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	<title>Urbanamente &#187; preservação</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Paulicéia desvairada*</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Feb 2011 14:56:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Pergunta: onde mais, neste imenso Brasil, eu posso, num dia só:</p>
<p>- ser abordada por um iraniano pedindo que eu tirasse uma foto dele em frente a uma catedral católica,
- ouvir emocionada um trio nordestino, vestido a caráter, com sanfona, zabumba e triângulo, cantar Asa Branca numa pracinha, enquanto uma multidão se forma em volta,
- depois conversar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pergunta:</strong> onde mais, neste imenso Brasil, eu posso, num dia só:</p>
<p>- ser abordada por um iraniano pedindo que eu tirasse uma foto dele em frente a uma catedral católica,<br />
- ouvir emocionada um trio nordestino, vestido a caráter, com sanfona, zabumba e triângulo, cantar Asa Branca numa pracinha, enquanto uma multidão se forma em volta,<br />
- depois conversar com uma família de americanos num mirante no alto de um prédio, bem no Centro, de onde se vê a cidade quase toda,<br />
- fotografar um menino boliviano descalço e remelento, provavelmente imigrante clandestino, numa vila operária do século XIX,<br />
- comer um doce azedinho e bom, sentada sozinha num bar de judeus e acabar brincando de aviãozinho de papel com o Abraãozinho, neto do dono (era mesmo o nome do guri)?</p>
<p><strong>Resposta: Em São Paulo.</strong></p>
<p>Eu saí do Rio dia 27 de janeiro, para passar cinco dias na capital paulista, visitando amigas queridas, algumas das quais eu não via há mais de um ano. No caminho me dei conta de que era a primeira vez que eu ia a São Paulo a turismo, com disposição de conhecer a cidade. Sempre fui rapidinho, para algum evento específico, e ia do local onde estava hospedada para o evento e voltava. Tá, algumas vezes rolou um restaurante ou um barzinho, sempre ótimos, mas sempre guiada por moradores da cidade, e eu nunca prestei atenção em muita coisa à minha volta durante as andanças de carro. Ou então, passava por São Paulo (de novo de carro) a caminho do sul, e via só a parte ruim: os engarrafamentos da Marginal. Definitivamente, de carro é o pior jeito de conhecer uma cidade.</p>
<p>Vou confessar: São Paulo me intimidava. Engraçado que eu já visitei cidades estrangeiras, grandes, onde nem sempre eu sabia falar a língua local, e jamais deixei de pegar um mapinha e sair só (muitas vezes sozinha <span style="text-decoration: underline;">mesmo</span>, enquanto o marido trabalhava) para bater pernas, conhecer, fotografar. Pego ônibus, bonde, metrô, entro em lojas, exploro bairros mais afastados, paro para almoçar em lugares comuns (evito os restaurantes típicos para turistas, prefiro os cafés e bares onde vejo toda a gente da cidade sentada). Numa boa, adoro, e no final do primeiro dia já sinto como se tivesse a cidade nas mãos. Mas em São Paulo? Eu achava que ficaria paralisada, que ia acabar me perdendo, que todo mundo ia sacar que eu era uma carioca acuada. Pois vou logo dizer: foi mais fácil do que eu pensava, e muito mais agradável e emocionante também (fora o calor, que só não estava pior que no Rio, de onde eu me livrei dos mais de 40 graus que andou fazendo enquanto eu estava fora). Apaixonei.</p>
<p><a href="http://www.narrativaum.com.br/guias01.html#"><img class="alignleft size-medium wp-image-966" title="capa_guia1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/capa_guia1-185x300.gif" alt="" width="185" height="300" /></a>É verdade que eu tive um guia fantástico, que eu recomendo muito, mesmo aos paulistanos (eu descobri coisas que minhas amigas locais desconheciam, hohoho). É um livro que eu ganhei de um amigo uns anos atrás e que andou comigo diariamente, debaixo do braço, na mão, na bolsa: <a href="http://www.narrativaum.com.br/guias01.html#" target="_blank"><strong>Dez roteiros históricos a pé em São Paulo</strong></a>. Um projeto da Secretaria de Estado da Cultura, realizado pelo Programa de Ação Cultural e publicado pela Editora Narrativa Um, em 2007. Cada roteiro é escrito por um autor diferente: arquitetos, historiadores, antropólogos, artistas plásticos, com olhares, formações e experiências urbanas distintas, e uma forma particular de tecer sua narrativa e apresentar seu &#8220;pedaço&#8221; da cidade. Todos têm um mapinha com o trajeto sugerido, em que os pontos citados no texto estão assinalados, bem como um pequeno histórico do bairro ou região descrita e sugestões de quitutes a experimentar, edifícios a visitar, praças a desfrutar, hábitos e personagens a observar. MUITO legal.</p>
