício de concreto armado do Brasil, que seria o mais alto da América Latina naquele momento. Há controvérsias.</p>
<div id="attachment_979" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/edificios.jpg"><img class="size-full wp-image-979" title="edificios" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/edificios.jpg" alt="" width="800" height="275" /></a><p class="wp-caption-text">Da esqerda para a direita: A Noite, Martinelli e Cavanagh. O primeiro foi tirado de http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1147645&amp;page=4, os outros são fotos da autora.</p></div>
<p>O projeto do A Noite é do francês Joseph Gire (o mesmo do Copacabana Palace) e de Elisiário Bahiana. Foi inaugurado com 22 andares, em 1929, com 102,80 m, o que equivale em nossos dias à altura de um prédio de mais de 30 andares. O Martinelli acabou sendo mais alto, atingindo 105,65 m (o livro fala em 80 metros, mas as outras fontes pesquisadas todas batem em torno de 105). Porém, alguns autores consideram que só foi concluído realmente em 1930, tendo apenas a estrutura terminada em 1929. Ficamos assim: o Rio inaugurou primeiro, mas São Paulo fez o mais alto. De que adianta? Em 1935 ambos perderiam a majestade para Buenos Aires, com os 120,35 m de seu Edifício Cavanagh.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AsaBranca.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-980" title="AsaBranca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AsaBranca-300x225.jpg" alt="Tão bom ter parado ali pra ouvir esse pessoal" width="300" height="225" /></a>Foi ali do ladinho do Martinelli, na Praça Antonio Prado, que eu parei para ouvir Asa Branca, embevecida. Já falei que adoro a vida popular das praças? Guiada pelos conselhos de Carlos Lemos, segui logo depois para o Banespa, em cujo topo há um mirante com uma visão soberba da cidade. Desci de lá pensando que eu definitivamente amo as cidades. Esses centros meio sujos, tumultuados, de ruas estreitas. Buzina, edifícios antigos e novos lado a lado, mendigos, vendedores ambulantes, artistas de rua, ônibus, gente. Certo, podíamos não ter os mendigos. Mas não no sentido do &#8220;choque de ordem&#8221; do nosso prefeito carioca, que tira todos dos lugares mais valorizados da cidade, apenas para que não sejam vistos, como quem varre a sujeira para baixo do tapete, e assim crê que a casa ficou limpa. Podiam não existir mendigos no sentido de não existir tamanha miséria, tanta desigualdade e desamparo. Se é para eles existirem, então acho que devem mesmo estar diariamente às nossas vistas, confrontando nosso conforto e sucesso (e nossas responsabilidades) com o longo caminho que ainda devemos percorrer para extirpar essa chaga do país.</p>
<p>De resto, os cafés e botequins, os homens fumando de pé nas esquinas, o burburinho, os becos, as pessoas tão diferentes em suas cores, tamanhos e jeitos, em sua faina de formigas, tudo me fascina. Me deu um carinho, como se eu quisesse pegar São Paulo no colo.</p>
<p>No próximo episódio, uma tarde maravilhosa: a Estação da Luz, o Museu de Língua Portuguesa, Pinacoteca, e como lutar bravamente &#8211; e falhar! &#8211; na tentativa de resistir às compras no fantástico bairro do Bom Retiro.</p>
<p><em>* Thanks, Mario de Andrade!</em></p>
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		<title>Domingo no Parque: espaço público e urbanidade</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/09/07/domingo-no-parque-espaco-publico-e-urbanidade/</link>
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		<pubDate>Tue, 07 Sep 2010 20:37:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de ócio, como diria Bertrand Russell. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } 		A:link { so-language: zxx } -->Feriadão.</p>
<p>Excelente oportunidade de colocar o trabalho em dia, certo? Mais ou menos. Oportunidade também de descansar um pouco, estar com a família, colocar o sono em dia. Praticar um pouco de <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=639989" target="_blank">ócio</a>, como diria <a href="http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/outros/russel.htm" target="_blank">Bertrand Russel</a>l. Muitas vezes, é preciso baixar o ritmo, cessar o frenesi de atividades, desligar das preocupações e descansar sem culpa para que determinadas soluções aflorem, pensamentos se organizem, cenários clareiem. E sabe que é bem assim? Nesses dias em que “trabalhei” menos do que achava que devia, mas li um bocado, troquei correspondências e ideias com interlocutores críticos e generosos, algumas coisas concernentes ao futuro projeto de tese estão começando a tomar corpo de maneira mais consistente. Viva o ócio.</p>
<div id="attachment_853" class="wp-caption alignright" style="width: 410px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg"><img class="size-full wp-image-853" title="panoramageral" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/panoramageral.jpg" alt="" width="400" height="272" /></a><p class="wp-caption-text">Vista aérea do parque</p></div>
<p>Uma das coisas que fiz foi passear com o marido e a cachorra no <strong>Aterro do Flamengo</strong>, domingo. É um dos meus espaços públicos preferidos na cidade. Num dos meus passeios por lá, ano passado, acabei me inspirando pra um post sobre <strong>Burle Marx</strong>, que você pode reler <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/05/paisagens-cariocas/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O que me encanta no Aterro é&#8230; tudo. Desde a história de sua concepção e construção, até o seu uso e apropriação por parte do público hoje. Com relação à história do Aterro, também falei disso quando<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/" target="_blank"> homenageei</a> o arquiteto <strong>Affonso Eduardo Reidy</strong>, por ocasião do centenário de seu nascimento.</p>
<p>Talvez quase todos vocês saibam que a orla do Rio de Janeiro, especialmente em torno do Centro da Cidade é fruto de sucessivos aterros, realizados desde os tempos da colonização. Uma parte considerável do território da cidade era composto por mangues e brejos, que foram drenados e aterrados para ganhar espaço de construção e ocupação urbana. Em várias ocasiões, estas obras foram feitas utilizando como matéria prima a terra retirada de morros demolidos, num processo longo e complexo de modificação da paisagem. Assim, já no início do século XX, com a reforma do prefeito Pereira Passos, o desmonte do Morro do Senado (onde hoje se encontra a Praça da Cruz Vermelha) serviu à abertura da Avenida Beira-Mar e construção da Praça Paris. Mais tarde, ao longo da década de 20, foi a vez do Morro do Castelo ser desmontado (área hoje conhecida como Esplanada do Castelo, onde estão os prédios dos antigos Ministérios do Trabalho, da Fazenda e da Educação, testemunhas de quando o Rio de Janeiro era Capital Federal). O material resultante deste desmonte foi utilizado na construção do Aeroporto Santos Dumont e áreas adjacentes. Na década de 50, vindo abaixo parte do Morro de Santo Antônio (ali em volta do Largo da Carioca, onde ainda está o Convento de Santo Antônio), foi a vez de aterrarem uma faixa de mar entre a antiga Ponta do Calabouço (procure pelo Museu Histórico Nacional, próximo à subida da Perimetral, é ali) e o Morro da Viúva, entre as enseadas do Flamengo e de Botafogo. O Morro da Viúva hoje é praticamente invisível a quem passa por ali, porque está rodeado de prédios altos que o encobrem e &#8220;disfarçam&#8221; na paisagem.</p>
