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	<title>Urbanamente &#187; representação</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Meninas descabeladas</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Apr 2011 03:39:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
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<p>O semestre começou fervendo. Para conciliar minha carga horária como professora substituta e as disciplinas que preciso cursar no doutorado, minha grade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se eu ficar esperando ter tempo para escrever alguma coisa que preste, vocês só vão me ver de novo daqui a quatro anos. Ou algo assim. Então vou dizer oi só pra espanar o pó.</p>
<p>O semestre começou fervendo. Para conciliar minha carga horária como professora substituta e as disciplinas que preciso cursar no doutorado, minha grade ficou pulverizada e picadinha, então eu acabo indo à universidade todos os dias da semana, às vezes para uma única aula. Mas como é longe e o transporte é ruim, isso me gasta metade do dia, em qualquer circunstância. E os horários não ajudam, quase sempre logo antes ou logo depois do almoço. Mas não vim aqui pra reclamar. Tou adorando tudo, cansada mas empolgada. E gripadíssima nas últimas duas semanas, agora melhorou. Resfriado só, garganta e tal, nada de dengue, amém.</p>
<p>Hoje eu li com carinho e uma ponta de preocupação uma <a href="http://www.interney.net/blogs/cintaliga/" target="_blank">querida</a>, no Facebook, me fazendo um elogio pra lá de generoso, como se eu fosse modelo pra alguma coisa. O carinho é porque me enternece que alguém me veja com olhos tão gentis, a preocupação é porque a vaidade é um bicho sutil e ardiloso, e é preciso estar vigilante o tempo todo pra não se deixar seduzir pelo espelho narcísico. Eu me confesso vulnerável a esse desagradável defeito, e por isso me lembro de vez em quando (e advirto quem quiser saber) de minhas falhas. Se alguém tem a mínima ilusão a meu respeito, saiba que eu peno horrores pra me manter minimamente em  dia com os assuntos que me interessam e pago o preço de deixar montes de pedaços de vida perdidos no caminho. Disperso-me com facilidade, atiro  pra um monte de lados e perco o foco em coisas que deviam  exigir a minha atenção mais concentrada. Pode até parecer diferente, mas não dou conta de ler nem 1/10 do que eu gostaria (mas nisso, vamos combinar, quem dá?). Protelo, procrastino, perco prazos, prometo coisas  que não dou conta de cumprir, faço outras tantas numa qualidade medíocre que deixa a  desejar e depois me irrito. Sou ansiosa, impaciente, crítica, sou menos controladora hoje do que já fui, mas ainda tenho dificuldades em lidar com falhas, sobretudo as minhas próprias. Em minha defesa (ou não), acrescento que finjo muito bem e passo a maior pinta de quem dá conta do recado.</p>
<p>Assumo também que, com o tempo, deixei de incensar outros ícones, e passei a compreender que mesmo as pessoas que eu mais admiro, aquelas em quem me espelho profissionalmente, aquelas por quem eu suspiro e digo &#8220;puxa, eu queria ser como fulano/a&#8221;, são tão humanas e falhas quanto eu. Entender isso dá um alívio enorme e você pára de correr atrás de uma perfeição inexistente. Não há glamour na minha profissão, não sei se há em alguma. Há trabalho, há esforço, há dedicação e estudo, há até talento, mas também há medos, dúvidas, vaidades, invejas. Falhas. Como em tudo e em todos nesta vida.</p>
<p>Isso me faz lembrar que eu estava pensando uma coisa esses dias. Uma dessas alegorias nada ortodoxas que me vêm à mente depois de alguma aula, ou meio do nada, pensando sobre as cidades. Não é à toa que esse tema da cidade ideal, da possibilidade de organização da cidade, dos modelos, sempre me interessou tanto. E volta à tona em algumas das aulas que eu dou. Você fala de Renascimento, estão lá os tratadistas, as cidades ideais (alguém pensou n&#8217;<a href="http://www.espacoacademico.com.br/096/96esp_correia.htm" target="_blank">A Utopia, de Thomas Morus?</a>); fala de século XIX, das mazelas da vida urbana durante a Revolução Industrial e estão lá os pensadores utópicos, todos propondo modelos, soluções, medidas tanto mais rígidas quanto mais caótica é a percepção que eles têm da cidade e suas transformações. Estamos no século XXI e muita gente ainda espera o plano mágico, saído da cartola, que vai resolver todos os problemas urbanos e arrumar a cidade de uma vez por todas. Eu repito incontáveis vezes todos os semestres, para espanto e decepção de alguns alunos, que isso é impossível, esperar por isso é garantia de frustração. É preciso se conscientizar que tudo muda, o tempo todo, nada permanece. Tudo é dinâmico, está em movimento.</p>
<p>E foi aí, que estava eu<a href="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/04/mafalda-despenteada.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1018" title="mafalda despenteada" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2011/04/mafalda-despenteada.jpg" alt="" width="225" height="225" /></a> caraminholando e me veio a imagem de uma menina de cabelos longos e revoltos, uma menina sapeca, agitada, que não pára quieta. Imagina que você pretenda pentear os cabelos dessa menina, fazer uma trança bonita, dar ordem no desmazelo daquela cara afogueada. Teoricamente (eu disse <em><strong>teoricamente</strong></em>) você conseguiria até fazer sossegar essa menina por alguns minutos e arrumar o penteado. Não acredito que dure, mas vá lá que por tempo suficiente para tirar uma foto.</p>