<p>Mas vamos lá. Eu cheguei numa quarta de tardinha. Na quinta, todo mundo trabalhando, eu resolvi que iria explorar o centro histórico a pé. A querida <a href="http://www.jujubalandia.org/" target="_blank">Juju</a>, que me recebeu, pegou comigo o primeiro ônibus ali do Caxingui, onde eu estava (perto do estádio do Morumbi) até a Av. Paulista e de lá eu poderia tomar o metrô para quase qualquer lugar. Escolhi fazer este circuito aqui:</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/roteiro1.gif"><img class="aligncenter size-full wp-image-967" title="roteiro1" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/roteiro1.gif" alt="" width="380" height="611" /></a></p>
<p>Foi na Praça da Sé, início do percurso, que o tal iraniano me pediu que eu o fotografasse diante da catedral, num inglês meio cheio de mímica, provavelmente porque ele não sabia se eu entenderia. Comunicação estabelecida, ele se ofereceu pra tirar uma foto de mim também, e me perguntou de onde eu era. Eu falei que era brasileira e perguntei de onde ele era. Irã. Que legal!</p>
<div id="attachment_972" class="wp-caption aligncenter" style="width: 791px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/catedral-e-praca.jpg"><img class="size-full wp-image-972" title="catedral-e-praca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/catedral-e-praca.jpg" alt="" width="781" height="375" /></a><p class="wp-caption-text">Eu diante da catedral, depois a Praça da Sé vista das escadarias da igreja</p></div>
<p>O livro adverte: <em>&#8220;o passeante curioso, ao ir descendo a Praça da Sé em direção ao antigo Pátio do Colégio, certamente vai trombar com meninos de rua, passar por cima de sem-tetos dormindo, desviar de camelôs, cruzar com ciganas ledoras de mão e ouvir a voz esganiçada de pregadores das mil seitas evangélicas que prosperam na cidade rica habitada exageradamente pelos muito pobres, atentos ouvintes embasbacados pelo som dos alto-falantes&#8221;.</em> Só não vi as ciganas. Mas isso tudo faz parte das nossas cidades, e traduz nossa situação urbana. Seria tapar o sol com a peneira querer andar só pelos ambientes assépticos dos shoppings e bairros mais requintados, onde vigora a vigilância privada.</p>
<p>Sorri, portanto, e prestei atenção, absorvendo tudo, ali no famoso &#8220;triângulo&#8221; que compõe o núcleo de fundação da cidade, formado pela Rua de São Bento, que liga a igreja dos beneditinos à dos franciscanos, a Rua Direita, fazendo ângulo reto com ela e a Rua Quinze de Novembro em oposição a este ângulo. Bem próximo a uma das pontas do triângulo, o Pátio do Colégio ostenta uma reprodução da igreja e do colégio dos jesuítas, construída já na década de 70, em substituição ao conjunto original, do século XVI, há muito desaparecido (não esquecer que em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de terras portuguesas). Há ali uma cripta dedicada ao Padre José de Anchieta, que expõe inclusive um dos fêmures do padre, como relíquia religiosa. Essa veneração por restos de corpos de santos me dá arrepios, juro que não entendo, mas passemos adiante.</p>
<div id="attachment_973" class="wp-caption aligncenter" style="width: 780px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/patiodocolegio.jpg"><img class="size-full wp-image-973" title="patiodocolegio" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/patiodocolegio.jpg" alt="" width="770" height="370" /></a><p class="wp-caption-text">Pátio do Colégio</p></div>
<p>Esse capítulo do livro é escrito pelo arquiteto Carlos A. C. Lemos, e ele faz uma descrição bem&#8230; arquitetônica (!!!) de tudo. Vai apontando as obras mais importantes, com os nomes dos arquitetos e datas de construção, sem se furtar a elogiar os prédios e estilos que ele admira (o colonial autêntico, o eclético historicista da linhagem de Ramos de Azevedo, o próprio art déco) e descrever com visível desapreço obras mais contemporâneas e as neocoloniais, estilo que ele menosprezava. Olha só dois exemplos:</p>
<div id="attachment_977" class="wp-caption alignleft" style="width: 210px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cobertura-e-sfrancisco.jpg"><img class="size-medium wp-image-977" title="cobertura-e-sfrancisco" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/cobertura-e-sfrancisco-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Acima, a cobertura de Paulo Mendes da Rocha. Embaixo, a igreja de São Francisco e da Ordem Terceira</p></div>