<div id="attachment_854" class="wp-caption alignleft" style="width: 300px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg"><img class="size-full wp-image-854" title="290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/290px-Rio-Aterro-Flamengo-Gloria.jpg" alt="" width="290" height="218" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Aterro_do_Flamengo</p></div>
<p>É preciso mencionar que, em termos de planejamento urbano, este (décadas de 50 e 60) é um momento de pico das iniciativas rodoviaristas. Quase tudo era tratado em termos de acesso rápido e ligações viárias entre as diversas partes da cidade, estratégia calcada na disseminação do uso do automóvel e na aposta (modernista) de que com o barateamento e massificação da produção industrial, em breve todos teríamos nosso carrinho e poderíamos nos locomover rapida e confortavelmente pela cidade. Pfff&#8230;</p>
<p>Neste cenário &#8211; precisamos dizer isso – o Aterro é a solução encontrada para aliviar o tráfego das classes médias que faziam prosperar a Zona Sul (Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória), cujo deslocamento para o Centro da cidade se tornava cada vez mais difícil e tumultuado na estreita pista da Praia do Flamengo. Em outras áreas menos nobres, a solução foi sempre a desapropriação e demolição de casas, seccionando bairros mais pobres para a construção de viadutos e vias expressas (como ocorreu no Catumbi com a criação do viaduto que sai do Túnel Santa Bárbara, conectando Botafogo e Laranjeiras com o Centro). Mas ali no Flamengo não dava para usar a mesma tática.</p>
<div id="attachment_855" class="wp-caption alignleft" style="width: 330px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg"><img class="size-full wp-image-855" title="parkway" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/parkway.jpg" alt="" width="320" height="213" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: ttp://www.rio.audax.org.br/2008/01/histria-do-trajeto-iv-aterro-do.html</p></div>
<p>Em muito boa hora veio a proposta de <strong>Carlota de Macedo Soares (1910-1967)</strong>, de fazer essa nova ligação viária nos moldes dos<em> “parkways”</em> tão em voga nos Estados Unidos, em que uma via expressa corta um parque público, oferecendo uma paisagem agradável, livre de obstáculos (sem semáforos, portanto rápida) e, de quebra, criando uma área de lazer para a cidade. Independente do ponto de partida algo elitista, a realização do Aterro é um ganho inegável para a cidade toda. Neste contexto, o nome de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Lota_de_Macedo_Soares" target="_blank">Lota de Macedo Soares</a> é muito pouco lembrado, e isso é bastante injusto, na minha opinião, com alguém que se empenhou tanto, sacrificando sua vida pessoal e algumas preciosas amizades para viabilizar e executar esta que seria, provavelmente, sua maior contribuição à cidade. E que contribuição!</p>
<div id="attachment_856" class="wp-caption alignright" style="width: 165px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg"><img class="size-full wp-image-856" title="lotasoaresmacedo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/lotasoaresmacedo.jpg" alt="" width="155" height="190" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html</p></div>
<p>Carlota era filha de milionários, e nasceu na França, em março de 1910.   Foi educada em internatos suiços cinco estrelas, estudou Belas Artes nos Estados Unidos, e teve um longo, intenso e tumultuado romance com a poeta americana<strong> Elizabeth Bishop</strong>, que chegou a vir residir no Brasil com ela. Contando com um vasto círculo de influências e utilizando sua amizade pessoal com o governador Carlos Lacerda, Lota conseguiu emplacar o seu projeto da pista expressa atravessando um parque no Flamengo, que resolveria o problema do tráfego sem precisar mexer com as propriedades ao longo da Praia do Flamengo.<a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html" target="_blank"> Aqui</a>, um pouco mais dessa história. <a href="http://amigobocaaberta.blogspot.com/2010/03/lesbica-lota-soares-foi-idealizadora-do.html"></a></p>
<p>O resto se sabe. O projeto urbanístico é de Reidy (<a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/11/22/affonso-eduardo-reidy/)" target="_blank">além do traçado viário, da elaboração do programa e da concepção deste grande espaço público, ele também é o autor de diversas obras aí existentes como passarelas, coretos, oficinas e edifícios administrativos);</a><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> </span></span>o paisagismo é de Burle Marx, e hoje temos 1.200.000 m² de área verde pública, que tantos cariocas podem utilizar para os mais diversos fins: praticar esportes, caminhar, contemplar a natureza, fazer yoga, namorar, passear com as crianças ou os cachorros, relaxar e tomar uma água de côco, soltar pipa, andar de bicicleta e patins, jogar uma pelada de fim de noite. Sem falar nos grandes eventos que democraticamente se realizam ali, que vão de competições esportivas a encontros religiosos de todos os matizes, passando por concertos ao ar livre e manifestações políticas, reuniões de fóruns internacionais e feiras de negócios.</p>
<div id="attachment_857" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg"><img class="size-full wp-image-857" title="projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/projeto_aterro_do_flamengo_RJ_por_burle_marx.jpg" alt="" width="230" height="175" /></a><p class="wp-caption-text">Projeto paisagístico de Burle Marx. Fonte: http://dynamite.terra.com.br/blog/townart/post.cfm/qual-e-a-joga-comes-back</p></div>