<p>Uma cidade é uma menina assim. Arisca. Mas que não adianta porque ela não parará nem sequer por um segundo para que você a penteie. É preciso amá-la enquanto ela se mexe. Às vezes desgrenhada, às vezes de vestido novo que se suja em seguida. Melhor ainda: amá-la exatamente por conta disso, dessa sua capacidade inesgotável de se transmutar, de envelhecer, de renascer, de ser muitas faces numa só.</p>
<p>Uma professora de uma das minhas matérias no doutorado estava dizendo isso semana retrasada: a gente trabalha com um objeto &#8211; a cidade &#8211; que não fica quieto para ser observado. Daí você constrói as suas análises e teses sobre algo e quando você termina de escrever, esse algo já é diferente do que era quando você começou. E o trabalho acadêmico, a reflexão intelectual, tantas vezes não consegue acompanhar o ritmo. Outras linguagens talvez. Por isso meu fascínio pela música, pelo cinema, pela literatura, mais ágeis e flexíveis pra representar essa mutação constante.</p>
<p>Mais descomposta que a menina dessa minha história, eu me recolho por hoje. O sono é repouso mas também é movimento. E eu levanto amanhã junto com a cidade para mais um dia de trabalho e de &#8220;despenteio&#8221;.</p>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 03:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
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		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank">UFRJ</a>. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na <a href="http://www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm" target="_blank">outra universidade</a>, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.</p>
<p>O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas <em>&#8220;embromations&#8221;</em> pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU120" target="_blank">HCU 2</a>, <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU230" target="_blank">HCU 3</a> e <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU240" target="_blank">HCU 4</a>, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.</p>
<p>Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/" target="_blank">aqui</a> que voltaria a citar <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629" target="_blank">o livro da Ana Maria</a>, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu &#8211; infelizmente &#8211; ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.</p>
<p>O texto é grande, mas vale cada sílaba:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (&#8230;) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_775" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_(Salvador)"><img class="size-full wp-image-775" title="Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (&#8230;) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento  e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)</em></strong></p>
<p>Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cinema como experiência urbana</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2009/04/03/cinema-como-experiencia-urbana/</link>
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		<pubDate>Fri, 03 Apr 2009 22:56:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Nossa, esses últimos dois dias foram meio corridos por aqui, e eu nem consegui vir escrever nada! E olha que eu arrumei um caderninho, onde tenho anotado as idéias que me ocorrem, e já tem uma dúzia de assuntos que eu gostaria de dividir com vocês! Enfim.</p>
<p>Fui ao cinema duas vezes esta semana. Vi Simplesmente Feliz, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nossa, esses últimos dois dias foram meio corridos por aqui, e eu nem consegui vir escrever nada! E olha que eu arrumei um caderninho, onde tenho anotado as idéias que me ocorrem, e já tem uma dúzia de assuntos que eu gostaria de dividir com vocês! Enfim.</p>
<p>Fui ao cinema duas vezes esta semana. Vi <a href="http://www.imdb.com/title/tt1045670/"><em>Simplesmente Feliz</em></a>, do <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005139/" target="_blank">Mike Leigh</a>, e <a href="http://www.imdb.com/title/tt1312241/"><em>Palavra (en)cantada</em></a>, da <a href="http://www.imdb.com/name/nm0812773/">Helena Solberg</a>. O filme do Leigh eu tinha visto o trailer, tinha achado assim assim, aí a crítica foi tão elogiosa que u resolvi arriscar. Achei assim assim. Bom, simpático, mas não arrebatador. Um pouco prozac demais pro meu gosto. Não é que eu prefira filmes sombrios, pelo contrário. <a href="http://www.imdb.com/title/tt0795421/">Mamma mia</a>, por exemplo, foi uma poderosa injeção de alto-astral e eu amei cada minuto. Mas esse, não sei, me pareceu o tipo de &#8220;jogo do contente&#8221; que forçou um pouco a barra. Já o documentário da Helena Solberg, com depoimentos de diversos artistas sobre a ligação entre música e literatura, é fantástico. Eu me emocionei diversas vezes, e talvez, mais tarde, desenvolva mais minhas opiniões em algum texto. Enquanto isso, pra quem andou falando de literatura nos comentários do post anterior, eu recomendo muito.</p>
