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	<title>Urbanamente &#187; século XIX</title>
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	<description>eu na cidade, a cidade em mim</description>
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		<title>Cidades literárias: Ana Maria Gonçalves (2)</title>
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		<pubDate>Mon, 17 May 2010 03:14:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na UFRJ. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Provavelmente eu deveria começar este post me desculpando por ausência tão prolongada. Vocês não têm ideia de como meu tempo ficou curtinho e praticamente insuficiente, desde que eu comecei as aulas na <a href="http://www.fau.ufrj.br/" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.fau.ufrj.br/?referer=');">UFRJ</a>. Desnecessário dizer que estou adorando cada minuto, fazendo o que eu mais amo na vida, mas mesmo tendo diminuído um pouco minha carga horária na <a href="http://www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.uva.br/designdeinteriores/graduacao_design_de_interiores.htm?referer=');">outra universidade</a>, eu ainda estou dando quase 30 horas/aula semanais, o que é muito (conte por fora os tempos de deslocamento, com aulas na Barra, na Ilha do Fundão e na Tijuca, morando em Botafogo, e o tempo necessário para preparar as aulas, estudar, montar avaliações e corrigir trabalhos e/ou provas de mais de 250 alunos no total e você vai entender que eu tenho trabalhado sem fim de semana e sem feriado). E ainda peguei um projeto de reforma para fazer, como se o tempo estivesse sobrando. Eu estou cansada mesmo. Para o próximo semestre eu vou ter que rever isso, diminuir o ritmo, me reorganizar.</p>
<p>O que uma blogueira faz numa situação dessas? Inventa umas <em>&#8220;embromations&#8221;</em> pra não deixar a peteca cair. Tanta coisa mais urgente para discutir, tanto assunto quente coçando os meus dedos aqui, mas vou recorrer a um expediente manjado nessas emergências: deixar outra pessoa falar por mim. E nem é tão despropositado. Vejam bem, eu estou lecionando três matérias lá na Arquitetura, dentro do Departamento de Urbanismo. Eles chamam de HCU: História da Cidade e do Urbanismo. Daí que eu fiquei com <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU120" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU120&amp;referer=');">HCU 2</a>, <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU230" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU230&amp;referer=');">HCU 3</a> e <a href="http://nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1&amp;n2=departamentos&amp;n3=7&amp;n4=FAU240" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/nova.fau.ufrj.br/index.asp?n1=1_amp_n2=departamentos_amp_n3=7_amp_n4=FAU240&amp;referer=');">HCU 4</a>, para alunos do segundo, terceiro e quarto períodos, respectivamente. Nesta sequência, eu acabo cobrindo a História da Cidade desde os primórdios, láááá atrás, no momento em que as aldeias neolíticas viraram cidades, passando por todos os períodos, até o final do século XIX. Não reclamo, isso é uma cachaça pra mim e a maior parte já é assunto velho conhecido, que eu já ensinei antes.</p>
<p>Mas o que é que eu estava falando mesmo? Ah, sim, dentro da disciplina de HCU 3, em algum momento nas próximas semanas, nós vamos começar a falar da colonização do Brasil, e da formação das redes urbanas no período colonial. E eu me lembrei que já tinha avisado <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2010/03/13/cidades-literarias-ana-maria-goncalves-1/" target="_blank">aqui</a> que voltaria a citar <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1407629&amp;referer=');">o livro da Ana Maria</a>, porque tem uma descrição deliciosa da cidade de Salvador, vista pelos olhos da personagem principal, a Kehinde/Luísa, quando lá chega nos primeiros anos do século XIX. Eu &#8211; infelizmente &#8211; ainda não conheço Salvador, mas quem conhece podia vir aqui contar pra gente o que disso tudo ainda existe, qual a sua percepção da cidade.</p>
<p>O texto é grande, mas vale cada sílaba:</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Para sempre ficou gravada na minha memória a São Salvador daquele dia. Anos depois, em África, a tantos quilômetros e a tanto tempo de distância, era naquelas impressões e sensações que eu pensava ao me lembrar da Bahia ou mesmo do Brasil. Lembro-me ainda hoje dos nomes das praças e das ruas que percorri por anos e anos, e por onde muitas vezes refiz o caminho daquele dia, tentando vê-lo com meus olhos de menina, sem nunca mais conseguir. Quando o barco contornou o Forte de São Marcelo, o sol ainda estava baixo por trás das colinas que sustentavam a cidade, o que fazia com que ela ficasse emoldurada por uma luz mágica que mais parecia um véu, embaçando os olhos da gente e tornando as cores mais delicadas. Algumas construções, as mais altas, com três, quatro ou até mais andares, e muitos templos e palacetes, pareciam flutuar de encontro ao teto do céu. A encosta era formada por partes de rocha preta, terra vermelha e vegetação, sendo que algumas árvores tinham crescido quase deitadas, como se tivessem sido atiradas, como setas, a partir do mar.