<p>É isso que gosto no Aterro, e eu o uso bastante. É um patrimônio da cidade, dos cariocas, e um dos mais democráticos espaços públicos que temos. O acesso é livre, as opções de lazer são inúmeras, e uma vez que você esteja ali, não precisa gastar um único centavo para se divertir. Aos fins de semana e feriados, a pista de automóveis é fechada, e os pedestres tomam conta do parque. Claro que há todo tipo de comércio: aluguel de biclicletas variadas e carrinhos elétricos para crianças, venda de pipas, refrigerantes, água, biscoitos, picolés, banquinhas que oferecem massagem. Mas há famílias que chegam a pé, levam seu próprio picnic e se divertem sentadas na grama enquanto as crianças correm. Fora dos fins de semana, o parque é ocupado por velhinhos, atletas, gente de todo tipo, quase todos moradores das imediações, de todas as classes sociais. À noite, há organizados e disputadíssimos torneios de futebol envolvendo garçons de bares próximos, estudantes, escolinhas de esportes, associações variadas. Ou seja, há vitalidade, diversidade, convívio. E não carece de megaestruturas para isso: grama, trilhas (umas pavimentadas, outras de saibro mesmo), lindas e adequadas espécies vegetais, que florescem o ano todo, dão frutos e atraem pássaros variados, mobiliário urbano funcional e resistente: quadras, pistas de skate, bancos, equipamento para ginástica, iluminação, cestos de lixo, brinquedos, mesinhas, criando “ambientes” de estar que atendem a todo tipo de gente. Pronto. O resto, a natureza já deu: o mar, o horizonte, o clima delicioso a maior parte do ano.</p>
<div id="attachment_858" class="wp-caption aligncenter" style="width: 360px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg"><img class="size-full wp-image-858" title="Aterro do Flamengo" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/09/Aterro-do-Flamengo-7.jpg" alt="" width="350" height="262" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://poesiasescondidas1.blogspot.com/2010/08/manha.html</p></div>
<p>Há problemas? Claro. Trechos e horários onde assaltos são mais frequentes, prostituição, falta de manutenção no mobiliário e sinalização, áreas abandonadas com cheiro de urina. Mas isso também tem no Central Park, em Nova York, no Hyde Park, em Londres, e no Bois de Boulogne, em Paris, e ninguém deixa de visitá-los por isso. Todos problemas com solução possível sem a necessidade de delegar a administração do parque ou de trechos dele à iniciativa privada (sobre uma crítica e um alerta com relação à apropriação privada deste importante espaço público, leia <a href="http://youpode.com.br/blog/alguemmedisse/tag/lota-macedo-soares/" target="_blank">isto aqui</a>, só pra começar).</p>
<p>Minha maior reivindicação e sonho é que mais espaços como esse existissem espalhados por toda a cidade. São territórios livres (não edificados), que contribuiriam para a manutenção ou melhoria de aspectos ambientais como drenagem (áreas de solo permeáveis), ofereceriam espaços verdes que ajudam a criar microclima mais ameno e redução do excessivo adensamento em alguns bairros, e  seriam uma estratégia de preservação de áreas verdes remanescentes, criando uma rede de espaços públicos conectados. Além disso, parques como esse, de escala urbana, mais reduzida, são mais facilmente apropriados e utilizados pelas comunidades que residem em seu entorno, são de mais fácil manutenção, de custo mais baixo de implantação, e têm um retorno garantido de qualidade de vida para a população. Eu queria Aterros do Flamengo (não como aterros, bem entendido, mas como parques, como áreas livres de lazer) no subúrbio, na zona oeste, na Baixada, em toda a região metropolitana.</p>
<p>Em outras palavras, eu desejo uma cidade em que os espaços públicos sejam valorizados e voltem a ser o palco privilegiado do convívio urbano.Quando um músico de rua toca numa praça, qualquer um que esteja passando por ali pode parar para ouvir: o executivo que está indo pro trabalho, o dono da lanchonete da frente, o office-boy a caminho do escritório, o mendigo deitado no banco. A pequena multidão que se junta em torno de um artista executando um número qualquer é democrática e dinâmica, se faz, se desfaz ao fim da apresentação, e durante aqueles poucos minutos, todos partilham a mesma experiência urbana, o mesmo espaço, talvez até alguém troque um sorriso de cumplicidade com um desconhecido ou teça comentários sobre o que está acontecendo.</p>
<p>Se um bar põe a televisão ali na rua no dia de um jogo importante do campeonato ou da seleção, junta todo tipo de gente pra assistir, nem que seja só por um instante. Os clientes que estão sentados, comendo, o cara que está tomando um chopp de pé na calçada, a empregada que desceu pra ir à padaria, o camelô do outro lado da rua, o menino que está voltando da escola, o bêbado que resolve aproveitar pra pedir um dinheiro. Todos iguais por um momento, sem cordão de isolamento, sem curralzinho vip, sem poltrona numerada, podendo xingar o juiz, vibrar com uma jogada bonita, e quem sabe até partilhar um grito ou trocar um abraço inesperado na hora do gol.</p>
<p>É uma chance única de conviver com os outros, principalmente os diferentes. Descobrir que <strong>há</strong> outros, e que eles podem ter algo em comum com você, nem que seja torcerem para o mesmo time ou execrarem o mesmo treinador. O espaço público oferece esta chance, de humanizar e horizontalizar as relações, pelo menos de vez em quando.</p>
<p>Numa cidade que não tem esquina nem rua e as pessoas só comem em restaurante de shopping e andam de carro, isso não pode acontecer. E você fica fadado a andar numa bolha privada, entre um espaço privado e outro, e tende a enxergar as relações de forma hierarquizada (os outros ou são alguém que manda em você ou em quem você pode mandar), estanque, mediadas pelo medo do desconhecido ou pela suspeita de que poderá ser agredido ou contaminado se puser os pés na rua.</p>
<p>Deixo vocês com este pequeno trecho de um artigo de <strong>Luiz Fernando Janot</strong>, professor de Projeto da FAU/UFRJ, intitulado <em>“Em busca da urbanidade perdida”</em>, e publicado no jornal O Globo em 17/04/2010 (não tenho o link para o artigo completo, infelizmente, só o <em>printscreen</em> da página, que posso encaminhar a quem se interessar e pedir na caixa de comentários ou por e-mail):</p>
<p>“Nas últimas décadas vem se notando no Rio de Janeiro o surgimento de um modelo de urbanidade que adota como sua referência principal o individualismo nas relações humanas e a homogeneidade na formação de grupos sociais. Na medida em que essa prática foi se consolidando, o convívio espontâneo e solidário nos espaços públicos começou a se esfacelar, estimulando o deslocamento das pessoas para espaços privados de uso coletivo. Por não incorporar os atributos da cidade tradicional, esses espaços de uso privativo acentuaram uma condição urbana particular e contrastante com aquela que é encontrada nos espaços públicos. Essa dicotomia fez com que certos segmentos da sociedade, acuados pela paranóia com a segurança pública, preferissem conviver nos ambientes privados, restringindo sua presença nos espaços públicos exclusivamente aos trajetos entre a residência e o trabalho<em> (<strong>nota minha:</strong> nem isso. Esse trajeto é feito, também, na maioria das vezes, em bolhas de espaço privado, chamadas &#8220;carros&#8221;)</em>.<br />