<p>É uma pena que alguns bons filmes venham em tão poucas cópias. Eu gosto muito desses filmes &#8220;menores&#8221;, que correm por fora dos grandes esquemas de distribuição e divulgação, que são exibidos em salinhas mais tranquilas, onde eu posso ficar longe da orgia de sacos mega combo de pipocas e gente atendendo celular durante a sessão. Aqui no Rio tem umas salas assim. O texto que se segue é sobre uma delas.</p>
<p>Supostamente, este post é a continuação do último, sobre a sensação de cidade de cada um. É que na época em que eu escrevi o texto aí de baixo, eu estava fazendo o mestrado, e nos foi proposto escrever sobre um exemplo de experiência urbana. Era uma disciplina meio solta, meio maluca, mas que fazia bastante sentido, pelo menos pra mim. A gente passou o semestre lendo crônicas do Rubens Fonseca, poemas e textos variados de literatura. No fim, deu pra perceber que havia uma costura entre eles, que era o fato de todos expressarem uma experiência, uma sensação, sobre o que é viver numa cidade, ser parte dessa construção coletiva. E os professores (eram dois) pediram que cada aluno elegesse uma experiência pessoal e a descrevesse. Eu escolhi o cinema, e especificamente um cinema, aqui em Botafogo, que hoje se chama Espaço de Cinema e pertence ao Grupo Estação (na época tinha o patrocínio de um banco), e que era então o meu preferido. Ainda gosto muito dele, mas hoje abriu um outro, no mesmo esquema, mas mais moderno, confortável e próximo pra mim, que eu gosto ainda mais <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Ah, por coincidência, os dois filmes a que eu assisti essa semana foram nesse cinema. O texto saiu assim:</p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;"><img class="aligncenter size-full wp-image-136" title="cinema" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/04/cinema.jpg" alt="cinema" width="300" height="301" /></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Adoro cinema, e vou sempre que posso, normalmente toda semana. Mas desta vez foi diferente. Eu estava anormalmente alerta para os significados de cada gesto, de cada atuação ali levada a cabo, alerta para a metalinguagem em questão. Eu estava “fazendo” este trabalho, desta disciplina, ao vivo. Eu estava “atuando” o trabalho. Como vocês não estavam lá para testemunhar isso, só me resta transportar o que sobrou da experiência, em memória e sentimento, para as palavras.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Nem o filme, nem o lugar, foram ao acaso. Assisti ao “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, no Espaço Unibanco de Cinema, em Botafogo. Tudo ali era vivência de cidade, 100%. Descobri que aquele lugar, em especial, é minha síntese de cidade. Meio idealizada, talvez, mas bolas, não é essa a proposta?</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Primeiro, é um lugar de encontro. É público. Começa num ante-espaço, que é a bilheteria, num recuo de calçada, que já é o espaço propriamente, mas é também o “lá fora”, onde convivem os que querem entrar, os que estão saindo, os que só estão passando, os que se protegem da chuva ou do sol sob a marquise, os que pedem esmola, os que vendem bala, os que vendem a entrada. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Mas não é preciso pagar para entrar. Paga-se para ver o filme, mas pode-se entrar de graça no saguão para ficar olhando o movimento. Ou tomar um café (bom, nesse caso, volta a intervir o dinheiro).</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar de múltiplas funções. Há o óbvio, que são as salas de cinema, mas há também um café, e uma loja misto de brechó e livraria. Há o exercício de uma função, para a qual foi projetado concretamente o espaço, e há o prazer da permanência, da convivência. Assistir a um filme, em si, é um ato de fruição ao mesmo tempo individual e coletiva, muito similar à fruição que se tem da vida urbana cotidiana.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">O bar/café remete à comida, à dimensão física da condição humana, ainda que já irremediavelmente associada aos valores culturais e estéticos de que lhe impregnamos e com os quais lhe vivemos a experiência. O brechó/livraria remete à arte, à dimensão espiritual e transcendente da vida, alimento igualmente fundamental à sobrevivência e à experiência urbana. O fato de ser brechó, de vender coisas usadas e alguma antiguidade, nos lembra, ademais, dos vários tempos da cidade, da reciclagem, da vida impregnada nos pequenos objetos de todos os dias, no afeto emprestado aos artefatos.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar de diversidade. “Tribos” diferentes frequentam suas salas e espaços, e, sobretudo, colaboram para que aquele lugar exista. Gente de tipos variados, jovens e velhos, mais conservadores ou mais descolados. Gente de classes sociais diferentes, que todos os dias contribui para o funcionamento desse espaço e participa, em maior ou menor grau, de sua vida. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É um lugar onde pulsa o movimento. Onde há fluxos, de informação, de gente, de dinheiro. Onde há produção, consumo, criação. Num mesmo espaço físico, a cada dia transitam vidas diferentes, que configuram paisagens diferentes. E mesmo o espaço físico muda. Acompanha uma moda, uma necessidade de reciclagem, de manutenção. Tudo fala de efemeridade, de transitoriedade. De movimento.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Não foi gratuita, também, a escolha do filme assistido. Um edifício, uma arquitetura, fala do suporte físico da cidade. Mas o que lhe dá vida e significado é o elenco de tipos que por ali passam ou habitam. Foi como eleger uma representação cinematográfica para a vida urbana. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Cidade para mim, é isto. Uma rede de interações e representações em cartaz 24 horas por dia, sem ensaio. Alguns aplaudem, outros vaiam, todos interpretam.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 100%; widows: 0; orphans: 0;">