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Ao desembarcarmos, fizemos um caminho que eu já conhecia, do ancoradouro até a rua principal da cidade baixa, mas que naquele dia parecia diferente por estar quase vazio. Havia pouca gente nas ruas, como se a cidade ainda estivesse espreguiçando antes de acordar direito. Eram apenas duas as mulheres que vendiam comida, com suas roupas bonitas e seus tabuleiros, e até mesmo o Arsenal, onde mais tarde vi que a construção de barcos e mais barcos quase não era interrompida, naquela manhã estaria deserto se não fossem três pretos conversando, sentados sobre pilhas altas de madeira. Apenas uma ou outra casa já tinha as portas e janelas abertas para becos tão estreitos que davam a impressão de que podíamos interromper a passagem por eles apenas abrindo os braços. Nem mesmo a fedentina causada pelos dejetos jogados na rua estava tão forte quanto da primeira vez, talvez porque o sol ainda não a tivesse acordado também. Na rua principal, um pouco mais larga e bastante tortuosa, olhando de longe às vezes eu tinha a impressão de que algumas casas estavam construídas exatamente no meio do caminho, barrando a passagem. Mas, ao chegarmos perto, a rua quebrava em outra direção, contornando as construções e seguindo adiante, para a frente e para cima. Alguém do grupo comentou que aquela rua principal acompanhava a praia de um canto a outro da cidade, ora mais, ora menos habitada, com mais casas de moradia ou mais casas de comércio e depósitos de pretos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Poucas construções tinham um só andar; a maioria era de casas engaioladas umas sobre as outras, com varandas sob janelas laterais que quase se encontravam no ar, ligando uma casa a outra, de tão próximas. Tais varandas também avançavam na frente das casas, nos andares superiores, debruçando-se umas sobre as outras e todas juntas sobre a rua, de um lado e do outro, tornando o caminho escuro e sufocante nos pontos mais estreitos. Havia ruelas que saíam dos dois lados da rua principal, curtas, porque, se de um lado algumas casas já quase se jogavam sobre o mar, do outro, em certos trechos, estavam apoiadas no barranco, mesmo com risco de a qualquer momento serem esmagadas pela queda das construções que se equilibravam na parte de cima, na cidade alta.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Os nomes dos lugares eu vim a saber depois, mas naquele dia caminhamos até uma construção onde funcionava um hospício, onde dobramos, bem na quina com a Ladeira da Preguiça, que subia, íngreme, até metade da montanha. (&#8230;) Calados para poupar fôlego, inclinávamos o corpo para frente e caminhávamos, seguindo as construções e os muros da torta Rua Direita da Preguiça, pegando uma outra ladeira, que ia dar no Largo das Portas de São Bento. De lá, sempre a medo de escorregar, tomamos outra ladeira que nos levou à parte mais alta da cidade, ao lado do Palácio do Governo, onde enfim paramos para descansar e aproveitar a vista. Dava para ver a Baía de Todos os Santos quase inteira, com suas pequenas ilhas e a Ilha de Itaparica como um imenso jardim plantado no meio das águas. No Palácio, uma construção de dois andares que ficava em um dos cantos da praça que levava o seu nome, a Praça do Palácio, contei onze janelas e uma porta muito alta, que se abriam para uma varanda que o abraçava por todos os lados. Em outro canto da Praça do Palácio, que tinha a forma de um quadrado, ficava a Cadeia Pública, um prédio tão bonito que, se não fosse pelas grades, poderia ser confundido com uma casa, bem como as construções que ocupavam os outros dois cantos, a Casa da Moeda e a Câmara Municipal.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em> </em></p>
<div id="attachment_775" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><em><em><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_(Salvador)" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Terreiro_de_Jesus_Salvador?referer=');"><img class="size-full wp-image-775" title="Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/05/Terreiro_de_Jesus_Sé_Catedral_1862.jpg" alt="" width="300" height="212" /></a></em></em><p class="wp-caption-text">Vista do Terreiro de Jesus, com a Catedral Basílica ao fundo, em 1862. Ao lado da igreja vê-se o antigo Colégio dos Jesuítas de Salvador.</p></div>
<p style="text-align: right;"><em>Descansados da subida, seguimos caminhando em direção ao Terreiro de Jesus, passando por lindos sobrados, que tanto eram comércio como casas de moradia, e principalmente por belas igrejas, como a Catedral da Sé. De um dos lados do Paço da Catedral ficava um templo que tinha sido dos jesuítas e que mais tarde foi ocupado por um colégio e depois por um hospital, para então ceder lugar à Faculdade de Medicina, que não sei se ainda está lá nos dias de hoje. (&#8230;) A praça do Terreiro de Jesus abrigava também o templo da Irmandade dos Clérigos de São Pedro e muitas casas mais simples, e dava saída para ruas que partiam em direção a todas as outras freguesias da cidade. Um pouco mais adiante, perto do Convento  e da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, dava para se ter uma visão melhor do que era a cidade de São Salvador. Para todos os lados que se olhava, menos o do mar, a cidade era uma sucessão de vales cobertos por verde abundante e de montanhas cortadas por ruas de terra ou de pedra, quase sempre desertas. De longe em longe, principalmente nas partes mais altas, surgiam algumas construções que, sendo pequenas, estavam quase sempre grudadas umas nas outras, e sendo grandes, estavam separadas por imensos jardins. Os palacetes se destacavam, brancos e grandiosos sobre gramados verdes e jardins coloridos, guardados por muitas árvores. Alguns morros tinham perdido os picos para dar lugar a um ajuntamento de construções ao longo de três ou quatro ruas que giravam em torno da praça central, onde sempre havia uma ou mais igrejas.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: right;"><strong><em>(GONÇALVES, Ana Maria. Um Defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2007)</em></strong></p>