(&#8230;)<br />
Requalificar os espaços urbanos de tal forma que as ruas, praças, parques e praias retomem as suas condições de atratividade e voltem a desempenhar plenamente o seu papel de espaço público por excelência será o caminho mais curto para recuperar a urbanidade perdida sem a nostalgia do passado”.</p>
<p>Eu até acho que <em>“requalificar os espaços urbanos” </em> implica em muito mais coisa do que projetos e desenhos, por melhores que sejam, e requerem discussões e negociações mais profundas e estruturais, que incluem questionar nosso modelo de distribuição de renda e de acesso a bens e serviços essenciais (moradia digna sendo um desses serviços), incluem enfrentar o que existe por trás da “paranóia com a segurança pública”, e tantas outras coisas, mas é um começo. Urgente, necessário e muito bom.</p>
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		<title>Mais do mesmo</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jan 2010 16:41:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Continuando o raciocínio e as reflexões iniciadas no post anterior, vamos falar um pouco mais deste projeto para a reurbanização da Zona Portuária do Rio, e alguns dos problemas suscitados pelas propostas que estão em andamento.</p>
<p>No final do ano passado, eu estive num seminário organizado pelo curso de arquitetura da PUC aqui do Rio, através da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Continuando o raciocínio e as reflexões iniciadas no post anterior, vamos falar um pouco mais deste <a href="http://spl.camara.rj.gov.br/planodiretor/pd2009/porto2009/aud_public_porto_maravilha.pdf" target="_blank">projeto</a> para a reurbanização da Zona Portuária do Rio, e alguns dos problemas suscitados pelas propostas que estão em andamento.</p>
<p>No final do ano passado, eu estive num seminário organizado pelo curso de arquitetura da PUC aqui do Rio, através da professora <a href="http://posto12.blogspot.com/" target="_blank">Ana Luiza Nobre</a>. Foi muito proveitoso, eu aprendi bastante coisa, pude ver e ouvir gente que realmente está pensando na cidade. E olha que não houve unanimidade, não, foi debate mesmo, mas todo mundo contribuindo, refletindo, propondo. Depois, tive acesso a um texto que a professora Ana Luiza escreveu. Não sei se está disponível na internet, mas foi publicado pelo <strong>Boletim do CEDES – Centro de Estudos Direito e Sociedade, edição de outubro de 2009.</strong> No texto, ela mostra claramente que o grau de abrangência e complexidade da própria área portuária, com suas especificidades e potenciais, requerem um investimento  de tal ordem vultoso e complexo, que não pode prescindir de debate amplo e cauteloso, envolvendo o maior número possível de interessados na questão – o que obviamente inclui muito mais do que técnicos e empreiteiros.</p>
<p>Entretanto, conforme ela argumenta corretamente, <em>“toda essa operação tem sido conduzida com base num modelo bem conhecido, caracterizado, por um lado, pela imposição de projetos altamente questionáveis, do ponto de vista técnico, e por outro, pela ausência de diálogo com a maior parte da população direta ou indiretamente afetada”.</em></p>
<p>A área sob impacto do projeto compreende os bairros da Saúde, Gamboa, Santo Cristo, Caju e parte de São Cristóvão, somando aproximadamente 5 milhões de m². Entre as propostas (cuja divulgação pela prefeitura é muito superficial) estão a revitalização da Praça Mauá (inclusive com a construção de uma garagem subterrânea para 1000 veículos), a urbanização do Pier (da qual <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/01/20/o-prefeito-decidiu-que/" target="_blank">acabamos de falar</a>), a construção de 500 unidades habitacionais (só?), a reforma ou edificação de novos prédios como o <a href="http://www.aqua-rio.org.br" target="_blank">Aquário</a>, a Escola Técnica de Audiovisual e Restauro, a nova sede do Banco Central, o Museu do Amanhã e a Pinacoteca. Aliás, é o Museu do Amanhã – que ia ficar entre os armazéns 5 e 6 – que o prefeito agora quer instalar no Pier, com projeto do arquiteto <a href="http://www.calatrava.com/main.htm" target="_blank">Santiago Calatrava.</a> Ah, tanto o Museu quanto a Pinacoteca são projetos em parceria com a Fundação Roberto Marinho.</p>
<p>Uma das coisas que me deixam de cabelo em pé diz respeito à massa que se pretende construir na região, com edifícios e torres tão altas que implicam numa mudança de escala realmente chocante.</p>
<p>Dá uma olhada aí embaixo, no mapa desenhado pela própria prefeitura.</p>
<p><img class="aligncenter size-full wp-image-649" title="03_MHG_rio_projeto1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/01/03_MHG_rio_projeto1.jpg" alt="03_MHG_rio_projeto1" width="720" height="460" /></p>
<p>Além de toda a questão paisagística (esse novo skyline esconde, para os que vêm da Zona Norte, a própria visão do perfil dos morros que compõem o Maciço da Tijuca, o Corcovado aí incluído), tem um aspecto importante levantado pelo professor Flávio Ferreira num outro texto que eu li recentemente. Ele diz:</p>
<p><em>&#8220;Legislar muito denso e muito alto tem um outro grave inconveniente: atrasa a consolidação da área. Não há economia urbana suficiente para construir os edifícios grandes de pronto. Terá que haver especulação, os terrenos ficarão desocupados por décadas e enquanto isso o Porto continuará vazio”.</em></p>
<p>Outro ponto que me preocupa (não só a mim, mas a muita gente que eu tenho visto discutir o assunto) é de que maneira serão conduzidas as inevitáveis alterações de legislação, necessárias para levar a cabo transformações formais e funcionais tão profundas. Através do uso – legítimo – de instrumentos do Estatuto da Cidade, a prefeitura vai mexer em parâmetros urbanísticos, que são índices (números e taxas) que definem características do parcelamento, uso e ocupação do solo, como altura dos prédios, recuos, afastamentos, quanto do solo pode ser ocupado pela construção e quanto deve ser deixado livre, etc. Isso não é um problema em si, mas são transformações tão sérias, com impactos numa parte tão grande e importante da cidade, afetando a vida de tanta gente, a própria percepção da cidade, a paisagem, o patrimônio, que deveriam estar sendo divulgadas e discutidas publicamente, através de audiências, consultas, e mesmo de uma construção coletiva do projeto, envolvendo não só a prefeitura e seus órgãos e secretarias, mas associações de moradores, universidades, entidades da sociedade civil, sindicatos, empresários, movimentos sociais, enfim, muito mais gente.</p>
<p>Apesar disso, a divulgação é superficial, os moradores da área e interessados no assunto não têm acesso a dados mais detalhados do projeto, que só vêm a público a conta-gotas, e os representantes do poder público continuam insistindo em (tentar) justificar esse estado de coisas com base no “caráter emergencial do projeto”. É só o que a gente escuta o Eduardo Paes falar. Será que não há nada que a gente possa fazer a respeito?</p>