<p>Você me contaria alguma experiência sua, algo que o fez sentir parte da cidade, parte de alguma coisa conjunta, que você ajuda a construir, e fortalece seus vínculos com os outros co-cidadãos?</p>
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		<title>E pra você, o que é uma cidade?</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 19:20:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Urbanidades]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[representação]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Há alguns anos, eu tive que escrever um texto sobre a percepção de cidade que eu tinha. Transcrevo agora, para vocês. De lá para cá, andei lendo umas coisas que já me fizeram aprofundar algumas dessas idéias, ou criticá-las também. Mas é um bom começo.</p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;">O que é cidade? É quem? É quando? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há alguns anos, eu tive que escrever um texto sobre a percepção de cidade que eu tinha. Transcrevo agora, para vocês. De lá para cá, andei lendo umas coisas que já me fizeram aprofundar algumas dessas idéias, ou criticá-las também. Mas é um bom começo.</p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">O que é cidade? É quem? É quando? É onde? </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É por quê?</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">É evidente que, a esta altura, tenho noção de que cada cidade são várias, mediada cada imagem, para cada um, por suas experiências, sonhos, expectativas, desejos e frustrações.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">No princípio, era a barbárie. A selva, a lei do mais forte, o comer o que tinha, o dormir onde dava, o ser sem saber que era. Depois vieram a consciência, a reflexão, o trabalho, o querer mais, o querer melhor, o querer diferente, a civilização, a história. A cidade. Ao preço de reprimir os instintos, criar a lei, identificar o certo, punir o errado, sublimar desejos. Ao preço de se tornar homem. Segundo Freud, ao preço de um tremendo e eterno mal-estar, que ao mesmo tempo nos incomoda, nos confronta com sombras e heranças escondidas, e nos impulsiona, nos possibilita o convívio e a experiência urbana, nos põe em movimento.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">A cidade é, assim, o lugar que resultou desse salto, o habitat do </span><span style="font-size: small;"><em>homo urbes</em></span><span style="font-size: small;">. A cidade – e tudo o que ela significa, em cada uma de suas faces – é o lugar, por excelência, onde se manifestam e resolvem os conflitos, se criam e dissolvem as tensões, onde se encontra e se desencontra todo tipo de gente, de jeito e de atuação. É o lugar da diferença, e por conseguinte, da negociação constante, muda ou deflagrada, cordial ou belicosa. </span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">O bárbaro ainda está aí, à espreita, e quanto mais esgarçados os laços que nos fizeram urbanos, que nos fizeram cidade; quanto mais fragmentados nossos vínculos de urbanidade e solidariedade, mais frágeis nos tornamos, mais vulneráveis ao retorno à selva, à violência. Por baixo da pele de cidadãos, ainda habita um homem cheio de potência e contradição.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">A questão é que não há e nem haverá mais inocência. Mesmo o selvagem que irrompe aqui e ali tem alguma reflexão sobre seus atos, alguma idéia, por absurda ou desprezível que possa parecer a outrem. Há valores em jogo, todo o tempo. Vários, distintos. Valores irrefletidos e repetidos em coro, decalcados de representações alheias. E valores bem pesados, frutos de uma lucidez aguda e pungente, ou pelo menos de uma busca genuína dessa auto-avaliação. Mas desde que se fundou a primeira cidade da história, se fundou também a idéia e a prática do palco. Somos atores e platéia, críticos, diretores, produtores, figurinistas, bilheteiros, lanterninhas, de um grande e ininterrupto espetáculo coletivo. Olhamos e somos olhados. A cidade é um conjunto das representações que fazemos dela. E nela. É um mosaico em movimento, um caleidoscópio.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">Em si, esta definição já é uma representação, uma imagem. Neste caso, conscientemente, uma alegoria.</span></p>
<p style="margin-bottom: 0in; line-height: 0.25in;"><span style="font-size: small;">To be continued&#8230;. <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';-)' class='wp-smiley' /><br />
</span></p>
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