<p>Só com isso, já dava pra gente pensar e falar sobre um monte de coisas, não é? Me aguardem que eu já volto (vou tentar, pelo menos).</p>
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		<title>Novidades</title>
		<link>http://www.urbanamente.net/blog/2010/04/18/novidades/</link>
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		<pubDate>Sun, 18 Apr 2010 14:29:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arquitetura & Urbanismo]]></category>
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		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo  </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 0.79in } 		P { margin-bottom: 0.08in } -->Eu devia colocar no singular, porque é uma novidade só, mas assim no plural o título fica mais bonito e chamativo <img src='http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-includes/images/smilies/icon_biggrin.gif' alt=':-D' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Desculpem ter sumido por tantos dias, é que estas últimas duas semanas foram intensas. Primeiro, as chuvas do Rio, suspendendo a vida real por três dias seguidos, o que levou a atrasos no planejamento de aulas (e até no doméstico) e a uma desorganização geral da rotina. Aproveitei para escrever umas coisas que estavam atrasadas e que eu tinha prazo pra entregar. Aí, nesta semana que se encerrou havia entrega de trabalhos em quase todas as minhas turmas, o que quer dizer pilhas de coisas para corrigir, além de uma ansiedade extra, ligada à novidade a que eu me referi aí no título.</p>
<p>É que abriu um concurso para professor substituto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e eu me inscrevi. Muitos candidatos bons (eu dei uma olhada na lista e conhecia vários pelo nome, colegas com quem eu já trabalhei ou estudei) e um processo sumário: a banca faz uma análise do currículo e chama os que ela considera os melhores para a entrevista. Eu já participei de um concurso desses, dois anos atrás, e fiquei em segundo lugar, mas era uma vaga única e eu fiquei de fora. A inscrição foi na segunda, a entrevista foi na quinta e o resultado saiu na própria quinta de noite. Fui chamada para a entrevista (eu e mais 13 candidatos), que se revelou, na verdade, uma verdadeira arguição oral, clima de avaliação mesmo. Se eu soubesse que seria assim, talvez tivesse estudado, mas juro que não me preparei nesse sentido. Mesmo assim, devo ter me saído bem, porque, desta vez, <span style="text-decoration: underline;">eu passei</span>!</p>
<p>Estou feliz da vida e começo nesta segunda-feira (amanhã), provavelmente assumindo turmas de História da Cidade e do Urbanismo. A gente nem sempre se dá muito conta de como esses processos de seleção são emocionalmente cansativos. Depois que a Chefe de Departamento me telefonou, quinta de noite, para dar o meu resultado e me convocar para a reunião de amanhã, eu estava numa descarga de adrenalina tão grande que dormi agitada. Aí, na sexta, quando eu achei que finalmente teria tempo de vir aqui, acabei dormindo a tarde quase toda&#8230;</p>
<p>Enfim, bola pra frente. As disciplinas que eu lecionarei abarcarão, entre outros períodos, o século XIX, que é alvo do que eu pretendo estudar num possível (e, tomara que em breve) doutorado. Daí que eu tenho lido e estudado um pouco sobre o assunto. Esses dias, revendo livros e textos sobre os tratados e utopias que propõem cidades ideais, que proliferaram a partir do século XV, e se estendem, com características e premissas um pouco diferentes, até o século XIX, me deparei com o projeto d&#8217;<strong>A Cidade Industrial</strong>, do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Tony_Garnier?referer=');">Tony Garnier</a> (que na verdade é do início do século XX, tendo sido apresentado pela primeira vez em 1904). Dá uma espiada no que ele diz, que eu comento em seguida:</p>
<p><em></p>
<div id="attachment_767" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><em><a href="http://cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/cidadeinteira.blogspot.com/2009/03/pac-oportunidade-para-revisao-de-uma.html?referer=');"><img class="size-medium wp-image-767" title="Garnier-planta" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/Garnier1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a></em><p class="wp-caption-text">Zoneamento por usos na cidade de Tony Garnier</p></div>
<p>“Fatores determinantes para o estabelecimento de tal cidade deveriam ser a proximidade de matérias-primas ou a existência de uma força natural capaz de ser usada como energia, ou a conveniência dos métodos de transporte. Em nosso caso, o fator determinante para a localização da cidade é o afluente que é a fonte de energia; também existem minas na região, mas poderiam estar situadas mais adiante. O afluente está represado; uma usina hidrelétrica distribui energia, luz e calor par as fábricas e para a cidade toda. As fábricas principais estão situadas na planície, na confluência do rio com seu afluente. Uma linha-tronco de ferrovia passa entre as fábricas e a cidade, situada acima das fábricas, num planalto. Mais acima, ficam os hospitais; estes, a exemplo da cidade, estão protegidos dos ventos frios e têm seus terraços voltados para o sul</em> (NOTA: ele está falando no hemisfério norte, em que esta é a fachada mais ensolarada, ao contrário do hemisfério sul, em que a fachada que toma sol é a norte). <em>Cada um desses elementos principais (fábricas, cidade, hospitais) fica isolado, de modo a tornar possível sua expansão.</em></p>