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		<title>Zona Portuária, patrimônio e reurbanização</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/11/zona-portuaria-patrimonio-e-conservacao/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Aug 2009 17:18:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[ecletismo]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu já comentei, um tempo atrás, que estou fazendo uma série de fotos dos sobrados ecléticos no Rio de Janeiro. Como são pra mim mesma e pra umas ideias que eu tenho na cabeça, não tem pressa, e eu vou fazendo um bocadinho cada vez que tenho tempo. No último fim de semana estive novamente fotografando, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu já <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/01/juciara/" target="_blank">comentei</a>, um tempo atrás, que estou fazendo uma série de fotos dos sobrados ecléticos no Rio de Janeiro. Como são pra mim mesma e pra umas ideias que eu tenho na cabeça, não tem pressa, e eu vou fazendo um bocadinho cada vez que tenho tempo. No último fim de semana estive novamente fotografando, dessa vez nos arredores da Praça Mauá e na Zona Portuária &#8211; Saúde, Gamboa, Santo Cristo. Andando por um tanto de ruazinhas e becos e praças simpáticas escondidas pelos galpões abandonados e pelo pavoroso viaduto da Perimetral, anotei algumas reflexões, que divido com vocês.</p>
<p>O patrimônio arquitetônico da região é riquíssimo, composto por diversas edificações do final do século XIX, mas majoritariamente de princípios do século XX. Isso se dá porque nas primeiras décadas do século passado a região foi alvo de importantes projetos de reforma e embelezamento, entre os quais se destaca, para efeitos de nossa análise aqui, a reforma do porto conduzida durante o governo do Prefeito Pereira Passos. Este patrimônio, no entanto se encontra bastante deteriorado e a área, de forma geral, está muito empobrecida e feia.</p>
<p>A mesma tipologia arquitetônica pode ser encontrada também em outros bairros como Botafogo, Flamengo, Catete, além de outros trechos no mesmo Centro, como Largo da Carioca, Cinelândia, Praça Tiradentes. Em quase todos esses lugares, os sobrados ecléticos estão degradados, mas em alguns bem mais do que em outros. Eu tirei duas conclusões preliminares:</p>
<div id="attachment_401" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://www.flickr.com/photos/claudiodef/1176498691/"><img class="size-medium wp-image-401" title="ciadocas" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/ciadocas-300x225.jpg" alt="Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Antiga sede da Cia. Docas. Hoje funciona ali o IPHAN</p></div>
<p>1) De maneira geral, o ecletismo ainda é um estilo desprestigiado. Ou uma falta de estilo, como dizia Lúcio Costa. Um pastiche de elementos &#8220;roubados&#8221; de outras linguagens e colados todos juntos, resultando numa profusão de ornamentos. Esse é o argumento que justificou a autorização para demolição de diversos exemplares da arquitetura eclética entre 1930 e 1990, mais ou menos, entre eles o Palácio Monroe. De lá pra cá tem havido mais iniciativas de preservação e reconhecimento do valor desses edifícios. Eu confesso que eu me encanto com as composições, a justaposição tantas vezes delicada, ainda que exuberante, de elementos como portadas barroquíssimas com símbolos náuticos e lajes industriais de tijolo de vidro, como acontece na antiga Companhia Docas de Santos (Av. Rio Branco, 44), que hoje serve de sede ao IPHAN. E me encanto mais ainda com pequenos sobrados populares, que tentavam emular a elegância dos ricos prédios oficiais, quase sempre resultando em fachadas mais contidas, ainda que também apresentem as mesmas características de junção de elementos diversos e distintos, com extrema liberdade criativa, numa mesma composição.</p>
<div id="attachment_402" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-medium wp-image-402" title="racre" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/racre-300x168.jpg" alt="Rua do Acre" width="300" height="168" /><p class="wp-caption-text">Rua do Acre</p></div>
<p>Em alguns casos, tanto no que concerne aos imponentes palacetes quanto aos modestos sobrados, há mesmo valor individual na construção, mas na maioria das vezes, o que faz diferença é o conjunto, que confere uma ambiência urbana peculiar: volumes, detalhes arquitetônicos em balcões, platibandas, colunas, ornamentos.</p>
<p>2) Mesmo que, nos vários bairros já visitados, muitos prédios estejam degradados, com as fachadas pichadas, ornamentos de gesso quebrados, pintura descascada e indícios de infiltração, o que se percebe é que há nítida diferença, na conservação, entre regiões que foram alvo de políticas públicas de preservação e revitalização, como o Largo da Carioca e adjacências (que são objeto de um projeto chamado Corredor Cultural), e outros que não tiveram o mesmo cuidado, como os que eu vi neste fim de semana.</p>
<p>Além da questão do patrimônio, há a fundiária. Observo que há um valiosíssimo estoque de terrenos baldios em toda a Zona Portuária. No período que estamos enfocando (fins do séc. XIX/inícios do XX), esta foi uma região industrial movimentada &#8211; o mesmo aconteceu com São Cristóvão, por exemplo &#8211; com funções quase sempre ligadas à atividade portuária. Quando o porto se tornou obsoleto e as próprias indústrias ou se modernizaram ou se transferiram para outros locais, a região herdou uma enorme quantidade de galpões, alguns lindos, muitos abandonadíssimos, remanescentes das fábricas falidas ou remanejadas. São galpões destelhados, com apenas partes das paredes ainda de pé, ruínas no centro das quais cresce o mato e proliferam lixo, ratos e famílias miseráveis de sem-teto.</p>