<p>1) Falando da cobertura no Viaduto do Chá:<em> &#8220;Muita gente achava inexpressiva tal cobertura art déco acoplada ao Viaduto do Chá, certamente também projeto de Elisiário Bahiana. Construção simples, nada semostradeira, na expressão de Mário de Andrade. Foi demolida e substituída por outra concebida por outro notável arquiteto, o nosso amigo Paulo Mendes da Rocha. Obra inteligente e até bonita, mas uma intrusa a clamar: &#8216;cheguei!&#8217;. As pessoas em geral têm que saber que Patrimônio Cultural não é composto apenas de obras belas; algumas históricas são inexpressivas. Aliás, quem é o fazedor de juízos de valor com procuração do povo para derrubar e construir?&#8221;</em></p>
<p>2) Falando da Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco: <em>&#8220;guandiloquente construção neocolonial projetada por Ricardo Severo e Felisberto Ranzini para o Escritório Técnico Ramos de Azevedo &#8211; Severo e Vilares, por volta de 1932/33, para substituir uma legítima e mais que histórica construção colonial. Substituíram um original por uma contrafação num total desrespeito ao nosso Patrimônio Cultural (&#8230;) É uma pena. Agora ali está a Igreja de São Francisco, último remanescente do século XVII, toda encolhida e amedrontada pela massa insólita de alvenaria pretensiosa&#8221;.</em></p>
<p>Eu vou bancar a atrevida e discordar do eminente mestre. Em primeiro lugar, eu não chamaria a atual Faculdade de Direito propriamente de neocolonial. Seu frontão é neocolonial, mas o pórtico que marca o corpo central, com colunas coríntias, e a própria disposição e ritmo das aberturas, classicizantes, enquadrariam este edifício, a meu ver, no estilo eclético em seu sentido mais estrito (a mistura de elementos e linguagens distintas). Em segundo lugar, ele fala como se este edifício que aí está tivesse tomado direta e abusivamente o lugar do original colonial. Pois bem, como podemos acompanhar pelas imagens abaixo (eu infelizmente não fotografei a faculdade, apenas o conjunto franciscano), até 1862, pelo menos, ainda era de fato o convento anexo à igreja que servia de Academia de Direito. Colonial, ok. Mas a foto seguinte, de 1867, já mostra uma reforma bastante modificadora, de feição neoclássica, com o telhado cerâmico escondido pela platibanda, a adição de pilastras decorativas sugerindo apoio ao entablamento e a criação de uma entrada destacada por uma porta em arco pleno, encimada por uma pequena torre com relógio. Neste momento, o edifício já deixou de ser o colonial original, que Carlos Lemos adoraria ter preservado. Ao prédio hoje existente não cabe a culpa pela destruição do patrimônio, a meu ver. Se algum colega mais apto, lendo isto, quiser dar seu parecer, eu agradeço.</p>
<div id="attachment_978" class="wp-caption aligncenter" style="width: 735px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/FacDireito-evolucao.jpg"><img class="size-full wp-image-978" title="FacDireito-evolucao" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/FacDireito-evolucao.jpg" alt="" width="725" height="160" /></a><p class="wp-caption-text">À esquerda, 1862; ao centro, 1867. Fotos de Militão Augusto de Azevedo, em http://marcos.mazo.nom.br/site/node/187. À direita, pórtico em 2011. Fonte: http://www.panoramio.com/photo/24618569</p></div>
<p>Vamos prosseguir, que eu nem cheguei na hora do almoço e já vi que meu passeio ao Bom Retiro vai ficar pro próximo post. O texto de Carlos Lemos, de toda forma, é cheio de indicações preciosas, e, por causa dele, eu almocei na tradicional <a href="http://www.casagodinho.com.br/" target="_blank">Casa Godinho</a>, no térreo do edifício Sampaio Correia, primeiro arranha-céu paulistano, projetado em 1924 por Cristiano Stockler das Neves. Depois, parei para prestar homenagem ao Edifício Martinelli, de 1929, que para mim sempre estará associado a duas situações. A primeira, é que ele é mencionado no belíssimo livro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Olhai_os_L%C3%ADrios_do_Campo" target="_blank">Olhai os lírios do campo</a>, de Érico Veríssimo e a festa de inauguração do prédio é um momento importante no livro. A segunda &#8211; vamos botar uma lenhazinha na fogueira da rivalidade rio-sãopaulo &#8211; é que eu sei que o Martinelli foi erigido na mesma época que o Edifício A Noite, sede da Rádio Nacional, aqui na Praça Mauá, e havia uma velada disputa para saber quem completaria mais depressa o primeiro edifício de concreto armado do Brasil, que seria o mais alto da América Latina naquele momento. Há controvérsias.</p>