<p><em>(&#8230;) Os estudos sobre o programa mais satisfatório para as necessidades morais e materiais dos indivíduos resultou no estabelecimento de regras a respeito do uso das estradas, da higiene, etc.; o pressuposto é o de que um certo progresso da</em> <em>ordem social que resultou na adoção automática dessas regras já foi alcançado, de modo que não será necessário decretar as leis efetivas. A distribuição da terra, todas as coisas ligadas à distribuição da água, pão, carne, leite e suprimentos médicos, bem como a reutilização do lixo, serão entregues ao poder público.”</em></p>
<p style="text-align: right;">(Tony Garnier: Prefácio a Une Cité Industrielle,<br />
retirado de FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997)</p>
<p><a href="http://urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/urbanidades.arq.br/2008/02/as-origens-do-planejamento-urbano/?referer=');"><img class="aligncenter size-full wp-image-768" title="GarnierCidadeIndustrialPerspectiva" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2010/04/GarnierCidadeIndustrialPerspectiva.jpg" alt="" width="500" height="258" /></a></p>
<p>Observe que essa proposta se alinha com o pensamento dito progressista (dito, por exemplo, por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Choay" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Fran_C3_A7oise_Choay?referer=');">Françoise Choay</a>, em seu livro<strong> O Urbanismo</strong>), de final do século XIX-início do XX, que acreditava MESMO que a indústria, a máquina, traria as soluções para uma cidade melhor. Melhor aqui quer dizer mais limpa, organizada, racional, higiênica, ordenada, próspera, veloz. A produção em massa baratearia custos e todos teriam acesso a todos os bens necessários – e isso inclui carros, para proporcionar a mobilidade requerida nesta cidade de avenidas largas e funções separadas em áreas distintas da cidade. Eu não tenho dúvidas (isso está escrito em mais de um livro, hohoho) de que <a href="http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u641.jhtm?referer=');">Le Corbusier</a> leu e foi influenciado por Tony Garnier. Se você reparar bem, a semente da cidade modernista, funcionalista, já está toda aí.</p>
<p>O que eu proponho a gente pensar é: quais desses paradigmas ainda estão vigentes, hoje, mais de um século depois? Esse modelo ainda nos serve? O que deu certo? O que deu errado? Quais seriam os &#8220;fatores determinantes&#8221; para uma cidade do século XXI? Que modelos ou propostas temos hoje para nossas cidades, diante das condições e perspectivas que estão colocadas diante de nós?</p>
<p>Vão pensando e escrevendo, que eu já volto.</p>
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		<title>Cidades Literárias: Fernando Pessoa</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 19:36:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades Literárias]]></category>
		<category><![CDATA[História Urbana]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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		<description><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: Álvaro de Campos. Porque a poesia que eu selecionei, Ode Triunfal (na íntegra aqui), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ou eu devia dizer: <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/_C3_81lvaro_de_Campos?referer=');"><strong>Álvaro de Campos</strong></a>. Porque a poesia que eu selecionei, <strong>Ode Triunfal </strong>(na íntegra <a href="http://www.revista.agulha.nom.br/facam02.html" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.revista.agulha.nom.br/facam02.html?referer=');">aqui</a>), é de autoria deste que é um dos mais conhecidos e prolíficos heterônimos do poeta português*. Escrita em 1914, em Londres &#8211; berço da Revolução Industrial, é uma peça que ao mesmo tempo elogia o progresso e se desencanta com ele. Os versos encarnam a velocidade, os sons, a textura dessa nova cidade subordinada à indústria, transformando-se num <a href="http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/ode_triunfal" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/o/ode_triunfal?referer=');">&#8220;passeio vertiginoso pela paisagem de um mundo povoado por máquinas, circuitos, cores&#8221;</a>. Mais do que à descrição física da cidade e seus elementos, prestem atenção à síntese que ele faz da sociedade, que esta, em quase cem anos que se passaram desde a composição, não mudou grande coisa, vamos combinar.</p>
<p><img class="alignleft size-medium wp-image-519" title="industrial_revolution" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/10/industrial_revolution1-300x201.jpg" alt="industrial_revolution" width="300" height="201" />Ao mesmo tempo, no próprio ritmo e sonoridade do poema transparecem um cansaço imenso e a sombra de uma dúvida, sob a capa da ironia, de que todo este progresso vá trazer alguma solução aos problemas fundamentais do homem. Quem sabe vá até agravá-los e criar outros novos. Dilemas dos quais não nos livramos ainda. A gente vê a imagem que ilustra este post, e pode achar que esta cidade de chaminés e fumaças pertence ao século XIX, mas se a indústria foi afastada dos centros urbanos, a crença e o elogio do progresso, não. Continuamos apostando nossas fichas em máquinas (ainda que de design mais arrojado), na ciência, na tecnologia. Tudo isso pode ser uma maravilha, e tem uma capacidade de transformação do espaço e das relações absurdamente grande. Mas no que tange o essencial, o buraco continua mais embaixo.</p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica<br />