<p>Isso tudo numa região rica. Sim, rica, abastecida de infra-estrutura de água, gás, esgoto, telefone, transportes (muita coisa pode até não estr em bom estado ou oferecer um serviço de má qualidade, mas a rede está instalada), bem localizada e de acesso fácil e rápido para todo o restante da cidade. Ideal para a implantação de projetos de habitação social, e para atrair investimentos de vulto na área comercial e de entretenimento. É um verdadeiro angu de caroço a ser resolvido, em termos de reurbanização das áreas centrais. Falaremos mais do assunto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Marguerite Yourcenar</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/07/10/cidades-literarias-marguerite-yourcenar/</link>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2009 15:26:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estava aqui relendo o trecho que resolvi trazer hoje, ainda na dúvida se usava ou não. É que embora eu ame esse livro e esse trecho, não é exatamente a descrição de uma cidade, mas de uma obra arquitetônica. Só que ao reler, achei tão forte, tão belo, tão apropriado para os dias de hoje, que não tive mais dúvidas. De forma que segue aí pra vocês, tirado do livro <strong>Memórias de Adriano</strong>, de <strong>Marguerite Yourcenar</strong> (das melhores coisas que eu já comprei num sebo, por 1 real!) o depoimento do famoso imperador romano sobre a construção do <strong>Panteão</strong>, em Roma.</p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-332" title="180px-hadrien-ven" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/180px-hadrien-ven.jpg" alt="180px-hadrien-ven" width="180" height="212" />Só contextualizando o personagem e a obra. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano" target="_blank">Adriano</a> foi imperador de Roma entre os anos 117 e 138 d.C, no auge do Império (auge esse para o qual ele muito contribuiu). Foi um líder militar prudente, que preferiu negociar e consolidar fronteiras a prosseguir em guerras de expansão. É dele, por exemplo, a muralha que durante séculos marcou os limites entre a Inglaterra e a Escócia, da qual existem ainda ruínas, e que passou à História como Muralha de Adriano. Era um homem culto e letrado, que difundiu a cultura clássica grega em suas muitas viagens pelo vasto território imperial, sempre construindo estradas e monumentos. Era também arquiteto e estudioso de materiais de construção. Por outro lado, era um homem vaidosíssimo e de perfil bastante autoritário, que muitas vezes manipulou e alienou o Senado na hora de tomar decisões importantes.</p>
<p>A brilhante autora <span style="text-decoration: line-through;">francesa</span> belga de língua francesa Marguerite Yourcenar escreveu este livro em 1950, fruto de um extenso e seríssimo trabalho de pesquisa. A edição que eu tenho, de 1986, da Editora Record, tem uma nota no final primorosa, em que ela esclarece a metodologia de trabalho, menciona os documentos originais a que teve acesso, incluindo os próprios diários que Adriano deixou, cita os trabalhos de história que leu, revela quais são os dados e personagens que ela inventou, mesclou ou suprimiu para o melhor andamento da narrativa, e quais são os reais. O resultado é um livro delicioso, narrado em primeira pessoa, que mistura um tiquinho de poesia e ficção a um universo fascinantemente real, ou realmente fascinante.</p>
<p>Mas chega, né? Olha aí o Adriano se apresentando e apresentando uma de suas obras mais importantes. No final, eu tenho mais duas palavrinhas pra acrescentar:</p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano"><img class="alignright size-medium wp-image-334" title="25879331" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/25879331-300x200.jpg" alt="25879331" width="300" height="200" /></a>&#8220;A construção de um templo dedicado a Todos os Deuses, de um Panteon, se me impunha. Escolhera seu lugar sobre as ruínas dos antigos banhos públicos oferecidos ao povo romano por Agripa, o genro de Augusto. Nada restava do antigo edifício além de um pórtico e de uma placa de mármore com uma dedicatória ao povo de Roma. Essa placa foi cuidadosamente recolocada, exatamente como era, no frontão do novo templo. Pouco me importava que meu nome figurasse ou não num monumento que era a expressão do meu pensamento. Agradava-me, muito pelo contrário, que uma velha inscrição de mais de um século o associasse ao princípio do Império, ao reino pacificado de Augusto. Mesmo quando inovava, preferia sentir-me, antes de tudo, um continuador.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>O ato de dedicação do templo de Vênus e de Roma foi uma espécie de triunfo acompanhado por corridas de carros, espetáculos públicos, distribuição de especiarias e perfumes.(&#8230;) A data escolhida para a festa foi o dia do aniversário de Roma, o oitavo após os Idos de Abril do ano 882 depois da fundação da Cidade. A primavera romana nunca fora mais doce, mais violenta, nem mais azul. No mesmo dia, com uma solenidade mais grave e como que abafada, teve lugar uma cerimônia consagratória no interior do Panteon. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em><a href="http://www.bolsanobolso.com/showthread.php?t=24771"><img class="alignright size-medium wp-image-338" title="4752641" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/07/4752641-200x300.jpg" alt="4752641" width="200" height="300" /></a>Eu próprio corrigira os planos demasiado tímidos do arquiteto Apolodoro. Utilizando as artes da Grécia como simples ornamentação, ou um luxo a mais, procurei voltar, pela própria estrutura do edifício, à época fabulosa e primitiva de Roma, ao mesmo tempo que reproduzia os templos redondos da Etrúria antiga. Quis que esse santuário de todos os deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera estelar, do globo onde se encerram as origens do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém. Era igualmente a forma das cabanas ancestrais, nas quais a fumaça dos mais antigos lumes humanos escapava por um orifício situado no topo. A cúpula construída de uma lava sólida e leve, que parecia participar ainda do movimento ascendente das chamas, comunicava com o céu por uma grande abertura alternadamente negra e azul, tal como a noite e o dia. Esse templo, ao mesmo tempo aberto e secreto, era concebido como um quadrante solar. As horas girariam naqueles caixotes cuidadosamente polidos por artífices gregos, e o disco do dia ficaria suspenso ali como um escudo de ouro. A chuva formaria uma poça de água pura no pavimento e as preces escapar-se-iam como fumaça em direção ao vazio onde costumamos colocar os deuses. Essa festa foi para mim uma dessas horas em que tudo converge.&#8221;</em></p>
<p>Acho que nem cabe falar muito mais, né? Mas eu quero lembrar que esse texto tenta dialogar com o da <a href="http://colunistas.ig.com.br/palavrasdafal/2009/06/19/um-coliseu-para-voce-e-para-mim/" target="_blank">Fal</a>, em que ela fala do Coliseu como sendo seu monumento romano favorito. Nos comentários a essa crônica, eu disse que o meu era o Panteão, mas como eu não sei falar tão bem quanto ela, deixei o Adriano mesmo descrever tudo.</p>
<p>O outro aspecto que eu quero lembrar é o quanto a gente pode falar ou pensar, a partir desse pedacinho, sobre o papel da arquitetura na composição da paisagem urbana, da identidade da cidade. O que nos leva a pensar em preservação de patrimônio. Eu tenho uma birra infernal com o fato deste templo tão solene e belo ter sido continuamente profanado ao longo dos séculos, a começar pela própria Igreja Católica, que o transformou em igreja, destruindo as imagens dos deuses pagãos que ocupavam os nichos ao redor do salão e instalando ali um altar cristão, com crucifixo e tudo. Eu sei, outros tempos, outra concepção de tudo, hoje o Panteão está aberto à visitação pública como museu, como testemunho da obra de Adriano, mas mesmo assim.</p>