<div id="attachment_979" class="wp-caption aligncenter" style="width: 810px"><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/edificios.jpg"><img class="size-full wp-image-979" title="edificios" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/edificios.jpg" alt="" width="800" height="275" /></a><p class="wp-caption-text">Da esqerda para a direita: A Noite, Martinelli e Cavanagh. O primeiro foi tirado de http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1147645&amp;page=4, os outros são fotos da autora.</p></div>
<p>O projeto do A Noite é do francês Joseph Gire (o mesmo do Copacabana Palace) e de Elisiário Bahiana. Foi inaugurado com 22 andares, em 1929, com 102,80 m, o que equivale em nossos dias à altura de um prédio de mais de 30 andares. O Martinelli acabou sendo mais alto, atingindo 105,65 m (o livro fala em 80 metros, mas as outras fontes pesquisadas todas batem em torno de 105). Porém, alguns autores consideram que só foi concluído realmente em 1930, tendo apenas a estrutura terminada em 1929. Ficamos assim: o Rio inaugurou primeiro, mas São Paulo fez o mais alto. De que adianta? Em 1935 ambos perderiam a majestade para Buenos Aires, com os 120,35 m de seu Edifício Cavanagh.</p>
<p><a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AsaBranca.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-980" title="AsaBranca" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/02/AsaBranca-300x225.jpg" alt="Tão bom ter parado ali pra ouvir esse pessoal" width="300" height="225" /></a>Foi ali do ladinho do Martinelli, na Praça Antonio Prado, que eu parei para ouvir Asa Branca, embevecida. Já falei que adoro a vida popular das praças? Guiada pelos conselhos de Carlos Lemos, segui logo depois para o Banespa, em cujo topo há um mirante com uma visão soberba da cidade. Desci de lá pensando que eu definitivamente amo as cidades. Esses centros meio sujos, tumultuados, de ruas estreitas. Buzina, edifícios antigos e novos lado a lado, mendigos, vendedores ambulantes, artistas de rua, ônibus, gente. Certo, podíamos não ter os mendigos. Mas não no sentido do &#8220;choque de ordem&#8221; do nosso prefeito carioca, que tira todos dos lugares mais valorizados da cidade, apenas para que não sejam vistos, como quem varre a sujeira para baixo do tapete, e assim crê que a casa ficou limpa. Podiam não existir mendigos no sentido de não existir tamanha miséria, tanta desigualdade e desamparo. Se é para eles existirem, então acho que devem mesmo estar diariamente às nossas vistas, confrontando nosso conforto e sucesso (e nossas responsabilidades) com o longo caminho que ainda devemos percorrer para extirpar essa chaga do país.</p>
<p>De resto, os cafés e botequins, os homens fumando de pé nas esquinas, o burburinho, os becos, as pessoas tão diferentes em suas cores, tamanhos e jeitos, em sua faina de formigas, tudo me fascina. Me deu um carinho, como se eu quisesse pegar São Paulo no colo.</p>
<p>No próximo episódio, uma tarde maravilhosa: a Estação da Luz, o Museu de Língua Portuguesa, Pinacoteca, e como lutar bravamente &#8211; e falhar! &#8211; na tentativa de resistir às compras no fantástico bairro do Bom Retiro.</p>
<p><em>* Thanks, Mario de Andrade!</em></p>
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		<title>Juciara e o Dia do Trabalho</title>
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		<pubDate>Fri, 01 May 2009 20:03:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Até fevereiro deste ano eu trabalhei num escritório de arquitetura ali na Lapa, subida de Santa Teresa. E em todos os dias que eu fui ou voltei do trabalho, eu me deliciei em ficar observando o casario eclético que ainda existe, embora tão mal tratado, ali no Centro do Rio.</p>
<p>Eu sempre gostei do eclético, aquele estilo arquitetônico que predominou do final do século XIX até mais ou menos os anos 20-30 do século passado, e que o Lúcio Costa chamava de pastiche, de cópia da cópia, portanto sem valor artístico, histórico, cultural. Hoje todo mundo lamenta a demolição do Palácio Monroe (exemplar típico do estilo), cujo desaparecimento foi autorizado e até recomendado pelo <a href="http://portal.iphan.gov.br/" target="_blank">IPHAN</a> (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e todo mundo tece loas ao pouco que sobrou na Avenida Rio Branco, principalmente o conjunto mais visível e bem preservado em torno da Cinelândia, composto pelo Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes e o Centro Cultural da Justiça, mas houve tempo em que os palacetes ecléticos da cidade iam desaparecendo rapidamente, considerados estorvos ao desenvolvimento e à modernização da cidade.</p>