Tenho febre e escrevo.<br />
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,<br />
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!<br />
Ser completo como uma máquina!<br />
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!<br />
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,<br />
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento<br />
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões<br />
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Horas europeias, produtoras, entaladas<br />
Entre maquinismos e afazeres inúteis!<br />
Grandes cidades paradas nos cafés,<br />
Nos cafés &#8211; oásis de inutilidades ruidosas<br />
Onde se cristalizam e se precipitam<br />
Os rumores e os gestos do Útil<br />
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Hé-la as ruas, hé-la as praças, hé-lá-hô </em><em>la foule!<br />
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!<br />
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;<br />
Membros evidentes de clubs aristocráticos;<br />
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes<br />
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete<br />
De algibeira a algibeira!<br />
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!<br />
Presença demasiadamente acentuada de cocottes;<br />
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)<br />
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,<br />
Que andam na rua com um fim qualquer;<br />
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;<br />
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra<br />
E afinal tem alma lá dentro!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(Ah, como eu desejaria ser o </em><em>souteneur disto tudo!)</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>A maravilhosa beleza das corrupções políticas,<br />
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,<br />
Agressões políticas nas ruas,<br />
E de vez em quando o cometa dum regicídio<br />
Que ilumina de prodígio e Fanfarra os céus<br />
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos de agricultura!<br />
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!<br />
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,<br />
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,<br />
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!<br />
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!<br />
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!<br />
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.<br />
Amo-vos carnivoramente,<br />
Pervertidamente e enroscando a minha vista<br />
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,<br />
Ó coisas todas modernas,<br />
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima<br />
Do sistema imediato do Universo!<br />
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(&#8230;)<br />
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,<br />
Que emprega palavrões como palavras usuais,<br />
Cujos filhos roubam às portas das mercearias<br />
E cujas filhas aos oito anos &#8211; e eu acho isto belo e amo-o! -<br />
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada.<br />
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa<br />
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.<br />
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,<br />
Que está abaixo de todos os sistemas morais,<br />
Para quem nenhuma religião foi feita,<br />
Nenhuma arte criada,<br />
Nenhuma política destinada a eles!<br />
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,<br />
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,<br />
Inatingíveis por todos os progressos,<br />
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!&#8221;</em></p>
<p style="text-align: left;">* O livro de onde eu tirei a poesia é o <em>Ficções do Interlúdio, </em>que reúne diversos poemas de Fernando Pessoa, e de seus vários heterônimos, publicado pela Companhia das Letras, edição de 1998.</p>
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		<title>A volta ao mundo em muitos exotismos</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 18:47:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na coluna de sexta-feira retrasada, eu optei por selecionar um trecho de A cidade flutuante, em detrimento d&#8217;A volta ao mundo em 80 dias, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pra não repetir o Julio Verne na coluna de sexta-feira, eu vou fazer hoje o acréscimo do texto do qual falei.</p>
<p>Pra quem não acompanhou, na <a href="http://www.urbanamente.net/blog/2009/08/07/cidades-literarias-julio-verne/" target="_blank">coluna de sexta-feira retrasada</a>, eu optei por selecionar um trecho de <strong>A cidade flutuante</strong>, em detrimento d&#8217;<strong>A volta ao mundo em 80 dias</strong>, embora também tivesse ficado com vontade de mostrar esse livro, porque fala tão bem do que eu chamei de fascínio e estranhamento com outros povos e lugares, sentimentos bastante comuns ao século XIX. Aí, nesta última sexta, eu trouxe o <strong>Mário Quintana</strong>, e ele dá um beliscão no turista deslumbrado, que acha tudo exótico e pitoresco, como se ele representasse algum tipo de norma universal, e o resto do mundo fosse um zoológico que se visita para desfrutar de algo que está ali para o seu entretenimento. Achei perfeito.</p>