<p>Para os arquitetos e estudantes de arquitetura, atenção para o elegante e corretíssimo memorial justificativo da obra. É aquele documento em que o arquiteto apresenta seu projeto, justifica suas escolhas, descreve os elementos importantes, partido arquitetônico, estrutura, materiais, formas e funções. O cara faz isso ainda por cima com qualidade literária. Mestre.</p>
<p>Por fim, só levantando a bola e deixando pra vocês cortarem, que aula de marketing político, hein? Mais atual, impossível.</p>
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		<title>Ainda sobre educação, cidade e crianças</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/05/26/ainda-sobre-educacao-cidade-e-criancas/</link>
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		<pubDate>Tue, 26 May 2009 21:54:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevendo o post abaixo, sobre o projeto de Educação Urbana desenvolvido pelo Prof. Pedro Lessa, eu me lembrei de uma experiência recente de viagem, que me impressionou muito.</p>
<p>Em março deste ano eu estive em Madri (acho que já comentei isso aqui) durante uma semana. A cidade é linda, e eu me apaixonei pelas ruas e monumentos, pelos prédios e jardins, pelas comidas e paisagens. Uma das coisas que mais amei foi a oportunidade de visitar, com calma, os museus da cidade, apaixonada que sou por História da Arte. Fui a dois deles, o Centro de Arte Reina Sofia, com um respeitável acervo de arte moderna, e o famoso Museu do Prado, com seus vários andares repletos de Boticcellis, Caravaggios, Rembrandts, El Grecos, e, obviamente, das obras dos mestres espanhóis Velázquez e Goya. Não há palavras para descrever a emoção de contemplar esses quadros de perto.</p>
<p><a href="http://vi.sualize.us/view/e8bf5994551cc2d49e09e42b48c0c5a0/"><img class="alignleft size-medium wp-image-261" title="children-and-art2" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/children-and-art2-300x300.jpg" alt="children-and-art2" width="300" height="300" /></a>Porém, o que me faz falar disso agora é que, nos dois museus, eu presenciei uma cena que me chamou a atenção. Excursões escolares, com criancinhas bem pequenas, passeando atentamente pelos salões e corredores. Várias. De escolas diferentes, com turminhas de idades diferentes, variando dos 4-5 aninhos até meninos e meninas de 8-9 anos. Uniformes, mãozinha no ombro do colega da frente, as &#8220;tias&#8221; orientando as filas. E sabe o que eu mais achei interessante e me fez pensar? Em nenhuma dessas excursões havia uma pessoa &#8220;explicando&#8221; as obras, falando do autor, do estilo, da época histórica. Nada disso. As crianças apenas passavam e iam olhando, como pequenas esponjinhas absorvendo imagens e cores, sem mediação racional. De vez em quando, alguma criança fazia uma observação qualquer, por livre associação, e jamais era criticada ou corrigida. A professora sorria e perguntava mais alguma coisa, que estimulasse uma elaboração maior, de acordo com a idade da criança. Não eram feitos juízos de valor, do tipo &#8220;bonito&#8221; ou &#8220;feio&#8221;, &#8220;certo&#8221; ou &#8220;errado&#8221;.</p>
<p>Eu achei fantástico, e passei um bom tempo pensando sobre o assunto. O que é que forma nosso repertório de referências visuais e estéticas? Tudo o que a gente vê, principalmente o que a gente vê repetidamente, nos molda. Se vemos sempre ou principalmente ruas feias, sujas, casas amontoadas e escuras, muros pichados, cenas de violência e miséria, é isso que tendemos a achar natural. Eu não sei o que as criancinhas espanholas vêem no seu dia a dia urbano, mas ali estava uma oportunidade de impregnar suas retinas e almas com algumas das melhores obras de arte  já produzidas pela humanidade, num ambiente igualmente belo e elegante.  E se a gente pensar bem, além das referências visuais, há ainda a chance de conviver por algumas horas com referências de comportamento, de convívio social, de valorização de patrimônio, que certamente contribuem para desenvolver o que chamamos de atitudes civilizadas.</p>
<p>Claro que só visitar museus não resolve, claro que formas variadas de expressão artística devem ser valorizadas, mas eu gostaria que existisse um programa que oferecesse às nossas crianças a chance de, desde bem cedo, e com bastante frequência, ter contato com a beleza, a arte, os espaços bonitos e nobres da cidade, independente de decorar nomes e datas, só pelo prazer da fruição mesmo. Isso também alimenta e ajuda a fazer pessoas melhores.</p>
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		<title>Educação Urbana</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 19:01:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>O Professor Pedro Lessa é uma figuraça! E eu digo isso com todo o respeito e o carinho que essa expressão possa carregar. Nos meus tempos de aluna de Arquitetura da FAU/UFRJ, ele deu aula de História da Arquitetura IV pra minha turma. Um cara diferente, rigoroso, sistemático, com umas propostas de exercício meio heterodoxas, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O <strong>Professor Pedro Lessa</strong> é uma figuraça! E eu digo isso com todo o respeito e o carinho que essa expressão possa carregar. Nos meus tempos de aluna de Arquitetura da FAU/UFRJ, ele deu aula de História da Arquitetura IV pra minha turma. Um cara diferente, rigoroso, sistemático, com umas propostas de exercício meio heterodoxas, e umas idéias esquisitas. Imagina, ele dizia pra gente que se a gente olhasse com atenção, os prédios faziam &#8220;psiu&#8221; pra gente na rua.  E não é que, algum tempo depois, eu comecei a ouvir isso mesmo? Os prédios falam comigo hoje, um monte deles, e o professor Pedro Lessa é parcialmente responsável por isso, pela atenção com que eu olho pra cidade, pra cada detalhe, pros materiais, pro conjunto, pras gentes que andam na rua.</p>
<p>Alguns anos atrás, descobri que ele agora planta essas idéias estranhas na cabeça de criancinhas aqui no Rio de Janeiro, e fui lá conversar com ele. É um projeto fascinante, e eu só lamento que, após pelo menos 4 anos, ele ainda continue como um projeto piloto, sem a visibilidade e o apoio que deveria ter, tocado quase exclusivamente por esse Dom Quixote da Arquitetura carioca, ainda que com enorme paixão. Chama-se <strong>Projeto Educação Urbana nas Escolas</strong>, e é uma parceria entre as Secretarias Municipais de Urbanismo e de Educação, voltado para crianças que habitam áreas carentes e frequentam escolas municipais. Nesses quatro anos, o projeto já atingiu 450 alunos de 13 escolas em diferentes bairros e comunidades, e foi premiado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), pela relevância da iniciativa.</p>