<p>Mas não era nada disso que eu ia falar. Ou era mais ou menos. Essa historinha inicial é pra dizer que eu admiro o ecletismo, mas tenho um interesse e até &#8211; por que não dizer &#8211; um carinho especial, nem tanto pelos grandes palacetes e prédios que acabam abrigando instituições importantes, mas pelos sobrados e casas populares que existem aos montes nos bairros mais antigos do Rio. Em todo o Centro e Zona Portuária, Lapa, Catete, Estácio, Catumbi, Santa Teresa, e até em Botafogo, ainda é possível ver os sobrados característicos deste período, alguns com as datas de sua construção exibidas na fachada &#8211; 1894, 1903, 1914, e por aí vai. Há os que estão bem cuidados, tinta nova, esquadrias restauradas, balcões e grades inteirinhos, até por força de <a href="http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?id=5685" target="_blank">programas</a> de <a href="http://www.rio.rj.gov.br/culturas/pastas/legislacao/CENTRO%20-%20Lei%20506-84%20Corredor%20Cultural.pdf" target="_blank">preservação</a> levados a cabo pela Prefeitura nos últimos 30 anos. Vários hoje abrigam bares, restaurantes, antiquários, principalmente perto da Lapa. Mas dói ver um montão deles vazios, caindo aos pedaços, vidros partidos, transformados em cortiços que oferecem risco (de incêndio, de vazamento de gás, de desabamento) inclusive aos seus próprios moradores e ocupantes.</p>
<div id="attachment_197" class="wp-caption alignleft" style="width: 235px"><img class="size-medium wp-image-197" title="dsc07389" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/05/dsc07389-225x300.jpg" alt="Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante" width="225" height="300" /><p class="wp-caption-text">Olha ela ali, de blusa azul, conversando com mais um passante</p></div>
<p>Daí eu resolvi, há pouco tempo, fazer um levantamento fotográfico desses sobrados. Por enquanto é só uma brincadeira pessoal, ainda não sei bem o que eu poderei fazer com esse material depois. Quer dizer, eu tenho umas idéias, vamos ver o que vai dar. Hoje de manhã, aproveitando o feriado que deixa tudo mais tranquilo, saí pra tirar umas fotos, no Centro. Estou eu na Av. Gomes Freire, tentando enquadrar mais um prédio, quando a senhora que estava em frente a ele, sacudindo o plástico onde estivera sentada até então, me viu e veio puxar papo.</p>
<p>&#8220;Bonitos esses prédios, né, moça?&#8221;. &#8220;Muito bonitos&#8221;, respondi.</p>
<p>&#8220;Eu vivo nessa rua há seis anos, moça, todo mundo me conhece aqui. É uma pena tantas dessas casas estarem fechadas. Aqui &#8211; e aponta uma das portas cerradas por conta do feriado &#8211; funciona um restaurante, mas aqui, aqui e aqui &#8211; indica outros térreos &#8211; não funciona nada, tá vazio mesmo. Devia ter um comércio, né? Uma loja de calcinhas, uma manicure. Eu pinto unha, sabe, pinto muito direitinho. Mora muita gente aqui, mas é gente pobre. Esses restaurantes atendem o pessoal rico, que trabalha nos escritórios por aí, devia ter alguma coisa pra esse pessoal que mora aqui também. Sei lá, se eu tivesse dinheiro, eu pegava uma casa dessas, eu fazia um escritório assim, como é que chama? Ah, uma agência, pra dar trabalho pras pessoas, indicar uma empregada doméstica, alguém pra passar uma roupa, fazer uma faxina. Eu sei passar muito bem, lavar, dou uma boa faxina, mas o pessoal que me conhece aqui da rua não pode me contratar, e quem pode contratar me vê sentada aqui na calçada, pensa que eu sou uma mendiga, não quer me dar trabalho. Se eu conseguisse alguma coisa assim, pra ganhar meio salário mesmo, com tudo certinho né, os direitos na carteira, mas meio salário mesmo já me bastava, se eu pudesse tomar um café com leite de manhã e um prato de comida no almoço, eu trabalhava bem certinho, aí podia pagar um quartinho pra eu dormir. Mas é difícil, moça&#8221;.</p>
<p>Juciara, o nome dela. O que eu vou dizer depois de uma aula dessa? Aula de urbanismo, de economia, de sociologia. Eu desejo boa sorte a ela. Fiquei encantada.</p>
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		<title>Another brick in the wall &#8211; Parte 1</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 15:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu não paro de receber e-mails e ler manifestações de colegas, arquitetos ou não, a respeito dessa história do muro das favelas do Rio. Não sei bem por onde começar, porque são incontáveis os aspectos pelos quais se pode falar do assunto, e de nenhum ponto de vista que eu tenha tentado analisar (ou que tenha lido), a medida tem o menor cabimento.</p>
<p>Resolvi primeiro apresentar alguns argumentos e textos que já foram divulgados por aí.</p>