<p>Esse tema do turismo é quentíssimo, sei de bastante gente boa que tem estudado isso, suas implicações para a vida da cidade, o surgimento cada vez mais intenso e sofisticado não só de parques temáticos, mas de verdadeiras cidades temáticas cuja existência só faz sentido em função de um apelo de marketing e turismo, e uma série de críticas e reflexões que se estão construindo, pesando os aspectos econômicos e culturais envolvidos para a vida da cidade e seus cidadãos. E é algo que, se não surge efetivamente a partir do século XIX com todas essas questões que eu levantei, do surgimento e disseminação de novos meios de transporte encurtando distâncias e tempos, pelo menos tem, aí, o estabelecimento de bases materiais para começar a se desenvolver.</p>
<p>Tergiversei um pouco, mas o que eu queria era mostrar esse trechinho do Julio Verne, que complementa o que falamos nas últimas semanas: tem a avidez com que as pessoas no século XIX queriam conhecer novos mundos; tem uma visão que hoje parece bastante romântica, de um inglês visitando &#8220;terras exóticas&#8221; (embora nesse trecho específico, a paisagem seja vista por um francês); tem um texto que pode ser lido como o embrião das crônicas de viagem mais modernas; tem a própria descrição da paisagem, o que nos remete de novo ao texto do Quintana sobre o assunto (o narrador nos mostra uma paisagem, mas não nos impõe a paisagem, ele nos transporta para ela e permite que nós a vejamos com nossos próprios olhos do coração e da imaginação); mas não sei se tem esse ranço para o qual o Quintana nos alerta. Ou talvez eu seja muito indulgente com o Verne. Leia e me diga o que você acha. *</p>
<p><a href="http://quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/quem-tem-boca-vai-a-roma.blogspot.com/?referer=');"><img class="alignright size-medium wp-image-418" title="do-trem" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/do-trem-300x225.jpg" alt="do-trem" width="300" height="225" /></a></p>
<p style="text-align: right;"><em>&#8220;Passepartout, ao acordar e olhar para fora, não absorveu de imediato o fato de que ele estava realmente cruzando a Índia num trem. A locomotiva, guiada por um maquinista inglês e alimentada com carvão inglês, cuspia sua fumaça sobre plantações de algodão, café, cravo e pimenta, enquanto o vapor espiralava em redor de palmeiras, no meio das quais podiam se avistar bangalôs pitorescos, viharis (um tipo de monastério abandonado), e templos maravilhosos, adornados com os ornamentos inesgotáveis da arquitetura indiana. Então eles atravessaram vastos campos que se estendiam pelo horizonte, com selvas habitadas por serpentes e tigres, que fugiam ao ruído do trem; a estas se sucediam florestas rasgadas pela estrada de ferro, e ainda assombradas por elefantes que, com seus olhos pensativos, contemplavam o trem que passava. Os viajantes cruzaram, acima de Malligaum, as terras mortais, tão frequentemente manchadas de sangue, pelos seguidores da deusa Kali. Não muito longe dali se elevava Ellora, com seus graciosos pagodes, e a famosa Aurungabad, capital da temível Aureng-Zeb, agora a principal cidade de uma das províncias emancipadas do reino de Nizam&#8221;.</em></p>
<p><span style="color: #0000ff;">* Se alguém não conhece, a história narra as aventuras de um inglês muito rico e entediado, Phileas Fogg, que aceita uma aposta com seus amigos do clube londrino, de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, acompanhado de seu empregado, o francês Jean Passepartout. </span></p>
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		<title>Cidades Literárias: Mário Quintana</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 20:58:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu sei, eu sei, eu faço promessas que não cumpro. Na semana passada, prometi falar mais um pouco sobre o traçado de Nova York e não o fiz (ainda). Pedi também para continuar com o Júlio Verne, e mostrar um trecho d&#8217;A Volta ao Mundo em 80 dias. Mas fiquei com receio de vocês se cansarem de repetir o mesmo autor duas semanas consecutivas. E depois, se deixar, eu fico falando só do século XIX. É uma paixão pessoal. E um interesse acadêmico. Mas é bom variar de vez em quando também.</p>
<p>Então decidi adiar mais um pouco o cumprimento das promessas, e dar um refresco. Vai daí que eu pensei em poesia, e puxei um <a href="http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.releituras.com/mquintana_bio.asp?referer=');"><strong>Mário Quintana</strong></a> da estante. Este livro tem um dos meus títulos preferidos: <strong>Da preguiça como método de trabalho</strong>. Não é uma delícia? Esbarrei nuns textos falando sobre a poética do habitar, que casaram tão bem com outros de mesma temática que eu li na Adélia Prado um dia desses. Ainda vou trazer a Adélia pra cá também. Mas estavam intimistas demais, e eu não queria fugir muito da proposta de discutir a cidade. Então achei outros dois, na verdade minicrônicas (eu ia dizer micro, mas soou esquisitíssimo). Não descrevem uma cidade em especial, mas falam da experiência de observar uma cidade diferente, ou uma paisagem diferente. Como alguns amigos estão saindo em viagem, podem aproveitar essa reflexão.</p>