<p>É pouco? Diante do tanto que esta cidade precisa, diante das milhares de crianças que ainda não foram beneficiadas, é. Mas é um trabalho de formiguinha, de alguém que arregaçou as mangas e se propôs fazer o que está a seu alcance, em vez de só se queixar que não há solução para a cidade. Ele vai nas escolas, dá umas aulas muito interessantes, procurando sensibilizar e instrumentalizar as crianças para uma observação do espaço mais atenta, partindo da escala da sala de aula, da casa do aluno, para o pátio da escola, até chegar aos passeios na rua. Nesse processo, idéias e conceitos sobre conforto e higiene, sobre estilos históricos, sobre cidadania, patrimônio e valorização do espaço público são discutidas com as crianças, que manifestam suas experiências urbanas através de desenhos e redações. Tem um videozinho <a href="http://www.youtube.com/watch?v=zg01cGeyas4" target="_blank">aqui</a> que mostra o professor em ação, e que eu achei bem legal.</p>
<p>São iniciativas que precisam ser apoiadas e replicadas. E eu diria até que não só nas escolas públicas. Tem muito aluno de escola particular que precisava discutir mais e aprender mais sobre esses temas todos, em especial sobre a convivência democrática no espaço público.</p>
<p>Se você tiver curiosidade, tem mais informações sobre esse projeto no <a href="http://edurbana.smu@pcrj.rj.gov.br" target="_blank">site</a> da Secretaria Municipal de Urbanismo.</p>
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		<title>Juciara e o Dia do Trabalho</title>
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		<pubDate>Fri, 01 May 2009 20:03:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[ecletismo]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
		<category><![CDATA[preservação]]></category>
		<category><![CDATA[sociologia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo arquitetônico que predominou do final do século XIX até mais ou menos os anos 20-30 do século passado, e que o Lúcio Costa chamava de pastiche, de cópia da cópia, portanto sem valor artístico, histórico, cultural. Hoje todo mundo lamenta a demolição do Palácio Monroe (exemplar típico do estilo), cujo desaparecimento foi autorizado e até recomendado pelo <a href="http://portal.iphan.gov.br/" target="_blank">IPHAN</a> (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e todo mundo tece loas ao pouco que sobrou na Avenida Rio Branco, principalmente o conjunto mais visível e bem preservado em torno da Cinelândia, composto pelo Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça, mas houve tempo em que os palacetes ecléticos da cidade iam desaparecendo rapidamente, considerados estorvos ao desenvolvimento e à modernização da cidade.</p>
<p>Mas não era nada disso que eu ia falar. Ou era mais ou menos. Essa historinha inicial é pra dizer que eu admiro o ecletismo, mas tenho um interesse e até &#8211; por que não dizer &#8211; um carinho especial, nem tanto pelos grandes palacetes e prédios que acabam abrigando instituições importantes, mas pelos sobrados e casas populares que existem aos montes nos bairros mais antigos do Rio. Em todo o Centro e Zona Portuária, Lapa, Catete, Estácio, Catumbi, Santa Teresa, e até em Botafogo, ainda é possível ver os sobrados característicos deste período, alguns com as datas de sua construção exibidas na fachada &#8211; 1894, 1903, 1914, e por aí vai. Há os que estão bem cuidados, tinta nova, esquadrias restauradas, balcões e grades inteirinhos, até por força de <a href="http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?id=5685" target="_blank">programas</a> de <a href="http://www.rio.rj.gov.br/culturas/pastas/legislacao/CENTRO%20-%20Lei%20506-84%20Corredor%20Cultural.pdf" target="_blank">preservação</a> levados a cabo pela Prefeitura nos últimos 30 anos. Vários hoje abrigam bares, restaurantes, antiquários, principalmente perto da Lapa. Mas dói ver um montão deles vazios, caindo aos pedaços, vidros partidos, transformados em cortiços que oferecem risco (de incêndio, de vazamento de gás, de desabamento) inclusive aos seus próprios moradores e ocupantes.</p>
<div id="attachment_197" class="wp-caption alignleft" style="width: 235px"><img class="size-medium wp-image-197" title="dsc07389" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/dsc07389-225x300.jpg" alt="Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante" width="225" height="300" /><p class="wp-caption-text">Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante</p></div>
<p>Daí eu resolvi, há pouco tempo, fazer um levantamento fotográfico desses sobrados. Por enquanto é só uma brincadeira pessoal, ainda não sei bem o que eu poderei fazer com esse material depois. Quer dizer, eu tenho umas idéias, vamos ver o que vai dar. Hoje de manhã, aproveitando o feriado que deixa tudo mais tranquilo, saí pra tirar umas fotos, no Centro. Estou eu na Av. Gomes Freire, tentando enquadrar mais um prédio, quando a senhora que estava em frente a ele, sacudindo o plástico onde estivera sentada até então, me viu e veio puxar papo.</p>
<p>&#8220;Bonitos esses prédios, né, moça?&#8221;. &#8220;Muito bonitos&#8221;, respondi.</p>
<p>&#8220;Eu vivo nessa rua há seis anos, moça, todo mundo me conhece aqui. É uma pena tantas dessas casas estarem fechadas. Aqui &#8211; e aponta uma das portas cerradas por conta do feriado &#8211; funciona um restaurante, mas aqui, aqui e aqui &#8211; indica outros térreos &#8211; não funciona nada, tá vazio mesmo. Devia ter um comércio, né? Uma loja de calcinhas, uma manicure. Eu pinto unha, sabe, pinto muito direitinho. Mora muita gente aqui, mas é gente pobre. Esses restaurantes atendem o pessoal rico, que trabalha nos escritórios por aí, devia ter alguma coisa pra esse pessoal que mora aqui também. Sei lá, se eu tivesse dinheiro, eu pegava uma casa dessas, eu fazia um escritório assim, como é que chama? Ah, uma agência, pra dar trabalho pras pessoas, indicar uma empregada doméstica, alguém pra passar uma roupa, fazer uma faxina. Eu sei passar muito bem, lavar, dou uma boa faxina, mas o pessoal que me conhece aqui da rua não pode me contratar, e quem pode contratar me vê sentada aqui na calçada, pensa que eu sou uma mendiga, não quer me dar trabalho. Se eu conseguisse alguma coisa assim, pra ganhar meio salário mesmo, com tudo certinho né, os direitos na carteira, mas meio salário mesmo já me bastava, se eu pudesse tomar um café com leite de manhã e um prato de comida no almoço, eu trabalhava bem certinho, aí podia pagar um quartinho pra eu dormir. Mas é difícil, moça&#8221;.</p>
<p>Juciara, o nome dela. O que eu vou dizer depois de uma aula dessa? Aula de urbanismo, de economia, de sociologia. Eu desejo boa sorte a ela. Fiquei encantada.</p>
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