<p>Todo mundo sabe qual é exatamente o objetivo oficial do governo do Estado? Construir muros (concreto, 3 metros de altura) nos limites de algumas favelas do Rio (5 favelas no total, todas na Zona Sul) com as áreas florestadas, visando impedir o crescimento da favela sobre essas áreas, preservando assim o remanescente de Mata Atlântica.</p>
<p>Bom, o <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/posts/2009/04/04/minha-opiniao-174716.asp" target="_blank">Sérgio Besserman</a>, que é economista e escreve um <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/besserman/" target="_blank">blog</a> no Jornal O Globo, é bem pragmático. <span style="color: #000000;"><span>Ele acha que é possível e até desejável algum tipo de contenção das favelas para impedir o seu avanço sobre as áreas verdes, mas discorda tecnicamente desta solução específica, que não só não resolve como traz problemas novos e complicados. Olha a questão do ponto de vista do que representa o espaço verde (e a “alma democrática” do Rio de Janeiro, hummmm&#8230;.) enquanto ativo econômico e social. Para ele, o argumento de que o muro estanca a expansão horizontal das favelas é falho, primeiro porque não estanca nada (parece consenso que o muro não vai cumprir sua missão expressa), e ele ainda diz que se a prefeitura garante que vai fiscalizar o muro, então pra que muro? E em segundo lugar porque, citando <a href="http://http://www.armazemdedados.rio.rj.gov.br/" target="_blank">dados</a> do </span></span><a href="http://www.rio.rj.gov.br/ipp/" target="_blank">IPP</a> (Instituto Pereira Passos, órgão ligado à Secretaria de Urbanismo do município) e da <span style="color: #000000;"><span><a href="http://www.firjan.org.br/" target="_blank">FIRJAN</a> (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), ele defende que o principal crescimento a ser evitado é o crescimento vertical. Segundo esses órgãos, e a análise das fotos aéreas da cidade, as favelas que mais crescem horizontalmente são as da zona oeste, e para estas não há nenhum plano de muros, por outros motivos políticos que Besserman até menciona. Para ele – e aí entra um ponto interessante – </span></span><span style="color: #000000;"><em><span>“O VERDADEIRO PROBLEMA é o controle territorial por parte da bandidagem, e a perda, pelo Estado, do monopólio do uso da força nesses territórios”. </span></em></span><span style="color: #000000;"><span style="font-style: normal;"><span>Não sei se concordo com isso. Quer dizer, claro que o Estado paralelo instaurado pela criminalidade precisa ser combatido, mas o Estado deve se fazer presente não apenas pela força da lei, pelo policiamento, e sim, <strong>antes e muito mais importante,</strong> pela garantia de acesso, para estas populações, aos serviços a que elas fazem jus pelo simples fato de serem cidadãos: educação, saúde, higiene, trabalho, moradia. Se não, você fica achando que pelo fato da polícia estar ocupando ostensivamente o Morro Dona Marta, todos os problemas do morro foram resolvidos. No máximo, foram resolvidos os problemas dos moradores de Botafogo, próximos ao morro, que acham que agora não terão mais os carros roubados, nem tiroteios nas janelas. Se os moradores do morro continuam com o esgoto correndo na porta, isso não é problema meu, certo? Mas eu não estou dizendo que não era pra polícia ocupar, antes que venham me dizer isso. Só estou dizendo que isso não basta. Tá longe de bastar. E o que eu vejo é o pessoal achando que se a segurança (de quem?) estiver resolvida (até quando?) então tudo bem.</span></span></span></p>
<p style="margin-bottom: 0in;">Tem o <a href="http://http://www.parededemeia.blogspot.com/" target="_blank">Fernando Lara</a>, de quem eu já falei aqui. Ele levanta a questão da sustentabilidade ambiental x sustentabilidade social, lembrando que elas não existem uma sem a outra. Para um debate acerca do conceito de sustentabilidade, eu convido vocês a lerem a caixa de comentários dele, e a gente pode voltar a falar disso também (Alline, meu bem, cadê você?). Ainda na esteira do Fernando, eu acrescento que além do muro ser uma medida sem a menor eficiência (não quero acusar de antemão, mas eu duvido que ele não seja demolido em alguns trechos ou escalado), e portanto gasto inútil de dinheiro, ele é recibo passado e assinado pelo Estado da falta de capacidade de fiscalizar, coibir práticas ilegais e até mesmo do descaso com que trata a questão da expansão das favelas.</p>