<p style="text-align: right;"><em>O FORASTEIRO</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Nada mais chato que nos quererem mostrar uma paisagem. Quando compreenderão que a gente as vê sem saber? E como se fossem elas que estivessem olhando para nós. Assim como o sol matinal nos entra janela adentro e fica aguardando o nosso despertar. Mas olhar detidamente uma paisagem que nos impingem é como ouvir um discurso de luzes e cores. Ninguém ouve um discurso por muito tempo: começa-se a pensar em outras coisas&#8230; É preciso que haja paulatinamente uma osmose entre nós e a paisagem. Uma paisagem é sempre grande em demasia: só quando reduzida em cartões postais &#8211; que aliás a gente manda para outras gentes&#8230; Quando se chega numa cidade, as belezas naturais da terra logo nos obrigam a vê-las e estão geralmente longe: uma estopada. Sou um tipo urbano. Eu gosto mesmo é de ficar no Centro, furungando cafés e livrarias; às vezes até encontro um livro meu, por descuido dos distribuidores. Mas há pior: é quando certos aborígenes nos levam a visitar monumentos.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>EXOTISMOS</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Desconfio desses turistas que consideram exóticos os países visitados. ficam de fora, vendo o pitoresco em tudo: nas casas, nas roupas, nos costumes, nas crenças&#8230;</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E nem desconfiam que a única nota exótica desses indefesos países são precisamente eles!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Mas isso ainda não é nada. Um dia os modernistas brasileiros descobriram o Brasil.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>- Que engraçado! &#8211; assaranharam-se em coro. -Mais um país exótico!</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E surgiu daí essa infinidade de poemas-piadas, de tão pouco saudosa memória.</em></p>
<p>Eu achei fora de série essa percepção de que a paisagem também olha para nós, e que é preciso haver uma osmose entre nós e a paisagem, para que ela seja melhor apreendida. De fato, isso não se impinge a ninguém. Quanto ao último trecho, ele tem tudo a ver com o tal trechinho do Júlio Verne que eu não trouxe ainda, mas que agora vou ter que trazer. é exatamente a postura predominante nessas viagens e &#8220;descobertas&#8221; de que eu falava na semana passada, que espoucaram no século XIX. Que lição reconhecer que tantas vezes, o exótico somos nós. O que é saber relativizar, hein?</p>
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		<title>Cidades Literárias: Júlio Verne</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 21:08:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ana Paula</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cidades]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[paisagem]]></category>
		<category><![CDATA[século XIX]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já que todo mundo gostou desse papo de século XIX, vamos nele mais um pouco. Foi sem dúvida um século genial, sob muitos aspectos. Essa coisa de Revolução Industrial mudou não só nosso modo de viver nas cidades. Mudou nossa maneira de viver assim, no geral, de pensar, nossas expectativas a respeito do futuro, nossa relação com os outros.</p>
<p>Pra começar, o mundo começou a ficar realmente pequeno, ali. Outros momentos na história já tinham conhecido suas nuances de globalização, o conhecimento, além dos produtos, já circulava. Mas isso ainda era razoavelmente restrito. E sobretudo demorava demais. O cidadão viajava pra um lugar distante e exótico (distante podia ser, por exemplo, da Grécia para a Península Ibérica, ou dos planaltos persas para o norte da Índia), e isso já levava alguns meses. Depois, escrevia um longo relato, que precisava viajar fisicamente de volta, com o risco do pergaminho se perder num naufrágio ou se perder com a morte de seu portador. O original precisava ser copiado à mão algumas dezenas de vezes, e pouca gente seria letrada o suficiente para lê-lo. Mesmo assim, tantas maravilhas chegaram até nós.</p>
<p>Agora imagine que no século XIX a imprensa já existia há 400 anos, a porcentagem de gente capaz de ler era bem maior (embora ainda pequena para os padrões de hoje.. er&#8230;quer dizer&#8230; dependendo de onde a gente tome como referencial) e sobretudo, a invenção da máquina a vapor trouxe para a realidade as ferrovias e os navios a vapor. Nossa, o mundo ficou quase uma ervilha. E ainda tinha o telégrafo! Comunicações em alta velocidade! Praticamente todo mundo podia se deslocar com razoável conforto (compare com a viagem de carroça que se fazia antes) e rapidez, e visitar outros continentes, ver outras gentes, outros hábitos, outras arquiteturas, comidas, roupas, línguas, ambientes, se tornou quase comum. Esses novos referenciais de imagens inundaram o Velho Continente, e o Novo também, e isso ficou evidente nos elementos de decoração e arquitetura, nas padronagens da moda, na música e na arte em geral. Tudo era fascinante e causava deslumbramento. Quer dizer, talvez alguns eurocentristas se horrorizassem com a barbárie alheia (a barbárie nunca é nossa, já reparou?), com o atraso das outras civilizações, mas ainda que fosse pra olhar com cara de esnobe, ou com curiosidade condescendente, o fato é que o diferente estava na moda.</p>
<p>Esta semana, como vocês viram pelo título, eu selecionei um trecho  de<strong> <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_Verne" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/J_C3_BAlio_Verne?referer=');">Júlio Verne</a>.</strong> Este escritor francês é mais conhecido por suas aventuras fantásticas, nas quais ele engendra artefatos inexistentes à época &#8211; submarinos, foguetes de viagem à lua &#8211; e isso por si só já é tão característico desse momento de fé no progresso, mas além disso Verne era também um arguto observador da sociedade e das transformações de seu mundo. Procurando uma história para colocar aqui, eu me deparei com um conto que não conhecia, e do qual gostei. Chama-se <a href="http://es.bookmooch.com/detail/8498190614" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/es.bookmooch.com/detail/8498190614?referer=');"><strong>A cidade flutuante</strong></a><strong> </strong>(1887). Eu o tenho numa coleção de 40 obras de Júlio Verne chamada Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos, editado pela Livraria Bertrand, Lisboa. Não encontrei a data da edição em nenhum dos volumes da coleção, mas suponho que seja da década de 50 ou 60.</p>
<p>Pra começar, o texto é narrado em primeira pessoa, mas em nenhum momento fica-se sabendo nada sobre o narrador, nem sequer seu nome. Dá pra desconfiar, por um que outro detalhe, que ele seja inglês. Posso fazer mais um parêntese? Só pra dizer que é muito significativo que a literatura inglesa fosse tão rica nesse período, dado que o Império Britânico praticamente dominava o mundo. A cidade a que ele se refere no título é na verdade o fabuloso navio Great Eastern, e a história se passa numa longa viagem a bordo, entre Liverpool, na Inglaterra, e Nova York, nos Estados Unidos, em 1867. Achei legal de saída a forma como ele se refere ao navio como uma grande cidade: <em>&#8220;Resolvi então visitar todos os buracos deste formigueiro imenso e comecei o meu passeio como faria qualquer turista em cidade desconhecida&#8221;</em>.</p>
<p>Depois de inúmeras aventuras e personagens interessantíssimos, como o Dr. Dean Pitferge, que viaja constantemente de navio porque tem um sonho bizarro e romântico de morrer num naufrágio, eis que o protagonista chega à América, onde poderia ficar por oito dias. Segundo ele, para os viajantes-expressos, esse tempo seria suficiente para visitar todo o território norte-americano! Mas ele pretendia visitar seriamente Nova York e <em>&#8220;escrever, depois de detido exame, um livro sobre os costumes e caráter dos americanos&#8221;</em>. E segue-se uma descrição da Nova York de 1867 assim:</p>
<p style="text-align: right;"><em></p>
<div id="attachment_396" class="wp-caption alignright" style="width: 251px"><em><a href="http://www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/www.garwood-voigt.com/catalogues/H24657NewYorkCityCowp.jpg?referer=');"><img class="size-medium wp-image-396" title="newyorkcity1860" src="http://www.urbanamente.net/blog/mngt/wp-content/uploads/2009/08/newyorkcity1860-241x300.jpg" alt="Planta de Nova York em 1860" width="241" height="300" /></a></em><p class="wp-caption-text">Planta de Nova York em 1860</p></div>
<p>&#8220;Mas a forma, o aspecto físico de Nova Ypork vê-se depressa. Tem a variedade do tabuleiro de xadrez. As ruas são traçadas perpendicularmente umas às outras. Se correm longitudinalmente, chamam-se avenues, se são transversais, recebem o nome de streets. Todas estas vias de comunicação têm números de ordem. é disposição prática, sem dúvida, mas muito monótona. Carros americanos correm por todas as avenues. Quem viu um bairro de Nova York conhece toda a grande cidade, com exceção talvez daquela confusão de ruas e travessas na ponta do sul, onde se acumulou a população comercial. Nova York é uma língua de terra, no extremo sul da qual se concentrou toda a atividade. De um lado corre o Hudson, do outro o rio de Leste, verdadeiros braços de mar sulcados de navios e de ferry-boats, os quais ligam o lado direito da cidade a Brooklyn, e o esquerdo às praias de Nova Jersey. Uma única artéria corta a simétrica aglomeração dos quarteirões de Nova York e lhe dá vida. É o antigo Broadway, o Strand de Londres, o boulevard Montmartre de Paris. Impossível de transitar na sua parte baixa, onde a multidão aflui, é em cima quase deserta, rua em que as casinhas insignificantes se misturam com ricos palácios de mármore, verdadeiro rio de carruagens, ônibus, cabs, carroças e cavalos, tendo por margens os passeios, e sendo atravessados por pontes para dar passagem aos peões. Broadway é Nova York, foi lá que Pitferge e eu passamos até a noite&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: left;">Tá bom por hoje. Eu tinha selecionado mais um trecho, d&#8217;<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours" target="_blank" onclick="pageTracker._trackPageview('/outgoing/pt.wikipedia.org/wiki/Le_tour_du_monde_en_quatre-vingts_jours?referer=');">A volta ao mundo em 80 dias</a>, que fala desse fascínio e estranhamento com outros povos e países, mas já ficou longo demais. Posso trazer esse outro trecho semana que vem?</p>
<p style="text-align: left;">Última palavrinha. Eu (ainda) não conheço Nova York pessoalmente, mas os que já a visitaram sintam-se à vontade para partilhar suas impressões, em face deste texto de 130 anos atrás. Coloquei pra vocês, aí do lado, uma planta de época da região,. Sobre essa questão do traçado, sim, eu posso falar, se alguém tiver interesse.</p>
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