<p>Tem também a história da preservação das áreas verdes: preservação do que quer que seja só faz sentido com uso. Isolada, qualquer área, seja verde, seja urbana, ou mesmo um prédio, não só não será preservado como virará alvo de cobiça e acabará ocupado ilegalmente. Um dos pontos do texto do Fernando de que mais gostei foi quando ele diz que o muro <em>“materializa o preconceito, a desigualdade e o desinteresse numa solução melhor e mais permanente para o problema”. </em>Claro, porque com o muro construído, o resto da população acha que tudo bem, já fez a sua parte, resolveu o problema, e se o muro for quebrado a culpa é “deste bando de favelado”.</p>
<p>A Cláudia, nos comentários, lembrou do texto do sociólogo <a href="http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/post.asp?cod_post=177524&amp;cx=0" target="_blank">Roberto da Matta</a>, também publicado n&#8217;O Globo. Ele toca na questão do discurso ambiental como máscara para a segregação. Diante do ideário politicamente correto, que impede ou dificulta a defesa pura e simples do emuralhamento da favela, a proposta vem então embalada na questão ecológica, que muda os termos do problema, deslocando-o do seu aspecto principal que é a desigualdade social, a produção e reprodução contínua da pobreza na nossa sociedade, para a defesa da Natureza. Gosto quando ele diz que &#8220;<em>a proteção da Natureza racionaliza a solução definitiva inapelável (e portanto ditatorial) para a pobreza em massa que envergonha (e ameaça) os que residem ao seu redor. Quando descobrirmos mais invasões, a culpa terá sido do muro, não nossa.&#8221;</em></p>
<p>Em artigo publicado na Folha de São Paulo em 14/04, e <a href="http://www.cidadeinteira.blogspot.com" target="_blank"><strong>aqui</strong></a> reproduzido, o arquiteto Sérgio Magalhães, professor na FAU/UFRJ e ex-Secretário de Habitação do Rio, toca em questões realmente relevantes, como a estigmatização da favela como “lugar que dá causa à violência”. Sem favelas, a cidade seria pacífica? A matriz da violência é a morfologia urbana? Ele não acredita nisso, nem eu. Ele aponta a escassez de democracia (aí entendida como o acesso universal aos serviços públicos e à proteção do Estado) como cerne da questão, e está certo.</p>
<p>Até o <a href="http://caderno.josesaramago.org/page/11/" target="_blank">Saramago</a> já se manifestou contra o muro.</p>
<p>Na parte 2 eu quero continuar o assunto, tocando em outros aspectos, não expressa e ostensivamente ligados à proposta dos muros para as favelas do Rio, mas que englobam as idéias por trás dessa proposta. Para isso, recorrerei a um autor que eu tenho lido muito ultimamente, e que expressa bem muita coisa que sempre pensei e nunca consegui dizer com tamanha autoridade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.</p>
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		<title>Preservação e patrimônio: o que isso tem a ver com você?</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Apr 2009 00:11:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Rio de Janeiro]]></category>
		<category><![CDATA[metrô]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio]]></category>
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		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu sei que a conversa aí debaixo sobre cinema e experiências urbanas ainda está esquentando, mas tem um assunto que eu preciso trazer à baila. Sobre o post anterior, eu quero dizer que o papo que tá rolando nos comentários é ótimo, e tem umas histórias ali que valem a pena, não percam.</p>
<p>Você é dos que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei que a conversa aí debaixo sobre cinema e experiências urbanas ainda está esquentando, mas tem um assunto que eu preciso trazer à baila. Sobre o post anterior, eu quero dizer que o papo que tá rolando nos comentários é ótimo, e tem umas histórias ali que valem a pena, não percam.</p>
<p>Você é dos que acham que preservação de patrimônio só diz respeito a monumentos vetustos do século retrasado? Ou então, que preservar significa atrapalhar a sua vida e desvalorizar o seu imóvel ou aumentar os seus impostos? Melhor rever os seus conceitos. A preservação envolve a memória da cidade, mas também implica em manutenção ou melhoria da qualidade de vida no dia-a-dia da cidade e seus moradores, sem falar na utilização honesta e pertinente de dinheiro público, ou seja, dinheiro meu e seu.</p>
<p>Tudo isso pra falar de (mais) um descalabro que está acontecendo no metrô do Rio de Janeiro. Vou deixar o meu colega Roberto Anderson Magalhães, também arquiteto, explicar a situação. Olha o e-mail que eu recebi dele esta semana:</p>
<p><em>&#8220;Amigos,</em></p>
<p><em>Peço-lhes o especial favor de, se possível, divulgar e chamar a atenção para um fato preocupante. O metrô do Rio de Janeiro começou a ser construído no final da década de 70. Naquela ocasião havia a intenção de dotar a cidade com um metrô de qualidade e o projeto das primeiras estações foi confiado a uma equipe de arquitetos da melhor qualidade, entre os quais Sabino Barroso, que havia sido colaborador de Oscar Niemeyer. Refletindo o padrão de qualidade almejado, as estações mais centrais foram revestidas de mármore e as dos bairros foram revestidas de vidrotil, uma pastilha vitrificada, de grande elegância e muito característica daquela época. Assim, elas formam um conjunto coerente, que define o trecho pioneiro da Linha 1. Pois bem, a companhia que opera o metrô, na forma de concessão, está emassando e pintando as paredes de vidrotil da estação Largo do Machado. Isto é um verdadeiro absurdo, pois encobre um material muito mais nobre com tinta e descaracteriza a arquitetura das estações. Caso isto não seja imediatamente sustado, no futuro o poder público terá que gastar dinheiro com a remoção dessa tinta numa restauração&#8221;.</em></p>
<p>Bom, o Roberto encaminhou e-mail à administração do metrô, questionando a iniciativa. Nesse meio tempo, óbvio, o revestimento de tinta branca já se deteriorou e as paredes estão todas marcadas de pés de passageiros. Agora vejam a &#8220;linda&#8221; resposta que ele recebeu, assinada pela designer que está cuidando da reforma desastrada:</p>
<p><em>&#8220;Prezado Sr.,<br />
Obrigada por nos enviar seu atencioso e-mail sobre a estação de Metrô do Largo do Machado.<br />
Sua colocação procede e compartilhamos do mesmo ponto de vista de respeitar as características do projeto original das estações, pois, de fato, o vidrotil e o mármore são materiais nobres e modernos.<br />
No entanto, nossa reforma tem como objetivo melhorar a viagem dos nossos clientes, criando ambientes mais claros, iluminados e alegres para os cariocas.<br />
Logo, reavaliamos algumas estações para que fiquem mais integradas no espaço urbano e proporcionem uma viagem mais agradável, sempre com o objetivo de prestar o melhor serviço&#8221;.</em></p>
<p>Acuma?</p>
<p>Então a moça concorda que os materiais originais são mais nobres e mesmo assim resolve cobri-los de tinta?</p>
<p>De que maneira mesmo que o fato de as paredes estarem emassadas e pintadas de branco melhora a viagem dos clientes e o serviço prestado pela concessionária? Em que isso ajuda a integrar as estações ao espaço urbano? Aaaahhhh, as estações ficam mais claras e &#8220;alegres&#8221;! A cor das pastilhas não era suficientemente alegre, parece. Talvez  com o tempo, quando a tinta for ficando manchada, trincada, pichada (alguém tem dúvida?), as estações fiquem ainda mais alegres e iluminadas. E gastar dinheiro mandando pintar de novo de tempos em tempos resolve tudo, afinal, os aumentos no valor da passagem do metrô cobrem essa despesa facilmente.</p>
<p>Não acredito que deixar as estações mais claras compense a descaracterização de um projeto pensado com tanta qualidade, ainda mais que a troca de materiais leva tão obviamente a uma degradação e conseguinte desvalorização do ambiente, e nem sei se a medida é realmente efetiva. Tampouco vou entrar no mérito de outras questões polêmicas envolvendo o metrô, e que mereceriam uma reforma muito mais urgente, como a superlotação dos vagões, a venda de bilhetes que só têm validade de dois dias, mantendo sempre filas enormes nos guichês das estações, e os critérios para ampliação da malha metroviária. Não vou nem perguntar se a reforma foi comunicada aos autores originais do projeto (no caso Sabino Barroso, Jaime Zettel e José Leal) ou devidamente licenciada, porque se não foi, ainda por cima cabe denúncia ao CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). Vou só juntar minha voz à voz de outras pessoas, arquitetos ou não, insatisfeitos com a medida.</p>
<p>Minha proposta é que os usuários de metrô no Rio de Janeiro que concordarem com essa crítica, e desejarem suas estações de volta como eram, <a href="http://www.metrorio.com.br/canais.asp" target="_blank">façam a empresa saber de sua opinião</a>. Nós podemos telefonar para eles, escrever para eles, seja por e-mail, seja num papelzinho que pode ser depositado nas caixas de sugestões existentes em todas as estações. Outras sugestões são bem-vindas. O importante é não dar de ombros de novo, achando que é assim mesmo. É o <strong>seu</strong> patrimônio que está em jogo.</p>
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